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segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

monólogo Mulher deixa-te disso



Mulher...és perfeita! Deixa-te disso.... Disso... dessas coisas que fazes ao teu corpo que já é perfeito na sua imperfeição. Só para que os outros gostem, só para repararem que tens mamas grandes, ou rabo arrebitado e grande. Gosta do teu corpo assim como ele, imperfeito, perfeito! Para quê massacrá-lo com silicone, se és um ser humano e não uma boneca? As bonecas têm o seu corpo, tu tens o teu, em todo o seu esplendor!
Mulher, deixa-te de pensar no que os outros vão pensar. Deixa de pensar se os outros vão gostar de ti. Para de te torturar só porque achas que os outros vão gostar de ti assim, daquela ou de outra maneira, porque alguém que conheces, tem o que tu não tens, e toda a gente gosta. Toda a gente gosta.... Será?
Já pensaste que pode ser só para serem simpáticos e conquistar? Já pensaste alguma vez, que talvez essa mulher que tem o que tu achas que devias ter para gostarem de ti, pode sofrer muito, ou perceber que todos são falsos com ela?
Para quê essa coisa de a outra tem, todos gostam...se, o que ele tiver for de plástico, falso, só para os outros gostarem? Será que essa mulher que achas que é melhor que tu, só porque tem atributos que achas que todos gostam, não sofreu? Será que ela não perdeu a sua identidade? Acredita que sim!
Quando mudas o teu corpo com o qual nasceste, aquele corpo maravilhosamente imperfeito, perfeito, que os teus pais te deram, e o que trabalho que deu fazer-te...o que a tua mãe sofreu para que nascesses...não tiveste trabalho nenhum, deram-te tudo o que tens, o teu pai e a tua mãe, e todos os antepassados, marcaram a sua presença em ti, nesse corpo que tens.
Talvez um dia, ou brevemente sejas mãe. Imagina, teres de passar por tudo o que a tua mãe passou, e o ou a/os teus filhos quererem mudar tudo? Não ficarias triste por isso? Não ficarias magoada? Imagino que sim! As mães sofrem muito, o corpo delas muda completamente para nascermos, e depois de nascermos, e nós vamos dar-lhe como presente a mudança do corpo que ela e o nosso pai fizeram com tanto amor?
Vamos agradecer aos nossos antepassados toda a magia, toda a história, toda a continuidade de geração em geração de muito mais que um mero nome familiar, mudando o nosso corpo, só porque achamos que os outros vão gostar.
Mas, e quem muda coisas no corpo, será que gosta mesmo? Será que sacrificando o corpo perfeito, e tornando-o falso, imperfeito, vai mesmo conseguir conquistar os outros?
Não tenhas ilusões. Não. É claro que não vai. Se queres mudar alguma coisa em ti, muda se a tua saúde está em risco, ou muda o que achas menos bonito, mas para tu gostares!
Para agradar aos teus olhos, não aos olhos dos outros, não lhes faças a vontade, porque muitas mulheres mudam o corpo maravilhoso que sempre tiveram, para consolar olhos gulosos de homens e mulheres invejosos que acham que as relações só existem se houver beleza física, se tiverem um conjunto de características, que só as referenciam para satisfazer o seu ego, sem pensar se essas são mesmo as mais importantes para se construir uma relação!
Não te iludas, mulher, não faças isso, tudo não passa de uma fantasia. O que constrói uma relação verdadeira é o que levas no coração, aquilo que dás, a pessoa que és... e pessoa é corpo, mas é ainda mais alma! Para quê fazer-lhes a vontade... nada disso, tu é que tens as tuas vontades, tu é que tens valor, tu é que dás o teu melhor. Se não gosta, não gosta, paciência. É porque não é para ti, e mereces muito mais!
Quem gosta mesmo de ti, não vai ver se tens mamas e rabo grande, de plástico, de tens rugas, gordura a mais, ou se passas fome para parecer magra! Deixa-te disso! És perfeita assim como és...com todas as características que nasceram contigo! Dá o teu coração, e tudo fora de ti mudará.
O que és, o que dás, vai luzir em todo o teu corpo fantasticamente imperfeito, perfeito. Deixa-te disso, mulher. Disso de usares coisas que toda a gente usa, só porque todos usam, se não gostas, se não te identificas, esquece!
Não importa seres diferente...não é essa diferença de teres ou não teres o que os outros têm, se nem sequer combina contigo, nem te assenta bem, ou se não te traz conforto.
Tu tens os teus gostos, tu tens as tuas vontades, tu tens o teu corpo, com essas formas, diferentes, que te tornam única. A ti, e a todos, embora pensem que todos têm de ser iguais, para serem aceites!
Deixa-te disso, mulher! Ignora comentários. Cada um é como é! Tu és assim, mulher, linda à tua maneira, perfeita na tua imperfeição, guerreira, diferente.
Fica feliz e ainda mais vaidosa por seres quem és, assim, e por não mudares só porque os outros não gostam ou te dizem coisas desagradáveis. Deixa-os com a ignorância deles, tu é que és a inteligente, porque és o que és, és natural, não andas a esconder o que não gostas, só para agradar aos outros, não mudas nada em ti, só porque os outros...é exatamente isso que te torna perfeita!
És perfeita por seres diferente, és perfeita por não mudares o que te deram só porque os outros mudaram, ou querem que mudes, ou acham que devias mudar, ou que tens de ser assim, assado ou cozido... deixa-os falar.
Tu és assim, és o orgulho de ti própria, dos teus pais, de quem te ama, e de quem te valoriza assim! Como és, com o corpo que tens! E mantens a tua posição, fazes as tuas escolhas, tens os teus gostos, és autêntica, és única, assim, és o que és!
Mulher...não estragues o teu corpo, só porque tens rugas, cabelos brancos, peles caídas ou manchadas, peitos pendurados, dobras, pregas, o que for...para quê escondê-las? Para quê tirá-las? Elas também fazem parte de ti, e são igualmente maravilhosas, se o que trouxeres dentro for bonito, puro, sincero, de qualidade.
Tudo o que é natural é maravilhosamente bonito. Quando nasceste, já estavam reservadas para ti, todas essas transformações, se tiveste a felicidade de chegar a uma idade avançada. Muda porque tu queres, muda para ti, muda para tu gostares.
Nas mudanças, a única coisa que importa és mesmo tu! E unicamente tu, porque tu és mulher, tu és única, tu és diferente, e tu és perfeita, com todas as tuas belas imperfeições.
Tens dúvidas? Experimenta desenhar um corpo humano, feminino, ou parte dele, e verás como é difícil, porque é perfeito em toda a sua imperfeição. Até o que trazes dentro não é perfeito, mas só porque tudo funciona bem, já podes considerar perfeito e maravilhoso!
O que interessa é a tua felicidade, e tudo de mágico que podes com as imperfeições do teu corpo, pois quem gostar de ti, de verdade, vai conhecer-te em profundidade, e não em superficialidade, como acontece às amizades e ao que chamam de relações, aqueles encontros corporais fugazes, de olhos iludidos, que depois do fogo de vista, uma vez... ou algumas vezes, com sorte, perdem todo o encanto, porquê?
Porque não olham para lá da superfície. Porque valorizam tudo o que é falso, tudo o que chama a atenção por momentos. Não queiras esses encontros... exige mais, muito mais, e se for verdadeiro, ele vai ter de se esforçar, e vai gostar, mas não facilites o trabalho!
Tu és mulher, tu tens de ser respeitada, e não é só porque eles querem ou gostam que tu tens de ceder, e fazer-lhes as vontades. Desconfia de conquistas rápidas, isso não existe, é só o primeiro momento, e desaparece logo a seguir.
Pensas que se mudares algo, ele vai gostar? Esquece...se mudares o que quer que seja nem vai reparar, vai desfilar contigo, à frente dos outros, para lhes mostrar que conquistou uma gaja boa, gira, que ele é que é que é poderoso! Não lhes dês esse gosto, de exibicionismo...se é isso que ele quer, tu não fazes parte, ele não te merece!
 Mulher, gosta de ti assim. Na tua imperfeição, perfeita! E deixa os outros pensarem o que quiserem. Segue o que tu queres, segue o que gostas, segue o que achas que é o melhor para ti, independentemente do que os outros acham que tens de fazer, que tens de ser. 
Mulher, és tu que importas, não são os outros. És mulher, e só por isso já és perfeita, com todas as tuas imperfeições. A única coisa que é perfeito é o teu orgulho em ti, de seres como és, de seres diferentes, de pensares diferente, e de dares o melhor de ti. Dá-te ao respeito, tu mereces.
        És perfeita...na imperfeição! Aliás, a perfeição não existe. És mulher. O que quer que faças será bem e mal julgado. Se fazes és julgada, se não fazes és julgada, com o «devias», o «tinhas de», «porque fizeste isso», «se fosse eu...». 
         Por isso, faz o que faz sentido para ti, não importa o que digam! O que quer que faças, faz porque queres, faz por amor, faz por amizade, faz porque te faz bem. O que quer que faças de bom ou de mau pelos outros, será sempre bem ou injustamente julgado, por isso, faz o que tem sentido para ti, o que dá alívio, paz ou felicidade. 
         Faz para deixar brilhar a tua luz, haverá sempre alguém que não a suportará, mas não faz mal, não te faz falta! A tua luz é suficiente para ti e para quem gosta de ti. Como és! Deixa brilhar a tua luz, o melhor que há em ti, mesmo com a certeza de que uns vão criticar, e outros gozar ou ignorar, por isso faz o que achas melhor para ti, não porque vão falar de ti, ou ignorar-te. 
       Terás sempre alguém que te reconhecerá. e retribuirá, admirará, mesmo que não seja aquela pessoa a quem deste de ti, mesmo que te julguem, critiquem ou ignorem. Faz o que faz sentido para ti, o que deixa ser quem realmente és, sem máscaras. 
        Só tu e a tua essência importa, nada mais! Sê quem és no teu melhor e quando for preciso, no teu pior! Quem te julga ou ignora também não tem nada de perfeito! Só ainda não reparou como é imperfeito, mas um dia descobrirá, e pode ser que te ache perfeita. 
         

auto-estima e autoaceitação imperfeição monólogo - perfeição orgulho respeito unicidade


 Lara Rocha 
20/Agosto/2018


terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Histórias de amor, ou histórias de terror?

         Era uma vez uma árvore onde viviam muitos morcegos, corujas, e mochos. Um morcego tinha muita imaginação e adorava ler. Devorava livros e mais livros. 
        Gostava tanto de histórias que quando as lia parecia que as vivia. Tanto, que falava sozinho, ele dizia que estava a falar com as personagens, mas ninguém, a não ser ele as via.                 Gritava, insultava, agitava-se, às vezes até se atirava de repente e caia no chão. Todos ficavam assustados, até que se habituaram aos seus repentes, e riam com ele.
             Embora lesse um pouco de tudo, o que gostava mesmo era de histórias tenebrosas, assustadoras, de terror, aquelas que assustam e ao mesmo tempo muitos gostam de ouvir. Não entendiam como não tinha pesadelos de noite, com tanta história de terror, mas não tinha, e adorava contá-las aos outros pequenos, o que passou a ser um grande problema, porque tinham pesadelos.
            Uma noite, as corujinhas pequenas quiseram juntar-se ao grupo, e ouvir as histórias. Quando perceberam que eram de terror, viraram costas e foram ler outras histórias, as delas, mais românticas, de temas que as meninas gostam. Nessa noite, mesmo não ouvindo as histórias de terror, elas tiveram pesadelos, talvez porque ouviram os mochos a gritar e a rir.
            Os mochinhos eram teimosos, ouviam as histórias, e claro, de noite tinham um sono muito agitado, mexiam-se, gritavam, caiam abaixo da árvore. Os pais dormiam como se nada fosse, as morceguinhas e as corujinhas acendiam as luzes e tentavam acalmá-los.

- Olhem, meninas, os valentões acordaram assustados! - diz uma morceguinha irónica
 (Todas riem)

- Coitadinhos… - dizem todas a rir

- Vão ouvir mais histórias de terror, vão…! - recomenda uma corujinha a rir de fininho

- Que palermas! - comenta outra morcega

- A culpa é do teu irmão. - Resmunga um morcego que acordou estremunhado

- Essa agora…? Porquê?

- Porque ele é que nos lê essas histórias.

- Se não gostam, porque as ouvem?

- Porque ele é nosso amigo!

- Lá porque é amigo, não têm de gostar das mesmas coisas que ele! - diz a irmã do morcego

- Pois. - Concordam todas

- Nós não temos medo! - afirma convicto um mochinho que ainda está a tremer do pesadelo

- Naaaaaa... - exclamam todas a rir

- Então porque é que estás a tremer, e acordaste aos gritos?

- Eu…? A tremer, e aos gritos…? Tu é que deves ter tido um pesadelo… - diz o morcego que parecia uma vara verde, armado em forte. Elas riem

Uma morcega dá um espirro. Os mochinhos e os morceguinhos escondem-se assustados. As meninas riem

- Até um espirro lhes mete medo, quanto mais, uma história de terror.

- Pois é.

- Acham que são muito corajosos…

- Eu não gosto nada dessas histórias.

- Nem eu!

- É por isso que quando as oiço, mesmo não estando muito atenta, estes palermas a gritar, assusto-me, tenho sonhos maus.

- Eu também.

- Nós sabemos que aquilo não é real, mas não sei porquê...mete medo.

- Pois é.

- Não temos que gostar todos do mesmo.

- Claro que não.

- E se eles experimentarem ouvir ou ler as histórias que nós lemos? - sugere uma morceguinha

- Boa! - concordam todas 

            Uma noite as corujinhas e as morceguinhas convidaram os amigos que se diziam muito corajosos, mas na verdade tinham muito medo, a ouvir as histórias que elas liam.

- As histórias que vocês gostam, são pirosas...- resmunga um mochinho

- Mas ouviste-as, e vais ver como esta noite não vais ter pesadelos! - garante uma morceguinha

- Eu até acho que gosto de histórias de amor, mais do que de terror. - pensa alto um morceguinho

- Claro, o amor é muito mais bonito, terror... já temos muito, à nossa volta e é mau! - diz uma morceguinha

- À noite precisamos de ouvir coisas bonitas, agradáveis, para descansar e ter bons sonhos! - acrescenta uma corujinha

             Nessa noite, não tiveram pesadelos, e alguns descobriram que afinal também gostavam das histórias para meninas. Como, ainda assim, gostavam das histórias de terror, e pensavam que sabiam que essas histórias não eram verdadeiras, decidiram experimentar ler essas histórias de dia, e as outras das meninas à noite. 
            Gostaram da experiência, mas poucos dias depois, voltaram a não resistir ao convite do amigo morcego que lia as histórias de terror. Lá voltaram os pesadelos! Elas não tentaram mais, mas desafiaram-se uns aos outros, para ver quem tinha razão...se eles, ou elas. 
            Convidaram toda a floresta para ouvir histórias de amor, e histórias de terror. Quem quisesse histórias de amor, ia para as morceguinhas e corujinhas, quem gostasse de histórias de terror, ia ouvir os morceguinhos e mochinhos.
             Nos primeiros dias, os mochinhos e morceguinhos, ganharam, tiveram muitos animais a ouvir as histórias de terror, e as corujinhas e as morceguinhas não tiveram ninguém para as ouvir. Todos ficaram muito entusiasmados a ouvir as histórias de terror, mas nessas noites ninguém dormiu, todos tiveram pesadelos.
             Passado uns dias, já cansados de não dormir, e de ficarem com o coração a bater muito depressa com o mais pequeno barulho, ou gritar quando viam sombras, decidiram ouvir as histórias delas, e dormiram como anjos, porque eram histórias tão bonitas, que faziam sonhar e transmitiam paz.
             Algum tempo depois, cada um ia para o que gostava mais, e todos continuaram amigos como antes… cada um tem os seus gostos, e se não gostamos de histórias ou filmes de terror, não temos de as ouvir, ou ver. Há milhares de histórias que esperam por nós.

E vocês? Que histórias gostam mais? Sobre quê? Já tiveram sonhos maus depois de ouvir ou ver uma história ou filme de terror?


                                                                        FIM
                                                                     Lara Rocha 
                                                                     4/12/2018


domingo, 12 de outubro de 2014

A casa escura

       
                                                          foto de Lara Rocha 

        Era uma vez uma casa sombria, pintada de negro, com móveis negros e a própria pessoa que lá vivia era igualmente uma figura escura, que se vestia sempre de negro. Tinha ficado assim porque vivia sempre numa grande tristeza, por estar longe da sua casa, da sua família e por não ter amigos. Como ele se vestia sempre de escuro, as outras pessoas tinham medo dele. 
        Ele não era mau. Era apenas uma pessoa triste e solitária. Os seus melhores amigos eram os livros, que tinha às centenas em casa, num quarto com pouco luz. Um dia, o rapaz sombrio saiu, e reparou num lindo arco-íris que tinha acabado de se formar na montanha. Ele nunca tinha visto tal coisa…como passava a maior parte do tempo na sua casa escura.
Fica encantado e parece hipnotizado pelo arco-íris. Desata a correr pelo campo fora até à montanha onde está o arco-íris, mas não consegue apanhá-lo, porque entretanto desaparece. Isto deixa-o muito irritado, e corre mais um pouco. Procura numa gruta, escura onde entra aos gritos, e só vê luzes pequeninas verdes a aparecer.
- O que venha a ser isto? – Pergunta um morcego irritado
- Que barulho é este? – Pergunta outro morcego
- (boceja) Ááááhhh…quem é que nos veio interromper o sono?
        O rapaz está cheio de medo.
- Desculpem…quem são vocês? – Pergunta ele a tremer
        Os morcegos dão uma sonora gargalhada.
- Olha, olha…estamos a ser visitados por um esqueleto! – Comenta um morcego a rir
- E treme! – Diz outro morcego às gargalhadas
- Óh meu…vasa daqui. – Diz um morcego calmo
- Onde estou? – Pergunta o rapaz
- Ora…na nossa casa! – Responde um morcego a rir
- Quem te deu permissão para entrar? – Pergunta uma morcega chateada
- A porta está sempre aberta… - Responde outro morcego
- Áh! Pois é. – Responde a morcega
- Mas parece que ele ou…ela…ainda não percebeu onde está. – Diz outra morcega a rir
        Os morcegos voam à volta do rapaz, nervosos e guincham pela gruta, e expulsam o rapaz de lá, aos gritos, cheio de medo. Ele corre e cruza-se com um cavalo que trava a fundo e levanta uma poeirada.
- Ai, que susto! Isto são maneiras de se andar pelo campo? – Relincha o cavalo  
- Desculpa…não te vi.
- Eu sou bem grande. Quase te passava a ferro…estás louco?
- Não. Só fujo de uma gruta de morcegos…
- Áh! Fino…foste-te meter na toca dos morcegos… (ri) esperto! As coisas não correram bem pois não? Eles odeiam ser perturbados…
- Pois. Eu não sabia que tinha entrado na toca dos morcegos.
- Não conheces a zona?
- Não.
- Áh! E o que vieste fazer por aqui?
- Vim atrás de umas riscas coloridas que vi em cima do monte.
- Riscas coloridas? Ááááááhhhh…tu não estás bom dessa mioleira… os morcegos viraram-te ao contrário. Que riscas coloridas? E logo no monte… (ri)
- Estavam ali. (O arco-íris aparece outra vez) Olha, estão ali outra vez…sabes o caminho para lá?
- Sei, mas para que vais atrás do arco-íris?
- Estou atrás daquelas riscas às cores…
- Sim, e é o arco-íris.
- Áh! Que lindo.
- Nunca tinhas visto?
- Não.
- Em que planeta é que tu vives?
- Na Terra! Como tu.
- Então como é que nunca viste o arco-íris, nem sequer sabias o nome?
- É que eu quase não saio de casa. Vivo numa casa escura, pintada de preto, com móveis pretos…
- Ui! Porquê?
- Porque sou um rapaz triste, vivo na tristeza.
- Isso é muito mau. Devias ter uma casa colorida para te alegrar.
- É por isso que estou atrás das riscas do arco-íris.
- Desculpa desiludir-te, mas nunca vais conseguir agarrar o arco-íris.
- Porquê?
- Porque ele não se agarra…é uma ilusão…quando o sol bate na água…
- Mas se ele aparece e desaparece é porque alguém o tira…
- Não. Ele aparece e desaparece porque quando não há sol na água, não há cores.
- Mas eu quero aquelas cores.
- Queres sair da tristeza?
- Sim.
- Então tens de pintar a tua casa, com cores alegres.
- E como é que eu pinto a minha casa?
- Ora…com pincéis, trinchas…e tintas.
- E onde arranjo isso?
- Numa loja de tintas na cidade.
- Paga-se?
- Claro que se paga…
- Mas eu não tenho dinheiro. Nunca vou conseguir pintar a minha casa de cores…
- Não digas essas coisas tão tristes. É claro que vais conseguir. Não é assim tão caro, e podes sempre pedir aos teus amigos ou familiares…
- Estão muito longe.
- Vá lá, não inventes obstáculos. Hás-de encontrar uma maneira. Anda…vou levar-te a conhecer a área.
- (sorri) Óh…não tens medo de mim?
- Medo? Eu?
- Sim.
- Porque haveria de ter medo de ti?
- Porque estou vestido de negro. Toda a gente foge.
- Não sei porquê! É só a tua roupa. O meu pêlo também é de cor preto…é só uma cor que tu gostas. Não mete medo nenhum.
- Obrigado! – Diz o jovem a sorrir
- Sobe. – Diz o cavalo
        Ele sobe, e os dois vão passear sem pressa, a conversar e a ver a paisagem. O rapaz sente-se muito feliz. Ao fim do dia, os dois tornam-se grandes amigos, e o cavalo quer ajudar o amigo.
        Depois de o deixar em casa, vai de porta em porta, pela aldeia, e fala com as crianças e com adultos. Pede tintas de cores alegres e pincéis. Ele conta a história do rapaz, e já todos sabem que está a falar do rapaz que vive na casa de cor preta, e que anda sempre de roupa preta.
        Todos se prontificam a ajudar o rapaz. Juntam-se, e reúnem todo o material que necessitam para pintar a casa. No dia seguinte, o cavalo vai ter com o rapaz e convida-o para ir ao monte. O rapaz aceita logo, feliz.
        Enquanto os dois vão sem pressa passear e a conversar alegremente, ainda de madrugada, todos os habitantes se juntam e decoram a casa do jovem.
        Pintam em alguns pedaços da parede preta, vários e enormes arco-íris, sóis, céus azuis, praias, paisagens...cada um faz o desenho que mais gosta. Pintam os móveis de cores claras, e ao fim do dia, a casa estava nova.
        O cavalo volta com o jovem já quase à noite, e todos os habitantes estão escondidos dentro da sua casa. Quando ele abre a porta, aparece uma criança com uma lanterna virada para a sua cara e diz:
- Bem-vindo ao mundo da luz!
        Ele fica gelado com o susto.
- O que é que está a acontecer?
        De repente acendem-se luzes por todo o lado, fortes. Os habitantes fizeram a instalação eléctrica em toda a casa, e lâmpadas em todas as divisões, com uma luz forte.
        O rapaz estremece, solta grandes exclamações, olha para todo o lado, e abre um grande sorriso:
- Não acredito!
- Gostas da tua nova casa da luz? – Pergunta o cavalo
- Adoro…está maravilhosa…linda…! Quem fez isto?
        Aparecem todos os que pintaram a casa dele, os que fizeram os desenhos e encheram uma casa escura de luz, claridade, cor e brilho. Todos o abraçam e dão as boas vindas.
- Óh…até estou emocionado! Muito obrigado…são maravilhosos!
        Entram umas avós com bolos e um belo jantar.
- Óh, que honra…! Sintam-se na vossa casa…
        Eles juntam mesas que levaram, cadeiras, pratos, talheres, e copos, e festejam a nova versão do rapaz da casa escura. Conversam alegremente, riem muito, dançam, brincam, tiram fotografias, e comem bem.
Desde esse dia, o rapaz de escuro, que vivia na casa escura, encheu-se de bons amigos, que estavam sempre a convidá-lo e a conviver com ele, passou a vestir roupas mais claras, e a ser feliz…sempre com um sorriso iluminado, contagiante, e ajudava sempre os seus amigos, vizinhos, como forma de lhes retribuir a nova decoração. Passou a estar muito tempo fora de casa.
Que grande transformação! Não teve o arco-íris que ele queria…o natural que via no monte, mas ganhou muitos arco-íris na sua vida.
Teve na mesma o arco-íris na sua casa, e o sol pintados nas paredes, que tornavam a casa muito mais luminosa e clara. O rapaz que vestia roupa escura e que vivia numa casa escura, tornou-se um rapaz cheio de cor e de luz, com um sorriso que encantava todas as meninas e senhoras que o viam. Ele tinha um arco-íris gigante dentro de si.
As cores e as luzes fazem-nos muito bem. Dão-nos alegria, leveza, vida, e saúde.
FIM
Lálá
(12/Outubro/2014)