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segunda-feira, 20 de maio de 2019

O sol que nasceu por trás da flor

           

            












            





foto de Lara Rocha 


            Era uma vez uma fada bebé, que foi deixada pela mãe atrás de uma flor enorme, dentro de um ovo de cristal, ainda fechado, enquanto a sua mãe foi trabalhar com as outras fadas. Ainda era cedo para a bebé nascer, acreditava a mãe, embora a pequena já fosse comprida, por isso, confiou e deixou-a debaixo da flor, um lugar seguro e quente.

- Olá, boa noite, amiga. Posso deixar a minha princesinha enquanto vou trabalhar? - pergunta a fada

- Óh, boa noite! Claro que sim, com muito gosto. - responde a flor

- Ela ainda não vai nascer já, por isso, é só para deitares uma petalazinha de vez em quando. - responde a fada muito segura

- Vai descansada, querida amiga! Sabes que comigo ela está bem entregue e bem cuidada.

- Sim, eu sei que sim.

- Ela está sossegada como a noite! Que linda. - sorri a flor

- Até daqui a pouco… - diz a fada

- Até já. Boa noite de trabalho!

- Obrigada. Isso é o que não falta.

- Felizmente!

             As duas riem.

- Claro. Mas com uma pequena… é difícil. - suspira a fada

- Pois. Mas está tudo bem! Está quase.

           A mãe sabia que a bebé estava bem entregue. A flor gostava muito de tomar conta de ovos e de bebés, por isso, tudo estava sossegado, tal como a noite, quente, cheia de estrelas e uma lua enorme, cheia, linda.
           O silêncio da noite, foi interrompido de manhã, por uma grande festa. Com o nascer do Sol, a bebé fada fica muito agitada, dá murros, pontapés e cambalhotas dentro do ovo, e este começa a estalar por todo o lado, até que parte.
          A flor, como já tinha muita experiência de vida, primeiro ficou assustada, mas logo se lembrou que tinha diante de si uma bebé fada, dentro de um ovo. Aquela agitação toda, era o nascimento da fadinha, que aconteceu ao mesmo tempo do sol a nascer.
         Tal como o sol foi crescendo e aparecendo por trás da flor, a bebé fada partia mais o ovo, e começava a ficar com o seu corpo à mostra. A flor sorria, esperava pacientemente, e olhava deliciada.

- Vamos, pequenota…- dizia a flor

         Quando o sol estava já estava completo e bem iluminado, chega a mãe fada, e apanha um grande susto.

- Parabéns, mamã… a tua pequena não quis ficar mais lá dentro. Nasceu com o nascer do Sol!

- Áh! Mas ainda faltava tanto!

- Deixa lá isso. O que interessa é que ela está aqui, linda, perfeita. Olha que maravilha!

         A mãe fada, recomposta do susto, pega carinhosamente na filha, sorri, beija-a, abraça-a, a bebé sorri.

- Óh, Fadas, todas poderosas. Muito obrigada! - Diz a mãe fada

- É maravilhosa! - suspira e sorri a flor

- Como nasceste com o sol...vou chamá-la de Sol. O que te parece, amiga?

- Óh… (sorri) perfeito! Faz todo o sentido, o nome encaixa na perfeição.

- Aceitas ser a madrinha dela? - convida a fada

- Mas, mas…eu…

- Vá lá…! É uma escolha que faço com todo o meu coração, amizade e sinceridade!

- Bem…(sorri) estou sem palavras. Se é assim… aceito!

         As duas abraçam-se a sorrir, beijam a pequena fadinha, e trocam carinhos. A bebé anda de colo em colo, todas a abraçam e fazem uma festa de boas-vindas. O ovo é guardado numa gruta onde estão muitos outros milhares de ovos, porque conforme uma lei daquele reino, guardar os ovos dava saúde, felicidade e sorte!
                                                                       
                                                                      FIM
                                                                      Lálá
                                                              (20/Maio/2019)



         

         
             

terça-feira, 14 de maio de 2019

Se eu fosse um pedaço de Lua


foto de Lara Rocha 


Se eu fosse um pedaço de Lua..
Ia descalça pelas ruas, com a minha enorme capa de brilhantes. 
Passava por pontes, onde me espreguiçava e esticava.
Deslizava, rodopiava e dançava nas águas das fontes.
Ia pelos campos e espalhava lantejolas da minha capa para chamar as fadas e os seres da Natureza. 
Ficava sentada na relva fofa a apreciar, a sentir e a falar com as cigarras, os grilos, os mochos e as corujas que me cantavam e embalavam com as suas canções. 
Se eu fosse um pedaço de Lua, 
Passeava com os meus pezinhos de luz, pela neve 
Brincava com focas, 
Entrava em tocas, 
Saía em grutas. 
Enfeitava-me com pedras e cristais, 
Saltitava de nenúfar em nenúfar, 
Cheirava todas as flores, 
A maresia,
A terra. 
Mexia na terra, na areia, 
Tocava nas folhas, nos troncos, nos ramos, nos galhos e nos botões de flores.
Acariciava a maciez das pétalas, e as penas dos mochas, das corujas e dos pássaros. 
Se eu fosse um pedaço de Lua, 
Subia montanhas para ver o sol nascer, 
Dormia na praia para ver o entardecer e o anoitecer, 
Rebolava na areia, apertava, largava, deixa-a passar sem pressa e com carinho pelos meus dedos das mãos, e depois pelos pés, pernas, braços...
E no fim, juntava-me à outra metade da Lua, que me esperava.
Dávamos as mãos, envolvíamo-nos num abraço sincero e carinhos,
Até ficar Lua Cheia! 


E vocês, leitores? O que fariam se fossem um pedaço de Lua?
(Podem escrever as vossas respostas, aqui no blog)


                                                     FIM
                                                     Lálá
                                                     14/Maio/2019


                 

sexta-feira, 3 de maio de 2019

As velas

           


             Era uma vez uma caixa de velas, levada por uma menina que queria acendê-las pela paz e como agradecimento aos Anjos pelos Pais que tinha, pela boa saúde, pela comida e pela casa. Quando tentou acendê-las com um isqueiro, elas não acenderam. Tentou com fósforos, elas tossiram e não acenderam. Tentou acendê-las na boca do fogão, e elas acenderam uma chama fininha e pequenina. A menina sorri, põe-nas em cima da mesa, fecha os olhos a sorrir e reza. Quando abre os olhos, as velas estão apagadas e sem cera. A menina fica muito surpresa.
- Estas velas não prestam! E agora como vou rezar? Mãe…- Resmunga e chama a menina a gritar
- O que foi, filha?
- Comprei estas velas que a Dona Gazela me indicou, queria rezar, acendi de várias maneiras, só consegui na última, no bico do fogão. Mostraram uma chama muito pequenina e fininha. Quando fechei os olhos e abri, estavam apagadas.
- Não te preocupes, o teu pedido chega lá na mesma.
- Não era um pedido, era um agradecimento.
- Muito bem, seja o que for, chega lá.
- Como é que chega lá sem velas?
- Claro que chega lá sem velas. O que interessa é a tua intenção e a sinceridade com que rezas.
- Áh!
- É. Deixa as velas para quando não houver luz.
- Mas como é que eu sei que eles nos ouvem?
- Claro que ouvem! Também sabes que eles existem, e nunca os viste, certo?
- Certo.
- Com as orações é o mesmo.
- Áh! Pensei que as velas é que faziam chegar mais depressa ou com mais força a oração.
- Não.
- E agora o que faço?
- Metemos ali as velas, para quando for preciso. Pode ser por estar frio e elas não acendem.
- Elas também têm frio?
- Sim.
- Como é que sabes?
- Sei. Elas também são natureza como nós. Reza na mesma, sem velas.
- Está bem.
          E a menina agradece aos Anjos sem velas, explicando-lhes porque é que não tinha velas acesas. Sai da cozinha e deixa as velas. As velas conversam entre si:
- Ufa! Que gelo.
- Está mesmo.
- Também sentem frio?
- Claro!
- Ei, esperem aí...estamos num sítio diferente.
- Pois estamos. Não ouviste a conversa da rapariga?
- Ela queria ver-nos acesas!
          Começam todas a rir
- Para rezar…
          Todas riem
- Santa inocência.
          Riem alto
- Estes humanos são mesmo bichos estranhos.
- Acho que precisam de um bocadinho de fogo…!
- É!
- Até eu não me importava de ter um foguinho perto de mim.
          Riem
- Pois, um foguinho em cima de ti...queres tu dizer.
- Ai, que maliciosa…
           Gargalhadas
- Brincalhonas. Era só para aquecer um bocadinho o ambiente.
           Todas riem
- Por falar em gelo...Andam muito gelados.
- Quem? Nós, ou eles?
- Eles!
- E nós por arrasto.
- Pois, é por isso que nós também não conseguimos acender.
- Claro!
- Ei...está-me a cheirar a fumo!
- A mim também.
- Malta...acho que fui eu, desculpem.
           Gargalhadas.
- Pelo menos quebraste um pouco este gelo à nossa volta.
           Riem outra vez.
- Será que alguma de nós consegue dar um bocadinho de calor?
- Podemos tentar.
- E como fazemos isso?
- Encostamo-nos.
- Mas já estamos encostadas e não acendemos.
- Acho que estamos congeladas.
- E se dermos as mãos?
- Boa.
           As velas dão as mãos.
- Vamos pensar na nossa amizade, para ver se acendemos.
           As velas pensam na amizade entre elas, e acendem uma gigantesca chama. Ficam surpresas e sorriem.
- Resultou.
- Áh que bom!
- É porque a nossa amizade é mesmo sincera.
- Claro.
- Alguma tinha dúvidas disso?
- Não!
- Áh!
- Que quentinho delicioso.
- Mas esperem… porque é que não acendemos com a rapariga?
            Ficam em silêncio, pensativas.
- Se calhar é por ela não ser nossa amiga.
- Ou talvez pelo gelo que há entre as pessoas como ela.
- E há assim tanto gelo entre as pessoas como ela?
- Ouvi dizer que sim.
- Devia ser por isso que estávamos congeladas.
- Se calhar a oração da menina não era sincera.
- Pareceu-me sincera.
- Mas ela chamou-nos porcaria.
- Óh, isso não é para levar a sério. Já sabem que esta gente das cidades é assim.
- Acham que devíamos acender outra vez, para a menina?
- Acho que ela não nos vai tocar mais.
- Porque não?
- Acho que ficou muito zangada.
- Por isso é que não acendemos.
- Áh! Claro. - dizem todas
            Elas continuam a conversar, até que quando já estão quentes, apagam-se. Durante muitos dias, a menina rezava sem acender as velas. Um dia acendeu e elas iluminaram os lindos olhos da menina.
- Podemos ficar acesas.
- Ela é sincera.
           Dizem umas às outras. A menina abre um grande sorriso e faz a sua oração. No fim, canta. Elas ficam encantadas com a voz da menina, e aumentam a sua chama.
- Obrigada. - Diz a menina às velas
           Sopra-lhes:
- Até amanhã.
           As velas apagam-se. No dia seguinte, a menina volta a acender as velas. Mas de repente, um vento cortante, regelado, entra pela frincha da janela, sopra forte, abre a janela com força e congela as velas. Elas ficam cobertas de neve, tal como toda a cidade. A menina grita assustada, fecha a janela, tenta acender as velas, mas elas não acendem.
- Maldito vento! E agora?
           A menina mete os pés das velas em água quente, e cai o gelo, mas como estão molhadas não acendem. Ela deixa-as secar, cobrindo-as, enroladas numa manta fofa que usa para se deitar no sofá. No dia a seguir acordam a tremer de frio. A menina vai vê-las, elas aquecem, e voltam a acender. Eram umas velas muito sensíveis, como a menina. E assim surgiu uma troca de amizade entre as velas e a menina, que as levou para o seu quarto, e que as acendia sempre que queria rezar ou agradecer.

                                                                 FIM
                                                                 Lálá
                                                            3/Maio/2019
                       



         

segunda-feira, 22 de abril de 2019

A amizade entre as gotinhas de água e a aranha

       

Era uma vez uma aranha que vivia num país muito quente, poluído, onde já não chovia há muitos anos. Os habitantes e os animais que lá viviam já estavam habituados ao calor. Mas ultimamente estava a ser demasiado, o calor, e a secura.
         Uma aranha passeava pela areia quente, sem pressa, e aos saltinhos pequeninos para não sentir tanto o quente, procurava desesperadamente uma sombra, era quase um oásis encontrar alguma. Para não ficar ao sol, ela andava mais rápido, e finalmente encontrou uma palmeira com grandes folhas.    Trepou rapidamente pelo tronco e chegou à primeira folha, dobrada, macia.

- Áh! Que bela sombra! - Suspira a aranha - Encontrei o paraíso. Como é possível este forno, quase ficava esturricada. Que sufoco...aqui está fresquinho. Áh! Que bom. Só falta água para ser perfeito. Quando irá acontecer? Aiiii...

        Umas gotas de água ouviram o seu desejo e ficaram com pena dela. Decidiram cair da atmosfera e pousaram em cima da teia. A aranha tece uma teia em cima da folha, muito vagarosamente, mas o efeito final parece uma colcha rendilhada. Finalmente repousa num cantinho da sua teia. Adormece, e sonha com muita água, que havia água por todo o lado, e ela nadava feliz, saboreava a frescura da água, e refrescava-se.
       As gotinhas já lá estão a brincar e a saltar na teia, quando a aranha acorda a sorrir. Teve de olhar várias vezes para as gotinhas, pois pensava que ainda estava a sonhar.

- Água...? Ááááááhhhhh.... Sim, quero água! Quero tanto água que até sonho com ela. Acho que ainda estou a sonhar, e a vê-las aqui. Mas com este calor é impossível haver água. Ai, que sede! Água... por favor, onde há água? Água!

- Coitadinha, está a delirar com o calor. - diz uma gotinha

- Olá! - dizem as gotinhas em coro

- Água...- diz a aranha

- Estamos aqui. - Respondem as gotinhas

         Sacodem-se e molham a aranha, outras gotas contorcem-se por cima da aranha e dão-lhe um belo jato de água. A Aranha suspira feliz, ri.

- É real ou estou a sonhar?

- É real.

- Água? Isto é água? Áááááááhhhhhh... Á-g-u-a...Água! Sim, é agua! - Salta a aranha feliz - molhem-me mais, por favor.

         As gotas juntam-se, entrelaçam-se, abraçam-se, e enchem um buraco no tronco da palmeira com água. Depois enchem outro buraco ainda maior com água para ela beber. A aranha sorri, saltita feliz, toda brilhante.

- Áh! Água... Muito obrigada. Quero beber mais água...

         Abre a boca, e as gotinhas deitam mais água na teia para a aranha se molhar e beber sempre que sentisse sede. As gotinhas riem ao ver a enorme felicidade da aranha.

- Quando precisares de água, chama-nos. - Diz outra gotinha

- Muito obrigada!

         As gotinhas voltam para a sua casa, e a aranha sente-se tão feliz, mas tão feliz que fica mergulhada na água que as gotinhas deixaram no tronco. Mas, começou a pensar:

- Eu estou aqui agora, rodeada de água, que maravilha! Mas...e os humanos, será que também não precisam de água? Eu até lhes dava alguma, mas não quero saber, também não gostam de mim, nem da minha família. Que se arranjem! Espera...e se eu lhes der água, será que eles me aceitam melhor e começam a gostar mais de mim? Hum, acho que não. Eles são muito nojentos. Tratam-nos muito mal, não merecem! Não. Esta água é toda para mim. Óh…mas...e se há bebés? E outros animais? Todos precisamos de água! Mas não quero saber.
       
         Enquanto a aranha refletia, dividida entre a bondade e a vontade de ignorar quem não gosta dela, começa a chover torrencialmente. Ela dá um grito, e muito assustada corre para uma toca onde estavam morcegos a dormir. Ela nem reparou.
         Choveu durante horas e horas seguidas, as pessoas da terra ficaram tão felizes, queriam tanto água, e precisavam mesmo, que dançaram, apanharam chuva, cantaram, encheram baldes, atiraram-se para as piscinas, porque estava calor.
         A chuva foi tanta que encheu barragens completamente vazias. Felizmente voltou a haver muita água nas torneiras, criaram ilhas naturais no meio de areias, encheu tanques, fez crescer vegetais, e voltou a haver água que se farta, o que foi ótimo para a alimentação dos animais.
        A teia da aranha ficou cheia de gotinhas saltitantes, que se desprendiam com o vento, que as sacudia. Umas conseguiam agarrar-se à teia, outras caíam. A aranha ficou deliciada a ouvir o barulho da chuva a cantar em tudo o que batia. Ela saiu da toca e foi brincar com as gotinhas. Por isso, além de água, a aranha ganhou novas amigas que adoravam saltar na sua teia, e elas, em troca para agradecer, matavam-lhe a sede, e refrescavam-na. A aranha e as gotinhas tinham longas conversas, riam e brincavam muito umas com as outras. Sempre que estava tudo demasiado seco, as simpáticas gotinhas levavam as famílias e as amigas para inundar tudo outra vez.
         E assim cresceu uma linda amizade entre as gotinhas e a aranha.

                                                                            FIM
                                                                            Lala
                                                                      22/Abril/2019
                                                                     
                                                               
 

segunda-feira, 4 de março de 2019

A lição do lixo à volta das escamas

           


Era uma vez um ouriço-do-mar que fugiu do oceano onde vivia com a sua família, de muito longe por causa da poluição. Percorreram longos quilómetros à procura de uma casa onde não houvesse lixo. Estava difícil de encontrar, mas finalmente, passaram por uma montanha aquática onde a água era transparente, morna e bem salgada como eles gostavam! Cheirava bem a algas.
           Estavam muito cansados, por isso instalaram-se no primeiro sítio que viram, e caíram num sono como já não se lembravam de ter. Tudo parecia calmo, outros animais que passavam, olhavam para eles, mas não lhes tocavam.
          Mas um acontecimento inesperado, despertou-os de repente, e assustou-os muito. Um violento tremor de terra! Instalou-se a agitação e o terror debaixo de água. Não sabiam bem o que estava a acontecer, mesmo assim, viam todos a correr de um lado para o outro, e um peixinho gritou-lhes:

- Saiam daí. Estão num sítio muito perigoso.

- O que é que está a acontecer, pergunta um ouriço-do-mar.

- Não temos tempo de explicar, agora. Venham atrás de nós! Rápido.

           Os ouriços-do-mar seguem-nos, assustados. Levanta-se um monte de areia que se move a uma velocidade arrepiante, e corre debaixo da água, formam-se centenas de bolhas de água que sobem em redemoinho para a superfície, e quase arrasta tudo o que é animal, mas eles já sabem que quando isso acontece, juntam-se e escondem-se num abrigo que construíram no casco de um navio afundado há muitos anos.
           O caos vai para a superfície, e as água nas profundezas acalmam. Todos respiram de alívio.

- Passou! - suspiram todos

           Um peixe matreiro, muito bonito, mas perigoso, grita:

- Intrusos!

           Estava a falar dos ouriços-do-mar. Como eram todos muito unidos, e todos obedeciam às ordens desse peixe, porque tinham medo dele, o que ele dissesse, tinham de fazer, se não, eram castigados.  Na verdade não gostavam de muitas coisas que ele fazia ou dizia, mas ninguém tinha coragem de o desafiar.

- Óh, não...nós viemos na paz, à procura de um lugar para viver, porque o nosso estava cheio de lixo! Quase não conseguíamos respirar! - explica um deles

- Eu não perguntei nada! - exclama o peixe arrogante

- Ele odeia perguntas... - diz outro peixe 

- Fora daqui. - Grita o peixe

- Mas nós... - tenta outro ouriço-do-mar

- Não quero saber de explicações! Fora... - Grita o peixe

           Os ouriços-do-mar afastam-se tristes. O peixe malvado vai passear todo emperuado e de repente algo se enrola nas suas barbatanas. Não consegue nadar, nem sair do mesmo sítio, e quanto mais tenta libertar-se, mais atado fica.
           Os ouriços-do-mar vêem a aflição do peixe, vão ter com ele, e ele escorraça-os, grita com eles, chama-lhes nomes feios, mas eles não se deixam intimidar.

- Vão-se embora...eu não vos quero aqui. - Grita o peixe 

- Para de te mexer e de gritar! - recomenda um ouriço

- Olha que porcaria que ele tem aqui à volta...

- Como vamos tirar daqui isto?

          Os ouriços-do-mar agem rapidamente, juntam-se e quando encontram uma possível saída do lixo, uns puxam dum lado, outros doutro, cortam com os seus picos partes dos fios, passa um peixe espada e ajuda a cortar os fios, e aos bocadinhos vão libertando o peixe.
          No fim estavam todos completamente exaustos. Respiram fundo, e caem na areia lentamente.Os ouriços agradecem ao peixe espada. O peixe está ofegante e muito nervoso, mas ao mesmo tempo envergonhado, por isso, depois de estar um pouco em silêncio, começa a soluçar e a chorar. Os ouriços-do-mar aproximam-se, olham-no, a medo, recuam.

- Estás bem? - pergunta um ouriço

- Ele odeia perguntas, lembras-te? - relembra o ouriço  

- Vamos... - diz um ouriço com medo

- Óh... esperem! - Diz o peixe a chorar

           Eles param, e olham para o peixe

- Estou muito envergonhado! Desculpem... muito obrigado por me terem tirado aquela porcaria! Ai, quase me acontecia alguma coisa má! Não sei de onde veio aquilo.

- Nós tínhamos toneladas...talvez... dessa porcaria na nossa zona!

- E o que é?

- É lixo... coisas que os humanos já não precisam...

- É que... não devem ter onde pôr.

- Parece que é o que dizem!

- Malditos! - Grita o peixe zangado

- Nós? - perguntam os ouriços assustados

- Não! Aqueles...

- Áh, sim! Tens razão...

- Eu fui muito bruto convosco. Escorracei-vos e vocês ainda me libertaram do lixo! Desculpem.

- Na hora de precisar...

- Pois, eu sei! Não merecia.

- Não foi isso que quisemos dizer!

- Na hora de alguém precisar não pensamos muito. Respondemos!

- Mas eu fui tão estúpido, que vocês deviam deixar-me ali enrolado naquela coisa.

- Porquê?

- Isso ia tirar-te a brutidade?

- Tu realmente não és nada simpático, és arrogante e bruto, mas talvez também tenhas as tuas razões para ser assim!

- Sim, têm razão!

- Toda a gente tem medo de ti.

- Medo de mim? Acham?

- Claro que sim!

- Óh, também não queria isso... é que eu acho que se não for mau, ninguém vai gostar de mim.

- Que disparate!

- Acham?

- Claro. Eles e toda a gente gostam de amigos bons.

- Que vergonha... sou um monstro!

- Não... és bonito, mas podes ser mais suave a falar como os outros.

- Como?

- Queres aprender?

- Quero! É uma forma de vos pedir perdão, e de agradecer!

- Podemos ficar?

- Claro que sim! Por favor!

             Os ouriços-do-mar dão umas verdadeiras aulas ao peixe, de como ser amigo e generoso com os outros, para gostarem dele, sem ser mau. Mas que grande mudança. O peixe mau passou a ser  um verdadeiro doce, cavalheiro, colaborador, educado, delicado, sedutor, brincalhão, divertido... e todos os outros que o rodeavam repararam. Elogiaram-no, chamavam-no sempre que precisavam, ele fazia convívios e divertia-se muito!
            Deixou de ser um chefe mau, e tornou-se no que sempre tinha sido: um peixe amigo, como os outros, que precisava dos outros, e que ajudava quem precisava. Desde esse dia, aquele lugar subaquático nunca mais foi o mesmo. Ao primeiro sinal de lixo, instalava-se a confusão, juntavam-se todos, e devolviam o lixo à superfície, na tentativa que os humanos deixassem de fazer lixo nas praias.

Acham que seria uma boa solução para resolver o problema dos lixos nas praias e nos mares?
               
                                                                         FIM
                                                                         Lálá
                                                                     4/Março/2019 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O sonho mágico do rapaz mágico

           Era uma vez um jovem rapaz, bonito, elegante, que tinha nascido com um dom de fazer magia. Simpático, brincalhão, não falava por palavras mas tinha um coração bom e era tão expressivo, que através da mímica e do olhar, transmitia luz a quem o via. Às vezes aparecia com a cara pintada, outras vezes, não.  Queria distribuir alegria por todo o lado e o que gostava mais era de ver a expressão de surpresa e sorrisos de quem o via. Para isso, oferecia pequenas lembranças e conseguia que sorrissem.
           Passou por uma menina que ficou a olhar para ele, muito séria. Ele olhou para ela, sorriu, tirou o chapéu, ajoelhou-se e ofereceu uma flor maravilhosa, com pétalas brilhantes. Ele beijou delicadamente a flor, estendeu a mão para a menina, ofereceu-lhe a flor. A menina encantou-se com ele, abriu um lindo e aberto sorriso, agradeceu, e o rapaz levantou-se, feliz, com um sorriso de orelha a orelha, saltitou e soprou pequenas luzinhas em forma de pó. 
            Mais à frente, viu uma criança a chorar. Quando a criança o viu parou de chorar, olhou-o, o mágico sacudiu o chapéu e de lá saltou um balão em forma de lua cheia. O menino riu, e o rapaz sorriu. A mãe do bebé quase resmungou, mas quando viu o rapaz, ficou calada. O rapaz roda o chapéu no ar, e tira uma estrela que dava gargalhadas, tão engraçadas que a mãe do pequeno riu como já não acontecia há muito tempo. O seu filho até ficou surpreso e riu também. 
             Depois, passou por um homem que dormia debaixo de um banco de jardim, aquecido pelo candeeiro. O rapaz sentiu pena dele, e enquanto dormia, num toque mágico construiu-lhe uma casa pequena, mas toda mobilada, com alimentos, água e roupas. O homem acordou assustado, quase o agredia, mas o mágico indicou-lhe a casa. O senhor ficou tão emocionado que lhe pediu desculpa e entrou na sua nova casa. Nem queria acreditar no que estava a ver. O senhor nunca mais dormiu na rua. 
             Num hospital, o rapaz mesmo com muita vontade de chorar, sorria para todos, e oferecia do seu chapéu: bonecos, flores, brinquedos com música, luzinhas, borboletas que davam beijinhos, e com isso, conseguiu curar muitos doentes.
             A sua mãe vai ao quarto, e acorda-o: 
- Filho...está na hora de ires para a escola. 
- Mãe… eu quero ser mágico. 
- Sim, sim. A tua magia agora é estudares. 
- Mas, mãe…é a minha missão. Eu sonhei com isso! 
- A tua missão é estudares, para seres alguém. 
- Mas eu quero ser alguém...quero ser mágico. 
- Cala-te! Eu dou-te a magia. Magia é alguma profissão? Magia dá valor a alguém? Francamente. Não me voltes a falar nisso. 
- Claro que é uma profissão. Claro que faz de mim alguém...posso fazer bem a muita gente. 
- Esquece lá a magia e despacha-te! E ai de ti, que os professores digam que estás distraído. 
             O rapaz levanta-se, zangado. Arranja-se para ir para a escola, toma o pequeno almoço, sopra a mão e deixa uma flor para a mãe em cima da mesa. A mãe fica surpresa.
- Até logo, mamã. Amo-te. Ainda vais ter orgulho no teu filho. E na magia! 
             A mãe quase ralha com ele, porque não gosta que ele seja mágico, não quer reconhecer que o filho tem esse dom, e acha que é tudo um disparate da cabeça dele. Ele podia não ter o chapéu de mágico, e claro, todas as magias que ele sonhou, não se realizaram, mas...fazia magia de outra maneira! Com a sua simpatia, delicadeza, educação, sensibilidade, meiguice e amizade. A verdadeira magia deste rapaz estava na sua bondade. No que ele fazia despertar nos outros. Todos gostavam dele. Uns anos mais tarde, tirou um curso de magia, e outro curso para trabalhar como enfermeiro. Era feliz, e continuou a fazer grandes magias por ser como era. 

                                                                                     FIM 
                                                                                     Lálá 
                                                                              16/Janeiro/2019 
              

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Histórias de amor, ou histórias de terror?

         Era uma vez uma árvore onde viviam muitos morcegos, corujas, e mochos. Um morcego tinha muita imaginação e adorava ler. Devorava livros e mais livros. 
        Gostava tanto de histórias que quando as lia parecia que as vivia. Tanto, que falava sozinho, ele dizia que estava a falar com as personagens, mas ninguém, a não ser ele as via.                 Gritava, insultava, agitava-se, às vezes até se atirava de repente e caia no chão. Todos ficavam assustados, até que se habituaram aos seus repentes, e riam com ele.
             Embora lesse um pouco de tudo, o que gostava mesmo era de histórias tenebrosas, assustadoras, de terror, aquelas que assustam e ao mesmo tempo muitos gostam de ouvir. Não entendiam como não tinha pesadelos de noite, com tanta história de terror, mas não tinha, e adorava contá-las aos outros pequenos, o que passou a ser um grande problema, porque tinham pesadelos.
            Uma noite, as corujinhas pequenas quiseram juntar-se ao grupo, e ouvir as histórias. Quando perceberam que eram de terror, viraram costas e foram ler outras histórias, as delas, mais românticas, de temas que as meninas gostam. Nessa noite, mesmo não ouvindo as histórias de terror, elas tiveram pesadelos, talvez porque ouviram os mochos a gritar e a rir.
            Os mochinhos eram teimosos, ouviam as histórias, e claro, de noite tinham um sono muito agitado, mexiam-se, gritavam, caiam abaixo da árvore. Os pais dormiam como se nada fosse, as morceguinhas e as corujinhas acendiam as luzes e tentavam acalmá-los.

- Olhem, meninas, os valentões acordaram assustados! - diz uma morceguinha irónica
 (Todas riem)

- Coitadinhos… - dizem todas a rir

- Vão ouvir mais histórias de terror, vão…! - recomenda uma corujinha a rir de fininho

- Que palermas! - comenta outra morcega

- A culpa é do teu irmão. - Resmunga um morcego que acordou estremunhado

- Essa agora…? Porquê?

- Porque ele é que nos lê essas histórias.

- Se não gostam, porque as ouvem?

- Porque ele é nosso amigo!

- Lá porque é amigo, não têm de gostar das mesmas coisas que ele! - diz a irmã do morcego

- Pois. - Concordam todas

- Nós não temos medo! - afirma convicto um mochinho que ainda está a tremer do pesadelo

- Naaaaaa... - exclamam todas a rir

- Então porque é que estás a tremer, e acordaste aos gritos?

- Eu…? A tremer, e aos gritos…? Tu é que deves ter tido um pesadelo… - diz o morcego que parecia uma vara verde, armado em forte. Elas riem

Uma morcega dá um espirro. Os mochinhos e os morceguinhos escondem-se assustados. As meninas riem

- Até um espirro lhes mete medo, quanto mais, uma história de terror.

- Pois é.

- Acham que são muito corajosos…

- Eu não gosto nada dessas histórias.

- Nem eu!

- É por isso que quando as oiço, mesmo não estando muito atenta, estes palermas a gritar, assusto-me, tenho sonhos maus.

- Eu também.

- Nós sabemos que aquilo não é real, mas não sei porquê...mete medo.

- Pois é.

- Não temos que gostar todos do mesmo.

- Claro que não.

- E se eles experimentarem ouvir ou ler as histórias que nós lemos? - sugere uma morceguinha

- Boa! - concordam todas 

            Uma noite as corujinhas e as morceguinhas convidaram os amigos que se diziam muito corajosos, mas na verdade tinham muito medo, a ouvir as histórias que elas liam.

- As histórias que vocês gostam, são pirosas...- resmunga um mochinho

- Mas ouviste-as, e vais ver como esta noite não vais ter pesadelos! - garante uma morceguinha

- Eu até acho que gosto de histórias de amor, mais do que de terror. - pensa alto um morceguinho

- Claro, o amor é muito mais bonito, terror... já temos muito, à nossa volta e é mau! - diz uma morceguinha

- À noite precisamos de ouvir coisas bonitas, agradáveis, para descansar e ter bons sonhos! - acrescenta uma corujinha

             Nessa noite, não tiveram pesadelos, e alguns descobriram que afinal também gostavam das histórias para meninas. Como, ainda assim, gostavam das histórias de terror, e pensavam que sabiam que essas histórias não eram verdadeiras, decidiram experimentar ler essas histórias de dia, e as outras das meninas à noite. 
            Gostaram da experiência, mas poucos dias depois, voltaram a não resistir ao convite do amigo morcego que lia as histórias de terror. Lá voltaram os pesadelos! Elas não tentaram mais, mas desafiaram-se uns aos outros, para ver quem tinha razão...se eles, ou elas. 
            Convidaram toda a floresta para ouvir histórias de amor, e histórias de terror. Quem quisesse histórias de amor, ia para as morceguinhas e corujinhas, quem gostasse de histórias de terror, ia ouvir os morceguinhos e mochinhos.
             Nos primeiros dias, os mochinhos e morceguinhos, ganharam, tiveram muitos animais a ouvir as histórias de terror, e as corujinhas e as morceguinhas não tiveram ninguém para as ouvir. Todos ficaram muito entusiasmados a ouvir as histórias de terror, mas nessas noites ninguém dormiu, todos tiveram pesadelos.
             Passado uns dias, já cansados de não dormir, e de ficarem com o coração a bater muito depressa com o mais pequeno barulho, ou gritar quando viam sombras, decidiram ouvir as histórias delas, e dormiram como anjos, porque eram histórias tão bonitas, que faziam sonhar e transmitiam paz.
             Algum tempo depois, cada um ia para o que gostava mais, e todos continuaram amigos como antes… cada um tem os seus gostos, e se não gostamos de histórias ou filmes de terror, não temos de as ouvir, ou ver. Há milhares de histórias que esperam por nós.

E vocês? Que histórias gostam mais? Sobre quê? Já tiveram sonhos maus depois de ouvir ou ver uma história ou filme de terror?


                                                                        FIM
                                                                     Lara Rocha 
                                                                     4/12/2018