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terça-feira, 12 de maio de 2020

Monólogo romântico para adolescentes e adultos



         Desenhado por Lara Rocha 

  




























   Quando os nossos olhos se tocavam, e as palavras se calavam, apenas os olhos falavam entre si. Não conseguíamos ouvi-los, mas mesmo assim era tão bom...Tão leve...Momentos silenciosos, de paz, que repetimos muitas vezes...
 Momentos em que só os nossos olhos conversavam entre si e beijavam, e os nossos corpos, parados, rendidos, entregues à magia daquele silêncio. 
  Diálogos secretos entre os meus e os teus olhos. Olhos que se juntavam e se tornavam num só olhar envolvidos no amor. O que conversavam? O que confessavam? O que procuravam? O que encontravam
os nossos olhos quando se tocavam? 
 Quando os nossos olhos falavam, nós ficávamos calados. Só o silêncio reinava, só a paz, só o brilho das estrelas, e nós...Eu e tu...
 O nosso corpo descansava lado a lado, enquanto os nossos olhos conversavam! Que momentos tão bons...Que momentos tão mágicos...Foram aqueles em que os nossos olhos conversavam e os nossos corpos se calavam.
  Que momentos tão serenos e tão silenciosos para nós...Mas de grande magia e com certeza grandes conversas entre os meus e os teus olhos.
  Quem me dera voltar a viver esses momentos, esses, em que os nossos olhos conversavam e os nossos corpos se calavam. 
  Quem me dera voltar a viver esses momentos, só para ouvir o que os nossos olhos conversavam, enquanto os nossos corpos se calavam.
  Será que conseguiria ouvir o que os nossos olhos diziam? Talvez o coração saiba o que os nossos olhos conversaram, mas por causa da dor, não queira lembrar, ou confessar...
  Saudades desses momentos em que os nossos olhos eram apenas um! Gostava de poder mergulhar um dia...Só por uns momentos, nessas memórias. Para sentir paz...e sorrir ao recordar...Aqueles momentos tão, e só, nossos! Em que nos calávamos, e os nossos olhos conversavam...Brilhavam.  
  Quando folheio o livro das recordações ainda recordo esses momentos tão deliciosos, e mágicos, entre os nossos olhos. Momentos em que o Universo todo se refletia nos nossos olhos, e no nosso sorriso. 
  Enquanto os nossos olhos conversavam...esses momentos entre os nossos olhos, tão deles, tão nosso...Ainda cintilam na minha memória dos momentos de Felicidade!
  Agora que os teus olhos se cruzam com outros olhos...Será que eles também conversam com esses outros olhos? Será que nos teus olhos ainda vês o reflexo dos meus olhos, quando os teus olhos conversam com outros olhos, que não os meus? 
 Será que o Universo ainda brilha nos teus olhos, agora que te encontras com outros olhos que não os meus, como brilhava nos nossos olhos, quando conversavam?
 Era mágica aquela fusão de olhares...tão doce, tão especial. Tenho saudades! Sim. Saudades dessas conversas entre os nossos olhos.
  Queria poder voltar atrás no tempo, e trazer para o hoje, apenas esses momentos, em que só os nossos olhos falavam e os nossos corpos paravam!
 Entregues à Luz que iluminava os nossos olhos. Não sei bem como se chamava essa LUZ. Chamavas-lhe AMOR, mas se fosse AMOR, essa LUZ não teria fundido, teria continuado a brilhar só para os nossos olhos!
  Tenho saudades! Sim! Dessa conversa entre os nossos olhos! Que lindo momento...tudo deixava de existir. 

                          Lara Rocha 

Decisão que dói - monólogo para adolescentes e adultos




Desenhado por Lara Rocha 

     Chegaste à minha vida embrulhado em sorrisos, e em palavras simpáticas, em trocas de mensagens. 
     E de repente mudaste...passei a ser o quê, para ti? Parece que me eliminaste da tua vida.          Ainda tinha tanto para te dar! Tanto para te mostrar! 
      Tínhamos tanto para viver, conversar, escrever, partilhar, criar, aprender, construir...o que aconteceu?
      Porque passaste a ser gelado comigo? É a indiferença que me ofereces? Depois de te oferecer carinho? É a indiferença que queres receber de mim? 
     É com o teu silêncio que retribuis? A tua indiferença dói em mim. O teu silêncio dói em mim.
      Todas as mensagens que te mando e não respondes, doem em mim. 
      Nem quando digo que preciso do teu abraço, das tuas palavras...dói em mim o teu gelo, e dói a minha decisão de responder com indiferença, quando a minha vontade é de te dizer essa dor toda que me sufoca. 
      O que faço para me livrar da dor que a tua indiferença causa em mim? Como faço para reagir aos teus silêncios que doem em mim? Como vou lidar com uma indiferença sem respostas, que não compreendo, e que me dói?         Dói em mim ter de te ignorar para ver se sentes a minha falta. Sentirás? 
      Não sei se é o melhor que faço, porque dói muito em mim. Não sei se me vou livrar da dor, porque dói muito em mim.  
      Neste momento obrigas-me a ser também indiferente contigo...talvez isso te deixe livre, e se as nossas almas tiverem algo para viver juntas, viverão...não fugirás mais. 
       Não teremos medo, talvez agora tenhamos. Talvez só nessa altura saberei a resposta, à pergunta se esta é a melhor decisão...dói muito em mim, mas talvez seja isso que queiras. 
      Como vou lidar com a dor? Não sei. Resistirei. Dói a minha decisão de escolher a indiferença! 
                                        
                     Lara Rocha
           
                                               


As palavras















As palavras

 

As palavras vem de muitos sítios...
Vem das palavras não ditas, nem ouvidas, ou escritas, lidas. 
As palavras vem da indiferença, aquelas difíceis de dizer, que doem, e que tem que ser engolidas! 
As palavras vem das gargalhadas soltas, vem do latir dos cães, 
Do miar dos gatos, 
do piar das gaivotas, 
das ondas do mar 
Do cantar dos pássaros que se escondem nas folhas das árvores. 
As palavras vem do gemido do vento, do cair das folhas, do dançar das pétalas das flores, e do cair das gotas. 
As palavras vem dos sussurros das águas, das pedras, das casas, da calçada.
As palavras vem dos caminhos com gente, e sem gente. 
As palavras vem das janelas abertas e das fechadas, das portas que escondem segredos, que guardam memórias,
As palavras vem das fotografias.
Vem das músicas, 
Dos pregões dos vendedores,
Dos lamentos, dos que cantam e tocam na rua. 
As palavras vem  
Dos sons,
Dos gritos,
Da solidão,
Dos lagos,
Dos peixes,
Das sereias,
Das montanhas,
Das estrelas,
Da neve,
Da chuva,
Do sol,
Do planeta...
As palavras
Vem nas nuvens,
Nos sorrisos,
Nas lágrimas,
Nas dores,
Nas alegrias,
Nas quedas,
Nas desilusões,
Nas brincadeiras...
As palavras voam livres
Nos abraços sinceros,
Nos carinhos,
Nos sonhos...
As palavras andam por aí,
Por todo o lado...
Até nos silêncios,
E nas perguntas que ficam sem reposta,
Nos olhares que se trocam,
Nas mãos que se tocam,
Nos corpos que se enrolam,
Nos olhares que se perdem no horizonte.
As palavras andam por aí,
Mesmo quando não encontram portos seguros
Onde atracar,
E repousar...
Elas flutuam,
Pairam,
Andam,
Correm,
Saltam,
Gritam,
Dançam,
Perdem-se,
Viajam...
As palavras andam por aí...
Sim...
Aí mesmo...
Aqui...aí...ali...
Neste, naquele, naqueles, nos outros...
Coração,
Corações.
As palavras querem sair,
Daí, dali, de acolá...
Quem voar,
Querem cantar,
Querem gritar,
Sussurrar.
As palavras querem tocar,
As palavras querem aparecer,
As palavras querem amar,
As palavras querem companhia,
As palavras querem risos...
As palavras constroem
E destroem mundos,
As palavras armam belos castelos,
As palavras pintam quadros, retratos, recordações,
As palavras ditam poemas,
As palavras compõem músicas,
As palavras elogiam
As palavras ofendem,
As palavras...
As palavras fazem o que lhes mandam!
São...palavras!!
As palavras são marionetas,
As palavras são raios de luz,
E floresta escura...
As palavras são de cada um de nós,
As palavras são de todos,
As palavras são para todos.
Palavras...!!!


                  Lara Rocha 

O vidro e os sopros do coração - Monólogo para adolescentes e adultos



   O coração às vezes é idiota, de tão inocente que é. Teimoso, porque insiste em dar carinho a quem não o vê, não sente. Insiste, e depois suspira, sopra de raiva, porque é magoado, porque o apertam. Ilude-se! 

     Pensa que vai ser acarinhado, valorizado, visto. O coração às vezes parece que tem ouvidos, mas é muito ignorante, acredita no que os olhos lhe dizem, quando te vêem no vidro. 

    Gostam dessa imagem, mas depois... sopra de raiva porque não eras nada do que ele acreditava seres. 

   O coração sopra de dor, quando percebe que nem toda a gente é como ele. E que tu, que estás por trás do vidro não és nada do que eu imaginava! Como pudeste deixar-te enganar, coração idiota? 

   O coração sopra e sofre! Se os nossos corações pudessem atravessar o vidro que nos separa, e conversassem, com o encanto e magia da primeira vez, mesmo sem nos falarmos, e se os nossos olhos pudessem fixar-se nesse vidro, verias que não sou quem pensas! 

    O vidro permite-te ver flores à minha volta, e toda eu sou uma flor, mas se visses por trás do vidro que mostra flores, verias muitas vezes que estou rodeada apenas por espinhos. E às vezes até vestida de espinhos. 

      Julgas que sou um botão em flor, sempre aberto, mas se me visses por trás do vidro verias um jardim cheio de botões fechados.

   Julgas que vês em mim um olhar brilhante, cheio de luz...como um lago transparente! Se me visses por trás do vidro, verias uma floresta de sombras, dias de nevoeiro, céus com nuvens carregadas, que cobrem o sol. 

      Se me visses por trás do vidro saberias interpretar as minhas palavras com a verdade que elas carregam, e não com as máscaras do fingir que suporto a tua indiferença. 

       O vidro separa muitas coisas, é verdade! Separa a tua curiosidade, a tua vontade, separa-nos do teu medo, dos nossos olhos, com os quais poderias e deverias ver os meus. 

   O vidro separa os sopros do coração, separa os teus olhos que deveriam encontrar pedaços de mim, máscaras espalhadas, pedaços que flutuam sem rumo! 

   Se pudesses ver por trás do vidro encontrarias a pessoa que realmente sou, sem máscaras. 

                                                                            Lara Rocha 

                                                                                                                           22/Março/2018 

sábado, 2 de maio de 2020

A prendinha da estrela

          




Era uma vez uma menina, filha de artistas de circo, que andava sempre de um lado para o outro, numa caravana, que tinha o mínimo de condições para viver, e tanto ela como os pais viviam felizes, juntamente com os outros artistas.
         A menina adorava os espetáculos, e todos gostavam muito uns dos outros. Em muitos lugares onde ficavam na noite dos espetáculos, eram descampados, onde se viam muito bem as estrelas. A menina tinha por hábito ouvir e ler histórias.
        Enquanto ouvia as histórias imaginava o que lhe era dito, mas também inventava as suas próprias histórias, a partir do que ouvia, e outras muito diferentes. 
        Ela nem imaginava que havia uma estrela muito lá em cima que se transformava em cigarra e ficava muito perto dela para se deliciar com as histórias, tanto as que lhe contavam como as que ela criava.
        A estrelinha estava entre as cigarras e usava um bloquinho onde escrevia as frases que mais gostava, as palavras mais bonitas, as personagens e nomes que eram bondosas, ações e espaços das histórias que a faziam sonhar.
        Um dia a estrelinha ouviu dizer que a menina estava quase a fazer anos. Decidiu oferecer-lhe uma prendinha para retribuir o que aprendia com as histórias que ouvia. 
        Numa noite em que regressou a casa depois de ouvir mais uma história, e ter anotado umas palavras bonitas, a estrelinha foi ter com a sua mãe e a sua avó, que eram costureiras, e pediu ajuda.
         Explicou às duas que queria oferecer uma prenda especial à menina que contava histórias, e mostrou-lhes o bloco. 
        Perguntou se conseguiam concretizar esse presente. As duas gostaram tanto da ideia, ficaram tão orgulhosas desse gesto da estrelinha, que puseram logo mãos à obra, e a estrelinha ajudou.
       Fizeram uma linda manta, toda feita de fios de lã de lua, muito aconchegante, macia e quente. 
       Pregaram todas as palavras, frases, personagens, nomes, ações, espaços, que tinha gostado mais, e que a estrelinha tinha escrito no caderninho. 
       Enquanto pregavam, a estrelinha recontava a história, falava sobre o circo, os artistas, os espetáculos, e conversavam sobre eles.
      Ainda juntaram cotõezinhos de lãs azuladas, amarelas e salpicos de brilho das próprias estrelas. 
      Num instante, e quase sem dar por isso, a manta estava pronta! Olharam para a manta, aberta, soltaram uma grande exclamação, e abriram um enorme sorriso.
- Áh! Mas que bonita que está. - suspira a mãe orgulhosa
- Está perfeita! - Sorri a Avó
- Uau! Obrigada, Mamã...Obrigada, Avó! Vocês são mesmo fantásticas.
       Trocam abraços e beijos. Chega o dia de aniversário da menina, e houve espetáculo. A estrelinha entra sorrateira na caravana onde vive a menina, e pousa a mantinha em cima da cama dela, com um cartãozinho que dizia: «Obrigada pelo que aprendo com as tuas histórias! Adoro. Muitos parabéns, muita saúde, muitas felicidades, e até já!»
       A estrelinha transforma-se em cigarra, para ver a reação da menina. Quando o espetáculo acaba, estão todos eufóricos, muito felizes com a forma como tinha corrido, e fizeram uma festa surpresa à menina.
      Atuaram só para ela, os palhaços que ela mais gostava, riram muito, aplaudiram, cantaram os parabéns, dançaram, e as surpresas não ficaram por aqui. Quando se preparava para deitar, viu a mantinha em cima da cama, e o cartãozinho.
- Mamã... tenho aqui mais uma prenda... foste tu?
- Prenda...? Não... não sei do que estás a falar.
       A menina mostra a manta à mãe e o cartão.
- Não fui eu, nem nenhum de nós, tenho a certeza! Mas, que linda... está cheia de palavras, frases...Como fizeram isto?
      A menina lê o cartão à mãe. Batem à porta, aparece uma menina, linda, que nunca ninguém a tinha visto.
- Boa noite! Podemos ajudar...? - Pergunta a mãe da menina
- Boa noite. Estou à procura da menina que faz anos hoje.
- Sou eu! Mas, não nos conhecemos... - Diz a menina
         A estrelinha sorri:
- Tu não me conheces, mas eu conheço muito bem as tuas histórias, aprendo muito com elas. Esta manta que acabaste de receber, fui eu que te ofereci, onde estão as palavras, frases, cenários, nomes, pessoas, lugares que mais gostei.
- Está excelente. Mas como é que ouves as minhas histórias, se não nos conhecemos...?
- Não posso dizer.Gostaste da manta, é o mais importante para mim. Muitos parabéns, e continua a ler e a inventar as tuas histórias que adoro ouvir.
        A menina sorri.
- Muito obrigada. Mas como é que te chamas?
- Estrela.
- Áh! Eu sou a Diana. Não queres entrar...? Pode entrar, não pode, mãe?
- Sim, mas vê lá, já é tarde. Onde estão os teus pais, Estrela?
- Lá fora, na minha casa.
- Vê lá, não vão ficar preocupados?
- Não. Eles sabem que eu vim aqui.
- Está bem. Queres um bocadinho de bolo que sobrou?
- Acho que aceito. Obrigada.
       A estrela conversa com a menina, como se fosse tal e qual uma amiga dela, come o bolo.
- Hum, está muito bom, este bolo. Obrigada.
- Obrigada eu. - Diz a mãe
- Bom, vou voltar para a minha casa, e tu, Diana, não tarda muito, também vais dormir, não é?
- É. Por favor, volta mais vezes! - Confirma a Diana
- Claro que sim! - promete a estrela
        Trocam um abraço, e dois beijinhos.
- Obrigada pela prenda, e muito gosto em conhecer-te! - diz Diana
- Boa noite, dorme bem. Até já...Boa noite, pais da Diana! - diz a estrela
- Boa noite! - respondem os pais da Diana
       A estrela dá alguns passos e desaparece. Diana fica pensativa, nunca tinha visto aquela menina em lado nenhum, como é que ela sabia tanta coisa, ouvia as histórias, e ainda por cima deixou-lhe uma prenda tão bonita! 
       Ela e os pais deitam-se, a menina envolve-se na manta, deliciada com a maciez, e os brilhantes.
      Quando ela estava quase a dormir, a estrela volta a aparecer, pousada na sua manta, em forma de estrela iluminada. 
      Pediu à Diana que não gritasse, e que não se assustasse. Contou-lhe como a conhecia, e pediu que não contasse a ninguém, pois tinha medo que não acreditassem nela, ou que achassem ser da sua imaginação.
      Diana não contou nada, e a partir dessa noite, as duas tornaram-se grandes amigas, encontravam-se, a Diana contava e ouvia lindas histórias, conversavam, riam, faziam companhia uma à outra, brincavam, sem fazer barulho. 
      Às vezes escolhiam uma palavra da manta à sorte, ou uma frase, uma personagem, e recontavam ou inventavam essa história.
     De vez em quando, a estrela aparecia em forma de menina, principalmente de dia, quando a Diana brincava mais sozinha, ao ar livre, a ensaiar os números de circo e a ver os outros. Uma linda prenda de aniversário, e uma amizade.

E se vocês recebessem uma manta como a de Diana? Que palavras teria pregadas?

                                                                           FIM
                                                                           Lálá
                                                                      2/Maio/2020



          
            

sábado, 25 de abril de 2020

Conversa de reflexão entre amigos sobre a lua

      
          Foto de Lara Rocha 



         Um grupo de amiguinhos  estava no terraço da casa de um deles, a ver a lua enorme e as estrelas. Uma menina pergunta:
- Amigos, já viram que gigante está a lua? Eu gostava de ser assim. A lua será pesada ou leve?
- Eu também gostava de ser lua. Eu acho que deve ser pesada... muito pesada! - responde outra menina
- Acho que deve ser leve, se não, não ficava lá em cima! - contraria um menino
- Mas se ela fosse leve, voava e passeava pelo espaço como os balões que nos fogem.
- A lua não é um balão. Isso tenho a certeza!
- Como é que tens tanta certeza disso?
- Pois, nunca pegaste nela, nem lhe tocaste.
- Os adultos é que dizem.
- Acho que os adultos sabem o que dizem.
- E se vocês fossem a Lua, seriam leves ou pesados?
- Eu seria leve.
- Eu também.
- Sim, acho que era leve... como um balão que sobe.
- As bolas de sabão também são leves.
- São, ainda são mais leves que os balões mas acho que as bolas de sabão não chegam à beira da lua.
- Claro que não chegam lá muito acima.
- Pode-se tocar na lua?
- Claro que não! - dizem em coro
- Só se for na nossa imaginação
- Ou uma almofada em forma de lua.
- Pois.
- Mas eu gostava de lhe tocar a sério.
- Eu não! Gosto mais de a ver aqui de baixo.
-  Acho que também não se pode transformar num objeto leve...
- Não! - respondem todos
- Se isso acontecesse, eu tirava-a dali e levava-a comigo passear para onde eu fosse.
- Isso eu também gostava! - respondem todos.
- Eu gostava de puxa-la dali e dormir abraçada a ela, com aquela luz.
- Eu também. Assim já não tinha medo do escuro.
- Não sei se para o medo do escuro ia resultar.
- Porquê?
- Porque eu acho que os monstros da noite também gostam da lua .
- Mas a lua não deve gostar, por isso acho que ela ia manda-los embora.
- Eu acho que a lua é muito corajosa. Não tem medo do escuro de certeza.
- Não tem medo porque tem aquela luz.
- A lua será fria ou quente?
- Fria! - respondem todos
- Os adultos dizem que é fria.
- Os adultos dizem que a lua é mentirosa.
- Como é que eles sabem? Ela não fala, ou será que fala com eles?
- Eles é que mentem muitas vezes.
            Todos se riem.
- Pois é!
- Será que a Lua dorme e sonha?
- Sim.
- Enquanto é dia aqui na terra eu acho que ela dorme e sonha.
- Serão sonhos bons ou maus?
- Deve ter sonhos bons e maus como nós.
            Os adultos chamam as crianças.
- Óhhhh... não!
- Estávamos aqui tão bem.
- Pois estávamos!
- Não quero ir dormir.
- Nem eu.
            Um adulto grita da porta para as crianças entrarem.
- Que seca, dormir...
- O meu pai ainda não apanhou os monstros que dormem no meu quarto... lá vou eu atura - los. Estava melhor aqui!
- Boa noite, Lua! - dizem todos
           Nessa noite, todos sonharam com a lua, e a conversa que tiveram uns com os outros sobre ela. Pelo menos não foram visitados pelos monstros do escuro!
E vocês? O que acham deste diálogo entre os meninos? Desafio-vos a escreverem as vossas respostas às perguntas que encontram nesta história.

                                               Fim
                                               Lála.
                                         25/Abril/2020







terça-feira, 7 de abril de 2020

encanto/desencanto - monólogo


encanto/desencanto


        Alma sonhadora, alma que deseja, alma vazia que sonha e fantasia, alma sozinha, alma que se entrega, e abre as portas à desilusão. Alma, que se encanta tanto, que se deixa levar, pelo canto do encanto, encantada, desilude-se quando acorda para o desencanto, e percebe que toda a música era encantadora...quando o rádio se desligou, tudo terminou...E depois?  
        Quem nos cura da desilusão? Quem criou a ilusão? Não! O coração? Não, porque fica ferido...A mente? Talvez...talvez tenha sido ela que criou a ilusão...Os olhos? Não! Esses são as vítimas inocentes, são os navegantes da ilusão que viagem nas águas da desilusão, levados pela ilusão, à procura da realidade, de compreensão, de força e de olhos bem abertos para ver a desilusão! 
       Pobre coração que alimenta uma ilusão que nem existe...Porque fazes isso, coração? A nossa mente, o nosso ser, a nossa pessoa precisa das ilusões e desilusões para se contruir, cair, crescer, e renascer, descobrir-se. 
     Porque fazes isso, mente? Porque fazes isso? Fico com raiva de ti, quando crias ilusões, que depois não passam de fantasias, mas enquanto acreditamos nas ilusões que crias, parece que nos sentimos preenchidos.  
     Porque precisamos de sonhar, criar, para percebermos quem somos na verdade. E somos muito mais do que as ilusões e as desilusões. Vivemos entre o encanto e o desencanto...a ilusão e a desilusão... Quem as cria? Nós...o coração, os olhos, a mente? Talvez...apenas...nós.