Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta adolescentes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta adolescentes. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 17 de março de 2025

O saquinho das amoras

 


    























    Era uma vez uma floresta ao lado de casas numa pequena Vila. Uma floresta aparentemente pequena, achavam as pessoas, porque a entrada era escura, provocada pela sombra das árvores enormes, frondosas, que se entrelaçavam umas nas outras. 

    Formavam um túnel onde dificilmente entraria o sol, e no Inverno, a entrada era tapada com as folhas que caíam das árvores, um manto em altura que parecia uma porta. 

    Nenhum habitante, desde as primeiras gerações que viveram nesse lugar tinha entrado na floresta, porque ouviam muitas histórias de terror, de coisas que aconteciam a quem se atrevesse a tentar entrar para explorar o espaço. 

    Contavam muitos mitos, lendas que pensavam ser verdadeiras, porque ouviam barulhos estranhos, principalmente de noite! 

    Gritos, vozes que não se percebia o que diziam, mas pelo tom, pareciam estar a discutir, risinhos maléficos, estalidos, ressonâncias, sons misteriosos que não faziam parte do dia a dia, e do meio onde estavam.

    Diziam que viviam seres muito diferentes do ser humano, não humanos ou humanos cruéis. Na verdade, tudo não passava da imaginação das pessoas, por histórias contados dos antepassados, pelo medo do desconhecido e do escuro, embora nunca tivessem visto ninguém. 

    Histórias, mitos e lendas que faziam as pessoas ficar em casa à noite, imaginar coisas à noite, e tinham a certeza de que vinha da floresta, sentiam pavor, pânico, ansiedade. 

    Custava-lhes a adormecer, porque ficavam a pensar no que teria a floresta, se era assim tão terrível como diziam. 

    Um dia, dois adolescentes que também sentiam medo, viram um saquinho de lindas amoras vermelhas à sua porta, e na porta de outras casas. 

    Ficaram preocupados, mas gostaram tanto da cor do fruto que se esqueceram das lendas e mitos, nem sequer pensaram que poderia ter vindo da floresta. 

    Não sabiam como esse saquinho tinha aparecido à porta das casas, provaram e adoraram. Ofereceram aos pais e familiares, que primeiro gritaram: 

- Cuidado, não comam isso! Pode ser venenoso ou uma armadilha da floresta. - diziam os pais 

- Qual venenoso, ou armadilha, mamã e papá...claro que não é! Eu acabei de provar, e são uma delícia. Não sei quem as pôs aqui. - disse a Adolescente 

- Mais uma razão para não comer isso! Não sabemos. - diz uma mãe 

- Está bem, não querem provar, é quanto perdem! 

    A adolescente continua a comê-las deliciada. O adolescente faz o mesmo na casa dele, e as outras casas onde estava o saquinho com amoras. 

    Os pais decidem provar, a medo, mas primeiro rezam para que  não seja uma armadilha ou venenoso. Os adolescentes riem-se. 

    Todos comem e percebem que realmente tem um sabor irresistível, é bonito e não lhes aconteceu nada! Quando saem a porta, encontram-se com os outros vizinhos, e conversam sobre o saquinho das amoras que receberam. 

    Todos comeram a medo, mas acharam maravilhoso. 

- De onde terá vindo? - perguntam-se todos 

- Quem é que o terá deixado aqui à nossa porta, e para quê?  perguntam  todos 

    Quando olham para o chão veem várias amoras espalhadas pelo chão, até à entrada da floresta e no inicio desta. 

    Começam aos gritos, em pânico. 

- Eu disse que era uma armadilha! Ou veneno. - diz uma senhora com uma certa idade 

- Eu também. - concordam os pais da adolescente, em pânico. 

    Os adolescentes desatam às gargalhadas. 

- E agora, o que nos vai acontecer? - pergunta outro senhor

- É melhor chamarmos já ajuda, porque isto pode dar cabo de nós! - diz um senhor com alguma idade muito assustado 

    Os adolescentes não param de rir pelo exagero dos adultos, e por sentirem aquele pânico todo, ao pensar que vinha da floresta. 

- Eu vou entrar! - diz a adolescente 

- Eu vou contigo! - diz o adolescente 

- Eu também vou… - dizem todos os adolescentes 

- Vocês são loucos? - grita a Avó de um deles 

- Nem pensam no que estão a fazer! - diz outra Avó 

- Já deve ser efeito do veneno! - comenta um sr. 

- Só se riem, e ainda por cima querem entrar ali. - comenta outra Avó 

- Vamos, pessoal. 

    Os adolescentes, entram às gargalhadas na floresta. 

- Que irresponsáveis! - grita uma mãe 

- Voltem imediatamente. - grita outra mãe 

- São completamente loucos! - diz um pai 

- É da idade, mas vão-se arrepender! - comenta outro pai 

- Eu tenho pena mas não vou ajudá-los! Sempre tive, e tenho medo! - diz uma mãe 

- Eu muito menos - diz a Avó 

- Que assumam! - comenta um pai, nervoso - Eu também não me meto lá. 

- Nem eu! - dizem todos 

    Enquanto aguardam com expectativa e medo, a olhar para a entrada da floresta, os adolescentes, alguns a esconder e a disfarçar o medo, conversam alegremente, caminham, olham a toda a volta, para cima. 

    Apanham alguns sustos com alguns animais, que aparecem de repente. Continuam a andar e identificam muitos dos barulhos que achavam estranhos e ouviam de noite. 

    Percebiam que eram os guinchos, os gritos, os risos maléficos, que os faziam imaginar coisas. 

    Viram seres iguais a eles, pessoas, com alguma idade, outros mais novos, e crianças, que se refugiavam naquele sítio, e onde viviam desde sempre. 

    Famílias inteiras a viver em tendas de campismo, e árvores, muito simpáticos e acolhedores, com um estilo de vida muito próprio, diferente do deles. 

    Os adolescentes perguntam se foram eles que deixaram aqueles saquinhos de amoras nas portas. Eles responderam que sim. 

- O que são? - pergunta um adolescente 

- São amoras! Gostaram? 

- Muito! - respondem todos 

- Os nossos pais, avós, tios, vizinhos estavam cheios de medo de comer isso, a pensar que era venenoso, ou uma armadilha! - diz um Adolescente a rir 

    Todos dão uma  gargalhada. 

- Não! Podem estar descansados, que não é nenhuma armadilha, nem veneno! Porque pensaram isso? Nós oferecemos, porque faz parte da nossa cultura, para nunca nos faltar nada! Não pusemos antes porque deixamos noutras portas por aí, noutros lados, mas este ano, escolhemos vocês, que não conhecemos! Mas somos pessoas como vocês, trabalhamos na cidade, levantamo-nos muito cedo, outros trabalham de noite, temos horários diferentes, as crianças andam nos vossos colégios, e escolas. 

- Áh! Que giro! - dizem todos a sorrir 

- Nunca ninguém entrou aqui, porque há muitos medos, mitos e lendas em relação a esta floresta. - diz uma Adolescente

- A sério? - diz uma habitante surpresa a rir

- Sentem-se aqui um bocadinho connosco, e contem-nos, por favor. 

    Os adolescentes sentam-se numa manta, e todos ouvem o que os visitantes contam. Todos desatam às gargalhadas e os Adolescentes também. 

- E vocês acreditavam? - pergunta uma habitante 

- Ahhhh...no início sim… - diz uma Adolescente 

- Sentíamos medo, pelo que contavam e achávamos que era verdade, porque ouvíamos alguns barulhos no escuro, que já descobrimos de onde vem. Como não conhecíamos, também imaginávamos coisas estranhas.

(Todos riem) 

- Pois, nós também nunca nos encontramos antes, nem lá fora, nem cá dentro! - diz a habitante 

- Ficaram cheios de medo que nós entrássemos…! - diz outra Adolescente 

- Claro, entendo! O medo faz parte de nós, e faz-nos imaginar coisas que não existem, o que não conhecemos. É normal. As nossas crianças, filhos, e adolescentes da vossa idade também têm os seus medos de coisas absurdas. Até os Avós, e nós. - explica outra habitante. Nunca vimos nada aqui, do que eles imaginam. 

- Sim! - confirmam os Adolescentes 

- Estamos a aprender isso. - diz outro 

- Mas...eu vou convosco, buscar as vossas famílias e vizinhos para virem conhecer a floresta, e a nós, e perceberem que afinal o medo deles não faz sentido. Nada do que eles imaginam sobre esta floresta, nada do que contam, é verdade! 

- Boa idade! - concordam os Adolescentes 

    Os habitantes acompanham os habitantes até à entrada da floresta, numa conversa muito animada, a rir, a mostrar coisas. 

    Os pais, os Avós, os tios e os vizinhos ficam muito assustados, surpresos ao ver os Adolescentes com todas aquelas pessoas desconhecidas. 

- Estão bem, filhos? - pergunta uma Avó

- Ótimos! - respondem todos 

- Quem é esta gente toda? - pergunta uma mãe inquieta 

- Olá! Somos os vosso vizinhos, aqui da floresta cheia de mitos e lendas, terrores… .- diz uma habitante 

(Todos dão uma gargalhada) 

- Venham conhecer a floresta que vos assusta tanto, e vão ver que nada do que sempre vos foi dito, é verdade. - acrescenta outra habitante 

- Como assim? - pergunta outro Avô 

- Nunca vieram a esta floresta porque sentem  medo, não conhecem como ele é, e isso alimenta a vossa imaginação. Mas acompanhem-nos, e venham conhecer. - convida outra 

    Todos seguem os habitantes e entram na floresta. Primeiro, a sentir medo, ao lembrar de tudo o que diziam existir. 

    Depois, a perceber que afinal aqueles ruídos e barulhos, sons estranhos, eram da natureza e não tinham nada de terrível. 

    Os gritos e os guinchos que ouviam era o vento entre as folhas das árvores nos descampados a passar entre as searas de milho e trigo, as agulhas dos pinheiros altos. 

    Os risinhos e as vozes que ouviam sem se perceber o que diziam, eram as pessoas que viviam nas tendas e nas árvores, a conviver, e a conversar entre si. 

    As crianças a brincar e a rir, eram os risinhos diabólicos. Viram coisas que nem imaginavam ser possível existir naquele lugar misterioso. 

- Tão bonito isto! - suspiram e comentam os visitantes 

- Por causa do medo e do que nos contavam o que estávamos a perder! - comenta outro visitante 

- E nós acreditamos sempre...então o medo já era deles, e dos nossos avós, bisavós. Os mitos, as lendas, que inventavam, ninguém se atrevia a entrar aqui, mesmo não conhecendo, nem para conhecer. - lembra outra visitante

- Sim, acredito que sim. Nunca veio cá ninguém! É verdade, inventam cada uma, para não exporem a riscos desnecessários, e justificar de forma disfarçada o medo do que não conhecem! Nem permitem que outros conheçam, para não sentirem medo, sozinhas, e sozinhos. - diz uma visitante 

- É verdade! - confirmam todos os habitantes a rir 

    Ficaram encantados, com as paisagens e flores, frutos, cascatas, riachos, montanhas, prados muito verdes. 

    O gado que pastava sem pressa, outros deitados à sombra, alguns cavalos a correr livres pelos prados, ovelhas, vacas e bois, no repasto de erva suculenta. 

    Ouviram pássaros a cantar e a voar, de todos os tamanhos, patos a boiar, peixes de todas as cores, sol e sombra.

    Enquanto viam as maravilhas da floresta, ouviam o dia a dia dos seus habitantes, e entenderam que o medo falava mais alto, até lhes fazia ver e ouvir coisas que não existiam. 

    Como estavam errados, pediram desculpa, um pouco envergonhados, e a rir. Agradeceram as amoras, convidaram para voltarem sempre que quisessem e tudo o que precisassem, era só chamar. 

    Retribuíram, e nos dias seguintes, cumprimentavam-se, conversavam, riam, partilhavam alimentos e construíram uma linda amizade, uma família. 

    Passaram a ir mais vezes passear pela floresta, para apreciar todas as belezas, e conviver com os seus habitantes. 

    E vocês? 

Sentiriam medo de uma floresta que não conhecessem? 

Acham que as lendas, os mitos e o medo do que não se conhece, ou que tem um aspeto diferente, pode despertar medos? 

Que lendas e mitos é que já vos contaram, e que vos fizeram sentir medos? 

Confirmaram se existia mesmo? 

Continuaram a sentir medo?  

Se entrassem, o que viam? 

    Podem deixar nos comentários, o que quiserem. 

                                            FIM 

                                       Lara Rocha 

                                      16/Março/2025 


quarta-feira, 25 de junho de 2014

A Fada e a Bruxa



Era uma vez uma Fada e uma Bruxa, que se davam muito mal. Não era pela Fada, porque essa era muito meiga, e simpática, amiga de todos e gostava de ajudar, mas a Bruxa era muito diferente.
Também não era por serem diferentes que se entendiam mal, mas porque a Bruxa perseguia a Fada e tentava destruir todas as coisas boas que ela fazia, e muitas vezes conseguia mesmo, porque a Fada não estava em todo o lado ao mesmo tempo, e a Bruxa era muito esperta…só destruía quando não estava ninguém para a acusar.
A Fada ficava sempre muito triste com as maldades da Bruxa, mas deixava-a seguir o seu caminho, e não se metia com ela…apenas…quando via tudo destruído, voltava a construir, e a Bruxa voltava a destruir.
        Desta vez, a Fada plantou umas sementinhas muito especiais, brilhantes e cheias de luz, nos jardins das entradas das casas por onde passou, com muito carinho e delicadeza, e um grande sorriso. Uns gatinhos sentiram a presença da Bruxa, e ficam agitados, começam a miar sem parar.
- Lá estão aqueles malditos peludos ali! Que maldição…perseguem-me aqueles idiotas…! Mas eu acabo depressa com aqueles bandidos! – Resmunga baixinho a Bruxa que está escondida
- Cuidado fadinha! – Miam em coro
- Calem-se insuportáveis… - Murmura a Bruxa
- Com quê, gatinhos? – Pergunta a Fada
- Com aquela Bruxa maldita! – Responde o Gato
- Ááááhhh…que nojo! – Murmura a Bruxa
- Ela está aí! – Garante a Gata
- Não a vejo! – Diz a Fada
- Ainda bem…Claro que não me vês…eu estou bem guardada…ih, ih, ih…! - Murmura a Bruxa
- Nós sentimos a presença dela. – Diz o Gato
- Estúpidos gatos! Não me estraguem os planos…vou dar cabo de vocês! – Resmunga baixinho a Bruxa
- Mas fica descansada…nós tomamos conta das tuas sementinhas. São coisas boas não são? – Pergunta a Gata
- São! Sementinhas muito especiais.
- Que coisas é que aquele pirilampo peneirento está a deitar para ali? De certeza que é lixo…coisas nojentas, horríveis…só pode! Áh! Se eu fosse uma pessoa, corria-a dali à vassourada! Mas que atrevida! Planta coisas assim…ainda por cima…porcarias! – Resmunga a Bruxa
A Fada deita as sementinhas na Terra, cobre-as, rega-as e ilumina-as com os brilhantes das suas asas para crescerem muito rápido e fortes.
- Áh! Que lindo! – Dizem os gatos em coro
- E vão ver quando aparecerem! – Diz a fada a sorrir
- Sonha, sonha…! Que inocente… Nunca crescerão! – Resmunga a Bruxa
- Vai descansada, Fadinha…as tuas sementes ficam bem guardadas! – Garantem os Gatos
        A Bruxa invejosa, logo que a Fada se afasta vai a cada jardim, e o seu cheiro é tão mau que afugenta os gatos e todos os animais ou pessoas que se aproximem… até a pobre Coruja tem de se refugiar no tronco, para não cair.
        Com as suas garras enormes, remexe a terra toda, acompanhada de gargalhadas estrondosas, cheia de maldade. As sementinhas transformam-se em cubos de gelo e não aparecem à superfície.
- Que coisas peçonhentas são estas que ela meteu aqui? Seja o que for, não posso deixar que isto aconteça…tenho de proteger estas pessoas. Não é que elas mereçam porque estão sempre a dizer mal de mim, mas se eu as defender destas coisas, de certeza que vão começar a adorar-me.
        Vira costas, toda satisfeita e a rir por ter congelado as sementes da Fada.
- Maldita! Festeja enquanto podes, porque muito em breve vais ser descoberta. – Diz a coruja
        No dia seguinte, a Fada volta aos jardins e vê o solo congelado num dia em que esteve muito calor, e toda a terra remexida.
- Lá vem ela! – Murmura a Bruxa escondida
- O que aconteceu aqui? – Pergunta a Fada
- Fada querida…foi aquela maldita! Aquela fedorenta chegou aqui, afugentou os gatos e eu também tive de me recolher, e remexeu isto tudo. – Confessa a Coruja.
- Claro! Já suspeitava…é sempre a mesma…porque é que ela não me deixa em Paz?
- Porque ela só sabe ser má! – Diz a Coruja
- E o que é que eu tenho a ver com ela? Ela só não é boa porque não quer.
- Ou então porque nunca a ensinaram a ser boa!
- Ainda está muito a tempo de aprender.
- Mas porque é que ela só faz estas coisas comigo?
- Não é só contigo!
- Não pode ver nada bom…! Olha o que ela fez com as minhas sementes…! E agora?
- Eu vi…ela congelou-as! Remexeu a terra toda.
- Ih, ih, ih, ih, ih, ih, ih, ih…foi tão divertido…! Muito melhor que um ginásio! – Murmura a Bruxa a rir
- Que uma toupeira ou outro animal qualquer fizesse esta asneira, ainda se desculpava…mas ela faz por maldade!
- Cansei de ser boa…é uma tristeza, ser boa! Não se ganha nada com isso! – Resmunga a Bruxa baixinho
- Nisso tens toda a razão! – Diz a Coruja
- Se ela não fosse tão malvada, eu até lhe podia ensinar a ser boa, mas ela não deixa!
- Que nojo…e quem disse que eu queria aprender…? Só se eu fosse louca! – Murmura a Bruxa
- Como vou descongelar isto? – Pergunta a fada
- Com o teu carinho! – Diz a Coruja
- Nem pensar…ela vai envenenar a terra! – Murmura a Bruxa zangada
        A fada descongela, sorri, e as sementinhas reaparecem.
- São umas sementinhas muito especiais…acho que vou ficar aqui a noite toda a tomar conta e a proteger as sementes.
- Eu posso tomar conta, Fada, desde que aquela maldita não venha com aquele cheiro impossível… vai descansar.
- Obrigada, mas eu vou ficar escondida. Quero apanhar aquela maldita em acção para lhe dar uma lição! Não entendo porque é que ela faz isto comigo! – Diz a Fada
- Para mim, é tudo por inveja!
- Inveja?
- Sim!      
- Ela é mesmo insuportável.
- Precisa de amor. – Diz a Coruja
- Talvez…mas ela é que foge de tudo o que é bom!
- Isso é verdade!
- Uh, Uh uh, uh…Uuuuuuuuuuuuuhhhhhhh… - Vem a Bruxa
- Lá vem ela… - Murmura a Fada
- Olá mosquita com pirilampos colados…estavas a falar em mim, não era…? Ai, que nojenta tão odiável… - Diz a Bruxa a rir
- Ainda bem que apareceste…precisamos de ter uma conversa muito séria… - Diz a Fada
- Ui, que medo! – Diz a Bruxa às gargalhadas
- Cala-te! – Grita a Coruja
- Olha a felpuda a dar sinal…Ááááááhhhh…. – Goza a Bruxa
        A Fada agarra nos cabelos da Bruxa, enrola-os e puxa-os. A bruxa grita.
- Ai, isso magoa!
- Para a próxima é muito pior…aliás as coisas que me fazes, magoam-me muito mais, que um puxar de cabelos. – Diz a Fada
        Ficam frente a frente, olham-se fixamente.
- Porque é que tu me persegues? – Pergunta a Fada
- Eu não te persigo! – Garante a Bruxa
- Ai não? Então o que é isto? Tudo o que me vês fazer, destróis!
- Porque detesto as coisas boas que tu espalhas por aí…!
- Porquê?
- Porque sou má!
- Porque é que és má?
- Porque nasci assim.
- Porque é que nasceste assim?
- Porque a minha família é toda assim.
- Porque é que a tua família é toda assim?
- Não sei!
- Vocês dão-se bem?
- Não!
- Porquê?
- Porque detestamo-nos!
- Como é possível uma família detestar-se?
- É! Na minha é possível.
- E tu gostas da tua família assim?
- Não tenho outro remédio…são família. Odiamo-nos todos…tenho de os odiar também.
- És feliz nessa família?
- Sou…somos todos!
- E porque é que me persegues?
- Eu não te persigo.
- Persegues sim!
- Não!
- Então o que chamas a isto que me fazes? Destróis-me todas as coisas boas que espalho por aí!
- Porque odeio coisas boas! A minha função é espalhar coisas más!
- E tens conseguido fazer um óptimo trabalho, porque toda a sociedade tem a tua marca!
- A sério?
- Vê-se à distância!
- (sorri) Mas isso é uma óptima notícia!
- Não! Não tem nada de bom, isso.
- Porque não?
- Porque a sociedade anda mergulhada no mal.
- Isso é maravilhoso! – Gargalhadas da bruxa
- Tu não tens noção do que estás a dizer!
- É sinal que eles sentem, e valorizam a minha presença! Apoiam-me. Pelo menos eles para alguém gostar de mim.
- Só dizes disparates! A sociedade…as pessoas estão loucas…tudo funciona pelo mal, com o mal, e para o mal.
- Fantástico! Até me sinto realizada! – Diz a Bruxa às gargalhadas.
- Cala-te! O planeta está quase inabitável por tua causa…
- É tão lindo! Eu adoro ver toda a gente a dar-se mal… - sorri a bruxa
- Desavergonhada! Porque é que congelaste as minhas sementes?
- Porque é tão divertido destruir coisas de mosquitos! – Diz a bruxa a rir
- O quê?
- É. Fico tão feliz…temos de fazer coisas que nos completem e nos façam sentir felizes não é? – Ri a bruxa
- Tu não prestas mesmo! És feliz à custa da maldade…! – Diz a Coruja
- Óh! É o primeiro elogio que recebo hoje! Obrigada.
- Achas isso, um elogio?
- Sim, claro que é um elogio!
- Como consegues fazer tanto mal…e ficar feliz com isso?
- Cada um tem o seu papel…o meu é ser má! E é tão bom! Ficas cheia de inveja não?
- Inveja do mal? Francamente! Tu… é que tens inveja de quem é bom.
- Eu, inveja de quem é bom? Que horror! Achas que tenho assim tão mau gosto?
- Porque é que não és má, com quem também é mau?
- São todos maus!
- Claro, influenciados por ti!
- Não! São todos…naturalmente maus, mas infelizmente, a sociedade onde vivem não permite que mostrem as bruxas e o diabinho que há em cada um… - Explica a Bruxa
- Não faltava mais nada, todos mostrarmos o nosso lado mau, sempre que queríamos… - Acrescenta a Coruja.
- A sociedade é uma seca! Cheia de regras, cheias de coisas boas…que nojo! É por isso que eu tento ajudar a sentirem-se melhor – Resmunga a Bruxa
- E achas que os seres humanos gostam de ser maus? – Pergunta a fada
- Adoram…mas não são porque estão proibidos de ser. Que tristeza! – Reclama a Bruxa.
- A tua presença ainda piora mais as coisas!
- Ai…és mesmo querida! Lhec…que nojo…é insuportável essa tua doçura.
- Cala-te.
- Áhh…se continuas a dizer essas coisas tão monstruosas…e feias…eu começo a gostar de ti…- Diz a bruxa a sorrir
- Até acredito que não sejas má pessoa.
- Agora ofendeste-me! – Resmunga a Bruxa
- Que pena! Porque é que andas sempre atrás de mim, a ver tudo o que faço?
- Porque não gosto de ti. E tu gostas de mim…tenho a certeza!
- Até podia gostar…
- Também acho que sim! Se não fosses como és.
- Tu também andas sempre atrás de mim…
- Convencida. Isso não quer dizer que gosto de ti. Tenho de te defender da humanidade.
- Eu..é que tenho de defender…
- Devias ter vergonha!
- Porquê? Eu gosto de mim assim. Já sei…estás com inveja! Querias que toda a gente gostasse de ti, mas ainda bem que as pessoas são mais inteligentes, e preferem o mal.
- Áh! É? Achas que sim?
- Tenho a certeza…pelo que vejo!
- Estás a ver muito mal.
- Não. Eu vejo muito bem!
- Porque é que destróis tudo o que eu planto?
- Outra vez? Mas que chata! Já disse…porque odeio tudo o que plantas. Porque tu prejudicas as pessoas, e só destruindo é que eu posso protegê-las do teu veneno. Tu és um perigo!
- Tu não tens nada na cabeça, pois não?
- E depois eu é que estou a ver mal…claro que tenho! Então não vês? Tenho cabelo.
- Pois…só deves ter isso, mesmo…
- O que querias que tivesse mais? Coisas espetadas como tu?
- Antenas…chamam-se antenas!
- Não gosto disso. – A bruxa desata a rir
- O que é que tu queres de mim, óh Bruxa Maldita?
- Nada!
- Nada?
- Nada!
- Então porque é que andas sempre atrás de mim?
- Outra vez? Já te disse que é para defender a humanidade de ti.
- Não aceito isso como justificação.
- Mas é mesmo por isso.
- Queres as minhas sementes, é?
- As tuas sementes? Estas porcarias que plantaste aqui? Que nojo…de certeza que são coisas horríveis.
- Não! São sementes de amor.
- Lhec. Que porcaria! – A Bruxa estremece
- Nunca conheceste o amor, pois não?
- Felizmente não! nem faço qualquer questão de conhecer…deve ser um monstro nojento, pegajoso, horrível!
- Ias adorar conhecê-lo.
- Só quero distância dessa coisa.
- Então porque as destróis?
- Porque as odeio! Eu vi logo que não podia ser coisa boa.
- Alguma vez provaste?
- Essas coisas são de comer?
- Podem-se comer.
- Felizmente nunca comi…nem pretendo.
- Mas devias prová-las, primeiro, antes de as destruir, para ter a certeza que não gostas.
- Eu não preciso de provar lixo para saber que não gosto.
- Mas estas, faço questão que as proves.
- Nunca.
- Vá lá!
- Não.
- Sim.
- Não.
- Sim.
- Não.
- Sim.
- Que nervos…já disse que não…
        A Bruxa, com a irritação começa a esgravatar a terra aos gritos, e come mesmo distraída algumas sementes. A Fada e a Coruja riem. Os gatos aplaudem a rir. De repente, a Bruxa pára.
- Porque é que paraste? Eu estava a gostar tanto de te ver…! – Diz a fada a rir
- Não acredito! Acho que comi…veneno!
- Veneno? Estas sementes não são veneno. Vão fazer-te muito bem.
- Ai…! – Grita a Bruxa encolhida
- O que foi? – Pergunta a Coruja
- Estou a sentir-me muito estranha! – Diz a Bruxa.
- A sério? Que chatice! – Diz a Coruja a rir
- Estás a gozar-me? – Pergunta a Bruxa
- Não. Achas? – Pergunta a Coruja a rir
- Maldita! – Grita a Bruxa
- São boas, não são? – Pergunta a Fada a rir
        A Bruxa grita, torce-se, enrola-se e explode. Depois da explosão, transforma-se numa linda e simpática rapariga, que abraça e beija e fada, a coruja, acaricia os gatos, ajuda a Fada a plantar as sementes, cantarola e dança com a fada.
- Quem é esta? – Pergunta a Coruja, surpresa
- É a Bruxa…? – Perguntam baixinho os gatos
- Será que é uma armadilha dela fazer-se de boa? – Pergunta a Coruja um pouco preocupada
- É ela…? Mas que mudança! – Murmura a Fada surpresa
- Acho que sim…a cara é a mesma! – Diz a Coruja baixinho
- As tuas sementes resultaram! – Diz a gata a rir
As sementes de amor plantadas pela fada e pela bruxa crescem lindas, enormes, em todos os jardins, luminosas, e com um perfume que ao entrar nas casas, faz verdadeiros milagres, na relação entre as pessoas.
        Respira-se paz, as pessoas são mais amigas e sorridentes, carinhosas umas com as outras.
        É verdade! A Bruxa estava mesmo transformada, por ter comido as sementes de amor. Amor…era mesmo o que lhe faltava na família…por isso é que ela era má também.
Talvez não fosse má porque quisesse, mas porque a ensinaram desde bebé a ser má, e a conseguir tudo o que queria com o mal dos outros. Isso acontece em algumas famílias da nossa sociedade, infelizmente, nas quais, em vez de se ensinar o amor, e o bem…ensina-se o ódio e a maldade!
Nessas casas deveriam ser plantadas as sementes do amor…como estas, que a Fada e a Bruxa, agora boa, plantaram, depois de ela as ter provado, mesmo sem querer.
A fada tinha razão…debaixo daquela pele de má, havia na verdade uma pessoa boa, que estava à espera da oportunidade de encontrar o momento ideal e a altura certa para se mostrar.
Felizmente encontrou a Fada, e a sua inveja até teve um bom resultado final. O amor na família faz milagres, transforma e forma as pessoas que a compõem…mas o mal, se existir, também se mostra na família.
        Nós também podemos plantar sementes de amor nas nossas casas, e noutras…no dia-a-dia, a qualquer momento, através de pequenos momentos e pequenos gestos de carinho. Ou então, plantamos sementes venenosas, e depois teremos o que elas derem. É sempre melhor escolhermos sementes de amor.

FIM
Lálá
(24/Junho/2014)