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terça-feira, 27 de agosto de 2024

Porque não tocas, flauta?


Era uma vez um pequenino rapaz, que vivia numa pequena casa, no meio da floresta com a sua família. 

Um dia, no Natal, o seu Tio ofereceu-lhe uma flauta, mas só pegou nela quando era mais crescido, num fim de tarde com um pôr do sol gigante, umas cores que pareciam saídas de um quadro. 

O Tio explicou-lhe como se fazia, experimentou soprar, e não saiu nenhum som. 

Muito surpreso, tenta outra vez, e nada. Espreitou para a flauta, aparentemente não tinha nada que não a deixasse tocar. 

- Porque é que isto não toca, se eu estou a fazer como o tio disse? - pergunta o menino a olhar para a flauta 

De repente, soa uma voz pequenina: 

- Vai lavar essa flauta ali ao rio. 

- Mas, mas...quem é que está a falar? 

- Vai lavar essa flauta ali ao rio. 

- Mas ela não está suja. 

- Está! 

- Quem é que está a falar? 

- Vai lavar esse flauta ali ao rio. 

- Está bem, pronto, já que tanto insistes! Mas eu quero ver quem está a falar! 

- Primeiro vai lavar a flauta ao rio. 

- Já vou! 

O menino, sem perceber o porquê da insistência da voz em lavar a flauta no rio, molha-a na água, e esta começa a borbulhar. 

- A água está a borbulhar..! 

E de repente, do interior da flauta saem bolas de tintas de cores diferentes, pequeninas, que ao tocar na água aumentam de tamanho. Ficam tão grandes, e a pairar no ar que o menino até se assusta. 

- O que é isto? 

- São cores. Toca agora! - diz a voz 

O menino toca e sai um som estridente da flauta, as bolas estremecem, encolhem, como se ficassem arrepiadas. 

- Áh, mudaram de forma…! 

- Arrepiaram-se com o som. Toca melhor.- diz a voz 

- Mas como? 

- Como o teu tio te ensinou. 

- Eu fiz isso há bocado e não tocou nada, não saiu nenhum som. 

- Mas toca agora. - manda a voz 

- Não sei tocar. 

- Sabes sim - diz a voz 

O menino experimenta, e vê um peixinho transparente, de cristal a dar luz. Descobre que é a voz que ele ouvia, 

- Toca! 

- Foste tu que me mandaste lavar aqui a flauta? 

- Sim. 

- Áhhh...que lindo! Nunca te vi por aqui. De onde saíste? 

- Da flauta. 

- Era por tua causa que a flauta não tocava? 

- Era. Esta água está maravilhosa! 

- E como é que estavas numa flauta? 

- Para te ensinar a tocar. 

- Áh! E tu sabes tocar? 

- Sei. 

- E estas bolas que apareceram? 

- Já vais ver. Segue os meus movimentos... 

- Está bem. 

- Sopro para aqui? 

- Sim. 

O peixinho parece dançar, como se fosse um maestro ao mexer com as barbatanas, com um sorriso. As misteriosas bolas de cor, parecem ganhar vida própria, bailarinas, esticam, encolhem, aumentam, diminuem, mudam de cores, rebolam no ar, seguindo os sons. 

O menino fica tão encantado com aquele som, o peixinho e as bolas coloridas, que toca entusiasmado, mas a certa altura, as bolas cansam, o peixinho e o menino também. 

- Obrigada! Adorei. Podes vir aqui mais vezes, para me ensinares mais? 

- Sim, claro, vou ficar aqui. 

- Boa! E estas bolas para que servem? 

- Umas vão rebentar, com surpresas lá dentro, outras, vão dançar connosco, enquanto tocamos. 

- Áh! Que giro. E quando é que as bolas com surpresas vão rebentar? 

- Espera! 

- Vou ter de esperar? 

- Com certeza! 

- Mas eu queria saber agora. 

- Não! Ainda não podes, elas estão cansadas. 

- Está bem. 

- Vai descansar também. 

O menino obedece, janta com a família, vai dormir, e quando se deita no escuro, vê uma luz de presença ao seu lado. Assusta-se, mas fica encantado com ela.

- Não te assustes! Sou uma das bolas coloridas com surpresas. Rebentei. Vim fazer-te companhia, juntamente com a Lua e as estrelas! 

- Áh! Que linda, obrigado. 

- Vim inspirar-te e tomar conta de ti. 

- Está bem. E o que tem as outras bolas de cores? 

- Logo verás, ou quando elas quiserem, 

- Mas eu queria já! 

- Queres tudo já, não pode ser. 

- Pronto, está bem, eu espero. 

Os dois conversam, até o menino adormecer. No dia seguinte, cheio de sol e calor, volta a tocar flauta, junto ao rio, com as instruções do peixinho, e as bolas coloridas a dançar. A luz de presença continua com o menino, 

Nada acontece, tal como nos dias seguintes, até que...uma outra bola colorida, rebenta, e cobre todas as árvores, enche-as de frutos, e lindas cores. Folhas salpicadas de verde, vermelho, folhas vermelhas, folhas com salpicos de roxo e vermelho, amarelo, folhas verdes, folhas castanhas. Frutos como uvas lindas, enormes, penduradas nas ramas, maçãs vermelhas e amarelas, outras com cores misturadas, grandes, ouriços pendurados, e outros que caem, cheios de castanhas grandes.  

O menino assiste a tudo. 

- Qual era a surpresa desta bola que rebentou? 

- Olha bem para lá! Para as árvores! - recomenda o peixinho 

- Estão cheias de cores…! E aquelas cheias de frutos. - diz o menino  

- Quando é que isto acontece? - pergunta o peixinho 

- No...no...Outono? 

- Isso mesmo! - diz o peixinho 

- Então...começou o Outono, e a bola que rebentou, trouxe o Outono? 

- Sim! 

- Áh! Que lindo…! Uau, adoro aquelas cores, estão carregadas de frutos. 

O menino está maravilhado, tal como a família, ao ver aquelas cores e frutos. Continua a tocar, e uns dias depois, outra bola rebenta, Surge um cãozinho pequenino, do mais fofo que há, lindo, muito meigo, e outra bola rebenta, de onde sai a mãe do cãozinho, com mais três filhotes, igualmente lindos! O menino nem quer acreditar. 

Fica tão feliz, que continua a tocar, aquela flauta, e todos os dias, uma cor das bolas coloridas, faz com que o menino repare num aspeto bonito da Natureza, atrai passarinhos, borboletas, pirilampos, cuida muito bem dos cãezinhos que o adoram. 

Uma das bolas rebenta e faz com que ele repare na beleza da Lua Cheia, e nas estrelas, outra leva-o a apanhar chuva, feliz, a brincar com os animais, e a última, que rebenta, cobre tudo com um grosso manto branco, gelado, um vento cortante, que obriga a acender a lareira e a conviver com a família, com muitos petiscos, brincadeiras, gargalhadas.

Esta última bola, trouxe o Natal, e um irmãozinho bebé, para o menino, o seu desejo como prenda de Natal, de quem cuida com todo o carinho com a ajuda da mãe e do pai. 

E o menino continua a tocar, continuam a acontecer coisas mágicas, toda a família aplaude, quando o ouve. O tio, não cabe nele de orgulho. 

Era por isso que a flauta não tocava, mas quando a magia saiu, muitas coisas boas começaram a acontecer!  

E se fossem vocês a receber uma flauta que não tocasse? 

Porque não tocava? 

E se recebessem bolas surpresa, que rebentavam, o que é que elas trariam? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 


                                        FIM 

                                 Lara Rocha 

                          26/Agosto/2024 



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

AS ÁRVORES DOS MORCEGOS

   Era uma vez uma árvore só com pequenos troncos, sem uma única folha, perdida num grande descampado, sem relva, só terra, e sem luz. 
    Por ser um sítio escuro, via-se muito bem as estrelas do céu, mas todas as pessoas tinham medo de ir para lá.
    Este era um sítio fantástico para animais noturnos, como morcegos, mochos e corujas.    À noite, esse campo ganhava vida com tanto bicho de um lado para o outro, de ramo em ramo, iam para os becos da cidade e voltavam, faziam uma grande barulheira, e de dia, dormiam na árvore.
 Um dia, uma pequena menina foi à procura de um sítio onde pudesse ensaiar sossegada as suas músicas que tocava em flauta, sem incomodar as pessoas, principalmente uns vizinhos que detestavam flauta, e ralhavam muito com ela.
    Chegou ao campo da árvore dos morcegos, e reinava o sossego. Como era de dia, os animais noturnos dormiam. Os morcegos fechados nas suas asinhas, pendurados, as corujas e os mochos nas crateras do tronco da árvore que era um sítio escuro e silencioso.
   Quer dizer…eles pensavam que era silencioso, e era! Até aparecer a menina. Pois é! Como a menina não sabia que aqueles eram animais noturnos, e dormiam de dia, nem olhou para a árvore, de tão concentrada que estava na sua flauta. 
    Andava de um lado para o outro, dançava e rodava ao mesmo tempo, com algumas quedas à mistura e ria-se sozinha. Estava tão feliz, e sentia-se tão livre que nem deu pelas horas passarem. Quase à noitinha os morcegos, os mochos e as corujas começam a despertar lentamente, e preparam-se para a noite. A menina está muito assustada, porque está escuro e esqueceu-se do caminho.
Ela olha para cima, e vê montes de olhos pregados nela
- Quem és tu? – Pergunta uma coruja
- És caçadora? – Pergunta um mocho
- Não. Sou uma menina.
- Uma menina? – Perguntam em coro
- Sim.
- Humana? – Perguntam em coro
- Sim! Porquê?
- Da cidade? – Pergunta outra coruja
- Sim.
- Huummm…estou cheio de fome… - Murmura um morcego gordo
- Era de estranhar se não estivesses com fome! – Resmunga a sua mulher
- O que é que isso quer dizer? – Pergunta a menina assustada
- Não é nada comum aparecer aqui…humanos! – Diz outro mocho
- O que é que isso quer dizer? Que me vão morder? – Pergunta a menina assustada
- Não! – Respondem em coro
- O que é isso que tens na mão? – Pergunta uma morcega
- É uma flauta! – Responde a menina
- E o que é que isso faz? – Pergunta outra morcega
- Isso tem um ar ameaçador! – Diz outra morcega
- Óh, não…não faz mal! Faz música! – Responde a menina
- Isso dá de comer? – Pergunta o morcego gordo
(Todos riem)
- Não. Quer dizer…não dá comida, mas dá consolo…! E alimenta a alma! – Responde a menina  
- Quem é a alma? Posso comê-la?
- (Ri) Não. A alma está dentro de nós. Não se pode comer.
- Óh, o consolo não é de comer! A alma também não…o que é que tu comes? – Resmunga e pergunta o morcego gordo
- Que insensível! – Resmunga a sua esposa
- Como muita coisa…mas alma e consolo não.
- E essa coisa não comes? – Pergunta o morcego gordo
- Não. Isto faz música…não se come. – Diz a menina  
- Podes tocar um bocadinho, por favor? – Pede outro mocho
- Claro que sim! – Diz a menina a sorrir
- Óh, com licença…não quero saber de tocares…quero é comer… - Resmunga o morcego gordo e voa.
     Todos riem. A menina começa a tocar, e todos os animais ficam espantados com o som da flauta, quase não pestanejam. Sorriem e choramingam, balançam o corpo e seguem a música. Todos aplaudem a menina.
- Ááááhhh! – Suspiram todos a sorrir
- Que lindo! – Diz uma morcega ainda embalada.
- É mesmo bom. – Diz um mocho a sorrir
- Onde aprendeste a tocar isso? – Pergunta um morcego
- Sozinha e na escola.
- Maravilhoso! Mexe com o coração…é lindo… - Diz uma coruja encantada
- Obrigada. Podem ajudar-me a encontrar o caminho de volta para a cidade, por favor? É que estou perdida…
- Óh, mas isso é fácil… - Diz um mocho
- Vamos para lá agora. – Diz a sua esposa coruja
- Segue-nos! – Diz um morcego
- Muito obrigada. – Diz a menina
- Por favor…toca mais um pouco para nós! – Pede outro mocho
- Claro que sim…
    E a menina vai o caminho todo a tocar feliz, os morcegos, os mochos e as corujas acompanham-na, voam e pairam à frente dela, circundam-na e dançam como bailarinos profissionais, felizes, leves e sorridentes, uns com os outros e sozinhos. Todos chegam à cidade, e os animais começam a chorar e a aplaudir.
- Óóóhhh…! – Lamentam todos
- O que foi? Não gostaram? – Pergunta a menina preocupada
- Adoramos! – Respondem todos
- Então porque estão tão tristes? – Pergunta a menina
- Porque…
- Porque…
- Porque vamos ter de nos separar! – Diz uma coruja
- Mas não por muito tempo…pois não? – Pergunta uma morcega
- Claro que não. Vamo-nos encontrar muitas vezes. E se quiserem, venham até à minha casa que lá não falta que comer.
- A sério? – Perguntam todos
- A sério. Venham.
    Os animais acompanham-na e nem querem acreditar…realmente…no sítio onde a menina vivia havia mosquitos às centenas, e outros petiscos para a bicharada. A menina entra em casa, os pais muito preocupados, mas aliviados quando a veem.
- Onde foste? – Pergunta o pai
- Fui tocar para um sítio livre, e distrai-me com as horas
- Podias ter dito! Ficamos muito preocupados! – Diz a mãe  
- Desculpem…
   A família conversa. Enquanto isso, todos os morcegos, corujas e mochos comem quanto querem. Nesse mesmo sítio tem outra árvore igualzinha à outra, onde viviam. Instalam-se lá, mesmo em frente ao quarto da menina, e ela vê-os da sua janela.
- Vão ficar aqui? – Pergunta a menina
- Sim. – Respondem todos
- O comilão já voltou?
- Já…
- Que lugar recheado…! – Diz o morcego satisfeito e regalado
(Todos riem)
- Está-se muito bem aqui. – Diz uma morcega!
- O meu quarto é este…daí podemos ver-nos! – Diz a menina
    Todos os animais ficam felizes, saltitam de alegria e pousam na beirada da janela do quarto da menina para conversarem e riem à vontade. De dia, os morcegos, os mochos e as corujas dormiam na árvore, e à noite saiam. 
   Depois desse dia, eles e a menina tornaram-se grandes amigos, e até o vizinho resmungão, começou a gostar das músicas que a menina tocava na flauta. Os morcegos protegiam a menina e toda a gente dos insuportáveis mosquitos e outros insetos, e a menina, em troca dava-lhes música que eles adoravam.

FIM
Lara Rocha 
(2/Outubro/2014)