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segunda-feira, 11 de julho de 2016

O poço dos reflexos


            Era uma vez uma noite cheia de estrelas, com uma lua gigante e quente de verão. Tão quente que uma menina estava no jardim da sua casa, sentada encostada ao poço, porque não conseguia dormir…os seus pais, avós, e irmãos estavam nos quartos, mas ela preferiu sair e deliciar-se com o canto das cigarras e grilos.
Uma fada que voava sem pressa, olhou para baixo e viu a lua refletida no poço, mas ela não sabia que era um poço, com água, por isso conseguia ver a lua.

- A lua está ali…e…ali…no chão? – Pergunta a fada muito surpresa

Pousa no muro do poço, onde havia flores, e espreitou para a lua que estava muito lá em baixo. A fada sentiu medo e tonturas, e quando estava quase a cair, gritou. A menina segurou-a, sorriu encantada e disse-lhe:

- Olá boa noite! Bem-vinda à minha casa…quer dizer…ao meu jardim! Estás assustada?

- Ai…! Sim, estou muito assustada! Que medo! Ia cair! Vi ali a lua…ali muito em baixo, lá de cima enquanto voava, mas não pensei que estava tão em baixo! Que sítio é este?

- É um poço que tem água! É por isso que vês a lua…quer dizer…o reflexo dela.

- Um poço? Ai tu já tinhas visto?

- Sim!

- O que é isso de…o nome deste sítio?

- Poço! É um armazém de água! Nós usamo-lo para beber, regar, dar de beber aos animais.

- De onde vem a água?

- Da montanha.

- É boa?

- Não pode ser melhor…é fresca, leve, limpa. Faz muito bem á saúde!

- Áh! Mas isto é muito escuro…!

- Agora à noite sim…mas de dia não há problema.

- E vocês entram ali? Isto é muito…fundo!

- Sim…muito fundo mesmo, e tem muita água, mas nós tirámo-la com estes baldes…estão aqui pendurados, descemos a corda…os baldes descem, apanham água e nós tiramos! Fazemos isto muitas vezes por dia…

- Áh! Que engraçado…e a água nunca falha?

- Para já não tem falhado! Mas também temos outra água…dentro de casa, só que não vem daqui! É perigoso andar por aí…!

- Estou a perceber que sim! Mas…e tu, estás aqui fora, porquê?

- Porque não consigo dormir…!

- Estás sozinha?

- Os meus familiares estão no quarto, eu é que vim até aqui…está mais fresco! E adoro ouvir as cigarras e os grilos cantar.
- É este som?

- Sim!

- E o som da água do poço também é muito agradável…

- Pois é! E porque é que não consegues dormir? O pestana ainda não passou aqui?

- Não! Está muito calor!

Outra fada pequenina também ficou curiosa, mas desceu tão rápido que só parou mesmo na água do poço. Ficou a boiar, e toda encharcada, muito pesada…tão pesada que não conseguiu voar outra vez. Ela grita assustada:

- Socorro!

O seu grito faz eco e ela olha para todo o lado, procura outras fadas, mas não vê ninguém.

- Socorro… - Volta a gritar! – Ai…que sítio é este? Onde estou? Como é que eu vim aqui parar? Ai…! Que horror…socorro…! Acho que estou na água! Óh não…! Estou na água…não! Não pode ser… socorrrooooooo…

Elas ouvem alguma coisa, espreitam, a fada fica assustada e grita:

- Ei…socorro…ajudem-me! Tirem-me daqui…

As duas dizem em coro:

- É uma fada!

A menina lança o balde e explica:

- Olha, vai chegar ai um balde…entra para ele, e eu puxo-te!

- Está bem.

O balde desce, e a fadinha está a tremer, a menina inclina o balde e apanha um bocadinho de água, juntamente com a fadinha. A menina puxa o balde, e já na relva, a fadinha sai, cheia de frio e assustada, sacode-se, respira de alívio.

- Olá! Eu conheço-te! – Diz a fada que estava com a menina

- Muito obrigada! – Diz a fadinha

- Como entraste ali…? – Pergunta a outra fadinha

- Não sei…quer dizer…sei…eu queria conhecer este jardim, e desci rápido, tão rápido que não consegui parar antes de chegar à água. Nem sabia que tinha água.

- Também foste atrás do reflexo da lua? – Pergunta a menina

- Não! Acho que foram as flores, e o formato redondo que me atraíram. Mas não sabia que tinha água! e está fria! Acho que até estão mais fadas ou alguém lá em baixo, porque também ouvi mais vozes a pedir socorro! Não vi ninguém… mas ouvi.

A menina ri.

- Não! Não está ninguém…só estavas tu, e as vozes que ouviste a pedir socorro, eram o eco da tua voz…

- Como? – Perguntam as duas fadas

A menina explica-lhes, e as três experimentam. Divertem-se a brincar ao eco. Depois, as duas fadas vêem as suas sombras na água, vêem o reflexo das flores na água, o reflexo da lua na água e o reflexo de alguns pirilampos a voar, na água. Depois vêem as suas sombras no chão do pátio, à volta do poço.

- Ei…! O que é isto? – Dizem as duas

- É a vossa sombra! Olhem a minha! Estas três…somos nós! – Responde a menina

- Áh! Que esquisito! – Diz uma fada

- Esta sou eu…?

- E esta sou eu…?

- Sim! – Responde a menina

- Áh! Como? – Exclamam e perguntam as duas

A menina não sabe explicar, mas todas acham engraçado, e brincam a correr atrás das próprias sombras que são o seu reflexo. Ainda riem muito, brincam, correm, saltitam e mais tarde o jardim é invadido por um bando de pirilampos, que dançam com as duas fadas.
A energia entre eles foi tão boa e tão forte que se juntaram e todos fizeram uma bela festa, acompanhados com as músicas das cigarras e grilos que se deixaram contaminar pela alegria deles, até quase de manhã, quando a menina fica finalmente com sono.
Trocam agradecimentos e sorrisos, e voltam a encontrar-se nos dias seguintes mas a menina não fica até tão tarde.

E vocês já viram a vossa sombra, ou o vosso reflexo…ou reflexos de coisas na água?
Já estiveram em lugares onde ouviram o eco…?  
Gostaram da experiência?
Se ainda não experimentaram…experimentem.

FIM
Lálá
(9/Julho/2016)

  

  

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A estrela-do-mar e as sereias

                                                                                   foto de Lara Rocha 
                           
Era uma vez no fundo do mar, uma cidade marinha, cheia de casas, mistérios e agitação. Nessa cidade viviam muitos peixes, de todas as espécies e cores, tamanhos, golfinhos, estrelas-do-mar, cavalos-marinhos, caranguejos, lulas, polvos, sereias e espécies raras.
Nesse dia, muitas sereias estavam deliciadas a ler um livro, confortavelmente instaladas em bancos de areias, num grande coral maravilhoso, onde elas adoravam estar.
Cada uma com o seu livro, mas faziam muitas outras coisas, como conversar, rir, pintar, desenhar, fazer rendas, malhas, roupas, jóias, e tudo o que mais gostavam. Esse era um sítio quase secreto.
Uma pequena estrela-do-mar já tinha passado por lá muitas vezes, mas nunca tinha entrada, e ficava sempre muito pensativa, curiosa para saber o que acontecia naquele sítio, o que haveria lá de tão especial, e principalmente…o que era aquilo que elas tinham nas mãos.
Espreitou, e escondeu-se, mas alguém a viu, e convidaram-ma a entrar. Ela ficou um pouco envergonhada, entrou, sorriu, e pediu desculpa. Todas riram, e mostraram o espaço todo. A estrela-do-mar ficou encantada e compreendeu porque é que elas gostavam tanto desse lugar.
Aproveitou e perguntou o que é que elas tinham entre as mãos. As sereias responderam que eram livros, cada uma mostrou o seu. A estrela-do-mar nunca tinha visto livros, nem as palavras, nem as letras, e perguntou o que era aquilo.
Elas responderam que eram letras: umas isoladas, outras de mãos dadas que formavam palavras, e juntas, em filinha, construíam frases. Elas sabiam ler, mas a estrela-do-mar, não, por isso perguntou o que diziam aquelas letras, e aquelas palavras.
Uma sereia perguntou à estrela-do-mar se ela queria aprender a ler, e ela respondeu logo que sim. Cada uma ensinou uma letra e uma palavra do seu livro, a estrela-do-mar desenhou-as num papel, e as sereias festejaram orgulhosas, cada palavra que ela escreveu e leu direito.
Depois, a estrela-do-mar leu cada letra, cada palavra e cada frase, com cada sereia, e ficou encantada…tão feliz, que passou a ir para esse lugar todos os dias seguintes.
Em cada dia, a estrela-do-mar aprendeu a ler várias palavras de cada livro, de cada sereia, umas mais fáceis, outras mais difíceis, umas mais bonitas, outras mais alegres, umas maiores, outras mais pequenas.
As sereias tinham ensinado a estrela-do-mar a ler, e a estrela-do-mar aprendeu a ler como elas, partilharam livros, criaram histórias bonitas e divertidas, juntas. A estrela-do-mar ensinou outras estrelas-do-mar a ler e a escrever, e todas se juntavam para ler e ouvir as histórias umas das outras.
Podemos sempre aprender muito uns com os outros, e ensinar, como as sereias ensinaram a estrela-do-mar, que queria aprender, aprendeu e depois ensinou outras estrelas-do-mar, para isso, e por isso é que devemos ler muito, ouvir ler, partilhar livros, brincar, conversar.  
E vocês? Já ensinaram alguma coisa de especial a alguém? O quê? A quem? Quem é que vos ensinou mais? Gostam de aprender?
FIM
Lálá
(27/Junho/2016)




domingo, 19 de junho de 2016

As botas

Lara Rocha 

Era uma vez uma família de andorinhas que emigrou do seu país de origem pelas alterações climáticas, que tornaram o ar da cidade muito poluído, com ondas de calor insuportáveis daquelas que nem dava para mexer uma pena…e muitos ficaram doentes porque em vez de boa comida e água limpa, passou a haver toneladas de lixo.
Voaram milhares de quilómetros, pararam em vários sítios que gostaram para descansar, mas decidiram continuar, até que chegaram a uma aldeia no meio de uma montanha muito alta, com muito poucas casas, muitas árvores, e gado a pastar.
O vento estava forte, apesar de sol. Viram uma fonte, beberam, refrescaram-se, e pousaram na relva macia, debaixo de uma árvore à sombra. Olharam em volta, respiraram e gostaram do ar, do silêncio quase total que já não ouviam há tanto tempo, sentiram paz, e que era ali!
Tinham encontrado finalmente um sítio que reunia tudo o que queriam, procuravam…quer dizer…só faltava uma casa! Haviam de encontrar, mas primeiro quiseram descansar…estavam tão cansados que nem ouviram os movimentos e as vozes das pessoas. Só acordaram quando a fome apertava, e comida não faltava! Estavam mesmo em paz.
Quando se sentiram mais fortes foram conhecer a floresta à procura de um ninho, e tudo era lindo: as flores, as árvores, as fontes, os animais, os sons e as cores que os rodeavam…até que viraram as cabeças e viram umas botas grandes que tinham ar de ter sido abandonadas! E estavam mesmo abandonadas. Tinham sido deixadas por um dos humanos por estarem velhas.
Elas não sabiam que o que estavam a ver eram botas, só que já tinham visto muitas nas cidades por onde passaram à beira do lixo. Espreitaram, não cheiravam a nada e por dentro estavam boas.
As andorinhas não procuraram mais, pois já estavam habituadas a ter de se desenrascar, inventar e criar habitações, meios de sobreviver e de se protegerem. Aproveitaram o par de botas e puseram-nas encostadas a uma árvore muito grande, velha, com um grande buraco no tronco.
Usaram tudo o que precisavam e mais gostavam para o ninho que ficou dentro do tronco, muito espaçoso e aconchegante, confortável. Uma bota pousada num ramo de uma árvore serviu de teto para tapar o ninho e a outra bota serviu de porta que elas puxavam nos dias de tempestade e frio.
Estavam maravilhosamente bem instaladas e sossegadas, rapidamente conheceram outras andorinhas que também tinham fugido e que se instalaram nas árvores à volta, quase parecia um condomínio fechado, onde todas eram como família, e usavam às vezes a bota da porta para abrigar, quando havia convívios nos dias frios e chuvosos. Todas partilhavam coisas umas com as outras, o que precisavam, todas ajudavam e faziam muitas festas.
Quando chegou a altura de ovos e bebés, a bota de entrada serviu muitas vezes de infantário onde estavam sempre acompanhados e vigiados por adultos que se revezavam enquanto iam buscar comida.
Umas fadas gostaram tanto da ideia das andorinhas que preparam uma surpresa para todas. Arranjaram mais pares de botas que estavam velhas e transformaram-nas em autênticos prédios para andorinhas, espaçosos, climatizados com uma temperatura sempre agradável que todas suportavam bem, com janelas que abriam e fechavam, infantário, parque e centro de convívio para as andorinhas mais velhas…depois, estes prédios abrigaram outros pássaros de outras espécies que eram sempre muito bem recebidos.

O que alguns deitam fora só porque estão com um aspeto menos bonito, outros aproveitam!

                                                           FIM
                                                           Lálá
                                                    (17/Junho/2016)
   

   

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A aldeia de croché

Era uma vez uma senhora muito velhinha, há muitos anos atrás que se lembrou de ocupar o seu tempo livre, desde que era criança, e enquanto foi mais jovem, até as suas mãozinhas começarem a ficar encarquilhadinhas e doridas, fazendo peças em croché.
Esta atividade tinha começado com a sua bisavó, que já tinha ensinado á sua avó e à sua mãe, e esta última à senhora, muito comum na maioria das famílias. Todas as mulheres se reuniam na aldeia, de todas as idades, nas casas umas das outras, e nas eiras à sombra, ou nos campos, nos intervalos de outros trabalhos.
Era lindo ver tanta geração a fazer coisas tão bonitas, com tanta delicadeza, amor, gosto e perfeição, enquanto conversavam durante horas, riam, rezavam, cantavam, e depois de fazerem mais mil e uma coisas.
Cada uma fazia o que queria…toalhas, almofadas, rendas, apoios, lençóis, cobertas, paninhos para cestinhos, até que as gerações mais novas começaram também a inventar «pessoas» em croché, e a juntar outras materiais, para fazer bonecas de todo o tipo, lindas.
As bonecas pareciam mesmo «pessoas» umas enormes, outras médias e mais pequenas, com todos os pormenores: cabelos, olhos, nariz, boca, braços, mãos, dedos, pernas… almofadavam com espuma, penas ou restos de lãs, e tecidos, vestiam-nas com roupas em croché de outras cores, e até tinham sapatinhos em croché de todas as cores.
Nenhuma boneca era desperdiçada, mesmo aquelas que não eram tão perfeitas, ou que tinham alguns «erros» de construção, porque como quem as construía dizia…a sociedade também tem pessoas imperfeitas.
Esta ideia inspirou-as e construíram bonecas em croché com cadeiras de rodas, andarilhos, muletas, bengalas, óculos, membros mais curtos que outros…tal como elas viam entre as pessoas da cidade, e na própria aldeia.
Depois lembraram-se de experimentar fazer casas e meios de transporte, árvores, flores, montanhas e animais em croché. Gostaram tanto da experiência que foram experimentando cada vez mais coisas novas, e conseguiram construir uma verdadeira «cidade em croché».
Num dia em que se lembraram de juntar todas as peças que já tinham feito, perceberam que já tinham uma cidade, e quiseram expor. Todos ficaram muito surpresos e maravilhados.
As fadas foram as primeiras visitantes e adoraram, decidiram dar um prémio pela dedicação delas, e gosto, as peças de croché não eram simples pedaços de croché expostos e imóveis, puseram logo tudo em movimento com os seus poderes mágicos!
Todas as peças mexiam e faziam sons, principalmente as peças da natureza, parecia um presépio animado, e todas as mulheres que construíram esta cidade de croché ficaram muito felizes, parecia que tinham voltado a ser crianças.
O Presidente da Câmara divulgou pelas cidades, e a aldeia encheu-se de milhares de visitantes que fotografavam, queriam comprar tudo…mas como elas não queriam vender, os visitantes encomendavam e pagavam bem. Não tiveram mais sossego, mas também ganharam muito dinheiro.
Com esse dinheiro ajudaram-se uns aos outros, porque era uma aldeia pobre, no inicio, construíram coisas que faziam falta, melhoraram as condições das casas, mesmo assim continuaram a ser as pessoas simples que sempre foram, e a dedicar-se ao croché.
Foi assim que nasceu a Aldeia de Croché que fez para sempre as delícias de quem visitava…que pareciam voltar à infância e à magia. Mulheres inspiradoras, com mãos de fada, e amor pelo que faziam.     

E vocês?
Conhecem croché?
Conhecem alguém que faça croché?  
Conseguem imaginar uma cidade com pessoas e casas…tudo feito em croché?
Gostavam de visitar essa cidade?

FIM
Lálá

(13/Junho/2016)

terça-feira, 17 de maio de 2016

Os coelhinhos curiosos



Era uma vez três coelhinhos: um de pelo branco, outro de pelo cinzento e outro de pelo preto. Passeavam pela floresta aos saltinhos, a cantarolar, e a colher flores. De repente, quando olharam para o chão viram umas bolinhas vermelhas grandes, que não conheciam.

Cheirava-lhes a doce, e viram uma série de pássaros de volta das bolinhas vermelhas, a debicá-las, deliciados, até lutavam uns com os outros, porque não ficavam satisfeitos com uma só.

Os coelhos apanham um grande susto, quando veem que por cima deles, no céu, uma enorme águia que se aproxima rapidamente do solo, e aterra.

Todos os pássaros mais pequenos chilreiam nervosos, e fogem, quando veem a sombra da enorme águia, escondendo-se silenciosamente para não serem descobertos.

Os coelhinhos espreitam discretamente, atrás de uma árvore. A águia sente que está a ser observada, vira-se para trás e olha para todo o lado, e eles escondem-se outra vez.

A águia cheira e caminha pelo solo, os coelhinhos pensam em fugir, caem, chocam uns com os outros, caem mas levantam-se logo, e por sorte, os coelhinhos conseguem esconder-se numa toca, mesmo a tempo.

A águia quase os apanhava, mas como não os viu, segue caminho, a comer as bolinhas vermelhas. Os coelhinhos saem da toca, espreitam outra vez e ficam muito surpresos, respiram de alívio.

- Ufa! – Dizem todos

- Que susto! – Diz o coelhinho branco

- Pensei que íamos ser devorados… - Diz o coelhinho cinzento

- Engolidos vivos! – Diz o coelhinho preto

- Áh! – Exclama o coelhinho branco

- O que foi? – Perguntam os outros

- A águia comeu as bolinhas vermelhas! – Repara o coelhinho branco

- Áh! – Exclamam todos

- E serão de comer? – Pergunta o coelhinho cinzento

- Elas cheiram a doce! – Diz o coelhinho preto

- Mas pode ser perigoso. – Lembra o coelho branco

- Pois é! Às vezes tem um aspeto muito bonito, cheira bem…mas é venenoso, como alguns cogumelos que temos aqui na floresta, são perigosos para os humanos, e para nós também. – Alerta o coelhinho preto

- Os passarinhos também as comeram antes da águia aparecer. – Lembra o coelhinho cinzento

- Pois! – Dizem todos

Os passarinhos voltam a aparecer aliviados e pousam numa cesta. Os coelhinhos escondem-se atrás da árvore outra vez porque pensam que a águia vai aparecer, e espreitam… Veem os passarinhos a debicar na cesta deliciados, e caem algumas bolinhas vermelhas.

- Ei…tantos pássaros!

- São os mesmos de há bocado e muitos mais!

- O que é aquilo?

- É uma cesta!

- O que tem a cesta?

- Os pássaros estão a comer a cesta?

- A cesta? Claro que não. A cesta não se come.

- Mas a cesta tem alguma coisa que se come!

- De certeza!

- Olhem, mais bolinhas vermelhas.

- Estão no chão!

- Então…deve ser isso que tem a cesta.

Os coelhinhos ficam muito surpresos, olham-se entre si, e decidem perguntar aos passarinhos o que são aquelas bolinhas tão bonitas, grandes, vermelhas e que cheiram tão bem a doce. Saltitam e vão ter com os passarinhos.

- Olá! – Dizem os passarinhos simpáticos

- Olá! – Respondem os coelhinhos a sorrir

- Viram a águia? – Pergunta um passarinho

- Vimos! – Respondem os coelhinhos

- Nós também. – Dizem os passarinhos

- Tivemos muito medo. – Reconhecem os coelhinhos  

- Nós também. – Concordam os passarinhos

- Escondemo-nos logo. – Dizem os coelhinhos

- Nós também. – Respondem os passarinhos

- Pensamos que íamos ser devorados. – Diz o coelhinho branco

- Nós também. – Respondem os passarinhos

- E por falar em devorar… - Tenta o coelhinho cinzento

- São servidos? – Pergunta um passarinho

- O que é isso? – Perguntam os coelhinhos

- Não conhecem? – Perguntam os passarinhos

- Não! – Respondem os coelhinhos

- São cerejas. – Dizem os passarinhos

- Cerejas? – Perguntam os coelhinhos

- Sim, cerejas! – Confirmam os passarinhos

- Não acredito que nunca provaram. – Comenta um passarinho

- Não. – Reforçam os coelhinhos

- Isso é bom? – Pergunta o coelhinho cinzento

- Maravilhoso! – Respondem os passarinhos

- Provem. – Convida um passarinho

- Isso é de comer? – Pergunta o coelhinho cinzento, desconfiado

- É! - Dizem todos.

- Só o caroço, esta parte dura…não se come! – Explica um passarinho

- A águia também as comeu. – Lembra o coelho preto

- Claro! – Dizem todos

- Áh! Estas são as bolinhas vermelhas que a águia comeu? – Pergunta o coelhinho branco

- São! – Afirmam todos

Os coelhinhos observam os passarinhos a comer, e experimentam, imitando-os.

- Hummm… - exclamam os coelhinhos

- São ótimas não são? – Pergunta um passarinho

- São!

- Vamos comer, antes que venha outra vez a gigante.

E os animais apanham uma barrigada de cerejas, enquanto conversam alegremente, riem, e atiram os caroços para o chão, por todo o lado. A águia volta a voar nesse espaço, e todos se escondem nas árvores…ficam em silêncio para não serem descobertos. A águia aterra e fica furiosa quando vê a cesta vazia, e os caroços por todo o lado.

- Malditos! Se os apanho…já tenho almoço e jantar…petiscos para uma temporada Coelhos e pássaros. Há bocado cheirava-me a coelhos, mas como é que não os vi…? Onde é que eu agora vou arranjar outras cerejas? A minha princesa vai ficar furiosa e impaciente. Nem uma flor vai recompensar. Óh…vou desiludi-la. – Grita a águia, tão forte que até faz tremer o chão. Os animais encolhem-se.

Outra águia mais pequena leva a águia grande a um campo onde existem muitas cerejeiras, cheias de cerejas gigantes, apetitosas. As duas dirigem-se para lá, e quando os animais veem as duas águias a levantar voo, saem das tocas, e vão à procura desse campo.

- Óh! – Exclamam todos

- Que campo maravilhoso! – Dizem os pássaros

- Tantas cerejas! Uau! – Exclamam os coelhos

- Somos daqui de perto, mas não fazíamos ideia de que este campo tinha tantas cerejas – Exclama um passarinho

- Às vezes andamos muito distraídos – diz o coelho branco

- Passamos sempre a correr, ou é porque não saímos muito do mesmo sítio. – Diz o coelho cinzento

- Pois! – Concordam todos

Os coelhos abraçam as cerejeiras, dão as patinhas à volta dos troncos mais largos, e encostam-se a eles. Os passarinhos acham tão bonito, que se juntam e fazem o mesmo, a chilrear alegremente.

Depois, brincam, correm entre as árvores e rebolam no campo, caem, escondem-se sempre que veem as águias a voar, e saem das tocas quando elas passam, bebem numa pequena fonte, e debicam mais algumas cerejas deliciosas.

Umas famílias de toupeiras e grilos, vão à superfície, apanham os caroços de cerejas que os outros animais deixaram e metem-nos debaixo da terra.

Passado uns tempos, e de forma misteriosa nascem raízes de cerejeiras que não aparecem à superfície, mas alimentam os animais subterrâneos.

E vocês gostam de cerejas?

Desenhem cerejas, ou as personagens que quiserem da história.     

FIM

Lálá

(12/Maio/2016)

 


Uma luz para o mundo

                                                                 foto de Lara Rocha 

Era uma vez num cantinho da nossa linda bola azul, uma criança, e uma mulher Adulta com uma criança interior bem viva; era tão pura e inocente como a criança pequena que estava consigo, ao seu lado.
A criança disse à mulher adulta diante da lua cheia gigante, num acampamento, que o seu maior desejo era paz para o mundo, e ficava muito zangada porque ainda não tinha conseguido.
Esse era o mesmo desejo da jovem mulher que sorriu, e desafiou a criança a fazer um convite ao mundo…acender uma vela e pedir ao universo. As duas acenderam uma vela pequenina e pediram com toda a sua força. O vento soprou e levou duas chamas pequeninas que ardiam nas velinhas, que continuaram acesas.
As chamas deram as mãos e pararam no vizinho do lado, transformaram-se em duas mulheres luminosas, e passaram o convite…cada um acender uma vela pela paz no mundo. Os vizinhos aceitaram imediatamente, e toda a família acendeu uma vela, e pediu ao universo…PAZ.
As chamas de cada vela foram dando as mãos, e pedindo de porta em porta. A corrente de chamas representada pelas velas tornou-se cada vez maior, maior, e maior…tão grande se espalhou por todas as cidades, vilas, aldeias, praias e montanhas.
O universo inteiro viu e ficou maravilhado com aquela corrente de velas. Por onde as chamas passaram de mãos dadas, todos rezaram e pediram paz à sua maneira.
Quando chegaram aos países em guerra, os soldados pararam e olharam para um coração em chamas que apareceu no chão, e circulou diante deles, as chamas abraçaram-se e formaram um sorriso, depois escreveram a palavra PAZ, com a imagem de uma criança e uma mulher, feitas de estrelas.
Os soldados choraram e ajoelharam-se, calaram-se as armas e ouvia-se o silêncio… quebrado pelos choros e rezas dos soldados. As chamas choraram ao ver tanta destruição, e ao sentirem tanta raiva, dor e ódio nesses sítios.
Enquanto as chamas estiveram nesses locais houve paz, mas logo que saíram de lá, tudo recomeçou!
- Um dia, os nossos pedidos serão ouvidos e haverá paz, não guerra! Uma vela só, pode ser insignificante, mas muitos desejos, e muitas velas, iluminarão as mentes e o mundo mudará! Nós acreditamos que sim. – Diz a jovem
Cada um de nós pode acender muitas velas mentalmente todos os dias, e desejar que a guerra acabe…fazendo a paz nas mais pequenas coisas, e momentos…
A criança e a jovem abraçam-se, fundem-se, transformam-se em luz e de repente desaparecem…elas andaram por todo o lado a espalhar e a pedir uma luz para o mundo!

FIM
Lálá
(10/Maio/2016)
PARA PENSAR…
E vocês? Espalham luz, ou guerra?
Acham que recebemos mais luz, ou damos mais luz? Como se sentem quando dão luz aos outros e ao mundo? E quando recebem luz?
Experimentem fazer correntes de chamas, e sejam a jovem e a criança que espalharam luz pelo mundo.