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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

o que brilha


     foto de Lara Rocha 

    Era uma vez uma menina que foi acampar com os seus pais e alguns primos, para um grande descampado. 
    Cada um dormia na sua pequena tenda, mas puseram-nas em círculo para ficarem todos em segurança e bem juntinhos. A noite estava quente, ouviam-se as cigarras e os grilos a cantar, as corujas e os mochos a piar e depois de um dia cheio de brincadeiras, atividades, correrias, sol, banhos e alegria, o sono não chegava aos mais pequenos. Talvez fosse o Senhor medo que os rondava, mesmo assim estavam deitadinhos. 
   Estava escuro no pinhal, nem parecia que havia estrelas. De repente, sobre a tenda uma das meninas vê qualquer coisa a passar...uma sombra. Ela pensou logo que seria um inseto voador...um pirilampo, por isso não teve medo e sorriu. 
     Entretanto, as sombras nunca mais paravam, não faziam barulho nem caiam com muita força, pareciam muito leves! Seriam penas? Ou aquelas folhinhas fininhas dos pinheiros? Não...pela forma não era nada disso. Saiu da tenda e foi ver. Ela era a única...os primos não apareceram. 

- Será que eles estão a dormir?

   Pensou acordá-los, mas tinha a certeza que nem os tios, nem os pais iam gostar dessa ideia, e ficaria de castigo. Os primos aperceberam-se que a prima estava fora da tenda, e saíram também. 

- Prima…- Chamam todos baixinho 

- Está tudo bem? 

- O que estás a fazer fora da tenda? 

- É perigoso! 

- A minha mãe e o meu pai não deixam. Mas vi que tinhas saído. 

- Estavam acordados? 

- Sim! 

- Mas vi que tinhas saído. 

- Não consigo dormir. 

- Nem eu! - Dizem todos 

- Ei...a tua tenda está brilhante…

- O que é aquilo? 

- Não sei. 

   Ela olha para cima da sua tenda e viu milhares de pontinhos brilhantes. 

- Áh! Isto era a sombra que eu via? 

- O quê? - Perguntam todos 

- Sim. Eu estava deitava e vi muitas sombras pequeninas a cair em cima da minha tenda. Primeiro era só uma, depois não paravam. Pensei que fossem pirilampos, ou aquelas agulhas dos pinheiros, porque eram muito leves, mas afinal… 

- Isso não são penas! 

- Nem agulhas dos pinheiros. 

- Pois não! 

- Nem pirilampos. 

- O que é isto, então? - pergunta a menina muito intrigada

- Acho que já sei. É o soninho largado pelo João Pestana. 

- Achas? - Perguntam todos 

     Cada um olha para a sua tendinha, e não têm aqueles brilhantes. 

- Não, não pode ser soninho, porque só tenho por cima da minha barraca. Se fosse o soninho do João Pestana, vocês também tinham. E depois...eu não tenho sono, e vocês também não. 
    
    Outra menina olha para o chão e vê a chegar uma fada pequenina, muito triste, a chorar. 

- Uma fada! - Gritam todas as meninas muito surpresas e felizes.

    Os meninos voltam para as tendas amuados, as meninas ficam. A fada encolhe-se e estremece. 

- Ai, que susto… - Diz a fada 

- Que linda! 

- Uau! - Dizem todas 

- Andas por aqui? - Pergunta outra menina 

- Ando por muitos lados. - Responde a fada 

- Estás muito triste. - Repara outra menina 

- Sim...o meu saquinho estava furado, e eu perdi todos os brilhantes que tinha nele. 

- Óhhhhh… - Dizem todas 

- E onde ias com os brilhantes? - Pergunta outra menina 

- Eram os brilhantes que se transformam em estrelinhas de companhia para os meninos. E agora, eles ficaram sem companhia… (e chora a fada)

- Nós ajudamos-te a procurar. - Sugere outra menina 

- Onde achas que os perdeste? - Pergunta outra menina 

- Não sei! - Responde a fada triste 

- De que tamanho eram? - Pergunta outra menina 

- Ainda estavam em pó. - Responde a fada 

- Espera...vê se são estes brilhantes? - Diz a menina 

    A fada olha para os brilhantes em cima da tenda da menina e abre um grande sorriso. 

- Sim...são estes! - Diz a fada toda luminosa e sorridente 

- Áh! - Exclamam todas, felizes 

     E a fada recolhe todo o pó, para um novo saquinho. As meninas ficam maravilhadas ao ver a arte com que a fada recolhe o pó, ao mesmo tempo rápido, e com movimentos muito graciosos. Para agradecer, e festejar, a fada pega num bocadinho de pó, e sopra para cada menina. O pó transforma-se numa linda estrelinha cintilante, pequenina. Elas ficam muito surpresas. 

- Áh! Que giro! - Dizem todas 

- Uau! - Suspira outra menina 

- Fizeste magia! - Diz outra menina 

- É para vos agradecer, e fazer-vos companhia! - Diz a fada 

- Mas nós não fizemos nada...- Dizem todas 

- A minha prima nem sabia o que era! - Explica outra menina 

- Pensei que eram pirilampos, e depois, pensei que eram aquelas agulhas dos pinheiros... - Conta a menina.

- Mas quando saiu da tenda, viu que não era nada disso, até que tu apareceste. - Explica outra menina 

- Ei, espera...o teu saco não estava furado? 

- Vais perdê-las outra vez. 

- Eu fui buscar outro! Muito obrigada...agora tenho de ir. Boa Noite! - Diz a fada ~

- Boa noite e obrigada! - Dizem todas 

    A fada voa rapidamente, e as meninas voltam a deitar-se, cada uma na sua tenda, com a estrelinha que a fada lhes enviou. Não se separaram mais da estrelinha, nem contaram aos pais. 
    As estrelinhas ficavam à espera delas nas tendas, umas vezes a descansar enquanto elas brincavam, outras vezes no cantinho mais escuro da almofada, outras vezes nos cabelos das meninas quando queriam conhecer o espaço e brincar com elas, sem serem vistas, e à noite, tinham a companhia das meninas. 
    Afinal...o que brilhava? Brilhavam as estrelinhas da fadinha. 

FIM 
Lara Rocha 
(19/Janeiro/2015) 

          
     

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

as palavras desaparecidas



foto de Lara Rocha 














Era uma vez uma via láctea muito lá em cima, que estava cheia de estrelas, cometas, planetas, o sol, a lua e outros corpos celestes. De um dia para o outro, foi invadida por seres estranhos que nunca tinham sido avistados antes por aquelas zonas. 

- Mas o que é isto? - Pergunta uma estrela 

- Terráqueos? - Perguntam todas 

- Não! - Responde outro grupo 

- São família deles...? - Pergunta um planeta 

- Não me parecem. - Repara uma estrela 

- Têm um cheiro muito desagradável. - Comenta outra estrela 

- Mas que espécie rara... - Repara a lua 

- Será que é uma nova invenção daqueles lá de baixo? - Pergunta outra estrela 

- Vírus...? Ou aquelas coisas para nos tirar fotos...? - Pergunta outro cometa 

- É melhor alguém perguntar-lhes... - Sugere o sol 

Todos olham para o sol e faz-se silêncio. 

- Porque é que estão todos a olhar para mim assim? - Pergunta o sol surpreso, todos sorriem - Já percebi...vou ter de ser eu a perguntar não é? Não acredito. Todos querem saber, mas eu é que pergunto. 

Todos riem. 

- Por favor... - Dizem em coro 

- Ai...que coisa...! Está bem. - Responde o sol 

O sol sorri e pergunta: 

- Vocês desculpem...óhhhhh...desculpem...não sei os vossos nomes. - O sol chama-os 

Eles olham: 

- Está a falar connosco? - Pergunta o ser misterioso

- Sim. - Diz o sol - Eu peço desculpa, mas...são novos aqui. De onde vêm? 

- Lá de baixo. Da Terra. - Responde outro ser 

E chegam aos milhares. Encontram-se, e cumprimentam-se. 

- Mas, mas...o que é que está a acontecer? - Pergunta o sol 

- Fugimos! - Respondem todos os seres 

- Como? - Perguntam as estrelas 

- De onde? - Pergunta a Lua 

- Porque é que fugiram para aqui? - Pergunta um cometa 

- Viemos da terra. - Respondem em coro 

- Fugimos daqueles terráqueos! - Diz outro ser 

- Mas, porquê? - Perguntam todos 

- E porque é que fugiram para aqui? - Pergunta a Lua 

- Porque fomos esquecidas lá em baixo. - Justifica um dos seres 

- Mas...são todos parecidos... - Repara uma estrela 

- Sim. 

- E acham que aqui vão ser lembradas? - Pergunta o sol 

- Talvez! - Respondem os seres 

- Por favor...deixe-nos ficar aqui. - Pede outro ser 

E chegam mais outros tantos. 

- Mas vocês não são perigosos para nós? - Pergunta uma estrela com medo 

- Não! - Garantem todas 

- Desculpem...nem nos apresentamos. - Diz outro ser 

- Nós somos as palavras simples e bonitas que as pessoas deixaram de usar...

- Trocaram-nos por umas mais feias.

- São gostos! 

- Nós somos as OBRIGADAS! - Dizem em coro 

- Nós somos as MUITO! - Dizem em coro outras 

- Nós somos as PAZ! - Dizem outras 

- Nós somos os AMORES! - Dizem outras 

- E eles são os nossos filhos...os AMO-TE! - Acrescenta uma das AMORES 

- Nós somos os GOSTO DE TI... - Dizem outras 

- E eles são os ADORO-TE! - Dizem outras 

- Nós somos os SORRISOS! 

- Nós somos os CARINHOS! 

- E elas são os BEIJOS, e eles os ABRAÇOS. 

- Nós somos as PARTILHAS. 

- Nós somos os TEMPOS.

- Nós somos os BRINCADEIRAS. 

- Nós somos os BONDADES. 

- Nós somos os PREOCUPADOS...

- Nós somos as ATENÇÕES. 

- Nós somos as DEDICAÇÕES. 

- Nós somos a SINCERIDADE. 

- Nós somos os RESPEITOS. 

- Nós somos as AMIZADES. 

- Nós somos os VALORES. 

- E fomos trocadas por palavras horríveis como...a guerra, a fome, as armas, a violência, a falta de respeito, o ódio, o sem tempo, é tudo a correr...

- A vingança, a desconfiança, a indiferença, a mentira, a falsidade, a maldade, o egoísmo. 

- Já não agradecem...

- Já não dão valor a nada, muito menos a ninguém...

- E chegarão muitas mais. 

- Que horror! - Dizem todos os corpos celestes 

- Lá em baixo está o caos. - Diz a palavra PAZ 

- Não se pode viver lá. - Lamenta a palavra VALORES 

- Não pode ser... - Suspiram todos tristes 

- Não admira! - Diz o sol 

- Por isso é que também nós sofremos cá em cima. - Diz a Lua 

- Óh...queria tanto voltar lá para baixo! - Lamenta e choraminga a palavra AMOR

- Desculpa, já sabes que só digo a verdade...mas não te querem lá em baixo. Nem se lembram de ti...trocaram-te por outras. Aquelas que já sabes, e que tiveste oportunidade de ver. - Diz a palavra SINCERIDADE

- Mas será que eles não sentem a minha falta? - Pergunta a palavra AMOR? 

- Infelizmente não! - Diz a palavra SINCERIDADE 

- Não percebem que eu sou boa...? E vocês também? - Pergunta a palavra AMOR? 

- Não! - Respondem todas 

- Será que algum dia vão perceber...? - Pensa alto a Lua

- Andam com os gostos estragados. - Comenta uma estrela 

- Eu sempre os achei muito estranhos... - Comenta um cometa 

- Nunca gostei deles! Principalmente da forma como eles trataram a Natureza. - Desabafa o RESPEITO 

- Que não se tratem bem uns aos outros é problema deles, mas maltratar a natureza... eu ficava a ferver com o que via. - Lamenta a DEDICAÇÃO 

- Eu queria acreditar que as coisas vão mudar, e que vamos voltar lá para baixo. - Diz a palavra ESPERANÇA 

- Acho que é melhor não acreditares muito nisso. Não é fácil... - Diz a SINCERIDADE 

- A natureza está farta de enviar sinais, alertas e ralhetes, lembretes, para ver se mudam...mas só mudam para pior. - Diz a palavra PREOCUPAÇÃO 

- Com certeza! - Dizem todas 

- Quando é que tudo vai mudar para melhor...? - Pergunta a palavra PAZ 

- Essa resposta nem o Universo tem. - Responde o sol 

- Porquê? - Perguntam as palavras 

- Porque não é ele que muda as cabeças dos humanos. - Responde o sol 

- Nem nós! - Responde a Lua 

- Pois não. - Dizem todos 

E chegaram mais palavras que se sentiam esquecidas. O sol autorizou a que ficassem lá instaladas, todas as palavras que eram esquecidas. Chegaram mais, e mais...e houve espaço para todas. Formaram uma bela e enorme família. As palavras que os terráqueos esqueceram, e os habitantes da grande via láctea. Enquanto havia paz, amizade e felicidade, na terra as coisas pareciam rodar de pernas para o ar. Os humanos não entendiam a importância e a maravilha que essas palavras transportavam. Algumas crianças e adultos com  mais idade ainda chamaram algumas palavras que estavam esquecidas e fugidas, mas eram muitas mais as que continuavam esquecidas. E o mundo continuava ao contrário, sem as palavras mais bonitas. Às vezes as palavras ainda iam à Terra mostrar-se, para ver se as pessoas se lembravam delas, mas voltavam tristes, desconsoladas, pois ninguém as via. As palavras bem queriam mudar as mentalidades, mas não conseguiam...eram sempre escorraçadas, ignoradas, maltratadas. Elas ficavam radiantes, felizes e brilhantes quando se lembravam delas, mas pouco tempo depois, voltavam a ficar tristes. 

Muitas destas palavras estão realmente esquecidas...são muito pouco, ou mal usadas. É urgente encontrá-las outra vez!  

FIM 
Lara Rocha 
(8/Janeiro/2016) 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Plantações


foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma jovem rapariga que vivia numa casa pequenina, numa aldeia com poucos habitantes. Toda a gente a achava estranha porque ela falava sozinha, regava terra sem nada, sempre com um sorriso na cara. Ninguém lhe perguntava nada porque ainda a conheciam há pouco tempo e não queriam parecer demasiado coscuvilheiros, mas todos comentavam entre si.
Ela estava no jardim sem flores, a cantar com uma voz maravilhosa, a regar e passa uma menina encantada com a sua voz, e levava consigo um cãozinho numa cestinha que começa a ladrar e fica inquieto.
- Pára…já vamos. – Ralhe ela com o seu cão - Bom dia! Era você que estava a cantar? – Diz a menina
- Bom dia, querida…Ouviste-me a cantar…? Sim, era eu! Gosto muito de cantar enquanto rego!
- Sim. Adorei ouvi-la cantar. Tem uma voz mesmo muito bonita…parecia uma fada! – Diz a menina a sorrir.
- Obrigada! Acordaste cedo. Estás sozinha? Quer dizer, não estás sozinha porque estás com o teu amigo cãozinho, mas quero dizer…com um adulto da tua família…? – Pergunta a jovem a sorrir
- Sim, estou com o meu cãozinho, os adultos da minha família sabem que eu não me perco, nem vou para longe. Já conheço muito bem este sítio, e ele também. Eu acordo sempre cedo, e vou passear o meu cão, os grandes não têm tempo, e confiam em mim.
- Áh…muito bem. Mas não tens medo?
- Não! Aqui todos nos conhecemos, e nunca estou sozinha…passo sempre pelos meus vizinhos, ou primos, ou tios…ou Avós, ou irmãos dos meus avós…Passo por muitas casas. O meu amiguinho anjinho da guarda também está comigo. E você está sozinha aí?
- Também não estou totalmente sozinha. Os meus pais estão a viver na aldeia aqui ao lado, trabalham o dia todo, e esta casa foi oferta de uma tia. Eu venho cuidar da casa e do jardim, porque gosto muito deste espaço. E também nunca estou sozinha…
- Também tem o seu anjinho da guarda?
- Sim! Tenho.
- Olhe…o que está a regar?
- A terra.
- Mas isso não tem nada…
- Terá…! Estou a regar para isso.
- Áh…! E vai nascer alguma coisa?
- Sim, muita coisa.
- O que vai nascer?
- Tudo o que eu preciso.
- E o que é que precisa?
- Alimentos.
- Eu também preciso de alimentos.
- Todos precisamos. Até o teu amigo.
- Sim, mas ele não come tudo.
- Pois não. Não é uma pessoa.
- Pois. Vou andando. Até logo.
- Até logo…
A menina segue o seu caminho, e passa uma velhinha misteriosa com bom aspecto, andar vagaroso, que não era conhecida da aldeia, e saiu não se soube de onde…Observa a jovem e sorri.
- Bom dia!  
- Bom dia, jovem.
- Precisa de alguma coisa?
- Não. Obrigada. És nova aqui…não és?
- Sim. E a senhora?
- Sou qualquer coisa, menos nova…quer dizer…por fora…por dentro, continuo criança.
- Faz bem…é por isso que tem esse ar jovem.
- Pois é! Continua a fazer as tuas plantações, filha…faz de conta que não estou aqui.
A jovem sorri, e continua a regar, a remexer a terra e a velhinha silenciosa, a sorrir, sentada debaixo de uma árvore muito larga.
- Quer alguma coisa? – Pergunta a jovem
- Não, obrigada. Estás a plantar o teu sustento, certo?
- Sim. Muitos legumes e frutas…flores…árvores…muitas coisas.
- E sonhos?
- Sonhos? (A jovem ri) Não…esses não se plantam.
- Eu plantava sonhos na minha infância. – Diz a velhinha a sorrir
- E nasciam? – Pergunta a jovem irónica
- Nasciam. Cresciam e dividiam-se.
- A sério?
- Sim. Pela mão das estrelas que à noite desciam por um fiozinho da lua, iam tomar conta do meu jardim, e traziam com elas um raio de sol para cada plantação! – Lembra a velhinha
- Áh! Que lindo! – Diz a jovem a sorrir
- Era! Tu não plantas os teus sonhos?
- Não!
- Porque não?
- Porque…não existem sementes de sonhos.
- Existem! Existe tudo o que nós queremos. Sei que é difícil para ti acreditar nisso, mas… podias acreditar e experimentar. Gostas de sonhos?
- Gosto. Alguns…
- Então planta-os.
- Mas…como faço isso?
A velhinha tira umas pedras de cristal, redondas e transparentes.
- Olha para elas…com a pureza da criança que foste…deixa que ela encha esses cristais com sonhos, e planta-os…depois…rega-os, como regras outras coisas. – Explica a velhinha
- Está bem.
A jovem faz o que a velhinha disse, mesmo sem saber se ia acontecer, quis experimentar. A velhinha desaparece, rápida, misteriosa e silenciosamente…enquanto a jovem olha para os cristais e deixa que a criança que ela foi, encha os cristais de sonhos e desejos que ela queria que acontecessem.
Quando olhou, a senhora tinha desaparecido, e reparou que toda a terra do jardim estava cheia de brilho e cabecinhas a espreitar…eram as suas flores, legumes e árvores a nascer.
- Áh! O que é isto?
A jovem fica pensativa. Passa outro rapaz e pergunta:
- O que tem no seu jardim?
- Tudo o que preciso.
- E o que é tudo o que precisa?
- Legumes, frutas, flores e árvores…Queres ajudar-me?
- Eu…tenho de ir… até logo.
E sai rapidamente. A jovem ri.
- Não percebo porque é que toda a gente me pergunta o que tenho aqui plantado…este pedacinho de terra é igual aos outros.
E o dia passa rápido. À noite, a jovem vai dormir, e no jardim tudo o que ela tinha plantado e pensou que ia demorar o seu tempo, cresce enormemente por causa dos cristais que ela plantou, de estrelas que desciam por um fiozinho de lua, e traziam um raio de sol.
As frutas, os legumes e as árvores aparecem gigantes, cheios de folhas, suculentos, vistosos, carnudos. Tudo fresco, apetitoso, e as flores de todas as espécies, até raras, com cores lindas, enormes, como nunca se tinha visto antes em mais lado nenhum.
A velhinha enche o jardim com vários animais: lindas borboletas de todos os tamanhos e cores, passarinhos de várias espécies, com penas coloridas, cigarras e grilos, joaninhas, gatinhos, e cãezinhos bebés com a sua mãe, muito meigos, para lhe fazer companhia e protegê-la. Está tudo maravilhoso.     
Na manhã seguinte, a jovem acorda e nem quer acreditar no que está a ver.
- Eu estou a ver bem?
Sai porta fora e toca em tudo, cheira tudo, pega nos cãezinhos e enche-os de mimos, toma o pequeno-almoço com eles, dá-lhes de comer, e está muito surpresa com tudo o que vê no seu jardim. Apanha algumas coisas e prova.
- Hum…que delícia! Huuuummmm…que fresco…cheias de sumo…! Huummm…que cheirinho. Áh! Que rica sopa que eu vou fazer. E…agora para o almoço…Muito obrigada…Universo…Terra…não sei quem fez isto…muito obrigada mesmo! Que coisa fantástica. Mágica…! Uau!
Ela senta-se a ouvir os passarinhos, as cigarras e os grilos a cantar, a apreciar as cores das flores, a sentir os toques carinhosos das borboletas, e a ver as suas cores…a inspirar toda a beleza, cheiros e frescura do jardim, rodeada dos seus cãezinhos e os gatinhos a brincar.  
O seu jardim foi motivo de invejas e tentativas de maldades, mas estava sempre protegida, e deu uma grande lição a todos, porque era muito boa, e partilhava os seus produtos mágicos, com os seus vizinhos, quando tinha demasiado e quando sentia que lhes fazia falta.
Ela sabia que todos naquela aldeia eram muito pobres, famílias muito grandes, e nem sempre as terras produziam tudo o que eles precisavam, ou não produziam tanto… por causa da sua bondade, ela tinha cada vez mais surpresas, e cada vez mais coisas apetitosas no seu jardim.

FIM
Lálá

(30/Dezembro/2015)

domingo, 27 de dezembro de 2015

CORUJIANA

      

desenhada e pintada por Lara Rocha 

        Era uma vez uma menina que se chamava Corujiana e vivia na floresta, numa tenda, numa comunidade de Índios. Era uma menina muito alegre, enérgica, não parava quieta!
Andava sempre de um lado para o outro, parecia um gafanhoto sempre a saltar por cima de pedras, troncos de árvores enormes e muito velhas, grossos, raízes que saiam da terra.
        Sempre que se cruzava com coelhos corria tanto como eles, saltitava como se tivesse patas e seguia-os, divertida, até às suas tocas…às vezes ajudava-os a transportar alimentos e conversava alegremente com eles.
Adorava correr contra o vento, ela até falava com ele, e dizia que ele lhe respondia, contava-lhe segredos, dava-lhe recados, alertava-a para perigos, e dava-lhe carinhos. Ela parava muitas vezes para receber os mimos do vento, e sorria, com os enormes cabelos escuros e encaracolados.
Às vezes, o vento levava borboletas que pousavam na menina, brincavam com os cabelos dela, pousavam na ponta do nariz, ou faziam cócegas nas bochechas ao esfregar as asas, faziam bailados à frente da menina, e ela olhava para elas, encantada, aplaudia, tocava-lhes, e dançava com elas.
O que ela achava realmente bonito nisto, era a fantástica exposição de cores que as asas das borboletas exibiam, e construíam belos quadros cheios de cor, movimento, magia.
Sempre que os macacos começavam a trepar às árvores ou os pássaros a voar, ela tentava fazer o mesmo, mas nunca conseguia. Os pássaros riam e diziam-lhe que o que ela estava a fazer era impossível e perigoso, porque eles tinham asas e ela tinha pernas…uma grande diferença.
Trepar às árvores ela ia conseguindo…umas vezes sim, outras vezes, naquelas árvores muito altas, ela ficava com medo a meio da subida e descia rapidamente.
Mas valia a pena subir, porque pelo caminho encontrava corujas e mochos a dormir nos seus ninhos feitos nas árvores, preguiças a dormir penduradas e todas refasteladas, via ninhos de passarinhos…uns com ovos, outros com crias…via caracóis e dezenas de formigas numa grande agitação.
Pelo caminho, ela saltava, cantava, apanhava flores, cheirava, deitava-se na relva, ou à sombra, comia amoras e levava algumas para a sua comunidade.
Depois ia para os riachos, onde primeiro saltitava entre nenúfares, e quando cansava, adorava ficar em silêncio, a ouvir a água a cair das cascatas e a que passava nas pedras…ela até achava que a água cantava ou as pedras.
Logo que as suas amigas fadas da água a viam sentada na berma, iam ter com ela, e recomeçava a agitação. Saltavam, cantavam, dançavam, riam, conversavam, brincavam na água e com as pedras, passavam entre as cortinas de ervas enormes, penduradas entre as rochas que vinham do monte, mergulhavam com peixes coloridos, e apanhava algumas pedras para a sua colecção.
Depois, quando estava cansada, voltava para a sua comunidade, e ajudava em tudo o que podia! Era mesmo assim que vivia a sua comunidade em Paz com a Natureza, e respeito.
Conheciam todas as alterações do clima, sabiam quando ia chover, quando estava sol e vinha tempestade, quando o vento indicava que vinha frio ou trovoada…à noite sentavam-se à volta de uma grande fogueira, e viam as estrelas em silêncio quando havia, viam a Lua, e em noite de Lua Cheia havia sempre festa com dança.
Comiam o que a terra dava, não passavam fome, nem tinham frio, e os lobos tomavam conta, e caçavam para a comunidade. Aprendiam sempre muito com os animais e viviam felizes, com saúde.

FIM
Lálá
(25/Dezembro/2015)


As luas da Lu.

     


      Era uma vez uma menina chamada Luisinha, a quem chamavam Lu. Ela tinha umas grandes bochechas, olhos verdes, brilhantes, quase sempre sorridente, excepto quando a chateavam…aí ela gritava tão alto como um trovão, e chorava uma tromba de água.
Adorava todas as fases da Lua, e todas as noites a Lu. gostava de ver a Lua e de brincar com ela. Quando a Lua estava cheia, a Lu. encostava-se, toda refastelada na Lua, abraçava e aquecia-se na sua luz. Deitava-se em cima dela e rebolava como se fosse uma bola, ria e dava muitas voltas. Uivava com os lobos e com a Lua na sua janela.
Quando a Lua estava em quarto minguante, fininha, a Lu. sentava-se nela como se fosse uma cadeira de baloiço com encosto, balançava-se devagarinho, e muitas vezes acabava por adormecer.
Umas vezes, andava sobre a Lua como se fosse uma corda de um equilibrista, gatinhava ao longo dela e escorregava desde a cabeça até aos pés da Lua, outras vezes andava na Lua como se fosse um barco.
        Também ia para a sala de baile e dançava com todas as formas de Lua. Fazia piqueniques, ouvia histórias contadas pelas luas, estrelas e planetas, e contava-lhes as suas histórias, riam muito, brincavam com os seus brinquedos.  
Na Lua quarto – crescente, a Lu sentava-se como se andasse a cavalo, e para ler, ouvir e contar histórias. Quando estava de mão humor, escondia-se atrás da Lua, e ficava encostada, sentada no chão, não parava quieta, mexia-se, mudava de posição centenas de vezes…umas vezes deitava-se na Lua, com as pernas em cima, outras vezes ficava com as pernas penduradas…outras vezes sentava-se, outras vezes deitava-se com a cabeça para baixo, e barriga pousada na Lua, mas aguentava pouco tempo nesta posição.  
A Lu navegava no grande lago chamado espaço, cheio de estrelas e planetas, sem pressa, devagar, balançava, ia ao sabor dos sopros vindos da respiração da Terra, e da Lua, deliciada com tantas luzinhas. Mas havia uma coisa que ela não sabia...ela adormecia na companhia de todas as luas, mas enquanto dormia, as luas vagueavam pelo seu quarto, tomavam conta dela, cobriam-na delicadamente quando ela se descobria, não deixavam entrar pesadelos, conviviam com as fadas do sono, e brincavam sem fazer barulho.
As luas verdadeiras continuavam sempre lá em cima…e tudo isto era a Lu que vivia na sua imaginação, com as luas que decoravam o seu quarto e a sua cama.  

FIM
Lálá
(25/Dezembro/2015)


domingo, 13 de dezembro de 2015

Os cavalos


Era uma vez um estábulo onde viviam vários cavalos diferentes, elegantes, atléticos, calmos, bem bonitos e muito famosos. Uns tinham o pêlo colorido, e davam grandes saltos, outros passavam barreiras de forma atlética.
Outros cavalos eram modelos fotográficos para cativar a venda de diferentes produtos, como roupas, carros, perfumes, e até bebidas. Outros já tinham participado em filmes, outros faziam parte de espectáculos de circo muito aplaudidos, outros participavam em desfiles de moda.
Só os quatro cavalinhos mais pequenos… é que ainda não tinham feito nada que chamasse a atenção, ou que dissesse ao dono que eles iam ser bons em certas habilidades. Ainda eram muito pequenos.  
O dono ganhava muito dinheiro, e pensava muitas vezes quais seriam as habilidades dos cavalitos pequenos…seriam como os outros? Ou estes não teriam nascido para ser estrelas…? Se não fossem não tinha qualquer problema, porque o seu dono ia gostar na mesma deles e tratá-los tão bem como os outros.
Todos eram o orgulho do dono que os tratava sempre com carinho, dava-lhes atenção, mimos, e estava sempre presente, para que os cavalos se sentissem seguros e fizessem o que lhes era pedido, até treinava com eles.
 Havia alguma coisa que lhe dizia que ainda não tinha descoberto tudo. Ele tinha razão Um dia, uma jovem procurava cavalos especiais para trabalhar com crianças especiais, que tinham algumas deficiências.
Mas a todos os sítios onde ela foi, só se fecharam portas, não lhe respondiam, escorraçavam-na, nem ouviam o que ela propunha…mesmo assim, ela continuou à procura. Foi a essa quinta e o dono dos cavalos atendeu-a. Ela disse-lhe a sua ideia, e ele como era sensível, ficou comovido com o pedido…por isso, aceitou logo.
Levou a jovem ao estábulo e mostrou-lhe os cavalos. Os animais ficaram um pouco inquietos, pensaram que iam ser vendidos, e era uma pessoa estranha.
- Calma bichos…é gente boa! – Diz o dono
Os três cavalinhos mais pequenitos começam logo a brincar e a chamar a atenção. A jovem acaricia cada um deles, enquanto o dono lhes explica. Parece que os cavalos perceberam que iam ser úteis, e desatam a relinchar felizes, a dizer que sim com as cabeças e a dar carinhos à jovem. A jovem ficou logo apaixonada por eles, e eles por ela.
Nos dias que se seguiram, a quinta foi invadida por pequenos e pela jovem. Os cavalos conquistaram rapidamente os miúdos, e deixaram que eles construíssem uma linda amizade com eles. Os pequenitos adoraram-nos, porque eram muito meigos, pacientes, sensíveis, delicados e brincalhões…sedutores!
E todos se divertiam muito juntos, as crianças ficaram muito mais calmas, felizes, sorridentes, adoravam brincar com os cavalos, enchiam-nos de carinhos, e os cavalos retribuíam. O dono ficava muitas vezes emocionado, feliz e orgulhoso com o que via, estava sempre presente para ajudar no que fosse preciso.
Viram-se verdadeiras e rápidas transformações nas crianças, depois de conviverem com estes cavalos. Este foi mais um motivo de orgulho para o dono dos cavalos, a sua quinta nunca mais foi a mesma, mas ele ficava muito feliz.
FIM
Lálá

(10/Dezembro/2015)

O novelo


Era uma vez uma aldeia onde viviam muitas pessoas com bastante idade e jovens. Todos se conheciam de vista porque cruzavam-se quando saiam de casa.
- Bom dia menino, bom dia menina! – Diziam os mais velhos com um sorriso que logo ficava fechado e triste porque não tinham resposta
- Estes jovens estão surdos, ou são mal-educados?
- No nosso tempo levávamos logo um bofetão, e era muito bem dado.
- Bom dia dá-se até a um cão.
- Olhe, hoje esses animais são mais simpáticos que pessoas.
- É verdade. – Dizem todos
- Eu acho que eles são mal-educados!
- Mas também não admira que sejam surdos…vão com aquelas rolhas nas orelhas.
- Eu não sei quem foi o infeliz que inventou aquela bodega.
- Nem eu, mas parece que vão noutro mundo.
- Que coisa horrível.
- É. Parece mesmo…passam por nós, parece que somos um calhau, ou um monte de porcaria.
- É verdade! – Dizem todas
- Esta sociedade está perdida!
- Está mesmo! – Dizem todas
- Os jovens não têm nada na cabeça hoje…
- Pois não! – Dizem todas
                Na verdade, embora se cruzassem, viviam na solidão, cada um nas suas casas, muito raramente conversavam. Andavam sempre numa correria, que até deixava os mais velhos tontos da cabeça…pareciam comboios a passar.
- Olhem para isto…a velocidade com que eles andam.
- Terrível.
- Eu até fico atordoada.
- Eu também. – Respondem todas
- Não sei onde vão com tanta pressa!
- Para quê, tanta pressa?
- Parecem uns robôs ou andróides…ou lá como se chamam aquelas maquinetas dos meus netos…
- Pois é!
- Parece que eles nem sentem o chão.
- Eu não sentiria se fosse àquela velocidade com que eles vão.
- A sociedade já não é sociedade há muito tempo…
- É! É uma tristeza, agora.
- Estes jovens vão enlouquecer…!
- Eu acho que já enlouqueceram.  
                Um dia, uma coruja viu toda esta solidão e agitação, e não gostou nada… então, teve uma ideia: foi falar com uma sábia da floresta e contou-lhe tudo o que viu. A sábia deu-lhe a solução: um novelo feito de estrelas que a coruja deixaria cair das suas patas à porta de uma senhora idosa, que a levaria até outra casa de outra senhora, que se juntaria a outra estrela. 
                Assim fez…logo que saiu de casa da sábia levou o novelo nas patas, e ao passar nas portas onde viviam pessoas mais velhas e deixou cair do novelo uma estrela. Cada habitante via alguma coisa a brilhar, abriam a porta, e era uma estrela.
Quando pegavam na estrela, eram levados para se encontrarem com outro vizinho, que tinha outra estrela…com estes movimentos, formaram um lindo cordão humano, sem dar por isso, construído pelos fios do novelo que a sábia tinha mandado pela coruja.
Quando os mais velhos repararam estavam todos juntos no largo da aldeia, onde no tempo das suas infâncias, tinham feito grandes convívios e festas. Olham à sua volta e viram estrelas por todo o lado.
Deram uma valente gargalhada, trocaram longos e sinceros abraços, beijos, entrelaçaram os fios uns com os outros, brincaram, emocionaram-se, conversaram durante longas horas, reviveram os seus momentos felizes de infância.
Sentiram-se outra vez crianças e Adolescentes. As estrelas deram luz e calor a esse encontro, e a muitos outros que se seguiram. Eram um excelente exemplo para os jovens, um convívio feliz, saudável…nada igual aos de muitos que acontecem agora na sociedade moderna. Mas os jovens não tinham tempo para isso…pelo menos era o que eles diziam quando convidados.
A coruja não cabia em si de orgulho, felicidade e ternura. Sempre que podia, fazia de tudo para juntar as pessoas…discretamente…como ela gostava. Até as noites ficaram mais luminosas, com o seu olhar, ao ver a ternura e a felicidade daqueles encontros que quebravam a solidão, e davam vida à aldeia.
Fim
Lálá
(12/Dezembro/2015)