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terça-feira, 12 de maio de 2020

O vidro e os sopros do coração - Monólogo para adolescentes e adultos



   O coração às vezes é idiota, de tão inocente que é. Teimoso, porque insiste em dar carinho a quem não o vê, não sente. Insiste, e depois suspira, sopra de raiva, porque é magoado, porque o apertam. Ilude-se! 

     Pensa que vai ser acarinhado, valorizado, visto. O coração às vezes parece que tem ouvidos, mas é muito ignorante, acredita no que os olhos lhe dizem, quando te vêem no vidro. 

    Gostam dessa imagem, mas depois... sopra de raiva porque não eras nada do que ele acreditava seres. 

   O coração sopra de dor, quando percebe que nem toda a gente é como ele. E que tu, que estás por trás do vidro não és nada do que eu imaginava! Como pudeste deixar-te enganar, coração idiota? 

   O coração sopra e sofre! Se os nossos corações pudessem atravessar o vidro que nos separa, e conversassem, com o encanto e magia da primeira vez, mesmo sem nos falarmos, e se os nossos olhos pudessem fixar-se nesse vidro, verias que não sou quem pensas! 

    O vidro permite-te ver flores à minha volta, e toda eu sou uma flor, mas se visses por trás do vidro que mostra flores, verias muitas vezes que estou rodeada apenas por espinhos. E às vezes até vestida de espinhos. 

      Julgas que sou um botão em flor, sempre aberto, mas se me visses por trás do vidro verias um jardim cheio de botões fechados.

   Julgas que vês em mim um olhar brilhante, cheio de luz...como um lago transparente! Se me visses por trás do vidro, verias uma floresta de sombras, dias de nevoeiro, céus com nuvens carregadas, que cobrem o sol. 

      Se me visses por trás do vidro saberias interpretar as minhas palavras com a verdade que elas carregam, e não com as máscaras do fingir que suporto a tua indiferença. 

       O vidro separa muitas coisas, é verdade! Separa a tua curiosidade, a tua vontade, separa-nos do teu medo, dos nossos olhos, com os quais poderias e deverias ver os meus. 

   O vidro separa os sopros do coração, separa os teus olhos que deveriam encontrar pedaços de mim, máscaras espalhadas, pedaços que flutuam sem rumo! 

   Se pudesses ver por trás do vidro encontrarias a pessoa que realmente sou, sem máscaras. 

                                                                            Lara Rocha 

                                                                                                                           22/Março/2018 

sábado, 2 de maio de 2020

A prendinha da estrela

          




Era uma vez uma menina, filha de artistas de circo, que andava sempre de um lado para o outro, numa caravana, que tinha o mínimo de condições para viver, e tanto ela como os pais viviam felizes, juntamente com os outros artistas.
         A menina adorava os espetáculos, e todos gostavam muito uns dos outros. Em muitos lugares onde ficavam na noite dos espetáculos, eram descampados, onde se viam muito bem as estrelas. A menina tinha por hábito ouvir e ler histórias.
        Enquanto ouvia as histórias imaginava o que lhe era dito, mas também inventava as suas próprias histórias, a partir do que ouvia, e outras muito diferentes. 
        Ela nem imaginava que havia uma estrela muito lá em cima que se transformava em cigarra e ficava muito perto dela para se deliciar com as histórias, tanto as que lhe contavam como as que ela criava.
        A estrelinha estava entre as cigarras e usava um bloquinho onde escrevia as frases que mais gostava, as palavras mais bonitas, as personagens e nomes que eram bondosas, ações e espaços das histórias que a faziam sonhar.
        Um dia a estrelinha ouviu dizer que a menina estava quase a fazer anos. Decidiu oferecer-lhe uma prendinha para retribuir o que aprendia com as histórias que ouvia. 
        Numa noite em que regressou a casa depois de ouvir mais uma história, e ter anotado umas palavras bonitas, a estrelinha foi ter com a sua mãe e a sua avó, que eram costureiras, e pediu ajuda.
         Explicou às duas que queria oferecer uma prenda especial à menina que contava histórias, e mostrou-lhes o bloco. 
        Perguntou se conseguiam concretizar esse presente. As duas gostaram tanto da ideia, ficaram tão orgulhosas desse gesto da estrelinha, que puseram logo mãos à obra, e a estrelinha ajudou.
       Fizeram uma linda manta, toda feita de fios de lã de lua, muito aconchegante, macia e quente. 
       Pregaram todas as palavras, frases, personagens, nomes, ações, espaços, que tinha gostado mais, e que a estrelinha tinha escrito no caderninho. 
       Enquanto pregavam, a estrelinha recontava a história, falava sobre o circo, os artistas, os espetáculos, e conversavam sobre eles.
      Ainda juntaram cotõezinhos de lãs azuladas, amarelas e salpicos de brilho das próprias estrelas. 
      Num instante, e quase sem dar por isso, a manta estava pronta! Olharam para a manta, aberta, soltaram uma grande exclamação, e abriram um enorme sorriso.
- Áh! Mas que bonita que está. - suspira a mãe orgulhosa
- Está perfeita! - Sorri a Avó
- Uau! Obrigada, Mamã...Obrigada, Avó! Vocês são mesmo fantásticas.
       Trocam abraços e beijos. Chega o dia de aniversário da menina, e houve espetáculo. A estrelinha entra sorrateira na caravana onde vive a menina, e pousa a mantinha em cima da cama dela, com um cartãozinho que dizia: «Obrigada pelo que aprendo com as tuas histórias! Adoro. Muitos parabéns, muita saúde, muitas felicidades, e até já!»
       A estrelinha transforma-se em cigarra, para ver a reação da menina. Quando o espetáculo acaba, estão todos eufóricos, muito felizes com a forma como tinha corrido, e fizeram uma festa surpresa à menina.
      Atuaram só para ela, os palhaços que ela mais gostava, riram muito, aplaudiram, cantaram os parabéns, dançaram, e as surpresas não ficaram por aqui. Quando se preparava para deitar, viu a mantinha em cima da cama, e o cartãozinho.
- Mamã... tenho aqui mais uma prenda... foste tu?
- Prenda...? Não... não sei do que estás a falar.
       A menina mostra a manta à mãe e o cartão.
- Não fui eu, nem nenhum de nós, tenho a certeza! Mas, que linda... está cheia de palavras, frases...Como fizeram isto?
      A menina lê o cartão à mãe. Batem à porta, aparece uma menina, linda, que nunca ninguém a tinha visto.
- Boa noite! Podemos ajudar...? - Pergunta a mãe da menina
- Boa noite. Estou à procura da menina que faz anos hoje.
- Sou eu! Mas, não nos conhecemos... - Diz a menina
         A estrelinha sorri:
- Tu não me conheces, mas eu conheço muito bem as tuas histórias, aprendo muito com elas. Esta manta que acabaste de receber, fui eu que te ofereci, onde estão as palavras, frases, cenários, nomes, pessoas, lugares que mais gostei.
- Está excelente. Mas como é que ouves as minhas histórias, se não nos conhecemos...?
- Não posso dizer.Gostaste da manta, é o mais importante para mim. Muitos parabéns, e continua a ler e a inventar as tuas histórias que adoro ouvir.
        A menina sorri.
- Muito obrigada. Mas como é que te chamas?
- Estrela.
- Áh! Eu sou a Diana. Não queres entrar...? Pode entrar, não pode, mãe?
- Sim, mas vê lá, já é tarde. Onde estão os teus pais, Estrela?
- Lá fora, na minha casa.
- Vê lá, não vão ficar preocupados?
- Não. Eles sabem que eu vim aqui.
- Está bem. Queres um bocadinho de bolo que sobrou?
- Acho que aceito. Obrigada.
       A estrela conversa com a menina, como se fosse tal e qual uma amiga dela, come o bolo.
- Hum, está muito bom, este bolo. Obrigada.
- Obrigada eu. - Diz a mãe
- Bom, vou voltar para a minha casa, e tu, Diana, não tarda muito, também vais dormir, não é?
- É. Por favor, volta mais vezes! - Confirma a Diana
- Claro que sim! - promete a estrela
        Trocam um abraço, e dois beijinhos.
- Obrigada pela prenda, e muito gosto em conhecer-te! - diz Diana
- Boa noite, dorme bem. Até já...Boa noite, pais da Diana! - diz a estrela
- Boa noite! - respondem os pais da Diana
       A estrela dá alguns passos e desaparece. Diana fica pensativa, nunca tinha visto aquela menina em lado nenhum, como é que ela sabia tanta coisa, ouvia as histórias, e ainda por cima deixou-lhe uma prenda tão bonita! 
       Ela e os pais deitam-se, a menina envolve-se na manta, deliciada com a maciez, e os brilhantes.
      Quando ela estava quase a dormir, a estrela volta a aparecer, pousada na sua manta, em forma de estrela iluminada. 
      Pediu à Diana que não gritasse, e que não se assustasse. Contou-lhe como a conhecia, e pediu que não contasse a ninguém, pois tinha medo que não acreditassem nela, ou que achassem ser da sua imaginação.
      Diana não contou nada, e a partir dessa noite, as duas tornaram-se grandes amigas, encontravam-se, a Diana contava e ouvia lindas histórias, conversavam, riam, faziam companhia uma à outra, brincavam, sem fazer barulho. 
      Às vezes escolhiam uma palavra da manta à sorte, ou uma frase, uma personagem, e recontavam ou inventavam essa história.
     De vez em quando, a estrela aparecia em forma de menina, principalmente de dia, quando a Diana brincava mais sozinha, ao ar livre, a ensaiar os números de circo e a ver os outros. Uma linda prenda de aniversário, e uma amizade.

E se vocês recebessem uma manta como a de Diana? Que palavras teria pregadas?

                                                                           FIM
                                                                           Lálá
                                                                      2/Maio/2020



          
            

sábado, 25 de abril de 2020

Conversa de reflexão entre amigos sobre a lua

      
          Foto de Lara Rocha 



         Um grupo de amiguinhos  estava no terraço da casa de um deles, a ver a lua enorme e as estrelas. Uma menina pergunta:
- Amigos, já viram que gigante está a lua? Eu gostava de ser assim. A lua será pesada ou leve?
- Eu também gostava de ser lua. Eu acho que deve ser pesada... muito pesada! - responde outra menina
- Acho que deve ser leve, se não, não ficava lá em cima! - contraria um menino
- Mas se ela fosse leve, voava e passeava pelo espaço como os balões que nos fogem.
- A lua não é um balão. Isso tenho a certeza!
- Como é que tens tanta certeza disso?
- Pois, nunca pegaste nela, nem lhe tocaste.
- Os adultos é que dizem.
- Acho que os adultos sabem o que dizem.
- E se vocês fossem a Lua, seriam leves ou pesados?
- Eu seria leve.
- Eu também.
- Sim, acho que era leve... como um balão que sobe.
- As bolas de sabão também são leves.
- São, ainda são mais leves que os balões mas acho que as bolas de sabão não chegam à beira da lua.
- Claro que não chegam lá muito acima.
- Pode-se tocar na lua?
- Claro que não! - dizem em coro
- Só se for na nossa imaginação
- Ou uma almofada em forma de lua.
- Pois.
- Mas eu gostava de lhe tocar a sério.
- Eu não! Gosto mais de a ver aqui de baixo.
-  Acho que também não se pode transformar num objeto leve...
- Não! - respondem todos
- Se isso acontecesse, eu tirava-a dali e levava-a comigo passear para onde eu fosse.
- Isso eu também gostava! - respondem todos.
- Eu gostava de puxa-la dali e dormir abraçada a ela, com aquela luz.
- Eu também. Assim já não tinha medo do escuro.
- Não sei se para o medo do escuro ia resultar.
- Porquê?
- Porque eu acho que os monstros da noite também gostam da lua .
- Mas a lua não deve gostar, por isso acho que ela ia manda-los embora.
- Eu acho que a lua é muito corajosa. Não tem medo do escuro de certeza.
- Não tem medo porque tem aquela luz.
- A lua será fria ou quente?
- Fria! - respondem todos
- Os adultos dizem que é fria.
- Os adultos dizem que a lua é mentirosa.
- Como é que eles sabem? Ela não fala, ou será que fala com eles?
- Eles é que mentem muitas vezes.
            Todos se riem.
- Pois é!
- Será que a Lua dorme e sonha?
- Sim.
- Enquanto é dia aqui na terra eu acho que ela dorme e sonha.
- Serão sonhos bons ou maus?
- Deve ter sonhos bons e maus como nós.
            Os adultos chamam as crianças.
- Óhhhh... não!
- Estávamos aqui tão bem.
- Pois estávamos!
- Não quero ir dormir.
- Nem eu.
            Um adulto grita da porta para as crianças entrarem.
- Que seca, dormir...
- O meu pai ainda não apanhou os monstros que dormem no meu quarto... lá vou eu atura - los. Estava melhor aqui!
- Boa noite, Lua! - dizem todos
           Nessa noite, todos sonharam com a lua, e a conversa que tiveram uns com os outros sobre ela. Pelo menos não foram visitados pelos monstros do escuro!
E vocês? O que acham deste diálogo entre os meninos? Desafio-vos a escreverem as vossas respostas às perguntas que encontram nesta história.

                                               Fim
                                               Lála.
                                         25/Abril/2020







terça-feira, 7 de abril de 2020

encanto/desencanto - monólogo


encanto/desencanto


        Alma sonhadora, alma que deseja, alma vazia que sonha e fantasia, alma sozinha, alma que se entrega, e abre as portas à desilusão. Alma, que se encanta tanto, que se deixa levar, pelo canto do encanto, encantada, desilude-se quando acorda para o desencanto, e percebe que toda a música era encantadora...quando o rádio se desligou, tudo terminou...E depois?  
        Quem nos cura da desilusão? Quem criou a ilusão? Não! O coração? Não, porque fica ferido...A mente? Talvez...talvez tenha sido ela que criou a ilusão...Os olhos? Não! Esses são as vítimas inocentes, são os navegantes da ilusão que viagem nas águas da desilusão, levados pela ilusão, à procura da realidade, de compreensão, de força e de olhos bem abertos para ver a desilusão! 
       Pobre coração que alimenta uma ilusão que nem existe...Porque fazes isso, coração? A nossa mente, o nosso ser, a nossa pessoa precisa das ilusões e desilusões para se contruir, cair, crescer, e renascer, descobrir-se. 
     Porque fazes isso, mente? Porque fazes isso? Fico com raiva de ti, quando crias ilusões, que depois não passam de fantasias, mas enquanto acreditamos nas ilusões que crias, parece que nos sentimos preenchidos.  
     Porque precisamos de sonhar, criar, para percebermos quem somos na verdade. E somos muito mais do que as ilusões e as desilusões. Vivemos entre o encanto e o desencanto...a ilusão e a desilusão... Quem as cria? Nós...o coração, os olhos, a mente? Talvez...apenas...nós.



segunda-feira, 30 de março de 2020

As estrelas da ursa menor (monólogo de reflexão e agradecimento, respeito pela terra)


Monólogo

     Fui à janela, enquanto descansava os olhos no vestido negro com brilhantes que cobria a cidade, percorri as estrelas da ursa menor, solitária, linda, que parecia mexer com o vento dessa noite!
      Cheguei à meia seta e os meus olhos  pararam numa silhueta que dava a entender pertencer a uma mulher, leve, escura, que flutuava.
     A lua estava proxima dela e quando a sua luz incidiu nela, pude confirmar que era mesmo uma mulher. Linda!
     Com um olhar triste, uma expressão sem sorriso, mas tinha qualquer coisa de muito especial. Eu não sabia explicar o que era, mas soava a mágico.
      Disse-lhe boa noite, ela retribui e disse que se chamava Terra. Contou-me que sofreu muito de violência, nas mãos dos homens,  a quem ela chamava filhos, e enchia de mimos.
     Foi queimada, esfaqueada, intoxocada de todas as maneiras. E mesmo assim suportou anos de maus tratos. 
     Senti o peso da sua raiva e dor, coberta de tristeza, mas via-se um rasto de brilho no seu rosto, que ela justificou como sendo um conjunto de coisas boas que a faziam creditar de novo no amor de alguns dos seus filhos.
      Já todos sabiam da sua triste história, mesmo assim, quando ela voltou a contar, a Lua e o Sol choraram, das suas lágrimas, com a luz dela, formou-se um lindo arco-íris cintilante. Fiquei maravilhada.
       A Terra mostrou-me o que a mantinha feliz. Pequenas coisas. Deu-me a mão, apontou para um fundo à nossa frente e comecei a ver e ouvir coisas que a faziam renascer do sofrimento.              Disse para eu despertar todos os meus sentidos. Se o fizesse, entenderia porque ainda existia luz em si.
       O bater das asas das águias, os imponentes falcões, com os seus piares profundos e estridentes, em conjunto com a brisa e as diferentes intensidades do vento, que passa pelas árvores, folhas e pinheiros, as carícias da brisa delicada sobre as flores, as gotas de orvalho a brilhar na relva e nas pétalas.
      Uma variedade de sons de pássaros, cada qual o mais bonito, parecia um coro. Águas de rios, cascatas, ribeirinhos e riachos a suspirar, a espirrar, a cantar e a dançar com as pedras e plantas aquáticas. 
      Era uma harmoniosa sinfonia, umas caricia para o nosso corpo e alma. Mostrou-me prados verdes, montes, montanhas que impunham respeito só de olhar, mas lindas, cheias de natureza. 
    Uma perfeição, árvores, campos intermináveis de encher o olhos. As praias, o mar, a areia, as rochas, as pedras.
     O uivo dos lobos, a fofura das focas, dos ursos, as raposas, os coelhos, os cães, gatos, linces, patos, ovelhas, porcos, vacas, bois, e muitos outros. 
     As cores dos frutos, das folhas das árvores, das flores, e tudo o que vemos. A neve, o gelo, a chuva, os trovões, os furacões, de que ela gostava particularmente nos seus momentos mais baixos, de maior raiva, dor ou tristeza.  
       Como foi lindo ver a sua expressão com um sorriso luminoso, de orgulho, terno, sereno, e a felicidade por tantas coisas boas que ainda tinha.
       Pensei que tudo aquilo já era suficiente para a fazer feliz, mas… surpresa das surpresas… ela mostrou algo que também adoro, no ser humano…
     um bebé, a sorrir, uma mãe com um rebento ao colo, uma criança a sorrir para a sua mãe, um sorriso apaixonado, de gratidão de um  filho pela mãe, e a mãe pelo filho. 
  Uma criança pequena que brinca, feliz e animada, uma criança a dar os seus primeiros passinhos, e uma mãe orgulhosa por isso. Pessoas felizes e sorridentes com gestos de carinho.
      A Terra disse-me que é tudo isto que a faz acreditar que amanhã é um novo dia, com novos começos, que no meio de tanta podridão, tanto filho que não presta, maldoso, ainda há pessoas com bons corações, que a amam, e que amam os outros. 
      São esses, a quem a Terra chama de filhos, pedaços dela, que a fazem sorrir mesmo depois de tanta dor, e acreditar que ainda existe o bem.
      Ela sentiu que eu era filha dela, agradeceu e sem dizer mais nada…desapareceu na imensidão do espaço. 
     Eu, recolhi à minha insignificância, sim, à beira das obras que a Terra faz por nós, qualquer um de nós, é maioritariamente, insignificante. 
     Recolhi à minha paz, fui dormir. Já deitada, relembrei todas aquelas imagens, e pensei que realmente não damos valor nenhum a esta maravilhosa mãe, à nossa casa...Terra! 
     Agradeci, todos os tesouros que ela nos dá, e alguns de nós, nem repara. Ela gosta de atenção. É mulher. 
      E vocês, agradecem à Natureza e à Terra tudo o que elas nos oferece de bom, e a paz que nos traz? Ela merece ser amada, respeitada e muito bem tratada, tal como ela faz connosco.

                                                                      FIM
                                                                 Lara Rocha
                                                             31/Março/2'020

sexta-feira, 27 de março de 2020

monólogo - máscaras


desenhada por Lara Rocha



MÁSCARAS 


          Máscaras… O Carnaval é só uma vez por ano…Mas todos os dias, cada um de nós, crianças e adultos, usamos máscaras «invisíveis» aos outros, mas nós...temos plena consciência delas! Às vezes usamos uma só máscara, outras vezes usamos várias de acordo com os contextos por onde passamos ao longo do dia, e das pessoas com quem lidamos! 
         Essas máscaras... variam entre o sorriso...aberto, para darmos a entender aos outros que estamos felizes, que estamos bem, que somos fortes, e para cativarmos os outros, mas se tirarmos essa máscara, existe outra por baixo... a verdadeira. Que mostra sorriso amarelo, ou sorriso cínico, forçado, que depois de revela em comentários nas costas. 
         Outras máscaras não são tão atraentes, mas aproximam-se mais da verdadeira máscara por trás dessa. Quando mostramos um ar mais sério, mas aparentemente sereno, e até sorrimos ligeiramente, falamos docemente, transmitimos palavras positivas, simpáticas, bonitas, agradáveis, doces, meigas, mas essa máscara cai...nas palavras ditas em sordina com alguém que sente o mesmo, ou nas expressões de raiva, de inveja, de ciumes, nas caras pesadas, nas frustrações. 

         Usamos máscaras de anjos que quando caem, mostram diabos. Outras vezes usamos máscaras de maus, mas no fundo, deixamo-la cair e mostramos máscaras de bonzinhos. Umas vezes fingimos tão bem, que está tudo bem, quando na verdade, se nos tirassem a máscara, veriam lágrimas de tristeza, de dor, de rancor, de raiva.
         Essa máscara, serve para os outros, mas na nossa privacidade, em família ou sozinhos, tiramos as máscaras. Todas caem, ou deixamos cair, e somos apenas nós. A nu… com as nossas qualidades, os nossos defeitos, e os nossos medos, as nossas frustrações, os nossos desejos, os nossos medos, as nossas maldades, pensamentos, sentimentos, asneiras, indecisões.
         E caem as máscaras porque… somos humanos, de carne e osso, e não de ferro. Tentámos e fingimos com as máscaras...ser de ferro, ou de pedra, fingimos que somos fortes, só para não perder os outros...para que os outros nos apreciem. Fingimos que estamos bem! Fingimos que somos felizes. Para os outros. Pois...os outros, mas esquecemo-nos que os outros também usam máscaras.
        E também as máscaras deles caem. Na claridade, ou na escuridão, à nossa vista ou longe de nós. Se caem à nossa vista, muitas vezes, a desilusão é imensa. E a dor, as chatices. Outras vezes, quando caem, à nossa vista, ou longe de nós…se caem à nossa frente, experimentamos e conhecemos descobertas inacreditáveis, revelações incríveis, surpresas impensáveis. Se  não as vemos cair...às vezes «engolimos» as máscaras que nos mostram, outras vezes, quando a máscara é falsa, denuncia algo da máscara verdadeira, fingimos que acreditamos.
        Por mais transparentes que sejamos...ou que queiramos ou tentemos ser, por vezes, as máscaras caem sem querermos, e as verdadeiras máscaras mostram-se. É aqui que muitas relações começam a correr mal, pois ninguém tem capacidade de segurar a mesma máscara falsa, muito tempo e sempre.
        Os olhos, as verdadeiras máscaras, cansam-se, sentem-se sufocados, e denunciam a verdadeira máscara. Há máscaras e máscaras. Umas bonitas, outras feias, mas todas servem para alguma coisa, quanto mais não seja, para cobrir a verdadeira máscara. E não é preciso ser Carnaval para usarmos máscaras. Todos as usamos, no trabalho, em casa, no lazer...com família, com amigos íntimos, com colegas. Apenas connosco...usamos as verdadeiras máscaras, quando não temos de mostrar aos outros.

                        Lara Rocha
                     21 /Março/2018
        


quinta-feira, 26 de março de 2020

o ator e as palavras - poema





O ATOR E AS PALAVRAS

O ator tem o poder de transformar,
Um conjunto de palavras num espetáculo.
Brinca com elas,
Apanha-as no ar…
Recebe-as do vento,
Da chuva que cai lá fora,
Do riso e sorriso inocente das crianças,
Dos olhares brilhantes de felicidade,
Das lágrimas e do olhar vazio de tristeza,
Da solidão,
Do silêncio,
Das estações do ano,
Das estrelas,
Dos sonhos.
O ator colhe nas ondas do mar,
A energia e a força que precisa
Para transmitir o que sente.
Mergulha no seu interior
Para dar veracidade às cenas,
Colhe as melhores palavras,
Onde quer que seja…
Para provocar nos outros que o veem,
Alguma emoção.
Desperta
O que muitas vezes está
Adormecido
Em cada um de nós!
As palavras são como um interruptor.
Saltitam em cada batida do coração…
Sobem, ou perdem-se pelo caminho…
Como bolas de sabão que se desfazem
Ao chegar ao chão.
Surgem ao ritmo do respirar…
Umas vezes lento,
Calmo…sereno…suave…
Agradável…amável…
Outras vezes acelerado,
Ansioso, inquieto, agitado, nervoso…
Agressivo, violento…intenso…
O ator usa e procura
Palavras…
Muitas, ou poucas…
Umas simples, outras mais complicadas,
Mas com elas tudo ganha um novo sentido.
O ator
Dá vida às palavras,
Escritas a preto,
Frias,
Distantes,
Umas doces, outras amargas…
Umas que fazem rir…
Outras que fazem chorar…
As que despertam nos outros
Qualquer emoção…
As que fazem sonhar…
Outras que espelham a alma.
Umas palavras são como facadas,
Quando as ouvimos…
Gelam-nos,
Arrepiam-nos,
Assustam-nos,
Atravessam-nos,
Fazem-nos tremer,
Apertam-nos o coração.
Outras…
São canções de embalar,
Delicadas como flores…
Ou como gotas de chuva…
Suaves…meigas…derretem-nos!
Despertam todos os sentidos.
Com as palavras,
O ator
Faz nascer nos outros,
Mais palavras
Quando pensam no que ouviram.
As palavras voam de uns papéis
E repousam noutros…
Como borboletas…
Livres, soltas, desordenadas,
E juntam-se a outras palavras
Para formarem muitas outras…
Essas palavras…como borboletas…
Percorrem longos caminhos,
Voam
De cérebro em cérebro,
De papel em papel,
De livro em livro,
De boca em boca,
De alma em alma,
De ouvido em ouvido,
De mão em mão,
De sorriso em sorriso,
De lágrima em lágrima…
Deslizam
Do cérebro e da alma,
Pelo braço fora, até à mão…
Que as liberta.
Elas não param.
Essas palavras
Retribuem a quem as apanha,
E a quem as faz viver…
Dando vida
Ao ator,
Ao escritor,
Ao leitor…
A toda a gente…
Pois, através delas,
Das palavras,
Pensamos,
Sentimos,
Transmitimos,
Compartilhamos,
Rimos,
Choramos,
Vibramos,
Vivemos…
As palavras são mágicas…
São um dos instrumentos de trabalho
Do ator.
Têm muito poder!
 
Lara Rocha