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quinta-feira, 24 de março de 2016

as portas que não abriam (adultos)


foto de Lara Rocha 


        Era uma vez quatro portas de um castelo que não abriam. De lá de dentro ouvia-se sempre uma pequena vozinha, que pedia ajuda. Era uma princesinha que vivia presa num enorme quarto, porque os reis tinham vergonha de a mostrar, por ter uma deficiência.
Apresar da sua deficiência ela era muito bonita, mas os seus pais reis achavam que não podiam mostrá-la, pois todas as princesas eram e tinham que ser bonitas, perfeitas, mesmo que fossem más. Esta menina era bonita por fora e por dentro.
O quarto onde estava fechada, dava para o lado da montanha, e as quatro portas que não abriam também. Ela pedia ajuda a todas as pessoas que iam para a montanha, mas alguns não ouviam, e os que ouviam, não conseguiam abrir as enormes portas. Parecia que estavam coladas, ou que eram falsas.
A menina só podia andar livremente dentro do castelo, mas quando ia alguém lá ao castelo, escondiam-na, e não saiam com ela à rua. Sempre que estava no jardim, ela pedia um desejo às estrelas, e quando se ia deitar, também.
O seu desejo era ser livre, sair daquele castelo, e brincar com outros meninos. Passear sem que olhassem para ela de canto, ou com ar de pena! Havia muita gente que olhava para ela com pena, e diziam coitadinha, outros olhavam com ar de nojo. A partir daí os reis nunca mais a tiraram do castelo. Achavam que a menina era indefesa.
Um dia, um fotógrafo, estava entretido a tirar as suas fotos, e de repente ouve a voz da princesinha.
- Socorro! Tirem-me daqui.
O fotógrafo aproxima-se e pergunta:
- Quem está aí? De onde pedes socorro?
- Daqui do castelo.
- E queres sair daí? Sai pela porta principal.
- Não posso. Não posso sair.
- Mas porque não?
- Porque tenho um defeito de fabrico.
- Um defeito de fabrico? Mas és um brinquedo?
- Não! Sou uma menina.
- E de que defeito estás a falar?
- Físico. Eu tenho uma deficiência.
- Não podes andar é?
- Posso, mas ando mal…e tenho outras coisas feias.
- Mas isso não é defeito. Todos nós temos partes do corpo mais bonitas e outras de que não gostamos tanto, mas isso não é motivo para ficarmos fechados.
- Isso tens de dizer aos meus pais. Eu só estou a obedecer-lhes! Um dia cansaram-se de sair comigo, e fecharam-me aqui! Por favor…tira-me daqui.
- Mas como é que eu te vou tirar daí?
- Entra no meu castelo, ou tenta abrir uma destas portas.
- Mas se me apanham, estou tramado.
- Não. Ninguém te vai apanhar.
- Está bem, vou tentar abrir as portas.
- Boa. Obrigada.
            O fotógrafo esforça-se por tentar abrir, mas não consegue.
- Os trincos não rodam! Não tens aí umas chaves?
- Não! Não sei onde elas param…os meus pais fizeram de propósito para eu não sair.
- Isso não se faz!
- Fala com os meus pais…não tenho nada a ver com isso. Eles é que mandam.
- Vou tentar outra vez.
            O fotógrafo tenta novamente, mas a fechadura não se move nem mais um centímetro.
- Menina…desculpa, não consigo. O trinco não se mexeu nem um centímetro.
- Tenta de novo, por favor. Tens de me tirar daqui!
            O fotógrafo tenta novamente. De repente, vem outra pessoa, e ele chama-a.
- Por favor…desculpe, pode dar-me uma ajuda? Está uma menina presa, aqui, e estou a tentar abrir as portas, mas o trinco não de mexe nem um centímetro.
- Está bem, mas a menina não tem chaves? – Pergunta o outro rapaz
- Não! – Grita a menina.
- Os pais dela prenderam-na aqui porque ela tem um defeito…uma deficiência, e ela não sabe onde puderam as chaves! – Acrescenta o fotógrafo
- Mas que crueldade…coisa mais antiga! Não sei se vamos conseguir tirar-te daí, mas vamos tentar! – Diz o outro rapaz.
- Está bem. – Diz a menina.
- O que fazemos? – Pergunta o outro rapaz.
- Puxamos os dois no mesmo sentido…empurramos…! – Sugere o fotógrafo.
            Os dois tentam de várias maneiras, juntos, a empurrar no mesmo sentido, a puxar para trás e para a frente.
- Espera…abanou. – Grita a menina.
- Abanou? Quando? – Pergunta o fotógrafo?
- Quando mexeram para trás e para a frente.
            Aparece mais um grupo de rapazes amigos, e perguntam ao fotógrafo e ao rapaz se querem ajuda.
- Sim, por favor…! – Pede o rapaz.
            O fotógrafo explica, e todos juntos puxam nos mesmos sentidos…da esquerda para a direita, e o trinco mexe ligeiramente. Chamam mais pessoas e juntas conseguem rodar o trinco, e mais algumas, e finalmente a porta abre, e a menina sai.
Todos batem palmas, felizes, e sorridentes. A menina abraça todos, feliz, e solta grandes exclamações de felicidade. Todos olham para a menina, orgulhosos, e encantados com ela.
- Finalmente estou livre! Livre! Livre! Ááááááááhhhhhh…que maravilha! – Grita a menina feliz, aos saltos.
            Desata a correr pela montanha fora, mesmo com a sua deficiência, às gargalhadas, a rebolar no chão, a saltar, a acariciar a relva, a tocar nas flores e nas árvores, a cheiras tudo. O fotógrafo regista todos os momentos, deliciado. Vai a correr à beira das pessoas:
- Muito obrigada! – E abraça e beija todos.
            Todos sorriem. Aparecem os reis, muito zangados.
- O que é isto? – Pergunta o Rei a ferver.
- É a sua filha! – Diz o fotógrafo.
- Onde já se viu prender a filha num castelo, por causa de um defeito…seus monstros! – Grita uma jovem rapariga.
- O quê? – Gritam os reis indignados.
- Devia ficar indignado por esta crueldade que fez à sua filha. Não tem vergonha?
- Pergunta o outro rapaz.
- É um assalto? – Pergunta a Rainha, nervosa.
- Vocês é que fizeram um assalto à vossa filha. – Grita outra rapariga.
- Mas que descaramento…! Guardas! Guardas! – Grita a Rainha.
            Aparecem os guardas.
- Sim, majestade?
- Prendam estes todos. – Ordena a Rainha.
- Mas o que aconteceu? – Pergunta um guarda
- Invasores? Ou manifestantes? – Pergunta outro guarda?
- Intrusos! Queriam roubar a minha filha…prendam-nos. – Ordena o Rei.
- Desculpe…antes de nos prender…olhe para a sua filha. – Ordena o fotógrafo.
- Estou a ver. – Diz o Rei
- Pois…está a ver…é esse o problema! – Responde o fotógrafo.
- O quê? – Pergunta o Rei
- Você não olha para a sua filha, em profundidade, com os olhos do amor…! Se olhasse para ela com os olhos do seu amor…não a prendia só porque ela tem uma deficiência…só porque os outros olhavam para ela de canto, ou com pena, ou com nojo…um bando de ignorantes! Pobres coitados…! Agora…você, que supostamente tem alguma cultura…esconder a sua filha só porque tem uma deficiência…! O seu cérebro parou em que século? – Diz o fotógrafo
            O Rei e a Rainha ficam muito envergonhados.
- Sabe qual é a maior deficiência nisto tudo? É a sua ignorância, e a sua falta de amor pela sua filha, só porque ela tem um pequeno defeito físico. Você terá também certamente muitos defeitos, e bem mais graves que o da sua filha…mas os seus não se vêem, e o dela vê-se alguma coisa. – Diz uma rapariga.
- Como se os outros importassem para alguma coisa. Se olham é pela beleza dela. – Diz outra rapariga.
- Olhe para ela com amor…! Olhe como ela está feliz. A correr, livre…sorridente, como todas as crianças normais, ela é uma criança normal. – Diz o fotógrafo.
- Nós só queríamos protegê-la. – Diz a Rainha em lágrimas
- Protegê-la? De quê? De quem? – Pergunta outra rapariga.
- Estavam a roubar-lhe todo o direito de ser uma criança feliz, de brincar, de se exprimir, de se rebolar no chão, de mexer em bichos, de comer erva até…abraçar as árvores, cair…rir…chorar… - Diz um rapaz
- Queríamos protegê-la dos comentários e dos olhares. – Diz o Rei envergonhado.
- Dos olhares e dos comentários…francamente! Isso é que é deficiência! – Diz o fotógrafo.
- Estavam a cometer um crime, e nós é que vamos presos…! – Diz uma rapariga
- Vocês é que deviam ser presos. – Comenta outro rapaz
- A beleza dela, e o facto de ser criança saltou-me logo ao olho, nem reparei que ela tinha uma deficiência. – Comenta um rapaz.
- Deixem a vossa filha ser criança…tenham orgulho nela. Olhem para estes momentos deliciosos…! Saboreiem-nos, que daqui a pouco não os verão. Ela cresce rápido. Aproveitem agora…olhem que beleza! Que momento de paz e de felicidade, tão simples…! – Diz o fotógrafo.
- Sim…têm razão…! – Diz o Rei
- Como ela está feliz! – Diz a Rainha
- Deixem-na livre…assumam a vossa filha com amor e orgulho, com vaidade. É uma criança…é gente…tem coração e sentimentos…! – Diz uma senhora.
- Ai…! Acho que vou ser também outra vez criança… - Diz o Rei
- E porque não? Somos todos…! Já fomos, e podemos sê-lo o resto da vida…temos mais saúde, alegria, vida…- Diz o fotógrafo.
- Eu também queria ser outra vez criança! E voltar a ser assim, como ela! – Diz a Rainha.
- Não fique pelo seu desejo, e pela saudade…vá! – Diz outra senhora.
- Seja criança com a sua filha, ela agradece! E o Rei também.
            Os reis desatam a correr, abraçam a filha, e brincam com ela, correm atrás dela, rebolam abraçados, às gargalhadas, saltam, e tornam-se tão crianças como a sua filha que tanto amam.
Todas as pessoas, e até os guardas, ficam emocionados e juntam-se, fazem grandes rodas de mãos dadas, jogos de infância, muita gargalhada, e diversão. Parece uma cresce.
E desde esse dia, os Reis deixaram a sua filha ser criança, livre, feliz, e passearam com ela pela cidade, de mão dada, orgulhosos da sua pequena. Todas as pessoas por quem passavam cumprimentavam-nos sorridentes, e encantavam-se com a princesinha, que tinha uma deficiência, mas era uma simpatia, muito faladora, risonha, meiga… todos os dias, os reis voltavam a ser crianças com a sua filha, nas brincadeiras. Ela ficava mais feliz que nunca, e eles rejuvenesciam a cada minuto.
Ter uma deficiência física não impede a criança de ser uma criança como as outras, não tem que ser posta de lado, nem tratada como coitadinha, ou olhada com pena. Tem que ser amada como as outras, respeitada e integrada! E elas têm muito a ensinar…

FIM
Lara Rocha 
(23/Novembro/2013)



domingo, 13 de dezembro de 2015

Os cavalos


Era uma vez um estábulo onde viviam vários cavalos diferentes, elegantes, atléticos, calmos, bem bonitos e muito famosos. Uns tinham o pêlo colorido, e davam grandes saltos, outros passavam barreiras de forma atlética.
Outros cavalos eram modelos fotográficos para cativar a venda de diferentes produtos, como roupas, carros, perfumes, e até bebidas. Outros já tinham participado em filmes, outros faziam parte de espectáculos de circo muito aplaudidos, outros participavam em desfiles de moda.
Só os quatro cavalinhos mais pequenos… é que ainda não tinham feito nada que chamasse a atenção, ou que dissesse ao dono que eles iam ser bons em certas habilidades. Ainda eram muito pequenos.  
O dono ganhava muito dinheiro, e pensava muitas vezes quais seriam as habilidades dos cavalitos pequenos…seriam como os outros? Ou estes não teriam nascido para ser estrelas…? Se não fossem não tinha qualquer problema, porque o seu dono ia gostar na mesma deles e tratá-los tão bem como os outros.
Todos eram o orgulho do dono que os tratava sempre com carinho, dava-lhes atenção, mimos, e estava sempre presente, para que os cavalos se sentissem seguros e fizessem o que lhes era pedido, até treinava com eles.
 Havia alguma coisa que lhe dizia que ainda não tinha descoberto tudo. Ele tinha razão Um dia, uma jovem procurava cavalos especiais para trabalhar com crianças especiais, que tinham algumas deficiências.
Mas a todos os sítios onde ela foi, só se fecharam portas, não lhe respondiam, escorraçavam-na, nem ouviam o que ela propunha…mesmo assim, ela continuou à procura. Foi a essa quinta e o dono dos cavalos atendeu-a. Ela disse-lhe a sua ideia, e ele como era sensível, ficou comovido com o pedido…por isso, aceitou logo.
Levou a jovem ao estábulo e mostrou-lhe os cavalos. Os animais ficaram um pouco inquietos, pensaram que iam ser vendidos, e era uma pessoa estranha.
- Calma bichos…é gente boa! – Diz o dono
Os três cavalinhos mais pequenitos começam logo a brincar e a chamar a atenção. A jovem acaricia cada um deles, enquanto o dono lhes explica. Parece que os cavalos perceberam que iam ser úteis, e desatam a relinchar felizes, a dizer que sim com as cabeças e a dar carinhos à jovem. A jovem ficou logo apaixonada por eles, e eles por ela.
Nos dias que se seguiram, a quinta foi invadida por pequenos e pela jovem. Os cavalos conquistaram rapidamente os miúdos, e deixaram que eles construíssem uma linda amizade com eles. Os pequenitos adoraram-nos, porque eram muito meigos, pacientes, sensíveis, delicados e brincalhões…sedutores!
E todos se divertiam muito juntos, as crianças ficaram muito mais calmas, felizes, sorridentes, adoravam brincar com os cavalos, enchiam-nos de carinhos, e os cavalos retribuíam. O dono ficava muitas vezes emocionado, feliz e orgulhoso com o que via, estava sempre presente para ajudar no que fosse preciso.
Viram-se verdadeiras e rápidas transformações nas crianças, depois de conviverem com estes cavalos. Este foi mais um motivo de orgulho para o dono dos cavalos, a sua quinta nunca mais foi a mesma, mas ele ficava muito feliz.
FIM
Lálá

(10/Dezembro/2015)