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sexta-feira, 2 de abril de 2021

Incerteza quase certa - amor platónico

      



       Sabemos algumas coisas um do outro, mas não sei se algum dia virás...mas espero-te! Mesmo na incerteza quase certa, espero-te, porque enquanto existe incerteza, há alguma esperança de certeza, mesmo pequenina, existe, e mantém a vontade que venhas para a minha realidade acesa. 

        Não sei se algum dia te terei ao meu lado, como quase te sinto enquanto imagino que estás ao meu lado. Quando te imagino sinto uma breve esperança que aconteça. Por isso, mesmo na incerteza, de poder ser uma certeza incerta. espero-te! Em qualquer relação há incertezas, certas e incertas. Por isso, eu e tu somos humanos, mas pode alguma certeza, dentro da incerteza, uma certeza negada. 

        Não sei se algum dia nos envolveremos num abraço, num ou em muitos, como gostava! Na incerteza, existe alguma certeza, pelo menos no desejo. Mesmo assim, espero-te! Nunca se sabe! Não sei se algum dia os nossos corpos se fundirão um no outro, recheados de beijos longos, apaixonados, a sentir as batidas do coração um do outro, e a respiração excitante. 

      Mesmo assim, espero-te, mesmo sabendo que é quase impossível de acontecer. Entre o impossível, existe o quase, por isso, pode acontecer. 

     Espero-te! Espero por aquele dia que não se vai chegar, mas algum dia, se encontrares as chaves que perdi e entrares no meu coração, vais encontrar tesouros só teus. Mesmo assim, espero-te, porque nada é certo, tudo é certo e incerto. Por isso, espero-te! 

    Não sei se algum dia de sonho, os nossos lábios se tocarão, mas mesmo assim, espero-te, porque desejo, espero-te, ainda que fique pelo desejo.

 Não sei se algum dia as nossas mãos se entrelaçarão e sentirei a sua temperatura, a maciez da pele, a doçura do teu corpo encostado ao meu, e nós, em momentos só nossos. 

       Não sei se fico pelo desejar ou pela esperança incerta de vir a acontecer. Mesmo assim, espero-te! Não sei se algum dia sentirei a tua respiração junto de mim, e o teu coração a bater às vezes mais forte, outras vezes calmo, relaxado por estar ao meu lado, ou apaixonado por mim, e eu por ti. Mas ainda assim, espero-te! 

   Não sei se algum dia os nossos olhos falarão um com o outro, sem palavras, apenas na linguagem secreta deles, que só eles compreendem. Mesmo assim, espero-te, porque tudo pode acontecer, ou não. Ninguém sabe, mas a incerteza, ou a certeza incerta também estimula a vontade que aconteça, e dá força para esperar esse dia chegar. 

  Não sei se algum dia incerto, seremos com certeza um só, numa só alma, num só abraço, num só beijo, num só amor. Mesmo assim, espero-te, porque este esperar faz derreter o gelo deixado pelas muitas desilusões de amores não correspondidos, na incerteza dessa realidade, espero-te! 

  Não sei se alguma vez te terei...mesmo assim, espero por ti. Não sei se alguma vez de encontrarei, como te encontro na imaginação e nos sonhos, nos desejos, na fantasia, mesmo assim, na incerteza, há sempre uma esperança de certeza. 

    Não sei se alguma vez repararás em mim, mas mesmo assim espero-te, porque entre o não saber, e o imaginar que podes reparar em mim alguma vez, dá-me força para continuar a esperar por ti, ou por outra pessoa qualquer. 

     És um ensaio, para o meu autoconhecimento, mesmo assim, espero-te porque podes passar de rascunho a desenho de uma linda história de amor, quase impossível, mas entre o impossível está o quase, que pode ficar com im, e passar a ser possível. 

  Não sei se um dia te vou dizer, ou tu a mim....mas...espero-te Amor! Sim, espero por ti. Mas o esperar também cansa! Por isso, talvez um dia destes não espere mais por ti. Amor...encontramo-nos no sítio do costume. 

    Naquele lugar onde o nosso amor existe e é certo, onde tudo pode acontecer com certeza! Estou lá, estás lá, amor, para vivermos o nosso amor incerto, certo nesse lugar certo. 

Porque no lugar que desejava, e onde tanto esperei por ti, cansei, tu não reparaste em mim, os nossos corpos não se sentiram, nada aconteceu afinal. 

         Continuamos lá, eu adolescente, e tu ainda solteiro, só meu, só para mim. Esperava esperar-te, mas cansei de te esperar. 

     Continuas lá, num cantinho feliz da minha adolescência, onde não precisava de esperar por ti, estavas sempre lá, disponível para mim, a toda a hora, naquela fase onde achamos que tudo é possível. 

 Como somos inocentes, mas a idade da inocência até é gira, o pior é quando acordamos para a realidade, onde nunca nos vimos, nunca nos sentimos, numa fomos um do outro! Ajudaste no meu autoconhecimento. 

     Obrigada por todos os sonhos e fantasias que tive contigo, obrigada por me inspirares, obrigada por te ter conhecido, e mesmo distante...aprecio-te! 

  Claro que agora já não te espero, mas continuas a fazer parte de uma recordação feliz. E todos passamos por ela. 

Até qualquer dia, amor platónico, que acreditava ser real na certeza da incerteza. 

                                                                                      Lara Rocha 

                                                                                        2/4/2021


quinta-feira, 28 de abril de 2016

O monte vermelho

                                foto tirada por Lara Rocha 

Era uma vez várias famílias que viviam num lugar sossegado, que se chamava monte amarelo. Um paraíso perto da cidade onde trabalhavam, com ar puro, sem poluição, só com os sons da natureza.
A paisagem era encantada, e fazia parte desta um monte mais alto, conhecido como o Monte Vermelho que era habitado por lobos…alguns humanos já tinham ido lá, mas poucos se atreviam, porque tinham medo dos lobos que ouviam uivar, e que os fazia arrepiar até os ossos.
Esse Monte Vermelho também servia de inspiração para as ameaças dos pais quando queriam pôr os filhos na ordem, e para artistas escritores, pintores e fotógrafas que tiravam boas ideias. Um dia uma criança de uma das famílias olhou para o monte dos lobos e reparou que em vez de verde ou amarelo, estava vermelho, e mostrou ao Avô:
- Avô, olha aquele monte…não é verde, nem amarelo.
- Pois não. É vermelho. – Responde o avô
- Porquê? – Pergunta a criança
- O nosso é amarelo, aquele é verde, o outro é vermelho…olha…foi o nome que lhe deram…podia ser o monte azul, o monte branco. Sempre o conheci com esse nome. – Explica o Avô
- Já foste lá?
- Não.
- Porque não?
- Porque…olha porque…é…muito longe daqui.
- E não gostavas de ir lá?
- Não faço muita questão.
- O que é isso?
- Isso, o quê?
- Não fazes isso que disseste?
- Muita questão?
- Sim.
- Quer dizer que não quero ir lá.
- Porquê?
- Porque…já te disse que é longe.
- O Avô está a mentir. – Diz a Avó  
- O quê? 8entre dentes para a Avó) Não lhe contes. – Resmunga o Avô
- Estás a mentir, Avô? Isso não se faz. – Repara a criança
- O Avô não vai lá porque lá vivem os lobos. – Responde a Avó
- Lobos? – Pergunta a criança
- Sim, lobos. – Respondem todos
- É um lugar horrível. – Reforça o pai
- Já foste lá? – Pergunta a criança
- Já. – Diz o pai
- Não queiras ir para lá…sempre me disseram que era um lugar perigoso. – Acrescenta um tio
- Já foste lá, tio?
- Não. Mas os adultos ameaçavam-me muitas vezes que me levavam para lá se eu não ficasse à mesa,  e que os lo… (os adultos interrompem e mandam-no calar discretamente)
- E quê? – Pergunta a criança curiosa
- E que… - Dizem todos
- E que esse lugar é selvagem, não é para nós, seres humanos. – Diz a outra avó
- Já foste lá, Avó?
- Não. Bastou que me ameaçassem uma única vez… respeito era muito bonito.
- E porque é que o monte é vermelho? – Volta a perguntar a criança
- Porque…os lobos…
O outro tio ia dizer o que lhe tinham dito, mas os adultos interrompem e respondem em coro:
- Foi o nome que lhe deram!
- É…! – Dizem todos
- Podia-se ter chamado monte roxo, monte cor-de-rosa… - Diz uma tia
- Pois. – Dizem todos
- Já foste lá, tia?
- Não.
- Eu gostava de ir lá. – Comenta a criança
- Só os lobos podem andar por lá, o caminho é muito difícil
A criança não ficou convencida, mas não perguntou mais nada. Quando se foi deitar, olhou para o monte e não estava vermelho. Estava escuro.
No dia seguinte, a criança volta a olhar para o monte e estava vermelho, mas quando se ia deitar, estava escuro outra vez. Ele começou a achar muito estranho, e perguntou ao outro avô:
- Avô…olha…aquele monte está vermelho. Mas à noite, quando vou para a cama, o monte não está desta cor.
- Pois não, porque quando vais dormir, está escuro.
- Muda de cor?
- Muda.
- Porquê?
- Porque de dia tudo tem cor, de noite, parece tudo igual…a nossa casa e todas as outras casas, as árvores, os montes…tudo parece igual. De dia o monte é vermelho porque se reparares existem ali nuvens, e o sol está por trás das nuvens, que fazem o sol parecer vermelho, por isso, onde o sol reflecte, ali, no chão do monte, parece que tudo fica vermelho! Se estivesse um sol aberto como aqui, ias ver o monte amarelo, ou verde-claro e verde escuro…ao fim da tarde é cor-de-laranja ou vermelho, e é branco quando há neve.
- Áh! Que lindo. E há mesmo lobos lá, ou são homens disfarçados? – Pergunta a criança
- Há lobos, mesmo.
- Daqueles como a história do capuchinho?
- Sim.
- E maus como ele?
- Nem sempre.
- Como assim?
- Se sentirem que estão em perigo, se os agredires, ou se estiverem com fome, são selvagens, podem ser um pouco agressivos, ou tentar magoar-te para se defenderem, e às vezes comem animais para se alimentarem. Mas poucas vezes vêm aqui ao monte.
- Áh! Estou a perceber.
Nessa noite, foi Lua Cheia…e estava enorme, linda. Começou a aparecer por trás do monte vermelho. O menino estava a ver com a família. Um espectáculo da natureza que todos gostam de ver, e deliciam-se.
- Avô…olha a cor do monte…parece que tem ali uma bola de luz.
- Sim, já vais ver o que é.
A lua sobe, sobe, sobe…até que aparece por inteira.
- A lua. – Diz a criança encantada com um grande sorriso.
E ouve-se o uivo crescente dos lobos…como uma orquestra…começa o chefe da alcateia, e os outros seguem-no, até que todos uivam prolongadamente em coro, virados para a lua. Pode ver-se as sombras deles. Os humanos arrepiam-se e sorriem, os cães ladram.
- O que é isto? – Pergunta a criança
- São os uivos dos lobos. – Respondem todos
- Estão a saudar a lua! – Diz uma avó
- Áhhhh…que lindo! Agora o monte já não está vermelho…está… – Suspira a criança a sorrir  
- Prateado. – Diz a mãe
- Branco. – Diz um tio
- Amarelado. – Diz outra tia
- Branco azulado. – Diz o pai
- Enluado! – Diz o Avô.
- Agora o monte está avermelhado porque o sol viu a sua apaixonada lua. – Diz uma adolescente da família com ar de sonhadora
- Eu acho que ele está vermelho por ter tantos lobos a olhar para ele… - Diz outra adolescente da família
- Pode ser o reflexo da raiva dos lobos por alguma coisa…olha como eles uivam…- Diz outra adolescente da família  
Estas famílias tinham a tradição de se reunir em noites de Lua Cheia, para viver e reviver estas fantasias saudáveis da infância, e para correr com os medos, que sabiam agora em adultos, não serem reais, mesmo assim gostavam de sonhar…Eram momentos de união e partilha, convívio, magia…depois das crianças se deitarem, a noite era dos crescidos.
Muitos segredos e medos que os adultos viveram, os mitos, as lendas, as histórias e as fantasias que o Monte Vermelho tinha despertado nas suas infâncias, ficaram por contar às crianças, para que elas não ganhassem medo, e para cada uma delas poder viver, experimentar a magia, as suas próprias fantasias em relação aos mistérios da Natureza.
E vocês? Porque acham que o monte era vermelho?

Fim
Lálá

(27/Abril/2016)