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domingo, 17 de julho de 2016

O peixinho branco




Era uma vez um peixinho branco, brilhante que vivia no mar, mas muitas vezes ia à superfície ver a praia, e mergulhar noutros sítios, como as poças. Os seus pais deixavam-no ir, mas estavam sempre atentos, e alertavam-no para ter cuidado com os seres humanos que andavam pela praia.
O peixinho esquecia-se com o entusiasmo de ver coisas tão bonitas e sentia vibrações tão boas quando as crianças e pessoas com mais idade mergulhavam ou molhavam os pés, que não conseguia sair da beira deles.
Brincava com eles, raspava pelos pés, esfregava as barbatanas nos dedos e nas pernas que estavam mergulhadas na água, rebolava, fazia bolinhas, deixava-se tocar, deixava que pegassem nele, e que lhe fizessem festas.
Ele adorava ouvir as gargalhadas das boas pessoas, e das crianças, pelas cócegas que sentiam quando o peixinho passava, ficava tão feliz que nem se lembrava que havia pessoas menos simpáticas, que tentavam pescá-lo com baldes, acertavam-lhe com pás, atiravam-lhe com pedras, queriam agarrá-lo, e pô-lo fora da água, e lançavam-lhe armadilhas.
Apanhava muitos sustos! E os seus pais também. Um dia, a mãe do peixinho ficou muito zangada, cansou-se de apanhar sustos e pediu ao anjo da guarda do filhote, um peixinho com asas fininhas, de cor azul mar, que o protegesse, já que ele era teimoso, e esquecia-se dos perigos.
O anjinho da guarda do peixinho branco pôs logo asinhas ao caminho e vigiou-o, sempre que havia perigo, o anjinho cobria o peixinho transformando-o em transparente, da cor da água. No inicio, o peixinho branco sentiu-se muito estranho…e o anjinho dele apareceu à sua frente.

- Tem cuidado! Lembra-te que há perigos, e não te deves meter neles. – Recomenda o anjinho
- Quem és tu? – Pergunta o peixinho
- Sou o teu anjo da guarda!
- Áhhhh…que lindo! Acho que nunca nos encontramos.
- Já nos encontramos, mas nunca falamos.
- Porque não?
- Tu deves saber que eu existo, mas nunca me chamaste…mesmo assim, eu estou sempre muito perto de ti, a olhar por ti.
- Óh! E agora também estás a tomar conta de mim?
- Sim!
- Mas eu não me lembro de te ter chamado!
- Não… não me chamaste, mas sei que corres perigo, por isso é que estou aqui.
- Como é que sabes?
- Sei.
- Os meus pais falaram contigo não foi?
- A tua mãe…ela diz que nunca te lembras dos perigos que existem na praia, e está farta de apanhar sustos contigo. Então, pediu-me para te ajudar a proteger.  
- Eu sei…! Tenho vergonha.
- Não tens de ter vergonha. Só tens de ter mais atenção e cuidado.
- Não queria que os meus pais ficassem preocupados. Mas é que eu fico tão feliz, sinto ondas tão boas, e sinto que eles também ficam felizes, que até me esqueço dos perigos que os meus pais tanto falam.
-É normal…és criança…não vês maldade em nada…mas infelizmente…aqueles humanos têm-na…principalmente em relação a tudo o que é diferente! Mas é claro que os teus pais ficam preocupados.
- E o que é que eu posso fazer para eles não ficarem preocupados e para eu não correr perigo?
- Sempre que eu sentir que estás em perigo, transformo-te em peixe invisível, da cor da água, e assim podes andar à vontade, fazer cócegas e carinhos aos velhinhos, às crianças e aos corações bons. É um lindo gesto, mas assim não corres perigo de ser caçado, agredido com pedras ou pás, ou de caíres em armadilhas!
- Áh! E depois volto a ter a minha cor normal?
- Claro que sim.
- Muito obrigada! – Diz o peixinho feliz
O anjinho da guarda do peixinho branco acompanha-o sempre, com quem tem longas conversas, brincadeiras e fugas de perigos. A sua presença faz com ele se torne ainda mais especial junto das pessoas, embora elas não o vejam, umas vezes na sua cor natural, o branco, outras vezes transparente.
Assim ele pode nadar seguro, continuar a explorar a praia, e brincar com as crianças, os velhinhos e as pessoas de bom coração que conseguiam vê-lo e senti-lo, e a mãe ficou mais descansada.  
O peixinho ia e voltava sempre que queria, agora protegido e acompanhado.

FIM
Lálá

(16/Julho/2016)

sexta-feira, 15 de julho de 2016

ROSAESTRELA E ROSALUA

























fotos de Lara Rocha 

    Era uma vez uma grande ave, com penas muito exóticas, com cores lindas, e compridas, que voava sobre uma aldeia onde viviam muito pouco habitantes. Pousa na casa de uma senhora velhinha, enrugada, encarquilhada mas sorridente e feliz, que estava no seu jardim a plantar sementes. A águia ficou encantada com aquela doce senhora e perguntou:
- Bom dia, bela senhora…!
A senhora assustou-se porque estava muito concentrada no seu trabalho, e quando olha, vê a enorme águia.
- Desculpe…assustei-a! – Diz a águia preocupada
- Que grande que és…mas tens umas penas tão bonitas! – Diz a senhora
- Obrigada! – Diz a águia
- De onde vens? – Pergunta a senhora
- Venho…de muito longe. – Responde a águia
- Mas vens de um sítio natural, ou poluído? – Pergunta a senhora
- Muito natural. Mas já passei por muitos sítios poluídos. – Responde a águia
- Pois. Aqui o ar também é muito puro, mas mais para a cidade é terrível. – Confirma a senhora
- Sim, é verdade. Precisa de ajuda? – Pergunta a águia delicada  
- Como? – Pergunta a senhora
- Posso ajudá-la em alguma coisa? Vejo que está a plantar! – Repara a águia  
- Óh, não…obrigada. Estou a plantar, porque já sou velha e isso ajuda-me a distrair-me da solidão e dos pensamentos tristes. – Explica a senhora
- Faz muito bem. E o que está a plantar? – Pergunta a águia curiosa
- Flores! – Responde a senhora
- Áh! Que flores? – Pergunta a águia
- Não sei…são flores surpresa. Eu gosto muito de estar em contacto com a natureza, e às vezes compro sementes surpresa…que não sei de que flores são…e quando nascem…surpreendem-me. – Conta a senhora
- Gosta de surpresas? – Pergunta a águia
- Sim. – Responde a senhora
- Estas flores são todas de sementes surpresa, ou sabia quais é que iam nascer? – Pergunta a águia
- Algumas são de sementes surpresa, outras são flores comuns. Adoro todas elas. E tu, águia, gostas de flores? – Responde a senhora
- Gosto. – Responde a águia
As duas têm uma longa conversa, enquanto a senhora planta as sementes, e rega com carinho, contam histórias uma à outra, riem muito, bebem água e repousam à sombra de uma árvore na hora de mais calor.
A senhora agradece a companhia à águia e a águia promete ficar vigilante, e voltar. A águia cumpriu o que prometeu, e voltou todos os dias seguintes, várias vezes por dia. As duas tornaram-se família.
- Onde estão as sementes surpresa?
- Óh, não sei.
- Não faz mal…logo veremos.
- Isso mesmo.
Uns dias depois, a águia estava muito curiosa para conhecer as sementes surpresa, e descobriu-as entre dezenas de flores que estavam a nascer. Duas flores completamente diferentes das outras que estavam, no tamanho, na forma das pétalas, na textura das pétalas e nas cores…lindas…!
Uma era de cor branca azulada, outra de cor amarela. As pétalas da flor branca azulada tinham formatos todos diferentes…umas eram redondas, outras meias luas que pareciam um D, outras em barco inclinado, umas mais estreitinhas, outras mais largas. Olhando para toda, parecia um quadro com as fases da lua.
As pétalas da flor de cor amarela, tinham as pontas em bico, e olhando para toda, parecia uma estrela. A águia percebeu logo que eram aquelas duas…as sementes surpresa, e chamou a senhora. Primeiro deixou que a senhora adivinhasse no meio de todas aquelas flores, as que lhe pareciam diferentes. Mas a senhora não identificou. Pareciam-lhe todas familiares.
- São estas! – Mostra a águia
- Já as viste?
- Sim.
A senhora solta uma grande exclamação, muito surpresa, e ao mesmo tempo um pouco assustada:
- Áh! Mas que flores são estas…? Nunca vi…que forma tão…rara…
A senhora toca a medo, e percebe que é maravilhoso sentir as pétalas.
- Mas que pétalas tão delicadas…macias… o seu formato é raro… lindas! Fazem-me lembrar alguma coisa…engraçado!
- A mim…esta branca azulada faz-me lembrar as fases da lua…esta…amarela…parece uma estrela…
A senhora volta a olhar para elas…
- Sim, é isso. Claro!
As duas flores sorriem à senhora, e ela retribui.
- Elas estão a sorrir-me, ou sou eu que estou a imaginar?
- Estão a sorrir-lhe!
- Olá! – Dizem as flores
- Olá! – Diz a senhora e a águia
- E falam…? – Pergunta a senhora muito surpresa
- Falamos! – Respondem as duas
- Queremos ser as suas netas. – Diz a flor branca azulada
- Podemos? – Pergunta a flor amarela que parece uma estrela
- Óh, minhas queridas…claro que sim. Com todo o gosto. Não sei como apareceram aqui, mas se chegaram ao meu jardim, são muito bem-vindas e serão muito bem tratadas por mim, com muito amor e carinho. – Responde a senhora
- Não tenho dúvidas disso! – Diz a flor branca azulada
- Dá para ver que sim. – Acrescenta a flor amarela
- Ei…e eu vou ser o quê para vocês…? – Pergunta a águia ciumenta
- Vais ser… - diz a senhora
- A nossa mãe! – Respondem as duas flores
- Áh! Mas com muito gosto. Que surpresa! Não vos faltará nada…! – Sorri
- Que lindas as tuas penas! – Repara a flor branca azulada
- Muito obrigada. – Responde a águia vaidosa
- Vocês também são lindas…! Vamos dar-vos nomes… - Sugere a senhora
- E que tal se lhes chamar-mos… A ela…rosalua…e a ela… rosaestrela? Rosalua porque as pétalas dela parecem ter a forma das fases da lua, e a cor…e para ela…rosaestrela porque as pétalas dela fazem lembrar uma estrela! – Sugere a águia
- Rosalua…e Rosaestrela… Rosalua…e Rosaestrela… - repetem
- Sim…! – Dizem todos
- Gosto desses nomes. – Diz Rosalua
- Soa bem! - Diz Rosaestrela
- Obrigada! – Dizem as duas
- Seremos uma família! – Diz a senhora
- Uma família! – Dizem todos felizes
E todas têm uma longa conversa, riem, a águia leva as duas a passear nas suas asas, umas vezes no seu lombo, outras vezes debaixo das suas asas, conforme está o tempo, a senhora prepara um lugar especial protegido dentro da sua casa para as três, e passam longos serões como uma verdadeira família, com água, alimento, muito carinho, muita diversão e amizade, e aprendem muitas coisas umas com as outras.
Assim nasceram as flores surpresa… Rosalua e Rosaestrela que alegraram a vida da senhora e da águia. E vocês? Se recebessem umas sementes surpresa, como seriam as vossas flores surpresa? Onde as colocariam? Desenhem-nas…
FIM
Lálá

(14/Julho/2016)

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O poço dos reflexos


            Era uma vez uma noite cheia de estrelas, com uma lua gigante e quente de verão. Tão quente que uma menina estava no jardim da sua casa, sentada encostada ao poço, porque não conseguia dormir…os seus pais, avós, e irmãos estavam nos quartos, mas ela preferiu sair e deliciar-se com o canto das cigarras e grilos.
Uma fada que voava sem pressa, olhou para baixo e viu a lua refletida no poço, mas ela não sabia que era um poço, com água, por isso conseguia ver a lua.

- A lua está ali…e…ali…no chão? – Pergunta a fada muito surpresa

Pousa no muro do poço, onde havia flores, e espreitou para a lua que estava muito lá em baixo. A fada sentiu medo e tonturas, e quando estava quase a cair, gritou. A menina segurou-a, sorriu encantada e disse-lhe:

- Olá boa noite! Bem-vinda à minha casa…quer dizer…ao meu jardim! Estás assustada?

- Ai…! Sim, estou muito assustada! Que medo! Ia cair! Vi ali a lua…ali muito em baixo, lá de cima enquanto voava, mas não pensei que estava tão em baixo! Que sítio é este?

- É um poço que tem água! É por isso que vês a lua…quer dizer…o reflexo dela.

- Um poço? Ai tu já tinhas visto?

- Sim!

- O que é isso de…o nome deste sítio?

- Poço! É um armazém de água! Nós usamo-lo para beber, regar, dar de beber aos animais.

- De onde vem a água?

- Da montanha.

- É boa?

- Não pode ser melhor…é fresca, leve, limpa. Faz muito bem á saúde!

- Áh! Mas isto é muito escuro…!

- Agora à noite sim…mas de dia não há problema.

- E vocês entram ali? Isto é muito…fundo!

- Sim…muito fundo mesmo, e tem muita água, mas nós tirámo-la com estes baldes…estão aqui pendurados, descemos a corda…os baldes descem, apanham água e nós tiramos! Fazemos isto muitas vezes por dia…

- Áh! Que engraçado…e a água nunca falha?

- Para já não tem falhado! Mas também temos outra água…dentro de casa, só que não vem daqui! É perigoso andar por aí…!

- Estou a perceber que sim! Mas…e tu, estás aqui fora, porquê?

- Porque não consigo dormir…!

- Estás sozinha?

- Os meus familiares estão no quarto, eu é que vim até aqui…está mais fresco! E adoro ouvir as cigarras e os grilos cantar.
- É este som?

- Sim!

- E o som da água do poço também é muito agradável…

- Pois é! E porque é que não consegues dormir? O pestana ainda não passou aqui?

- Não! Está muito calor!

Outra fada pequenina também ficou curiosa, mas desceu tão rápido que só parou mesmo na água do poço. Ficou a boiar, e toda encharcada, muito pesada…tão pesada que não conseguiu voar outra vez. Ela grita assustada:

- Socorro!

O seu grito faz eco e ela olha para todo o lado, procura outras fadas, mas não vê ninguém.

- Socorro… - Volta a gritar! – Ai…que sítio é este? Onde estou? Como é que eu vim aqui parar? Ai…! Que horror…socorro…! Acho que estou na água! Óh não…! Estou na água…não! Não pode ser… socorrrooooooo…

Elas ouvem alguma coisa, espreitam, a fada fica assustada e grita:

- Ei…socorro…ajudem-me! Tirem-me daqui…

As duas dizem em coro:

- É uma fada!

A menina lança o balde e explica:

- Olha, vai chegar ai um balde…entra para ele, e eu puxo-te!

- Está bem.

O balde desce, e a fadinha está a tremer, a menina inclina o balde e apanha um bocadinho de água, juntamente com a fadinha. A menina puxa o balde, e já na relva, a fadinha sai, cheia de frio e assustada, sacode-se, respira de alívio.

- Olá! Eu conheço-te! – Diz a fada que estava com a menina

- Muito obrigada! – Diz a fadinha

- Como entraste ali…? – Pergunta a outra fadinha

- Não sei…quer dizer…sei…eu queria conhecer este jardim, e desci rápido, tão rápido que não consegui parar antes de chegar à água. Nem sabia que tinha água.

- Também foste atrás do reflexo da lua? – Pergunta a menina

- Não! Acho que foram as flores, e o formato redondo que me atraíram. Mas não sabia que tinha água! e está fria! Acho que até estão mais fadas ou alguém lá em baixo, porque também ouvi mais vozes a pedir socorro! Não vi ninguém… mas ouvi.

A menina ri.

- Não! Não está ninguém…só estavas tu, e as vozes que ouviste a pedir socorro, eram o eco da tua voz…

- Como? – Perguntam as duas fadas

A menina explica-lhes, e as três experimentam. Divertem-se a brincar ao eco. Depois, as duas fadas vêem as suas sombras na água, vêem o reflexo das flores na água, o reflexo da lua na água e o reflexo de alguns pirilampos a voar, na água. Depois vêem as suas sombras no chão do pátio, à volta do poço.

- Ei…! O que é isto? – Dizem as duas

- É a vossa sombra! Olhem a minha! Estas três…somos nós! – Responde a menina

- Áh! Que esquisito! – Diz uma fada

- Esta sou eu…?

- E esta sou eu…?

- Sim! – Responde a menina

- Áh! Como? – Exclamam e perguntam as duas

A menina não sabe explicar, mas todas acham engraçado, e brincam a correr atrás das próprias sombras que são o seu reflexo. Ainda riem muito, brincam, correm, saltitam e mais tarde o jardim é invadido por um bando de pirilampos, que dançam com as duas fadas.
A energia entre eles foi tão boa e tão forte que se juntaram e todos fizeram uma bela festa, acompanhados com as músicas das cigarras e grilos que se deixaram contaminar pela alegria deles, até quase de manhã, quando a menina fica finalmente com sono.
Trocam agradecimentos e sorrisos, e voltam a encontrar-se nos dias seguintes mas a menina não fica até tão tarde.

E vocês já viram a vossa sombra, ou o vosso reflexo…ou reflexos de coisas na água?
Já estiveram em lugares onde ouviram o eco…?  
Gostaram da experiência?
Se ainda não experimentaram…experimentem.

FIM
Lálá
(9/Julho/2016)

  

  

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A estrela-do-mar e as sereias

                                                                                   foto de Lara Rocha 
                           
Era uma vez no fundo do mar, uma cidade marinha, cheia de casas, mistérios e agitação. Nessa cidade viviam muitos peixes, de todas as espécies e cores, tamanhos, golfinhos, estrelas-do-mar, cavalos-marinhos, caranguejos, lulas, polvos, sereias e espécies raras.
Nesse dia, muitas sereias estavam deliciadas a ler um livro, confortavelmente instaladas em bancos de areias, num grande coral maravilhoso, onde elas adoravam estar.
Cada uma com o seu livro, mas faziam muitas outras coisas, como conversar, rir, pintar, desenhar, fazer rendas, malhas, roupas, jóias, e tudo o que mais gostavam. Esse era um sítio quase secreto.
Uma pequena estrela-do-mar já tinha passado por lá muitas vezes, mas nunca tinha entrada, e ficava sempre muito pensativa, curiosa para saber o que acontecia naquele sítio, o que haveria lá de tão especial, e principalmente…o que era aquilo que elas tinham nas mãos.
Espreitou, e escondeu-se, mas alguém a viu, e convidaram-ma a entrar. Ela ficou um pouco envergonhada, entrou, sorriu, e pediu desculpa. Todas riram, e mostraram o espaço todo. A estrela-do-mar ficou encantada e compreendeu porque é que elas gostavam tanto desse lugar.
Aproveitou e perguntou o que é que elas tinham entre as mãos. As sereias responderam que eram livros, cada uma mostrou o seu. A estrela-do-mar nunca tinha visto livros, nem as palavras, nem as letras, e perguntou o que era aquilo.
Elas responderam que eram letras: umas isoladas, outras de mãos dadas que formavam palavras, e juntas, em filinha, construíam frases. Elas sabiam ler, mas a estrela-do-mar, não, por isso perguntou o que diziam aquelas letras, e aquelas palavras.
Uma sereia perguntou à estrela-do-mar se ela queria aprender a ler, e ela respondeu logo que sim. Cada uma ensinou uma letra e uma palavra do seu livro, a estrela-do-mar desenhou-as num papel, e as sereias festejaram orgulhosas, cada palavra que ela escreveu e leu direito.
Depois, a estrela-do-mar leu cada letra, cada palavra e cada frase, com cada sereia, e ficou encantada…tão feliz, que passou a ir para esse lugar todos os dias seguintes.
Em cada dia, a estrela-do-mar aprendeu a ler várias palavras de cada livro, de cada sereia, umas mais fáceis, outras mais difíceis, umas mais bonitas, outras mais alegres, umas maiores, outras mais pequenas.
As sereias tinham ensinado a estrela-do-mar a ler, e a estrela-do-mar aprendeu a ler como elas, partilharam livros, criaram histórias bonitas e divertidas, juntas. A estrela-do-mar ensinou outras estrelas-do-mar a ler e a escrever, e todas se juntavam para ler e ouvir as histórias umas das outras.
Podemos sempre aprender muito uns com os outros, e ensinar, como as sereias ensinaram a estrela-do-mar, que queria aprender, aprendeu e depois ensinou outras estrelas-do-mar, para isso, e por isso é que devemos ler muito, ouvir ler, partilhar livros, brincar, conversar.  
E vocês? Já ensinaram alguma coisa de especial a alguém? O quê? A quem? Quem é que vos ensinou mais? Gostam de aprender?
FIM
Lálá
(27/Junho/2016)




domingo, 19 de junho de 2016

As botas

Lara Rocha 

Era uma vez uma família de andorinhas que emigrou do seu país de origem pelas alterações climáticas, que tornaram o ar da cidade muito poluído, com ondas de calor insuportáveis daquelas que nem dava para mexer uma pena…e muitos ficaram doentes porque em vez de boa comida e água limpa, passou a haver toneladas de lixo.
Voaram milhares de quilómetros, pararam em vários sítios que gostaram para descansar, mas decidiram continuar, até que chegaram a uma aldeia no meio de uma montanha muito alta, com muito poucas casas, muitas árvores, e gado a pastar.
O vento estava forte, apesar de sol. Viram uma fonte, beberam, refrescaram-se, e pousaram na relva macia, debaixo de uma árvore à sombra. Olharam em volta, respiraram e gostaram do ar, do silêncio quase total que já não ouviam há tanto tempo, sentiram paz, e que era ali!
Tinham encontrado finalmente um sítio que reunia tudo o que queriam, procuravam…quer dizer…só faltava uma casa! Haviam de encontrar, mas primeiro quiseram descansar…estavam tão cansados que nem ouviram os movimentos e as vozes das pessoas. Só acordaram quando a fome apertava, e comida não faltava! Estavam mesmo em paz.
Quando se sentiram mais fortes foram conhecer a floresta à procura de um ninho, e tudo era lindo: as flores, as árvores, as fontes, os animais, os sons e as cores que os rodeavam…até que viraram as cabeças e viram umas botas grandes que tinham ar de ter sido abandonadas! E estavam mesmo abandonadas. Tinham sido deixadas por um dos humanos por estarem velhas.
Elas não sabiam que o que estavam a ver eram botas, só que já tinham visto muitas nas cidades por onde passaram à beira do lixo. Espreitaram, não cheiravam a nada e por dentro estavam boas.
As andorinhas não procuraram mais, pois já estavam habituadas a ter de se desenrascar, inventar e criar habitações, meios de sobreviver e de se protegerem. Aproveitaram o par de botas e puseram-nas encostadas a uma árvore muito grande, velha, com um grande buraco no tronco.
Usaram tudo o que precisavam e mais gostavam para o ninho que ficou dentro do tronco, muito espaçoso e aconchegante, confortável. Uma bota pousada num ramo de uma árvore serviu de teto para tapar o ninho e a outra bota serviu de porta que elas puxavam nos dias de tempestade e frio.
Estavam maravilhosamente bem instaladas e sossegadas, rapidamente conheceram outras andorinhas que também tinham fugido e que se instalaram nas árvores à volta, quase parecia um condomínio fechado, onde todas eram como família, e usavam às vezes a bota da porta para abrigar, quando havia convívios nos dias frios e chuvosos. Todas partilhavam coisas umas com as outras, o que precisavam, todas ajudavam e faziam muitas festas.
Quando chegou a altura de ovos e bebés, a bota de entrada serviu muitas vezes de infantário onde estavam sempre acompanhados e vigiados por adultos que se revezavam enquanto iam buscar comida.
Umas fadas gostaram tanto da ideia das andorinhas que preparam uma surpresa para todas. Arranjaram mais pares de botas que estavam velhas e transformaram-nas em autênticos prédios para andorinhas, espaçosos, climatizados com uma temperatura sempre agradável que todas suportavam bem, com janelas que abriam e fechavam, infantário, parque e centro de convívio para as andorinhas mais velhas…depois, estes prédios abrigaram outros pássaros de outras espécies que eram sempre muito bem recebidos.

O que alguns deitam fora só porque estão com um aspeto menos bonito, outros aproveitam!

                                                           FIM
                                                           Lálá
                                                    (17/Junho/2016)
   

   

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A aldeia de croché

Era uma vez uma senhora muito velhinha, há muitos anos atrás que se lembrou de ocupar o seu tempo livre, desde que era criança, e enquanto foi mais jovem, até as suas mãozinhas começarem a ficar encarquilhadinhas e doridas, fazendo peças em croché.
Esta atividade tinha começado com a sua bisavó, que já tinha ensinado á sua avó e à sua mãe, e esta última à senhora, muito comum na maioria das famílias. Todas as mulheres se reuniam na aldeia, de todas as idades, nas casas umas das outras, e nas eiras à sombra, ou nos campos, nos intervalos de outros trabalhos.
Era lindo ver tanta geração a fazer coisas tão bonitas, com tanta delicadeza, amor, gosto e perfeição, enquanto conversavam durante horas, riam, rezavam, cantavam, e depois de fazerem mais mil e uma coisas.
Cada uma fazia o que queria…toalhas, almofadas, rendas, apoios, lençóis, cobertas, paninhos para cestinhos, até que as gerações mais novas começaram também a inventar «pessoas» em croché, e a juntar outras materiais, para fazer bonecas de todo o tipo, lindas.
As bonecas pareciam mesmo «pessoas» umas enormes, outras médias e mais pequenas, com todos os pormenores: cabelos, olhos, nariz, boca, braços, mãos, dedos, pernas… almofadavam com espuma, penas ou restos de lãs, e tecidos, vestiam-nas com roupas em croché de outras cores, e até tinham sapatinhos em croché de todas as cores.
Nenhuma boneca era desperdiçada, mesmo aquelas que não eram tão perfeitas, ou que tinham alguns «erros» de construção, porque como quem as construía dizia…a sociedade também tem pessoas imperfeitas.
Esta ideia inspirou-as e construíram bonecas em croché com cadeiras de rodas, andarilhos, muletas, bengalas, óculos, membros mais curtos que outros…tal como elas viam entre as pessoas da cidade, e na própria aldeia.
Depois lembraram-se de experimentar fazer casas e meios de transporte, árvores, flores, montanhas e animais em croché. Gostaram tanto da experiência que foram experimentando cada vez mais coisas novas, e conseguiram construir uma verdadeira «cidade em croché».
Num dia em que se lembraram de juntar todas as peças que já tinham feito, perceberam que já tinham uma cidade, e quiseram expor. Todos ficaram muito surpresos e maravilhados.
As fadas foram as primeiras visitantes e adoraram, decidiram dar um prémio pela dedicação delas, e gosto, as peças de croché não eram simples pedaços de croché expostos e imóveis, puseram logo tudo em movimento com os seus poderes mágicos!
Todas as peças mexiam e faziam sons, principalmente as peças da natureza, parecia um presépio animado, e todas as mulheres que construíram esta cidade de croché ficaram muito felizes, parecia que tinham voltado a ser crianças.
O Presidente da Câmara divulgou pelas cidades, e a aldeia encheu-se de milhares de visitantes que fotografavam, queriam comprar tudo…mas como elas não queriam vender, os visitantes encomendavam e pagavam bem. Não tiveram mais sossego, mas também ganharam muito dinheiro.
Com esse dinheiro ajudaram-se uns aos outros, porque era uma aldeia pobre, no inicio, construíram coisas que faziam falta, melhoraram as condições das casas, mesmo assim continuaram a ser as pessoas simples que sempre foram, e a dedicar-se ao croché.
Foi assim que nasceu a Aldeia de Croché que fez para sempre as delícias de quem visitava…que pareciam voltar à infância e à magia. Mulheres inspiradoras, com mãos de fada, e amor pelo que faziam.     

E vocês?
Conhecem croché?
Conhecem alguém que faça croché?  
Conseguem imaginar uma cidade com pessoas e casas…tudo feito em croché?
Gostavam de visitar essa cidade?

FIM
Lálá

(13/Junho/2016)