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domingo, 19 de junho de 2016

As botas

Lara Rocha 

Era uma vez uma família de andorinhas que emigrou do seu país de origem pelas alterações climáticas, que tornaram o ar da cidade muito poluído, com ondas de calor insuportáveis daquelas que nem dava para mexer uma pena…e muitos ficaram doentes porque em vez de boa comida e água limpa, passou a haver toneladas de lixo.
Voaram milhares de quilómetros, pararam em vários sítios que gostaram para descansar, mas decidiram continuar, até que chegaram a uma aldeia no meio de uma montanha muito alta, com muito poucas casas, muitas árvores, e gado a pastar.
O vento estava forte, apesar de sol. Viram uma fonte, beberam, refrescaram-se, e pousaram na relva macia, debaixo de uma árvore à sombra. Olharam em volta, respiraram e gostaram do ar, do silêncio quase total que já não ouviam há tanto tempo, sentiram paz, e que era ali!
Tinham encontrado finalmente um sítio que reunia tudo o que queriam, procuravam…quer dizer…só faltava uma casa! Haviam de encontrar, mas primeiro quiseram descansar…estavam tão cansados que nem ouviram os movimentos e as vozes das pessoas. Só acordaram quando a fome apertava, e comida não faltava! Estavam mesmo em paz.
Quando se sentiram mais fortes foram conhecer a floresta à procura de um ninho, e tudo era lindo: as flores, as árvores, as fontes, os animais, os sons e as cores que os rodeavam…até que viraram as cabeças e viram umas botas grandes que tinham ar de ter sido abandonadas! E estavam mesmo abandonadas. Tinham sido deixadas por um dos humanos por estarem velhas.
Elas não sabiam que o que estavam a ver eram botas, só que já tinham visto muitas nas cidades por onde passaram à beira do lixo. Espreitaram, não cheiravam a nada e por dentro estavam boas.
As andorinhas não procuraram mais, pois já estavam habituadas a ter de se desenrascar, inventar e criar habitações, meios de sobreviver e de se protegerem. Aproveitaram o par de botas e puseram-nas encostadas a uma árvore muito grande, velha, com um grande buraco no tronco.
Usaram tudo o que precisavam e mais gostavam para o ninho que ficou dentro do tronco, muito espaçoso e aconchegante, confortável. Uma bota pousada num ramo de uma árvore serviu de teto para tapar o ninho e a outra bota serviu de porta que elas puxavam nos dias de tempestade e frio.
Estavam maravilhosamente bem instaladas e sossegadas, rapidamente conheceram outras andorinhas que também tinham fugido e que se instalaram nas árvores à volta, quase parecia um condomínio fechado, onde todas eram como família, e usavam às vezes a bota da porta para abrigar, quando havia convívios nos dias frios e chuvosos. Todas partilhavam coisas umas com as outras, o que precisavam, todas ajudavam e faziam muitas festas.
Quando chegou a altura de ovos e bebés, a bota de entrada serviu muitas vezes de infantário onde estavam sempre acompanhados e vigiados por adultos que se revezavam enquanto iam buscar comida.
Umas fadas gostaram tanto da ideia das andorinhas que preparam uma surpresa para todas. Arranjaram mais pares de botas que estavam velhas e transformaram-nas em autênticos prédios para andorinhas, espaçosos, climatizados com uma temperatura sempre agradável que todas suportavam bem, com janelas que abriam e fechavam, infantário, parque e centro de convívio para as andorinhas mais velhas…depois, estes prédios abrigaram outros pássaros de outras espécies que eram sempre muito bem recebidos.

O que alguns deitam fora só porque estão com um aspeto menos bonito, outros aproveitam!

                                                           FIM
                                                           Lálá
                                                    (17/Junho/2016)
   

   

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A aldeia de croché

Era uma vez uma senhora muito velhinha, há muitos anos atrás que se lembrou de ocupar o seu tempo livre, desde que era criança, e enquanto foi mais jovem, até as suas mãozinhas começarem a ficar encarquilhadinhas e doridas, fazendo peças em croché.
Esta atividade tinha começado com a sua bisavó, que já tinha ensinado á sua avó e à sua mãe, e esta última à senhora, muito comum na maioria das famílias. Todas as mulheres se reuniam na aldeia, de todas as idades, nas casas umas das outras, e nas eiras à sombra, ou nos campos, nos intervalos de outros trabalhos.
Era lindo ver tanta geração a fazer coisas tão bonitas, com tanta delicadeza, amor, gosto e perfeição, enquanto conversavam durante horas, riam, rezavam, cantavam, e depois de fazerem mais mil e uma coisas.
Cada uma fazia o que queria…toalhas, almofadas, rendas, apoios, lençóis, cobertas, paninhos para cestinhos, até que as gerações mais novas começaram também a inventar «pessoas» em croché, e a juntar outras materiais, para fazer bonecas de todo o tipo, lindas.
As bonecas pareciam mesmo «pessoas» umas enormes, outras médias e mais pequenas, com todos os pormenores: cabelos, olhos, nariz, boca, braços, mãos, dedos, pernas… almofadavam com espuma, penas ou restos de lãs, e tecidos, vestiam-nas com roupas em croché de outras cores, e até tinham sapatinhos em croché de todas as cores.
Nenhuma boneca era desperdiçada, mesmo aquelas que não eram tão perfeitas, ou que tinham alguns «erros» de construção, porque como quem as construía dizia…a sociedade também tem pessoas imperfeitas.
Esta ideia inspirou-as e construíram bonecas em croché com cadeiras de rodas, andarilhos, muletas, bengalas, óculos, membros mais curtos que outros…tal como elas viam entre as pessoas da cidade, e na própria aldeia.
Depois lembraram-se de experimentar fazer casas e meios de transporte, árvores, flores, montanhas e animais em croché. Gostaram tanto da experiência que foram experimentando cada vez mais coisas novas, e conseguiram construir uma verdadeira «cidade em croché».
Num dia em que se lembraram de juntar todas as peças que já tinham feito, perceberam que já tinham uma cidade, e quiseram expor. Todos ficaram muito surpresos e maravilhados.
As fadas foram as primeiras visitantes e adoraram, decidiram dar um prémio pela dedicação delas, e gosto, as peças de croché não eram simples pedaços de croché expostos e imóveis, puseram logo tudo em movimento com os seus poderes mágicos!
Todas as peças mexiam e faziam sons, principalmente as peças da natureza, parecia um presépio animado, e todas as mulheres que construíram esta cidade de croché ficaram muito felizes, parecia que tinham voltado a ser crianças.
O Presidente da Câmara divulgou pelas cidades, e a aldeia encheu-se de milhares de visitantes que fotografavam, queriam comprar tudo…mas como elas não queriam vender, os visitantes encomendavam e pagavam bem. Não tiveram mais sossego, mas também ganharam muito dinheiro.
Com esse dinheiro ajudaram-se uns aos outros, porque era uma aldeia pobre, no inicio, construíram coisas que faziam falta, melhoraram as condições das casas, mesmo assim continuaram a ser as pessoas simples que sempre foram, e a dedicar-se ao croché.
Foi assim que nasceu a Aldeia de Croché que fez para sempre as delícias de quem visitava…que pareciam voltar à infância e à magia. Mulheres inspiradoras, com mãos de fada, e amor pelo que faziam.     

E vocês?
Conhecem croché?
Conhecem alguém que faça croché?  
Conseguem imaginar uma cidade com pessoas e casas…tudo feito em croché?
Gostavam de visitar essa cidade?

FIM
Lálá

(13/Junho/2016)

terça-feira, 17 de maio de 2016

Os coelhinhos curiosos



Era uma vez três coelhinhos: um de pelo branco, outro de pelo cinzento e outro de pelo preto. Passeavam pela floresta aos saltinhos, a cantarolar, e a colher flores. De repente, quando olharam para o chão viram umas bolinhas vermelhas grandes, que não conheciam.

Cheirava-lhes a doce, e viram uma série de pássaros de volta das bolinhas vermelhas, a debicá-las, deliciados, até lutavam uns com os outros, porque não ficavam satisfeitos com uma só.

Os coelhos apanham um grande susto, quando veem que por cima deles, no céu, uma enorme águia que se aproxima rapidamente do solo, e aterra.

Todos os pássaros mais pequenos chilreiam nervosos, e fogem, quando veem a sombra da enorme águia, escondendo-se silenciosamente para não serem descobertos.

Os coelhinhos espreitam discretamente, atrás de uma árvore. A águia sente que está a ser observada, vira-se para trás e olha para todo o lado, e eles escondem-se outra vez.

A águia cheira e caminha pelo solo, os coelhinhos pensam em fugir, caem, chocam uns com os outros, caem mas levantam-se logo, e por sorte, os coelhinhos conseguem esconder-se numa toca, mesmo a tempo.

A águia quase os apanhava, mas como não os viu, segue caminho, a comer as bolinhas vermelhas. Os coelhinhos saem da toca, espreitam outra vez e ficam muito surpresos, respiram de alívio.

- Ufa! – Dizem todos

- Que susto! – Diz o coelhinho branco

- Pensei que íamos ser devorados… - Diz o coelhinho cinzento

- Engolidos vivos! – Diz o coelhinho preto

- Áh! – Exclama o coelhinho branco

- O que foi? – Perguntam os outros

- A águia comeu as bolinhas vermelhas! – Repara o coelhinho branco

- Áh! – Exclamam todos

- E serão de comer? – Pergunta o coelhinho cinzento

- Elas cheiram a doce! – Diz o coelhinho preto

- Mas pode ser perigoso. – Lembra o coelho branco

- Pois é! Às vezes tem um aspeto muito bonito, cheira bem…mas é venenoso, como alguns cogumelos que temos aqui na floresta, são perigosos para os humanos, e para nós também. – Alerta o coelhinho preto

- Os passarinhos também as comeram antes da águia aparecer. – Lembra o coelhinho cinzento

- Pois! – Dizem todos

Os passarinhos voltam a aparecer aliviados e pousam numa cesta. Os coelhinhos escondem-se atrás da árvore outra vez porque pensam que a águia vai aparecer, e espreitam… Veem os passarinhos a debicar na cesta deliciados, e caem algumas bolinhas vermelhas.

- Ei…tantos pássaros!

- São os mesmos de há bocado e muitos mais!

- O que é aquilo?

- É uma cesta!

- O que tem a cesta?

- Os pássaros estão a comer a cesta?

- A cesta? Claro que não. A cesta não se come.

- Mas a cesta tem alguma coisa que se come!

- De certeza!

- Olhem, mais bolinhas vermelhas.

- Estão no chão!

- Então…deve ser isso que tem a cesta.

Os coelhinhos ficam muito surpresos, olham-se entre si, e decidem perguntar aos passarinhos o que são aquelas bolinhas tão bonitas, grandes, vermelhas e que cheiram tão bem a doce. Saltitam e vão ter com os passarinhos.

- Olá! – Dizem os passarinhos simpáticos

- Olá! – Respondem os coelhinhos a sorrir

- Viram a águia? – Pergunta um passarinho

- Vimos! – Respondem os coelhinhos

- Nós também. – Dizem os passarinhos

- Tivemos muito medo. – Reconhecem os coelhinhos  

- Nós também. – Concordam os passarinhos

- Escondemo-nos logo. – Dizem os coelhinhos

- Nós também. – Respondem os passarinhos

- Pensamos que íamos ser devorados. – Diz o coelhinho branco

- Nós também. – Respondem os passarinhos

- E por falar em devorar… - Tenta o coelhinho cinzento

- São servidos? – Pergunta um passarinho

- O que é isso? – Perguntam os coelhinhos

- Não conhecem? – Perguntam os passarinhos

- Não! – Respondem os coelhinhos

- São cerejas. – Dizem os passarinhos

- Cerejas? – Perguntam os coelhinhos

- Sim, cerejas! – Confirmam os passarinhos

- Não acredito que nunca provaram. – Comenta um passarinho

- Não. – Reforçam os coelhinhos

- Isso é bom? – Pergunta o coelhinho cinzento

- Maravilhoso! – Respondem os passarinhos

- Provem. – Convida um passarinho

- Isso é de comer? – Pergunta o coelhinho cinzento, desconfiado

- É! - Dizem todos.

- Só o caroço, esta parte dura…não se come! – Explica um passarinho

- A águia também as comeu. – Lembra o coelho preto

- Claro! – Dizem todos

- Áh! Estas são as bolinhas vermelhas que a águia comeu? – Pergunta o coelhinho branco

- São! – Afirmam todos

Os coelhinhos observam os passarinhos a comer, e experimentam, imitando-os.

- Hummm… - exclamam os coelhinhos

- São ótimas não são? – Pergunta um passarinho

- São!

- Vamos comer, antes que venha outra vez a gigante.

E os animais apanham uma barrigada de cerejas, enquanto conversam alegremente, riem, e atiram os caroços para o chão, por todo o lado. A águia volta a voar nesse espaço, e todos se escondem nas árvores…ficam em silêncio para não serem descobertos. A águia aterra e fica furiosa quando vê a cesta vazia, e os caroços por todo o lado.

- Malditos! Se os apanho…já tenho almoço e jantar…petiscos para uma temporada Coelhos e pássaros. Há bocado cheirava-me a coelhos, mas como é que não os vi…? Onde é que eu agora vou arranjar outras cerejas? A minha princesa vai ficar furiosa e impaciente. Nem uma flor vai recompensar. Óh…vou desiludi-la. – Grita a águia, tão forte que até faz tremer o chão. Os animais encolhem-se.

Outra águia mais pequena leva a águia grande a um campo onde existem muitas cerejeiras, cheias de cerejas gigantes, apetitosas. As duas dirigem-se para lá, e quando os animais veem as duas águias a levantar voo, saem das tocas, e vão à procura desse campo.

- Óh! – Exclamam todos

- Que campo maravilhoso! – Dizem os pássaros

- Tantas cerejas! Uau! – Exclamam os coelhos

- Somos daqui de perto, mas não fazíamos ideia de que este campo tinha tantas cerejas – Exclama um passarinho

- Às vezes andamos muito distraídos – diz o coelho branco

- Passamos sempre a correr, ou é porque não saímos muito do mesmo sítio. – Diz o coelho cinzento

- Pois! – Concordam todos

Os coelhos abraçam as cerejeiras, dão as patinhas à volta dos troncos mais largos, e encostam-se a eles. Os passarinhos acham tão bonito, que se juntam e fazem o mesmo, a chilrear alegremente.

Depois, brincam, correm entre as árvores e rebolam no campo, caem, escondem-se sempre que veem as águias a voar, e saem das tocas quando elas passam, bebem numa pequena fonte, e debicam mais algumas cerejas deliciosas.

Umas famílias de toupeiras e grilos, vão à superfície, apanham os caroços de cerejas que os outros animais deixaram e metem-nos debaixo da terra.

Passado uns tempos, e de forma misteriosa nascem raízes de cerejeiras que não aparecem à superfície, mas alimentam os animais subterrâneos.

E vocês gostam de cerejas?

Desenhem cerejas, ou as personagens que quiserem da história.     

FIM

Lálá

(12/Maio/2016)

 


Uma luz para o mundo

                                                                 foto de Lara Rocha 

Era uma vez num cantinho da nossa linda bola azul, uma criança, e uma mulher Adulta com uma criança interior bem viva; era tão pura e inocente como a criança pequena que estava consigo, ao seu lado.
A criança disse à mulher adulta diante da lua cheia gigante, num acampamento, que o seu maior desejo era paz para o mundo, e ficava muito zangada porque ainda não tinha conseguido.
Esse era o mesmo desejo da jovem mulher que sorriu, e desafiou a criança a fazer um convite ao mundo…acender uma vela e pedir ao universo. As duas acenderam uma vela pequenina e pediram com toda a sua força. O vento soprou e levou duas chamas pequeninas que ardiam nas velinhas, que continuaram acesas.
As chamas deram as mãos e pararam no vizinho do lado, transformaram-se em duas mulheres luminosas, e passaram o convite…cada um acender uma vela pela paz no mundo. Os vizinhos aceitaram imediatamente, e toda a família acendeu uma vela, e pediu ao universo…PAZ.
As chamas de cada vela foram dando as mãos, e pedindo de porta em porta. A corrente de chamas representada pelas velas tornou-se cada vez maior, maior, e maior…tão grande se espalhou por todas as cidades, vilas, aldeias, praias e montanhas.
O universo inteiro viu e ficou maravilhado com aquela corrente de velas. Por onde as chamas passaram de mãos dadas, todos rezaram e pediram paz à sua maneira.
Quando chegaram aos países em guerra, os soldados pararam e olharam para um coração em chamas que apareceu no chão, e circulou diante deles, as chamas abraçaram-se e formaram um sorriso, depois escreveram a palavra PAZ, com a imagem de uma criança e uma mulher, feitas de estrelas.
Os soldados choraram e ajoelharam-se, calaram-se as armas e ouvia-se o silêncio… quebrado pelos choros e rezas dos soldados. As chamas choraram ao ver tanta destruição, e ao sentirem tanta raiva, dor e ódio nesses sítios.
Enquanto as chamas estiveram nesses locais houve paz, mas logo que saíram de lá, tudo recomeçou!
- Um dia, os nossos pedidos serão ouvidos e haverá paz, não guerra! Uma vela só, pode ser insignificante, mas muitos desejos, e muitas velas, iluminarão as mentes e o mundo mudará! Nós acreditamos que sim. – Diz a jovem
Cada um de nós pode acender muitas velas mentalmente todos os dias, e desejar que a guerra acabe…fazendo a paz nas mais pequenas coisas, e momentos…
A criança e a jovem abraçam-se, fundem-se, transformam-se em luz e de repente desaparecem…elas andaram por todo o lado a espalhar e a pedir uma luz para o mundo!

FIM
Lálá
(10/Maio/2016)
PARA PENSAR…
E vocês? Espalham luz, ou guerra?
Acham que recebemos mais luz, ou damos mais luz? Como se sentem quando dão luz aos outros e ao mundo? E quando recebem luz?
Experimentem fazer correntes de chamas, e sejam a jovem e a criança que espalharam luz pelo mundo.



segunda-feira, 16 de maio de 2016

A mãe candeeiro


Era uma vez um candeeiro num jardim público, que tinha uma estátua de mulher a segurar uma bola de luz nas mãos, e estava pousada debaixo de uma árvore centenária muito frondosa, com um tronco muito grosso. Aí estava protegida, e a sua luz iluminava todo o jardim, aquecia a árvore, e as folhas.
Debaixo do candeeiro, talvez pela sua forma feminina, instalavam-se todas as noites, vários elfos e fadas, gatos e às vezes cães vadios, borboletas, e aves que se enroscavam, encostavam e abraçavam-no.
A estátua do candeeiro era muito carinhosa, e ganhava vida para seres especiais, e quem ela aconchegava, abraçava, protegia, aquecia, conversava e fazia companhia. Era adorada por todos e a intensidade da sua luz aumentava e diminuía conforme as necessidades.
Um dia, uma ave de rara beleza voava aflita à procura de um lugar seguro onde fazer um ninho para chocar os seus ovos. A mãe candeeiro, como lhe chamavam, perguntou à ave se precisava de ajuda. A ave explicou-lhe tudo, e logo lhe arranjaram um maravilhoso ninho, grande, confortável e vigiado.
A ave instalou-se e descansou. Esteve vários dias em que ao buscar comida e voltava, enquanto isso, todos tomavam muito bem conta dos ovos, a mãe candeeiro aquecia-os com a sua luz e as fadas flores tapavam os ovos com as suas pétalas macias para proteger dos perigos.
Chegou o grande dia. Os ovos começaram a estalar, e os passarinhos saíram muito trôpegos, sem penas. Todos assistiram muito entusiasmados, e enternecidos, ao ver a ave mãe toda carinhosa e orgulhosa, feliz, aplaudiram e além da ave mãe, os bichinhos receberam muito amor e carinho da mãe candeeiro e de todos.
Acompanharam e festejaram todos os pequeninos voos, primeiro muito desajeitados, depois grandes, abertos e maravilhosos, o nascimentos das penas, desde as primeiras até ás últimas, que ficaram tão bonitas como as da mãe, deixando encantado quem via aquela explosão de cores, e bailados maravilhosos.
As fadas e os elfos ensinaram muito aos pequenitos, brincaram muito com eles, e construíram uma verdadeira família do coração, muito felizes. A bela ave os filhos nunca mais abandonaram esse lugar, nem a mãe candeeiro que estava sempre atenta, aquecia e cuidava de todos.
FIM
Lálá

(9/Maio/2016)

Onde estão os tesouros?




Foto de Lara Rocha 

Era uma vez um anãozinho que vivia numa floresta pequena, que ficava num vale de uma montanha muito alta onde pastavam e circulavam famílias de cavalos, ovelhas, lobos e outros. Ainda que pequenina, tinha muitos habitantes, e tantas casinhas que parecia uma mini cidade. Tinha tudo!
Como a floresta era pequena todos os habitantes se conheciam e conviviam muito, faziam muitas vezes piqueniques, passeios até à montanha, bailes, festas e serões com espetáculos de música, cor, magia e dança oferecidos pelos artistas da aldeia, fadas da natureza que andavam por todo o lado e eram mais que os habitantes.
Um dia o anãozinho viu o arco-íris no cimo da montanha e desde pequenino que sonhava agarrar o arco-íris, ou apanhá-lo e guardá-lo numa garrafa para olhar sempre para ele, já que o achava tão bonito.
Todos lhe diziam quando ele partilhava essa vontade que era impossível, que nunca ia conseguir fazê-lo, mas ele e a criança que já foi um dia, e vivia nele, desafiou-o a tentar porque onde fosse visto um arco-íris, certamente haveria um tesouro!
Ele imaginava um baú cheio de pedras preciosas, cristais, dinheiro…e queria isso tudo. Aceitou o desafio e pôs pés ao caminho! Subiu a montanha na direção em que lhe parecia estar o arco-íris, sempre a olhar para ele, muito atento. O arco-íris mudou de posição, e mudava sempre que ele se aproximava e achava que tinha chegado ao tesouro.
Ele correu a montanha toda, subiu-a e desceu-a várias vezes no mesmo dia, atrás do arco-íris, e nunca encontrou tesouro nenhum. Ficou muito nervoso e zangado que começou a gritar até ficar quase sem voz. Os lobos olharam para ele, uivaram e desataram às gargalhadas. Depois perguntaram porque gritava daquela maneira. Ele disse que andava atrás do tesouro que o arco-íris trazia consigo.
Uma fada explicou-lhe que o tesouro do arco-íris era ter olhos, poder ver, a família e a natureza. Voltou para casa, parou e depois de lhe passar a raiva e a desilusão de não ter encontrado nenhum tesouro, pensou no que a fada lhe tinha dito…percebeu que ela tinha toda a razão. A fada disse-lhe que os tesouros materiais não são os que devemos procurar.
E lembrou ao anãozinho que não há maior tesouro que a boa saúde. Ter olhos para ver todas as belezas e maravilhas ao nosso lado, e por todo o lado; um coração a bater, cheio de amor, carinho e bondade para dar.
Ter pernas ou ajudantes como muletas, bengalas, cadeiras de rodas ou andarilhos para andar; braços para envolver, abraçar e mãos para segurar, acariciar, dar…boca para sorrir e dizer palavras bonitas; ouvidos para ouvir os sons e os outros, e sonhos para sonhar, viver, acreditar e lutar. Ter uma cabeça com pensamentos positivos, família, amigos e natureza.     
Todos temos vários tesouros que transformam a nossa vida diária em arco-íris. O anão sorriu, voltou a subir à montanha e gritou bem alto um longo e poderoso OBRIGADO!
Ele tinha afinal muitos tesouros…muito mais valiosos do que aqueles que imaginava encontrar nos baús. A partir desse dia, o Anão aprendeu a apreciar a natureza, sem querer agarrá-la com as mãos, mas guardava cada detalhe que via, nos seus olhos, e que lhe faziam nascer grandes sorrisos luminosos.
A cada coisa bonita e maravilhosa, especial e diferente que ele via, agradecia à Natureza, e esta compensava-o com as suas belezas, magias, e dando-lhe tudo o que ele mais precisava…percebeu que o que tinha era suficiente para o deixar feliz, e afinal…tinha muito mais do que aquilo que imaginava e desejava.
FIM
Lálá

8/Maio/2016

domingo, 1 de maio de 2016

A lua que sorriu a dormir




        Era uma vez uma lua que vivia no Universo, muito lá em cima, que costumava ouvir todas as noites milhares de histórias que mães, pais e avós liam a crianças antes de elas dormirem. 
Ela ouvia e sorria, mas não prestava atenção em nenhuma em especial, porque eram tantas que se perdia, mas gostava muito dessa barafundas de vozes, gritinhos e risos dos adultos que tentavam dar mais intensidade ao que liam, e das crianças que se riam dos exageros ou gritavam de sustos.
Uma noite, já era muito tarde e todas as crianças dormiam, a lua adormeceu e sonho como sempre, mas este sonho foi diferente. Ela sonhou que estava a passear pelo espaço, encontrou uma nuvem muito fofa, escura, e parecia leve, que não conhecia, mas logo se tornou amiga dela, e levou-a nas suas costas.
Quando ia nas suas costas, a nuvem rebentou e a lua ficou a pairar. Do interior da nuvem espalharam-se muitas gotinhas de água que congelaram, e transformaram-se em cristais, que flutuaram por todo o espaço, à volta da lua, e á sua frente…outras gotinhas de cristal quando passaram perto do sol brilharam, estouraram e transformaram-se em arco-íris.
Dos arco-íris, saltaram muitas estrelinhas brilhantes que se colaram a um planeta que ia a passar, e tornou-se gigante quando engoliu ou aspirou as estrelinhas. A lua ficou muito zangada com o planeta, e ralhou com ele, mas ele disse-lhe que tinha fome.
A lua enviou um raio que fazia cócegas para o planeta, que não conseguia parar de rir, torcia-se, até dava cambalhotas, e assim todas as estrelas que o planeta tinha engolido conseguiram sair. O planeta teve de procurar outras coisas para comer.
Para agradecer de terem sido salvas, as estrelas abraçaram e beijaram a lua, cantaram para ela e dançaram em roda, e foram com ela de mãos dadas para as nuvens, onde encontrou um grupo de palhacinhos, com roupas muito coloridas, que tocavam instrumentos, davam cambalhotas e saltos, brincavam com bolas, e aplaudiu-os.
As estrelas e a luz pousaram no planeta terra. Viram as suas imagens refletidas nas águas dos lagos, no mar, nos rios, e nas janelas. Coraram por ver tanta gente a olhar para elas e sorriram.
O João Pestana que vinha de fazer a sua distribuição de soninhos pelas crianças, atirou para a lua um saco cheio de sonhos e desejos de meninos.
Uns rapazes artistas, solitários sopraram palavras para a lua, aquelas que escreviam…outros desenharam-na e pintaram-se com ela, e outros atiraram-lhe rosas vermelhas.
As palavras mais bonitas, a lua guardou-as, as mais violentas ou mais tristes, as estrelas empurraram-nas para o chão, e o vento não deixou que chegassem perto da lua.
Uns casais jovens românticos, que estavam nas praias, e á beira dos rios, escreveram nas suas mentes, sonhos, fantasias e medos, a lua leu e sorriu de tanta inocência.
E quando chegou a um monte ficou em silêncio…estavam alcateias reunidas a olhar para ela. Ela ficou com medo. Os lobos, um por um, um a seguir ao outro, ajoelham-se e uivam com a alma. Ela arrepia-se e sorri, os lobos começam a cantar para ela.
Mais à frente, ela fica emocionada…e sentiu muito medo, quando as estrelas lhe mostram um país em guerra. Ouviu adultos e crianças a chorar, a rezar e a pedir proteção, paz…Não conseguiu segurar as lágrimas.
Furiosa, lançou raios por todo o lado, que fizeram derreter todas a maldade dos homens, todas as armas, criou alimentos, luz, água, casas com todo o conforto, e juntou famílias que estavam separadas por causa da guerra. A cidade ficou reconstruída e todos viveram em paz.
Para agradecer, os habitantes fizeram uma grande festa, trocaram abraços, beijos, presentes, palavras simpáticas, muitos sorrisos e lágrimas de alegria, pedidos de perdão, e correntes humanas de mãos dadas com pensamentos de paz e de gratidão para a lua.
Todos os que estavam á volta da lua, muito lá em cima, viram que ela estava a sorrir a dormir. Ela abriu os olhos e ainda estava a sorrir. Todos sorriram com ela, e perguntaram-lhe porque estava a sorrir.
Ela respondeu-lhes que teve um sonho…sonhou muitas coisas boas, recebeu prendas e carinhos, mas o que a fez sorrir mais, foi a parte em que com os seus raios acabou com a guerra, reconstruiu uma cidade inteira, onde derreteu toda a maldade e fez nascer a paz.
Foi mesmo só um sonho, mas fê-la sorrir a dormir, e por isso, enquanto durou esse sonho onde ela sorriu, de certeza que se sentiu feliz, e desejou que coisas boas acontecessem no lindo planeta terra que ela vê todos os dias da sua casa.
Onde é que ela teria ido buscar as ideias para este sonho que a fez sorrir a dormir? Quem sabe…aos pedaços de histórias que ela ouve todas as noites, misturadas… é assim que são os nossos sonhos…misturas…onde tudo pode acontecer.
E vocês? Já sorriram a sonhar? De quê? Lembram-se? Que sonhos é que acham que vos podiam fazer sorrir como a lua?

Fim
Lara Rocha 
(1/Maio/2016)