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segunda-feira, 13 de junho de 2016

A aldeia de croché

Era uma vez uma senhora muito velhinha, há muitos anos atrás que se lembrou de ocupar o seu tempo livre, desde que era criança, e enquanto foi mais jovem, até as suas mãozinhas começarem a ficar encarquilhadinhas e doridas, fazendo peças em croché.
Esta atividade tinha começado com a sua bisavó, que já tinha ensinado á sua avó e à sua mãe, e esta última à senhora, muito comum na maioria das famílias. Todas as mulheres se reuniam na aldeia, de todas as idades, nas casas umas das outras, e nas eiras à sombra, ou nos campos, nos intervalos de outros trabalhos.
Era lindo ver tanta geração a fazer coisas tão bonitas, com tanta delicadeza, amor, gosto e perfeição, enquanto conversavam durante horas, riam, rezavam, cantavam, e depois de fazerem mais mil e uma coisas.
Cada uma fazia o que queria…toalhas, almofadas, rendas, apoios, lençóis, cobertas, paninhos para cestinhos, até que as gerações mais novas começaram também a inventar «pessoas» em croché, e a juntar outras materiais, para fazer bonecas de todo o tipo, lindas.
As bonecas pareciam mesmo «pessoas» umas enormes, outras médias e mais pequenas, com todos os pormenores: cabelos, olhos, nariz, boca, braços, mãos, dedos, pernas… almofadavam com espuma, penas ou restos de lãs, e tecidos, vestiam-nas com roupas em croché de outras cores, e até tinham sapatinhos em croché de todas as cores.
Nenhuma boneca era desperdiçada, mesmo aquelas que não eram tão perfeitas, ou que tinham alguns «erros» de construção, porque como quem as construía dizia…a sociedade também tem pessoas imperfeitas.
Esta ideia inspirou-as e construíram bonecas em croché com cadeiras de rodas, andarilhos, muletas, bengalas, óculos, membros mais curtos que outros…tal como elas viam entre as pessoas da cidade, e na própria aldeia.
Depois lembraram-se de experimentar fazer casas e meios de transporte, árvores, flores, montanhas e animais em croché. Gostaram tanto da experiência que foram experimentando cada vez mais coisas novas, e conseguiram construir uma verdadeira «cidade em croché».
Num dia em que se lembraram de juntar todas as peças que já tinham feito, perceberam que já tinham uma cidade, e quiseram expor. Todos ficaram muito surpresos e maravilhados.
As fadas foram as primeiras visitantes e adoraram, decidiram dar um prémio pela dedicação delas, e gosto, as peças de croché não eram simples pedaços de croché expostos e imóveis, puseram logo tudo em movimento com os seus poderes mágicos!
Todas as peças mexiam e faziam sons, principalmente as peças da natureza, parecia um presépio animado, e todas as mulheres que construíram esta cidade de croché ficaram muito felizes, parecia que tinham voltado a ser crianças.
O Presidente da Câmara divulgou pelas cidades, e a aldeia encheu-se de milhares de visitantes que fotografavam, queriam comprar tudo…mas como elas não queriam vender, os visitantes encomendavam e pagavam bem. Não tiveram mais sossego, mas também ganharam muito dinheiro.
Com esse dinheiro ajudaram-se uns aos outros, porque era uma aldeia pobre, no inicio, construíram coisas que faziam falta, melhoraram as condições das casas, mesmo assim continuaram a ser as pessoas simples que sempre foram, e a dedicar-se ao croché.
Foi assim que nasceu a Aldeia de Croché que fez para sempre as delícias de quem visitava…que pareciam voltar à infância e à magia. Mulheres inspiradoras, com mãos de fada, e amor pelo que faziam.     

E vocês?
Conhecem croché?
Conhecem alguém que faça croché?  
Conseguem imaginar uma cidade com pessoas e casas…tudo feito em croché?
Gostavam de visitar essa cidade?

FIM
Lálá

(13/Junho/2016)

domingo, 13 de dezembro de 2015

O novelo


Era uma vez uma aldeia onde viviam muitas pessoas com bastante idade e jovens. Todos se conheciam de vista porque cruzavam-se quando saiam de casa.
- Bom dia menino, bom dia menina! – Diziam os mais velhos com um sorriso que logo ficava fechado e triste porque não tinham resposta
- Estes jovens estão surdos, ou são mal-educados?
- No nosso tempo levávamos logo um bofetão, e era muito bem dado.
- Bom dia dá-se até a um cão.
- Olhe, hoje esses animais são mais simpáticos que pessoas.
- É verdade. – Dizem todos
- Eu acho que eles são mal-educados!
- Mas também não admira que sejam surdos…vão com aquelas rolhas nas orelhas.
- Eu não sei quem foi o infeliz que inventou aquela bodega.
- Nem eu, mas parece que vão noutro mundo.
- Que coisa horrível.
- É. Parece mesmo…passam por nós, parece que somos um calhau, ou um monte de porcaria.
- É verdade! – Dizem todas
- Esta sociedade está perdida!
- Está mesmo! – Dizem todas
- Os jovens não têm nada na cabeça hoje…
- Pois não! – Dizem todas
                Na verdade, embora se cruzassem, viviam na solidão, cada um nas suas casas, muito raramente conversavam. Andavam sempre numa correria, que até deixava os mais velhos tontos da cabeça…pareciam comboios a passar.
- Olhem para isto…a velocidade com que eles andam.
- Terrível.
- Eu até fico atordoada.
- Eu também. – Respondem todas
- Não sei onde vão com tanta pressa!
- Para quê, tanta pressa?
- Parecem uns robôs ou andróides…ou lá como se chamam aquelas maquinetas dos meus netos…
- Pois é!
- Parece que eles nem sentem o chão.
- Eu não sentiria se fosse àquela velocidade com que eles vão.
- A sociedade já não é sociedade há muito tempo…
- É! É uma tristeza, agora.
- Estes jovens vão enlouquecer…!
- Eu acho que já enlouqueceram.  
                Um dia, uma coruja viu toda esta solidão e agitação, e não gostou nada… então, teve uma ideia: foi falar com uma sábia da floresta e contou-lhe tudo o que viu. A sábia deu-lhe a solução: um novelo feito de estrelas que a coruja deixaria cair das suas patas à porta de uma senhora idosa, que a levaria até outra casa de outra senhora, que se juntaria a outra estrela. 
                Assim fez…logo que saiu de casa da sábia levou o novelo nas patas, e ao passar nas portas onde viviam pessoas mais velhas e deixou cair do novelo uma estrela. Cada habitante via alguma coisa a brilhar, abriam a porta, e era uma estrela.
Quando pegavam na estrela, eram levados para se encontrarem com outro vizinho, que tinha outra estrela…com estes movimentos, formaram um lindo cordão humano, sem dar por isso, construído pelos fios do novelo que a sábia tinha mandado pela coruja.
Quando os mais velhos repararam estavam todos juntos no largo da aldeia, onde no tempo das suas infâncias, tinham feito grandes convívios e festas. Olham à sua volta e viram estrelas por todo o lado.
Deram uma valente gargalhada, trocaram longos e sinceros abraços, beijos, entrelaçaram os fios uns com os outros, brincaram, emocionaram-se, conversaram durante longas horas, reviveram os seus momentos felizes de infância.
Sentiram-se outra vez crianças e Adolescentes. As estrelas deram luz e calor a esse encontro, e a muitos outros que se seguiram. Eram um excelente exemplo para os jovens, um convívio feliz, saudável…nada igual aos de muitos que acontecem agora na sociedade moderna. Mas os jovens não tinham tempo para isso…pelo menos era o que eles diziam quando convidados.
A coruja não cabia em si de orgulho, felicidade e ternura. Sempre que podia, fazia de tudo para juntar as pessoas…discretamente…como ela gostava. Até as noites ficaram mais luminosas, com o seu olhar, ao ver a ternura e a felicidade daqueles encontros que quebravam a solidão, e davam vida à aldeia.
Fim
Lálá
(12/Dezembro/2015)