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segunda-feira, 4 de março de 2019

A lição do lixo à volta das escamas

           


Era uma vez um ouriço-do-mar que fugiu do oceano onde vivia com a sua família, de muito longe por causa da poluição. Percorreram longos quilómetros à procura de uma casa onde não houvesse lixo. Estava difícil de encontrar, mas finalmente, passaram por uma montanha aquática onde a água era transparente, morna e bem salgada como eles gostavam! Cheirava bem a algas.
           Estavam muito cansados, por isso instalaram-se no primeiro sítio que viram, e caíram num sono como já não se lembravam de ter. Tudo parecia calmo, outros animais que passavam, olhavam para eles, mas não lhes tocavam.
          Mas um acontecimento inesperado, despertou-os de repente, e assustou-os muito. Um violento tremor de terra! Instalou-se a agitação e o terror debaixo de água. Não sabiam bem o que estava a acontecer, mesmo assim, viam todos a correr de um lado para o outro, e um peixinho gritou-lhes:

- Saiam daí. Estão num sítio muito perigoso.

- O que é que está a acontecer, pergunta um ouriço-do-mar.

- Não temos tempo de explicar, agora. Venham atrás de nós! Rápido.

           Os ouriços-do-mar seguem-nos, assustados. Levanta-se um monte de areia que se move a uma velocidade arrepiante, e corre debaixo da água, formam-se centenas de bolhas de água que sobem em redemoinho para a superfície, e quase arrasta tudo o que é animal, mas eles já sabem que quando isso acontece, juntam-se e escondem-se num abrigo que construíram no casco de um navio afundado há muitos anos.
           O caos vai para a superfície, e as água nas profundezas acalmam. Todos respiram de alívio.

- Passou! - suspiram todos

           Um peixe matreiro, muito bonito, mas perigoso, grita:

- Intrusos!

           Estava a falar dos ouriços-do-mar. Como eram todos muito unidos, e todos obedeciam às ordens desse peixe, porque tinham medo dele, o que ele dissesse, tinham de fazer, se não, eram castigados.  Na verdade não gostavam de muitas coisas que ele fazia ou dizia, mas ninguém tinha coragem de o desafiar.

- Óh, não...nós viemos na paz, à procura de um lugar para viver, porque o nosso estava cheio de lixo! Quase não conseguíamos respirar! - explica um deles

- Eu não perguntei nada! - exclama o peixe arrogante

- Ele odeia perguntas... - diz outro peixe 

- Fora daqui. - Grita o peixe

- Mas nós... - tenta outro ouriço-do-mar

- Não quero saber de explicações! Fora... - Grita o peixe

           Os ouriços-do-mar afastam-se tristes. O peixe malvado vai passear todo emperuado e de repente algo se enrola nas suas barbatanas. Não consegue nadar, nem sair do mesmo sítio, e quanto mais tenta libertar-se, mais atado fica.
           Os ouriços-do-mar vêem a aflição do peixe, vão ter com ele, e ele escorraça-os, grita com eles, chama-lhes nomes feios, mas eles não se deixam intimidar.

- Vão-se embora...eu não vos quero aqui. - Grita o peixe 

- Para de te mexer e de gritar! - recomenda um ouriço

- Olha que porcaria que ele tem aqui à volta...

- Como vamos tirar daqui isto?

          Os ouriços-do-mar agem rapidamente, juntam-se e quando encontram uma possível saída do lixo, uns puxam dum lado, outros doutro, cortam com os seus picos partes dos fios, passa um peixe espada e ajuda a cortar os fios, e aos bocadinhos vão libertando o peixe.
          No fim estavam todos completamente exaustos. Respiram fundo, e caem na areia lentamente.Os ouriços agradecem ao peixe espada. O peixe está ofegante e muito nervoso, mas ao mesmo tempo envergonhado, por isso, depois de estar um pouco em silêncio, começa a soluçar e a chorar. Os ouriços-do-mar aproximam-se, olham-no, a medo, recuam.

- Estás bem? - pergunta um ouriço

- Ele odeia perguntas, lembras-te? - relembra o ouriço  

- Vamos... - diz um ouriço com medo

- Óh... esperem! - Diz o peixe a chorar

           Eles param, e olham para o peixe

- Estou muito envergonhado! Desculpem... muito obrigado por me terem tirado aquela porcaria! Ai, quase me acontecia alguma coisa má! Não sei de onde veio aquilo.

- Nós tínhamos toneladas...talvez... dessa porcaria na nossa zona!

- E o que é?

- É lixo... coisas que os humanos já não precisam...

- É que... não devem ter onde pôr.

- Parece que é o que dizem!

- Malditos! - Grita o peixe zangado

- Nós? - perguntam os ouriços assustados

- Não! Aqueles...

- Áh, sim! Tens razão...

- Eu fui muito bruto convosco. Escorracei-vos e vocês ainda me libertaram do lixo! Desculpem.

- Na hora de precisar...

- Pois, eu sei! Não merecia.

- Não foi isso que quisemos dizer!

- Na hora de alguém precisar não pensamos muito. Respondemos!

- Mas eu fui tão estúpido, que vocês deviam deixar-me ali enrolado naquela coisa.

- Porquê?

- Isso ia tirar-te a brutidade?

- Tu realmente não és nada simpático, és arrogante e bruto, mas talvez também tenhas as tuas razões para ser assim!

- Sim, têm razão!

- Toda a gente tem medo de ti.

- Medo de mim? Acham?

- Claro que sim!

- Óh, também não queria isso... é que eu acho que se não for mau, ninguém vai gostar de mim.

- Que disparate!

- Acham?

- Claro. Eles e toda a gente gostam de amigos bons.

- Que vergonha... sou um monstro!

- Não... és bonito, mas podes ser mais suave a falar como os outros.

- Como?

- Queres aprender?

- Quero! É uma forma de vos pedir perdão, e de agradecer!

- Podemos ficar?

- Claro que sim! Por favor!

             Os ouriços-do-mar dão umas verdadeiras aulas ao peixe, de como ser amigo e generoso com os outros, para gostarem dele, sem ser mau. Mas que grande mudança. O peixe mau passou a ser  um verdadeiro doce, cavalheiro, colaborador, educado, delicado, sedutor, brincalhão, divertido... e todos os outros que o rodeavam repararam. Elogiaram-no, chamavam-no sempre que precisavam, ele fazia convívios e divertia-se muito!
            Deixou de ser um chefe mau, e tornou-se no que sempre tinha sido: um peixe amigo, como os outros, que precisava dos outros, e que ajudava quem precisava. Desde esse dia, aquele lugar subaquático nunca mais foi o mesmo. Ao primeiro sinal de lixo, instalava-se a confusão, juntavam-se todos, e devolviam o lixo à superfície, na tentativa que os humanos deixassem de fazer lixo nas praias.

Acham que seria uma boa solução para resolver o problema dos lixos nas praias e nos mares?
               
                                                                         FIM
                                                                         Lálá
                                                                     4/Março/2019 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O sonho mágico do rapaz mágico

           Era uma vez um jovem rapaz, bonito, elegante, que tinha nascido com um dom de fazer magia. Simpático, brincalhão, não falava por palavras mas tinha um coração bom e era tão expressivo, que através da mímica e do olhar, transmitia luz a quem o via. Às vezes aparecia com a cara pintada, outras vezes, não.  Queria distribuir alegria por todo o lado e o que gostava mais era de ver a expressão de surpresa e sorrisos de quem o via. Para isso, oferecia pequenas lembranças e conseguia que sorrissem.
           Passou por uma menina que ficou a olhar para ele, muito séria. Ele olhou para ela, sorriu, tirou o chapéu, ajoelhou-se e ofereceu uma flor maravilhosa, com pétalas brilhantes. Ele beijou delicadamente a flor, estendeu a mão para a menina, ofereceu-lhe a flor. A menina encantou-se com ele, abriu um lindo e aberto sorriso, agradeceu, e o rapaz levantou-se, feliz, com um sorriso de orelha a orelha, saltitou e soprou pequenas luzinhas em forma de pó. 
            Mais à frente, viu uma criança a chorar. Quando a criança o viu parou de chorar, olhou-o, o mágico sacudiu o chapéu e de lá saltou um balão em forma de lua cheia. O menino riu, e o rapaz sorriu. A mãe do bebé quase resmungou, mas quando viu o rapaz, ficou calada. O rapaz roda o chapéu no ar, e tira uma estrela que dava gargalhadas, tão engraçadas que a mãe do pequeno riu como já não acontecia há muito tempo. O seu filho até ficou surpreso e riu também. 
             Depois, passou por um homem que dormia debaixo de um banco de jardim, aquecido pelo candeeiro. O rapaz sentiu pena dele, e enquanto dormia, num toque mágico construiu-lhe uma casa pequena, mas toda mobilada, com alimentos, água e roupas. O homem acordou assustado, quase o agredia, mas o mágico indicou-lhe a casa. O senhor ficou tão emocionado que lhe pediu desculpa e entrou na sua nova casa. Nem queria acreditar no que estava a ver. O senhor nunca mais dormiu na rua. 
             Num hospital, o rapaz mesmo com muita vontade de chorar, sorria para todos, e oferecia do seu chapéu: bonecos, flores, brinquedos com música, luzinhas, borboletas que davam beijinhos, e com isso, conseguiu curar muitos doentes.
             A sua mãe vai ao quarto, e acorda-o: 
- Filho...está na hora de ires para a escola. 
- Mãe… eu quero ser mágico. 
- Sim, sim. A tua magia agora é estudares. 
- Mas, mãe…é a minha missão. Eu sonhei com isso! 
- A tua missão é estudares, para seres alguém. 
- Mas eu quero ser alguém...quero ser mágico. 
- Cala-te! Eu dou-te a magia. Magia é alguma profissão? Magia dá valor a alguém? Francamente. Não me voltes a falar nisso. 
- Claro que é uma profissão. Claro que faz de mim alguém...posso fazer bem a muita gente. 
- Esquece lá a magia e despacha-te! E ai de ti, que os professores digam que estás distraído. 
             O rapaz levanta-se, zangado. Arranja-se para ir para a escola, toma o pequeno almoço, sopra a mão e deixa uma flor para a mãe em cima da mesa. A mãe fica surpresa.
- Até logo, mamã. Amo-te. Ainda vais ter orgulho no teu filho. E na magia! 
             A mãe quase ralha com ele, porque não gosta que ele seja mágico, não quer reconhecer que o filho tem esse dom, e acha que é tudo um disparate da cabeça dele. Ele podia não ter o chapéu de mágico, e claro, todas as magias que ele sonhou, não se realizaram, mas...fazia magia de outra maneira! Com a sua simpatia, delicadeza, educação, sensibilidade, meiguice e amizade. A verdadeira magia deste rapaz estava na sua bondade. No que ele fazia despertar nos outros. Todos gostavam dele. Uns anos mais tarde, tirou um curso de magia, e outro curso para trabalhar como enfermeiro. Era feliz, e continuou a fazer grandes magias por ser como era. 

                                                                                     FIM 
                                                                                     Lálá 
                                                                              16/Janeiro/2019 
              

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Histórias de amor, ou histórias de terror?

         Era uma vez uma árvore onde viviam muitos morcegos, corujas, e mochos. Um morcego tinha muita imaginação e adorava ler. Devorava livros e mais livros. 
        Gostava tanto de histórias que quando as lia parecia que as vivia. Tanto, que falava sozinho, ele dizia que estava a falar com as personagens, mas ninguém, a não ser ele as via.                 Gritava, insultava, agitava-se, às vezes até se atirava de repente e caia no chão. Todos ficavam assustados, até que se habituaram aos seus repentes, e riam com ele.
             Embora lesse um pouco de tudo, o que gostava mesmo era de histórias tenebrosas, assustadoras, de terror, aquelas que assustam e ao mesmo tempo muitos gostam de ouvir. Não entendiam como não tinha pesadelos de noite, com tanta história de terror, mas não tinha, e adorava contá-las aos outros pequenos, o que passou a ser um grande problema, porque tinham pesadelos.
            Uma noite, as corujinhas pequenas quiseram juntar-se ao grupo, e ouvir as histórias. Quando perceberam que eram de terror, viraram costas e foram ler outras histórias, as delas, mais românticas, de temas que as meninas gostam. Nessa noite, mesmo não ouvindo as histórias de terror, elas tiveram pesadelos, talvez porque ouviram os mochos a gritar e a rir.
            Os mochinhos eram teimosos, ouviam as histórias, e claro, de noite tinham um sono muito agitado, mexiam-se, gritavam, caiam abaixo da árvore. Os pais dormiam como se nada fosse, as morceguinhas e as corujinhas acendiam as luzes e tentavam acalmá-los.

- Olhem, meninas, os valentões acordaram assustados! - diz uma morceguinha irónica
 (Todas riem)

- Coitadinhos… - dizem todas a rir

- Vão ouvir mais histórias de terror, vão…! - recomenda uma corujinha a rir de fininho

- Que palermas! - comenta outra morcega

- A culpa é do teu irmão. - Resmunga um morcego que acordou estremunhado

- Essa agora…? Porquê?

- Porque ele é que nos lê essas histórias.

- Se não gostam, porque as ouvem?

- Porque ele é nosso amigo!

- Lá porque é amigo, não têm de gostar das mesmas coisas que ele! - diz a irmã do morcego

- Pois. - Concordam todas

- Nós não temos medo! - afirma convicto um mochinho que ainda está a tremer do pesadelo

- Naaaaaa... - exclamam todas a rir

- Então porque é que estás a tremer, e acordaste aos gritos?

- Eu…? A tremer, e aos gritos…? Tu é que deves ter tido um pesadelo… - diz o morcego que parecia uma vara verde, armado em forte. Elas riem

Uma morcega dá um espirro. Os mochinhos e os morceguinhos escondem-se assustados. As meninas riem

- Até um espirro lhes mete medo, quanto mais, uma história de terror.

- Pois é.

- Acham que são muito corajosos…

- Eu não gosto nada dessas histórias.

- Nem eu!

- É por isso que quando as oiço, mesmo não estando muito atenta, estes palermas a gritar, assusto-me, tenho sonhos maus.

- Eu também.

- Nós sabemos que aquilo não é real, mas não sei porquê...mete medo.

- Pois é.

- Não temos que gostar todos do mesmo.

- Claro que não.

- E se eles experimentarem ouvir ou ler as histórias que nós lemos? - sugere uma morceguinha

- Boa! - concordam todas 

            Uma noite as corujinhas e as morceguinhas convidaram os amigos que se diziam muito corajosos, mas na verdade tinham muito medo, a ouvir as histórias que elas liam.

- As histórias que vocês gostam, são pirosas...- resmunga um mochinho

- Mas ouviste-as, e vais ver como esta noite não vais ter pesadelos! - garante uma morceguinha

- Eu até acho que gosto de histórias de amor, mais do que de terror. - pensa alto um morceguinho

- Claro, o amor é muito mais bonito, terror... já temos muito, à nossa volta e é mau! - diz uma morceguinha

- À noite precisamos de ouvir coisas bonitas, agradáveis, para descansar e ter bons sonhos! - acrescenta uma corujinha

             Nessa noite, não tiveram pesadelos, e alguns descobriram que afinal também gostavam das histórias para meninas. Como, ainda assim, gostavam das histórias de terror, e pensavam que sabiam que essas histórias não eram verdadeiras, decidiram experimentar ler essas histórias de dia, e as outras das meninas à noite. 
            Gostaram da experiência, mas poucos dias depois, voltaram a não resistir ao convite do amigo morcego que lia as histórias de terror. Lá voltaram os pesadelos! Elas não tentaram mais, mas desafiaram-se uns aos outros, para ver quem tinha razão...se eles, ou elas. 
            Convidaram toda a floresta para ouvir histórias de amor, e histórias de terror. Quem quisesse histórias de amor, ia para as morceguinhas e corujinhas, quem gostasse de histórias de terror, ia ouvir os morceguinhos e mochinhos.
             Nos primeiros dias, os mochinhos e morceguinhos, ganharam, tiveram muitos animais a ouvir as histórias de terror, e as corujinhas e as morceguinhas não tiveram ninguém para as ouvir. Todos ficaram muito entusiasmados a ouvir as histórias de terror, mas nessas noites ninguém dormiu, todos tiveram pesadelos.
             Passado uns dias, já cansados de não dormir, e de ficarem com o coração a bater muito depressa com o mais pequeno barulho, ou gritar quando viam sombras, decidiram ouvir as histórias delas, e dormiram como anjos, porque eram histórias tão bonitas, que faziam sonhar e transmitiam paz.
             Algum tempo depois, cada um ia para o que gostava mais, e todos continuaram amigos como antes… cada um tem os seus gostos, e se não gostamos de histórias ou filmes de terror, não temos de as ouvir, ou ver. Há milhares de histórias que esperam por nós.

E vocês? Que histórias gostam mais? Sobre quê? Já tiveram sonhos maus depois de ouvir ou ver uma história ou filme de terror?


                                                                        FIM
                                                                     Lara Rocha 
                                                                     4/12/2018


sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A árvore Cristal

       
       Foto de Lara Rocha 

             Era uma vez uma árvore centenária, a quem chamavam Cristal. Já tinha visto crescer e envelhecer várias gerações de pessoas da mesma família, estava no meio de tantas outras, cheia de folhas com as cores do Outono: amarelas, castanhas, verdes claras, verdes escuras, vermelhas, manchadas e todas lindas.
         Uma menina que olhava pela sua janela, num dia de aguaceiros, reparou em algo muito diferente que nunca tinha visto naquela árvore de quem toda a família falava. A Cristal estava muito mais brilhante do que as outras.
       O vento soprava forte, e quando abanava as folhas, esta parecia que estava cheia de leves teias de aranha que dançavam ao vento. Foi a correr ter com a mãe à cozinha, que estava muito atarefada, pediu que visse a Cristal:
- Mamã, o que achas que tem aquela árvore?
- Qual?
- A Cristal.
- Para mim são todas as árvores iguais, que mudam as suas folhas conforme a estação do ano, e estão ali desde há dezenas ou centenas de anos.
- Está bem, eu sei isso tudo, mas a Cristal, tem... qualquer coisa que a faz brilhar muito. Acho que são teias de aranha penduradas.
- Que disparate! As aranhas não andam nas árvores. Quer dizer, podem andar, mas não fazem as teias ali.
- Porquê? Têm medo de alturas?
- É! Deve ser.
- Olha...elas a abanarem com as folhas, sempre que o vento lhes dá.
- Sim, mas duvido que sejam teias de aranha.
- Mas as teias de aranha não brilham ao sol, nem abanam com o vento?
- Sim, fazem isso tudo, mas não neste sítio.
- Porque não?
- Ai...óh filha, vai fazer outra coisa. Deixa lá a Cristal sossegada, ela não te come.
- É vaidosa?
- É.
       A menina fica amuada, a mãe volta para o seu trabalho. Não satisfeita com aquela resposta, foi perguntar ao seu pai que ralhou com ela porque também estava muito ocupado, e não podia perder tempo a olhar para árvores. Disse para perguntar à Mãe, mas isso já tinha feito. A menina, triste, foi tentar a sua sorte, e perguntar aos avós que estavam a trabalhar na horta.
- Avó, olha a Cristal está a brilhar.
- Áh. É linda.
- Porque é que ela brilha tanto? São teias de aranha penduradas nas folhas que abanam com o vento?
- Não me parece! - diz o Avô
 - Também acho que não. - Diz a Avó
- Então o que brilha?
- É um presente dos anjos! - diz o Avô com ar poético a sorrir
- A sério? Tu viste Avô?
- Vi.
- E como é que eles fizeram isto?
- Isso é segredo deles! - diz a Avó a sorrir
- Tu também viste os anjos, Avó?
- Vi.
- Áh! Que lindo! Está tão bonita esta árvore. São cristais?
- São! - Respondem os dois
- Transparentes como as lágrimas. - Diz a Avó
- Lágrimas? De quem? - pergunta a menina
- Não sei! - Dizem os Avós
- O sol beija os cristais - diz a Avó
- Beija os cristais? Então são estrelas? - deduz a menina
-É! São estrelas de dia! - Sorri o Avô
- São iguais às estrelas da noite? - pergunta a menina
- Não! Estas estrelas só se vêem de dia, e as outras só se vêem de noite.
- Também são os anjos? - pergunta a menina
- São! - respondem os dois
- E porque é que eles põem estrelas de dia e estrelas de noite?
- Para nos mostrar que estão connosco, que nos amam e protegem. - responde o Avô
- Áh! Que lindo. Obrigada, anjos. E porque é que eles não puseram cristais em todas as árvores? Ficam tão bonitas! - observa a menina
- Não devem ter que chegue. - Diz a Avó
- Ou então, puseram naquela árvore para que tu os visses, fica mesmo em frente à tua janela... - justifica o Avô
- Uau! - Sorri a menina
- Eles estão felizes! - Diz a Avó
- Como sabes?
- Porque estão a dançar nas folhas! - diz o Avô
- Áh, tu consegues vê-los?
- Consigo! E tu também estás a vê-los.
- Estou?
- Estás. Estão a cintilar...vês?
- Sim, mas eu não estou a ver anjos.
- Estás sim! Os cristais na árvore...e em tudo o que há na Natureza. São eles que estão lá. Nós é que nem nos lembramos que eles existem e que nos enchem de mimos! E nós...nem agradecemos! Mesmo assim, eles estão sempre ali, ali, aqui, acolá...em todo o lado! - diz o Avô
- É verdade! - Confirma a avó
- Os anjos não precisam de ser vistos, como os pintam, ou dizem que são! Eles são discretos. Mas fazem coisas maravilhosas. - Diz a Avó
- Pois é! Obrigada Anjos...adoro-vos.
            Caem umas pintas de chuva e aproxima-se uma nuvem negra.
- Óh, vai chover! - repara a menina
- Os anjos até na chuva estão. - Diz a Avó
           Os três entram em casa. A menina olha pela janela, e chove torrencialmente.
- Olhem... os cristais desapareceram! - repara a menina
- Os anjos foram brincar para outro lado! - diz o Avô
- E levaram os brilhantes?
- Eles voltam...
- Mamã, olha os Avós já disseram que a Cristal brilha porque estão lá anjos.
         A mãe sorri ao olhar com ternura para os pais e para a menina. Eles retribuem.
- Áh...pois... eu disse-te logo que não eram teias de aranha.
- Ai, tu também já sabias?
- Já. Mas estava tão ocupada que não me lembrei quando falaste da Cristal...não estava atenta.
- Tu também vês anjos a dançar ali na árvore?
- Vejo.
- Podias ter dito logo.
         Todos sorriem.
- Quis que tu visses primeiro. Podias não os ver.
- Há pessoas que não os vêem. - Diz a avó
- Então, eu já os vi em muitos lugares! - repara a menina
- Já.
- Vejo-os todos os dias.
- Sim! - dizem todos
- Em todas as surpresas que eles deixam em tudo o que é bonito na Natureza.
- Ora.
         O sol reabre e as árvores ao lado também ficam brilhantes.
- Olha, Avô. Voltaram!
- Sim! Estavam abrigados...
- Ou foram buscar os outros para brincar! Porque as árvores ao lado também estão brilhantes.
- É verdade! Eles gostam de brincar acompanhados.
- Obrigada, anjos...! Pela vossa presença, e pelas prendas!
- Obrigada! - dizem todos

E vocês? Já viram anjos? Onde? Em quê?

                                                                  FIM
                                                                 Lálá
                                                                (22/Nov/2018)  

sábado, 20 de outubro de 2018

os morcegos e as bruxas no parque


Era uma vez um bando de morcegos, que sobrevoaram uma aldeia onde repararam que as  casas tinham parque infantil. A morcegada pequena, como era tratada pelos adultos, fazem uma grande guincharia, com o entusiasmo por ter visto brinquedos novos.
-  Óh raia miúda, calem-se. - ordena um morcego com muita idade e gordo
- Parem lá de guinchar, ainda acordam o raio das bruxas. -  acrescenta outra morcega idosa
            As bruxas saem das árvores muito irritadas, aos gritinhos e saltinhos como os morcegos. Os morcegos quase congelam:
- Não posso acreditar... - murmura um morcego velho
- Óh não. É só falar nelas que elas aparecem! - comenta outra morcega entre dentes
- Estamos fritos! - Suspira outra morcega
- Agora vamos ter de as aturar. - resmunga outro morcego
- Malditos! - gritam as bruxas irritadas
- Isto são horas de andar a fazer barulho aqui nas nossas casas?
- Estúpidos.
- Saiam já daqui.
- Se não ainda fazemos picadinho de morcegos.
- E vocês, velhos...não sabem calar esta pardelhada?
- Desapareçam.
           Lançam raios e atiram saquinhos fedorentos, para calar os pequemos morcegos, que rapidamente se escondem nas árvores e ficam em silêncio.
- Para onde foram? - pergunta uma bruxa
- Acho que já foram embora. - responde outra bruxa
- Como é possível?
- Não quero saber onde estão, só quero é que se calem!
- O que estavam a fazer, amigas?
- Eu estava no meu banho de espuma.
- Eu estava a ver televisão, quase a dormir, não dá nada de jeito.
- Eu estava a desarrumar o meu armário...que nojo...estava tão organizadinho que não sabia de nada... já disse àquela franganita de minha empregada que não quero que me arrume os armários, mas ela é teimosa. Deve estar à espera que eu solte um raio, ou a transforme em algo.
- Vamos fazer algo mais divertido? Que tal se formos beber uns copos e dançar?
- Boa!
           Entram em casa, trocam de roupa, e de sapatos, pegam nas vassouras e encontram-se no largo. Olham umas para as outras:
- Áh! - dizem em coro
- Mas que bonitas que estão.
- Óh, tu também.
- Compraste um vestido novo?
- Não... transformei um que tinha.
- Está espetacular.
- E o teu?
- Este era da minha prima, aquela que trabalha no laboratório.
- Vamos...?
- Vamos.
           Chocam as mãos no ar, montam nas vassouras e voam juntas para a cidade onde já conhecem bares de bruxas. Os morcegos respiram de alívio, saem das árvores e os pequenos pedem aos grandes para irem para o parque infantil. Os grandes acedem aos seus pedidos, e enquanto ficam no parque, vão dar uma volta e conviver no campo ao lado, com outros velhos amigos.
           Os morceguinhos pequenos divertem-se, vão de brinquedos em brinquedo, brincam em grupo nas rodas, andam de baloiço, escorrega e mergulham no insuflável de bolas coloridas. Atiram as bolas uns para os outros, com as patinhas, rodam em cima delas, mergulham, dão cambalhotas, rondam e pousam nas luzes coloridas, fazem bailados nos tapetes sintéticos, andam nos balanços em grupos e divertem-se com muitas gargalhadas, cambalhotas, risos.
          Já madrugada alta, as bruxas regressam a casa, completamente eufóricas, a rir muito, a cantar, a andar aos esses, a cair, a dar cambalhotas no ar, a aplaudirem-se umas às outras, e a segurarem-se abraçadas umas às outras.
         Os morcegos pressentem o perigo e voam silenciosamente para o campo, escondem-se todos dentro de abóboras, e outros nos espantalhos, entre o milho alto, e nas cabanas de palha. As bruxas não os vêem, e passado um bocado entram em casa e os morcegos continuam a diversão deles.
        A madrugada aproxima-se rapidamente, e quando o dia começa a clarear, os morcegos regressam para a cidade, e para as suas tocas, depois de uma noite tão divertida, e cansativa.

                                                                        Fim
                                                                       Lálá
                                                                                                                                                          20/10/2018 

        

domingo, 14 de outubro de 2018

EU, A RITA QUE RI, E A DORA QUE CHORA (Psicólogos, estudantes de psicologia; população geral)





                Partilho o meu corpo com duas gémeas, que me transformam numa autêntica marioneta, conforme a telha! Uma chama-se Rita, a outra chama-se Dora. Vejo-as. Umas vezes nos espelhos, outras vezes fora de mim. Fisicamente são muito parecidas, mas uma tem um feitio insuportável, a Dora, a outra, é mais simpática, a Rita. Umas vezes aparece só uma, e passa muito tempo comigo, outras vezes é a outra. No início pensei que apesar de ser adulta, tinha voltado de repente a ser criança, àquela idade dos amigos imaginários, e por isso era eu a imaginar, para não me sentir sozinha. Depois achei que seria efeito secundário do stress no trabalho, por estar a fazer o que não gostava, de onde felizmente fui despedida porque disse na cara da besta do patrão umas quantas e boas que ele já estava a pedir há muito. Nesse dia senti que a Rita estava comigo, não é que ela me tenha feito rir, mas deu-me força, muito raiva, tornou-me a voz mais forte, e extrovertida! Nem parecia eu. Ela, a Rita, é mesmo assim. Quando toma conta de mim, faz-me rir, sair da casca, é super fácil atrair a atenção dos gajos, e fazer deles tudo o que eu quero…ai…adoro vê-los todos encolhidos com o medo, mas ao mesmo tempo, com vontade de me comer…! Cromos! Eu uso-os e deito-os fora, é o que eles merecem. Mas com a Rita, dá-me gozo fazer isso, parecemos duas lobas selvagens! Ao lado da Rita sinto-me linda, atraente, maravilhosa, uma felicidade que não tem explicação, mas é tão boa…só sinto quando ela está comigo. Ela não tem papas na língua, é tão engraçada (ri) fala que nunca mais acaba, mas diz coisas acertadas, tudo o que lhe vem à cabeça. Vou com ela às compras, gasto dinheiro, mas assim sinto-me preenchida. Quem é que nunca se sentiu bem a fazer compras? É terapêutico. O pior, descobri mais tarde, quando a Rita me deixou sem dinheiro para pagar as contas, e a minha família teve de suportar os gastos. Não sabia como lhes explicar, não podia dizer que foi a Rita porque não iam acreditar, só eu é que a vejo. A Rita até me desafia e incentiva a fazer coisas arriscadas, perigosas, que achava nunca ser capaz. Felizmente nunca aconteceu o pior, nem pensava nisso, e fazia-o, mas se fosse agora, talvez não o fizesse. A Rita é louca! Mas até gosto dela, farto-me de rir com ela! Até nem sei de quê, mas também não interessa. Olhamos para a cara uma da outra, e as coisas que ela diz, e partimo-nos a rir. Rir é bom! Fica tudo a olhar para nós…para mim…quando me veem a rir. Rir é bom, e eu gosto da companhia da Rita que ri. A outra gémea, a Dora, é completamente diferente: mais metida nela, tristonha, quase não fala, chora por tudo e por nada, é muito infeliz, queixinhas, está sempre com sono e outras vezes com as paranoias e aqueles pensamentos suicidas. Acha que é feia, que ninguém gosta dela, é um fracasso, não vale nada, é esquecida, vê tudo feio, tudo mau, tudo escuro, dói-lhe tudo, não quer saber de nada, não se envolve com nada, parece um esqueleto em pé. Tem uma série de ideias estranhíssimas, que quando as ouço até fico assustada. Acha sempre que ela é a pior em tudo! Desconfiada! Eu tenho pena dela porque está sempre a chorar e não consegue sair daquele estado de tristeza, como se não houvesse amanhã. A Rita nem me deixa dormir. Mas eu compreendo a Dora que tanto chora, porque às vezes também me sinto assim! E como a compreendo, choro sem fim, porque sei o que ela sente. E quando a Dora está comigo, fico como ela… sempre triste, revoltada, ansiosa, cheia de medos, pensamentos estranhos e assustadores, com vontade de acabar comigo. Às vezes quando estou com a Dora sei que não sou a única, não estou sozinha na tristeza, partilhamos uma com a outra as coisas más, e até já pensamos em conjunto num suicídio. Nunca o concretizamos porque aparece a Rita que nos faz rir. A Rita não nos compreende. Só eu e a Dora é que nos entendemos. O que eu não gosto nas duas é quando aparecem de surpresa, sem avisar, sem hora nem lugar marcado, e muitas vezes já paguei caro por isso. Porque se aparece a Rita que ri, faz-me rir com pessoas que me estão a contar tristezas. Ora, nesse momento devia aparecer a Dora que chora, tal como quando me insultam…eu pareço uma trovoada, respondo, estouro, é a Rita que me faz agir dessa forma. Diz ela que é para me defender, mas às vezes corre mal. Outras vezes, a Dora chega, e reajo com tanto choro a coisas tão estupidas e insignificantes que até é ridículo, porque a Dora que chora é mesmo assim. É muito sensível. Dizem que sou maluca. Porque devia ignorar, mas a Dora não aparece nesse momento, diz ela que é para os outros não me humilharem tanto, e para eu não ouvir e calar, coisas que magoam, como ela faz. Já lhe disse que isso não é bom! Coitada! Não consegue ser diferente. Não sei se gosto mais de uma ou da outra! São diferentes. Acho que gosto das duas, mas prefiro a Rita que ri, só que…a Dora que chora também tem coisas positivas. Antes de conhecer as duas, eu era mais do estilo da Dora, ficava muitas vezes como ela, mas depois, fiquei mais parecida com a Rita que ri…hoje, acho que sou uma mistura da Rita que ri, com a Dora que chora, tenho coisas de uma, e coisas da outra. Afinal…eu…a Rita que ri, e a Dora que chora, seremos a mesma pessoa? Ou três pessoas diferentes? Todo o ser humano tem uma Rita que ri, e uma Dora que chora!

FIM

Lara Rocha

(14/Outubro/2018)



LUCAS, O RATO COBAIA (Psicólogos; estudantes de psicologia e população geral)


LUCAS, O RATO COBAIA


Lucas olha-se ao espelho vê umas caras:

                Quem é este que está a olhar para mim? E aquelas gajas? Áh! Devem ser as que me roubaram os órgãos. Tenho de avisar a sociedade, toda a gente por quem passar que estas são um perigo, e para ninguém se deixar seduzir pela sua beleza. A humanidade corre riscos que nunca mais acabam, mas a minha missão é mesma essa, anunciar a todos para terem cuidado com estas malditas. Elas querem roubar os órgãos para sermos cobaias…como os ratos de laboratório, aliás, elas transformam-nos em ratos, fazem de nós o que querem, experiências e mais experiências, esvaziam-nos, enchem-nos de porcarias, e de medicamentos, químicos, venenos. Voltam a pôr-nos os órgãos de outro desgraçado qualquer, e esperam os resultados. Ninguém imagina que elas transformam em ratos, e depois tornam-nos outra vez humanos, mas não somos mais os mesmos! E o mais provável é que os órgãos nem sequer sejam os nossos originais como fazem comigo. Não sei o que fazem com eles. Eu não permiti que mos tirassem, muito menos que mos trocassem. Malditas! Devolvam-me os meus órgãos. Estão-se a rir? Não acho piada nenhuma, e se eu vos fizesse o mesmo? Não sei que espécie são vocês, que não vos consigo apanhar, nem tocar. Também têm poderes? Um dia qualquer espero conseguir destruir-vos. Onde estão os meus órgãos? E os órgãos de outros que vocês apanham e transformam em ratos? Depois passam a ser humanos outra vez? O que pretendem com isto? Não respondem? Que coisa estranha. E tu, aí, óh sombra? Estás a olhar para mim e a imitar-me? Que lata! Queres levar no focinho? Fora daqui! Este momento é meu. Vou sentar-me na sanita e não quero assistência. Teimosos! Saiam, ou querem levar com o fedor…? Olhem que eu cheiro muito mal, mas a culpa é vossa, que trocaram os meus intestinos. Monstros…podiam ter posto uns que me fizessem dar uns traques mais perfumados. Estes estão podres com certeza, pelo cheiro que libertam… para que estão a fazer isto comigo? Saiam! Teimosos. Estás a ouvir tudo o que eu estou a dizer não é, óh miserável aí de cima? Como é que eu não me apercebi de nada? Ainda por cima mandas assistência! Eu não sei trabalhar com estes podres que me puseste. Ainda não estão satisfeitos, até puseram um micro na sanita, deve ser para ouvir bem o motor traseiro a ronca… áh, áh, áh… nem é preciso micro…eles parecem um fórmula um no arranque! Éh, éh, éh… até deve fazer fumo! Daqui a pouco ando a fazer piões antes de eles saírem, vai ser lindo! (gargalhadas) De que é que me estou a rir, não tem piada nenhuma… até o meu riso controlam. Mas pensando na gravidade que tudo isto pode ter, não tem piada nenhuma mesmo. Que barulho foi este? Este riso não é meu. Nada do que eu tenho me pertence, nem os meus pensamentos! Entrou alguém, ouvi a porta a bater. São eles! Vêm-me tirar mais alguma coisa. Óh não! Onde me vou esconder agora? Não tenho sítio, eles descobrem-me de qualquer maneira, nem que seja na garagem. Vou lá para fora…não! Estão sempre a vigiar-me, de certeza que veem onde me escondo. Vou para o esgoto, é isso, talvez eles não entrem, e confundem-me com outros ratos. Que disparate! Eles descobrem-me. Já sei, vou atravessar o espelho, ou esconder-me debaixo do tapete…não… também me descobrem. Vou partir as camaras todas, e disfarço-me! Mas se eu partir as camaras eles arranjam maneira de pôr outras. Au…au…au… o que se passa…? Antes conseguia atravessar os espelhos e agora não consigo? Pois...claro…com os órgãos originais conseguia, agora com estes não consigo. Podiam pelo menos ter posto uns órgãos que me permitissem continuar com os meus poderosos disfarces. Aqueles malditos dos laboratórios devem ter posto um reforço ou um vidro inquebrável, ou duplo para eu não poder passar. Fazem tudo para me tramar, querem apanhar-me…não vale a pena fugir, que eles descobrem onde estou. Um dia destes acabo com a vossa raça, só não sei como. Não sinto o meu corpo. Vão trocar mais alguma coisa. Pelo menos que troquem por órgãos bons que me permitam cumprir a minha missão. Ai…que dores… ui…que cheirete… pppppfffffff…não acredito! Trocaram estes órgãos por outros ainda piores. De certeza que está infetado, ou há aqui algum vírus. O que puseram aqui? Para quê? Já tive aqui tantos órgãos. Exijo os meus órgãos…meus…já os devem ter destruído ou puseram noutro corpo qualquer. Parem de brincar comigo. O que estão a fazer aí parados? Parem de olhar para mim e devolvam-me os meus órgãos. Agora vou ter de limpara a casa de banho, a sanita e tudo com desinfetante, porque está tudo infestado de vírus, com estes órgãos…eu sei lá de quem são, se eles têm algum veneno… ou alguma coisa grave. Que raio de vírus. A sanita está repleta. Que nojo, não me sento ali. Ninguém se pode sentar ali, estou a receber um sinal de alerta de lá de cima…do meu guia…sim…é isso. Entendi. Preciso de avisar a população que todas as sanitas estão infestadas de vírus, não se sentem, caso contrário, vão ficar gravemente doentes. São vírus mortíferos, que devorarão num abrir e fechar de olhos todo o vosso corpo que desaparecerá… é muito grave! São vírus altamente contagiosos, que só eu consigo vê-los. Só eu sei que são perigosos, e por isso tenho a missão de os proteger. Vou lá abaixo gritar a toda a gente, mas preciso de voltar rapidamente cá para cima, para não ser apanhado. Não, infetado não fico, porque eu é que aviso, mas eles andam atrás de mim, a controlar todos os meus passos, a seguir-me. Mas…onde estão as minhas mãos? E as minhas pernas? Puseram-me umas pernas de mulher? Áh! Mas são jeitosas…para quê? Qual é a minha missão agora? Os meus… óh….estão aqui! Mas…não são os meus, estes são muito mais pequenos, parecem de crianças. Ainda se me tivessem posto uns grandes, maiores do que os que eu tinha…agora estes minúsculos…que vergonha. Ei, devolvam-mos…os meus grandes! A minha masculinidade…as minhas pernas. Não gosto disto! De que é que se estão a rir? Já vou! Não. Primeiro quero o meu corpo, só depois vou lá abaixo. Não posso passar a mensagem com outros órgãos, porque a outra pessoa não sabia do meu segredo, que eu tenho uma missão! Assim não vou conseguir passar a mensagem! Não vão acreditar em mim, e ainda por cima, vão chamar-me de louco. Importam-se de parar de falar por cima de mim, principalmente enquanto falo? Que mania! Detesto isso. Aliás, eu já disse para saírem daqui, estou num momento íntimo e não quero plateia. Que chatos! Vou ter de ir lá abaixo de pijama. É muito grave, muito urgente. Já fui e já voltei. Finalmente que saíram. Vou poder sentar-me na sanita e fazer o que preciso! Áh! Boa! O meu corpo voltou! Claro, também só assim é que eu conseguia transmitir o perigo! Lá este do lado a ouvir os meus pensamentos. Para que é que ele grava o que eu penso? Se calhar quer incriminar-me de coisas que não fiz, deve ser para me ameaçar, mas eu não tenho medo das ameaças dele. Um dia destes vai ver quem eu sou, e do que sou capaz. Aqueles também têm de me obedecer. Deixar o meu corpo em paz, e cumprir o que eu digo, porque sou um recetor de mensagens superiores, para salvar a humanidade. Ainda bem que limparam esta sanita, mas será que já limparam as outras? Espero que sim, senão vai ser uma desgraça. Pois! A campainha…são eles! Não vou lá. Já sei o que querem. Não. Não me posso expor assim tanto. Não. Não vou! Agora o telefone… não vou atender. Vão gravar a chamada, e tudo o que eu disser vai ser usado por alguém que se vai fazer por mim, ou que fez alguma, e quer incriminar-me. Suspeito que seja aquele do primeiro andar, que não me suporta, que se rói todo por eu ter poderes, e que quer ser como eu, mas não consegue. De certeza que faz isso por mal. Para ver se me apanha qualquer coisa e dizer que sou louco, nem que seja uma palavra para me tramar ao telefone, e transformar noutras palavras que eu não disse. Esta gentalha sabe-a toda. Mas não é só ele. Este prédio todo, em todas as ruas e lojas, todos me conhecem, e há gente por todo o lado que me controla, controlam tudo o que eu faço, escrevem todas as voltas e compras que eu dou, falam de mim, seguem-me, e depois, vão para outro lado para o disfarce. Sei muito bem qual é o jogo deles. Qualquer dia vou perder a cabeça e andar ao estalo! Ei…o que está a acontecer com o meu corpo? Quem é que está sentado aqui na sanita no meu lugar? Já estão a mexer outra vez no meu corpo. Fantástico…cravam-me aqui uma garra na testa, e não senti nada, mas ela está aqui. Eu sinto-a, e vejo-a no espelho. Como é que fizeram isto? Áh! Acho que foi com laiser, porque está a fumegar. Não sinto quente. Para que é que me puseram isto aqui? É que a pele não está rasgada, nem nada! Eu não quero esta garra aqui, vou assustar toda a gente. Não. Não posso aceitar este. As minhas mãos…ei…esta cara não é a minha…que cara tão feia… que mãos horríveis? De quem é isto? Não é meu. E os meus pés a ondular? Parece que tem escamas. Parem de transformar o meu corpo. Que chatos! Tantos corpos e só vem mexer com o meu. Au! Agora vem de chicote. Já estou a perder a paciência. Eu quero o meu corpo! O meu…o melhor de todos, e não quero mais nenhum. Sou mensageiro, mas posso transmitir as mensagens com o meu corpo, não preciso de ter nenhum horrível. (desata a correr e a gritar) Fujam todos…socorro…estou a ser perseguido! Saiam. Não me agarrem, não me agarrem… ááááááhhhhhhh… parem! não quero ir convosco. Não quero nada convosco. De que é que se estão a rir? Ajudem-me! Eu sou um mensageiro…por favor…ajudem-me! Calem-se! Estou a ficar irritado. Larguem-me. (faz movimentos com o corpo como se estivesse a ser agredido, agarrado e a tentar libertar-se, mas não está ninguém ao lado dele, nem atrás). Eu não quero! Larguem-me. Salvem-me em vez de estarem a olhar para mim. Ai apontam-me dedos? De que se riem? Se tivessem monstros e bruxas a agarrar-vos, e a tirar-vos pedaços do corpo, eu a olhar…iam gostar muito não iam? Falsos! Parem…vou chamar a polícia! Não. Não é preciso chamar a polícia…eu tenho superpoderes para me libertar! (faz movimentos violentos com o corpo, como se estivesse a sacudir para se libertar) Áh! Eu disse! Mas quem é que manda? Podem prender-me durante algum tempo, mas depois sou eu que ganho! Pensavam que podiam…eu deixei-vos ganhar. Fingi-me de vítima, de fraco, vocês tem as vossas estratégias e eu tenho as minhas.  (Volta para casa exausto, deita-se no sofá e ouve uma série de vozes com dedos apontados para ele, a rir-se, caras deformadas, insultos, gargalhadas). Quem são vocês? Vieram lá de baixo? Como é que entraram aqui na minha casa? Já sei, foi a minha pseudo família, a que me expulsou de casa, por eu os ter salvo dos terríveis androides que vinham busca-los. Disseram que eu estava louco. Eu só cumpri a minha missão de mensageiro, salvador e protetor da humanidade! Rua! Não vos chamei. Traidores! Calem-se! (Começa aos gritos e aos murros, danificando os móveis e até magoando-se). Tentam derrubar-me, mas eu posso mais! Sou eu que vos derrubo! Saiam. Não gosto de vocês. Rua! Vou esganar o porteiro, ou a besta do vizinho que vos deixou entrar! Ora! Onde já se viu…não me dão sossego! Agora vem os meus anjos! Que mensagem me trazem? Está bem! Primeiro vou descansar, e depois aviso! Mas vou a tempo se descansar? Está bem! Uma chuvada de… Hummm…pintarolas…? Não, não são! São…confetis? Áhhhh… esta gentalha toda vai dar aqui uma festa? Na minha casa? Na, na, ri, na, na… escorraçam-me logo! Na…nem pensar! Uau! Que luzes lindas… afinal acho que podem ficar, desde que não me deitem a casa abaixo! Também posso participar? Áh! Acho bem! Sou o melhor dançarino, querem ver? Uau. Que loucura! Calma, meninas. Eu chego para todas. Sou eu que vou escolher quem vai dançar primeiro comigo. Tanta gaja boa… Hummm…que decisão difícil. Sou o maior. Eu já venho! (deita-se no sofá e adormece)

Lara Rocha

(14/Outubro/2018)