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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A borboleta esquecida

desenhado e pintado por Lara Rocha 

Era uma vez uma linda borboleta que tinha asas como as outras, mas esquecia-me muitas vezes que as tinha. Um dia foi passear, pousada na terra, com as patinhas assentes no chão, e encontrou uma menina muito brincalhona que lhe pediu para calçar umas botinhas que a sua avó tinha acabado de fazer para os seus bonecos.
A borboleta não sabia o que era aquilo, mas achou tão bonitos e tão confortáveis que autorizou a menina a calçá-la, e deixou-se andar com eles. Sentia-se um bocadinho esquisita, mas não sabia o que era.
Perguntou à menina que estava a rir às gargalhadas de ver a borboleta calçada com aquelas botinhas, o que tinha nas patinhas. A menina respondeu que eram uns sapatinhos, e que ficavam muito bem nos seus pezinhos.
A borboleta disse que não tinha pés, tinha patas, agradeceu e deu os parabéns à avó, mas pediu para as tirar. A menina continuou a rir e não tirou. A borboleta ficou muito zangada, e foi o caminho todo por terra, a resmungar.
Encontrou mais à frente um gatinho bebé que a cheirou, parecia que a ia aspirar. Ela assustou-se e o gatinho quis brincar com ela, ela correu, ele foi atrás dela, ela escondia-se, e ele ia à procura, até que se cansou, e deixou a borboleta sozinha.
A borboleta viu uma flor, muito bonita, e quis descansar, mas como a flor era muito alta de pé, a borboleta não se lembrou como subia, e disse:
- Óh flor…posso descansar aqui no teu pé? É que estás muito alta, e não posso subir.
- Podes. Mas porque não podes subir? – Pergunta a flor muito surpresa
- Porque estás aí em cima. – Responde a borboleta
- Ora essa…tu tens asas? Porque não sobes mais? Ou tens medo das alturas? – Pergunta a flor  
- Tenho o quê? – Pergunta a borboleta
- Asas. E bem bonitas. Não estou a perceber porque estás a perguntar isso! – Explica a flor  
- O que são asas? – Pergunta a borboleta  
- Estás a perguntar isso a sério? – Pergunta a flor
- Sim! Não sei o que são asas. – Diz a borboleta pensativa e surpresa
- Como assim? – Pergunta a flor
- Olha o que uma criatura me calçou, quando eu ia pela estrada! Eu disse-lhe que tinha patas, e pedi-lhe para me tirar isto, mas ela só se ria, e não tirou. Depois, encontrei um gatinho bebé, que me cheirava de uma maneira que parecia que me ia aspirar, e também fui pelo chão, chateou-se e foi-se embora, deixou-me sozinha. E agora, queria descansar porque sinto-me um bocadinho estranha. – Conta a borboleta
- Pois… (ri-se) Tens as patas presas, dentro de botinhas de agasalho. Mas tens asas! Porque não as usas? Estão magoadas? – Pergunta a flor
- Asas…? Não! – Diz a borboleta
A flor suspira.
- Vai ali ao lago e espreita para veres o que são asas. – Sugere a flor já sem saber o que responder ou perguntar…ou dizer
A borboleta vai pelo chão, até ao lago, a flor aprecia-se muito surpresa e murmura:
- Ela não está boa…
A borboleta espreita e vê-se.
- Ááááááhhhh…eu tenho duas coisas de fora… - exclama a borboleta
- São asas! Para tu voares, não é para andares pelo chão. – Relembra a flor
- Ááááááhhhh…e como é que eu faço isso? – Pergunta a borboleta
- Óh valham-me todas as florestas…- murmura a flor preocupada  
Aparece outra borboleta, e as duas borboletas conversam:
- Ai, mas que belos sapatinhos…! Consegues voar com isso? – Pergunta a sua amiga borboleta
- Outra? – Pergunta a borboleta
- Outra quê? – Pergunta a outra borboleta
- Outra borboleta a falar em voar. – Responde a borboleta
- Claro, e o que fazemos nós, borboletas? Voamos…pousamos de flor em flor…e por muitos sítios. – Explica a outra borboleta
- Ainda bem que apareceste, borboleta! Eu estava a ficar assustada… - Diz a flor a sorrir aliviada
- Ááááááhhhh…tenho asas…? - Pergunta a borboleta
- Claro, eu também. Querias ter o quê? – Responde a outra borboleta
- Mas, eu andei pelo chão! – Lembra a borboleta
- Porque quiseste…e com esses sapatinhos nas patas é possível que não consigas voar. Experimenta. – Sugere a outra borboleta
 - E como é que eu faço isso? – Pergunta a borboleta
- Ai, não acredito! – Dizem a flor e a outra borboleta
- Vê como eu faço. – Recomenda a outra borboleta
A borboleta explica como se faz, e a outra dá saltinhos para tentar sair do chão. A outra borboleta tira-lhe os sapatos e grita:
- Não são saltinhos, são voos…assim…abre as asas…um…dois…três… (empurra a amiga) Dá às asas… dá às asas…assim…mais…mais…dá às asas.
A borboleta grita muito assustada mas consegue voar.
- Boa! Isso mesmo. – Elogia a outra borboleta
- Áh! Estou muito melhor. – Diz a borboleta a sorrir
E as duas vão voar, enquanto conversam alegremente. De repente apanham uma rajada de vento que as faz rodar várias vezes no ar, para tentar lutar e manter-se sem cair, e a borboleta que se esqueceu outra vez que tinha asas, deixou-se cair. A outra abraça-se e grita-lhe:
- Dá às asas…
E as duas voltam a levantar voo, e um bocadinho mais à frente, cansadas, repousam numa flor. As duas conversam sobre as asas.
- Para que servem as nossas asas? – Pergunta a borboleta pensativa
- Para te levarem onde queres e precisas de ir. – Responde a outra borboleta
- Porque é que eu me esqueço sempre que tenho asas, e que consigo voar? – Pergunta a borboleta
- Gostas de ser borboleta? – Pergunta a outra borboleta
- Gosto! – Exclama a borboleta
- Então porque te esqueces das asas? Uma das coisas que temos de mais importante? Se calhar só usas as asas do sonho, e da imaginação! Porque estás sempre distraída. – Responde a outra borboleta
- Os sonhos e a imaginação têm asas, sim… e levam-nos muito, muito longe, também nos levam para onde queremos, ou precisamos de ir. – Explica a borboleta
- Como são as asas dos teus sonhos? – Pergunta a outra borboleta
- Não sei…nunca reparei nelas. – Diz a borboleta
- Como nunca repaste nelas? – Pergunta a outra borboleta
- Eu vou nelas, mas vejo outras coisas. – Responde a borboleta
- Já viste como elas são importantes? Como as nossas asas! - Pergunta a outra borboleta
- Sim, mas não as conheço. – Responde a borboleta
- Como não? – Pergunta a outra borboleta
- Acho que nunca as vi. – Responde a borboleta
- De certeza que já as viste, mas não lhes ligas, porque elas fazem tudo o que tu queres, nunca pensaste no que elas fazem por ti, e nunca quiseste conhecê-las. Elas levam-te e pronto. – Responde a outra borboleta
- Sim, acho que é isso. Tu conheces as tuas? – Diz a borboleta e pergunta
- Claro que conheço. Vejo-as todos os dias, são lindas, e agradeço todos os dias as asas que tenho. – Responde a outra borboleta
- E os teus sonhos, e a tua imaginação têm asas? – Pergunta a borboleta
- Têm! – Responde a outra borboleta
- Como são essas asas? – Pergunta a borboleta curiosa
- São iguais às minhas. – Responde a outra borboleta
- Como é que sabes? – Pergunta a borboleta
- Eu vejo-as sempre. – Responde a outra borboleta
- E eu posso ver as asas dos meus sonhos? - Pergunta a borboleta
- Claro que sim. – Responde a outra borboleta
- Como? – Pergunta a borboleta
- Da próxima vez que fores nelas, verás como são. – Responde a outra borboleta
- Achas que são iguais às nossas? – Pergunta a borboleta
- Não. As minhas e as tuas não são iguais…temos padrões diferentes…mas talvez as asas dos teus sonhos, sejam iguais às tuas, como são as minhas. – Responde a outra borboleta
- Vou fechar os olhos, para ver se as consigo ver. – Diz a borboleta
- Está bem. – Concorda a outra borboleta
A borboleta fecha os olhos, sorri.
- Óh, só estou a ver a sombra delas. – Diz a borboleta
- Tens de olhar com atenção. – Recomenda a outra borboleta
- Como? – Pergunta a borboleta
- Olha para elas sem pressa. Deixa que elas se mostrem. – Sugere a outra borboleta  
E passado um bocadinho ela consegue ver as suas próprias asas de olhos fechados, quando a sua amiga borboleta a abraça.
- Áh! São iguais às minhas. – Repara a borboleta muito surpresa
- Boa! Conseguiste vê-las. Eu disse-te. E gostas delas? – Responde e pergunta a outra borboleta
- Adoro. – Responde a borboleta, sorridente
- Porquê? – Pergunta a outra borboleta
- Porque elas são importantes e levam-me onde eu quero. E porque adoro ver tudo o que elas me mostram. – Responde a borboleta
- Certo. Eu também, mas não te podes esquecer que tens asas de verdade, e são elas que existem, que te levam, que não te deixam cair, a não ser que estejam feridas. Essas é que importam mesmo. – Diz a outra borboleta
- E as do sonho e da imaginação? – Pergunta a borboleta
- Essas são lindas e importantes, mas não tanto como as tuas verdadeiras asas. – Responde a outra borboleta
Depois dessa conversa, a borboleta ainda se esqueceu algumas vezes que tinha asas, porque só se lembrava de usar as asas da imaginação e do sonho.
Era mesmo muito sonhadora, de olhos abertos, e gostava muito de sonhar, era por isso que estava sempre distraída, até se esquecia que tinha umas asas verdadeiras, mas a sua amiga estava sempre por perto, para lhe lembrar que tinha asas, e o que fazer com elas.

E vocês? Conhecem as vossas asas? Como são? Onde vos levam?

Fim
Lálá
(28/Setembro/2016)


domingo, 11 de setembro de 2016

Não acordem a princesa

       

Era uma vez uma princesa, mas não era de carne e osso, como nós. Era uma princesa muito especial, que nem todos a viam, só algumas pessoas, aquelas mais antigas que viviam nas montanhas e que amavam a natureza. Conheciam-na desde crianças e tratavam muito bem dela.

Ela era feita de folhas das árvores, como aquelas folhas que caem no Outono, linda, leve, com muitas cores. Fazia grandes caminhadas pela cidade e pelas montanhas, o ano quase todo, por muitos países, até que a partir de 21 de Setembro ela repousava para descansar. O seu sítio preferido para o fazer era em cima de relva, macia, fofa, grande, ou aparada, isso tanto lhe fazia.

Uma vez deitou-se no jardim da cidade onde viviam muitas crianças, e pessoas mais velhas, ocupou um espaço muito grande que ficou coberto de folhas.

As crianças iam a passear com os seus avós e preparavam-se para saltar em cima das folhas, mas os avós gritaram-lhes que parassem imediatamente.

- Parem! – Gritam os avós em coro

- Essas folhas não são para pisar. – Recomenda uma avó

- São só para ser apreciadas. – Diz outra avó

- Porquê? – Perguntam as crianças

- Se elas estão no chão podem ser pisadas. – Insiste uma das crianças  

- Não! – Gritam os avós em coro

- Porquê? – Voltam a perguntar as crianças  

- Porque vão pisar a princesa. – Diz uma avó.

- O quê? – Perguntam as crianças em coro

- Que princesa? – Pergunta uma menina

- Eu não estou a ver aqui ninguém! – Diz outra menina

- Nem eu! – Dizem todos

- A princesa está deitada. – Repara outra avó

- Xiu! – Dizem todos os avós

- Não façam barulho. – Diz outra avó.

- Acho que a minha avó está a perder o juizinho… - Diz um menino muito chocado

- Também acho! – Concordam todos

- A minha também… - Comenta outra criança

- A minha mãe tem razão. A minha avó está a ficar tolinha com a idade. – Diz outro menino

- O quê? – Perguntam os avós

- Eu não estou a ver nenhuma princesa… só vejo folhas. – Repara uma criança

- Mas está aí! A princesa é feita de folhas… - Diz outra Avó

- Como ela está linda! – Diz um Avô a sorrir

- Ela sempre foi linda. – Corrige a sua esposa

- Áh…eu acho que vocês não estão bem, Avós! – Diz outra menina

- Mas que atrevida! – Ralha a sua avó zangada

- Estejam calados…- Recomenda outra avó

- E quietos! – Diz outro avô.

A princesa mexe-se, e algumas folhas do seu vestido levantam, mexem e voltam a pousar. Todos sorriem.

- Ela mexeu-se! – Diz uma avó

- Quem? – Perguntam as crianças

- A tal princesa que os avós estão a ver. – Comenta outra menina

- Não a acordem…deixem-na descansar. – Recomenda outra avó

- Acho que vou avisar a minha mãe… - Comenta outra menina

- Eu também. – Diz outra menina

- A tua mãe também conhece a princesa. – Responde a Avó, ofendida

- Ela também a vê? – Pergunta a menina

- Vê. – Garante a avó

- E porque é que eu não a vejo? Será que ela é um… - comenta a menina

- Cala-te! Não é nada disso.

- Ela existe. Está a descansar…viram-na a mexer?

- Não façam barulho. – Resmungam todos os avós

- Eu só vi folhas a levantar e a pousar. – Recorda outro menino

- Pois…ela mexeu-se. – Diz a sua avó

A princesa mexe-se mais um pouco e algumas folhas rodopiam e levantam outra vez. As crianças não estão a perceber nada, e até estão assustadas. Vão para casa e contam aos pais. As mães confirmam, os pais quase quebram a magia, mas as mães cortam-lhes a palavra, e eles acabam por confirmar também.

No dia seguinte, as crianças voltam a sair com os avós, e à espera de ver se a tal princesa vai aparecer. Aparece mesmo, aliás continua lá, a descansar…as crianças preparam-se para pisá-las, escorregar em cima delas, fazem uma gritaria tão grande e correm, os avós não conseguem pará-los.

A princesa acorda muito assustada, levanta-se e foge, esconde-se atrás de uma árvore a quem se abraça. Formam-se uma grande ventania e as folhas levantam todas, voam, rodopiam, amontoa-se aos pés e à volta do tronco da árvore, no chão.

As crianças adoraram ver aquelas folhas todas pelo ar, a rodar e a esvoaçar de um lado para o outro, muito rápido…adoraram ver aquele espetáculo de cores. Os avós ficam muito irritados, e ordenaram que parassem. Puseram-nos de castigo, e levaram-nos de volta para casa. Nos dias seguintes não foram.

A princesa voltou a dormir, mais uns dias, até ao dia 22 de Setembro. Muitos avós sabiam que ela ia acordar nesse dia, e foram ter com ela. O seu despertar era sempre um momento de paz, e especialmente bonito para eles.

Nesse dia, o sol deu um beijinho à princesa, e ela acordou devagar, levantou-se a sorrir, os avós sorriram com ela, sacudiu-se e as folhas abanaram suavemente. Sentou-se, e levantou-se.

O sol ficou mais quente, mas pouco depois, quando ela se cruzou com a princesa Verona, que estava de saída para outros sítios, deixou cair algumas lágrimas em cima da princesa quando trocaram um abraço de amizade, e o céu ficou mais carregado. Os avós agradeceram à princesa Verona e desejaram-lhe boa viagem.

O vento tornou-se mais forte, e o seu vestido esvoaçou por onde passou. A princesa para anunciar a sua chegada espalhou folhas de árvores de muitas cores e tamanhos por todo o lado, cumprimentou toda a gente que passava, espalhou ouriços, castanhas, uvas, espigas de milho, bolotas e outros mimos, como amoras e flores silvestres.

Salpicou as árvores com as cores do seu vestido, borrifou folhas de cores diferentes, e o sol brilhou mais forte outra vez, para tornar as cores mais visíveis.  

- Olá princesa! – Dizem todos

- Olá! – Responde ela a sorrir

Nesse dia, as crianças perceberam de quem se tratava…viram a princesa que os Avós e os pais lhes falavam…e que já não estava deitada na relva…andava por lá, a espalhar a sua beleza.

Era a princesa Outonia…mais conhecida por Outono…a estação do ano em que estavam a entrar! Desse dia em diante, até ao Inverno, as paisagens mudaram, houve muitas festas, como magustos, desfiles de cores e folhas, colheitas, e muitas coisas boas.  


Esta princesa já chegou à vossa cidade? Já a viram deitada na relva? O que é que ela espalhou na vossa cidade?


FIM

Lálá

(10/Setembro/2016)

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A lenda da fechadura


fotografia de Lara Rocha 


Era uma vez uma praia como todas as praias…com areia, mar e rochas, que recebia muitas visitas porque tinha algo de diferente das outras. Esta tinha uma rocha com uma forma estranha, e uma fechadura, que nem sempre estava à mostra, mas não havia chave.

Muita gente que visitava esta praia, especialmente a rocha que tinha uma fechadura, dizia sentir vibrações diferentes, tanto ouviam um silêncio aterrador, gelado, como sentiam uma ventania de cortar a respiração e os ossos, só nesse canto da rocha.

Umas vezes conseguiam ouvir choros, gritos, uma voz que cantava melodias tristes e pesadas, outras vezes cantava doces, lindas e leves canções que pareciam músicas instrumentais, e percebiam que as ondas umas vezes ficavam serenas, outras vezes com um tamanho monstruoso que corria toda a gente da praia. Umas vezes passava água por baixo da rocha da fechadura, outras vezes não.

Era um mistério que muita gente tentava descobrir, mas não conseguiam. Só um marinheiro sabia o segredo, mas não o desvendava, porque gostava de ver tanta gente na praia curiosa, e que sentiam coisas como ele dizia.

O mistério era uma lenda muito antiga, embora alguns ainda mais antigos dissessem ser verdadeiro…contavam os marinheiros que era nesse lugar que se encontravam com a princesa dos mares.

Essa princesa era uma mulher demasiado linda, linda demais para ser verdadeira, elegante, muito sedutora, que despertava invejas em todas as outras princesas e seres marinhos, que queriam ser tão bonitas como ela.

Como não conseguiam seduzir os marinhos, porque na verdade eles gostavam mesmo dela, as outras aprenderam uns truques maldosos com a feiticeira dos mares, para conseguir conquistar, e tentaram roubar todos os marinheiros que puderam. Aos que iam pescar, elas formavam tempestades, apareciam a dançar, hipnotizavam-nos, e eles deixavam-se encantar.

A princesa não sabia de nada, nem precisava de fazer feitiços ou hipnotizar para que os marinheiros se encantassem por ela, sentia-se muito sozinha, porque na verdade ela salvava os marinheiros, e queria a companhia deles, porque sentia-se muito sozinha. Começou a achar muito estranho não aparecerem.

Uma vez ficou transparente e assistiu a tudo o que as outras fizeram. Ficou muito triste e com muita raiva, gritou até ficar quase sem voz, levantou ondas gigantes, revirou o mar todo com os seus movimentos de fúria, sacudiu os barcos, e todos os marinheiros caíram à água. As outras ficaram realmente apavoradas, e fugiram.

Ela pegou nos marinheiros e atirou-os todos para a areia numa grande ventania que formou com a sua raiva. Salvaram-se todos, mas ela ficou muito perturbada. Refugiou-se numa rocha para se acalmar. Nessa rocha…

Nessa rocha gritou tudo o que sentia, toda a sua raiva pela desilusão que as outras com quem ela se dava tão bem, e considerava quase família, lhe tinham provocado.

Como é que elas puderam fazer isso com ela…perguntou-se muitas vezes, e praguejou…a voz dela parecia um tremor de terra num túnel, que se ouvia na praia toda.

Depois de conseguir libertar a sua raiva, chorou tanto que as suas lágrimas formaram uma baía à volta da rocha. Por fim, completamente cansada calou-se, deitou-se na areia e adormeceu.

Os seus pais compreenderam o estado em que ela ficou, e deixaram-na lá ficar até recuperar forças. Cobriram-na, deixaram-lhe alimentos e bebidas, e roupas secas, e fecharam aquele canto com uma porta que abriram na pedra, para que ninguém a perturbasse, mas nunca a deixaram sozinha, estavam sempre vigilantes.

Depois de muitas horas a dormir, ela abriu os olhos, olhou em volta, não sabia onde estava, alimentou-se e bebeu, trocou de roupa que estava toda molhada, e ficou em silêncio.

Os pais foram vê-la e conversaram com ela, ouviram todas as suas revoltas, dores, tristezas, angustias, desilusões, tentaram consola-la, e ela voltou com eles para casa.

Nos dias seguintes, ela ainda ficou muito irritada, e nesses momentos, pegava na chave e refugiava-se no seu recanto, nessa rocha. Gritava, chorava, às vezes tanto que a água passava por baixo da porta e aparecia na praia.

Quando havia marinheiros em perigo, principalmente à noite, a princesa pegava neles, e acolhia-os no seu recanto, alimentando-os, dando-lhes de beber e cobrindo-os, fechava-lhes a porta na rocha, ficando assim protegidos até que amanhecesse para saírem em segurança, e falava com eles, de forma muito meiga, simpática, amigável. Eles adoravam-na, e depois não conseguiam libertar-se dela…iam ter com ela.   

A lenda foi rapidamente divulgada, porque um dia viram um velho marinheiro sentado à porta da rocha, e perguntaram-lhe o que estava ali a fazer…ele respondeu que estava à espera que a princesa do mar lhe abrisse a porta, que queria reencontrá-la ao fim de tantos anos.

Acharam que ele estava louco, ou a delirar, mas ele contou o que tinha acontecido há muitos anos atrás, quando a princesa o salvou e o fechou no seu recanto para o proteger.

Contou com tantos pormenores que quem o ouviu quase conseguiu ver e sentir. Como percebeu que estavam a duvidar dele, mostrou a fechadura na rocha que nesse dia estava à mostra, e sem água. Disse para fazerem silêncio, e ouviram vozes…o marinheiro sorriu e disse que ela estava ali com alguém.

Todos se arrepiaram porque realmente tinham ouvido vozes. Espreitaram pela fechadura, não viram nada, nem ouviram nada. Ele explicou que ela tinha ido embora…e na verdade…só se ouvia o vento, que parou de repente, e só se ouviu o silêncio.

De repente aparece um fiozinho de água por baixo da fechadura na rocha. O marinheiro sorriu e disse que aquele fiozinho de água eram umas lagrimazinhas da princesa do mar que o reconheceu…ele sabia que um dia destes iriam reencontrar-se, e conversar.

Todos os que ouviram arrepiaram-se, e o marinheiro entrou pela porta da rocha que se abriu, quando a maré ficou vasa. Sentou-se na areia e viu a princesa, a princesa fechou a porta, e quem ficou do lado de fora ouviu vozes, e gargalhadas…mas só viam o senhor pela fechadura.

Pensaram que ele estava a delirar, ou a sonhar…e foram embora, pensando como é que ele iria sair dali. Mas saiu, quando a princesa, depois de uma longa e animada conversa com o marinheiro que recordaram os tempos em que se encontraram, voltou para casa, com a promessa de se encontrarem mais vezes.

E o marinheiro voltou lá mais vezes. Ainda hoje, quando a maré vasa o marinheiro e quem vai visitar a praia vão a essa rocha da fechadura e ouvem vozes, quando a fechadura não está à mostra, sentem vibrações, e movimentos estranhos.

Há muitas pessoas que vão para esse sítio na esperança de ver e falar com essa princesa dos mares que era tão linda…mas nunca a veem…só os marinheiros conseguem vê-la e conversar com ela.

Os outros, apenas sentem, arrepiam-se, sentem-se estranhos, e ficam deixam-se levar pelo encanto do cantinho, ou da…lenda…ou será que foi mesmo verdade? Se calhar foi verdade para os marinheiros, pelo menos salvaram-se.

E vocês? Acham que foi lenda, ou pode ter acontecido na realidade? Será que foi imaginação dos marinheiros com o medo, para ganharem força de se salvarem? Ou será que essa princesa existiu mesmo…? Será que ela ainda existe? Porque é que acham que só os marinheiros a conseguem ver?

FIM

Lálá

(31/Agosto/2016)

domingo, 28 de agosto de 2016

A floresta das quatro estações



Era uma vez uma floresta cheia aparentemente igual a qualquer floresta, cheia de enormes e centenárias árvores, animais raros, em vias de extinção, sol e sombra. Mas era só aparentemente, porque era realmente uma floresta muito diferente.

A entrada era feita por uma pequena gruta que tinha um guarda: um peixe grande, estranho, feio, que parecia muito assustador, carrancudo e antipático, mas na realidade, sempre que via alguém, olhava de cima a baixo, cheirava, e se achava que o visitante era do bem, sorria, cumprimentava e deixava entrar.

Puxava uma alavanca e abria-se uma cortina feita de grandes ervas, muito compridas que caiam de umas rochas. 
O visitante atravessava a porta, e entrava num lugar da floresta com uma temperatura muito agradável, nem calor nem frio, geralmente sol, não muito quente, uma aragem, um vento suave.

Por todo esse espaço havia flores, umas em botão, outras abertas, de todas as cores, e espécies, cada qual a mais bonita, flores que pareciam sorrir a quem passava, e dançar ao sabor do vento, leves…Viam gotinhas brilhantes pousadas e a reluzir com o sol, na relva fresca, do orvalho da noite.  

Ouviam sons de pássaros a cantar, árvores cheias de ninhos, uns com ovos, outros com passarinhos bebés, tocas nos pés das árvores, de coelhos, tocas nos troncos, de raposas, mochos, corujas e outras espécie de aves, borboletas e andorinhas. 
Ouviam o barulho de água a correr, viam sol e sombra, e umas vezes apareciam nuvens, o vento tornava-se mais frio, caiam umas gotas de chuva, e o sol voltava a brilhar.

Depois havia outra porta, feita com uma cortina de conchas, que faziam um barulho delicioso quando se tocavam e balançavam à passagem do vento leve e quente. 
Quando desviavam as cortinas, os visitantes punham os pés em areia, macia, fofa, branca, limpa e com uma temperatura agradável.

Caminhavam pela areia, viam palmeiras, e ouviam o som do mar vagaroso, muito baixinho, com rochas à mostra, água quentinha, transparente, onde se viam corais, pedras de todos os tamanhos e cores, peixes de muitas espécies diferentes, estrelas-do-mar, cavalos-marinhos, viam-se golfinhos muito próximo da costa, barquinhos, ouviam-se gaivotas, e podia-se mergulhar à vontade.

O sol começava a ficar cada vez mais quente, a escaldar, e as pessoas deitavam-se na areia à sombra de palmeiras, e dos seus guarda-sóis, depois mergulhavam, molhavam-se várias vezes e secavam-se, porque o calor era muito, e bebiam muita água, depois iam para as suas casas.

Saiam desse lugar, e encontravam uma porta feita de um tronco de uma árvore velha, que abria e fechava com um galho mais ou menos grande e grosso. Esse lugar era mais fresco, o vento umas vezes era quente e forte, outras vezes era fresco, frio e forte, mesmo com sol que era mais fraco.

Havia mais nuvens, às vezes chovia, e a paisagem era um bocadinho mais escura, as folhas das árvores caiam às centenas, e eram em tons de vermelho, castanho, amarelo, verde, roxo. 
Viam-se nozes no chão, castanhas, umas nos ouriços, outras fora dos ouriços, bolotas espalhadas por todo o lado, e os varredores da floresta amontoavam as folhas aos pés das árvores, mas vinha o vento e elas que adorava as folhas, principalmente vê-las a dançar, soprava-lhes forte, elas rodopiavam outra vez, e faziam quase uma chuva de folhas de várias cores. Que lindo espetáculo, mas coitados dos varredores.

Viam uvas, maçãs e peras, milho alto, espigas, e muitos outros produtos da terra típicas que só apareciam nessa época do ano. 
Os seus habitantes apanhavam tudo o que a terra lhes dava, para ganharem dinheiro com as utilidades e coisas deliciosas que faziam com esses brindes da natureza. Faziam festas típicas, andavam mais agasalhados e a natureza era um bocadinho mais triste.

Por fim, chegavam à última porta, que era feita de uma nuvem escura, macia mas espessa. Atravessavam a porta e sentiam logo um vento gelado, que atravessava a pele e gelava todo o corpo. Quase não havia natureza, toda a paisagem era gelo, um manto branco, e sentiam flocos de neve a cair na cara, nas mãos, na cabeça…

Os seus habitantes passeavam enchouriçados de roupa, quase só com os olhos de fora, praticamente não havia animais a circular, o céu estava quase sempre escuro, o sol quando aparecia era tão fraquinho que quase nem se sentia, só trazia um bocadinho mais de claridade. Dos telhados das casas via-se sair fumo, das lareiras e das cozinhas.

Só havia uma grande festa, que aparentemente cortava todo o frio… a que chamavam o Natal…aquecia os corações, porque juntavam-se muito mais nas casas uns dos outros, e também vendiam muitas coisas.

Era uma floresta que tinha as quatro estações do ano num só lugar! Uns visitantes conheciam todas, e depois instalavam-se alguns dias ou semanas no lugar da estação do ano que mais gostava…Primavera…Verão…Outono e Inverno.

As que tinham mais visitas eram a Primavera e o Verão, porque seria? Porque há mais luz, mais vida na natureza e mais alegria.


Se fossem a esta floresta, para que cantinho iam? Porquê? O que encontrariam lá, além disto? Ou encontrariam coisas diferentes? Desenhem ou pintem, ou escrevam sobre a vossa estação do ano preferida.

 

FIM

Lara Rocha 

(27/Agosto/2016)

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Os ninhos da gata sem nome

desenhada por Lara Rocha 

Era uma gatinha pequenina, de pelo branco, e olhos verdes que foi abandonada pelos donos que ficaram com a sua mãe. Deixaram-na no parque da cidade, debaixo de um banco para quem a quisesse adotar, ou então se a encontrassem.
A gatinha estava cheia de frio e fome, e miava fininho, baixinho, mas uma senhora de muita idade reparou nela. Olhou-a, e levava consigo um saco e um pacote de leite.
Pegou na gatinha carinhosamente, e meteu-a no saco. Chegou a casa, encheu uma tigela de leite e deu à gatinha, e enquanto a gatinha se alimentava, a boa senhora preparou um ninho para ela, no chão da sala com lareira, à beira da sua cadeira de baloiço, lamentando a pouco sorte da gatinha, e sempre a resmungar por abandonarem os animais.
Pegou numa almofada e numa das suas mantas, pôs por cima da almofada, pegou na gatinha, deu-lhe um banho quente, e encheu-a de mimos.
Mas de noite, a gatinha não parava de miar, e a senhora ficou muito irritada, porque não conseguia dormir com os seus miares. Na manhã seguinte, deu leite à gatinha e meteu-a outra vez no saco.
Saiu de casa e foi a casa de uma amiga, também já com muita idade, e perguntou-lhe se queria ficar com a gatinha. A senhora aceitou, e a gatinha lá ficou…a senhora deu-lhe leite, mimos, e preparou-lhe um ninho muito confortável, dentro de uma caixa de sapatos, com uma mantinha, e na sala de jantar.
A gatinha estava muito contente, até que a senhora começou a coçar-se toda, a tossir e a espirrar. Deixou a gatinha e à noite foi ao médico, porque já não aguantava mais…o médico disse-lhe que era alergia ao pelo dos gatos.
A senhora tomou uns medicamentos, ficou muito zangada com a gatinha, e pô-la fora da porta sem ninho. A gatinha miou sem parar, para pedir abrigo, mas nessa noite teve mesmo de dormir fora da casa, porque estava muito escuro, e ela não conhecia o sítio, dormiu enroscadinha sobre si mesma para tentar aquecer-se.
De madrugada, a senhora pegou no ninho que tinha feito para a gatinha e pô-lo fora da porta com a manta, a gatinha ainda se pôs a miar para ver se a senhora tinha pena dela, e se a deixava entrar, mas a senhora não lhe abriu a porta, então, meteu-se dentro da caixa de sapatos e conseguiu cobrir-se com a manta.
Na manhã seguinte, a senhora saiu a porta, ainda mal-humorada e deixou uma tigelinha com leite para a gata, mas gritou-lhe que fosse embora, e chutou-a. A gatinha tomou o leite, e foi embora muito triste.
Caminhou um bom bocado, muito assustada, a miar, para ver se alguém a encontrava, mas não teve sorte. Muito mais à frente, encontrou um acampamento, cheio de tendas, e tentou a sua sorte…recebeu muitos mimos, alimento, e prepararam-lhe um ninho confortável, feito numa boia de uma criança com uma toalha de praia, e cobriram-na.
A gatinha miou a noite toda, porque queria mimos, e tinha medo… muita gente começou a atirar-lhe objetos para a chutar, gritaram com ela, bateram com os pés no chão e deram pontapés no seu ninho…a gatinha fugiu sem olhar para trás, correu muito triste, e parou numa casa, fraca, com frio e com fome.
De manhã bem cedo, a dona da casa saiu a porta e olhou para a gatinha. Ficou cheia de pena, e voltou a entrar para lhe dar leite…nessa casa já havia uma gata, que tinha sido dada por uma amiga sua no dia anterior, e…áhhh…que surpresa…era a sua mãe.
As duas gatas reconheceram-se, lamberam-se, festejaram e nunca mais se largaram. A dona não percebeu que as duas eram mãe e filha, e não sabia que a gata que a amiga lhe tinha dado no dia anterior, tinha tido gatinhos, com quem ela não podia ficar, então deu alguns e abandonou outros.
Achou aquela proximidade e aquele carinho imediato entre as duas, eram as duas tão bonitas, e como a pequenina até era parecida com a grande, ficou com as duas, pois para ela seriam uma companhia já que vivia sozinha.
Enquanto a rapariga foi trabalhar, a gata mãe recuperou o tempo perdido, encheu a sua cria de mimos, alimentou-a, foi passear com ela pela casa, brincaram uma com a outra, muito felizes, descansaram encostadas uma à outra, alimentaram-se com o que a dona tinha deixado.
À noite, a dona voltou, encheu as duas gatas de mimos, brincou com elas, e deu-lhes um nome: à mãe chamou Gata Vénus, e à filha gata Lua.
Conversou muito com elas, ensinou-lhes algumas regras de higiene, passeou com elas pela casa e pelo jardim, e preparou um ninho para as duas, muito especial…uma alcofa que tinha comprado de propósito para elas, com um lençol e alguns brinquedinhos para gatos, para a pequenina.
As duas eram tratadas como rainhas, e retribuíam a todo o momento, todo o carinho e tudo de bom que a dona lhes dava. Eram umas companhias maravilhosas, a dona era louca por elas, quando cresceram um bocadinho mais, a dona levava-as para o parque, onde andavam à vontade, mas sempre debaixo do olhar muito atento da dona…e elas adoravam esses passeios. A dona era maravilhosa com elas, e elas adoravam-na.
Depois de serem abandonadas e maltratadas encontraram um lar que lhes deu amor, carinho, dedicação, ninho, alimento e ainda melhor…mãe e filha estavam juntas, e ainda ganharam um nome.
Fim
Lálá
(26/Agosto/2016)
Atividade:
Quantos ninhos teve a gata que não tinha nome?
De que eram feitos os ninhos?
Porque é que elas foram abandonadas?
E vocês? Acolhiam uma gatinha ou várias?
Que nomes lhes davam?
Como fariam os ninhos delas?