Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta fada. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fada. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 30 de março de 2016

O caça sonhos da aldeia

          
         Foto de Lara Rocha 

           Era uma vez uma aldeia pequenina, onde vivia gente simples, em casas feitas nos troncos de árvores e onde reinava a paz. Na entrada dessa aldeia havia um caça sonhos grande, muito bonito, leve que protegia os habitantes de pesadelos. Acolhia e guardava bons sonhos, sorrisos, abraços e gestos de bondade, energias de amizade, e coisas boas.
          Um dia as energias de pesadelos invadiram a aldeia, vindas de um pónei que fugiu de um circo e que estava muito nervoso, assustado...cavalgava desnorteado de um lado para o outro, a dar coices, a correr desajeitado, a levantar muito pó, num campo entre girassóis, que se fecharam com o susto. 
         Por um lado o pónei queria mesmo fugir, não aguentava mais aquele ambiente cheio de barulho, aquela música a gritar, aqueles enfeites todos que espalhou pelo caminho e a inveja dos outros animais, que ele não percebia a razão. Ao mesmo tempo, ele estava assustado, não conhecia nada, mas aquele parecia-lhe um lugar seguro.
        Por onde ele passou, espalhou más energias que chegaram à floresta, mesmo com o caça sonhos à entrada. Os habitantes da aldeia começaram a ficar com muito mau humor, carrancudos, nervosos, a peguinhar uns com os outros, resmungavam, protestavam por tudo e por nada, discutiam, e estavam muito estranhos. Até o caça sonhos ficou mais pesado, com as cores escuras e molengo...parecia estar doente.
- Não sei o que está a acontecer, mas não me sinto nada bem. - Murmura o caça sonhos
Voa uma fada pequenina trazida pelo vento:
- Olá...o que temos aqui? Sinto o ambiente muito pesado. E tu incluída.
- É verdade! Não sei o que está a acontecer...mas acho que a culpa é minha.
- O quê?
- Sim.
- Mas que disparate! Porque haveria de ser por tua causa...não estás com bom aspeto.  
- Sinto-me estranho...e todos estão loucos.
- Realmente o ambiente está pesado.
Os dois conversam.
- Esperem aí que eu já resolvo tudo... - Diz o vento
- Como? - Perguntam os dois
- Já vão ver. - Responde o vento
Chama uma família de bruxas.
- Mas o que é isto? - Pergunta o caça sonhos assustado
- Não acredito no que tu acabaste de fazer... - Comenta a fada
- Até ele está louco. - Comenta o caça sonhos
- O que é que lhe deu para chamar estas...? - Pergunta a fada surpresa  
- Olá...Espero que tenhas bons motivos para me teres interrompido os meus trabalhos. - Diz uma bruxa áspera.
- Mas que coisa horrorosa...um caça sonhos e uma fada. - Comenta outra bruxa empertigada
- Que nojo...cheira bem demais. - Comenta outra bruxa
- Para que é que nos trouxeste para aqui, sua peste? - Pergunta outra bruxa
- Maldito! - Dizem todas em coro
- Não penses que gosto da tua presença,...só te chamei porque sei que vais adorar o que tenho para te dar. - Diz o vento
- Ááááááhhhh...!!!! - Exclamam as bruxas surpresas
- Ele não está bom da cabeça...! - Comenta a quarta bruxa
- Nisso elas têm razão! - Comenta a fada, baixinho
- Também acho! - Concorda o caça sonhos   
- Humm...interesseiro.... - Dizem as bruxas
O vento, o caça sonhos e a fada dão umas boas gargalhadas.
- Meninas...calem-se! Sintam...um...cheiro diferente... - Resmunga a bruxa chefe
Todas farejam.
- Por esse cheiro é que vos chamei aqui. Não foi pelas vossas caras feias. - Diz o vento
- Obrigada! - Dizem todas as bruxas a rir
- Sempre antipático, este vento... - Diz outra bruxa
- Horrorizador... ! - Dizem as bruxas em coro a rir
- Eu sei...! Precisamos que vocês comam todas as energias más que invadiram a nossa aldeia. Estes cheiros que vocês dizem que sentem. - Diz o vento
- Áh! - Dizem as bruxas em coro
- Fedores deliciosos... então era isso! - Diz outra bruxa
- Convidaste-nos para um banquete! - Comenta outra bruxa
- Isso mesmo. - Confirma o vento
- Não sabia que tinhas estes fedores tão desagradáveis por aqui. - Comenta outra bruxa a rir
- Nós também não sabíamos...mas não gostamos deles, por isso...deleitem-se com eles. Levem-nos todos. - Diz o vento
- Óh...que maravilha... - Dizem as bruxas
Elas aspiram todas as energias más, e dão gargalhadas, enquanto isso, o pónei para à entrada da floresta. As bruxas sentem que vem dele, uma grande quantidade de energias más, circundam-no, e sugam toda a sua energia. O pónei cai de cansaço.
- Ai...que susto! - Dizem todos
- O que é isto? - Pergunta o caça sonhos
- É um pónei... - Diz a fada
- Parece muito cansado! - Diz o caça sonhos
- É. Parece que vem a fugir...coitadinho! - Diz a fada
- Obrigado... - Dizem todos
- Já se respira outro ar! - Comenta o caça sonhos a sorrir
- Também acho. - Concorda a fada
- Ai, estou a rebentar... - Diz uma bruxa
- Eu também...estou cansada de comer. - Diz outra bruxa
- Comi que nem uma besta... - Diz outra bruxa
Todas riem.
- Vamos embora...está aqui outra vez aqueles cheiros asquerosos! Lhec. - Comenta outra bruxa
- Já estou a ficar tonta...mas não quero dormir aqui. - Diz outra bruxa
- É. Vamos embora. - Concordam todas
- Obrigado... - Dizem todos
           As bruxas saem a voar lentamente e pesadas, parando muitas vezes pelo caminho...parecem balões de tanta energia má que sugaram. E na aldeia volta a respirar-se paz...o pónei desperta e sente-se bem. Conta a sua fuga e o que o levou a fugir, como encontrou aquele lugar, pediu desculpa, e pediu para o deixarem ficar lá.
           Todos ficam com pena dele, e como as bruxas sugaram as más energia, o pónei só ficou com as boas, tal como a fada, o caça sonhos que voltou a ganhar as suas belas cores, e capacidades para proteger a aldeia.
          Os habitantes voltaram a dar-se bem, como antes, quando regressaram nesse dia dos trabalhos, sentiram um novo e fresco ambiente, reuniram-se, pediram desculpas uns aos outros, e passaram a noite em festa, na companhia do pónei que adotaram e de quem cuidaram muito bem, nunca mais voltou para o circo, nem o encontraram. Do caça sonhos só saíram energias positivas como sempre, e quando sentiam que o ambiente estava a ficar outra vez tóxico, carregado, chamavam as bruxas para elas comerem à farta. Eram bruxas, mas no fundo não eram muito más.
Às vezes nós também nos enchemos de energias más...e precisamos de coisas que nos devolvam as boas energias.
Já vos aconteceu? Como ficaram outra vez bem dispostos e felizes?
FIM
Lálá
(30/Março/2016)  

domingo, 25 de outubro de 2015

as asas da fada

       


Era uma vez uma linda fada, que vivia num tronco de uma árvore muito velha, com a sua família. Um dia, uma bruxa disfarçada de fada que se fazia muito boa amiga da fada, na verdade sentia muita inveja por ela ser tão bonita e estar quase sempre feliz. 
     A bruxa vivia longe da sua família onde todos eram maus, e com um coração vazio de sentimentos...eram infelizes, e não suportavam ver os outros felizes, por isso faziam de tudo o que podiam para roubar as coisas boas que eles não tinham. 
    Numa tarde, as duas amigas (fada e bruxa) foram dar um passeio, rir e conversar, brincar...e de repente, a bruxa fingiu que era tão meiga como a fada, e pediu-lhe um abraço. A fada, era mesmo meiga e adorava carinho, por isso recebeu o abraço com um grande sorriso...porque não sabia que a fada amiga era afinal uma bruxa...e no momento em que as duas se abraçaram, as asas da fada, tão lindas, leves, finas e brilhantes, transformaram-se em gelo...que até parecia vidro. 
     Quando a bruxa a larga, ela não consegue mexer-se, nem voar, sente-se muito pesada e cai na relva, mas não sente o chão, nas suas asas. 

Ela grita muito assustada: 

- Ai...o que é que aconteceu às minhas asas? Caí....e...não sinto a relva nelas...e...estou...tão pesada... (levanta-se e cai outra vez) não consigo levantar-me! Sinto-me... muito esquisita. 

A bruxa finge-se preocupada: 

- Então, amiga...o que se passa? 

- Não sei! estou...estranha! 

- Ah...acho que estás a ficar...doente! 

- Óh, não! Não pode ser...não quero...as minhas asas...o que é que elas têm? 

- Nada! Estão na mesma...lindas, brilhantes...acho melhor... 

- Mas...

- Eu vou chamar o médico. Não vai ser nada grave, vais ver, mas pelo sim, pelo não...é melhor ver. Já volto. Não demoro nada. O médico é já aqui ao lado. 

- Obrigada. Ai...! 

A bruxa está comprometida. Finge que está muito preocupada e que vai chamar o médico, mas assim que se afasta, foge às gargalhadas. 

- Áh, áh, áh...consegui! Fica para aí...tótó! Caíste que nem uma patinha...quero lá saber de ti...não vais sair daí...as tuas asas estão transformadas em vidro! Tu mereces. Áh, áh, áh...peneirenta! Eu quero ver como é que agora vais sair daí, e andar por aí a desfilar, para toda a gente olhar para ti. Quero ver se alguém mais vai olhar para ti...! Para mim também não olham...nunca...ao contrário de ti...vais ver o que é bom...vais ver o que custa ser ignorada. 

E não vai chamar médico nenhum, segue para o seu horrível castelo, vitoriosa, e orgulhosa por ter conseguido transformar as asas da fada em gelo. A fada acha muito estranha a demora da amiga e do médico, levanta-se com muito dificuldade e vai para casa triste, preocupada, e desiludida, com muitas quedas à mistura. 

- Óh, não acredito...fui enganada. Como é que ela fez isto comigo...eu dei-lhe o abraço, e muitos abraços, e nunca me fez isto às asas...porque é que fez isto hoje...? Como? Eu pensei que ela era minha amiga, mas com tanto tempo que demorou, e não apareceu...mas que grande amiga! Deixou-me ali... 

Chega a casa e pede aos pais ajuda. Os pais levam-na à Avó porque perceberam logo que aquilo era obra de bruxinhas...A Avó tem poderes para destruir feitiços de bruxas. Ela vai ao colo do pai a choramingar, e quando chega a casa da Avó... 

- Avó...olha o que aconteceu às minhas asas! Não consigo fazer nada...estou muito pesada. 

- Isso foi alguma bruxita...mas vais já voltar ao normal. 

A Avó faz uma magia e o gelo das asas da fada derrete. Ela volta a ficar leve, livre, linda...a Avó até lhe dá um protector contra bruxas. E recomenda:

- Filha...vê com quem andas. Olha que nem toda a gente é quem parece. 

- Sim, Avó...agora já sei. 

- Nem toda a gente é boa como tu, e aproveita-se. Tens de estar mais atenta. 

- Sim. Obrigada, Avó. 

- Este protector vai avisar-te quando te aproximares de alguém perigoso, ou que não merece a tua bondade. 

- Entendi. 

Depois das recomendações da Avó, a fada passou a andar sempre com o protector, e a estar mais atenta. A malandreca da falsa fada volta a fingir que é muito amiga dela, e fica surpresa: 

- Óh...já estás curada. Vês? Eu disse-te que não ia ser nada grave...o que era afinal? Fiquei muito preocupada... não encontrei o médico...ele não estava lá. 

- Ui, ficaste mesmo muito preocupada...obrigada...ficaste tão preocupada que me deixaste lá...

- Desculpa...é que o médico não estava. 

- Pois...que chatice!  

A fada quase explode, e o protector avisa-a de que há perigo. Ela grita: 

- Vai-te embora! Falsa. Como é que eu me deixei levar por ti, pela tua aparência, pela tua conversa... Eu pensei que eras minha amiga, que querias o meu abraço...tudo mentira. Fingida... O teu abraço congelou as minhas asas...não conseguia voar...sentia-me presa, claro...não admira...tinha gelo...como haveria de voar ou de fazer o que quer que fosse. Invejosa...que coisa mais horrível... Só porque és má e infeliz não suportas ver ninguém bem, feliz...também podes ser feliz, mas não conheces essa palavra...roubá-la aos outros é mais fácil, dá menos trabalho...não é? Luta por ela...só assim é que vais consegui-la. Maldita! Põe-te bem longe de mim...e não volte a aparecer, se não eu não sei o que te faço. Olha que eu sou boa até certo ponto, mas quando me magoam ou desiludem...não tem volta...mostro o meu pior lado. 

Aparecem vários chicotes à volta da bruxa, e começam a afugentá-la...ela nunca mais volta a chatear a bela fada. 

Fim 
Lálá 
(23/Outubro/2015) 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A Fada e a Bruxa



Era uma vez uma Fada e uma Bruxa, que se davam muito mal. Não era pela Fada, porque essa era muito meiga, e simpática, amiga de todos e gostava de ajudar, mas a Bruxa era muito diferente.
Também não era por serem diferentes que se entendiam mal, mas porque a Bruxa perseguia a Fada e tentava destruir todas as coisas boas que ela fazia, e muitas vezes conseguia mesmo, porque a Fada não estava em todo o lado ao mesmo tempo, e a Bruxa era muito esperta…só destruía quando não estava ninguém para a acusar.
A Fada ficava sempre muito triste com as maldades da Bruxa, mas deixava-a seguir o seu caminho, e não se metia com ela…apenas…quando via tudo destruído, voltava a construir, e a Bruxa voltava a destruir.
        Desta vez, a Fada plantou umas sementinhas muito especiais, brilhantes e cheias de luz, nos jardins das entradas das casas por onde passou, com muito carinho e delicadeza, e um grande sorriso. Uns gatinhos sentiram a presença da Bruxa, e ficam agitados, começam a miar sem parar.
- Lá estão aqueles malditos peludos ali! Que maldição…perseguem-me aqueles idiotas…! Mas eu acabo depressa com aqueles bandidos! – Resmunga baixinho a Bruxa que está escondida
- Cuidado fadinha! – Miam em coro
- Calem-se insuportáveis… - Murmura a Bruxa
- Com quê, gatinhos? – Pergunta a Fada
- Com aquela Bruxa maldita! – Responde o Gato
- Ááááhhh…que nojo! – Murmura a Bruxa
- Ela está aí! – Garante a Gata
- Não a vejo! – Diz a Fada
- Ainda bem…Claro que não me vês…eu estou bem guardada…ih, ih, ih…! - Murmura a Bruxa
- Nós sentimos a presença dela. – Diz o Gato
- Estúpidos gatos! Não me estraguem os planos…vou dar cabo de vocês! – Resmunga baixinho a Bruxa
- Mas fica descansada…nós tomamos conta das tuas sementinhas. São coisas boas não são? – Pergunta a Gata
- São! Sementinhas muito especiais.
- Que coisas é que aquele pirilampo peneirento está a deitar para ali? De certeza que é lixo…coisas nojentas, horríveis…só pode! Áh! Se eu fosse uma pessoa, corria-a dali à vassourada! Mas que atrevida! Planta coisas assim…ainda por cima…porcarias! – Resmunga a Bruxa
A Fada deita as sementinhas na Terra, cobre-as, rega-as e ilumina-as com os brilhantes das suas asas para crescerem muito rápido e fortes.
- Áh! Que lindo! – Dizem os gatos em coro
- E vão ver quando aparecerem! – Diz a fada a sorrir
- Sonha, sonha…! Que inocente… Nunca crescerão! – Resmunga a Bruxa
- Vai descansada, Fadinha…as tuas sementes ficam bem guardadas! – Garantem os Gatos
        A Bruxa invejosa, logo que a Fada se afasta vai a cada jardim, e o seu cheiro é tão mau que afugenta os gatos e todos os animais ou pessoas que se aproximem… até a pobre Coruja tem de se refugiar no tronco, para não cair.
        Com as suas garras enormes, remexe a terra toda, acompanhada de gargalhadas estrondosas, cheia de maldade. As sementinhas transformam-se em cubos de gelo e não aparecem à superfície.
- Que coisas peçonhentas são estas que ela meteu aqui? Seja o que for, não posso deixar que isto aconteça…tenho de proteger estas pessoas. Não é que elas mereçam porque estão sempre a dizer mal de mim, mas se eu as defender destas coisas, de certeza que vão começar a adorar-me.
        Vira costas, toda satisfeita e a rir por ter congelado as sementes da Fada.
- Maldita! Festeja enquanto podes, porque muito em breve vais ser descoberta. – Diz a coruja
        No dia seguinte, a Fada volta aos jardins e vê o solo congelado num dia em que esteve muito calor, e toda a terra remexida.
- Lá vem ela! – Murmura a Bruxa escondida
- O que aconteceu aqui? – Pergunta a Fada
- Fada querida…foi aquela maldita! Aquela fedorenta chegou aqui, afugentou os gatos e eu também tive de me recolher, e remexeu isto tudo. – Confessa a Coruja.
- Claro! Já suspeitava…é sempre a mesma…porque é que ela não me deixa em Paz?
- Porque ela só sabe ser má! – Diz a Coruja
- E o que é que eu tenho a ver com ela? Ela só não é boa porque não quer.
- Ou então porque nunca a ensinaram a ser boa!
- Ainda está muito a tempo de aprender.
- Mas porque é que ela só faz estas coisas comigo?
- Não é só contigo!
- Não pode ver nada bom…! Olha o que ela fez com as minhas sementes…! E agora?
- Eu vi…ela congelou-as! Remexeu a terra toda.
- Ih, ih, ih, ih, ih, ih, ih, ih…foi tão divertido…! Muito melhor que um ginásio! – Murmura a Bruxa a rir
- Que uma toupeira ou outro animal qualquer fizesse esta asneira, ainda se desculpava…mas ela faz por maldade!
- Cansei de ser boa…é uma tristeza, ser boa! Não se ganha nada com isso! – Resmunga a Bruxa baixinho
- Nisso tens toda a razão! – Diz a Coruja
- Se ela não fosse tão malvada, eu até lhe podia ensinar a ser boa, mas ela não deixa!
- Que nojo…e quem disse que eu queria aprender…? Só se eu fosse louca! – Murmura a Bruxa
- Como vou descongelar isto? – Pergunta a fada
- Com o teu carinho! – Diz a Coruja
- Nem pensar…ela vai envenenar a terra! – Murmura a Bruxa zangada
        A fada descongela, sorri, e as sementinhas reaparecem.
- São umas sementinhas muito especiais…acho que vou ficar aqui a noite toda a tomar conta e a proteger as sementes.
- Eu posso tomar conta, Fada, desde que aquela maldita não venha com aquele cheiro impossível… vai descansar.
- Obrigada, mas eu vou ficar escondida. Quero apanhar aquela maldita em acção para lhe dar uma lição! Não entendo porque é que ela faz isto comigo! – Diz a Fada
- Para mim, é tudo por inveja!
- Inveja?
- Sim!      
- Ela é mesmo insuportável.
- Precisa de amor. – Diz a Coruja
- Talvez…mas ela é que foge de tudo o que é bom!
- Isso é verdade!
- Uh, Uh uh, uh…Uuuuuuuuuuuuuhhhhhhh… - Vem a Bruxa
- Lá vem ela… - Murmura a Fada
- Olá mosquita com pirilampos colados…estavas a falar em mim, não era…? Ai, que nojenta tão odiável… - Diz a Bruxa a rir
- Ainda bem que apareceste…precisamos de ter uma conversa muito séria… - Diz a Fada
- Ui, que medo! – Diz a Bruxa às gargalhadas
- Cala-te! – Grita a Coruja
- Olha a felpuda a dar sinal…Ááááááhhhh…. – Goza a Bruxa
        A Fada agarra nos cabelos da Bruxa, enrola-os e puxa-os. A bruxa grita.
- Ai, isso magoa!
- Para a próxima é muito pior…aliás as coisas que me fazes, magoam-me muito mais, que um puxar de cabelos. – Diz a Fada
        Ficam frente a frente, olham-se fixamente.
- Porque é que tu me persegues? – Pergunta a Fada
- Eu não te persigo! – Garante a Bruxa
- Ai não? Então o que é isto? Tudo o que me vês fazer, destróis!
- Porque detesto as coisas boas que tu espalhas por aí…!
- Porquê?
- Porque sou má!
- Porque é que és má?
- Porque nasci assim.
- Porque é que nasceste assim?
- Porque a minha família é toda assim.
- Porque é que a tua família é toda assim?
- Não sei!
- Vocês dão-se bem?
- Não!
- Porquê?
- Porque detestamo-nos!
- Como é possível uma família detestar-se?
- É! Na minha é possível.
- E tu gostas da tua família assim?
- Não tenho outro remédio…são família. Odiamo-nos todos…tenho de os odiar também.
- És feliz nessa família?
- Sou…somos todos!
- E porque é que me persegues?
- Eu não te persigo.
- Persegues sim!
- Não!
- Então o que chamas a isto que me fazes? Destróis-me todas as coisas boas que espalho por aí!
- Porque odeio coisas boas! A minha função é espalhar coisas más!
- E tens conseguido fazer um óptimo trabalho, porque toda a sociedade tem a tua marca!
- A sério?
- Vê-se à distância!
- (sorri) Mas isso é uma óptima notícia!
- Não! Não tem nada de bom, isso.
- Porque não?
- Porque a sociedade anda mergulhada no mal.
- Isso é maravilhoso! – Gargalhadas da bruxa
- Tu não tens noção do que estás a dizer!
- É sinal que eles sentem, e valorizam a minha presença! Apoiam-me. Pelo menos eles para alguém gostar de mim.
- Só dizes disparates! A sociedade…as pessoas estão loucas…tudo funciona pelo mal, com o mal, e para o mal.
- Fantástico! Até me sinto realizada! – Diz a Bruxa às gargalhadas.
- Cala-te! O planeta está quase inabitável por tua causa…
- É tão lindo! Eu adoro ver toda a gente a dar-se mal… - sorri a bruxa
- Desavergonhada! Porque é que congelaste as minhas sementes?
- Porque é tão divertido destruir coisas de mosquitos! – Diz a bruxa a rir
- O quê?
- É. Fico tão feliz…temos de fazer coisas que nos completem e nos façam sentir felizes não é? – Ri a bruxa
- Tu não prestas mesmo! És feliz à custa da maldade…! – Diz a Coruja
- Óh! É o primeiro elogio que recebo hoje! Obrigada.
- Achas isso, um elogio?
- Sim, claro que é um elogio!
- Como consegues fazer tanto mal…e ficar feliz com isso?
- Cada um tem o seu papel…o meu é ser má! E é tão bom! Ficas cheia de inveja não?
- Inveja do mal? Francamente! Tu… é que tens inveja de quem é bom.
- Eu, inveja de quem é bom? Que horror! Achas que tenho assim tão mau gosto?
- Porque é que não és má, com quem também é mau?
- São todos maus!
- Claro, influenciados por ti!
- Não! São todos…naturalmente maus, mas infelizmente, a sociedade onde vivem não permite que mostrem as bruxas e o diabinho que há em cada um… - Explica a Bruxa
- Não faltava mais nada, todos mostrarmos o nosso lado mau, sempre que queríamos… - Acrescenta a Coruja.
- A sociedade é uma seca! Cheia de regras, cheias de coisas boas…que nojo! É por isso que eu tento ajudar a sentirem-se melhor – Resmunga a Bruxa
- E achas que os seres humanos gostam de ser maus? – Pergunta a fada
- Adoram…mas não são porque estão proibidos de ser. Que tristeza! – Reclama a Bruxa.
- A tua presença ainda piora mais as coisas!
- Ai…és mesmo querida! Lhec…que nojo…é insuportável essa tua doçura.
- Cala-te.
- Áhh…se continuas a dizer essas coisas tão monstruosas…e feias…eu começo a gostar de ti…- Diz a bruxa a sorrir
- Até acredito que não sejas má pessoa.
- Agora ofendeste-me! – Resmunga a Bruxa
- Que pena! Porque é que andas sempre atrás de mim, a ver tudo o que faço?
- Porque não gosto de ti. E tu gostas de mim…tenho a certeza!
- Até podia gostar…
- Também acho que sim! Se não fosses como és.
- Tu também andas sempre atrás de mim…
- Convencida. Isso não quer dizer que gosto de ti. Tenho de te defender da humanidade.
- Eu..é que tenho de defender…
- Devias ter vergonha!
- Porquê? Eu gosto de mim assim. Já sei…estás com inveja! Querias que toda a gente gostasse de ti, mas ainda bem que as pessoas são mais inteligentes, e preferem o mal.
- Áh! É? Achas que sim?
- Tenho a certeza…pelo que vejo!
- Estás a ver muito mal.
- Não. Eu vejo muito bem!
- Porque é que destróis tudo o que eu planto?
- Outra vez? Mas que chata! Já disse…porque odeio tudo o que plantas. Porque tu prejudicas as pessoas, e só destruindo é que eu posso protegê-las do teu veneno. Tu és um perigo!
- Tu não tens nada na cabeça, pois não?
- E depois eu é que estou a ver mal…claro que tenho! Então não vês? Tenho cabelo.
- Pois…só deves ter isso, mesmo…
- O que querias que tivesse mais? Coisas espetadas como tu?
- Antenas…chamam-se antenas!
- Não gosto disso. – A bruxa desata a rir
- O que é que tu queres de mim, óh Bruxa Maldita?
- Nada!
- Nada?
- Nada!
- Então porque é que andas sempre atrás de mim?
- Outra vez? Já te disse que é para defender a humanidade de ti.
- Não aceito isso como justificação.
- Mas é mesmo por isso.
- Queres as minhas sementes, é?
- As tuas sementes? Estas porcarias que plantaste aqui? Que nojo…de certeza que são coisas horríveis.
- Não! São sementes de amor.
- Lhec. Que porcaria! – A Bruxa estremece
- Nunca conheceste o amor, pois não?
- Felizmente não! nem faço qualquer questão de conhecer…deve ser um monstro nojento, pegajoso, horrível!
- Ias adorar conhecê-lo.
- Só quero distância dessa coisa.
- Então porque as destróis?
- Porque as odeio! Eu vi logo que não podia ser coisa boa.
- Alguma vez provaste?
- Essas coisas são de comer?
- Podem-se comer.
- Felizmente nunca comi…nem pretendo.
- Mas devias prová-las, primeiro, antes de as destruir, para ter a certeza que não gostas.
- Eu não preciso de provar lixo para saber que não gosto.
- Mas estas, faço questão que as proves.
- Nunca.
- Vá lá!
- Não.
- Sim.
- Não.
- Sim.
- Não.
- Sim.
- Que nervos…já disse que não…
        A Bruxa, com a irritação começa a esgravatar a terra aos gritos, e come mesmo distraída algumas sementes. A Fada e a Coruja riem. Os gatos aplaudem a rir. De repente, a Bruxa pára.
- Porque é que paraste? Eu estava a gostar tanto de te ver…! – Diz a fada a rir
- Não acredito! Acho que comi…veneno!
- Veneno? Estas sementes não são veneno. Vão fazer-te muito bem.
- Ai…! – Grita a Bruxa encolhida
- O que foi? – Pergunta a Coruja
- Estou a sentir-me muito estranha! – Diz a Bruxa.
- A sério? Que chatice! – Diz a Coruja a rir
- Estás a gozar-me? – Pergunta a Bruxa
- Não. Achas? – Pergunta a Coruja a rir
- Maldita! – Grita a Bruxa
- São boas, não são? – Pergunta a Fada a rir
        A Bruxa grita, torce-se, enrola-se e explode. Depois da explosão, transforma-se numa linda e simpática rapariga, que abraça e beija e fada, a coruja, acaricia os gatos, ajuda a Fada a plantar as sementes, cantarola e dança com a fada.
- Quem é esta? – Pergunta a Coruja, surpresa
- É a Bruxa…? – Perguntam baixinho os gatos
- Será que é uma armadilha dela fazer-se de boa? – Pergunta a Coruja um pouco preocupada
- É ela…? Mas que mudança! – Murmura a Fada surpresa
- Acho que sim…a cara é a mesma! – Diz a Coruja baixinho
- As tuas sementes resultaram! – Diz a gata a rir
As sementes de amor plantadas pela fada e pela bruxa crescem lindas, enormes, em todos os jardins, luminosas, e com um perfume que ao entrar nas casas, faz verdadeiros milagres, na relação entre as pessoas.
        Respira-se paz, as pessoas são mais amigas e sorridentes, carinhosas umas com as outras.
        É verdade! A Bruxa estava mesmo transformada, por ter comido as sementes de amor. Amor…era mesmo o que lhe faltava na família…por isso é que ela era má também.
Talvez não fosse má porque quisesse, mas porque a ensinaram desde bebé a ser má, e a conseguir tudo o que queria com o mal dos outros. Isso acontece em algumas famílias da nossa sociedade, infelizmente, nas quais, em vez de se ensinar o amor, e o bem…ensina-se o ódio e a maldade!
Nessas casas deveriam ser plantadas as sementes do amor…como estas, que a Fada e a Bruxa, agora boa, plantaram, depois de ela as ter provado, mesmo sem querer.
A fada tinha razão…debaixo daquela pele de má, havia na verdade uma pessoa boa, que estava à espera da oportunidade de encontrar o momento ideal e a altura certa para se mostrar.
Felizmente encontrou a Fada, e a sua inveja até teve um bom resultado final. O amor na família faz milagres, transforma e forma as pessoas que a compõem…mas o mal, se existir, também se mostra na família.
        Nós também podemos plantar sementes de amor nas nossas casas, e noutras…no dia-a-dia, a qualquer momento, através de pequenos momentos e pequenos gestos de carinho. Ou então, plantamos sementes venenosas, e depois teremos o que elas derem. É sempre melhor escolhermos sementes de amor.

FIM
Lálá
(24/Junho/2014)