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terça-feira, 5 de maio de 2015

O pássaro de asas douradas

 
Pintado por Lara Rocha num livro para colorir de arte terapia e relaxamento para adultos. 

Era uma vez um lugar gelado, com neves eternas, onde o sol praticamente nunca era visto, porque embora ele tentasse entrar o gelo era imenso e era a mesma coisa que não entrar. Não havia flores, nem animais porque não encontravam lá comida, só árvores enormes que faziam uma imensa sombra.
O gelo da paisagem estendia-se aos seus habitantes: pessoas muito sérias, tristonhas, com ar pesado, que não sabiam rir, nem se olhavam ou falavam uns com os outros. Só quando o sol tentava entrar é que todos faziam uma grande festa, mas era de pouca dura.
Um dia, uma criança que lá vivia viu alguma coisa dourada a brilhar no céu. Pensou que era uma estrela, mas esta mexia-se, e ficou na sua janela a ver se voltava a mexer-se ou se desaparecia.
Para sua surpresa, o que ela pensava ser uma estrela mexeu-se, e foi-se tornando maior…quanto mais se aproximava, maior se tornava. Só aí é que ela viu que afinal não era uma estrela, era um enorme pássaro muito bonito, de penas recortadas e finas, cheias de cor e douradas nas pontas, pareciam asas bordadas.
- Áh! Que lindo! – Diz a menina  
O pássaro quase congelado pousa na janela da menina. Ela abre a janela.
- Posso entrar só um bocadinho? – Pediu o pássaro
- Claro que sim…deves estar congelado.
- Quase!
Ele entra.
- Uau! És tão bonito. – Diz a menina
- Obrigado. – Responde o pássaro
- Nunca te vi por aqui. Parecias-me uma estrela.
- Eu sou de muito longe.
- E porque é que vieste aqui?
- Em breve saberás.
- Porque é que não posso saber agora?
- Ainda é cedo.
- Porquê?
- Porque ainda é cedo. Não posso dizer já. Como é que conseguem viver aqui neste gelo? Não têm sol, nem paisagem, flores ou animais…
- Sim! É mesmo muito frio aqui, mas já estamos habituados.
- O sol não entra aqui, pois não?
- Muito raramente! Quando entra fazemos uma grande festa.
- Imagino! Espreitei pelas janelas das casas, e não estavam nada sorridentes.
- Não. Acho que nenhum de nós sabe o que é isso!
- Não sabem sorrir?
- Não.
- E rir?
- Também não. Já é de nós sermos muito tristes e sérios…
- Não admira, com este gelo e sem sol.
- O sol faz milagres?
- Faz! É muito precioso e preciso.
Os dois têm uma longa conversa até a menina ir dormir. O pássaro também já estava a ficar muito triste naquele ambiente, pois estava muito habituado ao sol.
Voltou para a sua toca e pediu a uma estrela que lhe desse um banho de sol. A estrela fez-lhe a vontade e ele ficou outra vez com as penas douradas.
Depois, no dia seguinte de manhã bem cedo, voltou ao sítio gelado e com o nascer dos primeiros raios de sol, abanou as suas asas douradas e dançou.
A menina lá estava na janela à procura dele, e quando o viu ficou muito surpresa. Com o mexer das asas douradas, caem na neve raios enormes de sol e todo o gelo começa a partir.
Fica nesse espaço uma claridade imensa, e aparece o sol no céu…as enormes árvores que tapavam o sol, e estavam encostadas umas às outras para se aquecerem, desencostam-se e afastam-se.
Finalmente o sol conseguiu entrar lá e até as árvores sentiram o seu calor ainda leve por ser muito cedo…mesmo assim, elas já estão mais sorridentes e com uma força renovada. Até já têm mais cor.
Depois, o pássaro sacode as suas asas de cor, e onde o gelo derreteu rapidamente caem sementes de flores que vão nascer em breve de todas as cores.
As pessoas saem de casa e nem querem acreditar….que grande mudança. Primeiro, todas abrem um pequenino sorriso, e depois quando vêem tanta claridade abrem um sorriso de orelha a orelha. Olham uns para os outros, e em vez de não se falarem nem sorrirem, cumprimentam-se sorridentes.
- Áh! Que milagre…quem fez isto? - Diz a menina
        O pássaro pousa outra vez na sua janela:
- Muito melhor agora…e ainda verão muitas mais surpresas.
- Então foste tu?
- Sim!
- Foi para isto que vieste?
- Foi.
- Isto era o que eu não podia saber ontem?
- Isso mesmo.
- Que lindo! Muito obrigada! A nossa aldeia nunca mais vai ser a mesma. O sol é lindo.
- É. E vai aquecer ainda mais.
- Boa!
- Já vi as pessoas que saíram de casa cumprimentarem-se com sorrisos abertos.
- Mas o sol veio para ficar?
- Claro que sim.
- Obrigada! – Diz a menina
E nesse mesmo dia, no fim dos trabalhos das pessoas, ainda de dia, os habitantes juntaram-se todos na praça do sol, que embora tivesse esse nome, não via o sol há muito tempo, e festejaram a presença do sol.
Estavam todos muito sorridentes, e procuraram conhecer-se uns aos outros, até estavam a sentir calor porque não estavam habituados a tanto sol. O pássaro de asas douradas aprecia orgulhoso e feliz, pousado no solo e recebe muitos mimos das pessoas.
Desde esse dia, o sol nunca mais saiu de lá, até porque adorava ver os sorrisos e a felicidade dos habitantes, pela sua presença, e porque toda a natureza precisava dele para nascer e tornar aquele espaço mais bonito, mais saudável e alegre. E conseguiu.
O sol faz bem a tudo! Aquece-nos, dá-nos luz, cor, saúde e alegria, porque todos nós, seres humanos também somos filhos da Mãe Natureza como o sol, e precisamos dele. Quando não há sol ficamos mais tristes como as pessoas deste sítio.
E vocês? Gostam de sol?
Sabem qual é a importância do sol para nós e para o planeta?
  
                                       FIM
                                       Lara Rocha 

                                    (5/Maio/2015)  

segunda-feira, 4 de maio de 2015

PRESENTES DE MAIO


        Era uma vez uma aldeia onde viviam poucas pessoas em moinhos abandonados que foram transformados em casas. Eram quase todos familiares, e davam-se muito bem. A aldeia vivia do comércio dos produtos que a terra produzia, e de visitas de estudo.
        Na aldeia o clima variava muito…tanto estava frio de manhã e calor de tarde, ou calor ou frio todo o dia, outras vezes calor de dia e frio à noite. Chuva, sol, nevoeiro e vento no mesmo dia, mas os habitantes já estavam habituados e gostavam. Devia ser por isso que os produtos eram tão deliciosos e frescos.
        Gostavam muito de viver aqui, e o seu dia-a-dia era como o de toda a gente da cidade: os adultos iam trabalhar para a cidade, as crianças para os colégios e escolas da cidade, quando precisavam de médico iam à cidade, e fazer algumas compras de coisas que não havia na aldeia e voltavam ao fim-da-tarde. Na aldeia só ficavam os habitantes que trabalhavam na terra.
        Mas esta aldeia tinha acontecimentos que eram só deles…festas e tradições próprias que não havia em mais lado nenhum, e também recebiam uns pequenos presentes da Natureza que todos recebemos em Maio! Os campos oferecem flores para fazer as coroas com Maios, tempestades e cerejas.
        No final do mês de Abril, os seus habitantes já se previnem…apanham as toneladas de cerejas que produzem, e tapam com plásticos próprios, as cerejeiras onde ainda não há cerejas, ou ainda estão a crescer.
        Mas as tempestades, aqui são mais fortes…muito assustadoras, e geralmente chegam sem aviso, duram horas e às vezes dias. Um dia que começa com um belo sol quente, passado algum tempo, é interrompido por trovões estrondosos, que até fazem tremer o chão e as janelas das casas, raios que riscam as nuvens escuras, e parece que caem no chão.
        A trovoada não vem sozinha…o vento acompanha-a, e é tão forte que parece aspirar tudo à sua volta, faz redemoinho, e chega a deitar árvores abaixo, a arrancar plantas da terra, e raízes ou até telhados.
        O ramalhete da tempestade, não ficava completo se não houvesse a chuva que traz consigo a saraiva, muito pesada e tocada a vento, faz muito barulho…parecem pedras a cair.
        Ao fim-de-semana e à noite quando podem, juntam-se nas casas uns dos outros, à lareira a conversar e a conviver alegremente, comem cerejas e fazem bolos, compotas, sabonetes e cremes caseiros e velas com cheiro a cereja.
        Em Maio comem-se as cerejas ao borralho.

                                       FIM
                                       Lálá
                                   (2/Maio/2015)


NA GAIOLA

                                                                 foto de Lara Rocha 

         Era uma vez um bando de homens sem juízo na cabeça, ambiciosos e esfomeados por dinheiro e pelo mal, que andavam com a ideia fixa e maldosa de caçar pássaros, e vendê-los a preços muito elevados, principalmente aqueles mais raros, maiores e mais bonitos…mas os pequenos também serviam. Eram vendidos em feiras.
        Montaram uma armadilha, muito bem montada, uma enorme cerejeira, de plástico, carregada de cerejas vermelhas também enormes. Eles sabiam que os pássaros adoram cerejas, e o plano era, quando estivessem todos pousados na árvore, lançavam uma rede gigante para os apanhar. Os homens estariam escondidos.
        Infelizmente, o plano deles funcionou na perfeição, e logo de manhã cedo, esconderam-se na floresta onde estava a armadilha. Os pássaros às centenas, que voavam em paz, à procura de comida, não pensaram que estavam ou que podiam estar em perigo…e foram atraídos pelas cerejas…hum…que bom comer cerejas logo de manhã, e logo daquele tamanho.
        Dezenas de pássaros de espécies já em vias de extinção, grandes, pequenos e médios, enormes…de asas muito coloridas… voaram em direção à cerejeira, e quando picaram a primeira cereja, a rede soltou-se e sem demora fechou-se, prendendo -os.
        Os homens aplaudem, festejam aos gritos, com abraços e gargalhadas.
- Conseguimos! – Gritam todos
        Os pássaros estão muito agitados, chilreiam fortemente:
- O que é isto?
- Onde estamos?
- O que aconteceu?
- Acho que caímos numa armadilha.
- Óh não! – Gritam todos os pássaros aflitos
- Como pode ser?
- Malditos!
- E agora?
- Como vamos sair daqui?
        Os homens levam a rede cheia de pássaros para um camião e fecham-nos. Levam-nos para casa de um deles, onde tem uma gaiola enorme com uma porta de ferro para os homens entrarem e saírem, e os pássaros ficam cada um numa gaiola mais pequena, como se fosse um móvel cheio de janelinhas pequenas. Planearam tudo ao pormenor.
        No momento em que começaram a largar os pássaros nas gaiolinhas, estes tentaram de tudo para se libertarem, mas quanto mais se mexiam e mais tentavam arranhar ou picar as mãos dos homens, mais apertados eram. Os bichos fazem um grande barulho.
- Onde estamos?
- Este não é o nosso mundo.
- Claro que não.
- Estamos presos.
        Começam todos a chilrear nervosos.
- Silêncio! – Grita um homem grosso
        Fecham a grande gaiola, e os pássaros olham uns para os outros, tristes.
- Malditos.
- Isto não vai ficar assim.
- Eles que esperam.
- O que é que vão fazer connosco?
- Não sei. Mas isto não é bom.
- Pois não! – Dizem todos
- Eu quero sair daqui. – Grita um
- Eu também! – Dizem todos
        Faz-se novo silêncio
- Estamos todos juntos. – Comenta um
- Que grande vantagem! – Responde outro
- Sim, pode muito bem ser uma vantagem se pensarmos todos juntos, e vamos sair todos juntos daqui.
- Só nos teus sonhos…
- Como?
- Ainda não sei como, mas sei que vamos sair. – Garante
        Um homem vai levar-lhes comida e bebida, e todos metem os bicos e as garras entre as malhas das grades, arranham e picam as mãos deles. Ele grita e sai a correr. Os pássaros comem e bebem.
- Não gosto nada disto!
- Nem eu!
- Mas temos de comer e beber, para ter força e pensar numa maneira de sairmos daqui.
- Sim!
        Depois do papo cheio, ficam calados, quietos e pensativos. Aproxima-se uma matilha de lobos.
- Lobos! – Dizem os pássaros
- Só nos faltava esta.
- O que é que nos vão fazer?
- Também estão feitos com eles?
- Calma…vamos tentar ser amigos deles. – Sugere um pássaro
- Estás louco? – Perguntam todos
- Isso é impossível.
- Vamos ser amigos de quem anda sempre a tentar comer-nos? 
- Vamos agora ser amigos…? Daqueles…? Nem pensar.
- Sim, é claro que vamos ser amigos deles. Qual é o problema? Pensem…esqueçam a parte da caça…eles podem muito bem ser a nossa salvação!
- Salvação? – Perguntam todos
- Claro. Estão lá fora!
- Pois!
- E também não adoram propriamente os homens…
- A não ser que tenham sido mandados por eles.
- Para dar cabo de nós!
- Vamos ter esperança.
- Eles já nos devem estar a imaginar no espeto ou no grelhador.
- Estás mesmo muito nervoso.
- Calem-se um bocadinho…
        Os lobos entram na gaiola grande a cheirar tudo, olham para os pássaros.
- Tantos pássaros aqui! – Comenta um lobo
- Estes são mesmo loucos. – Diz outro lobo
- Quem? Os pássaros ou o homem? – Pergunta uma loba
- Os homens, é claro!
- Primeiro a nós…agora eles… - Diz outra loba
- E quantos já não passaram por aqui! – Diz outra loba
- Felinos, borboletas, insetos, répteis… - Lembra outra loba
- Felizmente estávamos por perto. – Diz um lobo orgulhoso
        Os pássaros engolem em seco de medo e preocupação. O pássaro quebra o gelo:
- Bom dia!
- Bom dia! – Respondem todos os lobos
- Para vocês não deve estar bom…aí metidos! – Diz uma loba
- É verdade! – Dizem pássaros e lobos
- Fomos apanhados numa armadilha! – Conta outro pássaro
- Nós também! – Dizem os lobos
- Também? – Perguntam os pássaros
- Sim.
- A nós puseram-nos pedaços de carne espalhados pela floresta, apetitosos, atraentes, suculentos…e apanharam-nos.
- A nós puseram uma cerejeira, com lindas cerejas vermelhas, mas era tudo falso! – Comenta o pássaro
- A maldade destes monstros não tem limites. – Diz outro lobo
- E depois, como é que conseguiram sair?
- Unimos as nossas forças, em pensamento e pedimos ajuda aos nossos, e eles vieram ter connosco. Atacaram esses miseráveis, malditos e abriram-nos as gaiolas. – Conta o lobo
- Mas vocês não vão precisar de fazer isso porque estamos nós aqui! – Diz outro lobo
- Vamos tirar-vos daí. – Garante outro lobo
- Já sabiam que estávamos aqui? – Pergunta um pássaro
- Sabíamos… - Respondem os lobos
- Sentimos as vibrações dos vossos pensamentos, e do perigo! – Diz uma loba
- Boa! E o que querem em troca? – Pergunta um pássaro
- Nada! – Respondem os lobos
- Queremos a vossa liberdade! Já estivemos aí, sabemos como é horrível… - Diz outro lobo
- Para agradecer aos nossos prometemos tirar daqui todos os animais que cá viessem parar. – Conta outra loba
- Há muita maldade, mas também ainda restam alguns corações bons. – Diz um pássaro emocionado
- Claro que sim! – Dizem os lobos
- Pensaram que vos íamos comer não? – Pergunta um lobo
- Sim. – Respondem todos os pássaros
- Não! Fiquem descansados! – Dizem os lobos
- Óh! Que lindo… - Dizem os pássaros
- Eu disse que íamos sair daqui. – Relembra o pássaro
- Não vamos saber como vos agradecer… - Diz outro pássaro
- Não se preocupem. – Dizem os lobos
        E cada lobo atira-se a uma gaiola, com as patas ou a boca, rodam as chaves, e as portas abrem. Os pássaros saem e também ajudam os lobos a abrir as outras. Os homens aparecem, os lobos com os dentes bem aguçados à mostra, a rosnar e a com as garras das patas bem esticadas encurralam os homens e estes como não têm por onde fugir, cheios de medo, metem-se nas gaiolas e todos os animais fecham as gaiolas com eles lá dentro. Eles gritam revoltados, nervosos, abanam as grades.
        Os lobos e os pássaros apreciam deliciados, às gargalhadas.
- Mas que espécie tão estranha…! – Comenta um lobo a rir
- Desgraçados! – Gritam os homens
- Vamos acabar convosco… - Grita um homem
- Não posso acreditar nisto…se eu vos apanho, desfaço-vos! – Diz outro homem
- Tirem-nos daqui… - Diz outro homem
- Vão para o forno. – Ameaça outro homem
        Todos os lobos riem e os pássaros também.
- Ouviram alguma coisa…? – Pergunta um lobo a gozar
- Talvez…uma varejeira… será? – Responde outro lobo a gozar
- Sim…
- Que medo…! – Diz outro lobo a rir
- É por isso que me cheira mal. – Diz outro lobo a rir
        Todos desatam às gargalhadas. 
- Esta espécie custará muito dinheiro? – Pergunta outro lobo irónico
- Acho que nem para um casaco serviam… - Diz uma loba
- São tão feios…! – Comenta outra loba a rir
- Isso não vale nem um cêntimo! – Diz outra loba
- Que raça tão fraca. – Comenta outro lobo
- Mas que bem que vocês ficam aí… - Goza outra loba
- Realmente… - Dizem todos os lobos e pássaros
- Nem para exposição vocês servem! – Diz outra loba
- Tirem-nos daqui! – Grita um homem grosso
- Descansem…vão para uma gaiola ainda maior… - Goza outro lobo
- É. Vão ver como é bom estar preso… - Diz outro lobo a gozar
- Abram isto, bichos malditos… - Gritam todos os homens
- Óh…que pena… - Dizem todos a gozar
- Nós até vos tirávamos daí, mas…infelizmente não sabemos abrir as gaiolas. – Diz outro lobo
- Algum de vocês sabe? – Pergunta uma loba a gozar
- Hum…não! – Respondem todos
- Mas que chatice… somos animais… - Comenta um pássaro
- É! Não podemos ter tudo. – Comenta outro pássaro
- É mesmo engraçado ver-vos aí metidos! – Goza uma loba
        Todos desatam às gargalhadas e viram costas. Os homens ficam fechados nas gaiolas aos gritos e a abanar as grades, até que as mulheres dão por falta deles e vão á procura. Os animais seguem felizes e divertidos para a floresta.
Pássaros e lobos tornam-se grandes amigos uns dos outros e passaram a trabalhar juntos, na salvação de outros animais que eram apanhados nas armadilhas dos desgraçados, e não foram poucas vezes. Eles não tinham sossego, mas os bichos conseguiam sempre voltar à liberdade. 
A gaiola era habitada por muitas espécies, mas desde que os lobos e os pássaros se uniram, não ficavam lá muito tempo. A maldade dos homens e as ideias fixas não tinham limite, mas a força e a união dos bichos que lutavam pelo mesmo objetivo também não!
O homem também deveria ser assim…não era? Unir-se pelo bem, pela paz… e lutar em conjunto contra o mal, sem fazer o mal.

FIM
Lálá
(2/Maio/2015)


As tecedeiras

Foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma família de mulheres tecedeiras: duas com bastante idade, mas muito activas, alegres e trabalhadoras; uma jovem mãe de duas meninas gémeas, e uma rapariga ainda jovem.
Trabalhavam muito, conversavam, riam e ensinavam outras meninas que apreciavam essa arte! Teciam coisas muito bonitas: paninhos, guardanapos, toalhas, lençóis, vestidos, e véus de noivas, colchas, e bordavam roupas para pequeninos que eram um mimo. Além disso, faziam arranjos e fabricavam outras roupas.
Um dia, numa noite muito quente de Verão, as tecedeiras estavam cansadas com tanto trabalho, mesmo assim, continuaram. Uma fada que costumava acender os candeeiros dos jardins, com as suas chamas, viu as tecedeiras quase a dormir em cima dos panos que tinham para bordar em pouco tempo.
- Coitadinhas! Como elas estão! – Murmura a fada – Boa noite! Estão tão cansadas. Vão dormir, amanhã é outro dia! – Sugere a fada
- Descansar? – Perguntam todas
- Nem podemos pensar nisso!
- Temo muito trabalho.
- Pois!
- E este é o nosso meio de sustento.
- Temos que ser mais fortes que o cansaço!
- Não temos tempo para parar.
- Mas…e a vossa saúde? Estão a dar cabo dela. Se ficam doentes depois é que não vão poder trabalhar. É melhor descansarem primeiro amanhã continuam. Hoje não vão adiantar nada, nem que fiquem aí a noite toda. Já trabalharam demasiadas horas. – Recomenda a fada
        Mas elas são muito teimosas e tentam lutar contra o sono. Como elas não param, a fada pede ajuda ao João Pestana que deita os seus pozinhos do sono discretamente por cima delas, e elas deitam-se.
        A fada chama as suas amigas fadas tecedeiras, que já conhecem o trabalho das mulheres tecedeiras, e ainda se juntam mesmo sem serem chamadas, as bruxinhas boas costureiras, as borboletas, bordadeiras, e todas trabalham em conjunto nos panos que as mulheres tecedeiras estavam a fazer.
        Dá gosto ver! Parece uma grande fábrica. Cada uma faz um pedacinho e uma tarefa, e ainda se ajudam umas às outras, de pano em pano, e de bordado em bordado.  Elas trabalham muito rápido, em grupo e muito felizes. Divertem-se muito.
        São às dezenas e os belos panos ficam prontos num abrir e fechar de olhos. Ainda têm tempo de fazer um paninho surpresa para as mulheres, onde cada uma deixa um miminho da sua marca de amizade, e os contactos para trabalharem em conjunto.
        Na manhã seguinte, as tecedeiras apanham um grande susto de surpresa quando vêem tudo pronto e o paninho.
- Óh! Adormecemos?!
- Não podia ter acontecido!
- Agora temos o trabalho todo atrasado.
- Espera aí! Já estão todos prontos!
- Pois já. Mas como pode ser?
- Ainda há bocado nos faltavam tantos.
- Esteve aqui alguém.
        E todas as suas dúvidas foram desfeitas quando viram o lindo paninho das outras tecedeiras.
- Óh! Que queridas! – Dizem todos sorridentes e deliciadas
- Tão lindas!
        E vêem que todos os seus paninhos estão perfeitos, lindos. Elas vão visitar as fadas e agradecem-lhes com abraços, sorrisos e flores. As fadas tomam o pequeno-almoço com as tecedeiras e mostram os trabalhos delas. As tecedeiras ficam maravilhadas e convidam-nas para trabalhar com elas. Elas aceitam logo, e chamam todas as outras para se conhecerem.
        Desde esse dia, tornam-se as melhores sócias e amigas umas das outras. As mulheres não precisaram de fazer mais noites, e o trabalho porque era dividido por dezenas de fadas e borboletas tecedeiras, costureiras e bordadeiras que faziam a sua parte e ainda ajudavam as outras, ficava pronto num instante.
        Os trabalhos não paravam de crescer, eram centenas de pedidos, a toda a hora. Os trabalhos eram cada vez mais bonitos, diferentes, feitos com muita alegria, carinho e amizade! Até sonhos e desejos teciam. Em grupo, muito trabalho torna-se mais rico, mais rápido e mais divertido. Principalmente quando todos são grandes amigos!
FIM
Lálá
(26/Abril/2015)


A CESTA DAS CEREJAS



   Era uma vez uma casa pequenina de pedra, pintada de branco com cerejas, muito bonita, construída entre umas cerejeiras muito grandes, de troncos muito grossos.
      Atrás da casa havia um pequeno quintal com flores de cores tão bonitas e pétalas tão grandes, tão macias, que atraiam centenas de borboletas, joaninhas e passarinhos…e até fadas da floresta que dançavam à volta delas.
   Mas…nem tudo era perfeito. Uns pássaros malvados e invejosos dos outros, que viviam no castelo de uma bruxa, na cratera de um vulcão há muito tempo desactivado, que só pensava em fazer mal.
    Como vivia num sítio feio, que ela dizia odiar…adorar…, não suportava sítios bonitos, lugares com luz, jardins bem tratados, e cheios de flores, e campos de cultivo. 
       Ela também detestava pessoas boas e felizes, por isso, sempre que podia, mandava os seus pássaros horríveis, e muito rebeldes, dar cabo de tudo o que estava de pé.
    Esses pássaros eram tão venenosos como a bruxa. Nem sequer eram para ela os produtos que mandava destruir, eram mesmo por maldade, e porque ficava feliz com destruição.
   Ninguém que era bom, sabia da existência desta malvada, o que sabiam era que esses pássaros não eram nada bem-vindos porque destruíam tudo. 
  Aterrorizavam os outros animais e os humanos. Até os cães e os lobos sentiam a maldade no ar…primeiro tinham medo e depois tentavam proteger, mas não conseguiam.
    Numa manhã, altura em que as cerejeiras estavam carregadas, a bruxa queria cerejas para um feitiço, mandou os pássaros a essa casa, que atacaram todos os que tentaram proteger a casa e as cerejas, com muito barulho, guinchos, bateres de asas agitados, e conseguiram levá-las, deixando um rasto de destruição atrás de si. As gargalhadas de vitória da bruxa fizeram tremer o seu castelo e a terra á volta.
     O casal ficou muito irritado, até que a mulher teve uma ideia: encher um cesto com todas as cerejas que tinham caído dos pássaros que as abanaram, para o caso de eles voltarem, comerem as do cesto e não as das árvores.
   As cerejas do cesto eram bonitas, doces, e grandes. Mas o marido não quis ser bom, também não queria ser mau, mas apenas dar uma ensinadela a esses terroristas.
    Pegou numa série de bolinhas de madeira e pintou-as da cor de cereja, pôs outras bolinhas de esponja pintadas de cerejas e pedrinhas redondas que imitavam na perfeição as cerejas.
   Pôs tudo numa bela cesta com perfume de cereja, e deixou bem visível. Na manhã seguinte, os pássaros da bruxa voltaram e preparavam-se para atacar outra vez a casa e as árvores, mas foram atraídos para a cesta onde estavam as cerejas falsas.
     Alguns pássaros tentaram comer, mas quando engolem ficam tão pesados que não conseguem voar mais, e vão pelo campo com muita dificuldade, à procura de veterinário para lhes tirar as pedras, mas é a bruxa quem as tira.
         A bruxa fica fora dela com a raiva, quando percebe que foi enganada, mas os pássaros já estão habituados e metem-se na gaiola antes que vão parar ao forno.
      Como a cesta funcionou, o casal volta a fazer o mesmo, mas desta vez, eles já sabem que as cerejas não são para comer, e os cães andam à solta, a rondar as cerejeiras como os pássaros têm medo, não se aproximam mais, nem comem as cerejas.
      A bruxa teve de arranjar outras coisas para os seus feitiços…e arranjou, mas pelo menos a bruxa não quis saber mais de cerejas.
         Os pássaros aprenderam a lição…de que as cerejas não são para eles.
                                               FIM
                                               Lálá
                                      (29/Abril/2015)


A aldeia cereja

             
desenhado e pintado por Lara Rocha 

             Era uma vez uma pequenina aldeia entre duas montanhas muito diferente das outras. Os seus habitantes mais velhos contam uma lenda romântica sobre a origem da aldeia.
            Contam que inicialmente só existiam as duas montanhas, depois um jovem, aquele que veio a ser o primeiro habitante da aldeia, diz ter avistado nos céus, um enorme pássaro misterioso, feito de estrelas que voou por cima das montanhas, e do seu bico caíram umas luzes brilhantes na terra.
            Como o terreno era natural, ainda sem a mão do homem, as sementes de luz, transformaram-se em lindas árvores cerejeiras, que deram flores e frutos encantadores, grandes e suculentos.
            A cereja passou a ser, entre outros produtos da terra, o primeiro sustento do seu habitante, que conheceu o amor da sua vida e foi viver para lá. Ele e a esposa construíram a sua casa, de forma muito diferente das outras casas…em vez de ser em pedra e cimento, aprenderam ao ver como os pássaros construíam os ninhos, e fizeram a sua casinha, como um grande ninho, sem repararem que quase ganhou a forma de uma cereja, entre duas cerejeiras com pauzinhos de cerejas, palha, erva, alguns troncos grossos e outros materiais muito primários que encontravam por lá.
            Embora fosse uma casa frágil, tinham um tecto onde dormir, e estavam protegidos do tempo frio, da chuva, do vento, e tinham porta para não entrarem animais como lobos.
            De dois, passaram a quatro, porque tiveram dois filhos gémeos, e o homem construiu outra casa maior, ao lado, quase com os mesmos materiais e as condições foram melhorando.
            Uns anos mais tarde, outros visitantes gostaram tanto do sítio que foram para lá viver. Diz a lenda que o pássaro de estrelas voltou a largar sementes de cerejeiras e nasceram várias dezenas espalhadas pelo vale.
            Os seus troncos serviram para construir as pequeninas casas em forma de ninhos e depois em forma de cereja. Os seus habitantes já tinham provado as cerejas, e passaram a utilizá-las para fazer bolos, compotas, sumos, cremes e champôs de cereja, porque sabiam que faz muito bem à saúde e é fonte de rendimento.
            Para agradecer a generosidade do pássaro, e tudo de bom que esse acontecimento trouxe ao vale, os habitantes decidiram fazer um baile, uma festa.
            Prepararam um banquete, puseram troncos das cerejeiras a servir de mesas e de bancos, cadeiras desenhadas em forma de cerejas pelo artista do vale, com cerejas bordadas nas toalhas, feitas com muito carinho pelas senhoras, tudo decorado com raminhos de cerejas.
            As mulheres e as crianças estavam lindas, com roupas para o jantar, cheias de cerejas nos tecidos, brincos e colares feitos de cerejas, tudo tinha toque de cereja.
            As lanterninhas de luz tinham forma e cor de cereja, assim como as velas que iluminavam todo o vale, além de cheirarem a cereja. Estava um ambiente mesmo bom e bonito, perfumado, e animado.
            A decoração estava mesmo deliciosa, sentia-se um cheirinho a cereja por todo o lado. Os pratos que prepararam foram servidos em travessas, pratos e talheres com formato de cereja, e cerejas pintadas.
            As cozinheiras fizeram bolos de chocolate com cerejas a decorar, sumo de cereja. O primeiro habitante foi quem fez o discurso de agradecimento. No final, todos aplaudem e agradecem em coro.
            O pássaro feito de estrelas, ouviu tudo, e até deixou escapar algumas lágrimas de alegria e emoção pela festa…as lágrimas e os sorrisos do pássaro, foram vistas na terra, em forma de estrelas cadentes. Foi uma surpresa para todos.
            O pássaro só apareceu no céu, no final do discurso. Nessa noite, todos o viram e acharam lindo! Ele dançou para os habitantes, leve, brilhante, elegante, para agradecer, e retribuiu todo o carinho e atenção, lançando outras sementes, de novos frutos e produtos para experimentarem e variarem. O pássaro faz desenhos de cerejas com estrelas, que deram as mãos, e muitas outras imagens… os habitantes nunca tinham visto.
            E ainda voou por cima de todas as casas frágeis, que tinham forma de ninho, parecidas com cerejas, e com as estrelas que deixou cair das suas penas, transformou-as e melhorou-as por fora e por dentro.
            Nunca tinham visto nada tão especial e tão bonito. O pássaro nunca mais os abandonou, nem eles ao pássaro, e visitava-os muitas vezes, levando-lhes sempre algum miminho surpresa, que eles não deixavam de retribuir.
            Lenda ou realidade? Quem saberá? O que se sabe é que esse vale existe, e tudo, mas mesmo tudo tem forma, sabor, cor e cheiro a cereja! Talvez inspirados na lenda, os habitantes construíram as suas casas em forma de cereja, decoradas com imagens de cerejas, e a cereja é o seu meio de sobrevivência!
            Não é lenda aproveitarmos tudo, ao máximo, o que a natureza nos dá, pois não? Se pensarmos bem, comemos tudo o que há na terra…ou…quase tudo o que é possível para sobrevivermos e termos saúde, alimentar-mo-nos.
            Às vezes, ela ganha a forma de mãos, outras vezes, de sementes leves, levadas pelo vento, que pousam e nascem, outras perdem-se. Tudo isto…é um mistério real, tal como a vida é real.

                                                           FIM
                                                           Lálá

                                               (29/Abril/2015)