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sexta-feira, 11 de julho de 2025

Os cubos doces


 

    Era uma vez uma casinha de campo, onde vivia um casal com filhos, e os netos, porque os pais tinham ficado no desemprego. Havia cada vez menos flores, por causa da poluição, e dos terrenos secos, pelo calor, e falta de chuva. 

  Isto era perigoso, e estava a tornar-se um problema, porque as abelhas precisavam de pólen, mas estava a tornar-se escasso. 

    Até as abelhas estavam a ficar desesperadas, com as flores secas. Um dia aproximaram-se da janelinha da casa, espreitaram, viram que havia um pacote em cima da mesa, com alguma coisa que os habitantes punham numa chávena. 

  Quando a família saiu, deixou uma frincha na janela, aberta. Entraram, cheirou-lhes a doce, puseram uma patinha, provaram, e era mesmo doce. Eram cubinhos de açúcar. Sem pensar duas vezes, chamaram umas pelas outras, e cada uma levou um cubinho para uma árvore. 

  Não sabiam que era açúcar, mas queriam era comer. A família regressou e reparou que o pacote estava quase vazio. 

   Muito assustados, procuraram pela casa, vestígios. Não descobriram nada, entretanto, na árvore, a Abelha Rainha ficou completamente possuída, ao saber que as abelhas tinham invadido uma casa, e roubado cubos de açúcar. 

  Chamou todas, olha-as nos olhos, com um ar ameaçador, e intimidatório, que elas congelaram. Sentiu vontade de gritar, e ralhar, respirou fundo e perguntou, desiludida: 

- O que é que vocês fizeram?

- Fomos… fomos… - dizem todas com medo 

- Foram onde? - pergunta a Rainha a tentar responder de forma calma 

- Fomos…

- Onde? - grita, zangada 

- Ahhh...

- Fomos à procura de comida. 

- À procura de comida...roubada? - explode a Rainha e grita: Roubaram cubos de açúcar...numa casa! (Põe a pata na testa, respira fundo) Verdade? 

- Sim…- dizem todas encolhidas e com medo 

- Não posso acreditar! Como puderam fazer uma coisa dessas? Como se atreveram? Quem é que vos ensinou a fazer isso? - grita a Rainha 

   As abelhitas, ficam muito envergonhadas e tristes, a olhar para o chão. 

- Pensaram no que fizeram? - pergunta a Rainha - que vergonha! 

- Desculpe Rainha, é que estávamos cheias de fome. - diz uma 

- Cheias de fome...francamente! - Resmunga a Rainha 

- É que há poucas flores, infelizmente, está tudo muito seco, temos de arranjar em algum sítio. - explica outra 

- Mas precisavam de roubaaaaaaaarrrr? - grita a Rainha com raiva e de olhos muito abertos

- Aquilo é docinho. - diz outra 

- Mas não é para vocês. - ralha a Rainha 

- Não faltam flores nos arredores, basta dar corda às patas e às asas, e procurar. Eu vi uma série delas. Vão imediatamente devolver os cubos de açúcar à família e pedir desculpa. - ordena a Rainha 

- Mas...

- Mas o quê? Não há mas, nem meio mas. Rápido, e eu estou de olho. 

- E se eles nos fazem mal? 

- Problema vosso. Ninguém vos mandou mexer no que não é vosso. Vão…! Eu estou a ver. 

      As abelhitas, tristes, pegam nos cubos de açúcar que sobraram, e pousam na janela da casa. Quando a família as vê, abre a janela, e repara que têm os cubos de açúcar na mão. A abelha Rainha vai atrás. 

- Encontraram os cubos de açúcar? - pergunta a dona da casa 

     A abelha Rainha vigia, e acena com a cabeça. 

- Nós...roubamos! - diz uma envergonhada 

- Roubaram? Como assim? - pergunta a senhora 

  A abelha Rainha acena com a cabeça, e dá a entender que também não percebe 

- Viemos devolver. - diz outra 

- E pedimos desculpa. - dizem todas 

- É que aqui quase não há flores e estão secas. 

- Pois! Não admira, da maneira que está o clima. 

- Estávamos cheias de fome. Isto era docinho, comemos algumas, mas viemos devolver as outras. 

- Realmente já tínhamos reparado que faltavam cubos, mas nunca pensamos que tivessem sido vocês. - diz o Senhor 

- Pois, têm razão! - dizem todas 

- Não voltamos a fazer isso. - diz outra 

- Podemos entrar para os colocar outra vez no saco? - pergunta uma abelha 

- Claro que sim. - diz a senhora 

- Obrigada! - dizem todas 

       Os donos da casa sentem pena delas, e põe um potinho de mel à disposição na janela.

- Isto é para vocês! Feito por vocês, ou por abelhas como vocês. Compreendemos que sentem fome! Por isso, como devolveram os cubos de açúcar, podem comer à vontade, fica aqui na janela, do lado de fora, e uma tacinha com água. Temos aqui mais. 

- Não nos vão atacar, pois não? 

- Não, claro que não! - garantem as abelhas 

- Estamos envergonhadas por termos roubado estes cubos de açúcar. 

- Está tudo bem, deixem isso para lá! Devolveram, obrigada, agora têm a recompensa: este potinho à disposição, com água, e quando este acabar, há mais. - diz a senhora 

- Muito obrigada! - dizem todas as abelhas 

- Em breve haverão mais flores, para se deliciarem com o pólen delas, e a nós, com o vosso trabalho, este mel, delicioso! 

- Que bom! - gritam todas as abelhas felizes, e tocam as asinhas umas nas outras 

- Sirvam-se à vontade! Com licença...vamos jantar - diz a senhora 

- Bom jantar, e muito obrigada. - dizem todas 

- Mais uma vez, pedimos desculpa 

- Estão desculpadas. 

  Apesar de zangada, a Abelha Rainha está orgulhosa, e as abelhitas deliciam-se com o mel, e a água, enquanto a família da casa janta. Recolhem, a Abelha Rainha diz sentir-se orgulhosa delas, para não se voltar a repetir, e ficou feliz com o prémio por terem devolvido os cubos de açúcar. 

    Todos os dias vão cumprimentar, alimentar-se, e conversar com a família, de repente, formam-se violentas tempestades, com trovoada, chuva, vento, vários dias e noites seguidas. Isso abre as sementes das flores que a senhora falou, às dezenas de todas as espécies, e cores. 

    Na altura de recolher o pólen, as abelhas estavam maravilhadas com as flores, e a qualidade do pólen, até ofereciam à família, que adorava comer pólen. Agradeciam às abelhas, e estas à família. A janela passou a ser a segunda casa das abelhas, e o local de trabalho. 

 Ganharam amigos humanos, com quem conversavam e partilhavam pólen, mel, água, dedicação, carinho, até aconchego em dias frios, ou quando queriam descansar, como recompensa. Também levavam à Abelha Rainha que parecia estar a comer um banquete de príncipes, sorria orgulhosa e deliciada, tal como a restante família das abelhitas. 

    Nunca mais passaram fome.

E vocês, acham que a Abelha Rainha teve razão? 

E as abelhitas, fizeram bem ter pedido desculpa e devolver os cubos de açúcar? 

Vocês faziam o mesmo que a senhora da casa? Sim, não, porquê? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                                                                            Fim 

                                                                       Lara Rocha   

                                                                     11/Julho/2025 




terça-feira, 2 de abril de 2024

O tornado arco-íris

Era uma vez um tufão pequenino, com as cores do arco-íris. Ele queria ser visto, e tinha de cumprir as ordens da Natureza, quando ela mandava aparecer, mas sentia-se envergonhado e nervoso porque ainda era pequenino. 
    Ainda não conhecia a sua força destruidora, mas sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Já tinha ouvido falar, e sentia medo.
    Não queria magoar as pessoas da Terra, nem destruir as suas coisas que lhes fazem tanta falta. A Mãe Natureza mandou-o aparecer na cidade, e mesmo sem querer, lá foi ele. 
    Surgiu por trás de um monte na cidade, como um pequenino arco-íris, com as suas lindas cores, ondulando, e dançando ao sabor do vento, que era muito mais forte. 
   O pequenino tornado estava tímido e com medo, por isso o arco-íris não aumentou. O vento mais forte do que ele ri à gargalhada e comenta: 

- Pareces uma chama insignificante! A abanar com o meu sopro! 

  Um trovão estrondoso rasga as nuvens, o vento forte treme e fica gelado. 

- Mas o que é isto? O vento que também já foi deste tamanho, armado em forte, só porque agora é maior, a gozar com o mais fraco?! Achas bem? Tu também tens medo de mim! Tiveste medo, das primeiras vezes que apareceste na cidade...parece que já te esqueceste, e eu não te humilhei, pois não? Nem humilho!  

    O vento maior não sabe onde se meter com a vergonha, e tenta fugir. 

- Nem te atrevas a fugir, que eu vou atrás de ti. Responde! Assume que sentias medo, e sentes medo de mim, em vez de fugir. - grita o trovão

- Sim, é verdade...senti medo, e sinto. Desculpe… - responde o vento 

- Não é a mim que tens de pedir desculpa, é ao pequeno tornado. Não vês que ele ainda é pequeno? Tu nunca foste deste tamanho? Deste tamanho não sentias medo…? (ri) Óh, que valentão que eras, claro! 

- Desculpa, pequeno tornado! 

- Como és bonito, pequeno tornado. Não fiques envergonhado! Em breve, vais ser tão forte como ele! Tens umas cores maravilhosas, para encantar as pessoas da cidade. Ele é invisível, só o sentem. - diz o trovão 

- Obrigado! Mas eles não me veem. - diz o tornado envergonhado 

- Eles agora veem mais computadores e telemóveis à frente, mas ainda há quem repare em ti, principalmente os mais pequenitos, e adultos. - diz o trovão 

- Ele disse que eu parecia uma chama insignificante, a abanar com o sopro dele… - queixa-se o tornado  

- Eu ouvi. Uma chama a ondular com o vento também se vê, e é bonito. Não lhe ligues! És pequenino e envergonhado, não tem problema nenhum. Um dia destes vais ser grande e extrovertido, todos vão reparar na tua beleza. - incentiva o trovão 

- Ai, que vergonha. 

- Vergonha nada! Isso é só no início, mas habituas-te. Tenho a certeza! 

(O pequenito tornado sorri)

- Ai de ti que voltes a desvalorizar o pequeno! Já sabes como é que eu sou! - avisa o trovão 

- Sim, senhor. Sei muito bem. 

- Principalmente, quando vejo injustiças como esta, e mais comportamentos, por isso…! 

- Sim, Sr. Trovão. 

- Olha que eu estou atento. Faz a tua tarefa, sem comentários infelizes. 

- Combinado! 

    O trovão recolhe, e fica de orelha levantada. O furacão sopra mais forte e o pequeno tornado volta a abanar como se fosse uma chama. Algumas pessoas na cidade reparam nele, e fotografam-no.

- Ai, que vergonha, tanta gente a olhar por mim, e a fotografar-me! Será que estou apresentável, e bem arranjado? 

- Queres ser visto, e tens vergonha? - comenta o furacão a rir à gargalhada. 

    O trovão dispara outra vez, as pessoas na cidade gritam, umas fogem assustadas, outras tentam proteger-se, porque cai um chuveiro fenomenal, com saraiva à mistura.

- Outra vez? - pergunta o trovão furioso - Estás muito bonito, pequeno! Olha como tiveste pessoas a olhar para ti? Até te fotografaram...e ficaram a ver se crescias. Ainda não cresceste, mas cumpriste o teu papel: encantar as pessoas da cidade! Parabéns! Não sintas vergonha por ainda seres pequeno! Tens tanta beleza como um arco-íris grande. Não tenhas pressa de crescer. És na mesma apreciado, ou ainda mais, por seres como és! As pessoas gostam de ver arco-íris, estão mais habituadas aos grandes, mas é bom verem pequeninos, enche-os de ternura, que eles bem precisam. Até te fotografaram, eu percebi que ficaram encantados. Ainda estão a olhar para ti, vejo daqui o brilho nos seus olhos e sorrisos, com ternura. Estão deliciados, como se estivessem a ver uma criança, que és! Linda criança! 

- Obrigado! - diz o tornado a sorrir 

 A Mãe Natureza está orgulhosa, e manda o pequeno tornado para casa, onde os seus pais também sentem orgulho por ele ter chamado a atenção. 

- Muito bem, filho! Continua...para a próxima estarás maior, mas para já, valeu a pena! O trovão tem toda a razão...lembra-te das palavras dele. 

  Passados uns dias, o pequeno tornado, com as cores do arco-íris, ganha força, cresce, e a Mãe Natureza manda-o para a cidade. 

 Mesmo ainda com alguma vergonha, mas maior, ele lembrou-se das palavras do trovão, e aparece por trás do monte, até meio círculo, vaidoso.  

 Os habitantes ficam encantados, fotografam, sorriem, soltam exclamações de surpresa, e o tornado recolhe, todos ficam na expectativa para ver se vai desaparecer. 

- Anda cá, vamos brincar com eles…! - diz o furacão

  O tornado arco-íris volta a parecer uma chama ondulante com o vento, mas desta vez, com a ajuda do furacão, faz redemoinho, e começa a subir na vertical, com círculos grandes, em movimento.

 Os habitantes nunca tinham visto tal coisa, ficam assustados porque o vento era fortíssimo, o céu estava muito escuro, as nuvens muito pesadas. 

  Todos repararam, fotografaram, sorriram ao ver aqueles círculos, embora pensassem que se estava a formar um tornado, ficaram a olhar, pareciam hipnotizados. 

- Que bonito! 

- Uau! 

- Nunca tinha visto nada disto! 

- Parece um tornado, mas tem as cores do arco-íris! 

- É mágico!

- Ááááhhhh...mesmo bonito! 

   Todos aplaudem, e os que param para ver: 

- Gratidão, Natureza, por este presente! 

  Pouco depois, o tornado arco-íris desaparece. Quando regressa a casa, todos dizem: 

- Estamos orgulhosos de ti. 

- Obrigada! Obrigado! 

   Partilha a sua experiência com todos, sorriem, continua a crescer, orgulhoso e vaidoso. A Natureza manda-o aparecer, quando ele já está com o triplo do tamanho, e todos repararam na sua beleza, o arco-íris, como o conhecemos agora. 

                              Fim 

                           Lara Rocha 

                            2/Abril/2024 


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Os grãozinhos de areia

foto de Lara Rocha 

Era uma vez milhares de grãozinhos de areia, muito finos, de muitas cores diferentes, que foram apanhados na mesma praia, pintados com as mesmas tintas, e viviam numa ampulheta que foi levada para um grande palácio onde viviam reis com as suas princesinhas e príncipes.
Os pequenos foram ensinados pelos pais a serem muito competitivos, e a lutarem para serem os melhores que os outros. Esta ideia fixa dos reis deixava as crianças muito nervosas e insuportáveis quando perdiam, quando se atrasavam, quando alguém era melhor que eles.
Para fazer os trabalhos de casa, e qualquer outra pequena tarefa, pegavam nas ampulhetas, cada um tinha a sua, e corriam como selvagens, faziam tudo a correr, tudo mal, caiam muitas vezes, gritavam…só para ver as ampulhetas a girar.
Os grãozinhos andavam sempre a correr de um lado para o outro, centenas de vezes durante o dia, e de noite até as crianças dormirem. Nos primeiros tempo em que foram para o palacete ainda achavam engraçado e divertiam-se muito, mas estavam a ficar cansadas e nervosas como as crianças.
Conversaram a combinaram que passariam a andar mais devagar para ensinar as crianças a andarem também mais devagar, e assim fizeram. No dia seguinte, logo de manhã começa a correria das crianças, e pegam nas ampulhetas.
Os grãozinhos de areias dão as mãos num grande círculo, cruzam-se uns com os outros, e deixam-se cair para o outro lado da ampulheta muito devagar.
As crianças ficam completamente loucas, irritam-se, gritam, abanam as ampulhetas, e atiram com elas para o chão. As ampulhetas não partem. Todos se encolhem, e as crianças exigem umas ampulhetas novas, porque acham que elas estão estragadas…andaram muito devagar.
Os reis fizeram-lhes a vontade. Levaram essas ampulhetas para o armazém do senhor caracol que recolhe coisas estragadas, e deixam-nas lá. Na sua lentidão habitual, fica muito surpreso a olhar para as ampulhetas.
- Mas onde é que isto está estragado? Não vejo nada.
Experimenta virá-las e elas correm normalmente.
- Porque é que eles me deixaram aqui isto?
Das areias sai uma borboleta, e atravessa o vidro de uma ampulheta.
- Áh! Estavas aí? Como é que aguentavas aí tanto peso? – Pergunta o caracol
A borboleta sorri:
- Fui enviada por elas, e trago a resposta à tua pergunta.
- Por quem?
- Pelas areias das ampulhetas.
- Porque é que elas foram deixadas aqui? Não vejo nada estragado.
- Pois, e não estão. Mas fizeram de propósito para ver se ensinavam os pequenos apressados a andar mais devagar, e a não serem tão insuportáveis…
- Mas isso era uma excelente ideia.
- Era. Combinaram passar para o outro lado mais devagar, mas os pequenos não perceberam. Elas estavam cansadas de tanto andar de um lado para o outro.
- Claro. Coitadas! Vou libertá-las daquele vidro.
O caracol abre as ampulhetas e os grãozinhos de areia saem felizes para um lago sem água, arejado, e conversam alegremente com o caracol. Todos concordam que o que os reis estavam a fazer com os pequenos era terrível, e mais cedo ou mais tarde, eles iam parar e andar mais devagar.
Foi mesmo isso…uns dias depois ficaram doentes, põe serem tão nervosos, a cabecinha começou a funcionar mal, e tiveram mesmo de começar a andar muito mais devagar porque se andassem depressa, ou se se enervassem, podia ser muito perigoso para a saúde deles. Até deixaram de ligar às ampulhetas e aprenderam a ser mais calmos.
Só nessa altura é que se lembraram da forma como as areias das ampulhetas estavam a andar devagar. A borboleta entra no quarto dos pequenos e diz-lhes:
- Deviam ter aprendido com as areias das ampulhetas. Elas estavam a andar devagar, para vos ensinar a fazer o mesmo, mas vocês deitaram-nas fora. Elas estavam cansadas de andar tão rápido, e vocês também já deviam estar.
A borboleta e as crianças têm uma longa conversa, explica a importância de andar mais devagar, para apreciar as coisas bonitas à nossa volta, para vermos e conhecermos muito bem o nosso mundo, e toda a natureza, para termos mais saúde, e não ficarmos nervosos… e realmente…as crianças perceberam que as areias tinham razão. Foi o que fizeram desde esse dia em diante e melhoraram a sua saúde.
Que grande lição dos grãozinhos de areia, não foi?

                                               FIM
                                               Lara Rocha 
                                    (13/Abril/2016)

   

sexta-feira, 25 de março de 2016

A vingança dos agricultores (Adultos)

NARRADORA - O sol ainda nem nasceu…o dia está a clarear e eles lá vão para o campo. Os lavradores com as suas famílias, as crianças, e os utensílios de trabalho. Os mais pequeninos arrastam os pés, e andam amuados; coitadinhos…ainda estão a dormir em pé. 
CARACOL 1 – Que crueldade! Pôr estas crianças tão pequenas a trabalhar.
CARACOL 2 – Realmente…as criaturas mal podem com os instrumentos.
FLOR 1 – Eu acho muito bem que trabalhem desde pequeninos, em vez de andarem a fazer asneiras.
FLOR 2 – Também acho. Principalmente a arrancar flores. O raio da canalha só pensa em fazer mal.
PASSARINHO – Claro. Ao menos não passam os dias de papo para o ar, a rastejar…
CARACOL 1 (ofendido) – Essa piada foi para nós?
FLOR 1 - Mas claro que foi. Está aqui mais alguém que rasteja e que não faz nada?
Todos riem. 
CARACOL 2 – Olha, flor convencida…sabes qual é a tua sorte? É que como me dás de beber e às vezes serves de abrigo para mim, não te vou mal tratar, porque se não, arrancava – te logo as pétalas todas.
FLOR 1 – Ai, que palerma. Hás – de ver se te deixarei subir mais e abrigar – te…
CARACOL 2 – Mázona.
FLORES –  Cala-te.
PASSARINHO 2 – Estou totalmente de acordo com as flores, e com a minha amiga. É que estando ocupados estão a fazer bem à sua saúde, porque respiram ar puro e arejam a cabeça. Além disso, ajudam as famílias e outras pessoas, e deixam – nos em paz. Não andam a dar água sem caneco.
CARACOL 1 (irónico) – Quem é que anda a dar água?
CARACOL 2 (irónico) – E é preciso caneco para beber?
CARACOL 1 – Eu se tenho sede, bebo directamente, por uma palhinha ou da bica…preciso lá de algum caneco…
As flores riem, os passarinhos abanam as cabeças.  
PASSARINHO 1 – Estas crianças vão dar gente!
CARACOL 1 – E elas são o quê? Calhaus ou flores…?
Os caracóis riem – se.
PASSARINHOS – Ai, que ignorância…
CARACOL 1 – Amigos, vou indo.
CARACOL 2 – Onde vais?
CARACOL 1 – Vou visitar uma amiga.
CARACOL 2 – Eu conheço essa amiga?
CARACOL 1 – Conheces…é a Didas.
CARACOL 2 – Será que posso ir contigo?
CARACOL 1 – Sim. Anda daí.
PASSARINHO 1 (IRÓNICO) – Olhem que trabalho duro…visitar amigas.
PASSARINHO 2 (IRÓNICO) – Se tivessem que procurar comida para os filhos preocupavam – se menos com as visitas a amigas.
PASSARINHO 1 – Também acho.
PASSARINHO 2 – Coitadinhas das crianças.
FLOR 1 – Eu acho muito bem que trabalhem, mas realmente é muito cedo para estarem acordadas…o sol ainda mal nasceu.
FLOR 2 – Sim, isso é verdade.
PASSARINHO 1 – É que eles têm escola de tarde.
FLORES – Ááááhhh…
NARRADORA - Pois é. Nesta aldeia e em muitas outras, há muitos meninos da vossa idade, e mais pequeninos que tem de sair do quentinho e conforto das caminhas e dos pijaminhas para ajudar os papás. É duro!  Perguntem aos vossos avós…no tempo deles também era assim. Vocês têm mais sorte.  Enquanto o casal de lavradores começa a trabalhar com os instrumentos, passam as lavadeiras com baldes cheios de roupa, e outras com baldes e cestos à cabeça, a cantarolar e a falar alegremente umas com as outras.  Pousam as coisas no chão e começam a lavar a roupa.  São muito coscuvilheiras.  A claridade do dia aumenta ligeiramente.
Elas esfregam as roupas no tanque, batem com a roupa na pedra…
GINA (suspira e boceja escandalosamente) – Aaaaiiii…
TODAS – O que foi mulher?
DIANA – Dói – te alguma coisa?
GINA – Ai, dói – me muita coisa…
TODAS – Uuuiiii…
ESTELA – O que te dói?
GINA (suspira e boceja) - Aiiii…é melhor não saberes o que me dói. Só te digo que me dói muita coisa.
ARLETE - Óh, mulher, diz lá…o que te dói e porque é que te dói?!
GINA – Tive uma noite muito agitada.
TODAS – Ááááhhh…dormiste mal?
GINA – Sim.
JOANA – Porquê? Estás doente?
GINA – É. Mais ou menos. (p.c) Fui atacada…
        Todas estremecem e dizem em coro:
TODAS (assustadas) - Ai…que horror… (benzem – se) por quem?
GINA – Pelo meu homem.
TODAS – O quê? Ele bateu – te?
GINA (sorri) – É…bateu – me…com uma certa coisa…na alma…!
Benzem – se, estremecem e todas riem maliciosamente:
TODAS – Áhhh…
    Teresa sorri e responde maliciosa:
TERESA – Essas batidas são boas…
JOANA (INGÉNUA) – Mas, ele bateu – te e tu ainda gostas?
    Márcia e Teresa comentam maliciosas e risonhas:
MÁRCIA (sorri) – Estas batidas são especiais…
TERESA – Ai, eu já não tenho destas tareias há muito.
JOANA – Não sei como é que permitem que o vosso marido vos bata.
Todas riem e respondem em coro:
TODAS – Santa ignorância.
DIANA (risos maliciosos) – Quando chegar a tua vez vais ver como é bom.
   Todas se abanam a rir e comentam:
TODAS – Uh…se é…!
GINA – É melhor ficarmos por aqui…só vos digo…ele estava assanhado…Uuuiiii…arrepio – me toda só de me lembrar.
ESTELA – É por isso que já tens uma ninhada…sempre que ele fica assanhado, tu também ficas…
Riem, Joana continua na sua inocência, e todas gozam de fininho
JOANA – Ááááhhh…isso é uma doença?
TODAS (a rir) - É…
JOANA – E pega – se?
TODAS (a rir) - Pega – se.
DIANA - Olha, às vezes até faz crescer certas coisas…!
   Todas riem e confirmam. Joana não entende as piadas e leva muito a sério o que dizem:
JOANA - Mas…o que é que faz crescer…? Se é uma doença, e ainda por cima que se pega não quero ter nenhum homem…! Vocês têm essa doença…Uuuiiii…que nojo…
    Todas riem.  
ARLETE – É tão inocente…coitadinha…é melhor não desenvolvermos mais esta conversa, se não, ainda desencaminhamos a rapariga.
Benzem – se, e riem. Diana faz um convite, porque ficou a arder em curiosidade:
DIANA – Olha…hoje apareçam na minha casa, para um chazinho, e assim contas – nos como foi, está bem Gina?
   Todas concordam, e todas estão muito curiosas, e respondem em coro:
TODAS – Combinado.
JOANA – E eu?
DIANA – Tu…? Vais com o gado para o campo.
TERESA - Ou vais rezar o tercinho…
JOANA - Sim, ou então fazer os bordados da Avó…! Com todo o respeito, porque eu gosto muito dos bordados e da tua Avó…
DIANA - Pois, ou brincar com as tuas bonequinhas…!
JOANA – Que invejosa, nem me convidas para o chá.
DIANA – Essa agora… (riem) Tu és canalha. Este chá é para adultos.
ESTELA – Ai, até me dá calafrios.
GINA (ri-se) - Segura – te mulher! (p.c, cheira) Huummm…que cheirinho é este?
   Todas cheiram no ar e respondem em coro:
TODAS – Huummm… que bom!
   Estela tenta adivinhar a que cheira:
ESTELA – Parece que está alguém a fazer um bolo, ou um chá…
TODAS – Sim…!
ARLETE – Não, esperem, é o meu sabonete novo.
TODAS – Ááááhhh…
ESTELA – E onde arranjaste?
ARLETE – Foram os meus primos de França que trouxeram.
TODAS – Ááááhhh…
        Diana lembra-se que viu um homem à porta de casa da Arlete e associa: 
DIANA – Ááááhhh…então o homem que vi à tua porta era teu primo?
        Todas benzem-se, sorriem:
TODAS – Um homem…?!
Benzem – se outra vez maliciosas. Arlete ainda incendeia mais a conversa, maliciosa:
ARLETE – Sim, ela tinha um homem à porta… (abana – se, suspira) …é daqueles homens que nos fazem ter pensamentos…
TODAS – Pensamentos…?
        Joana muito enojada, com a sua inocência pergunta:
– Ai, isso é uma doença…?
        Elas não entenderam a pergunta de Joana e formulam outra pergunta: 
JOANA – Uma doença?
GINA – O que é que é uma doença…?
JOANA (inocente) – Isso…pensamentos…
TODAS – Não, mulher.  
TERESA – Pensamentos, …é aquilo que temos na cabeça…
JOANA – Mas…então a que é que chamam cabelos…afinal penteamos… pensamentos…?
TODAS – Santa ignorância…!
Benzem – se, Márcia está a gostar tanto da conversa que quer saber mais:
MÁRCIA – Mas, conta filha, que pensamentos é que ele te faz ter…?
   Arlete suspira, abana-se com calores e responde:
ARLETE – Aiiii…pensamentos…pecaminosos…
   Todas sorriem, abanam-se com calor e dizem em coro:
– Aaaaaaaiiiiiii….
Benzem – se, estremecem e Arlete acrescenta sorridente e maliciosa:
ARLETE – Uuuuuuiiii….que pedaço de mau caminho…
    Ficam todas entusiasmadas com a conversa, riem, suspiram, abanam-se.  
GINA – Ai, mulher, afasta – te dele…não olhes mais para ele…
MÁRCIA – E ele é casado?
    Arlete ri-se 
ARLETE – Não. Tenho que admitir que ele é bem jeitoso. Mas é meu primo…
    Estela responde lamentando-se:
ESTELA – Há gente com sorte! Eu não tenho nenhum primo jeitoso...
MÁRCIA - Ai mulher, tu és muito estranha…olha que os teus primos que conheço são bem jeitosos…!
TODAS – Eu quero conhece – lo.
    Teresa sorri maliciosa e pergunta a Arlete:
TERESA – Tu não lhe lavas a roupa?
    Arlete responde a rir:
ARLETE – Não faltava mais nada…
DIANA – Ai, até tu já estás com pensamentos pecaminosos.
ARLETE – Então quando o vires mesmo…vai – te subir assim umas febres…até te vai faltar o ar…
Todas estremecem, riem.  
DIANA – Estou toda arrepiada.
    Joana está preocupada e na sua inocência pergunta:
JOANA – Essas febres pegam – se?
TODAS – Pegam – se.
ESTELA – É melhor não te aproximares desse homem, se não também ficas com febre.
Todas riem da ignorância de Joana.  
GINA – Olha que o outro dia andavam aqui uns homens…rapazes novos…que eu…se não fosse casada, e se não amasse o meu marido…chamava – lhes um figo…!
Ri maliciosa, as outras também riem.  
DIANA – Podias - nos ter chamado!
JOANA – É melhor irmos todas à igreja…
TODAS – Vai tu.
JOANA – Eu vou só ao Domingo, mas rezo todos os dias…para que precisamos de ir agora à igreja? Mas devíamos ir para se confessarem.
ESTELA – Eu não tenho nenhum pecado…
TODAS – Nem eu.
   Estela, Gina, Teresa e Arlete brincam com a situação mas falam muito sérias aproveitando-se da inocência de Joana:
ESTELA – É melhor não irmos, se não ainda pomos o padre tolinho da cabeça.
GINA - Ele é homem…
TERESA – Mas não pode ter mulheres…
ARLETE – Ele é padre…mas não é santo com certeza!
JOANA – Pois é homem, e não pode ter mulheres, porque os padres não podem casar.
GINA – Acorda mulher…! Tu não sabes o que eles fazem por trás. É claro que também pecam.
MÁRCIA – As carnes masculinas são fracas…
JOANA – Carnes masculinas…o que é isso…? É algum animal…?
TODAS – Éé… (p.c) Santa Ignorância.
JOANA – Eu não conheço…a imagem da Santa Ignorância, nem a carne masculina…!
Todas riem, e continuam a lavar roupa, e a falar, e todas pedem o sabão emprestado:
TODAS – Empresta – me esse sabão…!
Escurece o palco. Acende-se luz amarela no palco, para dar a entender que é de dia.
NARRADORA - O dia nasceu.  Esta aldeia costuma receber muitos visitantes, todos os dias, mas os seus habitantes não se deixam intimidar. Cada um tem a sua vida, e trata das suas tarefas.  Os pastorinhos vão a caminho da escola, a falar alegremente, e cruzam – se com os lenhadores e outros homens desconhecidos. Os lenhadores cumprimentam os meninos:
LENHADORES – Bom dia meninos.
TODOS – Bom dia!  
LENHADOR 1 – Vão para a escola?
TODOS – Sim.
AFONSINHO (apressado) – Até logo.
TODOS – Até logo.
LENHADOR 3 – Vão com juízo.
NARRADORA - Os meninos seguem para a escola. Os lenhadores fazem o seu trabalho, que é ver árvores e rachar troncos para construções dos anões.  Os homens desconhecidos que estão com eles têm um ar estranho. Olham para todo o lado, fazem uns registos, e quando os lenhadores se desviam deles…Umas ovelhinhas estão a pastar, uns cogumelos repousam nuns troncos de árvore, e uma águia sobrevoa a área. Eles ouvem tudo.
HOMEM 1 – Hum, aqui temos muita coisa para queimar!
HOMEM 2 – Vamos ficar milionários com tanto que vamos queimar. Vai ser fabuloso.
HOMEM 3 – Por mim, isto ia já tudo pelos ares.
HOMEM 4 – Nem penses. Temos de esperar ordens superiores.
HOMEM 1 – Já estou em pulgas…
HOMEM 2 – Por onde vamos começar?
HOMEM 3 – Eu começava já por aqui.
HOMEM 4 – Estás mesmo ansioso.
HOMEM 1 – Vamos passear por aí…e depois estudamos a coisa.
HOMEM 2 – De hoje não passa com certeza.
NARRADORA - Todos batem palmas, e andam pela floresta.  Grandes malvados. Estão a tramar alguma.  Os cogumelos estão em pânico e confusos. Chamam a águia. A águia aterra junto deles.  
ÁGUIA – Então amigos? Precisam de mim?
COGUMELOS – Estamos muito preocupados…
COGUMELO 1 – Ouviste a conversa deles?
ÁGUIA – Sim…o que é que tem? É uma conversa normal de homens que trabalham na floresta.
    Os cogumelos explicam e mostram grande inquietação e preocupação: 
COGUMELO 1 – Eu não achei nada normal…
ÁGUIA – Com certeza não ouviste bem!
COGUMELO 2 – Eles estavam a dizer que iam queimar isto tudo…
COGUMELO 3 – Sim, e que iam ser ricos…
COGUMELO 4 – Um deles disse que por ele queimava isto tudo naquele momento…há bocadinho.
     A Águia não percebeu perigo e tenta acalmar os cogumelos:
ÁGUIA – Claro, eles todos os dias cortam e queimam árvores para os seus trabalhos, e devem ganhar muito dinheiro, pelo que sei.
    Mas outros dois cogumelos não estão descansados e tentam alertar a Águia:
COGUMELO 5 – Eles disseram que não passava de hoje…
COGUMELO 6– E que estavam à espera de ordens superiores.
   A Águia continua sem perceber onde está o perigo:
ÁGUIA – Mas…vocês estão tão ansiosos…não percebo porquê. Não senti perigo.
Passa o pastorinho Afonso, a assobiar e cumprimenta:
AFONSINHO – Bom dia.
TODOS – Bom dia.
Um cogumelo quer saber se são eles que estão a exagerar, uma vez que a Águia não sentiu perigo, ou se mais alguém se apercebeu de movimentações estranhas.  
COGUMELO 1 – Olha, óh rapaz…estás com pressa?
AFONSINHO – Não muita, as ovelhas estão aqui. Porquê?
COGUMELOS – Queremos falar contigo.
COGUMELO 2 – Estamos aqui com uma dúvida. Ouvimos umas coisas estranhas, de uns homens estranhos.
    Afonso fica espantado e não percebe do que estão a falar:
AFONSINHO – Ãhhh…?
    A Águia ri-se e assegura:
ÁGUIA – Eles estão a exagerar…hoje devem ter acordado de rabo para a lua.
A águia e o Afonsinho riem, mas os cogumelos reforçam a preocupação:
COGUMELO 3 – Isto é muito sério. 
COGUMELO 4 – Ouve – nos rapaz, por favor.
AFONSINHO – Está bem. Digam lá…
COGUMELO 5 – Uns homens estavam a dizer que vão queimar isto tudo hoje, e vão ficar milionários com isso.
   A Águia clarifica, o rapaz está do lado da Águia.  
ÁGUIA  – Eles referem – se aos lenhadores.
AFONSINHO – Mas isso faz parte do trabalho dos lenhadores.
ÁGUIA – Eu disse – lhes!
COGUMELO 6 – Mas estes eram muito estranhos.
COGUMELO 2 – Eu acho que deviam levar isto muito a sério.
COGUMELO 1 – Claro, nós conhecemos muitas histórias de outros cogumelos que vivem noutros sítios, onde andaram lá homens muito estranhos, com a mesma conversa e no fim, esses homens queimaram a floresta.
    O Afonso não compreende porque razão os lenhadores fariam tal crueldade e pergunta:
AFONSINHO – Mas…por que razão é que eles iam fazer isso?
COGUMELO 4 – Para ficar ricos como eles disseram…
A águia e o Afonsinho riem, Afonsinho assegura e tenta tranquilizar:
AFONSINHO (a rir) -  Não se preocupem, isso não vai acontecer.
Passa a pastorinha Luciana aos gritos, muito assustada, parece que ainda está a dormir:
LUCIANA - Áááááááááááhhhhhh…socorro…socorro…socorro…incêndio…ai, ai, ai…temos de fugir…caso contrário viramos churrasco.
Olham – se todos. O Afonsinho agarra – a, ela manda um grito, abre os olhos muito assustada e pergunta:
LUCIANA – Afonsinho…o que estás a fazer…eu estava contigo?
    O Afonsinho está a achar aquela reacção muito estranha e responde:
AFONSINHO – Não. Apareceste aqui aos gritos…a dizer que tínhamos de fugir porque havia um incêndio…se não virávamos churrasco.
    A Pastorinha lembra-se do seu pesadelo e explica:
LUCIANA – Ai…eu estava a dormir e tive um pesadelo horrível. Espero que nunca aconteça…
    A Águia ficou incomodada com os gritos, e sente-se estranha, como os Cogumelos:
ÁGUIA – Não sei porquê…arrepiei – me.
COGUMELOS – Eu também.
    Afonsinho tranquiliza a amiga:
AFONSINHO – Deixa lá…esquece o pesadelo. Já estás acordada e não há nenhum incêndio.
LUCIANA – Sim, ainda bem. Bem, vou voltar para as minhas ovelhas.
AFONSINHO – Eu vou contigo.
LUCIANA – Está bem.
OS DOIS – Até logo.
TODOS – Até logo.
As crianças seguem. A Águia partilha uma coisa que a incomoda:
ÁGUIA – Esta pastorinha é muito misteriosa. Eu tenho medo dos sonhos dela…quer dizer, pesadelos.
COGUMELOS – Porquê?
ÁGUIA – Alguns já aconteceram mesmo.
Os cogumelos estremecem, e um Cogumelo arrepia-se com o que acabou de ouvir:
COGUMELO 5 – Agora quem ficou arrepiado fui eu.
    A Águia tenta acalmar-se:
ÁGUIA – Bem, esperemos que este não se concretize. Qualquer coisa estou por aqui. Até logo.
TODOS – Até logo.
NARRADORA - Está um dia abrasador. Tudo decorre com normalidade durante o dia, tudo está tranquilo. Infelizmente…a paz é interrompida quando é noite cerrada. A pastorinha e os cogumelos tinham razão. Aqueles malditos homens pegam fogo à mata. Os cogumelos acordam sobressaltados com a claridade, e com o calor à sua volta.
Um Cogumelo ensonado comenta:
COGUMELO 3 – O que é isto…? Está tanto calor…
NARRADORA - Abre bem os olhos, acorda os amigos, saem do tronco muito aflitos e assustadíssimos, gritam, começam a bater às portas das árvores onde vivem os anões, o fogo alastra rapidamente (aparece uma imagem de um incêndio).  A águia pia alto, os passarinhos fogem das árvores, os coelhos saem das tocas, as flores gritam, choram, encolhem – se, muito aflitas, tossem, sacodem – se, tentam sair da terra, os cães ladram desvairados, uivam, soltam – se das correias.  Todas as pessoas acordam sobressaltados, as mulheres pegam nos filhos e protegem – nos, em barracos de pedra pegados às casas, choram abraçadas aos filhos, rezam.  Os homens vão a correr para o monte com mangueiras, baldes, toda a água que encontram, gritam uns com os outros, abafam o fogo, e os malditos dos incendiários às gargalhadas, a brindar e a ver o fogo. Conseguem apagar o incêndio. Estão completamente exaustos. Homens, mulheres, filhos, os animais e as flores.  As mulheres batem palmas aliviadas e levam água para os homens beberem, e as lavadeiras levam água em baldes e toalhas para eles se limparem. Eles estão a arfar, a soar, uns encostados, outros deitados. As famílias abraçam – se, eles bebem e limpam – se. Estão todos em estado de choque. Nem querem acreditar no que aconteceu. Num sítio seguro estão os incendiários a festejar.  Uma lavradeira muito assustada procura explicações:
LAVRADEIRA 1 - O que é que aconteceu?
TODOS – Uma tragédia.
   Um lavrador nervoso, chora, ainda assustado.  
LAVRADOR 1 – O que fizemos para merecer isto?
TODOS – Nada.
JOANA – Sempre tratamos bem da natureza…não sei porque é que ela nos castigou desta maneira.
ESTELA – Não digas disparates. Não foi a natureza que nos castigou.
TODAS – Claro que não.   
ARLETE - Ela não pega fogo a ela própria só para nos castigar.
GINA – Pois não! Ela quando nos quer castigar, manda – nos tempestades, nunca fogo!
LAVRADOR 3 – A natureza não tem culpa nenhuma. Foi mão criminosa!
TODOS – Ãh?
LAVRADOR 4 – Claro, só pode ter sido alguém que pegou fogo.
TODOS – Mas quem?
    A Pastorinha Luciana lembra o seu pesadelo a chorar:
LUCIANA – O meu sonho…eu sonhei que tinha havido um incêndio.
        Outros lavradores prometem vingança:
LAVRADOR 5 – Isto não vai ficar assim.
 LAVRADOR 6 – Áh pois não. Eu vou agora mesmo ver se encontro alguém suspeito por aí…
TODOS – Nós vamos contigo!
TODAS – Nós também.
TODOS – Não.  
LAVRADOR 6 - Vocês ficam com os nossos filhos.  
LAVRADOR 1 - Isto não é trabalho para mulheres…é muito perigoso.
As mulheres ficam ofendidas, e os lavradores combinam entre si o plano:
LAVRADOR 1 – Nós vamos encontrá – los, com certeza.
LAVRADOR 2 – Não se preocupem connosco.
LAVRADOR 3 – Aguardem aqui por nós.
LAVRADOR 4 – Podem ir para casa.  
LAVRADOR 5 - Não precisam de esperar por nós aqui…as crianças tem de dormir.
LAVRADEIRA 1 – Vão com cuidado.   
Eles viram costas, as mulheres olham – se.  
ESTELA – Vocês ouviram o que eles disseram?
TODAS – Sim.
        Arlete, Gina e Teresa descascam nos homens:
ARLETE – Convencidos.
GINA – Grandes ingratos.
TERESA – Têm a mania que são os melhores, e nós é que somos as fracas…
ARLETE – Alguém vai para casa?
ESTELA – Pois eu não fico aqui.  
GINA - Hei – de apanhar algum, tenho a certeza. E desgraçado do que me apanhar pela frente.
TERESA – Eu também não fico aqui.
JOANA – Eu vou para casa. Eles disseram que é perigoso…e que não é trabalho para nós.
MÁRCIA – Até parece que o que eles dizem é sagrado.
Riem, e respondem em coro:
TODAS – Vai.
JOANA – Até amanhã.
TODAS – Até amanhã.
Joana sai. As outras olham – se, Diana comenta, e Márcia quer ter a certeza que estão juntas nisto:
DIANA - Também esta, ir ou não é a mesma coisa.
MÁRCIA – Mais alguma vai para casa, ou vamos provar àqueles machistas que também temos os… vocês sabem… quer dizer…que também é trabalho para nós…apanhar aqueles malditos?
TODAS – Estamos contigo.
GINA – Eles ainda vão engolir um sapo…
TODAS - Pois com certeza!
ARLETE – E bem grande…! Talvez seja melhor dividirmo-nos não?  
TODAS – Sim.
DIANA – Umas por aqui, outras por ali.
TODAS – Certo.  
MÁRCIA – Encontramo-nos aqui.
TODAS – Combinado.
TERESA (ORGULHOSA) – Vamos ver quem é que apanha…
NARRADORA - Lá vão elas: as lavadeiras e as agricultoras, com os filhos, umas para um lado, outras para outro, procuram tudo, até que todas, sem combinar encontram – se no cimo do monte, onde estão os incendiários a festejar, a fazer um grande alarido, numa casota de guardar o gado.  Elas entreolham – se. Silenciosamente, pegam nos utensílios de trabalho, paus, vassouras, tábuas com pregos, pás, enxadas, engaços, foices, e tudo o que apanham e que possa servir para bater.  Elas estão a explodir de ódio.  Os maridos ainda não os encontraram.  A águia fica à porta da casota a tomar conta das crianças, que obedecem às mães e ficam caladinhos.  Elas batem à porta. Os homens estão todos meios bêbados. Um homem cumprimenta-as:
HOMEM 1 – Boas noites, belas damas…
GINA – Olhem só…o que é que estão aqui a fazer?
Os homens desatam à gargalhada. Outros dois homens esclarecem, mas elas não acham piada nenhuma e Gina vai tirando nabos da púcara:
HOMEM 2 – Estamos a festejar…querem fazer parte da festa?
GINA (riso forçado) - Sim, claro…mas, a festejar o quê?
HOMENS – Estamos milionários.
GINA – Ai sim? Saiu – vos a lutaria, foi?
        Os homens desatam à gargalhada e respondem em coro:
TODOS – Óóóhhh…muito melhor que isso.
        Um homem acrescenta a rir:
HOMEM 1 – Não tivemos que gastar dinheiro a comprar o boletim, e só tivemos que queimar ali umas coisas…
As mulheres olham – se. Outro homem do grupo acrescenta a rir:
HOMEM 2 – É emocionante ver tudo a arder…aquelas labaredas enormes…tudo aos gritos, de um lado para o outro, e nós aqui protegidinhos…! (gargalhadas dos homens).
TERESA (murmura) – Foram vocês canalhas…
        Outro homem muito admirado pergunta:
HOMEM 3 – Mas como é que nos apanharam aqui?
ARLETE – Nós temos faro…!
DIANA – É. E adoramos festa. Ouvimos tanta alegria, que quisemos fazer parte da festa.
TODOS – Entrem…
        Márcia responde com uma simpatia forçada, e sedutora:
MÁRCIA (a rir) - Agora vai ser a festa que vai ser quente…vai ter imensas labaredas…nos vossos cus…e cabeças…e…vamos dar – lhes festas, meninas…
NARRADORA - Descarregam toda a raiva em cima deles, dão – lhes uma valente tareia, com os instrumentos que tem á mão, sem dó nem piedade. Só se vê as mulheres de costas voltadas para o público, os homens no meio, e elas a bater, a dar pontapés, a insultar, ouvem – se gritos dos homens…e elas saem com eles a rastos quando há luz de noite no palco. Os maridos ainda não encontraram nada e ficam intrigados. Elas saem com os incendiários a rastos, todos rotos, arranhados, com nódoas negras, despenteados, e elas arrastam – nos até ao sítio combinado. Os incendiários estão no chão, em muito mau estado, quase não se conseguem mexer, gemem, e elas a sorrir, com os filhos, como se não tivessem feito nada, e orgulhosíssimas.
LAVRADOR 1 – Viram por aqui alguém a passar?
TODAS – Não.
LAVRADOR 2 (frustrado e irritado) – Não os encontramos…(Tropeça num dos homens, olha para o chão) – O que é isto?
ARLETE (irónica) – Uns calhaus se calhar…ou uns troncos de árvores não?
GINA (irónica) – São uns ratos do esgoto…não vês?
Os lavradores olham para o chão, iluminam com umas lanternas e todos dizem em coro, muito admirados:
TODOS – Ááááhhh…são homens…!
LAVRADOR 3 – Estão num estado crítico. Terão caído…?
DIANA (irónica, gozo fininho) – Coitadinhos…temos imensa pena deles…
TODAS – Ui…
ESTELA (irónica) – E vieram logo cair aqui…aos nossos pés…que estranho não é…?  
GINA – Não tenham pena deles…foram eles que pegaram fogo…
LAVRADORES – O quê?
        Dois lavradores perguntam:
LAVRADOR 4 – Mas…como é que isto aconteceu?
LAVRADOR 5 – Como é que eles vieram aqui parar?
DIANA – Querem ver que vieram a voar…não?
LAVRADOR 6 – Como é que sabem que foram eles?
LAVRADOR 7 – Onde é que eles estavam…?
MÁRCIA – No cimo do monte. Estavam com semelhante borracheira que confessaram tudo.
Os homens ficam frustrados.
TERESA – Vocês andavam atrás deles…mas quem é que os apanhou?
ARLETE – Quem é que afinal tem os…? Na prática é o mulherio.
Gargalhadas delas.
DIANA – Nós, mulheres, aquelas que vocês disseram que não valiam nada, e que tal coisa não era trabalho delas…
        Os lavradores estão incrédulos e dizem em coro:
LAVRADORES – Mas…não pode ser…
LAVRADOR 1 - Alguém vos deve ter dito alguma coisa.
LAVRADOR 2 (ralha) – Vocês desobedeceram – nos…
GINA – E desde quando é que temos que vos obedecer…?
TERESA – Até parece que vocês nos obedecem…só nos usam como criadas…não faltava mais nada!
TODAS – Apanhamo-los.
LAVRADOR 4 (zangado) – Vocês são loucas…foram para aquele sítio com as crianças…
ARLETE – O que é que tem aquele sítio? Não foram lá?
LAVRADORES (chateados) – Não. Íamos lá de manhã.
MÁRCIA (ri) – Iam fazer muito de manhã.
LAVRADOR 5 (a ralhar) – Vocês são loucas…
LAVRADOR 6 (humilde) – Temos de reconhecer que foram superiores a nós!
TODAS – Claro.
DIANA – Finalmente reconhecem que são inferiores em muita coisa. No machismo é que são sempre superiores.
LAVRADORES – O que é que lhes fizeram?
TODAS – Não vêem?
ESTELA – Fizemos uns carinhos… (riem). Eles gostaram tanto que nem se levantam.
Os homens riem, e prendem os incendiários, muito mal tratados numa cabana de arrumos. Uns lavradores acrescentam:   
LAVRADOR 3 – Estas mulheres merecem um prémio. Obrigada pela ajuda preciosíssima.
LAVRADOR 2 – Sim, realmente…ainda não sei como foi possível.
LAVRADOR 1 – Áhhh, grandes mulheres. Surpreenderam – nos.
MÁRCIA (ralha) – Ai pensavam que as mulheres eram só umas coisas ambulantes para ficar trancadas nas tocas e que não serviam para mais nada?! Tanta estupidez junta.
GINA – As mulheres com os demónios soltos ninguém as segura.
ARLETE - Alguém tinha que defender o reino…e nós temos faro.
DIANA – Ainda tem que aprender muito a nosso respeito. São tão ignorantes.
LAVRADORES – Ganharam…!
LAVRADOR 6 – Até me sinto humilhado.
TODAS (irónicas) – Que chatice…
LAVRADOR 4 – Temos de pensar num bom castigo para estes malditos.
GINA – Ponham – nos a roçar mato…
MÁRCIA - E a limpar as nossas retretes.
Riem.
ARLETE – Tem de ser castigos bem pesados.
LAVRADOR 2 – Pronto, nós pomo-los a roçar mato, a arrancar ervas, a plantar batatas…e vocês tomam conta.
TODAS – Com certeza.
TERESA (a rir) – Nem vão piar…!
GINA – Para mim, o melhor castigo que se lhes podia dar era queimá-los no incêndio que provocaram.
        Outro lavrador acrescenta:
LAVRADOR 3 – Com estes castigos, eles nunca mais na vida vão querer olhar para os fósforos sequer.
NARRADORA - Mais ninguém dorme nessa noite. Ficam todos os habitantes a falar e a tomar. Na manhã seguinte, as mulheres vão deitar as crianças, tomam o pequeno-almoço e levam aos maridos.
Um dos incendiários reclama, Gina e Diana respondem friamente:
INCENDIÁRIOS – Ai, temos tanta fome…
TODAS – Ai têm? Coitadinhos…
GINA – Nós também.
ARLETE – E os nossos também.
DIANA - Vão trabalhar para ganhar e comer.
TERESA – Tens aí muita erva à tua volta para comeres…é só baixares – te.
INCENDIÁRIO 1 (resmunga) – Mas, eu não sou cavalo, nem boi…
ARLETE – Pois não. És abaixo disso. Não vales nada.
INCENDIÁRIO 2 – O que estamos a fazer aqui?
ARLETE (gozo fininho) – Na missa a rezar o terço…
        Outro incendiário informa:
INCENDIÁRIO 2 – Mas…dói – me tudo…
LAVRADOR 1 – Fizeram o que não deviam, vão pagar bem caro por isto.
LAVRADOR 2 – Vieram perturbar a nossa paz…
TERESA – Puseram a nossa vida em risco.
DIANA – Com que então queriam pegar fogo a isto…ficar milionários…grandes estafermos…
MÁRCIA – Hoje é que vão festejar…
INCENDIÁRIO 3 – Não me lembro de ter feito... alguma coisa de mal.
MÁRCIA (irónica) – Não se lembra…vejam lá…basta olharem para vocês…que bem tratados que estão…!
Todos riem:
Lavrador 4 (a rir) – Realmente, puseram – nos bonitos…!
ESTELA – Ainda batemos tão pouco neles…
GINA – Também acho. Devíamos tê-los desfeito.
LAVRADOR 5 – Isso era um prémio para eles.
TODAS – Sim, é verdade.
LAVRADOR 6 – Querem pequeno-almoço vão fazê – lo e vão trabalhar o dia todo.
NARRADORA - Os lavradores e as mulheres dão instruções aos incendiários para os trabalhos que vão fazer. (Há imagens por trás de hortas e os actores plantam no palco, com os utensílios). Os incendiários trabalham no duro, mesmo rotos e feridos. As mulheres gritam com eles, e batem – lhes. Eles rendem – se e fazem tudo o que lhes mandam. Ao fim do dia não recebem nada. E fica combinado voltarem mais uma semana sem receber nada. Os incendiários cumprem o estabelecido e nunca mais pegam fogo. Ááááhhh, grandes mulheres…! Apanharam os desgraçados…deram – lhes uma grande tareia, e parabéns aos lavradores pelo castigo que lhes deram. As mulheres recebem flores dos maridos, e estes passam a respeitá – las mais. E volta a paz àquela maravilhosa floresta.

Fim.
Lálá 


(30/ Setembro/ 2010)