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terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Os misteriosos frasquinhos cor-de-laranja

     

  




         Era uma vez um menino e uma menina, irmãos, que estavam na janela do seu quarto, numa noite quente de Verão a ver as estrelas. De repente, olham para uma janela em frente da sua casa e veem uns frasquinhos cor-de-laranja na beirada, que davam luz. 

- Olha o que está ali! - repara a menina 

- Onde? - pergunta o menino 

- Ali, mesmo em frente, nesta janela. 

- São frascos! 

- Sim, mas são diferentes. 

- Porquê? 

- Não os vês a dar luz? 

- Sim, realmente... 

- Se calhar foi uma estrela que caiu lá. 

- Que palermice! Achas que as estrelas caem em frascos...? Claro que não. 

- Não sei. Nunca vi nenhuma a cair, mas já ouvi dizer que caem. 

- Mas se caíssem a casa desaparecia! Nem iam ficar frascos. 

- Que mau... 

- Foram os Avós que disseram, que se as estrelas caíssem na terra, faziam muita destruição, e que raramente acontece, são cometas a passar. Aquelas a quem pedem desejos...como se fossem acontecer mesmo. 

- Já experimentaste? 

- Já. E não se realizou. 

- Óh, que pena, mas se calhar pediste uma coisa impossível de acontecer. 

- As estrelas não realizam todos os desejos? 

- Não. 

- Tu também já pediste algum desejo às estelas? 

- Já. 

- E realizou-se? 

- Um sim, outro não. 

(Os dois riem) 

- Os adultos inventam cada uma! 

- Pois é! 

(Riem outra vez) 

- Mas eu gosto de os ouvir. 

- Eu também, algumas coisas. 

- Como é que aqueles frasquinhos dão luz? - pergunta o menino 

- Não sei. Não me parece luz. 

- Tem de ser luz, se não, não conseguíamos ver daqui. 

- Se calhar estão lá metidos pirilampos. - diz a menina 

- Quais pirilampos? Achas que os pirilim...pirilampos estão ali metidos? Eles nem dão essa luz, e gostam mais de voar, acho que não se metiam nuns frascos. - diz o menino 

- E cheira a qualquer coisa no ar....

- Acho que vem de lá! 

- Já sei...devem ser coisas para afastar mosquitos, moscas, abelhas e outros bichos como aquele que temos no quarto. 

- Para isso estavam ligados à tomada. 

- E podem estar ligados à tomada, nós é que não vemos daqui. 

- Ou pode ser um doce de laranja a arrefecer! 

- Hummm... se for, vou pedir à vizinha um frasquinho desses para comer...pode ser...um gelado de... 

- Cheira a... 

- Laranja! - dizem os dois ao mesmo tempo 

- Hummm... 

- Vamos pedir à Avó ou ao Avô para ir connosco ver o que é que aqueles frascos têm. 

- Boa. 

            Os dois meninos vão à cozinha numa grande gritaria, a pedir aos avós e aos pais que vão com eles ver o que têm aqueles frascos, puxam as mãos dos adultos, falam ao mesmo tempo e rápido. 

- Parou tudo! - impõe-se o pai 

- Fala um de cada vez, meninos...! - relembra a mãe 

- O que aconteceu? Não percebi nada do que vocês disseram. - diz a Avó 

- Nem eu. Mas devem ter visto alguma coisa. - acrescenta o Avô 

- Venham connosco, por favor! - pede a menina docemente 

- A esta hora? - pergunta a mãe 

- Onde vão a esta hora...? Só se for para a cama! - diz o pai 

- Vimos umas coisas cor-de-laranja numa janela, queremos saber o que é! Dão luz. 

- Umas coisas cor-de-laranja que dão luz...? - pensa alto a Avó 

- Sim, Avó, aqui na janela em frente, e cheira a laranja! - diz o menino 

        Todos riem. 

- Está bem, como está calor, vamos lá ver. 

        Levantam-se todos, e vão com os pequenos. Sentem cheiro a laranja no ar, e veem os frasquinhos na beirada da janela. 

- Áh! São velas de laranja! - diz a mãe 

- Velas de laranja...? Como é que se fazem essas velas de laranja? - pergunta a menina 

- Não sei, mas existem essas velas com cheiro de frutas. - diz a mãe 

- Mas as chamas não se veem! - repara o menino 

- Pois não, mas realmente são velas. - confirma a Avó 

        Aproximam-se mais, a dona da casa vai à janela, cumprimenta os vizinhos. O menino pergunta à senhora o que são aqueles frasquinhos. A senhora responde que são velas para afugentar insetos, que cheiram a laranja. 

        A vizinha convida-os a entrar para conversarem um pouco, e tomarem um refresco de limão. Eles aceitam, e enquanto bebem um refresco de limão, conversam alegremente. As crianças deliciam-se a olhar para as pequenas velas nos frasquinhos que as fez pensar em tantas coisas diferentes, quando afinal eram só....velas com cheiro a laranja. 

E vocês? 

Se vissem frasquinhos a dar luz à noite, de que cor seriam? 

O que seriam? Velas? 

A que cheiravam? 

Se fossem velas, como seria a chama? Grande ou pequena? De que cor? 

Que outras coisas podiam ter os frascos? 


                                                                        Fim 

                                                                    Lara Rocha 

                                                                    4/Janeiro/2022 

sábado, 26 de março de 2016

A toupeira e o mocho



           Era uma vez uma toupeira que vivia debaixo do solo, e um mocho que vivia à superfície. O mocho conhecia a toupeira, mas a toupeira nunca tinha ouvido falar no mocho. Um dia a toupeira quis ir visitar a superfície à noite. Saiu da sua toca e na árvore em frente estava pousado o mocho, atento a tudo, de olhos e ouvidos bem abertos. Ele percebe qualquer movimento. Olha para baixo:

- Boa noite! O que temos aqui? – Pergunta o mocho, apesar de já saber a resposta

- Boa noite! Com quem estou a falar?

- Com o mocho. E tu és uma toupeira!

- Eu chamo-me…

- Toupeira.

- Não sei como me chamo.

- É assim que te chamam!

- Quem?

- Os humanos!

- Quem são esses?

- São os que plantam o que tu comes!

- Raízes?

- Sim, raízes e sementes.

- Áh! Mas que simpáticos. Então tenho de lhes agradecer.

- Acho que não é boa ideia.

- O que é que não é boa ideia?

- Agradeceres aos humanos.

- Porque não?

- Porque eles não vos veem com bons olhos!

- Então que arranjem outros olhos.

- O que eu quero dizer é que eles não gostam de vocês.

- Não?

- Não!

- Porquê?

- Porque vocês dão cabo de tudo!

- Mas então porque é que nos dão alimento? Se fazem isso, estão a cuidar de nós…e se cuidam de nós é porque nos querem bem, certo?

- Não!

- Foi o que sempre nos ensinaram.

- Mas no caso deles não é assim! Vocês destroem tudo, e eles não gostam disso.

- Mas é o nosso alimento! Porque é que põem lá essas coisas? Eles também as comem, é? Se é por isso, partilhamos, não tem problema.

- Não! Eles não comem essas coisas. Vocês é que comem, sem autorização.

- Sem autorização? Como? É preciso autorização para comermos? Nunca vi lá em baixo nenhuma placa!

- Vocês dão cabo do trabalho deles.

- Temos de comer, para sobreviver, como eles! Se não nos querem, não ponham a nossa alimentação!

- Mas eles precisam!

- Então comem isso?

- Não! Comem outras coisas.

- Tudo isto que estás a dizer é muito estranho.

- Sim! É verdade.

- Mas, e tu, quem és?

- Um mocho.

- Vives aqui?

- Sim!

- O que fazes?

- Tomo conta deste espaço, à noite.

- Trabalhas de noite, só?

- Sim!

- E de dia?

- Durmo!

- Conheces bem este espaço?

- Muito bem.

- E como é?

- É bom, sossegado, silencioso.

- Onde estão os que vivem aqui? Vive gente?

- Sim, vive gente e animais. Estão a dormir!

- E tu estás acordado?

- Sim!

- Porque não estás a dormir como eles?

- Porque trabalho de noite! De dia não é preciso vigiar, mas de noite, eles descansam, e alguém tem de garantir a segurança!

- Áh! E é difícil trabalhar de noite?

- Não! Já estou habituado!

- Tu vês bem?

- Vejo, muito bem!

- Eu não! Mais ou menos.

- Não usas óculos?

- Não sei o que é isso!

- Umas coisas para ajudar a ver bem, quem vê mal.

- Áh! Não sei. Nunca nos falaram nisso. Vemos mal, mas cheiramos na perfeição! Tu usas essas coisas?

- Não! Para já não. O que vieste fazer cá fora?

- Vim ver como era!

- Como era o quê?

- Este espaço!

- Ááááhhhhh!

- Posso subir para aí, e ver o que se vê daí?

- Podes.

            A toupeira vai para o ramo do mocho, sobe pelo tronco e quando chega ao ramo…

- Ei…tu és tão grande! Lá de baixo parecias mais pequeno.

(O mocho ri-se)

- Ao longe tudo parece mais pequeno. Até de lá de baixo.

- Já experimentaste?

- Já.

- E também vês mais pequeno?

- Sim.

- Podes dizer-me o que vês, por favor?

            O mocho suspira, e compreende a toupeira que não vê bem. Então, pacientemente, e com o máximo de pormenor, descreve tudo o que consegue ver, em todas as direções. A toupeira ouve, sorri e segue a voz do mocho, maravilhada.

- Áh! Que maravilha que é a superfície! Lá em baixo não temos nada disto! É tudo igual, tudo feio, que tristeza…! Obrigada pelas tuas descrições.

            Ela olha para cima.

- Que pintas são aquelas?

- Onde?

- Ali…no telhado da tua casa.

- Não são pintas, são estrelas, e não estão no telhado da minha casa.

- Áh!

- O telhado da minha casa é de madeira, não tem estrelas! Aquelas estão muito longe daqui.

- E estão sempre ali?

- Estão, mas só se vêm à noite…como está agora!

- E têm outra coisa além da noite?

- Temos…a manhã, a tarde e a noite!

- Tantas coisas. Eu pensei que estava sempre escuro cá em cima, como lá em baixo.

- Não! De manhã e de tarde temos dia, claridade, sol, chuva…

- Sol?

- Sim!

- Nunca vi!

- Um dia vais ver. Mas tens de vir de manhã, quando estiver claro!

- Não sei se consigo! Gostaria! Descreve-me como é o sol, por favor!

- É amarelo, redondo, dá luz, aquece, alegra, faz nascer plantas…é bom!

- Áh! Tantas qualidades. É um candeeiro?

- Não! É um astro!

- O que é isso?

- Está lá em cima, com as estrelas…

- Porque é que ele não está ali com elas, agora?

- Porque é noite! E as estrelas é que aparecem de noite! O sol aparece de dia, e enquanto há sol, não há noite, por isso, não há estrelas. Quando é noite, não há sol, e há estrelas!

- Áh! Não aparecem ao mesmo tempo?

- Não!

- Que giro! Conta-me mais coisas da superfície, por favor!

- O que queres saber mais?

- Estes barulhos, o que são?

- Que barulhos?

- Estes que eu estou a ouvir! Tu não ouves barulhos?

- Ouço! Muitos barulhos.

- Eu também. O que são?

- São cigarras, grilos, sapos, rãs. Há pirilampos a voar, aquelas luzinhas que vês à volta das flores e das árvores, há corujas, cães a ladrar, gatos a miar, carros da cidade, na estrada, há vento a bater nos galhos, há música nas ruas da cidade.

- E aquela claridade?

- São as luzes da cidade!

- Que lindo! Já foste à cidade?

- Não vou há muito tempo. Há demasiado barulho, confusão, luzes, fiquei muito agitado.

- Obrigada pelas informações.

            Os dois conversam mais um bom bocado, riem, e a toupeira fica a conhecer o lugar. Já de madrugada alta, depois de muita conversa, a toupeira fica com sono e volta para a sua toca no solo, com a promessa de voltar. E assim foi. Nos dias seguintes, a toupeira voltou à superfície, e acompanhou no solo, as rondas noturnas do mocho, a conversar de vez em quando, mas não tanto porque o mocho tinha de estar atento, e a toupeira tinha medo de predadores, mesmo assim ela fez bons amigos nesses passeios.

Se vocês fossem o mocho, o que mostrariam à toupeira? Escrevam…


                                               FIM

                                               Lálá

                                   (25/Março/2016)

  

domingo, 25 de outubro de 2015

O gato e o sol

      
                                                                        foto de Lara Rocha 

          Era uma vez uma gato vadio que adorava vaguear pela cidade, caminhar sem pressa pelos jardins, principalmente aqueles com vista privilegiada para o rio. Embora o vento fosse às vezes frio, ele também gostava muito de sentir os arrepios e ficar com o pelo espetado, com a aragem, e de levar com ele no focinho, porque arrastava perfumes deliciosos, que lhe abriam o apetite. e até o faziam sonhar...correr atrás de boa comida e encontrava! 
       Era um gato romântico e conquistador, solitário e sonhador, por isso, outra coisa que ele adorava fazer era vaguear pelos telhados, ver o pôr do sol, a lua, as estrelas e o nascer do sol. Não tinha sítio certo de dormir...umas vezes aterrava onde o cansaço lhe cotucava, ou quando o soninho chegava...tanto era nos jardins, debaixo de um banco, como nos telhados, nas soleiras das portas ou em carcaças de árvores, dentro de troncos. 
      Um dia o gato estava em cima de um telhado, de telhas quentes, que já conhecia muito bem, porque as pessoas davam - lhe mimos e comida, até tinham um ninho confortável para ele num anexo da casa, que era uma lavandaria. Em cima do telhado cheirava muito bem, pela chaminé...enquanto esperava para ver o que hoje lhe tocava jantar, olhou para o céu...procurou a lua e as estrelas, mas só viu muitas nuvens. 
       O cheiro da comida estava cada vez mais perto, e era cada vez melhor, tal como a sua fome. Desceu do telhado, e óh...que delicioso prato o esperava! A família deixou para ele à entrada da lavandaria, uma rica sopa forte, cheia de petiscos que ele adorava. Ficou consolado, e como comeu tudo...adormeceu pouco depois. Nesse dia já tinha andado muito, estava cansado.
      Acordou quase de manhã, o céu estava escuro, mas ele estava cheio de energia. decidiu subir ao telhado a ver se a luz tinha aparecido, ou se estava escondida. Estava bem visível...e cheia! À sua volta haviam estrelas, e uma pequenina claridade sobressaía no meio da escuridão. 
      Tudo silencioso...Mas num instante...começa a clarear o dia...a lua vai embora, as estrelas vão atrás dela, e o sol começa a aparecer devagarinho, envergonhado. O gato sorri...de repente, o sol transforma-se bum barco todo iluminado, onde vai a linda luz com as estrelas. O gato não acredita no que está a ver e solta uma grande exclamação. 
      Ele nunca tinha visto um barco assim...e o sol barco navega nas ondas, de todo o tipo: grossas e escuras, grandes e brancas, bem enroladas. Algumas vezes, o barco parece que desaparece...e volta a aparecer, outras vezes, aparece só um bocadinho do barco: 

- Óh não...será que o barco se afundou? Onde foi? Agora...parece que o barco está a arder...tem uma cor vermelha! (O gato fica inquieto...) E não se vê todo...O que aconteceu? A lua e as estrelas escaparam? Atiraram-se à água? Será que foi o vento? - Pergunta o gato e dos seus olhos até escaparam umas lágrimas. - Como é que eu vou viver aqui... sem o sol...a lua e as estrelas? - Lamenta o gato triste. 

          E desce do telhado, volta para o seu ninho.

- Eu gostava tanto da lua, do sol, e das estrelas...como é que o sol se transformou num barco? Será que foi só hoje? Ou já acontecia antes? Será que foi algum feitiço da lua? Óhhh... 

         E volta a dormir. Quando acorda vê muita claridade à sua frente, dá um grande salto assustado e sai da lavandaria. Mesmo por cima de si está um sol maravilhoso, lindo, luminoso, o céu muito azul e já estava a aquecer. 

Os meninos da casa estavam mergulhados na piscina a brincar felizes com a água e os adultos a apanhar sol. 

- Olá dorminhoco! - Dizem os meninos ao gato 

- Será que eles não viram a mesma coisa? 

       Tudo está como antes! Olha para cima, não vê o barco, com luz, que levava a lua e as estrelas, que aparecia e desaparecia, e parecia que tinha ardido, nem as ondas. 

- Afinal...o sol não desapareceu? Áh! Boa! E a lua e as estrelas...hummm...acho que...é dia...por isso...só está o sol! Então...eu...sonhei ou imaginei que aquilo estava a acontecer! Claro! Ainda bem...não queria nada que aquilo acontecesse. O mundo não existia de não houvesse sol...que horror...o sol é tão bom! Faz tanta falta. Obrigada Sol, por apareceres todos os dias...e por fazeres tão bem ao nosso planeta! Se mais ninguém te agradece...agradeço eu...que sou um gato, mas também sonho contigo, gosto e preciso de ti, querido sol! 

        Os gatos sonham e agradecem à maneira deles, e vocês, meninos, já pensaram como o sol é importante para nós? E para a nossa terra? Já agradeceram? 

FIM 
Lálá 
(24/Outubro/2015) 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Mistério na janela


foto de Lara Rocha 

foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma menina que estava no seu quarto à noite, deitada na sua cama à espera que o sono chegasse. Ela deitava-se sempre cedo, mas às vezes não adormecia logo. 
A janela estava meia aberta, e a persiana meia aberta, meia fechada, porque o dia tinha estado escaldante e a noite ainda estava muito quente. 
Como era na aldeia, não havia perigo, e a mãe ia fechar a janela quando se fosse deitar. Além de estar uma noite quente, a menina não gostava de tudo escuro pelo menos enquanto não adormecesse.
A certa altura, quando já estava quase com os olhos a fechar olhou para a janela e viu qualquer coisa a brilhar. Estava com tanto sono que nem ligou. 
Na noite seguinte, voltou a ver o brilho na sua janela mas nem se levantou para ir ver o que era. Nas outras noites ela pensou que eram coisas diferentes!
Primeiro pensou que era algum pirilampo que andava por lá a voar como muitos outros que ela via todas as noites. Depois pensou que a luz fosse uma estrela que caiu do espaço para ela não ter medo do escuro.
Noutra noite pensou que fossem as gotinhas da rega a brilhar com a luz da rua. Ou podia ser o João Pestana a chegar à janela, para lhe trazer soninho e sonhos, ou uma garrafinha de soninho com sonhos, que ele tivesse deixado por lá para ela, ou teria caído do saquinho sem querer e ficou ali…talvez ele se tivesse esquecido. Ou seria uma prendinha para ela, de alguma fada.
Mas de manhã quando abria a janela, não via nada. Começou a achar muito estranho, misterioso…e queria descobrir o que era, mas o sono vencia sempre, por isso a menina ficava sempre pelo querer e pelo ver a luzinha, mas não sabia mais nada.
Uns dias depois disse à sua mãe, mas a mãe não ligou, não deu importância nenhuma, riu-se e pensou que era imaginação da menina. A menina nunca se levantou para ver o que estava na sua janela, mas queria muito saber.
Perguntou ao João Pestana se sabia o que era, e ele respondeu que não. E agora…um segredo…não contem nada! Mas é claro que ele sabia muito bem o que era porque também mandava soninho e sonhos para essa luzinha, só que elas pediram-lhe para não dizer nada, tiveram medo de ser expulsas.
Nessa noite, em que ela estava mesmo disposta a descobrir o que brilhava na sua janela, a menina pediu ao João Pestana para ir mais tarde, e este fez-lhe a vontade. 
Foi deixar soninho e sonhos noutros quartos, e voltou ao dela. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde, a menina ia pedir-lhe isso, e descobriria. Estava deitada com os olhos bem abertos, e mal viu a luzinha pousar na janela saiu da cama disparada.
Quando abriu a janela…mas que grande surpresa! Viu que afinal a luzinha não era nada do que tinha pensado. Não era nenhuma estrela, que estava lá para lhe tirar o medo ou fazer companhia, não eram pirilampos nem gotinhas da rega que brilhavam com a luz da rua, nem o João Pestana, nem garrafinhas de soninho.
Era uma linda borboleta de asas enormes, finas e de cor muito clarinha que abrigava debaixo delas, cobria, protegia e deixava passar a luz das lindas e pequeninas fadas enquanto as mais crescidas trabalhavam. A borboleta tomava conta delas.
A pequena ficou espantada, eufórica e encantada, saltitou e riu. Não estava a acreditar no que os seus olhos azuis estavam a ver. A borboleta ficou assustada, pediu desculpa por ter pousado ali, e pediu autorização para ficar na sua janela pois tinha umas pequeninas a seu cargo, e aquele espaço era mesmo muito bom para elas, mas não queriam invadi-lo sem autorização. Se a menina não deixasse, elas iam para outro sítio.
A menina ficou tão feliz, e gostou tanto daquela presença surpresa, que disse logo que ficassem, e até lhes arranjou um abrigo mais quente e confortável, porque não demorava nada a chegar o Outono e o tempo frio e a chuva.
O abrigo era espaçoso, quente, protegido do mau tempo e seguro. Até uma cobertura extra para os dias rigorosos de Inverno. Sentiam-se como umas verdadeiras rainhas num palácio. 
Gostavam tanto no sítio que até as fadas mais crescidas foram para o abrigo com a borboleta e as pequenas. E também ganharam uma amiga muito querida, que lhes dava atenção, carinho e com quem tinham longas e animadas conversas e brincadeiras.
E vocês? Já viram luzinhas ou coisas brilhantes na vossa janela? Foram ver o que era? O que viram? Se vissem alguma coisa brilhante ou luzinhas na vossa janela, iam ver o que era? O que poderia ser?
Fim
Lara Rocha 

(2/Setembro/2015)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

OS GATINHOS E AS LUZINHAS

      pintado a aguarela por Lara Rocha 


      Era uma vez um gatinho que vivia numa a com uma grande família. Era muito bem tratado e também tratava muito bem dos seres humanos. 
    Uma noite de Verão, quando todos já dormiam, o gatinho ficou na sala, e acordou com um reflexo de luz no seu focinho. Ele acorda assustado:
- O quê? Já é dia? Não pode ser…passou tão rápido a noite…
             Espreguiça-se, boceja, mastiga em seco, e olha para a sua frente.
- Afinal…acho que estava a sonhar.
             Levanta-se e gatinha com as suas patinhas levemente pela sala. Quando olha para a varanda vê uma luz forte redonda. Aproxima-se dos vidros.
- Áh! Será que os donos se esqueceram da luz acesa…? Não! o candeeiro está apagado. Mas…há uma coisa muito estranha a acontecer aqui. Aquela bola de luz está a…pairar? Só pode…como é que eles conseguiam segurar aquela bola? Que luz tão linda…! Áh!
              Ele sai para a varanda e está outro gato deitado no muro.
- Mas que calor! Ufa! Éh lá…um visitante indesejado? Olha aquele a fazer-se de convidado…! Mas que atrevido. Ei…óh…o que é que estás aí a fazer. Esta casa não é tua.
- Desculpa! És tu o dono da casa?
- Sou.
- Isso querias tu. Eu sei quem mora aqui. Eles já me alimentaram muitas vezes, porque eu sou vadio…e às vezes passo muita fome. Dão-me mimos.
- A sério, ou era o que tu querias?
- A sério! Eles deixam-me estar aqui.
- Vê lá o que fazes.
- Eu estou sossegado. Respeito os donos.
- Eu também.
- Eu sou da paz! Já moras aqui há muito tempo?
- Sim.
- Como é que eu nunca te vi antes.
- Não sei. Deverias andar a dormir ou a vaguear por aí.
- Olha, que luz é aquela?
- São todas as luzes da cidade, das casas, das ruas…
- Sim, está bem, mas…aquela ali…redonda, enorme… que está a pairar.
                O gato vadio dá uma gargalhada.
- O que foi? Disse alguma piada?
- Sim! – Ri outra vez – Essa luz não está a pairar, nem é uma lâmpada. É a Lua cheia. Está muito longe.
- Áh! Como é que sabes?
- Ora…eu sou vadio mas estudo, e convivo com seres humanos e outros gatos…toda a gente sabe que é a Lua.
- Olha, eu não sabia, e sou gato.
- És um gato chique…de casa…nunca ouviste os teus donos a falar dela?
- Não. Por esse nome, não me lembro.
- Tu deves ser muito distraído. Ninguém resiste a esta luz! Nem seres humanos, nem gatos…todos se rendem aos seus encantos. Ainda és muito novo. E os teus donos quase não abrem as portas nem as janelas…por isso nunca viste esta luz.
- Uau! É mesmo bonita.
- Sim! As pessoas dizem que essa luz inspira…
- Tem pulmões?
- (ri) Que disparate…claro que não tem pulmões. Mas a sua luz é tão especial que as pessoas ficam com mais ideias. Os artistas que pintam e escrevem…! Ela às vezes tem formatos diferentes.
- Áh! E…aquelas luzinhas todas, tão pequeninas a piscarem perto, e à volta dela, naquele espaço todo, o que são?
- Mosquitos, queres ver? – Desata a rir – São as estrelas.
- Áh! Estrelas já ouvi falar.
- Pois. Os meninos pedem-lhes desejos.
- Sim, é isso mesmo…é daí que conheço.
- Mas também estão muito longe.
- Áhhh…!
- Ninguém lhes pode tocar.
- Então?
- São só para ver.
- E quem é que as pôs lá?
- Isso…ouvi dizer que ainda é um grande mistério para ser descoberto. Eu, não fui de certeza!
- Nem eu.
- Mas gostava de ter uma luzinha daquelas só para mim.
- Para quê?
- Porque sou um gato solitário. Pelo menos se eu tivesse uma luzinha daquelas sempre comigo, estava mais acompanhado, e ela aquecia-me.
- Elas aquecem?
- Dizem que sim.
 - Os meus donos tinham uma luz pequena no quarto, quando eram pequenotes, e diziam que era para não ter medo.
- Pois.
- Mas não acredito muito que elas tirem o medo.
- Claro que tiram.
- Tu nunca tens medo?
- Tenho muitas vezes medo…claro, sou vadio…mas sei que as estrelas, e a Lua olham por mim.
- Quem te disse?
- A minha experiência e já conheço mais pessoas a dizer o mesmo.
- E tu acreditas nisso?
- Acredito.
                Os dois ficam um pouco a olhar para a luz da enorme lua, e para as estrelas, a sorrir.
- Gostava de ir lá mais perto.
- Eu também.
- E gostava de andar de baloiço na lua.
- Eu fazia da lua uma rede…
                Os dois gatos começam a imaginar, e a sonhar acordados. Têm uma longa e divertida conversa, passeiam juntos, e vêem que o céu onde estava a enorme bola de luz, a Lua, tinha mudado de cor. Estava a clarear, e os tons eram em roxo, rosa, amarelo, azul escuro, e azul claro noutros pontos. A Lua ficou mais clara e mais distante.
- Olha…está a nascer o dia.
- Já?
- Sim.
- Como passou tão depressa…!
- Pois foi.
- Que lindas cores! Onde está o sol?
- Vem aí…daqui a pouquinho a Lua desaparece, e aparece o sol.
- Áh. E para onde vai a Lua?
- Para…não sei…outros sítios onde é noite. Aqui está a começar o dia, mas noutros sítios a começar a noite.
- Ela aparece todos os dias?
- Sim. Aparece e desaparece…
- E o sol e as estrelas, a mesma coisa.
- Áh! Que lindo!
- É.
                E quase sem darem por isso, aparece o sol e desaparece a Lua. Nessa noite, o gato da casa, aprendeu muitas coisas com o gato vadio. Viu o que nem imaginava existir, as luzes que tanto o intrigaram, afinal já estavam lá desde sempre, ele é que nunca tinha reparado…as cores do céu, as estrelas e o nascer do sol. Além disso, arranjou mais um amigo para o resto da vida.  
                Desde essa noite, os dois nunca mais se separaram, passearam felizes e aprenderam muito um com o outro.

FIM
Lálá

(23/Janeiro/2015)