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sexta-feira, 16 de abril de 2021

monólogo: gelo, chuva fria e gotas de orvalho













A cada desilusão, a cada ilusão que criamos, a cada tristeza que sentimos. A cada perda, cada derrota, cada abandono...cada doença, a cada maldade, a cada injustiça...lançamos um pedaço de gelo para o nosso coração. 

Umas vezes grande, outras vezes pequeno, mas é sempre uma pedra de gelo! 
Uns pedaços derretem, outros não! Uns transformam-se em lágrimas, outros ganham ainda mais força, peso e espessura. 

E quanto mais gelo acumulamos mais pesados ficamos. E mais frios somos. Quem pode desfazer os cubos de gelo? Talvez...Cada um de nós, alguém, ou nunca os desfaremos. Mas mais cedo ou mais tarde, o gelo torna-se visível Mais gelado, mais duro. E nós? Em que nos transformamos? Em nada  a não ser...Gelo! 

As lágrimas que caem dos nossos olhos, umas vezes são chuva fria, outras vezes são água do mar. Umas vezes são águas limpas,  outras vezes, águas poluídas. Umas vezes transportam alegria outras vezes tristeza.

Outras saudades de bons momentos, de pessoas especiais, outras, muitas outras coisas. Mas todas lavam a alma, e desatam os nós que às vezes apertam tanto tempo a garganta  E o coração. Cada gota de orvalho brilha com os raios de sol.

Cada gota de orvalho é um brilhante oferecido pelos anjos. Cada gota de orvalho conta um desgosto da terra, uma dor, por cada  crueldade do homem. Em cada gota de orvalho pode também brilhar um olhar ou um sorriso feliz. Cada gota de orvalho é um lindo mistério, um toque mágico, uma promessa boa, um bom presságio, pelo menos, de um momento de paz!  Enquanto vemos uma gora de orvalho a brilhar  com o sol. 

                                                                Fim 

                                                            Lara Rocha 

                                                            16/4/2021





sábado, 19 de setembro de 2020

o escorrega dos gatos

         

Foto de Lara Rocha 

Era uma vez um dia de pleno Inverno, onde tudo à volta estava gelado, exceto uns gatos vadios que se protegiam do frio sem terem lugar certo, era em qualquer árvore onde existisse uma toca. 

    Numa dessas tardes cheias, ameaçava chover, e os gatos já há vários dias andavam de olho num escorrega gigante de uma casa para uma piscina. Olhavam e voltavam a olhar, sem saber o que era, mas cheios de curiosidade.

    Os donos da casa saíram e os gatos puderam finalmente investigar mais de perto o que era aquilo. Entraram no jardim, cheiraram, e mal puseram uma pata no escorrega, coberto de água e gelo, deslizaram a alta velocidade, sem conseguir parar. 

    Tentaram agarrar-se, espetaram as unhas no gelo, deram muitas cambalhotas, voltas e mais voltas, viraram-se ao contrário, miaram aflitos, tentaram segurar-se uns nos outros, mas só pararam no muro da piscina. Quase eram projetados, a sorte é que a piscina também estava coberta com um plástico e gelo. 

- Uau! - suspiram todos ofegantes

- O que é que acabou de acontecer aqui? - pergunta um gato 

- Não sei. - respondem todos 

- Estes humanos são loucos. Metem-se numa coisa destas? - comenta outro gato 

- Malta... não sei o que é isto, mas foi radical! - diz um gato a rir 

- Foi. - Dizem todos numa gargalhada coletiva 

- Acho que nunca andamos tão rápido como hoje... - comenta outro gato a rir 

- Parece que fizemos uma maratona! - diz outro gato 

- Aquilo parece um bocado perigoso, mas até foi divertido. - diz outro 

- Sim. - concordam todos 

- Vamos outra vez? - sugere outro gato 

- Vamos... 

    E os gatos voltam a subir o escorrega, com muita dificuldade, deslizes, arranhadelas e unhadas no gelo, pequenas descidas enquanto subiam, muita brincadeira, às vezes até se deixavam escorregar de propósito, giravam e voltavam a subir, riram, tentaram agarrar-se uns aos outros, mas escorregavam e miavam.

      Ao chegar ao topo do escorrega, recuperaram o fôlego, olharam para a paisagem. 

- Que linda a paisagem daqui. - suspira um gato 

- É mesmo! - concordam todos 

    Ficam em silêncio a percorrer a paisagem com os olhos, encantados. 

- O que haverá ali por trás do nevoeiro...? - pensa alto, um gato 

- Talvez... monte! - responde outro gato 

- Sim. - concordam todos 

- Uau! - suspiram todos 

    Sentem o vento no pelo, estremecem, sacodem-se. Aparece um jovem a tocar violino, e para a olhar para os gatos. Deitam-se de barriga e começam a descer, deixam-se levar ao sabor do gelo, e do entusiasmo. 

    O rapaz começa a tocar, e os gatos parecem deslizar no escorrega, ao som da música que ele toca. Rodam, dançam, giram, mudam de posição, brincam, miam divertidos, e param outra vez no muro da piscina. 

    O rapaz aplaude, e gosta tanto que os convida para repetir o que fizeram, enquanto ele toca, e filma. Os gatos aceitaram, voltaram a subir o escorrega, e tanto na subida como na descida do escorrega, divertem-se, gritam, riem, dançam, fazem coreografias, ao som do violino. 

    O rapaz aplaude, agradece e para retribuir convida-os a entrar na sua casa. Oferece-lhes um banho de água quente, numa bacia para cada um, enquanto prepara petiscos e camas confortáveis, os gatos deliciam-se com a água quente, conversando alegremente uns com os outros sobre o que tinha acontecido nesse dia. 

    Saem do banho, esfregam-se nas toalhas, o rapaz penteia-lhes o pelo, dá-lhes de comer, e põe-nos comodamente instalados em almofadões perto da lareira. Enquanto se deliciam com os petiscos, o conforto e o calor, ouvem as histórias do jovem, que fala com eles, como se estivesse com pessoas. 

    Os gatos compreendem-no, lambem-no, esfregam-se nele, e o jovem mostra-lhes os vídeos daquela tarde. Todos se riem com vontade. Depois desse dia, os gatos não saíram mais daquela casa, e tornaram-se amigos inseparáveis do jovem, uma segunda família. 

    Sentiam-se uns reis. participaram em muitos trabalhos do amigo músico, com bailados inventados por eles, cheios de encanto e magia. Esses trabalhos passaram a ser o sustento do jovem. 

    Um escorrega que mudou a vida de gatos e de um jovem músico   


                                                            FIM 

                                                            Lálá 

                                                   19/Setembro/2020


  

sexta-feira, 25 de março de 2016

as estátuas do jardim das cascatas (adolescentes e adultos)






Cena 1
Era uma vez um jardim coberto de gelo e de neve, num dia igualmente gelado com sol. Esse jardim tem muitas luzes por todo o lado…candeeiros de vários tipos e luzes de várias cores, luzes de natal a piscar, mas nem tanta luz consegue descongelar o frio do jardim.
Além das luzes e do gelo, há por todo o jardim estátuas de pedra diferentes, com acessórios diferentes…umas estão pousadas na relva (agora coberta de neve), outras pousadas nas fontes de água e nos laguinhos com pedaços de neve e de gelo. Também existem umas cabaninhas de palha com mesinhas e banquinhos e casa de banho.
O jardim está silencioso, parece que tudo dorme…mas…de repente as estátuas ganham vida…e interagem umas com as outras.
A primeira estátua a acordar é uma mulher com um bebé ao colo que está pousada numa fonte. Na mesma fonte está a estátua de um pássaro. As duas estremecem, com o frio, e a mulher e o pássaro trocam impressões:
M – Ui…que frio!
P – Pois está! Não te esqueças que estamos em pleno Inverno. Olha à nossa volta, e a água…cheia de gelo e neve.
M – Sim, isso dá para ver. Aproxima-te mais!
         O pássaro pousa à beira da mulher.
P – Quem é essa criança?
M – Qual criança?
P – Essa que tens no teu colo…!
M – Não sei…puseram-ma aqui, acho eu…não me lembro…
P (murmura) – Coitada…até os miolos dela estão congelados…nem se lembra quem é a criança que traz ao colo. (para a mulher) Não sabes quem é? Eu ouvi dizer que ela ou…ele…essa criança…é teu filho…ou…filha…é rapaz ou rapariga…?
M – É rapaz…tem aqui a arma apontada…
P – A arma…ele tem uma arma…?
M (ri) – A arma…é aquilo que o identifica como rapaz…percebes?
P – Não…que eu saiba o que nos identifica é o nome…!
         A mulher ri-se e mostra ao pássaro o bebé.
P (a rir) – Ááááhhh…percebo! Vocês inventam cada coisa para isso…! (os dois riem) Onde está o pai do rapaz…?
M – Sei lá…nunca o vi.
P – Não és casada…? Nem tens namorado?
M – Que eu saiba…não tenho nada disso, nem sou nada disso!
P – Tu és muito estranha…!
M – Sou uma estátua…! Como tu…não sei onde está a estranheza…!
P – Dizes coisas esquisitas…
         Os dois riem.
M – Olha, porque não vamos procurar alguma coisa para vestir e para comer?
P – Achas que há? Num sítio onde só há gelo?! Pode haver por baixo deste gelo, mas teríamos que esgravatar como as galinhas e os pássaros ou cães…à procura…e se calhar não está em bom estado para consumir.
         Aparece uma rapariga, e estas duas estátuas, voltam a ficar imóveis. A rapariga leva uns grandes sacos com cobertores, olha para as estátuas e fica com pena delas…
R – Coitadas…com este frio, e estas aqui…descobertas…
         Ela tira cobertor por cobertor e cobre cada estátua do jardim. Ela olha para as estátuas cobertas, sorri e murmura:
R – Áááhh…assim está melhor.
         A rapariga sai do jardim a sorrir. As estátuas voltam a acordar. A mulher e o pássaro comentam:
M – Áááhh…agora temos um cobertor?!
P – Sim, parece que sim!
M – Boa!
P – Também acho…vem mesmo a calhar.
M – Pois foi. A menina foi boazinha.
P – Sim, é verdade, foi mesmo. Até parece que nos leu os pensamentos…agora só falta mesmo procurar comida.
M – Vamos ver o que há por aí…
P – Estás muito optimista…quer dizer…sonhadora…!
M – Não sei o que estás a dizer…sei que estou com fome, e que vou procurar comida. Vens comigo?
P – Sim, vou contigo.

Cena 2
As duas estátuas vão enroladas no cobertor, a falar uma com a outra, e as outras estátuas também ganham vida. Duas estátuas de fadas, pousadas na relva, ao ver a mulher e o pássaro comentam uma com a outra baixinho:
F1 – Olha – me esta…
F2 – Conheces?
F1 – Sim, ela é daqui…já está aqui há muito.
F2 – Eu não vou muito com a cara dela…e ele conheces?
F1 – Sim, também é daqui. E a desgraçada já anda com ele…
F2 – Porquê? Ela andava com outro? Não me lembro de a ver com ninguém…
F1 – Há pouco tempo andava com uns rapazes humanos…que frequentavam muito aqui o jardim…
F2 – Aqueles que vinham de garrafas, e que deitavam fumo pela boca…?
F1 – Sim, esses mesmos!
F2 – E ela andava com esses…?! Que esfomeada…não lhe chegava um…?
F1 – Eram…só faziam cenas! Eu nem sei como é que ela era capaz…com a criança ao colo…
F2 – E a criança é filha dela?
F1 – Sim, deve ser…ela está sempre com ela ao colo.
F2 – E quem é o pai?
F1 – Não sei…se calhar é um daqueles humanos com quem ela andou…! Ela era muito pretendida.  
F2 – Que falta de gosto destes homens…eu não a acho assim nada de especial…Mas já a viste alguma vez com o pai do bebé?
F1 – Não. Vejo-a sempre sozinha…!
F2 – Mas…porque é que ele não anda com ela? É o pai do bebé…tinha obrigação de andar com a mãe…
F1 – Pois era…mas nunca vi os dois. Se calhar chatearam-se…ou então, ela nem sabe quem é que fez o bebé…!
F2 – Ui, mas isso é impossível, ela não saber quem é o pai do filho dela.
F1 – Não é impossível…se ela tinha mais que um namorado…pode ter sido um qualquer…!
F2 – Mas quando se tem um namorado…e nasce um bebé…sabe-se de quem é.
F1 – Ai, santa ignorância…! Esquece…ela agora anda com um pássaro…ainda é mais estranho.
F2 – Realmente…não tem nada a haver um com o outro…! Este pássaro tem a mania que é bom! Deve ter muita treta…
F1 – Pois…também acho. E ela está a gostar.
F2 – Que burra…
F1 – Quem? Eu…
F2 – Não…esta…!
         As duas riem, fixam o olhar uma na outra.
F1 – Espera aí…tens uma cobertura…!
F2 – Tu também…
F1 – Foste às compras e não me convidaste, nem me disseste nada…?!
F2 – Mas eu não fui às compras…
F1 – Nem eu…
F2 – Então…quem é que nos pôs isto aqui por cima?
F1 – Não sei…sei que é muito bom…muito confortável…
F2 – Sim. (sorri) E quentinho.
F1 – Sim. Eu fiquei tão entusiasmada com os dois que nem tinha reparado que tinhas essa cobertura…
F2 (ri) – Pois, nem eu…nem tinha reparado que tinha isto sobre mim…
F1 (a rir) – Deve ter sido alguém que teve pena de nós.
F2 – A outra…e o pássaro também tinham uma cobertura…
F1 – Áááhh…pois tinham! Então…se calhar foram eles…
F2 – Hum, não sei…tenho dúvidas de que tenham sido eles.
         As duas fadas continuam a coscuvilhar uma com a outra, riem…

Cena 3
        
         Passa pelas fadas, pela rapariga com o bebé e pelo pássaro uma outra estátua…um atleta masculino, a correr e a saltitar, as fadas olham-no deliciadas e sorriem. Ele cumprimenta por quem passa:
A – Boa noite!
M+P – Boa noite!
P – Então…a correr com este frio? Como é que aguentas? Isto até congela os músculos…!
A – Não…vai uma corridinha comigo para correr com o frio? O frio enrijece os músculos…é bom.
M+P – Não.
M – Nem pensar…eu com este frio, quase não me consigo mexer, quanto mais correr…!
P – Eu também não aguento.
M – Não te deram um cobertor?
A – Deram, mas eu não preciso dele…prefiro mexer-me, e correr…ou fazer exercício físico do que ficar parado.
P – Não devias abusar…devias ficar quietinho com o cobertor…
A – Não…isso é pior…
P – Olha, pronto…tu é que sabes.
M – Olha, por acaso não sabes onde podemos encontrar comida por aqui?
A – Não sei…mas com certeza haverá qualquer coisa…
         Passa uma estátua cozinheiro, com chapéu, avental, e uma colher de pau numa mão e um pote na outra. Cumprimenta.
C – Boa noite, amigos!
Todos – Boa noite.
M – O Sr. É cozinheiro?
C – Sim, sou…não se vê? Com este chapéu…o pote…a colher de pau e o avental…?
M – Pois, tem razão!
P – Mas o que tem esse pote?
C – Ainda não tem nada, mas vai ter…
M – Áááhh…estamos com tanta fome…! Onde vai buscar a comida?
C – Vou por aí…e vou buscar legumes para fazer uma deliciosa sopa!
A – Vai uma corridinha para correr com o frio e com as gordurinhas…óh…senhor simpático…gorducho…?
M – Mas que mal-educado! Eu dava-lhe com a colher de pau…!
C (indignado) – Olhe…eu só não lhe dou com a colher de pau porque não tenho outra para cozinhar…mas na altura certa, vai ter o arroz que merece!
A (ri) – Tinha piada bater-me com a colher de pau…não disse nada de mais, você é mesmo gorduchinho… (p.c) vai cozinhar o quê? Paus, erva e gelo…?!
C (zangado) – Pode ser que te cozinhe a ti, palerma…!
A (ri) - Com tudo congelado, nem o fogo acende!
C (zangado) – Eu faço acendê-lo no teu rabo!
A (ri) – Só se cozinhar legumes de brincar ou de ar e vento…inté…
         Continua a correr e a rir, o cozinheiro responde-lhe a gritar:
C – Ainda vais engolir esse gozo fininho, óh parvalhão…vais ver a sopa que vais ter… bom…não há tempo a perder…vou buscar os legumes e venho já fazer uma bela sopa para quem quiser come-la…com este frio...
M – Quer ajuda para colher os legumes?
C – Não filha, muito obrigada! Eu não demoro… daqui a pouco podem ir ali comê-la, àquela cabaninha e abrigar-se lá do frio.
         Passa uma estátua de uma mulher com uns cântaros de água nas mãos e grita:
M.C. – Quem quer água quente…ou leite…quem quer, quem quer…?
Todas (gritam) – Eu…
         A mulher com o bebé, o pássaro e o cozinheiro acenam à mulher dos cântaros. Ela pousa-os no chão e diz:
M.C. – Boa noite…querem água quente?
Todos – Sim.
         A mulher dos cântaros distribui água quente, eles bebem consolados. O cozinheiro informa:
C – Olha, vou buscar legumes para fazer uma rica sopa, podes deitar-me água no pote para cozinhar mais depressa?
M.C. – Claro! Até te ajudo a fazer a sopa se quiseres!
C – Está bem! Espera aqui por mim…já volto.
M.C. – Está bem.
Cena 4

    Enquanto eles conversam, o atleta parou com as fadas, a conversar animadamente, até que se ouve um casal de estátuas num lago, quase congelados, a tremer de frio e estão a discutir:
Rapariga (grita) – Ai, aquece-me…!
Rapaz – Aquece-me tu também…!
         O atleta ouve e responde:
A – Olhem…enrolem-se um no outro, debaixo do cobertor e façam exercício físico… (ri malicioso). Aquele exercício que conhecem bem…
Rapaz – Com este frio até ela quase desaparece…não dá pá…
A – Não te preocupes…ela daqui a bocado quando começar com o exercício estica outra vez… (rapaz e atleta riem-se maliciosos)
F1 – O quê…? Ele faz ginástica contigo…?
A (sorri e responde baixinho) – Comigo não propriamente…mas com muitas raparigas já o vi fazer ginástica…Xiiiiuuuu…
F2 – Áááhh…que sacanas…então é isso…! Os torneios…!
A (sorri, responde baixinho) – Ele é estátua, e está com esta, mas não é nenhum santo, nem de ferro…!
F1 – Nem os de estátua prestam…!
F2 – Ai coitada…esta deve ter um peso…em cima da cabeça!
F1 – Podes crer…
F2 – Se fosse outra qualquer, ele aquecia logo…
(Riem) 
Rapariga (grita) – Este frio encolhe toda a gente…! De que é que se estão a rir?
Todos (a rir) – Nada, nada…
Rapariga – Não gostei desses segredinhos…!
Rapaz (a rir) – Aquece-me mas é…
Rapariga (grita) – Que grande lata…
A – Óh rapariga…quanto mais gritares, mais gelada ficas…!
Rapariga (nervosa) – Que parvo…! (p.c) Tu é que tens de me aquecer...
Rapaz – Eu…?
Rapariga – Sim, tu…quem mais…? Estás sempre a dizer que és muito quente…!
         As fadas riem e metem veneno:
F1 (a rir) – É quente…teoricamente…na prática, nem para isso serve…!
Rapariga – Pois…estou a ver que sim!
Rapaz – Estás a ser egoísta.
Rapariga (grita) – Eu…a ser egoísta…? Só não te enfio esta bola pela goela abaixo porque não cabe.
Rapaz – Sim, estás a pensar só em ti, porque eu também estou quase regelado, e encostado a ti, não aqueço…como queres que te aqueça mais…?
Rapariga (resmunga) – Mas que raio…quem foi o idiota que me construiu como tua namorada…! Que ódio…apetece-me desfazer-te…
Rapaz (resmunga nervoso) – Vai pastar.
Rapariga (resmunga, nervosa) – Se eu estivesse congelado mandava-te daqui abaixo…
Rapaz (resmunga) – Tu ias também parar lá abaixo…podia ser que aquecêssemos…vamos tentar…?
Rapariga (zangada) – Vai tu sozinho…
F1 (a rir) – Eles amam-se…
F2 (a rir) – Uuiii…loucamente…
F1 (a rir) – Estão juntos para isto?
F2 (a rir) – Olha, estamos muito bem sem ninguém…
A – Meninas…se estivessem comigo, não iam querer outra coisa…
         As duas riem às gargalhadas…
A – Vou continuar a minha ginástica. Até já… (para o casal) vai uma corridinha para aquecerem e para acalmarem…?
Os dois – Não.
Rapaz – Boa viagem…
A – Volto já…vejam se se entendem…
Rapaz – Yá…
Cena 5
         O atleta segue caminho, a mulher dos canecos ouve os dois a discutir, aproxima-se, ajoelha-se, serve-lhes água quente e fala com eles:
M.C. – Então…não precisam de discutir.
Rapariga (a tremer) – O que é isto?
Rapaz – Não é veneno com certeza.
M.C. – É água quente para vos aquecer!
         Os dois bebem seguido, satisfeitos, sorriem, e pedem mais.
M.C. – Bebam…para ver se o amor descongela, e renasce florido! Porque é que não estão abraçados e com os dois cobertores juntos para se aquecerem…?
Rapariga (zangada) – Farta de estar abraçada a este estou eu…que nem me aquece…
Rapaz – Juntar os cobertores…olha…nem pensamos nos cobertores…
M.C. – Pessoal, juntem-se todos aqui. O mais que poderem para nos aquecermos todos!
         A mulher com o bebé e o pássaro sentam-se um de cada lado do casal, a mulher dos cântaros distribui mais água quente. Todos bebem. Passa a estátua de uma bailarina, a estátua de um homem palhaço e a estátua de um casal a dançar. Todos dizem boa noite.
B – Humm, o que há aqui?
Todos – Água quente.
M.C. – E agora, além da água quente, começa a haver algum calor humano. Juntem-se aqui…querem água quente?
Todos – Sim.
         Juntam-se todos, bebem água e juntam-se aos outros na relva abrindo os cobertores. Passa novamente o atleta e grita, a fazer ginástica:
A – Vai uma corridinha para correr com o frio?
Todos – Não.
A – Que bando de pastelões…molengões…
B – Olha – me este…
A – Bailarina…minha beleza rara…queres acompanhar-me…para…uma dancinha…?
B – Não faltava mais nada.
A – Ahhh…que nariz arrebitado…má…
B – Estou gelada demais para te responder à altura…
A – Tinhas muito que subir essa língua, querida…
B – Ai, que ridículo…!
M.C. – Queres água rapaz?
A – Sim, aceito.
F1 – Deste a volta num instante…
A – Pois…não se vê um palmo lá fora…tenho medo de tropeçar em alguma coisa.
F2 – Pois, pois…
B – Cheirou-te a fêmeas no pedaço, ficaste logo louquinho…
A – Mas tu achas que eu sou quem…?
B – Tens a mania que és o melhor…
Palhaço – Então, gente…por favor…dêem-se bem…ao menos para aquecermos…com a amizade.
D1 – Sim, o palhaço tem razão.
Rapariga – Estamos todos tão gelados que é impossível pensar em amizade…!
Palhaço – Não…vocês é que complicam o que é fácil. (p.c) Desculpem, as minhas ideias também estão congeladas…não encontro nada de engraçado para vos fazer rir…
Todos – Não faz mal.
A – Eu já não tenho frio com as corridas que dei.
B – Acredito mesmo!
A – É verdade! Toca-me, vais ver como estou quente…
B – Não querias mais nada…
F1 (a rir) – Estás quente é noutro sítio…
F2 (a rir) – Pois…!
F1 – Mete-te aqui debaixo…à nossa beira…
A – Não preciso!
F2 – Anda lá, não sejas egoísta…pensa em nós…
A (sorri) – Eu já penso muitas vezes em vocês!
F1 – Então pensa outra vez, e junta-te para nos aquecermos.
A (sorri) – Ai querem aquecimento…? E o que é que recebo em troca?
F2 – Ai a amizade precisa de recompensas…?
A – Sim…claro. Eu não trabalho de graça…
         As raparigas abanam as cabeças chateadas.
A – Vou dar outra volta…
B – Vai-se exibir…coitado. Já que ninguém repara nele em estado normal, ao menos se andar a fazer figura de louquinho…a fazer exercício físico com este frio, e sem roupa…toda a gente vai reparar na figurinha triste…
         Todas as raparigas riem e concordam. Ele vira costas frustrado e zangado mas vaidoso. Elas chocam as mãos umas com as outras, a rir, bebem mais água quente.
Cena 6

Passam mais três estátuas de crianças de mãozinhas dadas, a chorar, e a tremer de frio. A mulher dos cântaros chama-os, dá-lhes água quente, acaricia-os, e cada um vai para o colo das raparigas: um para a bailarina, outro para a dançarina, e outro para a fadinha. Juntam os cobertores, abraçam-se, e finalmente chega o cozinheiro com os legumes no pote.
C (sorri) – Olhem, olhem…temos mais gente…? Boa!
M.C. – Sim. Apareceu mais gente!
C – A sopa chega para todos. Venham também lá para dentro! Ficamos mais quentinhos. Levantam-se todos, e refugiam-se numa das cabaninhas…o cozinheiro acende o fogão e a lareira.
C – Quem quiser pode ajudar-me a descascar os legumes.
         Todos ajudam a descascar, menos as crianças que ficam à lareira. Enquanto descascam os legumes falam uns com os outros, riem, e o palhaço faz algumas brincadeiras para entreter os pequenos e os grandes. Há muitas gargalhadas e palmas. Estão felizes e muito mais quentes, enquanto fora da cabana está um frio cada vez mais cortante, e chove tocada a vento. O pobre atleta está muito aflito, regelado, e passa pela cabana. Ele põe-se de joelhos e implora:
A – Por favor…deixem-me entrar!
B – Tu disseste que não precisavas de nós…nem do nosso agasalho, nem da nossa água quente…!
M – Pois foi…disseste que já estavas quente…com o exercício…!
Rapariga – É…tu corrias com o frio, com as tuas corridinhas…
M – É verdade…! E ainda por cima gozaste com o cozinheiro…!
A – Vá lá…não sejam tão mazinhas…
Todas – Mázinhas…? Nós…?
C – É…e o cozinheiro gordo ia cozinhar legumes de ar e vento ou de plástico não era? Olha-os ali…a fervilhar…parecem pedras num vulcão…lindos…já prontos a aquecer-nos e a matar a nossa fome…! (p.c) Agora devias ficar aí fora e procurar tu os legumes, para ti…
A – Eu sei que falei demais…e que o magoei…por favor…perdoe-me… e deixe-me entrar.
B – Gabaste-te demais como sempre…armaste-te em bom…!
A – Sim, está bem, também tens razão.
F1 – Vá lá…deixe o moço entrar…
F2 – Sim, ele portou-se mal, foi muito inconveniente…mas deixe-o entrar…
F1 – Coitado do pobre…
F2 – Está ali a penar.
A – Pode-me bater com a colher de pau, mas por favor deixe-me entrar! Desculpe o que eu disse. A sua sopa cheira mesmo bem, deve estar deliciosa.
C – Com certeza. Bem merecias levar com a colher de pau, mas eu preciso dela para servir esta sopa angelical.
A – Eu…faço o que quiser…mas por favor…não me deixe ficar aqui…
C – Entra pobre diabo…! Miserável…! Ingrato…! Põe a mesa…
A – Sim, Sra. Tudo o que quiser. Muito obrigado, deixe-me aquecer as mãos só um bocadinho, se não ainda deixo cair os pratos… (p.c) Você é um bom homem.
C – Sim, é a tua sorte…eu não ter uma pedra no lugar do coração, se não deixava-te aí fora para aprenderes a respeitar e a engolir essa vaidade que mete nojo. 
         O atleta entra, quase congelado e sem se mexer, bebe água quente, senta-se à beira da lareira para se aquecer um pouco e põe a mesa. Há conversas cruzadas, gargalhadas, brincadeiras, todos já bem confortáveis e quentes sentam-se à mesa e comem deliciados a sopa cheia de legumes feita com muito carinho pelo cozinheiro.
         Depois das barriguinhas atestadas, e bem quentinhos, todos se divertem com as brincadeiras do palhaço, e todos se deliciam com a beleza das danças do casal e da bailarina. Batem palmas, confraternizam a noite toda, mesmo fora da tenda com tudo iluminado.
         E estas estátuas voltam para o seu sítio de dia, continuam a enfeitar o jardim, e quando este fecha ao público passam a reunir-se sempre, o que faz nascer entre eles uma grande amizade.
         Aliás…o calor da amizade, e o calor humano foi o que os salvou daquele gelo cortante…além da sopa do cozinheiro!

FIM
Lálá 

(8/Dezembro/2011)