Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta cerejas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cerejas. Mostrar todas as mensagens

domingo, 17 de maio de 2015

A ESTRELA, A LUCINHA E OS AMIGOS

      Era uma vez uma menina que se chamava Lucinha. Vivia numa grande casa de pedra, numa montanha muito longe da cidade, com os seus pais e tinha uma família enorme. Mesmo com tanta gente à sua volta, ela sentia-se muitas vezes sozinha.
Queria ter muitos, muitos mais amigos, como tinham a sua mãe e a sua Avó. Fartava-se de pedir às estrelas que lhe dessem novos e bons amigos, mas até ao momento ela continuava sem ter novos e bons amigos.
Uma noite, em que Lucinha voltou a pedir às estrelas, muitos mais amigos, uma estrela quis dar-lhe a lição que ela precisava de aprender sobre o que é ser amigo, e quem são os amigos. Resolveu brincar um bocadinho com a situação, que ela sabia que era ilusão da menina, e deu-lhe uma ideia:
- Põe cerejas no cabelo, e não te vão faltar amigos.
        A menina achou um pouco estranha aquela sugestão, mas no dia seguinte fez isso. Arranjou pezinhos de belas e atraentes cerejas, e pôs no seu cabelo, presas com ganchos. As suas primas ficaram encantadas com aquela novidade e como eram vaidosas, fizeram o mesmo.
        Não demorou muito e era só pássaros à sua volta, mas para devorar as cerejas. Eles eram atraídos pelas cerejas e num instante comeram todas as cerejas, enquanto elas brincavam, distraídas.
Elas tinham visto muitos pássaros naquela zona, mas não pensaram que eles andassem à sua volta por causa das cerejas que tinham nos cabelos. Nem se lembraram que tinham cerejas no cabelo.
Quando repararam umas nas outras, não tinham uma única cereja…só os pauzinhos das cerejas que estavam presas nos ganchos, de resto tinha desaparecido tudo: as cerejas e os caroços. Elas ficaram muito tristes e zangadas.
Começaram aos gritos e a tentar chutar todos os pássaros que estavam com o papo bem cheio de cerejas. Tão cheio que quase nem conseguiam voar.
- Porque é que comeram as nossas cerejas? – Pergunta a Lucinha
- Xô daqui para fora…seus comilões… - Grita Mimosa
- Gulosos. – Resmunga Leninha
- Atrevidos! – Gritam todas
- Estavam capazes de nos comer os cabelos. – Comenta Lúcia
- Desculpem…! – Dizem os pássaros
- Estávamos com muita fome e sede… - Explica um pássaro
- Vimos estas cerejas tão bonitas… - Diz outro pássaro
- Não resistimos! Comemos… - Confessa outro pássaro
- Só deixaram os pauzinhos… - Repara Carlinha
        Elas tiram os ganchos, zangadas.
- Para que é que me mandaste pôr cerejas no cabelo, óh estrela aí em cima? – Pergunta Lucinha muito zangada
- O quê? – Perguntam todas as primas
- Uma estrela ontem disse para eu pôr cerejas no cabelo para arranjar novos e bons amigos! – Conta Lucinha
- E arranjaste…os pássaros! – Diz a voz da estrela
- Mas que grandes amigos…comeram-nos todas as cerejas. Estavam capazes de nos comer a cabeça e o cabelo. – Resmunga Lucinha
- Amigos desses não precisamos. – Acrescenta Leninha
- Pões raminhos de cerejas na tua janela. – Sugere a estrelinha
- E se eles sujam a janela toda? – Lembra Mimosa
- A mamã não vai gostar nada! – Diz Lúcia
- Não! – Confirma Carlinha
- Olha…estrela, porque é que não me mandas amigos de carne e osso, como eu…em vez de pássaros? É isso que eu quero? – Pergunta a Lucinha
- Porque os amigos não se mandam assim. Não sou eu, nem nenhuma estrela que vai trazer-te amigos… tu e o teu coração é que vão escolhê-los. – Explica a estrela
- Mas… - Diz Lucinha
- Isso mesmo! – Confirma Lúcia
- Não é justo. – Resmunga Lucinha
- É justo sim! Vais ver… Os únicos amigos que te posso mandar são os sonhos bons, fazer-te companhia, livrar-te dos pesadelos e ajudar-te a realizar alguns desejos. Mas este que me pedes, não posso realizar! És tu que os escolhes. - Diz a estrela
- Acho que a estrelinha tem razão, prima. A minha mãe diz o mesmo. – Comenta Leninha
- Óh! – Diz a Lucinha desanimada
- Não fiques triste comigo… - Pede a estrelinha
- Para que queres mais amigos, prima? – Pergunta Mimosa
- Vocês têm tantos…eu também queria ter. – Responde Lucinha
- Não…só temos meninos conhecidos, e interesseiros. – Comenta Carlinha
- Aqueles que são nossos amigos, só porque temos uma casa grande, e vivemos num sítio com ar puro…só brincam connosco quando querem receber coisas de graça. – Acrescenta Leninha
- Não são amigos. Nós, primas, é que somos as verdadeiras amigas umas das outras. – Diz Mimosa
- A minha mãe também diz isso. – Acrescenta Lúcia  
- Não interessa o número de amigos que temos…interessa a qualidade. – Lembra Carlinha
- Eu e as minhas manas temos muito poucos amigos, mas sabemos que são bons, e são sempre nossos amigos. – Comenta Leninha
- Como é que sabem? – Pergunta Lucinha
- O nosso coração é que nos disse que eles eram e são os nossos bons, e verdadeiros amigos, mas só são 3 ou 4. – Responde Mimosa
- Pois! – Concorda a estrela
- Mas o meu coração não me diz nada…sou amiga de todos, gosto de quase todos. – Diz Lucinha
- E podemos gostar de muita gente, mas há uns meninos e meninas que são mais especiais para nós. São esses os nossos verdadeiros e bons amigos. – Responde Carlinha
- Sim! – Respondem todas
- Isso mesmo. – Concorda a estrela
- Então…acho que tenho alguns amigos verdadeiros… e bons. Mas eu queria ter mais. – Diz Lucinha
- Quase nunca se tem muitos, quando são os amigos verdadeiros. Mas esses muito poucos estão sempre lá…para darem um bocadinho deles a nós, e receberem algumas coisas que lhes damos. – Explica a estrela
- Áh! Percebi. – Reconhece Lucinha
- A mamã tem sempre razão. Foi ela que nos disse! E nós aprendemos. – Diz Mimosa
- Pois é! – Dizem todas
- Os animais são os únicos amigos que te posso mandar, pequena! – Diz a estrela
- Obrigada! – Diz a Lucinha
- Os animais também são nossos amigos! – Diz Leninha
- Pois são! – Dizem todas
- Amigos são aqueles que não querem saber das nossas coisas materiais. – Diz Mimosa
- Amigos são aqueles a quem não lhes interessa os brinquedos que temos, e que brincam connosco só porque são giros. – Diz Lúcia
- Isso mesmo! São amigos, aqueles que querem estar connosco, brincar connosco, e não se importam de partilhar.
- Pois! – Diz a estrela  
- Então…eu tenho alguns bons amigos. Acho que não preciso de mais. – Diz Lucinha
- Poderás vir a ter muitos mais, mas nem todos serão esses especiais. – Diz a estrela
- Entendi. Eu gosto muito dos amigos que tenho! – Diz Lucinha
        E a Lucinha aprendeu uma coisa muito importante com a estrela…que os amigos não se pedem…escolhem-se pelo coração. E voltam a brincar umas com as outras, os pássaros não deixam mais aquele sítio, porque elas deixam todos os dias cerejas para os pássaros, para eles não comerem as melhores.
        E vocês? Sabem quem são os vossos melhores amigos?
São muitos ou poucos?
Como é que sabem que eles são vossos amigos verdadeiros?
        Lembrem-se: os verdadeiros amigos podem não ser muitos, mas são os que nos dão as melhores coisas do seu coração, e não os que nos dão muitas coisas falsas.

FIM
Lálá
(17/Maio/2015)







quinta-feira, 14 de maio de 2015

O CONQUISTADOR DE MAIO

          Era uma vez uma aldeia muito grande, longe das cidades, com muitos habitantes, que não tinham dinheiro a mais, mas eram muito boas pessoas. Era uma aldeia cheia de história, e mistérios, recheada de belezas naturais, como as cascatas, grutas, flores, e pássaros raros muito bonitos.
Além de todas as surpresas da Natureza, os visitantes ainda eram simpaticamente recebidos pelos habitantes mais velhos que adoravam companhia, e eram excelentes guias turísticos.  
Para dar a conhecer a aldeia, até ofereciam água das minas, chás e biscoitos para quem queria, e fruta da época. Os visitantes não resistiam a tantas coisas boas, e compravam mesmo tudo o que eles vendiam. Muitos dos habitantes era disso mesmo que viviam.
Enquanto os mais velhos caminhavam com os visitantes pela aldeia, contavam as suas aventuras, brincadeiras e travessuras de quando eram mais novos, nesses espaços, e histórias da própria aldeia.
            De todas as histórias da aldeia, a que mais gostavam de contar, era uma muito especial que deixava os adultos mais românticos, emocionados e a sonhar acordados. A história do conquistador de Maio.
            Era a história de como as cerejeiras da aldeia tinham aparecido lá, em sítios que pensavam não ser possível nascer qualquer flor, quanto mais cerejeiras ou outra árvore de fruta qualquer. A realidade é que elas estavam lá e davam cerejas de fazer crescer água na boca.
            Eles contavam que há muitos, muitos anos atrás… nessa aldeia…viveram reis e rainhas com os seus pequenotes uma vida cheia de riqueza, no castelo que ainda existia, e foi reconstruído por um grupo de estudiosos de história, tal e qual como era na época.
            No mês de Maio desse ano, numa noite quente, em que o vento forte trazia atrás de si chuva e trovoada, as princesas estavam à janela dos seus quartos à procura da Lua que estava escondida atrás das nuvens, e das estrelas.
Não viram nem a Lua nem as estrelas, mas viram uma sombra que parecia ser um cavalo com o cavaleiro. Como estava escuro ficaram assustadas, e foram para os quartos.
Os olhos delas tinham a sua razão…era uma sombra, mas ao mesmo tempo era um belo jovem rapaz, alto, de capa preta que ia montado no seu cavalo de uma longa viagem e parou ali para descansar.
No dia seguinte, as princesas voltaram à janela, e chovia e trovejava muito, o pobre cavaleiro estava encharcado a dormir encostado a uma árvore de tronco largo e grosso, com ar muito cansado e o seu elegante e belo cavalo também ao seu lado, enroscado nele para o aquecer e proteger.
Os guardas do castelo ficaram com muita pena dos dois, e foram levar a notícia aos reis. Os reis mandaram-nos levar o cavaleiro e o cavalo para um dos quartos que estava vazio no castelo.
Os guardas acordaram o rapaz e o cavalo, e convidaram-nos a ir para o quarto. Os dois aceitaram, tomaram um belo pequeno-almoço, digno de reis, o rapaz pôs a capa a secar, tomou um banho quente e vestiu uma roupa seca. O cavalo teve a mesma sorte, e fez num instante uma série de novos amigos, todos os outros cavalos do castelo.
O rei mandou-o chamar, e as princesas ficaram todas apaixonadas pelo rapaz, que era mesmo bonito, simpático e delicado com as meninas. Todas as meninas quiseram tornar-se amigas dele.
Ele também as achava muito bonitas, mas como gostava de todas, decidiu ser só amigo delas, e não se apaixonou por nenhuma. Elas competiam entre si sem ele saber, para ver de quem ele gostava…cada uma achava que o rapaz estava apaixonado por si.
Uns dias depois, o rei mandou o rapaz embora porque achava que ele estava a fazer mal às meninas, já nem estavam a ser amigas umas das outras, e porque ele era muito pobre…não podia ser para aquelas meninas. E o rapaz obedeceu, triste. Agradeceu, e saiu do castelo.
O seu cavalo e os outros cavalos ficaram muito tristes, mas prometeram uns aos outros, voltar a encontrar-se em breve. Como ele era pobre, não deixou nada, nenhum presente para elas.
As meninas ficaram muito tristes e chorosas quando souberam na manhã seguinte que ele tinha ido embora, mas como ele era muito pobre, a tristeza das meninas passou depressa…elas não queriam um namorado pobre.
Nesse mesmo mês, mas no ano seguinte, o rapaz voltou à aldeia e deixou na janela dos quartos das meninas um saquinho de veludo com alguma coisa lá dentro. Elas ficaram muito surpresas, abriram o saquinho a pensar que era um anel de diamantes ou mesmo pedrinhas preciosas, mas só viram caroços que pareciam de fruta.
Ficaram tão zangadas e desiludidas, aos gritos, e a chorar, que atiraram todos os caroços pela janela fora com toda a sua força e o mais longe que podiam. Estes espalharam-se por toda a aldeia, por muitos sítios.
Uns tempos depois, começaram a aparecer cerejeiras de forma misteriosa, que deram belas cerejas como as que existem hoje lá na aldeia. Contam eles que quando as cerejeiras ficaram em flor, as princesas viam a sombra do rapaz e ouviam o seu cavalo a relinchar durante todo o mês de Maio.
Elas perceberam que afinal os caroços que estavam à sua janela, não eram diamantes, nem pedras preciosas, mas era tudo o que o rapaz tinha para lhes dar, além da amizade.
Enquanto havia cerejas na aldeia, o rapaz estava lá, e as meninas encontravam-se com ele, sem os reis saberem, porque ele era pobre, não tinha diamantes para oferecer, mas tinha um coração maravilhoso e um sorriso que encantava as meninas. Passavam belos momentos juntos.
Dizem que foi assim que nasceram aquelas cerejeiras da aldeia naqueles lugares estranhos e de forma espontânea, quase mágica. Ficou conhecido como o conquistador de Maio, porque visitava a aldeia no mês de Maio.
Se aconteceu mesmo assim ou não, ninguém sabe dizer, mas todos adoram esta história.

FIM
Lálá

(14/Maio/2015) 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

PRESENTES DE MAIO


        Era uma vez uma aldeia onde viviam poucas pessoas em moinhos abandonados que foram transformados em casas. Eram quase todos familiares, e davam-se muito bem. A aldeia vivia do comércio dos produtos que a terra produzia, e de visitas de estudo.
        Na aldeia o clima variava muito…tanto estava frio de manhã e calor de tarde, ou calor ou frio todo o dia, outras vezes calor de dia e frio à noite. Chuva, sol, nevoeiro e vento no mesmo dia, mas os habitantes já estavam habituados e gostavam. Devia ser por isso que os produtos eram tão deliciosos e frescos.
        Gostavam muito de viver aqui, e o seu dia-a-dia era como o de toda a gente da cidade: os adultos iam trabalhar para a cidade, as crianças para os colégios e escolas da cidade, quando precisavam de médico iam à cidade, e fazer algumas compras de coisas que não havia na aldeia e voltavam ao fim-da-tarde. Na aldeia só ficavam os habitantes que trabalhavam na terra.
        Mas esta aldeia tinha acontecimentos que eram só deles…festas e tradições próprias que não havia em mais lado nenhum, e também recebiam uns pequenos presentes da Natureza que todos recebemos em Maio! Os campos oferecem flores para fazer as coroas com Maios, tempestades e cerejas.
        No final do mês de Abril, os seus habitantes já se previnem…apanham as toneladas de cerejas que produzem, e tapam com plásticos próprios, as cerejeiras onde ainda não há cerejas, ou ainda estão a crescer.
        Mas as tempestades, aqui são mais fortes…muito assustadoras, e geralmente chegam sem aviso, duram horas e às vezes dias. Um dia que começa com um belo sol quente, passado algum tempo, é interrompido por trovões estrondosos, que até fazem tremer o chão e as janelas das casas, raios que riscam as nuvens escuras, e parece que caem no chão.
        A trovoada não vem sozinha…o vento acompanha-a, e é tão forte que parece aspirar tudo à sua volta, faz redemoinho, e chega a deitar árvores abaixo, a arrancar plantas da terra, e raízes ou até telhados.
        O ramalhete da tempestade, não ficava completo se não houvesse a chuva que traz consigo a saraiva, muito pesada e tocada a vento, faz muito barulho…parecem pedras a cair.
        Ao fim-de-semana e à noite quando podem, juntam-se nas casas uns dos outros, à lareira a conversar e a conviver alegremente, comem cerejas e fazem bolos, compotas, sabonetes e cremes caseiros e velas com cheiro a cereja.
        Em Maio comem-se as cerejas ao borralho.

                                       FIM
                                       Lálá
                                   (2/Maio/2015)


As tecedeiras

Foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma família de mulheres tecedeiras: duas com bastante idade, mas muito activas, alegres e trabalhadoras; uma jovem mãe de duas meninas gémeas, e uma rapariga ainda jovem.
Trabalhavam muito, conversavam, riam e ensinavam outras meninas que apreciavam essa arte! Teciam coisas muito bonitas: paninhos, guardanapos, toalhas, lençóis, vestidos, e véus de noivas, colchas, e bordavam roupas para pequeninos que eram um mimo. Além disso, faziam arranjos e fabricavam outras roupas.
Um dia, numa noite muito quente de Verão, as tecedeiras estavam cansadas com tanto trabalho, mesmo assim, continuaram. Uma fada que costumava acender os candeeiros dos jardins, com as suas chamas, viu as tecedeiras quase a dormir em cima dos panos que tinham para bordar em pouco tempo.
- Coitadinhas! Como elas estão! – Murmura a fada – Boa noite! Estão tão cansadas. Vão dormir, amanhã é outro dia! – Sugere a fada
- Descansar? – Perguntam todas
- Nem podemos pensar nisso!
- Temo muito trabalho.
- Pois!
- E este é o nosso meio de sustento.
- Temos que ser mais fortes que o cansaço!
- Não temos tempo para parar.
- Mas…e a vossa saúde? Estão a dar cabo dela. Se ficam doentes depois é que não vão poder trabalhar. É melhor descansarem primeiro amanhã continuam. Hoje não vão adiantar nada, nem que fiquem aí a noite toda. Já trabalharam demasiadas horas. – Recomenda a fada
        Mas elas são muito teimosas e tentam lutar contra o sono. Como elas não param, a fada pede ajuda ao João Pestana que deita os seus pozinhos do sono discretamente por cima delas, e elas deitam-se.
        A fada chama as suas amigas fadas tecedeiras, que já conhecem o trabalho das mulheres tecedeiras, e ainda se juntam mesmo sem serem chamadas, as bruxinhas boas costureiras, as borboletas, bordadeiras, e todas trabalham em conjunto nos panos que as mulheres tecedeiras estavam a fazer.
        Dá gosto ver! Parece uma grande fábrica. Cada uma faz um pedacinho e uma tarefa, e ainda se ajudam umas às outras, de pano em pano, e de bordado em bordado.  Elas trabalham muito rápido, em grupo e muito felizes. Divertem-se muito.
        São às dezenas e os belos panos ficam prontos num abrir e fechar de olhos. Ainda têm tempo de fazer um paninho surpresa para as mulheres, onde cada uma deixa um miminho da sua marca de amizade, e os contactos para trabalharem em conjunto.
        Na manhã seguinte, as tecedeiras apanham um grande susto de surpresa quando vêem tudo pronto e o paninho.
- Óh! Adormecemos?!
- Não podia ter acontecido!
- Agora temos o trabalho todo atrasado.
- Espera aí! Já estão todos prontos!
- Pois já. Mas como pode ser?
- Ainda há bocado nos faltavam tantos.
- Esteve aqui alguém.
        E todas as suas dúvidas foram desfeitas quando viram o lindo paninho das outras tecedeiras.
- Óh! Que queridas! – Dizem todos sorridentes e deliciadas
- Tão lindas!
        E vêem que todos os seus paninhos estão perfeitos, lindos. Elas vão visitar as fadas e agradecem-lhes com abraços, sorrisos e flores. As fadas tomam o pequeno-almoço com as tecedeiras e mostram os trabalhos delas. As tecedeiras ficam maravilhadas e convidam-nas para trabalhar com elas. Elas aceitam logo, e chamam todas as outras para se conhecerem.
        Desde esse dia, tornam-se as melhores sócias e amigas umas das outras. As mulheres não precisaram de fazer mais noites, e o trabalho porque era dividido por dezenas de fadas e borboletas tecedeiras, costureiras e bordadeiras que faziam a sua parte e ainda ajudavam as outras, ficava pronto num instante.
        Os trabalhos não paravam de crescer, eram centenas de pedidos, a toda a hora. Os trabalhos eram cada vez mais bonitos, diferentes, feitos com muita alegria, carinho e amizade! Até sonhos e desejos teciam. Em grupo, muito trabalho torna-se mais rico, mais rápido e mais divertido. Principalmente quando todos são grandes amigos!
FIM
Lálá
(26/Abril/2015)


A CESTA DAS CEREJAS



   Era uma vez uma casa pequenina de pedra, pintada de branco com cerejas, muito bonita, construída entre umas cerejeiras muito grandes, de troncos muito grossos.
      Atrás da casa havia um pequeno quintal com flores de cores tão bonitas e pétalas tão grandes, tão macias, que atraiam centenas de borboletas, joaninhas e passarinhos…e até fadas da floresta que dançavam à volta delas.
   Mas…nem tudo era perfeito. Uns pássaros malvados e invejosos dos outros, que viviam no castelo de uma bruxa, na cratera de um vulcão há muito tempo desactivado, que só pensava em fazer mal.
    Como vivia num sítio feio, que ela dizia odiar…adorar…, não suportava sítios bonitos, lugares com luz, jardins bem tratados, e cheios de flores, e campos de cultivo. 
       Ela também detestava pessoas boas e felizes, por isso, sempre que podia, mandava os seus pássaros horríveis, e muito rebeldes, dar cabo de tudo o que estava de pé.
    Esses pássaros eram tão venenosos como a bruxa. Nem sequer eram para ela os produtos que mandava destruir, eram mesmo por maldade, e porque ficava feliz com destruição.
   Ninguém que era bom, sabia da existência desta malvada, o que sabiam era que esses pássaros não eram nada bem-vindos porque destruíam tudo. 
  Aterrorizavam os outros animais e os humanos. Até os cães e os lobos sentiam a maldade no ar…primeiro tinham medo e depois tentavam proteger, mas não conseguiam.
    Numa manhã, altura em que as cerejeiras estavam carregadas, a bruxa queria cerejas para um feitiço, mandou os pássaros a essa casa, que atacaram todos os que tentaram proteger a casa e as cerejas, com muito barulho, guinchos, bateres de asas agitados, e conseguiram levá-las, deixando um rasto de destruição atrás de si. As gargalhadas de vitória da bruxa fizeram tremer o seu castelo e a terra á volta.
     O casal ficou muito irritado, até que a mulher teve uma ideia: encher um cesto com todas as cerejas que tinham caído dos pássaros que as abanaram, para o caso de eles voltarem, comerem as do cesto e não as das árvores.
   As cerejas do cesto eram bonitas, doces, e grandes. Mas o marido não quis ser bom, também não queria ser mau, mas apenas dar uma ensinadela a esses terroristas.
    Pegou numa série de bolinhas de madeira e pintou-as da cor de cereja, pôs outras bolinhas de esponja pintadas de cerejas e pedrinhas redondas que imitavam na perfeição as cerejas.
   Pôs tudo numa bela cesta com perfume de cereja, e deixou bem visível. Na manhã seguinte, os pássaros da bruxa voltaram e preparavam-se para atacar outra vez a casa e as árvores, mas foram atraídos para a cesta onde estavam as cerejas falsas.
     Alguns pássaros tentaram comer, mas quando engolem ficam tão pesados que não conseguem voar mais, e vão pelo campo com muita dificuldade, à procura de veterinário para lhes tirar as pedras, mas é a bruxa quem as tira.
         A bruxa fica fora dela com a raiva, quando percebe que foi enganada, mas os pássaros já estão habituados e metem-se na gaiola antes que vão parar ao forno.
      Como a cesta funcionou, o casal volta a fazer o mesmo, mas desta vez, eles já sabem que as cerejas não são para comer, e os cães andam à solta, a rondar as cerejeiras como os pássaros têm medo, não se aproximam mais, nem comem as cerejas.
      A bruxa teve de arranjar outras coisas para os seus feitiços…e arranjou, mas pelo menos a bruxa não quis saber mais de cerejas.
         Os pássaros aprenderam a lição…de que as cerejas não são para eles.
                                               FIM
                                               Lálá
                                      (29/Abril/2015)


A aldeia cereja

             
desenhado e pintado por Lara Rocha 

             Era uma vez uma pequenina aldeia entre duas montanhas muito diferente das outras. Os seus habitantes mais velhos contam uma lenda romântica sobre a origem da aldeia.
            Contam que inicialmente só existiam as duas montanhas, depois um jovem, aquele que veio a ser o primeiro habitante da aldeia, diz ter avistado nos céus, um enorme pássaro misterioso, feito de estrelas que voou por cima das montanhas, e do seu bico caíram umas luzes brilhantes na terra.
            Como o terreno era natural, ainda sem a mão do homem, as sementes de luz, transformaram-se em lindas árvores cerejeiras, que deram flores e frutos encantadores, grandes e suculentos.
            A cereja passou a ser, entre outros produtos da terra, o primeiro sustento do seu habitante, que conheceu o amor da sua vida e foi viver para lá. Ele e a esposa construíram a sua casa, de forma muito diferente das outras casas…em vez de ser em pedra e cimento, aprenderam ao ver como os pássaros construíam os ninhos, e fizeram a sua casinha, como um grande ninho, sem repararem que quase ganhou a forma de uma cereja, entre duas cerejeiras com pauzinhos de cerejas, palha, erva, alguns troncos grossos e outros materiais muito primários que encontravam por lá.
            Embora fosse uma casa frágil, tinham um tecto onde dormir, e estavam protegidos do tempo frio, da chuva, do vento, e tinham porta para não entrarem animais como lobos.
            De dois, passaram a quatro, porque tiveram dois filhos gémeos, e o homem construiu outra casa maior, ao lado, quase com os mesmos materiais e as condições foram melhorando.
            Uns anos mais tarde, outros visitantes gostaram tanto do sítio que foram para lá viver. Diz a lenda que o pássaro de estrelas voltou a largar sementes de cerejeiras e nasceram várias dezenas espalhadas pelo vale.
            Os seus troncos serviram para construir as pequeninas casas em forma de ninhos e depois em forma de cereja. Os seus habitantes já tinham provado as cerejas, e passaram a utilizá-las para fazer bolos, compotas, sumos, cremes e champôs de cereja, porque sabiam que faz muito bem à saúde e é fonte de rendimento.
            Para agradecer a generosidade do pássaro, e tudo de bom que esse acontecimento trouxe ao vale, os habitantes decidiram fazer um baile, uma festa.
            Prepararam um banquete, puseram troncos das cerejeiras a servir de mesas e de bancos, cadeiras desenhadas em forma de cerejas pelo artista do vale, com cerejas bordadas nas toalhas, feitas com muito carinho pelas senhoras, tudo decorado com raminhos de cerejas.
            As mulheres e as crianças estavam lindas, com roupas para o jantar, cheias de cerejas nos tecidos, brincos e colares feitos de cerejas, tudo tinha toque de cereja.
            As lanterninhas de luz tinham forma e cor de cereja, assim como as velas que iluminavam todo o vale, além de cheirarem a cereja. Estava um ambiente mesmo bom e bonito, perfumado, e animado.
            A decoração estava mesmo deliciosa, sentia-se um cheirinho a cereja por todo o lado. Os pratos que prepararam foram servidos em travessas, pratos e talheres com formato de cereja, e cerejas pintadas.
            As cozinheiras fizeram bolos de chocolate com cerejas a decorar, sumo de cereja. O primeiro habitante foi quem fez o discurso de agradecimento. No final, todos aplaudem e agradecem em coro.
            O pássaro feito de estrelas, ouviu tudo, e até deixou escapar algumas lágrimas de alegria e emoção pela festa…as lágrimas e os sorrisos do pássaro, foram vistas na terra, em forma de estrelas cadentes. Foi uma surpresa para todos.
            O pássaro só apareceu no céu, no final do discurso. Nessa noite, todos o viram e acharam lindo! Ele dançou para os habitantes, leve, brilhante, elegante, para agradecer, e retribuiu todo o carinho e atenção, lançando outras sementes, de novos frutos e produtos para experimentarem e variarem. O pássaro faz desenhos de cerejas com estrelas, que deram as mãos, e muitas outras imagens… os habitantes nunca tinham visto.
            E ainda voou por cima de todas as casas frágeis, que tinham forma de ninho, parecidas com cerejas, e com as estrelas que deixou cair das suas penas, transformou-as e melhorou-as por fora e por dentro.
            Nunca tinham visto nada tão especial e tão bonito. O pássaro nunca mais os abandonou, nem eles ao pássaro, e visitava-os muitas vezes, levando-lhes sempre algum miminho surpresa, que eles não deixavam de retribuir.
            Lenda ou realidade? Quem saberá? O que se sabe é que esse vale existe, e tudo, mas mesmo tudo tem forma, sabor, cor e cheiro a cereja! Talvez inspirados na lenda, os habitantes construíram as suas casas em forma de cereja, decoradas com imagens de cerejas, e a cereja é o seu meio de sobrevivência!
            Não é lenda aproveitarmos tudo, ao máximo, o que a natureza nos dá, pois não? Se pensarmos bem, comemos tudo o que há na terra…ou…quase tudo o que é possível para sobrevivermos e termos saúde, alimentar-mo-nos.
            Às vezes, ela ganha a forma de mãos, outras vezes, de sementes leves, levadas pelo vento, que pousam e nascem, outras perdem-se. Tudo isto…é um mistério real, tal como a vida é real.

                                                           FIM
                                                           Lálá

                                               (29/Abril/2015)