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terça-feira, 7 de abril de 2015

O guarda-chuva girassol


Era uma vez um belo guarda-chuva que voava pelo ar ao sabor do vento, parecia quase um balão de ar. Era de amarelo-claro e coberto de girassóis, o cabo era verde, e por dentro tinha milhões de palavras soltas, bonitas, que não tinham ligação entre si.
Os girassóis do guarda-chuva giravam enquanto voavam, sorriam a quem passava, e fechavam-se em si mesmos quando as aves tentavam agarrá-los ou pousar em cima deles. Todos ficavam espantados, ao ver aquele guarda-chuva de girassóis.
Mas de quem seria? Como é que ele foi parar às nuvens? Ele saiu da varanda de uma casa, onde estava aberto para secar. Foi levado pelo vento que gostou tanto dele, que queria ficar com ele e levá-lo a uma senhora velhinha que vivia numa floresta.
O vento faz descer o guarda-chuva das nuvens e pousou-o na varanda dessa velhinha, uma boa senhora de muita idade que andava triste e vivia solitária. Quando viu o guarda-chuva, ficou feliz e abriu um grande e luminoso sorriso.
- É para ti, boa senhora. – Diz o vento
- Óh! Que lindo! Onde arranjaste? – Perguntou ela
-Não interessa onde… arranjei-o para ti, para te ver sorrir outra vez. Adoro o teu sorriso, e andavas muito triste, por isso resolvi oferecer-te flores.
- Que lindo! Obrigada! É mesmo fantástico. Cheio de flores, cor e leveza…! – Diz a senhora a sorrir  
        Entretanto, a dona do guarda-chuva chegou à varanda para recolher o guarda-chuva e não o vê.
- Áhhh…Onde está o meu guarda-chuva? Eu deixei-o aqui… (Olha para baixo e para cima, e não o vê). Mas…onde está?
        Procura por todo o lado, leva um outro guarda-chuva e procura na rua, no caixote do lixo, noutra varanda…mas nem sinal. A senhora fica um pouco triste. Aparece um anjinho pequenino e sussurra-lhe:
- O teu guarda-chuva foi roubado pelo vento, para dar a uma velhinha que estava triste.
- O quê?
- Isso mesmo. O guarda-chuva foi a voar, e está na casa dessa senhora.
- Como é que foi o vento que o levou?
- A soprar…
- E agora?
- Agora…está noutra casa.
- E sabes para onde foi?
- Sei. Queres que te leva lá?
- Sim, se faz favor.
        O anjinho da senhora leva-a até à casa onde está o guarda – chuva. As duas encontram-se.
- Áh! Está aqui o meu guarda-chuva!
        A dona do guarda-chuva bate à porta. O anjinho recomenda:
- Cuidado…não sejas má com ela…ela é muito velhinha e não foi ela quem roubou.
        A velhinha abre a porta.
- Boa tarde…
- Boa tarde, desculpe estar a incomodar…
- Entre…venha tomar um chá e comer uns bolinhos, e vamos conversar um pouco.
- Mas…
- Entre… (as duas entram) Olhe que lindo guarda-chuva…
- Sim, é mesmo lindo! Eu tinha um igualzinho, mas desapareceu.
- A sério? Como é que desapareceu?
- Acho que foi roubado…
- Mas que maldade.
        O vento fica muito envergonhado. As duas entram e têm uma longa conversa, enquanto tomam o chá. A senhora do guarda-chuva está feliz com a velhinha, e esta com ela. As duas conversam bastante, e riem ainda mais. Contam uma à outra, coisas das suas famílias, acontecimentos importantes, boas recordações.
- Desculpe…eu falo muito, mas sabe, sinto-me muito sozinha, de maneira que, quando encontro alguém gosto de conversar…até converso sozinha, ou com a natureza! – Diz a velhinha
- Fale à vontade. Estou a adorar ouvi-la, e também gosto muito de conversar.
        A velhinha pega no guarda-chuva e devolve à senhora sua dona, porque algo lhe dizia que aquele guarda-chuva era dela.
- Pegue o seu guarda-chuva. É seu, não é? – Pergunta a velhinha
- Bom..creio que pode ser…não sei…mas fique com ele.
- Não. Eu sei que é seu…o vento trouxe-o da sua varanda para eu ficar feliz, porque andava muito triste, e adoro flores.
- Ai, que vergonha…por favor não pense que vim atrás do guarda-chuva. Vim porque o meu anjo guiou-me até aqui, para a conhecer…e ainda bem, porque a senhora é uma maravilha. Virei mais vezes visitá-la.
- Obrigada filha…a sua visita é muito melhor que mil girassóis num guarda-chuva. E traga-me os seus poemas para lermos aqui…adoro poemas. E o interior do seu guarda-chuva está cheio de palavras bonitas…raras…hoje em dia! Eu sei que é seu…leve-o. E volte sempre que quiser…terei muito gosto em conversar mais consigo…
- Está prometidíssimo. Virei já amanhã e trarei os meus poemas.
- Eu vou ensinar-lhe a fazer bonecas de pano, se quiser…
- Claro que sim.
- Então venha…e leve o seu guarda-chuva. É lindo!
        O vento responde envergonhado:
- Sim, é verdade, Avó…esse guarda-chuva é dessa senhora…eu trouxe-o da sua varanda. Perdoe-me…eu só a queria ver sorrir, e feliz. Não roubei por maldade!
- Que feio, vento…! Isso não se faz…! - Diz a velhinha
- Tem toda a razão. – Diz o vento
- Óh, o vento não fez por mal. – Diz a dona do guarda-chuva
- Pois não… Perdoe-me, senhora…! - Diz o vento
- Não voltes a fazer isso…mas desta vez ainda bem que o fizeste, porque ganhei uma amiga para o resto da minha vida. – Diz a velhinha
- Isso tem toda a razão! – Diz a senhora
        E as duas abraçam-se, sorridentes. A senhora leva o guarda-chuva.
- Até amanhã…eu à noite telefono-lhe… - Diz a senhora
- Não te preocupes… e vamos tratar-nos por tu…sim?
- Como quiser…quiseres…por mim, sim.
- Até amanhã, querida…e muito obrigada pela visita…por teres entrado na minha vida.
- Muito obrigada eu.
        Dão mais um abraço, sorridentes.
- Até amanhã. – Dizem as duas
        E tanto uma como outra, estão muito felizes por se terem encontrado, por causa do guarda-chuva dos girassóis. A senhora chega a casa e prega girassóis num guarda-chuva para oferecer à velhinha e ficar com um igual ao seu. À noite, telefona para saber como é que ela está e desejar-lhe uma boa noite.
        No dia seguinte, as duas voltam a encontrar-se e trocam mimos e conhecimentos, aprendem muito uma com a outra. A senhora fica muito feliz com o guarda-chuva e com todos os pequeninos carinhos que a senhora lhe levou. Passam uma tarde excelente.
        Depois desse dia, nunca mais se separaram. Encontravam-se quase todos os dias, na casa uma da outra, à vez, iam passear de braço dado, riam e conversavam muito, e tornaram-se uma verdadeira família. A velhinha nunca mais se sentiu sozinha nem triste, e a senhora só ganhou com tudo o que a doce e simpática velhinha lhe ensinou.
        Roubar não se faz! É muito feio e mau, até o vento se arrependeu, ficou envergonhado e pediu desculpa. Foi por causa dos girassóis que nasceu uma bela amizade e uma família, mas também foi porque ambas tinham bons sentimentos. É melhor oferecermos uns aos outros o que temos, ou o que podemos oferecer, sem tirar ou roubar por maldade. Podemos oferecer um sorriso, uma pequena flor, um carinho, um colo, um ombro, uma mão, uns ouvidos…
Foi muito bem aceite por toda a família da senhora, principalmente pelos netos pequenos que também tratavam a velhinha como uma Avó, aprenderam muito com ela, deram-lhe muitos carinhos e atenção.
        Temos sempre muito que aprender com os mais velhos, por isso devemos respeitá-los, não os roubar, nem os maltratar.

                                       FIM
                                       Lálá

                                     (7/Abril/2015) 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A LIÇÃO DAS TULIPAS PROTECTORAS

foto de Lara Rocha 

  Era uma vez um jardim enorme com muitas outras tulipas, de muitas cores diferentes. Abriam com o sol, e fechavam com a noite ou quando havia mais sombra.
   Um dia, um menino cismou que queria apanhar borboletas, e que as ia pregar num placard pelas asas com pioneses. 
    Os pais não estavam de acordo com essa maldade, e tentavam de todas as maneiras contrariá-lo, distrai-lo com outras coisas, mas ele era muito mimado, teimoso e rebelde.
    Conseguia tudo o que queria com as suas birras ouvidas por todo o bairro, ainda por cima, mentia…quando vinham ver o que se passava, e a razão daquela gritaria, ele dizia que os pais lhe tinham batido. 
      Felizmente, muitos vizinhos já sabiam que ele era assim, não acreditavam. Cismou tanto, que saiu de casa sem os pais perceberem, e levou uma rede para as apanhar, com um saco de pioneses, preparado para pregar as borboletas. 
   Correu de um lado para o outro, mas as borboletas escapavam, e uma delas avisou as outras, muito assustada:
- Meninas…fujam! Anda aí um estouvado, uma criatura maldosa que nos quer apanhar com aquelas redes, e prender com pioneses. Tenham cuidado.
  As borboletas ficam muito nervosas e assustadas.
- Como é possível? – Diz uma borboleta nervosa
- É um adulto? – Pergunta outra
- Não. É uma criatura pequena. – Responde a outra borboleta
- Tão pequena e já com essa carga de maldade? – Comenta outra
- Faltam-lhe umas palmadas para aprender a respeitar. – Diz outra
- É bem verdade…é isso mesmo! – Concorda outra
- Mas não percam mais tempo…escondam-se onde puderem e assim que puderem. – Recomenda a borboleta
- Obrigada por avisares, amiga! – Diz uma borboleta
- De nada…escondam-se como puderem e onde puderem.
    Elas voam rápido, e procuram abrigo, mas são tantas que os espaços não chegam para todos, pelo menos aqueles lugares que podem ser mais seguros para as borboletas.
- Está ali… - Grita outra borboleta
- Maldito! – Gritam todas
- Qual é a piada nisto?
- É nestas alturas que eu gostava de ser um animal diferente…uma fera com garras.
- Eu também.
- Dava cabo dele…
- E agora…? Para onde vamos?
- Boa pergunta…já está tudo cheio!
- Que nervos!
- Em último caso, damos-lhe um par de estaladões.
- Isso mesmo.
- Que palerma.
- Eu?
- Aquele…
    As tulipas apercebem-se da preocupação e agitação das borboletas e abrem, excepcionalmente:
- Escondam-se aqui! – Gritam as tulipas
   E entram às centenas para as simpáticas tulipas que se abriram. Logo que elas entram, as tulipas fecham-se. 
Não se vê mais uma única borboleta a voar.
- Onde foram todas? – Pergunta a criança
    Silêncio absoluto. De uma árvore sai um tronco fininho que lhe bate no rabo. Ele grita.
- Vai-te embora criatura horrível. – Diz uma voz
- Que voz é esta?
- Vai-te embora! – Grita outra voz mais forte
- Palerma! – Diz outra voz
- Eu quero borboletas. – Grita o pequeno
- Elas não aparecem enquanto as quiseres prender… - avisa a voz mais forte
- Mas eu queroooo… - grita o pequeno
- Estás habituado a que te façam todas as vontades…não pode ser. – Ralha outra voz
- Vai para a tua casa, e não voltes a perseguir as borboletas… – Grita outra voz mais forte
- Elas são bonitas em voo. – Grita outra voz
- Não vais ter essa sorte enquanto as perseguires… - Diz uma voz
- Elas não foram feitas para estar pregadas nas paredes.
- Foram feitas para estar livres.
    O pequeno insiste, mas as vozes não se deixam levar por ele, e dão-lhe uma bela lição. As tulipas abrem e todas as borboletas voam. 
  O pequeno fica tão encantado que perde a vontade de as apanhar e prender, e também as vê a dançar com todas as suas cores.
- Ááááááhhhh…! – Diz o pequeno espantado
     Até aplaude. Desde esse dia, o pequeno nunca mais apanhou borboletas. Gostou tanto de as ver, e de ver as tulipas a abrir e a fechar, que levou os pais a esse jardim para eles verem. Aprendeu a apreciar o que é bonito, sem prender e sem ficar com elas.
    É isso mesmo…há muitas coisas bonitas na natureza que são só para ser vistas, só assim é que se consegue ver a sua verdadeira beleza. 
    O mesmo acontece com as pessoas, e com os sentimentos. Presos, não mostram a sua beleza. 
    O Mundo precisa de pessoas que mostrem a sua verdadeira beleza, não a física, mas aquela que nem todos os olhos vêem à superfície. 
     Há belezas que só se descobrem no abraço, na amizade, no carinho, e na liberdade. O mundo precisa de liberdade, para ser mais bonito, e nós também.

                               FIM
                               Lara Rocha 
                        (6/Abril/2015)

   


O ANEL

Era uma vez uma família como muitas outras, que decidiu fazer uma caminhada pela montanha a pé. O caminho era bastante longo, e tinha muitas pedras, buracos, só não passava trânsito.
        Saíram de casa antes do nascer do sol, com roupa confortável, calçado próprio e uma mochila com o essencial: água, alimentos sólidos, e umas roupas mais leves que iam trocando conforme o dia fosse aquecendo.
        Olham para o céu e exclamam:
- Áh!
- Que lindo... – Comenta a mãe
- Está cheio de estrelas. – Diz a menina a sorrir
- Está ali a ursa menor…olhem! – Repara o menino
- Há quanto tempo não via assim o céu! – Sorri o pai
        Benzem-se, cada um pede protecção aos seus anjos da guarda, e começam a andar. Eles queriam chegar bem, e aproveitar ao máximo tudo de bom que a caminhada oferecia: os mimos da natureza, as diferentes temperaturas, a luz natural…os sons, e os aromas. 
Não estavam preocupados com o que faltava andar, nem as condições do caminho, foram mesmo em passeio. Começaram a andar, sempre numa conversa muito animada, e a ver as estrelas, misturadas com a claridade que começava a aparecer. Sentiram a frescura da madrugada, viram as mudanças da cor do céu, e o nascer do sol acompanhou-os.   
Subiram, subiram e subiram, pararam várias vezes pelo longo caminho que percorreram, beberam água e comeram, pararam para apreciar a paisagem. Quando ganharam novo fôlego continuaram.
Mudaram de roupa, e descansaram um pouco. Chegaram finalmente ao topo da montanha, ainda antes da hora de mais calor. Sentaram-se na relva, deitaram-se, beberam água, agradeceram por terem chegado bem, e comeram. Deitaram-se à sombra de uma árvore muito velha quando o dia começou a aquecer.
De repente, cai um anel aos pés da mulher do casal, sem terem visto de onde.
- Querida…é teu? – Pergunta o marido
- É um anel, mas não é meu! Onde estava?
- Caiu agora aqui.
- Caiu? De onde?
- Pois não sei…se não é teu.
- Se calhar alguém o perdeu aqui.
- Será? Mas então, como é que ele agora caiu aqui?
- Podia estar no chão, alguém o encontrou, e puseram-no aí para ficar seguro…
- Na árvore?
- Sim.
- Bem…talvez.
- É bonito!
- É. Mas então vamos deixá-lo ali na mesma…
- Isso mesmo.
        Ele pousa o anel na árvore. Mas o anel volta a cair aos seus pés.
- Então…? Caiu outra vez?
- É…
- Ponho-o aqui.
        E volta a pô-lo na árvore, num outro sítio. O anel volta a cair. Ficam todos surpresos.
- O que é que se passa aqui? – Pergunta a mulher
- Não sei…mas é muito estranho.
- É.
        A árvore responde:
- Esse anel é para vocês!
- Para nós? – Perguntam todos
- Quem está aí? – Pergunta a mulher
- É para vocês…- Repete a árvore
- Mas esta árvore dá anéis? – Pergunta a menina
- É um anel que vai mudar a vossa vida, e a de muita gente.
- Porquê? – Perguntam todos
- Como? – Pergunta a mulher
- Verão. – Diz a árvore
- Não estou a perceber nada! – Diz a mulher
- Eu também não. – Diz o homem
- Vende o anel. – Recomenda a árvore
- Vendo? A quem? O negócio está muito mau. – Diz o homem
- Vende a muita gente! Cada um que quiser…que compre um pedacinho. – Diz a árvore
- Mas…- Dizem todos
        O homem guarda o anel, e não pensam mais nele. Apreciam a paisagem, até que regressam a casa, um pouco cansados, mas encantados com o que viram.
No sossego, voltam a pegar no anel, e ficam muito tempo a pensar o que vão fazer com ele. Por um lado, têm medo de ficar com ele, por outro, não sabem como vendê-lo.
Será que o que a árvore disse era mesmo verdade? Quem teria deixado aquele anel, naquela árvore? E porque é que tinha de calhar a eles? A quem é que iriam conseguir vender?
Tantas perguntas invadiram as suas cabeças. No dia seguinte, o homem foi à cidade, a uma ourivesaria e perguntou quanto valia aquele anel. O ourives olhou-o atentamente, com lupa, e pesou…
- Isto vale muito dinheiro… - Diz o ourives
- Se conseguir vendê-lo poderei ajudar muita gente… - Diz o homem
- Vou ver o que posso fazer…deixe-o aqui, que logo se vê.
- Combinado!  
        Como era um anel muito especial, e ele não sabia o valor, deixou lá o anel. Quem passou, ficou encantado com o anel e comprou um pedacinho de diamante do anel. Cada comprador deu um valor bastante elevado, e muitos quiseram comprar. O ouro que sobrou foi vendido.
        Tinham conseguido uma quantia bastante elevada. O homem estava feliz, e ligou ao outro senhor. A mulher ficou muito preocupada, e pensativa pois tinha medo do que poderia acontecer, com o dinheiro que era bom.  
O homem pegou no dinheiro todo, que era muito, era quase milionário, e enviou algum para os países mais carenciados, com outra parte construiu um centro de dia para os mais velhos, e um infantário.
Deu emprego a muita gente e tornou-se muito conhecido e respeitado por todos, mas continuou sempre a trabalhar e a fazer o que mais gostava.
Apesar dessa transformação, a sua humildade e generosidade continuaram na mesma… e a sua felicidade aumentou. As qualidades da pessoa não são compradas com dinheiro, por isso, para quê escondê-las tantas vezes, em vez de mostrar todos os defeitos dos piores? Para quem não as tem, e exige dos outros, que as tenham, para quê desvalorizá-las ou aproveitá-las para espezinhar, ou utilizá-las mal contra a pessoa?
As qualidades são uns verdadeiros diamantes, quando são boas para a pessoa e para os outros. Porque é que agora se escondem? Porque não há tempo para as mostrar, porque não são bem aceites…! Porque há intolerância, desvalorização, excesso de liberdade, e falta de valores…não há tempo para as relações, nem para isso. Há diamantes que não se compram, já os temos em nós…são-nos dados na educação.
                               FIM
                               Lálá
                        (6/Abril/2015)



quinta-feira, 2 de abril de 2015

A lenda dos olhos da fonte

 

  
Há muitos, muitos anos atrás, uma marioneta de madeira foi abandonada pelo seu manejador com quem fez muitos espectáculos. 
        O seu manejador cresceu e deixou de gostar de marionetas, por isso, foi passear e levou-a, prometendo que iam apenas passear, largou-a e foi embora sem nunca mais ser visto.
       Durante muitas horas, noites e dias, a pobre marioneta pensando que era uma brincadeira do seu manejador, esperou e enquanto isso apreciou a paisagem e conheceu alguns amigos.
- Amigo…onde estás? Escondeste-te mesmo bem! – Dizia ela
        E procurava em tudo quanto era sítio, falando com ele, como se ele estivesse lá a ouvi-la. No dia seguinte ela começou a achar um pouco estranho aquela demora em aparecer, e aquele silêncio e ficou preocupada.
- Será que…ai…não! Não pode ser!
        E continuava a procurar e a chamar, mas nada…nem uma resposta.
- Viram por aí um rapaz? – Perguntou a marioneta por quem passava
        A resposta era sempre a mesma:
- Não! Não passou por aqui ninguém. Não…não vi ninguém!
        Até que mais à frente, uma preguiça que estava a espreguiçar-se muito devagar no tronco de uma árvore diz:
- Estás perdida?
- Não sei! – Responde a marioneta
- Como não sabes?
- Não sei…eu estava com o meu manejador.
- Quem?
- Aquele de quem estou à procura…um rapaz.
- Huummm…já andas há vários dias não já?
- Sim…acho que sim! Pelo menos já vi a lua e o sol lá em cima, muitas vezes, não sei quantas.
- Querida marioneta…desculpa dizer-te, mas foste abandonada.
- O quê?
- É! Não te vale a pena procurares mais.
- Mas…
- Eu vi esse rapaz a passar por aqui há vários dias…deve ser esse quem procuras.
- Não pode ser!
- Não achas estranho ele não te responder, e nunca mais aparecer?
- Sim, mas no inicio pensei que estávamos a brincar às escondidas, e que ele estava bem escondido, porque procurei-o e ele não apareceu, mas depois, chamei-o várias vezes, e ele nunca me respondeu…
- E não é estranho?
- Sim! Será que ficou doente, ou magoou-se?
- Não! Ele foi mesmo embora.
- Que tristeza…não pode ser…não quero acreditar nisso!
- Mas acredita. É melhor para ti, do que continuares a sonhar ou à espera que ele apareça. Isso não vai acontecer…a não ser que ele se arrependa.
- Então…ele…abandonou-me?
- Infelizmente sim!
- Aiiii…não! Não pode ser, não acredito.
- Acredita. É mesmo a verdade…gostava de te dizer outra coisa, mas infelizmente é isso que tenho para te dizer. Ele abandonou-te!
- Óhhhh…
- Também fico muito triste por ti.
- Como é que ele teve coragem de fazer isso? Depois…de tanta coisa boa que vivemos…
- Eram muito amigos?
- Eu achava que sim.
A marioneta conta à preguiça. Lembra-se que andaram muito, mas isso ela já não estranhava e até gostava de passear, além disso, os dois tinham sempre temas de conversas, e davam muitas gargalhadas juntos.
A marioneta era a sua confidente, e companheira de brincadeiras. A preguiça ouve-a atentamente, trocam um abraço e a marioneta está muito triste.
Chorou, noites e dias seguidos, de tristeza, desilusão e de solidão. A preguiça e outros animais tentam animá-la, mas ela não consegue.
Um dia, depois de tanto chorar, aparece uma fonte misteriosa de madeira, com uns olhos verdes, e água a cair de cada um deles. A marioneta identificou os olhos como do seu manejador, o que se confirmou quando suou uma voz da fonte:
- Perdoa-me!
        Ela como ainda está muito magoada responde:
- Não perdoo. Magoaste-me muito, desiludiste-me, abandonaste-me, mesmo depois de tudo o que passamos juntos, e depois de tudo o que te dei.
- Fui enfeitiçado, e transformado numa fonte, nesta de madeira que vês... Abandonei-te porque iludi-me com a beleza de uma mulher que depois fez de mim gato e sapato, e transformou-me nisto.
- Não tenho pena de ti. Quantas vezes te disse para não te deixares levar pela beleza de fora de uma mulher…? Nunca me deste ouvidos.
- Agora sou uma fonte de madeira…e tu, uma marioneta de madeira.
- Nunca estivemos tão parecidos.
- É verdade. Mas agora eu vou ficar aqui, e quero que me dês uma oportunidade…que me perdoes…eu sei que é difícil. Mas podes tentar…
        Ela respira fundo, e vira costas.
- Preciso de pensar um bocadinho…posso? – Pergunta a marioneta
- Claro que sim. Eu compreendo-te. Eu não vou a lado nenhum, estou aqui transformado em fonte. Preso ao chão…
        Ela vai para uma fonte, um bocadinho à frente, e vê-se reflectida na água. Fica pensativa, e dos seus olhos cai uma lágrima. O barulho que a lágrima fez ao cair na água, fez vibrar o seu coração, e a água começa a serpentear.
- Sim? – Pergunta ela, baixinho
- Sim! – Responde a imagem dela reflectida na água
- Perdoo? – Pergunta ela, baixinho
- Perdoa. – Responde a imagem dela reflectida na água
        Ela ficou magoada, mas acredita que a amizade entre os dois, não arrefeceu, só adormeceu porque ele quis separar-se, mesmo assim, ela ainda gosta muito dele.
- Chorei tanto por causa dele, e agora…perdoo?
- Sim! – Responde a fonte
        Cai outra lágrima dos olhos da marioneta na água:
- Perdoa, os elos da vossa amizade são muito forte, ainda não se partiram…só congelaram um pouco. Pode voltar a renascer. Ele está a ser sincero.
        Ela olha para ele discretamente, e vê que também está a chorar e a soluçar. Ela vai ter com ele, ele olha para ela, e vira os olhos para o chão. Os dois suspiram.
- Não sei se me vou arrepender…mas também se me desiludir já não será a mesma dor, nem parecida com esta.
        (Os dois olham-se):
- Desculpa! – Diz ele
- Está bem, mesmo depois de me teres triturado…eu perdoo-te e dou-te uma segunda oportunidade, agora vê lá o que fazes, porque a próxima não tem perdão…e vai devagar. – Diz ela
        Ele abre um grande sorriso:
- Gosto muito de ti.
        Ela abraça-o, e a amizade que os unia era mesmo tão forte que a madeira incendiou e a fonte reaparece como manejador. Os seus braços esticam-se, e as pernas crescem. Ela sente algo estranho e afasta-se. Olha para ele:
- Áh! O que aconteceu? – Pergunta a marioneta
- Uau! – Diz o manejador feliz – Voltei a ser pessoa…o feitiço quebrou-se…
- Ááááááhhhh…!
- Sim, foi isso…tu perdoaste-me, e voltamos a ser amigos… isso foi tão bom que quebrou o feitiço que me tinham lançado.  
- Boa! – Gritam os dois
- Muito obrigado…
        Os dois abraçam-se outra vez, ele senta-se no seu colo e põem a conversa em dia, com algumas gargalhadas e lágrimas. Voltam para casa e a sua amizade não tem fim…voltam a fazer tudo o que faziam antes, e a ser os melhores amigos. Muito felizes.
        Esta amizade foi tão sincera e tão forte que se tornou uma lenda conhecida por toda a floresta, que emocionou todos e inspirou… Esta foi a lenda dos olhos da fonte, os olhos que choraram, os olhos que perdoaram, e os olhos que fizeram renascer uma amizade que estava adormecida, pelo gelo do afastamento ou abandono. Os olhos da verdade, os olhos do coração.
São os olhos e até as lágrimas que devemos consultar e ouvir em certas decisões que temos de tomar, como esta se perdoamos ou não alguém que nos magoa…ou se a amizade é mais forte e valiosa, ou se é mais fraca e termina.  
São os olhos que sabem tudo, e muito mais que nós!
FIM
Lálá

(1/Abril/2015)