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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Os seres de bolas de sabão

Era uma vez uma vila misteriosa, numa floresta, onde só a natureza e as casas eram reais, não existiam seres humanos, só uns seres muito diferentes de nós, feitos de bolas de sabão, de todos os tamanhos e geralmente transparentes, com o reflexo do arco-íris, eram muito leves, e circulavam por todo o lado.
Não usavam palavras, mas entendiam e falavam a linguagem das emoções. Sabiam muito bem quando se cruzavam uns com os outros, o que sentiam, só pelas cores que as bolas de sabão mostravam. Todos os seres de bolas de sabão tinham aprendido a conhecer as emoções uns dos outros, a respeitar e ajudar quando percebiam que os outros não estavam bem.
Quando eram cores como o violeta, o preto, o cinzento, o azul-escuro, o vermelho escuro, e outras mais pálidas, sabiam que estavam tristes, ou mesmo muito tristes, melancólicos, com medo, confusos. Com estas cores, as bolas de sabão desprendiam-se como folhas a cair das árvores, ao vento, andavam mais devagar e pesados, e algumas até rebentavam como se fossem lágrimas.
Se estavam com raiva ou nervosos, as bolas de sabão agitavam-se muito, soltavam-se, ficavam partidas, despedaçadas, envolviam-se umas com as outras, chocavam-se no ar, rebentavam muitas, e os seres ficavam muito diferentes, mostravam cores fortes, e quentes, ficavam vermelhas, e cor-de-laranja.
Quando tudo estava calmo, sentiam-se bem, voavam leves, sem pressa, brilhantes, ondulantes sem que as bolas se separassem, ganhavam cores suaves como azul-bebé, verde, verde água, amarelo, branco e outras.
Sempre que viam cores tristes, quem estava bem, parava e abraçava os outros, porque já sabiam que estavam mesmo a precisar…e quando trocavam abraços, as bolas de sabão de cores tristes, voavam, indo para o seu lugar, as bolas de sabão de cores claras. A outros seres ofereciam flores coloridas, e sorrisos tão doces que enchiam logo tudo de alegria. Isso deixava-os outra vez felizes, e bem-dispostos.
Curavam-se e ajudavam-se uns aos outros envolvendo-se em abraços, que formavam uma enorme bola de sabão, sorrisos e carinhos…preenchida com cores alegres. Esta era uma regra da sociedade das bolas de sabão...e em qualquer momento, todos precisavam uns dos outros, porque até nós seres humanos, às vezes só precisamos de abraços e sorrisos de alguém que nos faz mudar as cores da alma.
Há abraços que nos devolvem a alegria e o sorriso, e acreditar que mesmo não estando felizes num dia, no dia a seguir, ou alguns dias depois, estamos felizes, e ao contrário.
Porque as nossas emoções são como as bolas de sabão, flutuam, voam livres e leves…umas rebentam, outras fazem-nos mal, outras dão-nos saúde. mas todos são parte de nós.
E vocês?
Que emoções conhecem?
Se pudessem transformar-se numa bola de sabão com uma emoção, qual seriam?
De que cor?
FIM
Lálá

(27/Novembro/2015)

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O grilo


Desenho e foto de Lara Rocha 

        Era uma vez um grilo que fugiu de um país muito quente, onde deixou de haver árvores…foram todas queimadas pelas mãos de homens ambiciosos, não havia mais erva, porque também deixou de existir água, por isso, todos os animais tiveram de sair com grande tristeza e à pressa.
Todos caminharam muitos e muitos quilómetros, os que se cansavam depressa ficavam no primeiro sítio onde se sentiam bem, com sombra, água fresca e ar puro, outros andaram mais um pouco porque sentiam que mais à frente poderia ser mais seguro, e ainda outros continuaram.
Um grilo caminhou e encontrou um repouso, quando apanhou uma tempestade e teve de se abrigar…escolheu debaixo de um cogumelo grande e largo, que vivia num jardim de uma casa. Estava muito frio e ele sentia fome.
Uma coruja que estava sempre pousada na enorme árvore que abrigava o cogumelo, fazia a sua ronda nocturna com os seus olhos gigantes, e sentiu alguma coisa estranha. Pareceu-lhe ter visto uma sombra pequenina e muito frágil passar no jardim. No inicio não ligou…estava a chover muito, frio e muitos animais passavam por ali. Como não perturbavam, ela deixava-os ficar. Entretanto, quando olha para baixo, o cogumelo chamou-a.
- Está tudo bem aí em baixo, cogumelo? – Pergunta a coruja
- Temos uma visita… - Diz ele baixinho
- Quem?
- Anda cá ver.
A coruja desce, e pousa no solo. Debaixo do cogumelo está o frágil grilo, que traz consigo um instrumento musical e um saco com algumas coisas. Ele estava muito cansado e a tremer tanto que não conseguia abrir o saco para tirar de lá comida, água e roupa. As poucas coisas que ele tinha conseguido levar.
- O que temos aqui…? – Pergunta a coruja
O grilo treme ainda mais e deixa-se cair, todo encolhido.
- Um grilo… - Observa a coruja
- Sim…vais comer-me? Bom proveito…não sei se vais gostar. – Diz o grilo
- Óh, que disparate…eu…comer-te? Não… estou preocupada.
- Sou um grilo da paz. Mas se quiseres manda-me embora.
- Tu já costumas vir para aqui?
- Não. Só quero um sítio para me abrigar e descansar…estou…muito fraco. Já venho de muito longe.
- De onde?
- De uma terra que se transformou num deserto, sem água, sem árvores, sem relva… por mãos maldosas, gente ambiciosa que destrui tudo…
- Mas que horror!
- Já andei muitos quilómetros…acho eu…não sei quantos.
- Óh, fica à vontade. Não estás nada bem. Olha para ti…precisas de ajuda? Claro que sim… (abre-lhe o saco) Acho que precisas disto…e…disto…não…espera…vou arranjar-te algo melhor.
- Óh, não quero incomodar. Só quero descansar…e quando acordar procuro outro sítio. Por favor…deixe-me ficar aqui, só esta noite.
- Não te preocupes…podes ficar sempre aqui…esta pode ser a tua casa, se gostares do sítio. Ninguém se vai incomodar. Espera aí…
O grilo deita-se encolhido, a coruja arranca umas folhas grandes da árvore, umas cascas e volta a descer.
- Ora levanta-te…por favor.
O grilo levanta-se com muita dificuldade, a coruja faz uma bela e confortável cama para o grilo, pondo a casca da árvore por baixo, em forma de barco, duas grandes folhas da árvore.
- Deita-te, e experimenta se está confortável. – Diz a coruja
O grilo deita-se, surpreso e diz com um grande sorriso:
- Está maravilhosa…mais que confortável…perfeita.
A coruja sorri, e voa outra vez, vai buscar pedaços de musgo e penas de pássaros que se amontoaram no jardim. Volta e vê que o grilo está a comer e a beber o que lhe restava.
- Boa. Quando quiseres deita-te.
No fim de comer, o grilo deita-se, e a coruja cobre-o delicadamente, com a roupa que ele trazia, mais o musgo enrolado numa folha grande, e as penas presas.
- Estás confortável? – Pergunta a coruja
- Maravilhosamente confortável. – Responde o grilo
- Quente? – Pergunta a coruja
- Muito quente. Muito obrigada. Quer dizer…obrigado é pouco para tudo isto que estás a fazer por mim.
- Não te preocupes com isso! O que eu quero é que estejas bem. E qualquer coisa que precises, estou nesta árvore. Aqui estás protegido do frio, do vento e da chuva. Mesmo assim, se sentires frio ou precisares de alguma coisa diz-me… ou ao cogumelo. Agora…descansa!
- Combinado. Muito, muito obrigado.
A coruja voa para a sua toca, sempre atenta a tudo, e o grilo dorme a noite toda, e nos dias seguintes, só acorda quando sente fome, vai buscar comida, recomendada pelo cogumelo, e volta a dormir. A coruja está sempre de vigia.
Uma semana depois, o grilo está como novo. Alimenta-se, e sai da sua casa:
- Sim, eu quero ficar aqui. – Diz o grilo
E vai explorar todo o jardim. Fica encantado! Mete logo conversa com as flores e outros animais que por lá andam, muito simpático, faz grandes amigos, que lhe dão coisas que ele precisa, mesmo sem ele pedir.
Uns dias mais tarde, ele sente saudades do seu instrumento musical, acompanhado do seu belo canto, e começa a tocar timidamente para não incomodar. Muitas cigarras e outros grilos saem das tocas, muito curiosos para ver quem estava a tocar daquela maneira, o cogumelo fica a ouvir deliciado, e de repente o grilo pára.
- Áh! – Exclamam todos
- Que lindo… - Suspira uma cigarra
Todos aplaudem. 
- Continua mano… - Diz outro grilo
- Tanta timidez para quê? – Pergunta outro grilo desafiador mas simpático
- Toca mais… - Diz outro grilo
- Sim… - Incentivam todos
- Obrigado! – Diz o grilo a sorrir
Todos querem saber tudo sobre ele e fazem-lhe muitas perguntas, ele responde de forma simpática e delicada a todos. Todos se oferecem para o ajudar, acolhem-no e integram-no como mais um da família deles. ele fica muito feliz.
- Porque paraste, amigo? – Pergunta o cogumelo
- Não quero incomodar…desculpa! Tive saudades do meu instrumento…
- Mas não incomodas nada. Continua. Eu estava a gostar tanto. Que instrumento é esse?
o grilo sorri:
- A sério? Pensei que te ia incomodar…
- Não…
- É um violino.
- Violino? Huummm… nunca ouvi falar.
- Há umas meninas com asas que também tocam muito bem este instrumento.
- As fadas.
- Isso. Conheces?
- Sim, muito bem…sou um grande amigo delas. Elas vêm aqui muitas vezes…vão adorar conhecer-te e saber que tocas o mesmo que elas…Adoro esse som. Não tenhas vergonha de o tocar. É tão lindo…tão bom ouvi-lo.
- Obrigado.
- Toca mais…por favor!
O grilo fica tão feliz que toca alegremente, e o cogumelo dança, ri, e aplaude. As fadas ouvem e aproximam-se. O grilo sorri envergonhado, mas depressa fica à vontade, porque elas pedem-lhe para tocar mais, e acompanham-no.
Cresce logo entre eles uma linda amizade, e dias depois dão fantásticos concertos de música a tocar todos juntos…todos os animais e flores do jardim adoram esses momentos musicais, dançam, convivem, conversam, brincam, cantam, aplaudem e deixam-se levar pelas músicas.
Num instante, todos ficaram a conhecer o grilo. Até a menina da casa foi conhece-lo e pedia-lhe para ele tocar…enquanto ele tocava, ela sonhava, e brincava com as fadas, fazia os seus trabalhos da escola muito mais feliz e muito mais bonitos.
A coruja estava sempre a tomar conta dele e a aquece-lo quando caiu neve, e a menina também cuidava da casinha dele, com todo o carinho, tal como as fadas. Era tratado com muito carinho por todos, era muito feliz e fazia os outros muito mais felizes. 
Já imaginaram um grilo a viver no vosso jardim?
Já o ouviram cantar?
Fim
Lálá
19/Novembro/2015
   

    

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A pintora desajeitada

foto de Lara Rocha 



Era uma vez uma fada toda feita de nuvens que vivia nas nuvens, numa casa feita de nuvens com a sua família de nuvens. Um dia estava muito amuada, irritada e triste, porque estava farta de chuva na sua zona. Ela olha pela janela.          
- Não posso acreditar! – Grita ela com os dentes cerrados e a gritar
- O que foi? – Pergunta a sua mãe
- Não me faças perguntas… - Resmunga ela
- Tu não falas assim comigo! – Diz a mãe, muito séria
- Ei…estás séria como o céu…
- E vou ficar ainda pior. Ouviste a maneira como me respondeste? Isso são maneiras de falar com a tua mãe?
- Desculpa. Estou de mau humor.
- Ai… que paciência. Vai apanhar ar lá fora.
- Está a chover outra vez. – Grita a fada
- E que culpa tenho eu…? Ou…nós?
- Nenhuma. Mas é que… bem… acho que vou mesmo lá fora. Vou ter uma conversinha com alguém.
- É. Vai. E deixa a raiva lá fora…vai apanhar ar.
    Ela sai a porta a resmungar sozinha.
- Detesto este céu, desta cor. – Grita ela no dobro do seu tamanho de tão zangada que estava. 
    Pegou na sua palete de cores e começa a saltar em cima dos tubos de tinta que lançam um enorme jato de todas as cores. 
    As cores gritam, dão as mãos, dançam, misturam-se e fazem um enorme e lindo círculo de arco-íris.
- Áh! Assim sim, já gosto mais deste céu. Mas mesmo assim, ainda não gosto.
As cores, que estavam felizes, ficam tristes com o comentário, dissolvem-se nas suas próprias lágrimas, e juntam-se numa nuvem negra assustadora.
- Ei…onde é que vocês foram?
Não há resposta nem barulho. A fada fica triste. Pega outra vez na sua paleta de cores, mistura-as, mas vem uma rajada de vento muito forte que a faz rodar muito rápido, e ela sem largar os pincéis e as cores grita. 
O trabalho final não é nada bonito, mas há muitas cores. 
O vento desata às gargalhadas.
- Já viste o que fizeste? – Pergunta ela muito zangada
- Tu é que és a pintora, mas não fazes obras nada bonitas.
- O quê? Tu é que és um insensível.
- Não. Tu é que não tens mesmo gosto nenhum, nem jeito.
- Áhhhh!
- É verdade.
- Mas…
- Sim, enquanto estiveres nesse estado, não vais fazer nada de jeito.
- Que estado?
- Assim, quase a explodir…tu é que pareces uma ventania.
- Huummm…estou muito zangada.
- Já reparei. Mas posso saber porquê?
- Não.
- Pronto, está bem…então fica lá com o teu mau humor, e a tua irritação. (o vento afasta-se ligeiramente) Desculpa! Acho que estraguei as tuas obras. (afasta-se mais um bocadinho) Deve ser por isso que estás tão zangada…
- Não. Espera…talvez me possas ajudar.
- Eu? Ajudar-te? (ri) Tu é que costumas ajudar os outros, não sou eu. Eu sou vento, tu és fada.
- Mas as Fadas também precisam de ajuda…às vezes!
- Precisam?
- Claro! Tu também precisas?
- Sim, claro.
- Detesto este céu. Estou farta da chuva, farta de ver estas nuvens escuras…queria dar-lhes outras cores mais bonitas, alegres… sem cores fico muito triste.
- Eu também gosto muito de cores. E mesmo as nuvens escuras, e a chuva…têm cor.
- Sim, é verdade. Mas são muito escuras…eu gosto mais de cores alegres.
- Mas não podes mudar as cores que elas têm.
- Porque não?
- Isso é com o sol.
- Eu vi o arco-íris, mas desapareceu. Saltei em cima dos tubos de tintas, um de cada cor… delas saiu um grande jato de cores, elas deram as mãos, dançaram, misturaram-se e formaram o arco-íris, mas…desapareceram…Acho que ficaram tristes, por uma coisa que eu disse.
- Pois! Estou a ver…
- Quem? O arco-íris?
- Não. O que tu fizeste…
- Foi mau, não foi?
- Foi. Mas o que é que tu querias pintar?
- Nada de especial…e…tudo à minha volta…para ficar colorido...para dar cor a estas nuvens tão escuras.
- As nuvens escuras são importantes…e têm a sua beleza.
- É. Mas cansam depressa. Eu não gosto de tudo tão escuro.
- Mas também não podes mudar a cor…podes pintar com outras cores, mas em desenhos, ou nos teus sonhos.
As cores gostaram tanto do que o vento disse, que voltam a aparecer em forma de arco-íris entre as nuvens a sorrir. A fada tenta agarrá-las, mas elas escondem-se.
- Porque é que fogem?
- Porque não fomos feitas para sermos agarradas…
- Só…olhadas.
- E apreciadas.
- De longe!
- Para sermos vistas…
- Sentidas…
- Tocadas com os olhos.
- E vocês gostam dessas nuvens tão escuras?
- Sim! – Respondem todas
- Eu não gosto. E quero pintar tudo à minha volta com outras cores.
As cores desatam a rir às gargalhadas.
- Achas que mandas nisto…
Aparece um raio de trovoada e faz um estrondo.
- Vai-te embora. – Grita a fada
- O quê? – Pergunta o raio
- Eu não gosto de ti. – Resmunga a fada
- Olha para a minha cara de preocupado… (responde o raio a rir) tu ficas aí, que eu fico aqui… e está tudo bem.
- Tu não me dás cores…não gosto de ti.
- Quero lá saber. Não tenho nada a ver com cores…só com…luz.
A fada fica mesmo furiosa. Aperta os tubos de tintas aos gritos, roda, salta…todos a mandam calar. O vento prende-a.
- Pára quieta e pára de gritar, criatura irritante. Já me estás a deixar muito nervoso…e olha que eu até sou calmo…
Aparece o sol.
- Mas o que é que se passa?
- Esta criatura só grita… reclama por cores. Diz que detesta nuvens escuras, que está farta de nuvens escuras e de chuva. – Explica o vento
O sol ri.
- Sou pintora. – Grita a fada
- Pintora? – Todos desatam a rir
- És uma pintora muito desajeitada. – Brinca o vento
- É verdade. – Confirma o sol
- Tu queres pintar o quê? – Pergunta outra nuvem
- Quero encher isto tudo de cores.
- Não podes.
- Porquê?
- Eu é que mando…
- Porque é que me roubaste as cores?
- As cores estão mesmo diante de ti. – Mostra o sol
- Mas eu vejo tudo igual…e não gosto destas cores.
- Enquanto estiveres assim tão irritada, eu não te ajudo. – Diz o sol
- Porque não?
- Porque não são maneiras de tratares a natureza.
- Mas ela é quem manda?
- Claro.
- Pensei que eras tu!
- Não. Eu faço parte dela, mas é ela quem decide tudo. Não sou eu…eu só obedeço…ou apareço ou não…e onde…quando ela quer…ou manda.
- Mas…ela não entende que ficamos tristes quando tu não estás?
- Entende. Mas é porque ela acha que sou mais preciso noutros lugares.
- Óhhh…
- Não posso contrariar as ordens dela. Nem vai ser por tu ficares tão irritada que ela vai mudar as coisas.
- Não?
- Não!
- Eu só quero cores…
- Vais tê-las aqui fora, quando a Natureza entender…
- Mas…
- E é melhor não discutires com ela.
- Porquê?
- Ela não gosta…e não é para brincadeiras.
- É pior do que eu?
- Muito pior.
- Não pode ser.
- É.
- Achas que se falares com ela, ela vai fazer-me a vontade?
- Não. Isso tens de ser tu a pedir, e mesmo assim é melhor não teres muita certeza que ela vai realizar o teu desejo.
- Eu quero cores…
A voz da natureza soa:
- Pinta, e cala-te um bocadinho, por favor. Já estou cansada de te ouvir.
- Ãh? – Pergunta a fada
- É a mãe. Respeita-a…- diz o sol
- Ela está a mandar-te pintares. – Diz o vento
- Mas vou pintar onde?
- Na tua casa…sossegada, calada… e bem comportada. Em papel branco, com as tuas tintas. – Manda a natureza
- Mas…
- Vai já para casa. – Ordena a natureza
A fada obedece, triste e um pouco assustada. Senta-se em frente ao apoio das folhas de desenho, e olha para as tintas.
- O que é que eu vou pintar?
- O que tu quiseres… - soa a voz da natureza
Ela faz um desenho cheio de riscos, pintas, borrões com várias cores.
- Está bem?
- Não! – Respondem todos
- Está muito mau. – Diz o vento
A fada quase explode.
- Nem te atrevas…respira…- Ordena a natureza – Eu não faço obras dessas
Ela respira muito zangada, e faz outro desenho, ainda mais trapalhão. A natureza ri-se.
- O que é isso?
- Faz um desenho como deve ser. – Sugere o vento
Ela tenta outra vez, muito zangada. Uma mancha de tinta salta da folha e transforma-se em gota gigante. Fica a olhar para ela.
- Isso é coisa que se apresente, menina?
- Ai, que susto. De onde saíste?
- Daqui. Desta salsichada que chamas desenho. Olha para isto…? Que coisa é esta…? Não tem pés, nem cabeça.
- O quê? Mas…que indelicada…Eu não estou a desenhar salsichas. 
- Estou a ser muito sincera. Tu não sabes pintar.
- Sei.
- Não. Muito menos quando estás nervosa. Olha para isto…? Que bagunça. A natureza não gosta disto…nem ela nem ninguém.
- Óh!
- É verdade.
A mancha dá uma longa lição de pintura à fada, explica tudo passo a passo de como fazer a pintura.  Mostra cores, fala com elas, elas dizem as suas funções, explica quais as cores que se podem misturar, e as que não podem 
Pega nas mãos da fada e põe-nas a desenhar como deve ser. Quando ela começa a desenhar coisas bonitas, e a ficar muito bem-disposta com a mancha, a natureza à sua volta começa a ganhar uma nova vida. 
As nuvens mudam de sítio, aparece o sol, as gotinhas escorregam das pétalas das flores, e dos troncos das árvores, e todas as cores de tudo o que parecia ser pintado com a mesma, sorriem.
A fada sai a correr de casa, toda feliz, com um grande sorriso, e corre solta pelo espaço.
- Finalmente…sol! Luz…muito obrigada… obrigada Natureza… obrigada, mancha de tinta…por me teres ensinado a pintar.
- Mas lembra-te de respeitar também a chuva, porque até ela tem a sua beleza…e é muito necessária. – Aconselha a Natureza
- Sim, já percebi.
E a fada volta a brincar com as cores. Quando estava chuva, ela deixou de ficar zangada, e aprendeu a pintar de verdade…até a chuva ela pintou. 
Quadros lindíssimos, da Natureza, com todos os belos e pequeninos pormenores, pois adorava tudo o que via, e via com olhos bem abertos para captar tudo…
Sonhava, e passava todos os seus sonhos para o papel, enquanto viajava pelo mundo das cores, que às vezes era só seu.
Era de certeza um mundo lindo, porque todos os seus quadros passaram a ser muito apreciados por todos. 
Até lhe pediam para fazer quadros especiais, quando queriam oferecer alguma coisa muito especial a alguém.
A pintora que era desajeitada, aprendeu a pintar e a não ficar zangada quando estava a chover. Com sol ou chuva, a Natureza é mesmo assim, e ela merece sempre a nossa admiração, não é?

                                               FIM
                                          Lara Rocha 
                                  (9/Novembro/2015)

  

domingo, 25 de outubro de 2015

O gato e o sol

      
                                                                        foto de Lara Rocha 

          Era uma vez uma gato vadio que adorava vaguear pela cidade, caminhar sem pressa pelos jardins, principalmente aqueles com vista privilegiada para o rio. Embora o vento fosse às vezes frio, ele também gostava muito de sentir os arrepios e ficar com o pelo espetado, com a aragem, e de levar com ele no focinho, porque arrastava perfumes deliciosos, que lhe abriam o apetite. e até o faziam sonhar...correr atrás de boa comida e encontrava! 
       Era um gato romântico e conquistador, solitário e sonhador, por isso, outra coisa que ele adorava fazer era vaguear pelos telhados, ver o pôr do sol, a lua, as estrelas e o nascer do sol. Não tinha sítio certo de dormir...umas vezes aterrava onde o cansaço lhe cotucava, ou quando o soninho chegava...tanto era nos jardins, debaixo de um banco, como nos telhados, nas soleiras das portas ou em carcaças de árvores, dentro de troncos. 
      Um dia o gato estava em cima de um telhado, de telhas quentes, que já conhecia muito bem, porque as pessoas davam - lhe mimos e comida, até tinham um ninho confortável para ele num anexo da casa, que era uma lavandaria. Em cima do telhado cheirava muito bem, pela chaminé...enquanto esperava para ver o que hoje lhe tocava jantar, olhou para o céu...procurou a lua e as estrelas, mas só viu muitas nuvens. 
       O cheiro da comida estava cada vez mais perto, e era cada vez melhor, tal como a sua fome. Desceu do telhado, e óh...que delicioso prato o esperava! A família deixou para ele à entrada da lavandaria, uma rica sopa forte, cheia de petiscos que ele adorava. Ficou consolado, e como comeu tudo...adormeceu pouco depois. Nesse dia já tinha andado muito, estava cansado.
      Acordou quase de manhã, o céu estava escuro, mas ele estava cheio de energia. decidiu subir ao telhado a ver se a luz tinha aparecido, ou se estava escondida. Estava bem visível...e cheia! À sua volta haviam estrelas, e uma pequenina claridade sobressaía no meio da escuridão. 
      Tudo silencioso...Mas num instante...começa a clarear o dia...a lua vai embora, as estrelas vão atrás dela, e o sol começa a aparecer devagarinho, envergonhado. O gato sorri...de repente, o sol transforma-se bum barco todo iluminado, onde vai a linda luz com as estrelas. O gato não acredita no que está a ver e solta uma grande exclamação. 
      Ele nunca tinha visto um barco assim...e o sol barco navega nas ondas, de todo o tipo: grossas e escuras, grandes e brancas, bem enroladas. Algumas vezes, o barco parece que desaparece...e volta a aparecer, outras vezes, aparece só um bocadinho do barco: 

- Óh não...será que o barco se afundou? Onde foi? Agora...parece que o barco está a arder...tem uma cor vermelha! (O gato fica inquieto...) E não se vê todo...O que aconteceu? A lua e as estrelas escaparam? Atiraram-se à água? Será que foi o vento? - Pergunta o gato e dos seus olhos até escaparam umas lágrimas. - Como é que eu vou viver aqui... sem o sol...a lua e as estrelas? - Lamenta o gato triste. 

          E desce do telhado, volta para o seu ninho.

- Eu gostava tanto da lua, do sol, e das estrelas...como é que o sol se transformou num barco? Será que foi só hoje? Ou já acontecia antes? Será que foi algum feitiço da lua? Óhhh... 

         E volta a dormir. Quando acorda vê muita claridade à sua frente, dá um grande salto assustado e sai da lavandaria. Mesmo por cima de si está um sol maravilhoso, lindo, luminoso, o céu muito azul e já estava a aquecer. 

Os meninos da casa estavam mergulhados na piscina a brincar felizes com a água e os adultos a apanhar sol. 

- Olá dorminhoco! - Dizem os meninos ao gato 

- Será que eles não viram a mesma coisa? 

       Tudo está como antes! Olha para cima, não vê o barco, com luz, que levava a lua e as estrelas, que aparecia e desaparecia, e parecia que tinha ardido, nem as ondas. 

- Afinal...o sol não desapareceu? Áh! Boa! E a lua e as estrelas...hummm...acho que...é dia...por isso...só está o sol! Então...eu...sonhei ou imaginei que aquilo estava a acontecer! Claro! Ainda bem...não queria nada que aquilo acontecesse. O mundo não existia de não houvesse sol...que horror...o sol é tão bom! Faz tanta falta. Obrigada Sol, por apareceres todos os dias...e por fazeres tão bem ao nosso planeta! Se mais ninguém te agradece...agradeço eu...que sou um gato, mas também sonho contigo, gosto e preciso de ti, querido sol! 

        Os gatos sonham e agradecem à maneira deles, e vocês, meninos, já pensaram como o sol é importante para nós? E para a nossa terra? Já agradeceram? 

FIM 
Lálá 
(24/Outubro/2015) 

as asas da fada

       


Era uma vez uma linda fada, que vivia num tronco de uma árvore muito velha, com a sua família. Um dia, uma bruxa disfarçada de fada que se fazia muito boa amiga da fada, na verdade sentia muita inveja por ela ser tão bonita e estar quase sempre feliz. 
     A bruxa vivia longe da sua família onde todos eram maus, e com um coração vazio de sentimentos...eram infelizes, e não suportavam ver os outros felizes, por isso faziam de tudo o que podiam para roubar as coisas boas que eles não tinham. 
    Numa tarde, as duas amigas (fada e bruxa) foram dar um passeio, rir e conversar, brincar...e de repente, a bruxa fingiu que era tão meiga como a fada, e pediu-lhe um abraço. A fada, era mesmo meiga e adorava carinho, por isso recebeu o abraço com um grande sorriso...porque não sabia que a fada amiga era afinal uma bruxa...e no momento em que as duas se abraçaram, as asas da fada, tão lindas, leves, finas e brilhantes, transformaram-se em gelo...que até parecia vidro. 
     Quando a bruxa a larga, ela não consegue mexer-se, nem voar, sente-se muito pesada e cai na relva, mas não sente o chão, nas suas asas. 

Ela grita muito assustada: 

- Ai...o que é que aconteceu às minhas asas? Caí....e...não sinto a relva nelas...e...estou...tão pesada... (levanta-se e cai outra vez) não consigo levantar-me! Sinto-me... muito esquisita. 

A bruxa finge-se preocupada: 

- Então, amiga...o que se passa? 

- Não sei! estou...estranha! 

- Ah...acho que estás a ficar...doente! 

- Óh, não! Não pode ser...não quero...as minhas asas...o que é que elas têm? 

- Nada! Estão na mesma...lindas, brilhantes...acho melhor... 

- Mas...

- Eu vou chamar o médico. Não vai ser nada grave, vais ver, mas pelo sim, pelo não...é melhor ver. Já volto. Não demoro nada. O médico é já aqui ao lado. 

- Obrigada. Ai...! 

A bruxa está comprometida. Finge que está muito preocupada e que vai chamar o médico, mas assim que se afasta, foge às gargalhadas. 

- Áh, áh, áh...consegui! Fica para aí...tótó! Caíste que nem uma patinha...quero lá saber de ti...não vais sair daí...as tuas asas estão transformadas em vidro! Tu mereces. Áh, áh, áh...peneirenta! Eu quero ver como é que agora vais sair daí, e andar por aí a desfilar, para toda a gente olhar para ti. Quero ver se alguém mais vai olhar para ti...! Para mim também não olham...nunca...ao contrário de ti...vais ver o que é bom...vais ver o que custa ser ignorada. 

E não vai chamar médico nenhum, segue para o seu horrível castelo, vitoriosa, e orgulhosa por ter conseguido transformar as asas da fada em gelo. A fada acha muito estranha a demora da amiga e do médico, levanta-se com muito dificuldade e vai para casa triste, preocupada, e desiludida, com muitas quedas à mistura. 

- Óh, não acredito...fui enganada. Como é que ela fez isto comigo...eu dei-lhe o abraço, e muitos abraços, e nunca me fez isto às asas...porque é que fez isto hoje...? Como? Eu pensei que ela era minha amiga, mas com tanto tempo que demorou, e não apareceu...mas que grande amiga! Deixou-me ali... 

Chega a casa e pede aos pais ajuda. Os pais levam-na à Avó porque perceberam logo que aquilo era obra de bruxinhas...A Avó tem poderes para destruir feitiços de bruxas. Ela vai ao colo do pai a choramingar, e quando chega a casa da Avó... 

- Avó...olha o que aconteceu às minhas asas! Não consigo fazer nada...estou muito pesada. 

- Isso foi alguma bruxita...mas vais já voltar ao normal. 

A Avó faz uma magia e o gelo das asas da fada derrete. Ela volta a ficar leve, livre, linda...a Avó até lhe dá um protector contra bruxas. E recomenda:

- Filha...vê com quem andas. Olha que nem toda a gente é quem parece. 

- Sim, Avó...agora já sei. 

- Nem toda a gente é boa como tu, e aproveita-se. Tens de estar mais atenta. 

- Sim. Obrigada, Avó. 

- Este protector vai avisar-te quando te aproximares de alguém perigoso, ou que não merece a tua bondade. 

- Entendi. 

Depois das recomendações da Avó, a fada passou a andar sempre com o protector, e a estar mais atenta. A malandreca da falsa fada volta a fingir que é muito amiga dela, e fica surpresa: 

- Óh...já estás curada. Vês? Eu disse-te que não ia ser nada grave...o que era afinal? Fiquei muito preocupada... não encontrei o médico...ele não estava lá. 

- Ui, ficaste mesmo muito preocupada...obrigada...ficaste tão preocupada que me deixaste lá...

- Desculpa...é que o médico não estava. 

- Pois...que chatice!  

A fada quase explode, e o protector avisa-a de que há perigo. Ela grita: 

- Vai-te embora! Falsa. Como é que eu me deixei levar por ti, pela tua aparência, pela tua conversa... Eu pensei que eras minha amiga, que querias o meu abraço...tudo mentira. Fingida... O teu abraço congelou as minhas asas...não conseguia voar...sentia-me presa, claro...não admira...tinha gelo...como haveria de voar ou de fazer o que quer que fosse. Invejosa...que coisa mais horrível... Só porque és má e infeliz não suportas ver ninguém bem, feliz...também podes ser feliz, mas não conheces essa palavra...roubá-la aos outros é mais fácil, dá menos trabalho...não é? Luta por ela...só assim é que vais consegui-la. Maldita! Põe-te bem longe de mim...e não volte a aparecer, se não eu não sei o que te faço. Olha que eu sou boa até certo ponto, mas quando me magoam ou desiludem...não tem volta...mostro o meu pior lado. 

Aparecem vários chicotes à volta da bruxa, e começam a afugentá-la...ela nunca mais volta a chatear a bela fada. 

Fim 
Lálá 
(23/Outubro/2015) 

DO SONHO PARA A REALIDADE




Era uma vez um lindo e solitário Unicórnio aquático que vivia entre as profundezas do mar, numa bela praia muito limpa, de areias e águas cristalinas. Um dia, enquanto descansava com a sua família, sonhou com uma linda e mágica unicórnio aquática. Tão linda, elegante e sensual que ele ficou apaixonado por ela, mesmo sem nunca a ter visto antes. No sonho, os dois passeavam juntos pela praia, conversavam, fixavam o olhar um no outro, corriam, e até dançavam ao som de melodias e canções tocadas pelas sereias.
Acordou com um olhar apaixonado, o coração a bater muito depressa e um sorriso brilhante. Mas quando olhou em volta, estava no mesmo sítio e, apenas com os seus pais a quem ele amava, é claro, mas queria encontrar alguém especial, que o preenchesse…a sua cara-metade. Então, percebeu que tinha sido um sonho bom, mas pelo sim pelo não, ele foi à praia, ver se ela estaria lá! Não estava…voltou para a sua casa e aquela imagem tão bonita não lhe saia da cabeça.
Durante vários dias, o Unicórnio sonhou com ela, e aí eram felizes…todos os dias o Unicórnio foi á superfície ver se ela estava lá. Mas nunca estava! Por um lado ele tinha esperança e queria encontrá-la, mas no fim de tantos dias, começava a achar que realmente ela só existia nos seus sonhos.
- Óh, que pena. Acho que ela só existe mesmo nos meus sonhos. Talvez ela seja só mais uma das muitas personagens com quem me encontro todas as noites. Todas as noites são diferentes, vivo aventuras com elas, e depois elas vão para outros sonhos de outros unicórnios. Mas, esta era tão bonita! Queria muito que ela existisse mesmo, mas parece que não! Como é que eu consegui criar uma personagem que não existe?
A tristeza tomou conta do seu coração e até lhe fugiram algumas lágrimas que se misturaram com a água salgada e seguiram o seu caminho ao sabor das ondas, enquanto ele voltou para casa. Mas não voltou a pensar nela e os seus dias voltaram a ser como os de antes.
Passados uns dias, tudo mudou. Sentiu uma vibração diferente na superfície, olhou para cima e viu uma sombra que lhe pareceu familiar. Num impulso rápido, subiu com algum medo, mas cheio de curiosidade…sentiu que alguma coisa o chamava. Quando chegou à praia viu a bela Unicórnio dos seus sonhos a desfilar.
Ele nem queria acreditar no que estava a ver:
- Mas eu estou a sonhar ou acordado? É ela. É a unicórnio que apareceu nos meus sonhos. Sim! Por isso a vibração era diferente! Bem…comporta-te…vai com calma…não a assustes…
Ele tenta controlar-se, mas a felicidade era tanta, juntamente com o medo que ela fugisse ou que não gostasse dele…ou até…que ao chegar à beira dela, não fosse mesmo aquela com quem tinha sonhado… desata a correr, nada elegante, todo desajeitado, até levanta areia…parece uma ventania. Vai tão lançado que não consegue parar em frente à unicórnio, e quase bate contra uma palmeira, até que cai.
Ela pára assustada e a olhar para ele:
- O que foi isto? Passou alguma coisa à minha frente.
E quando olha para ele, a recompor-se, desata a rir às gargalhadas, e pergunta:
- Tudo bem?
Ele quase desmaia de felicidade, e murmura para si mesmo:
- Ela está a falar comigo. Uau.   
E vira-se para ela, com uma pose sexy. Os olhos dos dois cruzam-se, e nasce neles um brilho especial, acompanhado com um sorriso luminoso, de encanto um pelo outro.
- Olá! Desculpa se te assustei… - Diz o unicórnio
- De onde saíste tão disparado? – Pergunta ela
- Dali, do mar.
- És um unicórnio aquático não és?
- Sim! E estou a ver que tu também és.
- Sim!
- Áh! Eu nunca te vi por aqui.
- Nem eu! Mas venho aqui muitas vezes.
- Vais passear?
- Vou.
- Posso acompanhar-te?
- Podes.
E os dois passeiam lado a lado, sorridentes, conversam, brincam, riem, descobrem muitos pontos em comum e também muitas diferenças, mas essas diferenças não os tornam inimigos, muito pelo contrário.
Nesse dia, nasceu entre eles uma linda amizade, que cresceu, até se transformar em amor. Uns anos mais tarde, casaram e formaram uma família que era o orgulho de todos…dos pais, e até deles próprios.
                                                                              FIM
                                                                              Lálá
                                                               (14/Outubro/2015)


domingo, 4 de outubro de 2015

Debaixo das folhas

                                                    foto de Lara Rocha 

Era uma vez, um parque de uma grande cidade. Ainda era Outono, há poucos dias, mas parecia um dia de pleno Inverno, com chuva e vento forte, tão forte que levantava tudo o que fosse mais leve. Misturado com as sacudidelas de chuva voaram milhares de folhas das árvores arrancadas quase sem se aperceberem e sem se poderem agarrar aos troncos, porque até alguns desses foram deitados abaixo. O barulho do vento arrepiava todas as pessoas que estavam dentro de casa, assobiava e zumbia entre as frinchas das persianas, os meninos ficaram cheios de medo…
Quando tudo acalmou, e o sol voltou com as nuvens, todo o chão ficou coberto de folhas, e os varredores de rua juntaram-nas em vários montes com as vassouras, debaixo das árvores. Tanto trabalho que eles tiveram a juntar tudo, para pouco depois dois cãezinhos pequeninos que foram passear com os seus donos iam a correr disparados, e chocaram contra um dos montes de folhas, ficando debaixo dele.
Remexeram e ganiram muito aflitos para encontrar a saída e livrar-se daquelas folhas todas, mas não conseguiram. O dono estranhou o seu silêncio e viu as folhas a mexer, chamou os cãezinhos, como eles não responderam, levantou as folhas…lá estavam eles. Respiraram de alívio.
- Ufa! Que grande sufoco. – Respira um cãozinho aliviado
- Como é que não vimos as folhas? – Pergunta outro cãozinho
- Íamos tão felizes…
- Pois.
- De onde veio tanta folha?
- Das árvores é claro. Com a ventania que esteve…
Continuaram o passeio, a abanar as caudinhas de felicidade. Entretanto, outros cães de rua envolveram-se numa luta, e correram atrás uns dos outros, estavam tão loucos que nem viram que o chão de uma ponte estava coberto de folhas, escorregaram e só pararam quando deram uma cabeçada numa árvore. Caíram e sossegaram.
- Au… Onde estamos? – Pergunta um cão
- O que aconteceu? – Pergunta outro cão
- Ei…- Lamenta outro cão  
- Não acredito nisto! – Resmungam umas cadelinhas
Quando se aperceberam estavam cobertos de folhas, deram um grande salto, assustados, e para tentar sair do sítio deram às patas, desajeitadamente, mas ainda foi pior, porque cobriram-se ainda mais…ficou tudo escuro porque eles não conseguiam ver nada com tantas folhas. Só estavam preocupados em lutar uns com os outros, e voltaram a correr atrás uns dos outros, a ladrar…mas as folhas eram tantas que quanto mais eles se agitavam, mais escorregavam e menos possível era apanharem-se. Não desistiram!
As folhas continuaram a cair sem parar, e o vento que não gostou nada de ver aquelas lutas, voltou a soprar forte, e a juntar folhas para que eles ficassem apertados. Eles bem tentaram libertar-se mas não conseguiram. Ladraram muito aflitos, e de repente apanharam com castanhas nas cabeças, e ouriços que caíram das árvores, por isso não se mexeram para não se magoarem.
- Au…au…au…au…- gritam todos
- O que é isto? – Pergunta um cão zangado
- Só faltava esta também…ouriçada e castanhada… - Responde outro cão
- Óh não! – Gritam todos
- E agora, como vamos sair daqui? – Pergunta um cãozinho aflito
- Eu não me consigo mexer. – Diz outro
- Nem eu. – Acrescenta outro
- Quem é que nos fez isto? – Pergunta outro
- Eu não fui com certeza… - Responde outro
- O que é que interessa agora quem fez isto? – Resmunga uma cadela
- A culpa é vossa… - Acusa outra cadela
- O que interessa agora é como vamos sair… - Diz outra cadela
- Estamos cobertos de folhas e não nos conseguimos mexer. – Comenta outro cão
- Onde é que eu estava com a cabeça…mas que ideia tão palerma que tivemos, vir atrás destas… - Lamenta outro cão
- Ainda bem que reconheces que foi uma ideia estúpida. Não fomos nós que vos mandamos vir atrás de nós, pois não? – Resmunga outra cadela
O vento ri às gargalhadas. Chega um grupo de meninos bem agasalhado que ao ver tanta folha e os cães, vão a correr, e atiram-se para o monte de folhas…caíram no macio, como se fosse um tapete, ou uma piscina. Pegam nas folhas e começam a atirar uns aos outros, afastam-nas dos cãezinhos e libertam-nos.
Os cãezinhos acharam tão engraçado, e gostaram tanto de estar outra vez livres, que se esqueceram que há pouco tempo atrás estavam zangados e só queriam lutar, mas agora estavam tão felizes que brincaram juntos com os meninos, saltaram, espalharam as folhas com as patas, riram, escorregaram, deram cambalhotas, acompanharam os meninos que cantavam e deslizavam sobre as folhas com latidos e a ladrar.
Depois chegaram mais grupos de mais meninos, e a diversão foi ainda maior. Fizeram a grande festa da folha e brincaram juntos a atirá-las e a mergulhar nelas.  No fim, os meninos apanharam os ouriços com pás, abriram-nos com os pés, e tiraram as castanhinhas para as comerem à lareira ou na escola.

FIM
Lálá
(4/Outubro/2015)