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terça-feira, 24 de março de 2015

LUZINHA NO SONHO

 
Foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma luzinha que desceu pendurada numa estrela, lá de cima, e foi largada no cimo de uma montanha cheia de neve. 

   A luzinha era muito quente, mas o gelo era mais forte, e não derreteu à sua passagem. Havia muitos iglôs espalhados por essa montanha, onde viviam uns cientistas e estudiosos. 

  Já estavam habituados a ter muito frio, mesmo assim, a luzinha espreitou pela janela. Alguns, nem repararam na sua presença, mas uma senhora viu-a, e mandou-a entrar.  
    Abriu a porta, e luzinha entrou.
- Boa Noite! Em que posso ajudá-la? Precisa de mim? –              Perguntou a luzinha
- Sim! Preciso de companhia. O meu marido só pensa em trabalhar, está sempre metido naquele laboratório e nem se lembra que tem uma mulher que o ama!
- Mas como pode ser? – Pergunta a luzinha
- Pois é! Também não sei. Podes dar-me um bocadinho de luz, para me fazer companhia? 
- Claro que sim.
   A luzinha dá a mão à rapariga, e entre as duas, nasce uma luzinha, as duas separam as mãos e a luzinha fica lá.
- Óh! Que linda luz. Obrigada! Muito obrigada.
- Esta será a tua companhia. – Diz a luzinha
- Muito obrigada.
   A luzinha abraça a mulher, e a outra envolve-a.
- Até à próxima.
- Até à próxima.
  A luzinha sai a porta. A mulher fica com a outra luz em sua casa, feliz. A luz vai à casa que é o laboratório onde o marido trabalha. 
   O marido não repara nela, mas ela entra discretamente pela chaminé e toca nos corações dos homens que lá estão. Os 
corações ganham luz, e os homens tornam-se outra vez apaixonados pelas suas mulheres, como no primeiro dia em que as conheceram. 

 Num instante, saem do laboratório e vão para casa, carinhosos.

   Noutros iglôs, estão uns casais com os filhos doentes. A luzinha passa lá, envolve os pequenos num abraço, pouco depois estão recuperados. Aqui, ninguém deu pela sua presença.

     Depois, a luzinha libertou uma centena de focas, golfinhos, lontras, pinguins e leões-marinhos e até ursos, que tinham sido presos por caçadores que se preparavam para dar cabo deles. 

     Os bichos correm assustados e desesperados procuram os seus familiares. Quando estão todos reunidos em segurança, voltam para os seus refúgios. Alguns estão feridos, e a luzinha cura-os num instante. 

     Ela ficou tão triste com o que viu, que quase deixou de brilhar, mas logo se tornou outra vez mais forte quando viu crianças a chorar com fome num outro lugar. 

   Rapidamente deu uma série de voltas, e a cada volta, apareceram alimentos. As crianças e os adultos recolheram aquelas toneladas de alimentos frescos e outros mais secos, mas necessários, e cozinharam-nos. 

   Além disso, a luzinha transformou-se em pessoa e ensinou-os a cozinhar, a limpar, a fazer roupas e arranjos, a cultivar alimentos e ainda lhes ofereceu uma série de fontes com água pura, fresca e limpa, e ensinou a terem higiene
   
  Como esta tinha muitos mais sítios onde ir, tirou de si, vários pedacinhos de luz que se transformaram em mulheres bondosas para ficarem lá, e cuidarem deles como devia ser. Todos as adoraram. 
    
 A luzinha foi para outro pais, onde encontrou polícias e militares com armas horríveis, nas mãos, granadas, explosivos, e outras coisas que destruíam, e ainda mais grave: crianças rodeadas de bombas, a brincar com perigos, e algumas com armas.
  
Não gostou nada do que viu! Tornou-se numa mulher invisível, e começou a apertar as mãos das crianças sem elas sentirem, e elas deixaram cair as armas.

    Os adultos preparavam-se para agredir as crianças, mas a luzinha invisível apertou e torceu os pulsos dos adultos com tanta força, que eles quase desmaiavam e deixaram cair as armas. 

  A luzinha envolve um por um, e toca-lhes no coração. Essa luz que lhes enche o coração tão duro que até parecia uma pedra, por tanta maldade e tanta indiferença, e tornaram-se bons. 

   Olharam uns para os outros, choraram, deram as mãos, e 
abraçaram-se. Pegaram nas crianças ao colo, e encheram-nas de carinho. 

 As armas transformaram-se em brinquedos, livros, alimentos, roupas e medicamentos para todos. As crianças puderam finalmente brincar livres, correr sem perigos, andar sem medo, e as suas lágrimas de terror, transformaram-se em sorrisos. 

Todos os adultos se tornaram amigos, e conviveram alegremente.
    
   O sol nasce…e…Maria Luísa acorda.

- Luzinha, volta…continua… (p.c. triste) Óóóhhh…não acredito! Estou no meu quarto…na minha cama…na minha casa…então, quer dizer que…foi tudo um sonho! Óhhh…! Queria tanto ser essa luzinha! Ou ter uma luzinha daquelas…fazia tanta coisa boa pelo mundo! Óhhh…Não é justo! O mundo ia ser tão diferente…tão bom! Não sei porque é que toda a gente que me conhece, diz que sou uma menina de luz! Como é que sou uma menina de luz? Sou uma menina, como todas as meninas…e luz…só tenho a de casa, dos candeeiros, mas essa, não transforma nada! Bem…vamos lá para a escola. E que haja uma luz que torne o mundo melhor.  Algumas dessas melhorias,  poderemos ser nós a fazer…uns com os outros, não? Vamos tentar?

    E vocês? Gostavam de ter uma luzinha, ou ser uma luzinha para fazer bem?

FIM
Lara Rocha 
(24/Março/2015)

QUEM VAI NAS BARQUINHAS?




(fotos de Lara Rocha) 



Era uma vez várias barquinhas que apareceram a navegar num grande lago. Eram amarelas e pareciam muito leves, frágeis. Numas não se via ninguém a conduzi-las.
         Quem via, perguntava:
- Áh! Que barquinhas tão estranhas.
- São muito leves.
- Nem parecem barcas…
- Não levam ninguém.
- Claro que não são barquinhas…são uma coisa qualquer, menos barquinhas.
         Mas nem tudo o que parece é! Estavam muito enganados… pensavam que não levavam ninguém, mas, de repente, viram uma coisa muito estranha, e apanharam um grande susto! Duma das barquinhas levanta-se uma pequenina bonequinha de pano, feita de sementes.
- Ai…! – Gritam todos e encolhem-se, escondem-se atrás de uma árvore.
- O que é aquilo? – Pergunta um gato selvagem
- Onde é que aquilo estava? – Pergunta outro gato assustado
- Nunca vi uma coisa destas… - Comenta outra gatinha
- Nem eu… - Respondem todos
         E ficam em silêncio, muito quietos a ver o que ia acontecer. A boneca olha à sua volta, e boceja:
- Áh! Acho que já cheguei ao lago. (grita) Amiga…cheguei! Onde estás?
         Da outra barquinha levanta-se uma borboleta pequenina, com asinhas finas e leves:
- Olá amiga! – Grita a borboleta com um grande sorriso.
- Estavas aí há muito?
- Mais ou menos…cheguei de manhã cedo, como ainda não estavas aqui, adormeci outra vez.
- Óh! Desculpa o atraso!
- Não! Não te atrasaste, eu é que não consegui dormir bem, com a felicidade de te receber aqui!
- (sorri) Eu também estava em pulgas para te encontrar.
- Estás bem?
- Sim, estou óptima, obrigada. E tu?
- Também! Anda! Vou mostrar-te a minha aldeia. Vamos tomar um belo pequeno-almoço, e passear.
         A borboleta empurra a barquinha da boneca, para a berma, dão um abraço e dois beijos, as duas vão passear alegremente, numa conversa muito animada.   
         Os gatos acompanham todos os movimentos, com os olhos muito abertos, sempre que ouvem as vozes.
- Não acredito… - Comenta uma gata, baixinho
- O que foi? – Perguntam todos, baixinho
- Intrusos…- Dizem todos
- É uma amiga daquela borboleta. – Diz um gato
- Aquela coisa tão pequena é uma borboleta? – Pergunta a outra gata
- Não. O que saltou da barquinha não é uma borboleta. – Confirma a outra gata
- Então? – Perguntam todos
- É uma espécie rara…desconhecida. – Diz outro gato
- Olha que pequena que ela é.
- Pois é. E…acho que não são patas…
- Não. São pernas!
- Pernas? – Perguntam em coro
- Sim, pernas!
- Onde é que a borboleta foi arranjar uma amiga são, tão…estranha?
- Não sei.
         Os gatos continuam a coscuvilhar e atentos a tudo, a tentar descobrir que amiga era aquela. Entretanto, um peixinho que vivia no lago assustou-se com a sombra das barquinhas e vai até à superfície. Fica muito surpreso:
- Nunca vi umas barquinhas assim!
         Ele toca a medo, para ver de que são feitas as barquinhas.
- Ei…isto não é de madeira! É mole e macio… (dá um encontrãozinho) Que leve! Quem usará isto? Afogam-se…! A não ser que sejam…penas, ou…formigas…ou aranhas…e mesmo assim…não sei se aguenta o peso!
         Aparece uma borboleta e pousa noutra barquinha. O peixinho fica muito atento.
- Como é possível? Aquilo aguenta o peso de uma borboleta? Mas…não é de madeira, não percebo!
         Aproxima-se mais da barquinha da borboleta.
- Amiga, desculpa…isso é o teu transporte?
- Sim! – Responde a borboleta
- E aguenta?
- Claro que aguenta!
- Mas…de que material é feito? É tão leve…e…macio…parece ser frágil.
- Sim, é mesmo leve, frágil e macio…não é de madeira, mas aguenta! É feito de pétala de flor! Não aguenta com todos, mas com os mais levezinhos, aguenta.
- Áh!
- Queres experimentar? Mas só podes andar na água, à superfície.
- Está bem…
         O peixinho fica um pouco desconfiado.
- E daí…acho que não confio nisso!
- Amigo…já estás na água.
- Sim…
- Anda lá…salta!
         O peixinho salta para a barquinha feita de pétala de flor, e fica muito admirado porque a pétala aguenta com o seu peso à superfície.
- Uau! Estou à superfície, numa barquinha feita de pétalas.
         Os dois divertem-se muito, brincam um com o outro, mergulham e tocam na água nas barquinhas, e embalados pelas águas ao sabor do vento, adormecem.
         A bonequinha e a outra borboleta sua amiga juntam várias pétalas que pareciam barquinhas, estavam na água, e constroem uma tendinha no solo, debaixo de uma árvore, á sombra, para a pequena dormir, porque vai ficar lá uns dias e a casa da borboleta é muito pequena.
         Nessa mesma noite, o lago é invadido por casquinhas de nozes e frascos de vidro, de onde se vê brilhar, alguma coisa parecida com luz.
         E era mesmo luz…dentro das casquinhas de nozes e dentro dos frascos de vidro, iam centenas de velas que as crianças da cidade acenderam pela PAZ no mundo.
         Todos acordam sobressaltados, porque os cães não param de ladrar, e vêem aquelas luzes todas na água.
- Tantas barquinhas! – Diz a borboleta surpresa
- Por isso é que os cães estão a ladrar… - diz a boneca
- Pois!
- Quem vai nas barquinhas? – Pergunta a boneca
- Áh! Que lindo…tanta luz! – Suspira e sorri a sua amiga borboleta
- É mesmo lindo! Quem os está a conduzir? – Pergunta a boneca
- Ninguém!
- Pois, também não vejo ninguém. Mas eles não andam sozinhos…
- Pois não! Vão guiadas pelo sabor da água e da aragem.
         De repente as barquinhas de nozes e os frascos com as luzes, são seguidos e acompanhados por milhares de pirilampos que ficaram sensibilizados com a causa.
- Onde vai tanta luz? – Pergunta a borboleta
- Haverá alguma festa por este caminho? – Pergunta a boneca
- Vamos perguntar. – Diz a borboleta
         As duas aproximam-se da berma e perguntam a um pirilampo, silencioso:
- Boa noite, amigos! – Dizem as duas
- Há por aí alguma festa? – Pergunta a boneca
- Estamos juntos! – Diz o pirilampo
- Sim, já vi que estão juntos, mas e as barquinhas à vossa frente? – Pergunta a borboleta
- Estamos juntos e solidários… (outro interrompe)
- Pela paz! – Acrescenta outro pirilampo
- As crianças da cidade puseram velas dentro de barquinhas de casca de noz e dos frascos, que vês ali a brilhar, pela paz no mundo! É luz!
- O mundo precisa de toda a luz, e mais alguma, para tanta cabeça maluca! – Diz outro pirilampo
- Tens razão! – Dizem as duas
- Por isso é que juntamos a nossa luz! – Acrescenta outro pirilampo
- É! Pode ser pequenina e fraquinha, mas é luz, e carregada de paz! – Diz outro pirilampo
- O que interessa é a intenção, e a que a nossa luz transporta é muito boa, com certeza, e comum a todos.
- Claro! – Dizem as duas e todos
- Juntem-se a nós…se quiserem! – Sugere outro pirilampo
- Claro! – Dizem as duas.
- Óhhh, mas nós não temos luz! – Repara a boneca
- Não têm uma vela, ou uma lanterna? – Pergunta outro pirilampo
- Podem vir mesmo sem luz, o que interessa é a vossa presença.
- Eu tenho! – Lembrou a boneca
         Vai à sua tenda e tira de lá a lanterna. A borboleta vai buscar outra, e voltam a encontrar-se, seguindo com os pirilampos.
         E chegam ao fim da viagem, onde estão centenas de crianças e adultos que aplaudem com as lágrimas nos olhos, de felicidade.
         Cada um pega numa vela, e escrevem um belo poema no chão, para a Paz no Mundo. Uma espécie de oração. Tiram muitas fotos, e nessa noite, sente-se um ambiente de paz. Além das luzes, todos trocam abraços.
         De certeza que essas luzes de paz chegaram através das estrelas, aos países no mundo que andam em guerra. Afinal…ninguém ia nas barquinhas de cascas de nozes, nem naquelas feitas de pétalas de flores, que pareciam ser barquinhas.
O peixinho tinha razão…só alguém muito leve podia ir nessas barquinhas de pétalas. Mas a luz e a paz são sempre muito leves, e não precisam de navegar nas águas em barquinhas de flores, ou nozes, nem serem conduzidas por alguém, porque a luz pode voar…e se forem enviadas com toda a bondade, e sinceridade, do coração, elas chegam lá onde mais precisam dela!

                                      Fim
                                      Lálá
                        (24/Março/2015)



domingo, 22 de março de 2015

AS PÉTALAS NA ÁGUA

 
(foto de Lara Rocha) 

Era uma vez uma floresta onde havia três lagos. Um tinha água transparente, outro tinha água verde, e outro tinha água amarela. No lago transparente nadavam os patos, no lago verde, viviam ervas daninhas e várias camadas de lodo, enormes, porque o lago já não era limpo há muitos anos, e aqui vivem sapos, e rãs e no lago amarelo, era onde o sol se via ao espelho todos os dias e mergulhava.
Um dia, uma menina que voava numa nuvem por cima da floresta, vinda de outra floresta mágica, viu aqueles lagos, e ficou encantada com o lago transparente onde estavam os patos. Sentiu muito nojo do lago que tinha água verde, e sorriu ao lago de água cor amarela. Ela já sabia que essa água era amarela por causa do sol.
Baixou a sua nuvem, e aproximou-se do lago de água verde. Cheirava muito mal, e ouvia-se um barulho irritante…uma sinfonia de sapos e rãs, de quem ela não gostava muito.
- Que nojo de lago!
                Saltam vários sapos debaixo das ervas enormes. Ela grita e recua. Os sapos parece que nem a vêem e saltam para fora do lago.
- Como é possível viverem aqui. Nesta água, nem devem respirar. Isto devia ser limpo. Mas eu não entro ali. Que porcaria…
                Ela não queria entrar, mas não gostava de ver assim o lago. Então, foi pela floresta à procura de ajuda. Bateu a várias portas, das casas das árvores. Uns não abriram, outros gritaram com ela:
- Tenho mais o que fazer…
- Era só o que faltava.
- Porque não vais tu limpar, em vez de estares a mandar…?
- Claro, é mais fácil mandar do que fazer.
- Vai tu.
- Ora, ora…ainda se me pagassem…
- Essa agora…já limpo a minha casa, não vou estar agora a limpar a dos outros…ainda por cima, casa de sapos e rãs…elas que limpem…quer dizer…elas até gostam de estar no meio dessa porcaria.
- Que nojo!
- Vai chatear outro…
                A menina continuou.
- E se precisassem daquela água para beber? Não limpavam? Como é possível, tanta indiferença.
                De repente vê um casal a limpar o tanque da sua casa, com as crianças numa grande alegria.
- Olá! – Dizem todos
- Olá! Querem ajuda? – Sorri a menina
- Não, obrigada. – Responde o casal
- Sabem-me dizer, por acaso, onde posso encontrar alguém que limpe aquele lago que está do outro lado…à entrada…com água verde, cheia de sapos e rãs…?
- Não! – Respondem de forma seca
- Deixa-os estar lá…que nojo! – Diz a filha do casal
- Já basta quando essas pragas vêm para aqui. – Acrescenta o marido
- E se tivessem de beber aquela água? – Pergunta a menina
- Não bebíamos. – Respondem todos.
- Obrigada…até á próxima.
                A menina segue caminho. Numa outra nuvem, vem uma criatura estranha, feia, cheia de fome, que só gostava de coisas estranhas. A menina conhecia-a e lembrou-se:
- Olá pequeno…estás com fome?
- Sim, fome…muita fome…
- Então sei onde podes encontrar comida.
- A sério? Onde?
- Ali naquele lago de água verde.
- Áh!
                O monstro dirige-se para o lago de águas verdes, mergulha e num abrir e fechar de olhos devora tudo o que é musgo, e ervas daninhas. Come mesmo com vontade. Os sapos e as rãs ficam muito assustados e saem do lago a gritar e a correr o mais que podem.
- Óh! Estava mesmo delicioso. Que bom….
                O lago ficou irreconhecível. Com águas transparentes, a ver-se o fundo e as paredes, e sem sapos e rãs…ficou limpo como o outro de águas transparentes onde estavam os patos.
- Áh! Como está lindo este lago… obrigada, criatura.
- Não entendo o que estás a dizer, mas sei que comi tudo e estava um petisco…
- Ainda bem! – Diz a menina a sorrir
- Até à próxima.
- Até à próxima.
                O monstro segue o seu caminho e os sapos e rãs nunca mais voltaram. Não se sabe para onde poderão ter ido. A menina dá uma gargalhada:
- Ainda bem que apareceu aquele, para limpar o lago…acho que só mesmo assim. dá gosto.
                Vem uma borboleta pelo ar, cheia de tosse, que tinha acabado de vir de um campo apanhar pétalas. Quase não consegue voar, de tanta tosse e de tanto que espirra. E de repente, deixa-se cair na água, com as pétalas das flores que tinha apanhado.
A menina fica muito preocupada, e põe a mão na água, tira de lá a borboleta, para a berma, e dá-lhe um bocadinho de água com a mão.
- Então, rapariga? – Pergunta a menina
- Ai…estou doente… fui apanhar umas pétalas, e comecei a tossir e a espirrar sem parar. Agora estou cansada. Obrigada por me teres tirado da água. Óh…acho que perdi todas as pétalas.
- Não. Olha-as ali, na água.
                As duas vêem as pétalas a boiar na água pelo lago…parecem os patinhos. Como o lago está limpo, a menina salta para a água e apanha as pétalas todas. A borboleta ajuda, e volta a juntá-las todas.
- Óh…muito obrigada! – Diz a borboleta
- De nada…até há bocado, não podias entrar neste lago, agora podes.
- Porquê?
- Estava cheio de lodo e ervas enormes.
- Lhec. Então também tinha sapos e rãs, de certeza.
- Sim. E muitos.
                As duas conversam um pouco. Todos os habitantes da floresta ficam de boca aberta e maravilhados com o lago que era verde, e agora é transparente como os outros. Agora todos gostam de lá passar e ficar a ouvir o cantar das águas que caem das fontes. Um som bem mais bonito do que o das rãs e sapos. E adoram ver as bolhas da água, as ondinhas que elas formam quando caem à superfície.
                Uma princesa gostou tanto desse lago que o utilizou para os seus banhos da saúde como ela chamava. Mergulhava nesse lago, deitava montes de pétalas na água, e senta-se na água, porque dizia que ficava mais bonita…ganhava a beleza das pétalas das flores, e a sua pele ficava tão macia como elas, e que ficava com mais saúde. Chegava a levar as suas amigas e brincava feliz…
Mas ela nunca soube que esse lago de águas transparentes, foi durante muito tempo, um lago de águas verdes, cheio de sapos e rãs. Se não fosse aquela criatura estranha cheia de fome, o lago continuava a ter águas verdes, sapos e rãs, em vez das belas pétalas de flores e águas transparentes.
A água é muito importante para nós, para a nossa saúde, higiene e vida. Torna todos os sítios muito mais bonitos, agradáveis e frescos, por isso devem estar sempre limpos, e ser bem cuidados.  A água deve ser muito bem tratada.

FIM
Lálá
(22/Março/2015)


segunda-feira, 16 de março de 2015

Entre palavras e livros


Cena 1
NARRADOR/A 1 - Um poeta jovem estava muito triste, porque queria escrever e não conseguia. Já tinha pedido ideias às estrelas, aos rios, às fontes, aos lagos, aos animais, às montanhas…e nada!
(No parque, dois meninos conversam sentados à sombra de uma árvore frondosa, a folhear, a conversar alegremente, a partilhar e a trocar livros)
RAPAZ (Anda, nervoso, de um lado para o outro. Olha para um lado, e para o outro, olha para o tecto)Olá, amigos…viram por aí palavras, letras, imagens, sons e…
MENINO E MENINA – Livros?
RAPAZ – Sim!  
MENINA – Eu só tenho estes aqui…que encontrei num saco que iam levar para o lixo, só porque estavam estragados.
RAPAZ – Onde?
MENINA – Estavam ali atrás quase a ser levados para o lixo municipal. Eu é que pedi à minha avó para os levar para casa e concertá-los.
MENINO - São lindos! E ficaram óptimos! Como novos.
RAPAZ – Isso não se faz!  
MENINA – Eu trato os meus livros todos, como se fossem pessoas, animais ou plantas!
RAPAZ – É mesmo assim que eles têm de ser tratados.
MENINO – Pois, porque são muito bons para nós.
MENINA - São nossos amigos.
RAPAZ – Aprendemos muito com eles!
MENINO – Os livros são tesouros!
MENINA – Pois são.
RAPAZ – Mas o que eu quero mesmo saber é onde estão…palavras, ideias, pensamentos…? Onde?
MENINO – Porque é que estás à procura de livros?
RAPAZ – Porque quero escrever e não consigo. Parece que desapareci e desapareceu tudo o que eu queria escrever da minha cabeça!
MENINA – Pega nestes livros!
(Ele pega num livro e folheia. Numa das páginas, sai uma voz)
VOZ 1 – Lê-me. Folheia-me. De certeza que vais encontrar o que tanto procuras.  
RAPAZ – Boa ideia! Obrigado.
VOZ 2 – Escolhe só as palavras boas e bonitas!
RAPAZ – Sim, são essas que eu quero! E o mundo também!
NARRADORA 1 – Ao ler, estamos sempre a aprender coisas novas!
NARRADORA 2 – Quanto mais lemos, mais facilmente falamos, pensamos, escrevemos, fazemos amigos, dizemos o que sentimos, e crescemos.
NARRADORA 1 – Não em tamanho, mas por dentro!
                                                           Cena 2
(Ele começa a folhear e a olhar com atenção…em silêncio. Passam algumas palavras e pequenas frases…e parecem estar perdidas, olham para todos os lados e umas para as outras.
PALAVRA 2 – Ei…estamos num sítio diferente!
PALAVRA 1 – Esta não é a nossa casa.
CORO DE PALAVRAS – Pois não!
PALAVRA 3 – O que aconteceu?
PALAVRA 4 – Acho que nos mudaram de sítio!
CORO DE PALAVRAS – Como? Porquê?
RAPAZ – Onde estão, palavras?
PALAVRA 1 – Esperem…estou a ouvir qualquer coisa.
RAPAZ – Palavras…
CORO DE PALAVRAS – Estamos aqui!
RAPAZ – Apareçam, lindas palavras! Onde estão, palavras?
CORO DE PALAVRAS – Aqui!
(As palavras ficam muito atentas e em silêncio, na expectativa a ver o que está para acontecer. Ele sorri, fecha o livro).  
RAPAZ – Obrigado amigos. Até à próxima.
OS DOIS (sorriem) – Obrigada. Até à próxima.
(As palavras sentam-se no chão, desanimadas e tristes).
                                                           Cena 3
NARRADORA 1 - Não pensou mais nas palavras, e fez as suas tarefas de casa.
NARRADORA 2 – Tentou deitar-se e dormir, para ver se encontrava palavras perdidas nos sonhos…mas não pregou o olho a noite toda.
NARRADORA 1 - A sua tristeza aumentava cada vez mais, porque as palavras continuavam sem aparecer na sua cabeça.
NARRADORA 2 - Vê-se ao espelho, à procura das palavras…e só se vê a ele.
PALAVRA 1 – Olhem, ele está a ver-se ao espelho.
PALAVRA 2 – Estará à nossa procura?
CORO DE PALAVRAS – Sim!
PALAVRA 4 – Vamos gritar agora outra vez…a ver se é desta!
CORO DE PALAVRAS – Boa… (gritam) Estamos aqui!
PALAVRA 1 – Acho que ele afinal não viu nada nos livros.
PALAVRA 2 – É. Está tudo na mesma.
PALAVRA 3 – Ou então não esteve atento…viu, por ver!
PALAVRA 4 – Tenho tantas saudades de conhecer palavras novas e diferentes!
CORO DE PALAVRAS – Eu também!
RAPAZ – Ai, palavras…lindas palavras…onde estão?
CORO DE PALAVRAS – Aqui!
                                                           Cena 4
NARRADORA - Passa uma borboleta em voo…ele olha fixamente para a borboleta, que pousa na sua almofada. O rapaz olha para ela.
RAPAZ – Olá…! Talvez tu sejas a minha salvação…borboleta. Borboleta, borboleta…óh não…não me sai nada…
BORBOLETA – O que é que estás para aí a dizer…?
RAPAZ – Não consigo escrever...não me sai nada. Parece que as palavras fugiram todas…não sei para onde!
BORBOLETA – Que palavras?
RAPAZ – Todas!
BORBOLETA – E onde tinhas as palavras?
RAPAZ – Não sei…estavam na minha cabeça, nas mãos, nos meus olhos…lá fora…em todo o lado.
BORBOLETA – Muda de sítios.
RAPAZ – Também já fiz isso, e não funciona. Tentei dormir, a ver se as encontrava nos sonhos, mas não consigo fechar os olhos. Por acaso não viste por aí umas palavras…?
BORBOLETA – Vi, sim…milhões e milhões por aí espalhadas a voar.
RAPAZ – Onde?
BORBOLETA – Por exemplo…agora estou a ver milhares nos teus olhos…!
RAPAZ (surpreso) – Palavras nos meus olhos?
BORBOLETA – Sim.
RAPAZ – Mas eu vi-me ao espelho, e não vi uma única palavra.
BORBOLETA – Mas eu vejo. Visita livros…quem sabe, elas foram de férias! Deita-te!   
RAPAZ – Não consigo!  
BORBOLETA – Ora…deita-te! Fecha os olhos, e pede ao João Pestana que te dê soninho.
RAPAZ – Não consigo.
BORBOLETA – Pára de resmungar e fecha os olhos. Amanhã é outro dia, e terás outras ideias.
RAPAZ – Ai, que nerrvoooossss…!
BORBOLETA – Deita-te e conta até dez. Respira…e não penses nas palavras que não encontras. Não penses em nada.
NARRADORA 1 – Com a magia das asas da borboleta, ele adormece e sonha…
NARRADORA 2 - Sonha que anda atrás das palavras que aparecem em forma de borboletas.
NARRADORA 1 - Milhares de palavras diferentes, lindas, a voar felizes, diante dos olhos dele.
NARRADORA 2 - Ele tenta apanhá-las com a rede, com as mãos, corre atrás delas, mas elas não se deixam apanhar, pousam na sua cabeça, mas deixa de as ver.
(Acorda sobressaltado e grita).
RAPAZ (grita, nervoso) – Nem nos sonhos vos consigo apanhar.
                                                           Cena 5
(De repente, ouvem-se muitos passos, muitos risos, e muitas palavras soltas)
RAPAZ – Estou a ouvir passos! E…risos…
MÍMICA
O quarto é invadido por personagens de livros, que conversam umas com as outras, riem, dançam, saltitam, cada uma faz coisas diferentes.
RAPAZ – O que é isto?
BORBOLETA – Não perguntes nada…aproveita!
RAPAZ – Mas…
PALAVRA 1 (feliz) – Meninas, é agora!
CORO DE PALAVRAS (sorridentes, gritam) – Boa!
PALAVRA 2 (feliz) – Finalmente, novas amigas e imagens, e sons…
PALAVRA 3 (sorri) – Áhhh…olha aquelas que lindas!
PERSONAGEM 1 – Olhem, palavras…estamos num sítio diferente!
TODAS – Uau! Éhhhh…
RAPAZ – Quem são vocês?
PERSONAGEM 2 - Vivemos todos num grande livro!  
PERSONAGEM 1 – Nós viemos descansar e passear!
PERSONAGEM 6 - Estamos cansados de ser folheados.
PERSONAGEM 3 – E de entrar e sair.  
PERSONAGEM 4 – Viemos conhecer sítios diferentes.

PERSONAGEM 5 – E de silêncio!

PERSONAGEM 1 – Anda connosco! 
                                                                       Cena 6
(Uma personagem dá uma caixa em forma de livro. Ele folheia, sentado no chão, e segue as personagens, sorridente e feliz).
MÍMICA (personagens: borboletas, nuvens, vento, palavras, letras)
Palavras que voam como borboletas desajeitadas, outras chocam com nuvens, outras são sopradas pelo vento, e caem ou correm, tentam segurar-se com as mãos. Cruzam-se com outras palavras, umas vão para um lado, outras para outro, separam-se pelo caminho, dançam, saltitam, brincam, riem. Fica tão feliz que levanta-se e entra na brincadeira com elas. No fim da música:

RAPAZ – Finalmente, encontrei as palavras outra vez, e voltei a escrever coisas lindas! Muito obrigado, livros e palavras!

FIM
Lálá
(17/Janeiro/2015)