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quinta-feira, 26 de junho de 2025

A menina pequenina que calçava sapatos altos

   Era uma vez uma menina que adorava brincar às princesas. Achava que era uma princesa! Pedia à mãe para a vestir sempre como as princesas, calçar-se como as princesas, de sapatinhos finos e tacão alto, cor de rosa, brancos, brilhantes, às vezes amarelos a condizer com o vestido. 

    Brincos da mesma cor, cabelinhos enfeitados a rigor, com lacinhos e ganchinhos ou elásticos da mesma cor do vestido. 

   Pinturas na carinha, nos olhinhos, nas bochechas, brilhantes, como as princesas usavam, casaquinhos de gala, e até uma carteirinha que parecia uma senhora, quer dizer, uma princesa como ela achava que era. 

     Os chinelinhos de quarto também tinham tacão, porque todos os da sua família, achavam graça, estava na idade das princesas, e ficavam encantados ao vê-la vestida assim, calçada daquela maneira, e pintada, a parecer uma senhora. 

   Mas passados uns tempos, a menina queixou-se dos pés, que lhe doíam, como não sabia dizer, ao assentar os pés no chão, gritava de dores, e punha-os em bicos. 

  A mãe reparou que os dedos e o peito do pé estavam feridos, e pareciam inchados, dobrados, não assentavam no chão. 

   A menina mal conseguia andar. Então, a mãe levou-a ao médico, e este disse que ela tinha os pezinhos realmente feridos, inchados e dobrados, mas nem ele percebia porquê. 

    A mãe disse que ela era uma princesa, adorava brincar às princesas, vestia-se como elas, calçava-se como elas, com saltos altos, pintava-se como elas. 

    O médico fica estático e pensativo: 

- De saltos altos, esta criança? 

- Sim, Doutor, faz parte da idade, não é? 

- É. Mas a mãe alimenta essa fantasia? 

- Sim. Também já fui da idade dela, gostava de princesas, e de ser parecida com elas. 

- E também andava de saltos altos? 

- Sim, algum tempo andei, mas depois proibiram a minha mãe de me calçar sapatos altos, porque estavam a deformar os meus pés. 

- Pois, é o que está a acontecer com a sua filha. 

- A sério, Dr.? 

- Sim. A menina é uma menina, não é uma princesa na vida real. Deixe-a sonhar e imaginar, mas tire-lhe os sapatos altos. Além de não ter idade, os pés dela estão em desenvolvimento, com certeza que lhe estão a doer muito, neste momento. Se continuar a usar sapatos altos vai ficar com sérios problemas...olhe para os dedinhos dela...isto é dos sapatos. E esta parte...Tem aparecido aqui muitas meninas assim, com a mesmo ideia e com os mesmos problemas por usarem tacão alto. A menina tem de andar descalça, e pôr os pés no chão, na relva, na areia, desde que não esteja quente, e chinelos, rasos. Vai ter de usar chinelos, sapatilhas, fazer uns exercícios, colocar uns cremes, gelo, saquinhos de água quente, massagens, e só depois, quando o pezinho voltar ao normal é que vai usar os sapatinhos adequados para a idade dela, não os de princesa. 

- Entendi, Dr. 

    A mãe segue atentamente todas as indicações do médico, faz tudo o que ele recomendou, a menina grita e chora, quase não deixa tocar nos pés com dores, mas a mãe tenta distraí-la, e ela consegue ficar sossegada, sempre a chorar. 

- Princesa...não queiras ser princesa, combinado, pequenita! As princesas sofrem muito. Ficam muitas vezes com os pezinhos magoados, como os teus, deixa-os à vontade, está bem? - diz o médico 

- Mas eu quero ser princesa, eu sou princesa! Eu gosto de andar como elas, de me vestir como elas, de me calçar como elas. Elas são lindas. - insiste a menina triste 

- Eu sei, querida, também tenho filhas e sobrinhas da tua idade, elas adoram princesas, mas não são como elas, são meninas normais, bonitas como são, andam descalcinhas e adoram, andam de chinelinhos e adoram, andam de sapatilhas e sapatinhos, botinhas para a vossa idade, e não querem outra coisa. 

- Elas não usam sapatos altos? - pergunta  a menina 

- Não! Os sapatos altos fazem muito mal aos pezinhos das princesas e das meninas. - diz o médico 

- Fazem? 

- Fazem. Tu não queres ficar com os pezinhos magoados pois não? 

- Não. 

- Pois, são os sapatos de saltos altos que te fazem essas feridas. - explica o médico 

- Ahhh...não quero! - diz a menina triste 

- Não queres, o quê? - pergunta o médico 

- Ficar magoada...ter feridas. 

- Pois, bem me parece! Mas então para isso, vais ter de deixar de usar sapatos altos, está bem? - propõe o médico 

- Está bem. - diz a menina com grande tristeza 

- Não te quero ver triste, por causa dos sapatinhos de princesas...tu és uma menina, não és uma princesa, mas eu gosto muito mais de meninas do que de princesas! - diz o médico 

- Gosta? 

- Gosto. 

- O Dr. conhece as princesas? 

- Conheço, as minha filhas e as minhas sobrinhas apresentaram-mas, mas eu não gosto muito delas. Os pezinhos delas são...os teus e os das meninas verdadeiras são muito mais bonitos, perfeitos! 

- São? 

- São! 

- Então eu quero ter uns pezinhos bons. - diz a menina 

- Boa! Dá cá mais cinco...mas então, usas os teus sapatinhos, está bem? Deixa os sapatinhos de princesas com elas, e os sapatos altos. 

- Está bem, Dr. Vou deixar…

- Podes brincar às princesas, imaginar que és uma princesa, mas não uses as coisas, nem os sapatos delas, está bem? 

- Sim. 

   Quando tenta pousar os pés no chão, grita, a mãe e as terapeutas ajudam-na a pôr os pés no chão, põem-lhe gelo, saquinhos quentes, fazem massagens e exercícios, aos bocadinhos a menina lá vai conseguindo assentar os pés no chão, as dores, as feridas, o inchaço, vão diminuindo, e melhorando. 

    A menina consegue finalmente pousar os pés no chão, e sorri, ao senti-lo, caminha devagar, e salta alegremente, corre de um lado para o outro feliz. 

  Todos riem e aplaudem. Vão para a praia, e a menina adora sentir a areia nos pés, brinca com as mãos, molha os pés, tudo era novo para ela, principalmente sem sapatos de tacão alto. 

 Experimenta os chinelas rasos da idade dela, os sapatinhos e as botinhas, confortáveis, delicadas como os seus pés, sente-se feliz, calça sapatilhas, adora, e anda descalça. 

   A menina gostou tanto da experiência e da mudança, que não quis outra coisa! Esqueceu-se de que achava ser uma princesa, não quis mais ser como elas, nem andar como elas. 

   Adorava andar descalça, na terra, na relva, na areia, em casa, saltava, corria, cantava, ria, batia palmas, dançava, com pantufas, sapatilhas, em meias, de sapatilhas, de chinelos. 

    Inventou novas brincadeiras, para sentir a felicidade que é andar descalço, principalmente ao ar livre no jardim da sua casa, e dos avós, na praia e na casa das amiguinhas. 

E vocês? Gostam de andar descalços, ou descalças? 

Qual é o vosso calçado preferido? 

Gostavam de usar sapatos altos como as princesas? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem.

                                                        Fim 

                                                   Lara Rocha 

                                                  26/Junho/2025 

 

domingo, 1 de junho de 2025

Monólogo (ou leitura em forma de jogral coletivo) - Ser criança

 Ser criança…

Ser criança começa no desejo dos pais, em dar continuidade à longa história das famílias.

Ser criança é ser frágil, dependente, mas ao mesmo tempo...para os pais, avós, tios, tias, primos, primas, amigos, ser criança é fazer as delícias de quem a tem nos braços. 

Mesmo a dar muito trabalho aos pais, a criança é um ser cheio de compensações emocionais, encanto, recompensas, abraços, sorrisos fáceis e de gratidão sem palavras, olhares fixos, luminosos, brilhantes. 

Ser criança é ter colo, amor, afetos, mimos, carinho, compreensão, palavras de incentivo para crescer segura, apoio, diálogo, atenção, dedicação, brincadeira, companhia, satisfação das suas necessidades mais básicas e regras, «nãos» («não, porque...»). 

Ser criança não é ver todos os seus caprichos e manhas cumpridas, é também ficar amuada (o) por não lhe fazerem as vontades todas. É com isso, aprender a esperar e que não pode ter tudo o que quer. 

Ser criança é brincar livremente, sozinha, com outras crianças, com adultos, bonecos, brinquedos, e não usar telemóveis ou jogos eletrónicos. 

Ser criança é dar asas à sua imaginação, rir sozinha, rir com os outros, falar com os outros, com os seus bonecos, brinquedos, amigos e amigas imaginários, os bonecos da televisão. 

Ser criança é ouvir histórias fantásticas, dos pais, dos avós, dos tios e tias, dos primos e primas, das educadoras e professores, contadas e lidas por elas próprias. 

Ser criança é sonhar com o impossível, com magia, com fantasia, é ter sonhos acordada e a dormir, ter pesadelos, gritar, ir para a cama dos pais, chorar, chamar por alguém, sentir medos que fazem sentido, outros são imaginários, construídos pelo desconhecido. 

Ser criança é acreditar em personagens como se fossem verdadeiras, é fingir que são outras pessoas, personagens, isto ajuda à descoberta de si mesmas, à construção das suas personalidades, e acreditar em seres fantásticos. 

Ser criança é ser inocência, pureza, leveza, teimosia, desafios dos limites, e aprender a obedecer, cair e levantar mesmo que fique ferida, e sem pânico dos adultos, para aprender por elas próprias. 

Ser criança é jogar à bola, correr, saltar, dançar, rebolar, sujar-se, brincar, pintar, desenhar, conviver com a Natureza, e explorar, sentir o que existe à sua volta. 

Ser criança é tocar, cheirar, saborear, sentir, provar, experimentar, errar, ser elogiada, valorizada, repreendida quando passa os limites. 

Ser criança é seguir o exemplo dos adultos, no respeito pela diferença, aprender a viver com todos, a selecionar quem partilha os mesmos valores de respeito e amizade, carinho, dedicação, companhia.  

Ser criança é brincar com quem mais gosta, independentemente da cor da pele, raça, cultura, crença, país de onde veio, e aprender a viver com amor, no amor! 

Ser criança é sentir o vento na cara, e no cabelo, é espontaneidade, curiosidade, alegria, é molhar-se na chuva, e rir, saltar nas poças. 

Ser criança é dormir, é parecer estar ligada à tomada, riscar as paredes ou outros objetos, cantar, imaginar, escrever.  

Ser criança é ter em si todas as cores, todas as raças, todos os valores, por isso deixemo-las ser crianças saudáveis, deixemo-las brincar com bonecos e brinquedos até quando elas quiserem. 

Não há idades para deixar de brincar! Mas infelizmente nem todas as crianças vivem num mundo perfeito, nem podem festejar o seu dia, de hoje, como muitas. 

Crianças e pais que sofrem com doenças graves, que estão em hospitais, que vivem com medo, em países onde há fome e guerra, tristeza bombas em vez que brinquedos. 

Crianças que não vivem em casas, mas entre escombros, onde ficaram todos os sonhos, toda a infância que não é a que imaginavam, nem desejavam. 

Crianças que vivem em tendas, esconderijos, onde não veem o sol, onde não ouvem palavras de amor, nem histórias bonitas, não recebem carinho, não ouvem cantar, nem rir. 

Crianças que deixaram de saber sonhar, não ouvem o vento nem os risos, só lágrimas, dor, medo, pesadelos, incerteza. Crianças abandonadas, exploradas, maltratadas, desrespeitadas, usadas como objetos.

Crianças que são postas de lado por serem diferentes. 

Feliz dia das crianças, mesmo as que não podem festejar, e que no próximo dia das crianças, tudo esteja melhor, com as crianças que não têm infância. 

Nota: podem completar este texto com o «Menino sei porque choras». 

                            FIM 

                         Lara Rocha 

                        1/Junho/2025 

terça-feira, 13 de maio de 2025

O pequeno pavão

    



foto tirada por Lara Rocha 

 
     Era uma vez um pavão pequenino que viu a sua imagem refletida num lago do jardim. Ficou imóvel a olhar para a imagem: 

- Quem é esta criatura na água? Que ser estranho! Está a olhar para mim e a repetir o que eu digo...mas eu não o oiço. 

    Dá uma bicada na água e o seu reflexo desaparece, formando pequeninas ondulações. 

- Nunca outra vi, desapareceu? 

    Olha outra vez e volta a ver a imagem. 

- Apareceste outra vez? 

    O reflexo não responde. 

- Estás a gozar comigo, é? Eu não acho piada nenhuma, por estares a repetir tudo o que eu faço e tudo o que digo. Porque é que estás aí? 

    O reflexo não responde. O pequeno pavão fica nervoso, vira-se de lado e no reflexo vê as suas lindas penas traseiras, brilhantes na água, abana-se, o reflexo faz tudo. Começa a gritar nervoso, e aos saltinhos com os olhos muito abertos assustado: 

- Agora tenho olhos atrás? O que é isto? 

    Salta, olha para a água e lá está o seu reflexo, com as pequenas penas a abanar. Grita, sacode-se, salta nervoso e assustado. Corre a abanar-se, os outros animais observam-no intrigados e a rir: 

- O que é que lhe está a dar? - comenta um macaco às gargalhadas 

- Realmente...ele não parece nada bem! - diz um esquilo que estava a saborear uma noz. 

- Está para ali aos gritos, a sacudir-se, a correr, a saltar...vou  perguntar-lhe se está tudo bem com ele - diz um coelho a rir-se

- Parece que tem algum inseto a chateá-lo ou a picá-lo! 

    Aproxima-se do pavão:

- Então moço? O que se passa? Estás muito agitado! 

    O pavão continua a saltar, a gritar, não responde ao coelho e vai a correr para a beira dos pais: 

- Pai, Mãe, está um bicharoco dentro da água do lago a olhar para mim, a imitar tudo o que eu digo e faço. Depois...desaparece, volta a aparecer. Virei-me de lado, olhei para a água e lá estava ele a imitar-me. Mas agora vi que tenho ramos de árvores colados ou espetados nas costas, ou mais abaixo, ainda por cima com umas centenas de olhos, não os contei mas deve ser próximo disso. Aparecem na água lá com  o outro que também tinha iguais...e vocês também têm! O que é isto? Como é que estes paus com olhos vieram aqui parar? Socorro! Tirem-me isto, por favor. Eu corri, saltei, e não saíram.

    Os pais desatam às gargalhadas. 

- Estão-se a rir? Eu aqui em sofrimento, numa grande aflição, e vocês riem-se? Ááááhhhh, não estava à espera. 

- Mostra-nos esse bicharoco do lago. - diz a mãe a rir 

- Vocês não vão gostar de o conhecer! Tenho a certeza. - diz o pavão pequenino 

- Nós conhecemos esse bicharoco, mas mostra-nos! - diz o pai a rir 

- Conhecem? - pergunta o pavãozinho muito surpreso 

- Sim, mas mostra-nos, para termos a certeza que é quem estamos a pensar. 

    Os pavões adultos, vão a rir à gargalhada o caminho todo até ao lago. 

- Aqui! - diz o pequeno e espreita 

    Os pais também espreitam, e veem o seu reflexo: 

- Olha que bonitos que nós estamos! - diz a mãe a sorrir 

- Mas então, onde está o bicharoco? 

- Está aqui...e agora tem mais dois. - diz o pequeno

- Não vês que somos nós, e tu? - comenta a mãe 

- É o nosso reflexo? - acrescenta a mãe? 

- Olha tu...eu...e a mãe. - diz o pai 

    O pequeno pavão olha várias vezes para os reflexos na água e para os pais, que continuam a rir 

- Mas...mas...como é que pode ser? - pergunta o pavãozinho 

- É como se nos estivéssemos a ver ao espelho, em casa. 

- Mas estes não têm os ramos das árvores espetados ou colados aqui atrás, com os olhos… 

    Os pais viram-se de lado, e as grandes penas luminosas veem-se refletidas na água. 

- Não são ramos de árvores coladas, muito menos com olhos! São as nossas penas, e as tuas também vês, quando te pões de lado. - explica o pai 

- As tuas ainda são pequeninas, mas à medida que vais crescendo, elas também crescem. Ficam como as nossas! - acrescenta a mãe 

    O pavão pequeno fica boquiaberto, muito surpreso e em silêncio. Os animais à volta riem à gargalhada, com os pavões grandes. 

- Ele estava aqui, completamente histérico, nem me respondeu - diz o coelho a rir-se 

    Gargalhadas de todos 

- Pensávamos que ele estava a fugir de algum inseto, ou que estava a picá-lo. - diz o esquilo às gargalhadas, com os pavões grandes 

- Então...não há outro a imitar-nos na água? - pergunta o pequeno 

- Não, claro que não. - dizem os pais 

    Os pais abrem as penas maravilhosas, todos os animais batem palmas, como costumam fazer. O pavãozinho pequeno abre as dele, os pais e os outros animais também aplaudem. Ele sorri. 

- Sois maravilhosos! - grita uma preguiça num tronco

-Obrigada! - dizem os pavões 

- Onde é que o pequeno há bocado ia com tanta pressa, aos saltos, aos gritos…? - pergunta a preguiça

- Estava a ver os reflexos na água e não sabia o que era, nem de quem eram. Eram dele, e depois nossos. - responde a mãe

Todos riem

- Pensei que tinha ramos de árvores com olhos, colados às costas, ou mais abaixo. E que estava uma criatura monstruosa a imitar tudo o que eu dizia e fazia. Que susto que eu apanhei - diz o pavãozinho a rir

Conversam alegremente, passado uns tempos o pequeno pavão cresce como os pais, e vê o seu reflexo na água do lago, com as penas enormes e bonitas. 

Vai frequentemente ao lago, e abre as penas, umas vezes com os pais, outras, sozinho e vaidoso, os outros batem palmas. 

Adora desfilar, e exibir as suas penas lindíssimas, vai com outros para esse lugar festejar, brincar, rir, conversar, saltar, correr e receber palmas. 

A grande família de pavões era realmente bonita e especial, pelas suas penas e espetáculos que davam quando as abriam. 

                                                                Fim 

                                                          Lara Rocha 

                                                        12/Maio/2025 

sábado, 3 de maio de 2025

Rosa Amor

 

foto de Lara Rocha 


    Há uns anos atrás, uma jovem misteriosa, chamada Natureza, ofereceu a um casal, um lindo botão de flor, fechado. 

    Disse para cuidarem dele com amor, regar com carinho, educação, sensibilidade atenção e dedicação, para falar com ele. 

    Acrescentou que desabrocharia passado nove meses, numa linda flor e desapareceu. O casal ficou surpreso e apreensivo, sem perceber o que tinha acabado de acontecer, e o que significaria aquilo.

    Procuraram por ela, mas não a viram em lado nenhum, estava escondida, e a sorrir. 

- Tenho a certeza que estarás muito bem entregue! - murmura a jovem Natureza, ao ver o carinho com que o casal segurou a flor

    Assim aconteceu, o casal cuidou do botão de flor com amor, e estavam ansiosos por saber que flor seria, e porque demoraria tanto tempo. Regaram-na, falavam com ela, o botãozinho ia crescendo, alargando, tentavam imaginar a cor que teria, mas ele não a mostrava. 

    O casal não tinha preferência, pois adoravam todas as flores, em botão, e, ou abertas. Acariciavam o botãozinho, mudavam de terra de vez em quando, punham-no a apanhar sol, e ar, quando estava vento recolhiam-no. 

    O botãozinho ouvia as conversas todas, e sorria fechado nas pétalas, quando o casal lhe tocava. Não viam, mas era um sorriso luminoso, por se sentir acarinhado, acolhido, amado. 

    Passados nove meses, como a Natureza anunciou, o botãozinho de flor, abriu. Era uma linda rosa cor-de-fogo, com amarelo, laranja e vermelho! Uma perfeição, parecia que estava a sorrir, com as pétalas delicadas, o casal não ouvia, mas imaginava, o som do sorriso da rosa, quando lhe tocavam com carinho. 

    Que surpresa tão agradável, o casal não podia estar mais feliz, e continuaram a cuidar dele, com tanto amor e dedicação que cresceu como nunca se tinha visto. 

    Que lindo que era, sempre viçoso e vistoso, brilhante, adorava sol, e ficava ainda mais bonito, continuaram a regá-lo, a alimentá-lo, a conversar com ele. Deram-lhe o nome de Rosa Amor. 

    Um nome que fazia todo o sentido, porque era o símbolo do amor do casal, um pelo outro, dos dois pela Natureza, um prémio por terem cuidado tão bem dele. 

    Era como se fosse um filho, aliás, quando a esposa soube que vinha a caminho, um bebé verdadeiro. Pensaram que a flor iria murchar de tristeza, ou ciúmes, mas não. 

    Porque tinham atenção e amor para os dois; para o bebé, para a flor, a diferença é que este botãozinho que vinha a caminho, era uma pessoa. Um ser vivo, como um botãozinho em flor, que exigia mais amor, mais dedicação, mais regras, mais atenção, carinho. 

    Sem nunca se esquecerem da  Rosa Amor, que mesmo sendo uma flor, estava feliz por ter um irmãozinho em forma de pessoa, nunca se sentiu excluída, nem abandonada. 

     Quando o bebé nasceu, a flor chorou de alegria, surgiram gotas de água nas suas pétalas, e algumas caíram, ao ver aquele ser delicado, frágil e lindo como ela. 

     Rosa Amor, sorria ao ver a ternura dos pais, com aquele bebé, e a gratidão do bebé a olhar para eles, o carinho que ele recebia, e chegava para a flor. Mostraram o bebé à flor, e esta inclinou-se, encostou-se à carinha dele, com as suas pétalas macias, e voltou a chorar de alegria como se estivesse a fazer uma carícia ou a dar um beijinho no seu irmãozinho humano. 

     O bebé e os pais sorriram de alegria, pegaram na mãozinha do bebé, e fizeram uma festinha das pétalas da flor. Ela sorriu e brilhou com tanto amor. Cresceram juntos, nunca faltou carinho, atenção, dedicação, amor, regras, diálogo, aos dois, e formaram uma linda família.  

    Todos os dias agradeciam à Natureza, aquele botãozinho maravilhoso, e o botãozinho verdadeiro, o bebé que também adorava a flor. Ela abanava-se e ele desatava à gargalhada, que fazia o mesmo com os pais. 

    Parecia que os dois comunicavam um com o outro, só entre eles, balbucios e gargalhadas, trocas de mimos, e papagueados que só a flor e o bebé entendiam. 

    O casal agradecia todos os dias, a saúde, e a alegria, o amor que havia naquela casa, com aquela flor. A jovem Natureza apreciava encantada, espreitava e sorria à flor, esta retribuía. 

    Sentia-se orgulhosa, e de vez em quando as duas conversavam sobre a felicidade da flor naquela casa, o bebé, a forma como eram tratados, e outros assuntos. 

    E assim se constroem as amizades, os amores, com dedicação, paciência, carinho, diálogo, respeito, acolhimento, atenção, sem pressa, com delicadeza. Botõezinhos fechados, que se vão abrindo em lindas flores. 

                                            FIM 

                                       Lara Rocha 

                                      2/Maio/2025 

domingo, 20 de abril de 2025

As luzes do descampado

  

Pintado a acrílico 

         Era uma vez um descampado numa floresta, onde viviam muitos animais. Nesse descampado, existia uma árvore gigante, de tronco muito largo, muito antiga, com muitos ramos em todas as direções e diferentes grossuras. 

    Havia uma porta redonda, aberturas no tronco mais para cima, que pareciam janelas, mas quando se espreitava estava sempre tudo fechado. Mas de noite viam-se luzes a sair por essa porta, muitos metros de altura, aparentemente não se ouvia barulho, só no local. 

    Ninguém sabia o que era, sentiam medo de ir lá ver, mas numa noite, uma coruja quis ir ver, ela também andava por cima desse descampado, via as luzes e ouvia música. 

    Sobrevoou a zona, e quando pousou em frente à porta, no solo, uma lebre elegante, delicada, olhou - a de cima a baixo, com uns olhos que pareciam saltar de órbita, a coruja até ficou intimidada, cheirou-a.

- Porque estás a olhar para mim com esses olhos e a cheirar-me? - pergunta a coruja 

- Estava a ver se eras boa criatura! 

- Essa agora! Não posso andar por aqui, livremente? Quem és tu para mandar em mim, ou dizer se posso ou não andar por aqui? 

- Sou a lebre porteira. 

- A lebre porteira? 

- Sim. Aqui dentro é um bar, com música, espetáculos de canto e dança, teatro, ginástica, às vezes, relaxamento, declamação de poesias, apreciação de artes, onde dezenas ou centenas de coelhos convivem. Todas as noites, há aqui atividades! 

- Áh! Então é por esse que vemos estas luzes? 

- Sim. 

- Só aqui à beira é que ouvimos mais barulho. 

- Claro, por respeito aos outros animais, viemos para este descampado, para não perturbar o descanso. 

- Áh! Boa ideia. Obrigada. 

- Já estão aqui há muito tempo, não? 

- Sim. Às vezes os coelhos saem e vem cá para fora. 

- Então também há atividades cá fora? 

- Há! Mas são mais silenciosas, por respeito aos habitantes. 

- Que tipo de atividades? 

- Mais sossegadas! 

- Tudo acontece neste tronco? 

- Sim. 

- Tem espaço para tanta gente? 

- Tem. Tem 4 andares! 

- Áh! Então são nestas janelas? 

- São. 

- Nós realmente só vemos as luzes, e os barulhos só se ouvem aqui. Não sabíamos o que era. 

- Pois! De dia, está fechado. E tu vens de onde? 

- Aqui da floresta! 

- És uma coruja, não és?

- Sou. 

- Querias entrar, não era? 

- Era… 

- Hummm…não sei se podes! 

- Como assim? 

- Vou perguntar. Espera aqui, por favor. 

- Porque é que eu não posso entrar? É exclusivo para coelhos? 

- É. 

- Áh…! Mas eu só queria ver o que era e como era! 

- Vou perguntar. Espera aqui. 

    A coruja espera à porta, a apreciar o espaço, regressa a lebre pouco depois, com um coelho vestido de fato: 

- Boa noite! Quer entrar? 

- Boa noite, sim, quer dizer...gostaria! 

- Para que quer entrar - pergunta o coelho 

- Para ver como é. 

- Não nos vem fazer mal? 

- Claro que não! Não tenho nada contra coelhos, sou a guardiã da noite. Ando por aqui, pela floresta. 

- Promete que não vai chamar os outros para virem para aqui...? 

- Prometo! 

- É que nós gostamos de ser discretos, ter o nosso próprio espaço, estar uns com os outros, conviver. 

- Claro, compreendo. 

- Bom...entre, mas lá fora, não conte como é, certo? 

- Certo! Obrigado. 

    A coruja entra, olha para todo o lado, todos os coelhos olham para ela, sorriem, cumprimentam, ela retribui, fica encantada com a decoração e a quantidade de coelhos que estão nesse espaço, a rir à gargalhada, a comer, a beber, a dançar, a ouvir musica, a fotografar, a conversar. 

- Nunca vi tanto coelho no mesmo espaço! Tão diferentes na cor do pelo, nos tamanhos...muito bonitos. - comenta a coruja com a lebre porteira 

    A lebre porteira ri: 

- É verdade! Imagino que sim, e hoje não é dos dias em que está mais cheia. 

- O espaço é muito agradável, nunca imaginei que isto fosse assim. Por fora nada indica como é assim. 

- É verdade! 

- Muito bonito!

- Obrigado. Quer subir para ver o resto? 

- Sim. 

- Boa noite! - dizem os coelhos a sorrir 

- Boa noite, divirtam-se! - diz a coruja 

- Já fazemos isso, obrigado.

- Boa! 

    Percorre todos os andares, admira o espaço, a decoração, vê a paisagem entre as janelas. 

- Que paisagem maravilhosa! - murmura e suspira a coruja 

    Voltam a descer. 

- Já vai embora? - pergunta o coelho chefe

- Sim! 

- Está bem! 

- Gostei muito do espaço. Parabéns! 

- Obrigado. Não quer ficar mais um pouco? 

- Não...só queria ver mesmo o que eram aquelas luzes que víamos. 

- Entendo! Por favor, não conte aos outros. 

- Está prometido! - diz a coruja 

- Sabe que na floresta existem muitos perigos para nós, coelhos... 

- Sim, compreendo! O que precisarem, eu ando todas as noites, aqui, e por toda a floresta, é só chamar. 

- Muito obrigado, confiamos em si, e de nossa parte, também. Apareça quando quiser. 

- Obrigado. 

- Passe uma boa noite! 

- Obrigada, divirtam-se.

- Sempre! - diz o coelho chefe a rir 

- Até à próxima. 

- Até à próxima. 

    E a coruja regressa a casa, satisfeita por ter descoberto de onde vinham as luzes altas da floresta. Como prometeu não contar, quando os outros animais lhe perguntavam curiosos, o que eram aquelas luzes, ela dizia que não sabia: 

- Não sei...possivelmente da cidade! 

- Na cidade há estas luzes? 

- Sim, e muitas mais. 

- Áh! Está bem, mas o que será? 

- Isso não sei. Só vejo as luzes. 

    A coruja passava por lá de vez em quando, sobrevoava muitas vezes a zona para apreciar a paisagem e ver as luzes, cumprimentava a lebre, e perguntava se estava tudo bem, se não precisavam de nada. 

    A lebre porteira agradecia, conversavam um pouco, riam, e alguns coelhos saiam para as atividades mais livres e calmas, ela assistiu, aplaudiu. Outros coelhos apareciam nas janelas, cumprimentavam-na, sorriam e brincavam com ela. 

    Aquele espaço passou a ser um refúgio e de diversão para a coruja, porque convidavam-na para entrar, ver alguns espetáculos, quando perceberam que ela era de confiança, confirmada pela lebre porteira. 

    Era a única a quem permitiam entrada, e ela respeitava. Fez grandes amigos, estava sempre atenta, para os proteger se fosse preciso, e divertia-se muito com eles. 

    Afinal as misteriosas luzes que se viam em toda a floresta e pensavam que era da cidade, vinham do descampado, do tronco enorme de uma árvore antiga, transformada num lugar reservado, discreto e silencioso para os outros animais, cheio de diversão e amizade. 

    Os outros animais nunca souberam o que existia no descampado, sentiam medo do espaço, e pensavam que as luzes vinham da cidade. 

    E vocês, visitavam esse descampado? 

    Acham que a lebre porteira vos deixava entrar? Porquê? 

    Como imaginam esse espaço? 

    O que existiria nele para vocês? 

    Quem deixavam entrar? 

Podem deixar as respostas nos comentários. 

                                                                FIM 

                                                          Lara Rocha 

                                                        20/Abril/2025 



sexta-feira, 18 de abril de 2025

Memória nossa de todos os dias (monólogo)

A memória faz-nos mover, agir de forma automática, quase sem pensarmos, principalmente naqueles gestos rotineiros, aprendemos, lemos, estudamos, escrevemos.  

Pela memória emocionámo-nos (ou re-emocionamo-nos), rimos à gargalhada, choramos, sentimos saudades, e vontade de repetir determinados momentos, ou lembramos acontecimentos que queríamos esquecer, e esquecemos por vezes recordações que gostaríamos de reavivar todos os dias. 

Falamos, pensamos, decidimos, sentimos o mundo à nossa volta, defendemo-nos das agressões internas e externas. A memória, por vezes corresponde a momentos, outras informações ficam armazenadas, umas são ativadas sempre que necessário, outras parece que se apagam. 

A memória pode ser tão fugaz como um suspiro. A memória dá sentido à nossa vida e à nossa existência, às nossas relações, pois permitem-nos armazenar informações relativas a rostos e dados sobre as pessoas que nos são familiares, permitem-nos andar com segurança por espaços, e conhecer outros, sem esquecermos as nossas origens. 

A memória conta histórias. Em todos os tipos de memória, há a conservação do passado através de imagens ou representações que podem ser evocadas. 

Não há tempo sem um conceito de memória, não há presente sem um conceito de tempo, não há realidade sem memórias e sem uma noção de presente, passado e futuro. 

Mas...e quando a memória falha? Quando esquecemos a nossa origem, os nossos pais, os nossos amigos…? Quando olhamos para os rostos que nos eram familiares e não os reconhecemos, quando deambulamos pelo espaço que conhecíamos e deixamos de saber onde estamos? 

Quando esquecemos o que vamos fazer? Quando a cabeça fica vazia, e o nosso coração também fica. Quando esquecemos os bons momentos? Quando esquecemos o que queríamos fazer, dizer, alimentarmo-nos, quando esquecemos o passado, o presente e ficamos sem futuro. 

Tenho muito medo que isso aconteça comigo, porque veja tanta gente próxima de mim a quem acontece! Mas eu não quero, ou...não queria que isso acontecesse. 

Deve ser uma tristeza, andarmos por aí, tipo...nem sei o quê....só com o corpo presente, e tudo parecer desaparecer. Tudo o que foi bom, tudo o que foi mau. O mau não tinha problema esquecer, mas quando esquecemos o bom...deve ser um pesadelo. Devemos sentir-nos como uns corpos vazios.  

Quando a memória falha, esquecemos o sabor dos abraços, dos beijos, do sol, da chuva, do vento, da natureza, das cores, dos sons, das lágrimas, das memórias que nos deixavam felizes, dos risos e gargalhadas, das letras, das palavras, da nossa casa, do que nos emocionava, do que é o amor, a amizade, a família, o Mundo? 

Quando a memória nossa, deixa de ser nossa...todos os dias! Pedimos ajuda, se temos tempo, ou alguém poderá pedir por nós. Caso contrário, tudo desaparece, até a nossa existência. 

O que fazemos para que a memória continue a ser A nossa Memória de todos os dias? Às vezes, os sonhos tratam disso, de nos lembrar coisas que já queríamos  ter esquecido, ou achamos que esquecemos. 

Muitas vezes, lá vem ela recontar histórias, ou lembrar, relembrar o que nos magoou. Poderiam ser recordações mais felizes, mas nem sempre acontece, porque talvez a fantástica memória faça isso para se esvaziar e libertar o peso que elas provocam. 

Foi o que aconteceu comigo esta noite, e talvez convosco também aconteça! Hoje meti num barco ou uma caixa preta, coisas do meu passado, e vou lançá-la ao mar, de forma imaginária, claro! 

Acho que nem quero saber para onde ele vai, sei que meti tudo lá para dentro...memórias, muitas memórias, que eu pensei que já nem as tinha na cabeça! Mas elas apareceram. 

Como não gosto delas, meti-as nesse barco! Estava cansada de as carregar. Há quem as meta, na imaginação, outros metem-nas em mochilas imaginárias, outros...atiram-nos para uma lareira...bem, há muitas hipóteses, o que interesse é que funcione, ou...alivie o peso que algumas memórias nos trazem. 

Espero livrar-me delas, porque elas às vezes trazem-nos visitas indesejadas, do nada...como rajadas de vento. Todos temos essas memórias, e acredito que gostaríamos de nos livrar delas, mas não somos nós que mandamos, é a nossa fabulosa memória! Que tem as suas partes boas, mas outras, parece que adormece. 

Sim, deve adormecer, sonha, e faz-nos sonhar, ou ter pesadelos, porque não metemos essas recordações na caixa ou no barco e lançamos ao mar. Quero livrar-me das memórias que tenho do meu ex namorado. 

Esta acho que foi a mensagem do pesadelo que tive esta noite com ele, pelo que me disseram. Já vos conto como foi. Mas já alguma vez sentiram essa vontade? De esquecer ou mandar para o mar, para uma fogueira, sei lá, outras formas, de destruir más recordações? 

Aquelas que a memória teima em despertar, para nos revisitar, ou irritar, não sei. Não sei se isso é possível, mas principalmente, a parte da dor de termos acabado, e tudo o que não lhe disse! 

Às vezes penso nisso, e se ele se fará o mesmo, se se lembrará de mim, dos momentos que passamos! Acabámos, mas continuamos amigos, só que, dissemos coisas um ao outro que eu não esqueci, no calor da dor, quanto a ele, não sei se ainda se lembra do que me disse. 

Penso muitas vezes nisso, e imagino a resposta. Na verdade, acho que dissemos um ao outro, mas não dissemos tudo, eu pelo menos não disse tudo, e acho que devia ter dito. Só que...se dissesse, talvez não continuássemos amigos! 

Imaginem a capacidade criativa da memória, para construir sonhos, como o que eu tenho há várias noites seguidas. Ouvi dizer que quando temos sonhos com o mesmo tema várias ou muitas noites seguidas, a nossa saúde mental está em risco, ou existem assuntos mal resolvidos, que devemos procurar solucionar, porque tiram-nos a paz! 

O pesadelo destas noites foi sempre o mesmo! Começava com uma sombra preta, que me parecia ser um homem, não sei quem, nem consigo ver o seu rosto, dança para mim, de forma sedutora. 

Já imaginaram, uma sombra a dançar de forma sedutora para vocês? Acho que....bem...talvez nos filmes de terror, não sei, não vejo esses filmes, mas este sonho parecia uma coisa assim. 

Continuando...a sombra, convida-me para dançar! Eu aceito o convite, mesmo sem saber quem era, gosto de dançar, e dançava muito com o meu ex. 

A minha memória deve estar a querer lembrar-me desses momentos em que me sentia feliz a dançar com ele, e sim...sinto saudades! Não dele...acho eu...mas desses momentos em que dançávamos. 

Quando a sombra me abraça, fico com a sensação de que conheço ou...conhecia...conheci a sua energia. Depois de dançar comigo, eu até estava a gostar, no corredor da casa, a sombra passou-se! 

Eu estava à espera de outro desenlace, pela maneira como dançamos, eu e a sombra...mas ela, encaminha-me para as escadas que dão acesso ao sótão da minha casa. 

Eu não queria subir! Senti medo e frio, parecia quase real, não é que sinta medo de sótãos, porque vou ao meu sótão muitas vezes, e brinquei muito nesse sítio, quando era mais pequena. Tenho lá todos os brinquedos, gosto de os ver. 

Só que desta vez, havia qualquer coisa que não me deixava segura, nem à vontade para subir! Eu não queria subir! A sombra desaparece, eu volto para trás, mas à frente rapidamente forma-se uma nuvem negra à minha volta.

Uma ventania muito forte, e a sombra aparece em forma nítida de esqueleto, que se sacode e faz barulho com os ossos a chocar uns nos outros, ri à gargalhada. 

Uma gargalhada estridente, que me arrepia dos pés à cabeça, e o bafo dele, faz-me lembrar um cheiro conhecido. O esqueleto agarra-me a mão, eu tento gritar, mas a voz não me sai, o esqueleto aperta-me o pescoço. 

Eu tento lutar contra ele, mas este aperta-me de forma violenta, a ponto de me provocar falta de ar. O esqueleto agrediu-me com um grande e duro osso. 

Perdi a força. O esqueleto arrasta-me para o sótão pelos cabelos, ouvi a voz do meu ex namorado, e vi-o em forma de zombie! (gargalhada) horrivelmente feio e assustador. 

Ainda teve a distintíssima lata de me acusar, diz-me que me odeia, e que não me vou livrar dele, até o esquecer. Mas tenho a certeza que já o esqueci. 

Quer dizer, não o esqueci porque a memória ainda reconhece a cara dele, e como nos encontramos várias vezes, não poderia esquecê-lo, conversamos muito, também reconheço a voz dele, a memória lembra-se! 

Tento fugir do sótão, mas as pernas não respondem e o zombie persegue-me. Quando acordo, sobressaltada e muito irritada, percebi que o bafo do esqueleto era o perfume que o meu ex-namorado usava, e eu até apreciava, mas este transformou-se em cheiro a mofo, qualquer coisa deteriorada. 

A imagem do Zombie, não me saía da mente, e perguntei a mim mesma, quem seria, ou o que queria dizer-me!  Lembrei-me que o zombie disse-me no sonho, tudo o que eu disse ao meu ex-namorado quando terminamos, há quatro anos. 

Apesar de termos terminado, continuamos a conversar e somos amigos. Tenho estado a pensar o que será que este pesadelo significa. Será que ainda sinto alguma coisa por ele? 

Conscientemente, e que me lembre, acho que...não...não me parece que sinta o que quer que seja por ele. Ou estarei a ser falsa ao fingir que está tudo bem, que aceitei o fim do namoro, até porque continuamos a ser bons amigos e a falar? 

Será que o sonho está a mostrar-me a verdade que tento esconder de mim própria, e fujo dos meus verdadeiros sentimentos de rancor, ressentimento ou culpa (embora eu tenha pedido desculpa por tudo o que disse)? 

O que acham? A minha memória inventou este pesadelo, porque lembra-se que o meu ex namorado existe, e que vivemos momentos, inesquecíveis, outros, eram escusados, mas isso há em todos os casais. 

O que é que ela me quererá dizer? Claro que na verdade não o esqueci, porque ele fez parte do meu passado, e convivemos, claro que me lembro dele, quando oiço músicas que ouvíamos juntos, e revejo as fotos dele. 

Que pesadelo estranho! Mas como acontece há várias noites, é melhor livrar-me dele, e ficar só com as boas recordações, que não sei se consigo ou se é possível. Vou escrevê-las, para a memória não as levar embora, e relê-las, sempre a memória teimar em trazer os maus filmes! 

Na caixa que imaginei, ou barco, vai o passado com todas as coisas más, que queremos libertar, deixar ir, ter paz e saúde! Aqui vai tudo o que me magoou e prejudicou a saúde. Aqui vão todas as tristezas, injustiças, desilusões, fracassos, mágoas, planos desfeitos, e tantas outras emoções.

Cada um poderá colocar aqui o que quiser! Boa viagem, barco do passado, bem passado, e algumas coisas do passado presente. Nem quero saber para onde vais...talvez...para os confins do inconsciente, ou das profundezas da memória! Mas para onde quer que vás, fica lá! 

Vai em Paz! Nem precisas de me mandar novidades do sítio onde atracares, desde que seja fora de mim. Gratidão pelas aprendizagens, e pelas coisas boas, leva o pesadelo que me persegue, e o conteúdo dele. Vai! Aprecia a viagem…! 

Enquanto eu aprecio a libertação. Traz o presente, o dia a dia, as boas  novidades. Boa viagem! O resto virá.  

Lara Rocha 

18/04/2019