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quinta-feira, 3 de outubro de 2024

O esquilo bondoso



    Era uma vez um esquilo que não parava um segundo!   Enquanto estava de olhos abertos, tinha sempre o que fazer, parecia ligado à tomada. 

   Corria de um lado para o outro, pedia aos trabalhadores no campo, que lhe emprestassem cestas, baldes, bacias, e desaparecia na floresta. 

    Os trabalhadores emprestavam-lhe, não sabiam para que era, mas achavam engraçada e misteriosa aquela correria toda. 

    Apanhava uma série de bolotas, pinhas, castanhas, folhas de Outono, enchia tudo o que podia, ficava com uma boa quantidade para si, para poder comer no Inverno, no conforto da sua casinha de árvore, e partilhar se precisasse. 

    Armazenava, mas distribuía por quem mais gostava, dizia que não podia perder tempo e tinha muito que fazer. 

    O que iria fazer um esquilo, com aquilo tudo? - perguntavam os trabalhadores 

    O esquilo fazia embrulhos de bolotas nas folhas que caiam das árvores, de várias cores, e oferecia aos outros esquilos, aos porcos que também comiam bolotas. 

    Deixava à porta dos trabalhadores tudo o que lhe emprestavam, com pequenos mimos, embrulhados nas folhas: pinhas que pintava com muitas cores diferentes, as cores do Outono.  

    Outras mais brilhantes, uvas com um tamanho grande, e um sabor delicioso, que eles desconheciam, maçãs grandes, bonitas e doces, castanhas grandes.

    Os trabalhadores ficavam muito surpresos, e numa tarde em que o esquilo passou a correr, perguntaram:

- Ei...obrigado por teres devolvido o nosso material! 

- De nada! Obrigado eu - diz o esquilo a sorrir 

- Onde vais a correr tanto? 

- Podemos ajudar? 

- Fica aqui um bocadinho connosco! 

- Ahhh...está bem! - diz o esquilo, um pouco cansado

- Mas, porque o trouxeste com isto tudo? - pergunta uma senhora 

- Para vos agradecer, e lembrar que é Outono! 

- Mas que coisas tão bonitas! - diz uma senhora 

- E são deliciosas! - diz outro senhor 

- Onde foste buscá-las? - pergunta outras senhora  

- Fui...por aí! O que interessa é que tenham gostado! - responde o esquilo 

- Claro que sim! - respondem todos 

- Mas gostávamos de saber onde é, para irmos apanhar também. - comenta outra senhora 

- Aaaaahhhh... eu trago-vos! 

- Mas que querido! - comenta uma senhora a sorrir 

- Que esquilo tão generoso! - diz uma menina 

- Também dou a quem precisa mais, sim. - confirma o esquilo 

- Então, estás convidado para a nossa festa. 

- Está bem! Obrigado. Quando é? E onde? 

    Os trabalhadores explicam tudo, contam a tradição, e o motivo da festa. O esquilo não fazia ideia, mas adorou ouvir tudo sobre a famosa tradição no Outono. 

    Depois de muita conversa: 

- Muito obrigado. Adorei saber tudo o que me contaram. Cá estarei. Se precisarem de alguma coisa de mim, eu ando sempre por aí.

- E andas sempre a correr? 

- Bem...quase sempre! Não posso perder muito tempo. Tenho muita coisa para fazer. Não sei andar de outra maneira - diz o esquilo 

- Mas também precisas de descansar! 

    Todos riem. 

- Sim, também descanso! Então...até já.

- Até já. - dizem todos 

    Lá vai o esquilo, e a festa começa a ser preparada. Sem que estivessem a contar, no dia da festa, de manhã bem cedo, o esquilo estava no largo, verdejante, a fazer a decoração das mesas, com coisas que tinha feito, parecido com os presentes que ofereceu aos trabalhadores.

    Cheio de energia, feliz, pinhas aqui, pinhas ali, pintadas de diferentes cores, castanhas espalhadas, uvas em cima de folhas de árvores, nozes ao natural, outras pintadas na casca de fora, lindas! Velas em cascas de nozes, e outros objetos decorativos que o esquilo tinha criado. 

    Quando os trabalhadores viram, nem queriam acreditar. 

- Ááhhhhh... que coisa mais linda! - suspiram 

- Obrigado! - diz o esquilo a sorrir 

- Mas não precisavas de ter este trabalho todo! 

- Fiz com todo o gosto, não foi trabalho nenhum. Trabalho têm vocês, a preparar as refeições e petiscos todos! 

- Sim, mas também fazemos com gosto. 

- Acredito! Estou curioso para provar - diz o esquilo

- Já está quase tudo pronto, daqui a bocadinho começamos a trazer. 

- Querem ajuda? 

- Não, obrigado! Já fizeste tanto. 

- Está bem. 

    Os trabalhadores estão maravilhados, e como o esquilo não consegue estar quieto, vai ajudar. Todos riem com a energia dele. 

    Depois de tudo pronto, começa a festa. Vestidos a rigor, muita música, muita animação, muita dança, muitos abraços, cantares, fotografias, petiscos, brincadeiras, jogos, o esquilo come de tudo, adora tudo, até não poder mais, como os trabalhadores. 

    Há momentos de contemplação da Natureza em silêncio, e agradecimento de cada um a tudo o que ela dá, tudo o que ela tem de maravilhoso. 

    Escrevem bilhetinhos, e põem aos pés de uma árvore, abraçam a árvore, acariciam-na, encostam-se a ela, dão as mãos à volta da árvore, de olhos fechados, e dizem em coro, em voz alta: «gratidão, Mãe Natureza por tudo o que nos dás!» 

    Largam as mãos, sorriem, aplaudem, e depois a animação continua noite dentro, com o esquilo sempre divertido, a fazer rir toda a gente, muita gargalhada e brincadeiras, a beber e a brindar com sumos de frutas, deliciosos, dançam, batem palmas, e a festa acaba com a chegada do nascer do sol, apreciado por todos. 

    O esquilo e os habitantes estão muito cansados e com sono, e cada um vai para sua casa. Depois de recuperados, ao fim do dia, comem o que sobrou, e ajudam a arrumar as coisas, com o esquilo todo elétrico. 

    O esquilo passa a ser visto como um amigo, um elemento de uma grande família, que visitava praticamente todos os dias, além da dele, mesmo no Inverno, com neve e frio, bem agasalhado, perguntava a todos se precisavam de alguma coisa. 

    Era muito bem recebido nas casas todas, ofereciam-lhe chá e biscoitos deliciosos. E no Natal voltavam a fazer uma grande festa, com a presença do esquilo, e os seus presentes tão lindos para cada um. 

    Estava sempre presente, e até apresentou a sua família, e amigos, aos trabalhadores, que nunca tinham visto tanto esquilo junto, e tão simpáticos como eram. 

    No Inverno ficava mais recolhido, a preparar presentes, mesmo assim, visitava a família e os amigos humanos. 

    Era um esquilinho mesmo bondoso! 

E vocês? 

Se fizessem uma festa no Outono, quem levariam? 

O que poriam nas mesas? 

Que produtos de Outono conhecem? 

Como seria essa festa? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem :) 


                                            FIM 

                                      Lara Rocha 

                                       3/10/2024 

domingo, 24 de setembro de 2023

A missão da menina diferente


         Era uma vez uma menina muito especial, bonita, que vivia numa cidade chamada As Quatro Estações. Nessa aldeia, existiam centenas de meninos e meninas, crianças, adultos, e pessoas com mais idade, que tinham uma missão muito especial: ir pelas grandes cidades anunciar a chegada de cada estação do ano. 

         Quem olhava para eles e elas, pareciam pessoas iguais, mas na verdade, eles e elas não precisavam de transportes para chegar às cidades que lhes estavam destinadas, iam e voltavam para a sua terra no mesmo dia, e sem que as pessoas das cidades dessem por isso, transformavam toda a paisagem de acordo com cada estação do ano. 

         Levavam tudo o que faz parte de cada uma delas: enchiam as cidades de flores na Primavera, sol e chuva, cores, pássaros e outras aves, vento. Levavam o Verão com Sol escaldante, o Outono com toda a sua beleza, e instabilidade do tempo, os dias mais pequenos, mais ventosos, mais chuvosos, mais cinzentos, ou mais solarengos, e o Inverno, com neve, onde ela existe, frio, chuva, nuvens carregadas, trovoada, gelo, mas também roupa quente, lareiras, e o Natal. 

         Dependia do que houvesse nessas cidades, nesses países, porque as estações do ano são diferentes, em várias partes do mundo, mas cada uma com as coisas bonitas, e cada menino, cada menina sabia muito bem o que levar a cada um, vestidos e calçados de acordo com as características de cada lugar, nas diferentes estações. 

         Desta vez tocou à menina Folha Castanha, era assim que se chamava, juntamente com o vento, anunciar a sua estação. Com um vestido castanho escuro, casaco comprido, castanho de vários tons, longos cabelos ondulados em tons amarelos, castanhos, verdes, roxos, salpicos de várias cores, que voavam com o vento, botas castanhas, e lá vai ela toda vaidosa da sua missão. 

         Os pais e os avós, orgulhosos da menina, até deixaram escapar umas lagriminhas, com um grande sorriso. Estala os dedos e chega à primeira cidade, um trânsito infernal, carros e mais carros, buzinas, pessoas a correr, com caras sem sorrisos, irritadas, ao telefone, aos gritos umas com as outras, a mexer nos telefones, nem repararam na chegada dela. A Folha Castanha fica triste: 

- Apetecia-me cobrir esta cidade e esta gente toda de folhas que batessem na cara deles, ou que os colassem ao chão, para ver se paravam um minuto e reparavam na minha chegada! 

        O vento dá uma gargalhada: 

- Achas mesmo que iam reparar em ti? Santa inocência de criança! Não reparam em quem vai à frente do nariz deles, quanto mais... 

- Onde é que eles deixaram o sorriso? 

- Não sei, em casa...! Se lhes desses dinheiro ias ver. 

- Não tenho nada a ver com dinheiro. Essa não é a minha missão. 

- Filha, esquece lá essas coisas boas, e faz o teu papel. Não te chateies com isso, eles não vão mudar. 

        A menina fica triste, todos passam indiferentes por ela. Ela fica irritada. 

- Vento, sopra aí bem forte, para ver se acordam. 

- Olha que eles vão ficar ainda mais irritados!

- Problema deles, eu também estou irritada por terem passado indiferentes. 

- Achas que eles sabem quem tu és? Claro que não. 

- Sopra aí rajadas de vento, por favor. 

- Está bem! 

        O vento sopra forte, e a menina caminha pelas ruas. Quando passa por árvores, cai uma chuva de folhas em cima das pessoas que passam, e ela sorri. As pessoas encolhem-se com o vento gelado, e assustam-se com as folhas que caem, fazem redemoinho à volta delas, e sobem do chão para a cabeça, como se estivessem a enrolá-las. As pessoas gritam, assustadas, sacodem-se, abanam-se, para tentar livrar-se das folhas. 

- É para ver se param 1 minutos, e veem que eu cheguei! Outro minuto para pôr um sorriso na cara. - comenta a menina a rir 

        A menina ri à gargalhada, ninguém repara nela, ela manda nuvens carregadas, escuras, que tapam o sol, o vento fortíssimo, que quase as empurra para trás, a menina aplaude o vento: 

- Boa, vento! Isso mesmo. 

        É folhas a rodopiar por todo o lado, a cair em cima das pessoas, umas já secas, outras frescas, que vão ficar molhadas com a chuvada que a menina manda. Aí sim, todos procuram abrigos debaixo das portas dos prédios, fogem, tentam abrigar-se debaixo das árvores, em cafés, nas paragens de autocarro, onde podem. 

        Como todos pararam, ela desfila sem se molhar, a sorrir para todos, que ficam espantados. Uma senhora com alguma idade, da aldeia da menina Folha Castanha, comenta: 

- Chegou o Outono! 

- Começa hoje? - pergunta jovem

- Começa! E veio carregado de vento, chuva...promete! O Outono é mesmo assim, mas tem a sua beleza. Todos deveriam parar uns minutos por dia e apreciá-lo! Devia ser obrigatório. - diz a senhora  

- O Outono é triste! - comenta outra jovem 

- Não é nada! Isso são ideias da vossa cabeça que só vê computadores e correria à frente. - comenta a senhora

- Pois é! Tem razão, andamos sempre a correr, nem reparamos no que há de bonito à nossa volta! - concorda outra jovem 

- Mas hoje é apenas o primeiro dia, ainda têm muitos dias de Outono pela frente, que devem apreciar. E andar com guarda chuva, algum agasalho porque o tempo é instável. - diz a senhora 

- Pois é! 

        A menina ri-se e aplaude. Para compensar, por terem parado algum tempo para se abrigar, todos olham para ela, ela transforma folhas que estão a cair em borboletas, que beijam as caras das pessoas, e estas sorriam, parece que ficam hipnotizadas por aquela beleza que nunca tinham visto.

- Áh! Que lindo, pareciam folhas, afinal são borboletas... - suspira uma jovem a sorrir 

- E dão beijinhos quando batem na nossa cara! - diz outra a sorrir 

- Nunca tinha visto nada assim, mas é maravilhoso! Se acontecer outra vez este fenómeno, vou ver e fotografar. - comenta outra 

- Realmente, acho que nunca aconteceu! - comenta outra pensativa 

- Ou se calhar já aconteceu, mas vocês é que nunca viram. - diz a senhora 

        A menina ri à gargalhada, e sopra as nuvens para o sol aparecer outra vez. As pessoas olham com mais atenção para as árvores, deliciadas com o bailado das folhas que caem, e outras que se transformam em borboletas. 

        A menina vai para outra cidade, acontece o mesmo, ninguém repara nela, e ela faz o mesmo, até que se lembram que chegou o Outono. Percorre várias cidades, e deixa a sua presença bem marcada, mas nessas, alguém a reconhece, as pessoas com mais idade, com o seu andar vagaroso, os olhos a apreciar a Natureza, que lhe sorriem e dizem: 

- Bem vinda, Outono! 

        Ela sorri, e envia as folhas em forma de borboletas, que voam e dão beijinhos. Essas pessoas riem, e ficam maravilhadas. 

Esta era a missão da menina diferente! 


                                                                    FIM 

                                                                Lara Rocha 

                                                            24/Setembro/2023 

E vocês apreciam o Outono? 

Como sentem a sua chegada? 

O que veem de diferente? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem 


        

   

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O passarão


pintado por Lara Rocha, do livro de pintar para adultos 

       Era uma vez um pássaro enorme, que vivia numa ramada cheia de videiras. Essas videiras, no mês de Setembro produziam belos e atraentes cachos de uvas, de cor verde e de cor roxa, vermelhas e pretas. Eram doces e cheias de água…um consolo para quem as comia.
            Por viver nessa ramada de videiras, o passarão de penas de uma beleza rara, cheias de cores misturadas, achava-se dono das uvas. Mas não era, porque embora tomasse conta delas, quem as plantava, cuidava delas e colhia eram os donos dos campos.
          Um dia, os donos autorizaram uns familiares a ir aos campos apanhar uvas. O grande passarão não os conhecia, e pensou que era alguém que ia roubá-las. Ficou muito nervoso e assustado, começou a andar de um lado para o outro, em cima dos arames, a fazer um barulho irritante e assustador para afastar as pessoas.
            As pessoas desataram a correr e aos gritos com medo do passarão. Os donos voltam lá com os familiares e a senhora diz:
- Óh meu grande passarão: deixa estes senhores tirarem as uvas que quiserem. São de confiança, e fomos nós que demos autorização.
- Este é o nosso guarda-costas! – Diz o senhor a rir  
- Pudera! Com este tamanho e o barulho que ele faz, assusta qualquer um. – Diz o outro senhor
- Pois! Desculpem, esquecemo-nos de vos avisar que tínhamos aqui o pássaro. – Diz o senhor do outro casal
- Pois foi. – Reconhece a esposa
- Tirem à vontade. – Diz a outra senhora
            O passarão obedece, mas fica sempre atento a tudo. Os seus olhos amarelos não param. No dia seguinte, uma série de outros passarinhos pequeninos vão ao pomar, esfomeados à procura de comida, e caem com a fome. O grande pássaro fica muito preocupado. Eles ficam assustados com o tamanho do pássaro:
- Óh não! – Dizem os passarinhos em coro
- Já vamos servir de almoço para este! – Diz um passarinho
- Que medo! Olhem só o tamanho dele… - Diz outro passarinho
Vai ter com eles, pergunta o que se passa e eles disseram-lhe que estavam fracos, com muita fome, vinham de muito longe, onde só havia gelo. O passarão fica triste com a história dos passarinhos.
- Porque é que me está a cheirar a medo? Áh…são vocês. Medo porquê? Esperem, não precisam de responder. Estão com medo de mim, não é? Não precisam de responder…eu sei. Mas não precisam! Não vos vou fazer mal…vou buscar comida para vocês! – Diz o passarão
- Como é que ele adivinhou que estávamos com medo? – Pergunta um passarinho, baixinho
- Parece que lê os nossos pensamentos! – Diz outro passarinho, baixinho
- Não lê nada, nem adivinha…só sentiu o nosso cheiro a medo. – Explica outro passarinho
- Ufa! Que susto! – Suspiram os passarinhos
- Afinal ele é bom! – Diz outro passarinho aliviado
- Cuidado! Pode ser só uma armadilha… - Lembra um passarinho
- Uma armadilha? – Perguntam todos
- Sim!
- Para quê? – Perguntam todos
- Ele pode estar a tentar cativar-nos, para ficarmos aqui…engorda-nos, e depois come-nos. – Explica o passarinho
- Com penas e tudo? – Pergunta outro passarinho
- Isso mesmo. Não sobra nem um bocadinho de osso.
- Que horror! – Dizem todos
- Óh…para com essas tuas histórias de terror. – Ralha outro passarinho
- É. Também acho que já estás a imaginar coisas. – Diz outro passarinho
O passarão apanha com as suas patas enormes, umas uvas e uns cachos inteiros que estavam no chão, e dá aos passarinhos.
- Comam à vontade…vão ficar como novos! E se quiserem mais no fim, é só pedirem – Diz o passarão
- Obrigada! – Dizem em coro
Os pequenos, com um bocadinho de medo debicam-no, num abrir e fechar de olhos, deliciados com o sabor.
- Huummm… - Dizem os passarinhos em coro
- Que uvas tão boas. – Diz um passarinho
- Cheia de sumo…Huummm…
- E doces!
- Estão mesmo boas.
- E são enormes.
- É. Tudo isso porque os donos deste campo, cultivam e cuidam de tudo o que a Natureza oferece, com muito cuidado, carinho e alegria. Dedicam-se muito! – Revela o passarão
- Áh!
- Realmente, este campo está muito bonito, limpo, arejado!
- É. Passamos por uns campos lá atrás em que só havia silvas, ervas gigantes que pareciam cabelos compridos, não se via onde era a entrada. Horrível.
- Até podia ser que tivesse lá fruta.
- Sim, mas esses campos estão ao abandono.
            Os passarinhos conversam mais um pouco com o passarão, surpresos com a bondade e a sabedoria dele. Já satisfeitos e recuperados, os pequeninos agradecem e voam, com a promessa de voltarem um dia destes…
Uns dias depois, outros passarinhos muito matreiros, que tinham assistido a tudo, escondidos atrás de um campo abandonado, quiseram experimentar. Fingiram que estavam fracos e com muita fome. Mas o experiente passarão não caiu na conversa deles.
- Ai querem comer? Coitadinhos…estão muito fraquinhos não é? – Pergunta o passarão irónico
- É! – Dizem os passarinhos fingidos.
- Se querem comer, vão ter de trabalhar!
- Trabalhar? – Perguntam em coro
- Sim, trabalhar. Vão ter de encher esses baldes para os donos da casa, com as uvas que estão no chão e estas de cima.
- Óh, não!
- Querem ou não?
- Sim.
- Mas estamos muito fracos para apanhar as uvas… - Lamenta um passarinho fingido
- Pois, claro…pobres bichaninhos…estão tão fracos que até vieram a voar…claro… (grita) Toca a trabalhar, antes que eu vos ponha daqui para fora. Pensam que eu não entendi o que queriam…?! Comigo não gozam.
            O passarão bem tinha razão. Os pássaros estavam mesmo a fingir. Começaram a voar rapidamente, e encheram os baldes num instante. Todos se ajudaram uns aos outros, com as patinhas e os biquinhos, para cortar, e outros ajudaram a carregar para os baldes.
            O passarão ri-se várias vezes, e aplaude, encoraja-os para voarem mais e mais rápido. Os baldes já estão bem cheios.
- Muito bem. Estão a ver? Muito obrigado. Os donos vão ficar muito felizes. E melhor ainda…vão pensar que fui eu que lhes enchi os baldes! – Diz o passarão a rir.
- Podemos comer?
- Sim, agora já podem comer. E também podem levar alguns cachos para casa, se conseguirem pegar neles…
            Eles comem satisfeitos e felizes, e levam alguns baguinhos. Os passarinhos ficaram tão zangados por os terem mandado trabalhar, que viraram costas, e voaram…sem agradecerem…
- Pensaram que me conseguiam enganar? Eu não nasci ontem. Matreiros…
Os donos têm uma grande surpresa quando veem os baldes cheios, e sorriem. Acariciam o passarão, e ele sorri orgulhoso. Tudo volta à paz de sempre, com aquele belo e enorme passarão a tomar conta! Os donos tinham mesmo muita sorte.

FIM
Lara Rocha 
(28/Setembro/2014) 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Chuvada!



        








        


foto de Lara Rocha 


        Era uma vez, na chegada do Outono, uma linda borboleta, chamada Mára, que se esqueceu desta chegada! O dia estava cinzento, sentia-se cheiro a fumo das chaminés, e das castanhas assadas, e a lareiras.
O vento estava muito zangado com alguma coisa…! Se calhar tinha dormido mal, ou estava mal disposto, porque era um bocadinho frio mas forte, pois por onde passava arrancava sem dó nem piedade as folhas das árvores. Sacudia-as e batia-lhes, e era só folhas pelo ar, a rodar e a cair no chão. Elas gritavam e tentavam agarrar-se, mas não conseguiam!
Umas caiam sobre a terra, outras na erva, não se magoavam muito, mesmo assim, não gostavam das grandes cambalhotas que davam pelo caminho até aterrar, e das cabeçadas nas janelas, nos telhados, nas portas, nos vidros, na parede e em cima de carros.
Outras folhas, não tinham a mesma sorte: umas caiam em cima de troncos e raminhos que estavam no chão, outras caiam nos bancos duros de pedra e de madeira do jardim, e outras caiam directamente no chão duro das ruas, dos pátios.
Mára ainda não se tinha apercebido da ventania, porque quando começou…a borboleta ainda passeava pelo mundo dos sonhos, e nem ouviu, ou se ouviu não ligou.
Devia ter tanto sono, que não quis perder tempo a ver o que era, mas de certeza que fazia barulho, a não ser que a sua casa fosse à prova de som, o que não acontecia.
Quando abriu os olhos, pensou que ainda podia dormir mais…embora tivesse acordado muito cedo, como quase sempre fazia, espreguiçou-se, bocejou, e viu muito escuro.

- Ááááhhh… (boceja) Acho que ainda é muito cedo, vou dormir mais um bocadinho…ainda está a amanhecer, de certeza, pela cor que estou a ver ali nas frinchas!
            Vira para um lado e para o outro, na sua cama fofa, mas ouve muita agitação.
- Estes vizinhos acordaram muito cedo hoje…! Onde irão com tanta pressa…? Hoje não é dia de trabalho! Ou será que estou confusa? Não…não é mesmo! Bem…estou cheia de sono, vou dormir mais um bocadinho.  
            A borboleta Mára queria dormir, mas a sua amiga Jú, já estava acordada e cheia de energia, com muita vontade de passear, e não queria ir sozinha! Bate na janela de casa da amiga Mára, e grita:
- Bom Dia, amiga…!
            Ela salta da cama, abre as persianas da sua casa. Mára e Jú conversam da janela. Mára está um pouco confusa.
- Olá, bom dia…! Caíste da cama? – Pergunta Mára.
- Eu não…felizmente não…também se caísse, a queda era pequena! Já aconteceu de acordar no chão, mas porque rebolei…nem me magoei…mas porquê? Tu caíste?
- (sorri) Não! Também não caí abaixo da cama… só estou a dizer isto, porque ainda é muito cedo! – Diz a borboleta Mára.
- Cedo? Não! Já é tarde…já amanheceu há muito, tu é que dormiste demais. – Responde Jú a rir.
- Ai…! Não pode ser!
- Mas é!
- Está tão escuro! O sol já nasceu?
- Claro que já nasceu…! Está escuro, porque o céu está cheio de nuvens. É que hoje começa o Outono.
- Ááááhhh…! É?
- É!
- Nem me lembrei disso…! Vi tão escuro, pelas frinchas das persianas que pensei que ainda estava a amanhecer.
- Não. Já são horas de estar fora da cama…!
- Já tomaste o pequeno-almoço?
- Já, claro! Nunca sairia de casa sem tomar o pequeno-almoço. Se não tomasse, nem conseguia voar.
- Pois! Nem eu. Entra!
- Está bem. Vamos dar uma volta?
- Sim, pode ser…só espero é que não chova!
            Jú entra, e Mára toma o pequeno-almoço enquanto conversam e riem alegremente uma com a outra. Veste-se, e as duas amigas saem. Estão com muita dificuldade em voar.
- Acho que não foi grande ideia termos vindo passear, hoje! – Diz Mára.
- Pois…! Acho que tens razão…eu é que pensei que não ia estar tão mau! Muitas vezes está um céu cheio de nuvens e conseguimos voar…! Hoje…estou muito presa! – Diz Jú.
- Eu também! Isto hoje não está fácil…! – Diz Mára a arfar.
- Pois não! O céu está cheio de nuvens e humidade.
- Acho que é melhor voltarmos para trás, não? – Sugere Mára.
- Não…vamos continuar…não vai chover, tenho a certeza! – Assegura Jú.
            E nesse mesmo instante, começam a cair as primeiras pingas de chuva, e o vento a soprar mais forte.
- Ui…vou-me embora! – Diz Mára.
- Sim, acho que também vou! – Diz Jú.
            E as duas borboletas tentam a muito custo voar mais depressa, para um sítio abrigado, mas não encontram, e o vento brinca com elas…sem elas quererem.
Elas gritam, mas o vento empurra-as, vira-as no ar, sopra tão forte que vira as suas asas ao contrário. Coitadinhas. Ficam muito cansadas, e o vento atira-as para o chão. Arrastam-se rasteiras ao chão, e o vento empurra-as para trás, quando elas tentam ir para a frente. Quase não conseguem respirar, mas fazem de tudo para escapar à chuva que agora é mais forte.
- Vento…pára! Por favor! – Gritam as duas.
            O vento ri-se, e sopra ainda mais forte.
- Porque é que estás a fazer isto connosco? – Pergunta Jú.
- Deixa-nos chegar a casa…vá lá! – Implora Mára.
- Só estou a fazer o que me mandam…lembrem-se que hoje começa o Outono…devem estar a contar com vários dias de chuva e vento, e não arriscar, como fizeram hoje! O céu escuro e cheio de nuvens indica que vai chover. – Explica o vento.
- Nem sempre! Há dias que apenas estão cheios de nuvens, mas não chove! – Defende Mára.
            O vento leva-as a casa. Pelo caminho, as duas apanham uma grande chuvada, fria, com gotas pesadas. As suas asinhas ficam ensopadas…e as duas desatam a espirrar, a tossir e a tremer. Ao chegar a casa, ansiosas por entrar, torcem as asas, e molham os cogumelos que estão em baixo do tronco ao lado.
- Ei, está a chover tanto que até chega aqui! – Comenta um cogumelo.
- Não…esta água vem das asas delas…olha para aquilo…! – Diz o outro cogumelo.
- Desculpem! – Dizem as duas borboletas.
- Abriguem-se! Está a carregar… - Grita um passarinho, também já com as penas todas coladas.
- Queres abrigar-te na minha casa? – Pergunta Mára.
- Não…tenho os meus filhos à espera… - Responde o passarinho.
- Trá-los também! – Sugere Mára.
- Não…obrigado, nós temos o nosso tronco! – Diz o passarinho sorridente.
- E a nós quem nos abriga? – Pergunta um cogumelo.
- Nós! – Grita um casal de folhas gigantes que acabam de ser atiradas da árvore.
            As duas folhas abraçam-se e protegem os cogumelos.
- Muito obrigado! – Respondem os cogumelos em coro.
- Mas e a vocês quem vos abriga? – Pergunta a borboleta Jú, preocupada.
- Nós somos impermeáveis. – Responde uma folha.
- Entrem meninas, não apanhem mais frio…não se preocupem mais connosco. – Diz a outra folha.
            As duas grandes folhas abrigam também as flores, e chove cada vez mais, com cada vez mais vento. As borboletas entram, completamente encharcadas, e secam-se, a espirrar, a tossir e a tremer.
- Mas que grande chuvada! – Suspira Mára, a tremer.
- Que horror! Nunca apanhei uma assim! – Diz Jú, a espirrar e a tremer.
- Pensei que ia ficar sem asas. – Lamenta Mára.
- Eu também! – Diz Jú, a tremer e a tossir.
- Ai! Acho que vou ficar doente. – Diz Jú.
- Eu também! – Diz Mára.
- Vou para a minha casa! – Diz Jú.
- Espera que a chuva pare, se não ainda ficas pior. – Diz Mára preocupada.
- Quem vai cuidar de nós? – Pergunta Mára.
- Cuidamos nós uma da outra! – Sugere Jú.
- Mas estamos as duas doentes! – Suspira Mára.
- Sim, por isso mesmo…temos de estar mais unidas que nunca…lembras-te do juramento que fizemos uma à outra quando nos conhecemos? – Lembra Jú.
- Sim, claro que me lembro! Tens razão…nunca rompemos esse juramento…e não vai ser hoje! – Sorri.
- Pois não! Vamos mas é tomar já um chá…
- Boa!
            Mára faz um chá, e as duas quase fazem a sinfonia das constipações…espirros, tosse, tremores…tomam um belo chá quente, e de repente batem à porta. É um gatinho, que está doente, e quase não consegue falar, com o pêlo todo colado. Mára abre a porta.
- Óóóhhh…! Coitadinho…! – Dizem as duas.
- Entra, bichaninho.
- Boa! E agora…ele também está doente…?
- Não…pode ser que esteja só com frio.
            Secam-no, mas o bicho está mesmo doente. Dão-lhe também um chá, e como estão os três doentes, assim que passa a chuva, cada um vai para a sua casa, com a promessa de se falarem ao telefone, se precisarem. Que grande chuvada! Mas essa tempestade foi boa porque regou a terra que estava muito seca, e juntou os animais, que se tornaram grandes amigos. Todos ficaram doentes, mas conseguiram ajudar-se uns aos outros, à medida que iam melhorando.
            Com a chuva não se brinca, e no Outono/Inverno é preciso protegermo-nos, estarmos preparados para mudanças rápidas de tempo…pois de repente, pode começar a chover.
            E vocês já apanharam uma grande chuvada? Como ficou o vosso corpo? Seriam capazes de abrigar um amigo vosso, que estivesse à chuva? Já o fizeram? Ficaram felizes de o fazer? E o vosso amigo como se sentiu?
FIM.
Lálá

(19/ Setembro/ 2013) 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A CIDADE E A FESTA DA FOLHA


















foto de Lara Rocha 

                Era uma vez uma grande cidade, onde viviam milhares de pessoas. Todos os dias era uma grande agitação…um movimento louco de carros que passavam a alta velocidade, famílias que saiam a correr de casa com os filhos. Havia fumo e nuvens no ar, gritos dos vendedores na rua, que tentavam vender os seus produtos…roupas, bugigangas, guarda-chuvas, gorros, luvas, meias, chapéus e boinas…e frutas, legumes frescos nas bancadas dos pequenos supermercados que haviam nas ruas, buzinas de condutores desesperados nas intermináveis filas de carros que eram obrigados a parar por causa dos semáforos, aviões ruidosos e pessoas que quase chocavam umas com as outras, mal se olhavam e não sorriam…não olhavam para o que se passava à sua volta, só para o relógio, e falavam ao telemóvel a gritar nervosos. Nesta agitação toda…esquecem-se que chegou uma nova época…uma nova estação do ano…o Outono. Uma menina abre a janela, quando se prepara para ir para a escola e grita:
- Mãe…chegou…!
- Quem, filha…?
- A princesa Outono!
Áh…está bem! Deixa-a estar. (murmura a mãe) Deve ser alguma boneca de algum desenho animado…
Olha, Mãe, e veio com o vestido das folhas.
Quem?
A princesa Outono.
Sei lá quem é essa…! - resmunga a mãe 
Olha para a janela. Está aqui, mesmo diante dos nossos olhos.
Imagina o que quiseres, mas não me leves contigo para esse teu mundo de fantasia. - responde a mãe, zangada 
Óh mãe…porque é que estás a falar assim comigo?
Despacha-te…! Ainda tenho que te levar à Avó…lá podes continuar a imaginar o que quiseres. - grita a mãe 
Ai, Mãe…estás tão má.
Deixa-te de conversas, e veste-te rápido ou vai de pijama…! - grita a mãe, nervosa 
- Estás tão nervosa…!
E tu ainda me estás a irritar mais, com tanta conversa, a perder tempo a olhar para a janela, e a imaginar coisas…despacha-te…tens dois minutos. - grita a mãe quase a explodir
Eu vou a pé…! Vai…para o teu trabalho, se ele é mais importante que eu! Eu estou a mostrar-te coisas bonitas, para ires mais bem-disposta para o teu trabalho, mas tu não queres ver, só queres gritar comigo.
           A mãe não responde, mas fica pensativa, e vai arrumar o resto das coisas em silêncio. A menina veste-se e arranja-se sozinha, triste.
Tomas o pequeno-almoço na Avó, está bem?
Sim, está bem…vai lá para o teu trabalho…sempre trabalho, sempre trabalho, sempre trabalho…! Um dia destes acabo com o teu trabalho.
- Sem trabalho não te posso alimentar. - responde a mãe 
Mas não alimentas o meu coração triste. - suspira a menina 
O quê?
Sim, a Avó é que diz que o coração também precisa de ser alimentado…! Com amor, com carinho, atenção, sorrisos, abraços…e tu não me dás nada disso…! Só pensas em trabalho…
         A mãe fica sem resposta. Estaciona o carro em cima do passeio, em frente à casa da sogra, e larga a menina, chateada, sem lhe dar a mão, e sem dizer nada. Toca á campainha e aparece a Avó da menina, ainda nova.
Bom Dia…! - Cumprimenta a Avó sorridente 
Ela não tomou o pequeno-almoço…estou com muita pressa, e ela ainda se pôs a empatar-me com historinhas e invenções de princesas Outono, e vestidos não sei quê…! Ature-a…até logo. - responde a mãe, de forma seca e agressiva 
Bom Dia de trabalho… e vai com calma a conduzir. - recomenda a Avó 
Para si que não trabalha é fácil… - responde agressiva 
          A Avó não responde, e fica triste, a menina ainda mais.
Mãe… - chama a menina 
O que é que foi…? Que chata. - grita a mãe nervosa
Bom Dia…amo-te mãe…até logo. - diz a menina de forma ternurenta e sincera
        A mãe entra no carro e não lhe responde, nem olha mais para ela. A menina desata a chorar, muito desiludida e triste. A Avó também fica triste, abraça a neta, e acaricia-a.
- Óh Avó…a minha mãe não quer saber de mim…não me ama…não ouve o que eu digo…só pensa no trabalho, no trabalho…é só trabalho…! - diz a menina a chorar 
Claro que te ama, filha, mas está preocupada com outras coisas. - diz a Avó igualmente triste 
Eu pensei que era a coisa mais importante para ela…! - lamenta a menina a chorar 
Não és a coisa…és a pessoa mais importante para ela!
Não sou nada…
Olha…vamos tomar o pequeno-almoço. Aquilo passa-lhe. - Sugere a Avó 
        A menina entra muito triste, com a Avó. As duas preparam o pequeno-almoço, a menina sempre a chorar.
Sabes quem chega hoje? - pergunta a Avó 
A princesa Outono, com os seus vestidos de folhas…!
Sim, é mesmo…! - sorri a Avó 
Eu já a vi hoje, mal abri a janela. E mostrei-a à minha mãe, mas ela nem olhou…nem reparou…mandou calar-me, e arranjar-me depressa…e disse que eu estava a imaginar…aquelas coisas todas, feias…! - desabafa a menina 
Mas tu viste a princesa, e isso é o que importa. - diz a Avó a sorrir 
Sim. Óh Avó…porque é que a minha mãe é tão má?
Ela não é má…está só um bocado…cansada e nervosa…mas aquilo passa-lhe!
Não gosto nada de ver a minha mãe assim.  diz a menina 
Olha…um dia ela vai lembrar-se de ti…
Eu só queria que ela também alimentasse o meu coração, como tu, o Avô e as tias fazem…!
Sim, essa alimentação é muito importante, mas a outra…esta do pequeno-almoço e outras, são ainda mais…! E para isso, ela tem de trabalhar.
E nunca tem tempo para mim. - lamenta a menina, triste 
Vais ver que daqui a uns tempos…ela vai ter tempo para ti. Mas podes ter a certeza que ela ama-te muito. - garante a Avó 
Não acredito.
Sabes que festa vem aí?
A festa da folha! - diz a menina com um grande sorriso 
Isso mesmo. Temos de ver se o teu vestido do ano passado ainda te serve…mas quase de certeza que não…! - diz a Avó a sorrir 
Ai, Avó…tem de servir, se não…como é que eu vou à festa? - preocupada 
Óh rapariga…se não te servir, faz-se outro…qual é o problema?! - diz a avó às gargalhadas 
Mas dá tempo? - pergunta a menina, preocupada 
Claro que dá! - diz a Avó a rir 
Gosto tanto desta festa! E as tias vão? - comenta a menina a sorrir 
Vão, de certeza que sim (sorri).
Boa…! As minhas tias preferidas…Adoro-as…! - diz a menina feliz 
Sim, elas também te adoram…mas uma mais que a outra. (ri) 
Eu sei! Ela também é a minha preferida…mas não digas às outras. Olha, e vais fazer os sumos, e os bolos?
Sim, é mesmo, já me estava a esquecer…ajudas-me? - pergunta a Avó 
Claro, Avó. 
            A Avó e a neta tomam um belo pequeno-almoço, enquanto conversam sobre vários assuntos, e riem. No fim vão experimentar os vestidos e fazem uns ajustes, divertidas. A cidade é muito agitada, mas tem uma festa muito bonita, todos os anos, e muito típica: a festa da folha. Nessa festa, a cidade não dorme. Dia e noite, no fim-de-semana, há muita música por todo o lado, danças, os carros são desviados do centro, e as ruas são apenas para as pessoas, que se vestem e desfilam com lindos vestidos, saias, capas…feitos de folhas misturadas: umas são amarelas, outras vermelhas, outras castanhas, outras verdes, e outras de cores misturadas.         Além destas lindas roupas, come-se e bebe-se frutos da época…bebe-se sumo de uvas brancas, uvas pretas, uvas bordo, uvas roxas, uvas azuis escuras, que são muito deliciosas, vinho branco, vinho tinto…outras pessoas gostam de as comer a partir dos cachos enormes. Come-se romã, melancia, sumo de amoras, e de outras frutas. 
          Há sopa de cabaço, de abóbora, caldo-verde, cabrito, vitela, frango, batatas fritas, arroz de feijão, arroz de legumes, saladas frescas de pepino, alface, azeitonas, salpicão, chouriços, pão caseiro, broa. 
       Para a sobremesa, há bolos de noz, de amêndoas, de castanhas, castanhas assadas, pipocas, espigas de milho fritas, e muitas outras delícias da Terra. Mas uma festa não tem só comida e bebida…também, tem muita dança, cantares…gargalhadas, abraços, beijos…reencontros, encontros românticos, namoricos…muita brincadeira, muitas folhas que decoram os locais, pelo chão, e nas paredes, ou troncos...junto de poemas alusivos ao Outono, algumas escorregadelas, concursos, e prémios. 
       Todos festejam até amanhecer, até porque na segunda-feira não há aulas. Embora a menina já estivesse mais calma, e mais contente com a Avó…decide escrever uma carta ao presidente do trabalho da mãe. 
            Uma carta onde diz ao presidente, a sua tristeza com ele, por ter a sua mãe tanto tempo no trabalho, e estar a dar cabo dela! Falou-lhe nos gritos e nos nervos da mãe, disse-lhe que ficava muito triste, porque o seu coração não era alimentado, e ela ficava doente muitas vezes por causa disso…Disse tudo o que sentia, e convidou-o para ir à festa da folha. 
           Pediu-lhe que reduzisse as horas de trabalho, a carga de trabalho, e que até pusesse umas horas por dia, para terminar mais cedo, e poder estar com ela. Aconselhou-o a fazer o mesmo, para que os filhos dele, não passassem o sofrimento que ela estava a passar…e falou na importância que ela achava que tinham os pais para as crianças. Pediu à Avó que lesse, e que corrigisse. A Avó fica comovida com as palavras da neta.
Muito bem, filha…muito bonita! 
É o que eu sinto mesmo, Avó.
E está muito bem.
Sabes onde é o trabalho da mãe?
Sim.
Então…vamos lá deixar essa carta…! Pode ser?
Está bem…! - ri à gargalhada 
            A menina vai com a Avó ao trabalho da mãe, e entrega à secretária do chefe.
Eu quero vê-la entregar a carta, nas mãos desse vampi (interrompe) … quer dizer…desse senhor. - diz a menina 
            A secretária pega na carta da menina, muito intrigada, e leva-a com ela pela mão.
Sr. Dr.…tenho uma carta para si. - anuncia a secretária 
É você…? É médico…? - pergunta a menina 
Não…não sou médico. Não podem entrar aqui crianças…! - responde o presidente, surpreso 
Eu disse, mas… - diz a secretária 
Parece que quer ser despedida. - comenta o Presidente 
            A menina larga a mão da secretária, pega na carta, e avança em direção ao Presidente, a olhá-lo fixamente nos olhos.
Não vai ser despedida coisa nenhuma…fui eu que quis entrar, e esta carta fui eu que escrevi! É para si…seu monstro vampiresco, ladrão de mães… - diz a menina firme, e zangada 
O quê…? Sua pirralha…fora daqui já…vai para o infantário. - grita o presidente, nervoso 
Eu ando na escola primária. Eu respeito os mais velhos, mas você não merece qualquer respeito…! Olhe muito bem nos meus olhos…e leia a carta! Era só o que faltava! - responde a menina, zangada 
Achas que eu não tenho mais o que fazer…? - pergunta o presidente 
Leia a carta…e olhe bem para os meus olhos… - grita a menina, como se fosse uma mulher adulta 
Mas o que é que tem os teus olhos…? São escuros… - diz o presidente 
O senhor tem filhos…? - pergunta a menina 
Sim, tenho…
Não parece…! Então quando ler, lembre-se deles…eles também lhe dizem isso.
Mas que raio… - resmunga o presidente, nervoso 
Na minha frente…! Já…! Agora! Ou quer que o prenda na cadeira e leia eu...? - pergunta a menina, imponente 
            O Presidente olha a menina de cima a baixo…e ela está muito zangada. Ele lê a carta, em silêncio, e começa a ficar entalado…com as lágrimas nos olhos, e no fim chora mesmo. A secretária fica preocupada.
Doutor…está bem…? Precisa de alguma coisa…? - pergunta a secretária, preocupada 
Ai…isto nunca me aconteceu antes…traga-me um copo de água por favor…! - pede o presidente, a chorar 
E então…? - pergunta a menina 
Eu…não sei o que dizer…estou…sem palavras! - responde o presidente, a chorar 
Não acha que tenho razão? Eu estou a falar por todos os filhos, de quem trabalha aqui…e para si ainda mais…! - pergunta a menina 
Óh…! Esta carta…destroçou-me…! - admite o presidente, a chorar 
E como é que acha que os filhos se sentem…?
Nunca tinha pensado que seria assim…tão… - responde o presidente a chorar 
Mau…sim, é mesmo muito mau! (Ele bebe água) O que vai fazer agora…?
Eu…tenho de pensar…vá…saiam…! - recomenda o presidente 
            As duas saem, e a menina vai ter com a Avó. A Avó fica muito surpresa.
Esta menina…pôs o presidente a chorar…nunca o vi assim…e ela fez com que ele lesse a sua carta. - comenta a secretária 
(Todas riem)
Vamos ver se adiantou alguma coisa…obrigada…até á próxima. - diz a menina a sorrir 
- Até à próxima. E apareça nas festas da folha. 
          As duas voltam para casa. O Presidente ficou tão comovido e tão perturbado, com a carta da menina, que introduziu uma série de alterações nos horários, e na forma de trabalhar, que todos os funcionários, incluindo a sua mãe, nunca souberam porquê, nem como. 
Mas adoraram as mudanças, porque passaram a ter muito mais tempo para os filhos, muito mais calmos. 
       Quando a mãe percebeu as mudanças no seu trabalho, ficou muito mais calma, pediu desculpa à sua mãe e à filha, por ter ralhado tanto com elas, e pôde finalmente apreciar a festa da folha, a princesa Outono, as cores, os vestidos, brincar com a filha, dançar, ler e contar histórias, desenhar, fazer refeições juntas, passear e trocar mimos, principalmente porque o chefe da empresa da mãe nunca mais foi o mesmo. 
        Tornou-se mais compreensivo, mais carinhoso, mais delicado, também ele aproveitou muito mais tempo com os filhos, que não cabiam em si de felicidade. tal como a menina. 
Até fechou a empresa nos dois dias da festa da folha, onde todos se encontraram, brincaram, riram, dançaram, comeram, beberam, e divertiram-se. 

E vocês, meninos…também fazem a festa da folha?
Como recebem o Outono?
O que comem e o que bebem no Outono?
O que vêem no Outono?
A vossa cidade também é como esta?

FIM
Lálá

(3/Setembro/2013)