Número total de visualizações de páginas

quarta-feira, 7 de março de 2018

Os quadros atrás das portas

   

        Era uma vez uma menina que entrou numa casa onde havia muitas portas. Pelo corredor ouviam-se vários sons, e cheiros diferentes. A menina quis saber onde levavam aquelas portas, mas como eram misteriosas, pediu a presença do seu anjo da guarda, que apareceu de imediato.
- Olá! Obrigada por teres vindo. Quero abrir estas portas...por favor, protege-me...
- Combinado. - Diz o anjinho
            A cada porta que abria, perguntava ao seu anjinho se podia abrir sem perigo. O anjinho confirmava que sim. A primeira porta, tinha um lindo quadro pintado por alguém, com uma imagem de uma bailarina numa paisagem montanhosa.
- Quem pintou este quadro...? Que lindo!
            Apreciou o quadro. Abriu a segunda porta, e tinha uma janela, que tentou abrir, mas não conseguiu. Da janela via-se um jardim com cores de Outono.
- Parece ser outro quadro, mas a janela parece mesmo verdadeira, e vê-se que tem um jardim com cores de Outono.
            A outra porta mostrava uma praia paradisíaca, mas a menina não podia entrar, nem ouvia o barulho do mar ou do vento.
- Óh. É outro quadro, que parece uma praia paradisíaca. Porque é que eu não posso entrar? Esta paisagem é tão bonita.
- Mas é um quadro! - Relembra o anjinho
- Pois.
           Na porta ao lado, ouviu gritos, tiros, explosões, choros. Ficou assustada. O anjinho recomendou-lhe:
- Não abras essa porta! É a porta da guerra, é assustadora e feia!
- A porta da guerra? Consegues ver daí?
- Consigo, por isso é que te estou a dizer.
- Vocês não vão para esses países em Guerra? Há tanta gente a sofrer.
- Não! Bem gostaríamos, mas não nos deixam entrar.
- Mas é uma guerra mesmo, ou é uma pintura sobre guerra? Eu estou a ouvir gritos, choros, tiros, explosões...
- É um quadro sobre a guerra, mas é muito realista e feio.
- Se é um quadro como é que eu consigo ouvir?
- Tem uma gravação de sons, para causar impressões nas pessoas que o vêem e saber do que se trata.
- Áh! Então não é real.
- Não. Aqui não é real, mas infelizmente é real em muitos países do Mundo.
- E porque é que eu não posso abrir? Se é uma pintura, não é perigoso.
- Certo, se quiseres abre, mas as imagens são muito feias, acho que não devias ver.
- Está bem! Então não vejo. As que vejo na televisão sobre a guerra são horríveis, e assustadoras, às vezes também não me deixam ver.
- Pois não, e fazem muito bem, porque as imagens são mesmo muito feias e más.
- E a do lado, posso abrir?
- Podes.
            Ela abre a porta do lado e ouve sons de passarinhos.
- Pássaros na gaiola! Que lindos...têm umas penas que dá gosto. Áh...afinal não são reais... são...pintados, mas eu estou a ouvi-los.
- Sim, tem uma gravação com o chilrear deles, para quem vê a pintura sentá-la de forma mais especial.
- Que bonito que é ouvi-los...e aquelas cores das penas. A natureza é mesmo perfeita!
- É.
           Abre as portas seguintes: uma tem uma pintura com coelhos espalhados a correr por um campo de erva alta, outros coelhos parecem estar escondidos atrás de árvores porque só se vê parte da cabeça, com orelhas, ou o rabinho. No outro quadro está pintado uma menina entre cerejeiras, com um cesto cheio de lindas cerejas e algumas no chão. Na porta ao lado, estava pintada uma montanha coberta de neve, com uns raios de sol entre as árvores. A outra mostrava um lago com patos em fila, atrás da mãe, e uma paisagem à volta muito verde. Outro tinha pintado uma gruta com um ribeirinho de água, gelo, e cristais. A outra mostrava a fotografia de uma família enorme e feliz, com uma noiva. Na outra tinha nuvens com formas engraçadas, a outra mostrava dunas de um deserto, e cactos, na outra apareciam grandes águias, umas em voo, outras pousadas em terra. Ainda viu uma casa de campo, com pessoas que pareciam quase reais, animais da quinta que pareciam sair da tela. Noutra viu um céu estrelado à noite, e noutra uma tela em branco, com pincéis, lápis de cor, e de cera, tintas.
- Porque será que esta tela está em branco, e tem aqui material de pintura?
- Não sei, talvez seja de quem pintou as outras todas, e ficou sem ideias, não pintou mais.
             Entrou o pintor, sorridente e diz:
- Olá pequena. Viste as minhas pinturas?
- Olá. Sim...desculpe ter entrado assim.
- Ninguém disse que não podias ter entrado, aliás, a porta principal está sempre aberta para quem quiser apreciar o que quero dizer ao Mundo, e a quem vê.
- Gostei muito dos seus quadros. Parecem muito reais... e aqueles com sons, ainda mais. O seu quadro da guerra não vi. As imagens da guerra são muito feias, tristes, e assustadoras! E aqueles sons...não quis ver.
- Tens toda a razão. As imagens que lá tenho não são bonitas...são de muita tristeza, dor, e revolta! Não gosto de guerra, nem eles gostam, mas pintei para me libertar desses sentimentos. Às vezes alguns de nós precisamos de ver essas imagens horríveis para pensarmos, e deixarmos de ser tão exigentes, estamos sempre a dizer mal e a reclamar de tudo, mas se virmos estas imagens e outras, onde há crianças e bebés com fome, pensamos duas vezes antes de sermos ingratos! Temos tudo, temos paz, e ainda assim, queremos sempre mais. Temos tudo o que os dessa imagem e das outras pagariam milhões para ter, casas...as suas que foram destruídas, sonhos que ficaram subterrados com as crianças que ficaram lá debaixo. Saúde, brinquedos, comida, roupa...nós temos casa, conforto, luz, roupa, comida, brinquedos, não temos guerra nem bombas a cair sobre as nossas cabeças, temos água, que eles não têm, temos ar, que eles têm mas poluído. Não temos do que reclamar, mas reclamamos porque nos falta sempre algo material que achamos que é imprescindível ter, às vezes só porque o outro tem. Não é?  Não temos de fugir, as nossas crianças têm mesas, cadeiras, computadores, livros, mas outros não têm nada, e mesmo assim são educados, interessados, aprendem e são felizes com o pouco, muito pouco, quase nada que têm.
- É verdade! Que lindo pensamento! - Diz o anjinho com as lágrimas nos olhos
- Sim, pois é, nunca tinha pensado nisso.
- Os que menos têm, são os que mais agradecem, e reconhecem! - Acrescenta o pintor
- Pois é! Já ouvi dizer que sim. E para que é aquela tela branca com os materiais? Ficou sem ideias?
- Podes pintar tu!
- A sério?
- Sim.
- Mas, eu não sei pintar!
- Claro que sabes. Todos sabemos.
- Acha?
- Tenho a certeza, e não tem de ficar perfeito. Se ficar perfeito deixa de ser natural.
- Mas os seus estão perfeitos, e parecem naturais.
- Obrigada, mas não, não estão perfeitos...eu não quero que fiquem perfeitos. Experimenta!
- Ahhh...acho que não vou conseguir...e se estrago a sua tela?
- Não faz mal. Tenta! É claro que vais conseguir.
              A menina pega numa cor e desenha um círculo, uma lágrima e mais círculos pequeninos. Depois diz:
- Não está bem... mas sabe o que quer dizer? Quer dizer...o círculo de fora é o nosso mundo, que está a chorar, e quer um abraço!
- Quer um abraço de paz, para secar as lágrimas, não é? - pergunta o pintor a sorrir
- Sim!
- Está maravilhoso. Deixa-o aí, por favor, e escreve essa interpretação!
- Onde?
- Aí em baixo... é tão bonita essa mensagem! Quero que todos vejam.
- Obrigada! Também podia pôr a sua... - Sugere a menina
- Já pensei nisso, mas quero dar liberdade às pessoas que vêem os meus trabalhos para pensarem o que quiserem...eu posso pensar isso, mas elas podem pensar diferente!
             A menina escreve a sua interpretação na tela, o seu anjinho da guarda sorri orgulhoso e rendido às mensagens que ouviu do pintor e da menina.
- O senhor é uma alma de luz! - Diz a menina
- Obrigado, filha... sou apenas um ser humano! Como tu, e os meus filhos.
- Tem filhos?
- Sim, sou casado, e tenho 6 filhos. Felizmente, todos eles bem educados, generosos...
- Almas de luz! - Acrescenta a menina
- Isso! - Sorri o pintor
- Eles também pintam?
- Alguma coisa...
- Porque não põe aqui os quadros deles?
- Eles não pintam quadros, mas qualquer dia, ponho-os a pintar quadros.
- Bem, vou deixá-lo pintar. Parabéns pelos seus quadros, e continue! Áh...e muito obrigada pelo que me ensinou hoje! Não me vou esquecer da sua mensagem.
- Obrigado, serás sempre muito bem-vinda, sempre que quiseres! - Diz o pintor
- Obrigada. Até já.
- Até já.
             A menina sai com o seu anjinho, e reescreve a mensagem que o pintor lhe transmitiu, num bloco que anda sempre com ela. O anjinho confirma que foi tudo aquilo que ela escreveu.
            E vocês, que portas abririam? O que teria em cada uma delas?

                                                                   FIM
                                                                   Lálá  
                                                               7/Março/2018
             

terça-feira, 6 de março de 2018

Os miminhos do sol

            

fotos de Lara Rocha 

Era uma vez um jardim de uma casa que nunca apanhava sol, mas tinha flores como as tulipas, as mimosas e os girassóis que abrem de dia, à medida que o sol lhes aparece e desaparece. Como o sol não aparecia nessa parte do jardim, as flores estavam murchas, de tanta tristeza, com as pétalas fechadas, outras meias fechadas, secas, sonolentas, fracas e friorentas.
            Quando viam o sol, faziam de tudo, com a pouca força que ainda lhes restava, para chamar a atenção do sol, mas este não as ouvia, nem via. Mesmo assim, elas não perderam a esperança de um dia o sol as ouvir. Uma noite, decidiram unir-se, juntaram as suas pétalas para se aquecerem, e uma tulipa sugere:
- Amigas, e que tal se pedirmos todas juntas, já que estamos assim com as pétalas tão perto umas das outras para nos aquecermos, um desejo?
- O quê? - Perguntam todas
- Estás a sonhar não? - Pergunta outra tulipa desconfiada
- Não, estou com tanto frio que nem consigo pensar em dormir. O que eu sugiro é que as nossas forças se juntam para pedirmos que o sol nos veja.
- Mas, achas mesmo que temos força? Alguma de nós tem força nesta altura?
- Temos! Vá lá...já vencemos outras coisas antes...
- Sim, isso é verdade, mas eram situações diferentes.
- Certo, mas podemos tentar esta vez! Vá lá...por favor...vamos pedir em conjunto.
- Não custa tentar, não é?
- Claro!
- E pedimos o desejo a quem?
- Às estrelas.
- Pareces as crianças...acreditas mesmo que as estrelas...aqueles pontos brilhantes lá em cima, tão bonitos, mas tão...tão...tão longe daqui, vão ouvir o nosso desejo? O sol não ouve!
- O sol não realiza desejos, mas as estrelas...dizem que sim.
- E como vamos fazer isso?
- Damos as nossas pétalas, fechamos os olhos, pensamos com muita força no que queremos, e acreditamos que o nosso desejo se vai realizar. Eu acredito!
- Pedimos em voz alta ou em voz baixa?
- Juntas temos mais força...por isso acho que será melhor pedirmos todas juntas.
- Concordo!
- É. Temos todas o mesmo desejo!
- Claro.
- Não sei porque nos puseram aqui, se sabem que precisamos de sol!
- Também não sei.
- Vamos lá! 1...2...3...
         Juntam as pétalas, olham para as estrelas e pedem em conjunto: «queridas estrelas, por favor, que o sol nos veja!» Repetem várias vezes, num coro mágico, com vozes doces. As estrelas ouviram-nas, e foram falar com o sol. As flores adormeceram, e na manhã seguinte, um sol radioso, quentinho e claro, iluminou aquele canto do jardim. As flores abriram os olhos, e nem queriam acreditar...gritam todas:
- Sooooooooooooooooooooooooollllllllllllllllllllllllllllllllllllllll....
           Abrem um grande sorriso, e o sol acaricia-lhes pétala por pétala, carinhoso, elas soltam risinhos, viram para um lado e para o outro, felizes, soltam exclamações de satisfação, e rejuvenescem. As suas pétalas tornam-se grandes, abertas, com cores mais fortes, viçosas, agradecem ao sol e às estrelas:
- Eu disse que as estrelas nos iam ouvir! - Diz a tulipa feliz
- Áh! Sol...que maravilha! - Suspira um girassol
- Que saudades tuas, sol! - Comenta uma mimosa
- Estávamos a ficar cada vez mais fracas, murchas, tristes...
- Estou como nova! Áh! - Suspira outro girassol 
- Porque nunca nos ouviste?
- Não sabia que estavam aqui! Este jardim tem muitas flores, e há milhares de outras flores por aí que precisam de mim, desculpem! - Diz o Sol a sorrir
- Áh! Já me sinto muito melhor... - Suspira uma mimosa
- Eu também! - Diz outra mimosa
- Parece que até estou a sonhar. - Comenta outra tulipa feliz
- Não estão a sonhar...as estrelas enviaram-me o vosso pedido, e é mais que justo! - Diz o sol
- Eu disse que se pedíssemos juntas, tínhamos mais força! - Relembra a tulipa que sugeriu o pedido às estrelas
- Obrigada, sol! - Dizem todas em coro
- E vão mudar de sítio! - Diz o sol
- Boa! Assim lembras-te de nós todos os dias! - Diz outra mimosa a rir
- Claro que sim! Não me esquecerei. - Diz o sol  
           A senhora da casa decide mudá-las de sítio, e planta-as num lugar do jardim juntamente com outras flores que adoram sol, e à noite dormem. Elas crescem, e acompanham todos os dias o sol, desde que nasce até que se deita, lindas como as outras. Todos os dias, as flores receberam os miminhos do sol, nas pétalas, e tornaram-se cada vez mais saudáveis.
           Todos nós precisamos de sol, e as flores também, mesmo as que dormem à noite.

                                                                          Fim
                                                                         Lálá 
                                                                   6/Março/2018

domingo, 4 de março de 2018

O castelinho na tua mão



         Era uma vez uma menina que foi para a praia com a sua família, num dia quente de Verão, com muito sol.
         Logo que pousaram as coisas na areia, a menina pediu aos pais para ir para a água, os pais deixaram porque havia muitas possas e o mar estava longe.
         Foi a correr, e entrou devagar, primeiro molhou os pés, viu caranguejos pequeninos, estrelas-do-mar coladas nas rochas, e peixinhos.
         Molhou as pernas até aos joelhos, e depois até à barriga, até que mergulhou mesmo. Nadou, e quando olha para o lado, vê um rapaz a construir alguma coisa na areia. Saiu da água, e foi ter com ele.
O rapaz sorri-lhe.
- Olá, estás sozinha, pequena? - pergunta ele
- Olá. Não, os meus pais estão lá em cima, ali...com as minhas tias. E tu?
- Eu estou sozinho.
- Como te chamas?
- Chamo-me João, e tu?
- Eu chamo-me Sofia.Onde estão os teus pais?
- Estão na minha casa. Ali.
- Porque é que eles não vieram para a praia?
- Porque não quiseram. Está muito calor.
- O que estás a fazer?
- Estou a brincar com a areia.
- Tu já és muito crescido, não podias brincar com a areia. Os crescidos não brincam.
- Achas?
- Acho.
- Não sei porque não podem brincar. Quem te disse isso?
- Todos os grandes dizem.
- Fazem mal, se não brincam. Eu sou crescido, mas brinco na mesma, e não tenho vergonha. Fico feliz por brincar.
- Eu também.
- Claro, todas as crianças gostam de brincar.
- Mas os crescidos, quando vamos à escola dizem que já não podemos brincar.
- Isso é mesmo injusto! Não te acredites neles.
- Não nos deixam brincar, é por isso que eu gosto mais dos dias em que não vou à escola, quando estou de férias, porque só nesses dias é que posso brincar. O que vais construir?
- Já vais ver.
            O rapaz constrói um castelo em areia, e enquanto isso fala com a menina. No fim, ela solta uma grande exclamação:
- Áh! Que lindo.
- É um castelo de areia.
- Está maravilhoso.
- Obrigado.
- Como conseguiste fazer um castelo que parece quase verdadeiro, daqueles de princesas e príncipes, reis e rainhas...?
- Já construí muitos! Mas o mar lavou-o para longe.
- E tu não conseguiste segurá-lo?
- Não! Ele foi mais rápido.
- Nem te perguntou se podia levá-lo?
- Não!
- Óh, deves ter ficado triste!
- Não.
- Eu gostava de ter um castelo assim!
- Gostavas?
- Gostava, mas de certeza que não consigo construir um castelo assim.
- Porque não?
- Não sei.
- Então eu vou oferecer-te este!
             A menina sorri.
- Como é que vais fazer isso? Não posso levar esse castelo assim.
- Este é um castelo mágico.
- É mágico? Porquê?
- Porque tu gostaste dele, e eu vou pô-lo na tua mão, para que possas levá-lo.
- Mas ele não se desfaz quando o puseres na minha mão?
- Não! Porque só tu vais vê-lo, e vais poder levá-lo para todo o lado que quiseres.
- A sério? Quem está lá?
- Isso não sei. Vais poder descobrir isso tudo...de certeza que vais encontrar no castelo muita gente Queres ver? Estende a mão.
            O rapaz sopra para o castelo e este aparece na mão da menina, em tamanho pequeno.
- Áh! Tu fizeste magia...ele está aqui.
- Eu disse-te que era um castelo mágico.
- Que lindo! Mas, e agora como é que eu vou poder levá-lo para todo o lado? E como é que não vão vê-lo? Eu estou a vê-lo.
- Se lhe soprares ele desaparece, para poderes fazer tudo o que tens de fazer, e quando quiseres que ele aparece, olhas para a tua mão, pensas na palavra castelo, sopras e ele volta a aparecer.
- Mas como é que eu vejo quem vive lá?
- Podes pedir que o castelo aumente, para um tamanho que consigas entrar, e ver quem está lá.
- Áh! Que giro! Obrigada.
- Acho que vem aí alguém à tua procura.
- Óh, pois é. É a minha tia. Vou para ali...obrigada pelo castelo. Vejo-te por aqui outro dia.
- Sim, quem sabe! Diverte-te. E não te esqueças que o castelo está na tua mão. Não deixes de brincar, mesmo que os adultos não deixem, não lhes faças a vontade. Estuda, mas não te esqueças de brincar.
- Como é que eu faço isso? Eles estão sempre a tomar conta e a ver o que faço...
- Brinca quando eles não estiverem a ver. É para isso que serve esse castelo na tua mão.
- Está bem. Obrigada.
              A pequena vai ter com a tia, brinca com ela, fala, ri, toma banho, mergulha, corre, enche-se de areia, e na hora mais perigosa vai para casa. No fim do almoço, vai para o seu quarto, está muito curiosa para saber quem vive no castelo da sua mão. Enquanto os adultos descansam, ela também se deita, mas olha para a sua mão, pensa na palavra castelo, sopra e ele aparece tão grande, como o espaço do seu quarto. Ela abre um grande sorriso. Bate à porta do castelo, e é recebida por simpáticos guardas, cheios de energia, sorridentes, com roupas coloridas e elegantes:
- Olá visitante, bem-vinda
             Fazem uma vénia e estendem a mão à menina. Levam-na a passear pelo castelo, entre lindos jardins, floridos, flores de todas as cores, espécies, com chilreares diferentes, pássaros de muitas espécies e penas fantásticas, borboletas de muitos tamanhos, formas e cores. As princesas estão à janela, e a menina vai ter com elas.
- Olá! - Dizem as princesas
- Olá! -  Diz a menina
- Anda ter connosco. - Convida uma princesa
- A vista daqui é maravilhosa! - Diz outra princesa
            Os guardas acompanham a menina até às princesas,  que oferecem um chá à menina, apresentam os reis, as rainhas, os príncipes, as outras princesas, e as divisórias do castelo. A menina fica encantada com o que vê. Ouve alguém a chamar, e diz:
- Óh...vou ter de ir embora, mas volto daqui a bocado, está bem?
- Sim, está bem. Nós estamos sempre aqui. Aparece!
- Até já!
- Até já!
             A menina volta para o seu quarto, sorridente, sopra para o castelo e este desaparece. Mas afinal ninguém a tinha chamado. Então, volta a pensar no castelo e olha para a mão. O castelo aparece, e a menina conhece o resto do castelo. Depois desse dia, sempre que a menina queria ir ao castelo, este aparecia, e quando soprava, desaparecia. A menina não se esqueceu do que o rapaz da praia lhe disse, por isso, quando as aulas começaram depois das férias, ela já era muito amiga das princesas, brincava muito com elas, passeava pelo castelo, lanchava com elas, e elas também conheceram o quarto da menina. Viveram muitas aventuras e os adultos nunca descobriram que ela brincava às escondidas, porque eles não deixavam brincar.
             E vocês também têm um castelinho na vossa mão? Como é esse castelo? Quem vive lá? 

FIM 
Lálá 
(4/Março/2018) 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A MENINA DE ÁGUA


                       desenhada por Lara Rocha 


     Era uma vez uma menina muito especial, que vivia com a sua família numa toca num tronco de árvore, com musgo, folhas, cascas de árvores, bolotas, e pedacinhos de algodão. Dormiam numas verdadeiras camas macias e quentes, feitas com pétalas de flores e edredões cheios de dentes de leão. A casinha tinha tudo!
     A menina andava entre as pessoas, mas nem toda a gente via, porque ela era feita gotas de água, em forma de cristais que brilhavam quando o sol lhe dava, e apareciam arco-íris.
Ao longo do dia, e à noite um conjunto de nuvens descia para o jardim da casa da menina, pousavam entre as duas árvores e formavam um baloiço grande, leve, para onde todos adoravam ir.
A menina sentava-se e dava lanço, outras vezes instalava-se confortavelmente nas nuvens e deixava que o vento tratasse do assunto. Quando ia para o baloiço, conseguia ver muito longe, estava atenta a tudo o que via, via pessoas e natureza.
Era nesses passeios de baloiço que alguns a conseguiam ver, ficam encantados com aqueles pequeninos arco-íris e brilho de cristais que dançavam de um lado para o outro, só as crianças mais pequenas algumas pessoas mais atentas, viam essa beleza.
As crianças mostravam aos pais e a toda a família, mas estes não a viam, achavam que era imaginação dos pequenos. Ela sorria, e acenava a quem a via, e retribuíam. Um dia uma senhora solitária estava à janela e viu a menina a brilhar. Primeiro assustou-se, pensou que estava a ver coisas, olhou, e voltou a olhar, e viu a menina.
- Áh! O que é isto? Que coisa tão bonita. Parece que de repente anda aqui uma estrela! Áh! Ou será que é mesmo uma estrela que caiu? Não…não caiu, ela continua ali…! Será que sou eu que estou a ver coisa? Óh, valham-me todos…será que estou a perder o meu juízo? Será que mais alguém vê? Vou perguntar. Ou, se calhar é melhor não! Não…é melhor não, as minhas amigas e família podem pensar que estou a ficar tolinha! Mas o que será aquilo? Será que é dos meus olhos? Ou será mesmo real? Em criança é que eu costumava ver estas coisas, de fadas, e estrelas, eu não…a minha imaginação, a inocência da criança. Mas acho que as crianças de agora são muito diferentes, talvez elas não vejam! Óh! É lindo. Parecem cristais encadeados em forma de gente, como acontece às vezes nas formas das nuvens, com arco-íris.
     A menina pede às nuvens para a deixarem ir à janela da senhora.
- Olha, agora estão cristais aqui na minha janela?
     Abre a janela, e a menina brilhante com os raios de sol a bater-lhe, sorri à senhora:
- Olá! Sim, estás a ver-me!
- Áh! Como é que sabes?
- Eu vi o teu brilho nos olhos. Deixa-me adivinhar…tu achas que eu não existo, não é? Achas que é tudo da tua imaginação, ou que estás a ver coisas!
- Como é que sabes?
- Eu percebi! Sim, existo. Nem todos me conseguem ver, mas existo!
- Porque é que nem todos te conseguem ver?
- A isso não sei responder, sei que acontece!
- Mas tu és uma estrela lá do imenso Universo?
- Não!
- És um astro? Um meteorito? Um cometa?
- Também não!
- Mas então…
- Sou como tu me vês! Feita de gotas de água, brilho e crio arco-íris quando o sol me bate.
- Sim, é mesmo assim que te vejo! Que linda que és! Entra, vamos conversar um pouco…podes fazer-me companhia?
- Claro!
    A menina entra, a senhora oferece-lhe um chá. As duas conversam, riem e chegam à conclusão que afinal já se conhecem desde há muitos anos, desde que a senhora era bebé.
- Acho que já percebi porque é que nem todos te veem! – Diz a senhora pensativa
- Porquê?
- Porque andam muito distraídos, ou porque a alma deles está velha! Não admira, andam sempre a correr, quase nem falam uns com os outros, é só aquelas porcarias daquelas maquinetas, as crianças de agora nem brincam!
- És capaz de ter razão! Também já percebi isso. Andam sempre a correr, muito irritados, com caras compridas, sempre com os telefones nas orelhas, e aquelas coisas com rodas a fazer barulho, e a deitar fumo.
- Os carros…! Sim, é verdade.
- Mas onde é que eles vão com tanta pressa? – pergunta a menina
- Dizem que vão para o emprego, o que lhes dá dinheiro, é certo, mas também é o que dá cabo deles. Sim, estão sempre irritados com tudo, só gritam, não veem nada do que se passa à volta deles, só quando lhes toca!
- Pois é! Então também andam muito distraídos! – Diz a menina
- Andam!
- Isso é triste. Perdem tanta coisa boa e bonita à volta deles!
- Tens toda a razão! A ti incluída! Não te veem…e és tão bonita! Também és tu que apareces nos campos, por cima da relva, não és? – pergunta a senhora
- Sim, sou eu! Adoro andar pelos campos de manhã, principalmente quando o sol amanhece.
- És o orvalho?! Aquele brilho fantástico das gotinhas de orvalho no frio do Inverno! A geada…
- Sim. É tão bonito de ver! Também és tu, que pousas nas pétalas das flores?
- Sou! Vou muitas vezes cumprimentar e abraçar as minhas amigas flores, por isso que ficam lá os meus passos, tenho de subir pelas suas folhas, e depois gosto de lhes deixar lá uns beijinhos e mimos.
- É um regalo para os meus olhos! E és tu que andas por cima dos poços, às vezes congelados?
- Sim, eu e a minha família, fazemos muitas festas nessa altura, para celebrar aniversários e o Inverno, conviver… então escolhemos sítios onde possamos dançar, claro, que tenha água. Gostamos tanto de estar juntos que até congelamos poços! As nossas festas duram a noite toda, e somos uma família gigante, entre tios, tias, primos, primas, avós, bisavós...
- Então também são vocês que enchem os vidros de gotas, quando nós dizemos que estão embaciados?
- Isso mesmo! Nós andamos por todo o lado.
- As crianças também te devem ver!
- Sim, mas elas não sabem quem sou. Talvez me vejam assim, mas não sabem o que faço, e os adultos acham que sou um ser imaginário dos pequenos!
- Pois, é verdade! Para eles és como as fadas e outras personagens encantadas, mas és muito mais bonita do que elas! As fadas vi-as em criança, mas depois cresci nunca mais as vi, estou agora a ver-te! Estou tão feliz de te ver! Como não tenho o que fazer para já, e adoro ver a natureza, consigo ver-te…
- Claro! Não estás distraída. Ainda bem!
    As duas sorriem. Chegam os filhos e os netos da senhora, e não veem a menina, chegam agarrados aos telemóveis e jogos eletrónicos, cumprimentam a Avó. Ela resmunga-lhes:
- Lá estão vocês com essa porcaria. Não veem nada à vossa volta, com tanta coisa bonita, só veem isso que não tem interesse nenhum. Não está aqui mais ninguém?
     A menina ri, eles respondem:
- Estás tu, Avó!
- Que distraídos…arrumem lá essas coisas, e vão mas é para o campo ver as maravilhas da Natureza!
- Já vimos! – Respondem todos
- Veem agora lá alguma coisa…? Só tendes vento nessas cabeças, não sai nada daí.
    Os netos continuam alheados a tudo. Os filhos, pais dos netos também entram, cumprimentam a senhora, falam a correr, e saem.
- Lá vão eles com o fogo todo no rabo. Que tristeza de mundo. Não têm tempo para nada! Não sei onde vão parar, não veem nada…
    A menina ri-se.
- Nem te viram.
- Não faz mal! Olha, vou ter de te deixar, daqui a pouco são horas de lanchar com a minha família.
- Óh, já?
- Sim, mas volto noutro dia. Agora que me vês, estarei aqui mais vezes, prometo!
- Combinado. Muito obrigada!
- Obrigada eu! Foi um gosto este bocadinho…
- Volta sempre que quiseres.
- Voltarei. Até já!
- Até já.
    A menina deixa uma gotinha no pires da chávena de chá e outra na janela. A senhora sorri encantada. A menina voltou no baloiço de nuvens para a sua casa, e contou o que aconteceu. Os pais e os irmãos ficaram encantados, e quiseram conhecer a senhora. No dia seguinte, foram todos juntos, e encheram a janela da senhora de gotas. Quando a senhora acordou, olhou para a janela, e disse:
- Olá, bom dia! Chegaste cedo, hoje!
- Bom dia! Trouxe os meus pais, os meus irmãos, irmãs e avós que te queriam conhecer!
- Áh! Olá a todos… bem-vindos. Tomem o pequeno-almoço comigo!
    Todos entram em forma de gotinhas, como a menina, e tomam o chá, enquanto conversam com a senhora, muito animados. Depois desse dia, foram visitar mais vezes a senhora, e ela ficava sempre tão feliz, de cada vez que via aquela família de gotas, através das diferentes formas que apareciam.
    Umas vezes em forma de orvalho, outras vezes em forma de chuva, outras em forma de geada, ou poços congelados, e pousavam muitas vezes na janela da senhora, onde deixavam sempre um beijinho em forma de gotinha. 
E muitas outras vezes, entravam na casa da senhora para lhe fazer companhia, conversar, rir, e beber chá.  
     Nem toda a gente via a menina, e a sua família. Andavam todos com muita pressa, muito distraídos, e não reparavam nas coisas que havia à sua volta, tão bonitas, tão especiais como o orvalho em cima da relva, as gotinhas nas flores e nas folhas, as gotinhas nos vidros, os poços congelados e o brilho do sol nas gotas que faz aparecer pequenino arco-íris.
E vocês, conseguem ver esta menina, com a família dela? Ela também anda entre nós. Procurem-na! E digam aos vossos pais para fazerem o mesmo. Vale a pena parar uns minutos para ver a menina de água, e a sua família. Os vossos pais conseguem vê-la? Onde?
Onde podem encontra-la mais?
Podem fazer um desenho da menina gotinha.


FIM
Lálá
24/Janeiro/2018
  história para todas as idades; natureza; orvalho; geada; chuva; gotinhas; cristais; sol; menina; beleza,



terça-feira, 23 de janeiro de 2018

o menino e o papagaio especiais






            Era uma vez um menino que vivia numa aldeia, e passava parte das suas tardes a lançar um papagaio, de plástico, colorido, preso por um fio à sua mão, a correr livre e solto, feliz, com um grande sorriso a levar com o vento na cara que brincava com os seus cabelos encaracolados. Era um menino sorridente, e o papagaio não se cansava de voar ao sabor das suas corridas pelos campos. 
           Os dois conversavam muito, o papagaio contava ao menino coisas que via de cima, e o menino ouvia-o encantado, conseguia imaginar o que o papagaio descrevia. 
Um dia, o menino contou ao seu papagaio o seu desejo de levar uma luz que curasse doentes, aos lugares onde houvesse, e milhares de luzes para que houvesse paz no mundo. O papagaio riu, mas ficou pensativo. 
          Ambos sabiam que ia ser difícil isso acontecer, mas acreditavam que talvez um dia fosse possível acontecer, também não sabiam onde iam arranjar essas luzes tão poderosas, se os médicos não conseguiam curar todas as doenças! 
         Fizeram o seu dia-a-dia normal, as suas corridas e brincadeiras, conversas, e não pensaram mais no assunto. À noite, o menino não conseguia dormir, estava inquieto, dava voltas e mais voltas na cama, mexia e remexia, cobria-se, destapava-se, mas o sono não vinha. Ficou a pensar no seu desejo, e como poderia realizá-lo. Decidiu que iria pedir ajuda ao feiticeiro da aldeia. Sossegou, adormeceu e sonhou com o seu desejo. De manhã, foi a casa do feiticeiro, explicou-lhe o seu desejo, e o feiticeiro riu com vontade: 
- Meu filho, isso é o desejo do mundo inteiro, de todas as pessoas do bem que não praticam a guerra. Eu sou feiticeiro, mas não vou poder realizar esse teu desejo! Desculpa. 
- Porque não? 
- Porque não há nenhuma magia que eu possa fazer para que as pessoas maldosas deixem de pensar em guerra. 
- O amor não pode fazer isso? 
- Pode, mas não há amor assim...por aí, à venda. Tem de vir do coração de cada um de nós, juntamente com a felicidade, a bondade, a vontade de ser bom, e a humildade. O amor é mágico, mas os feiticeiros não podem fabricá-lo! Tem de partir de cada um, já tem de estar em cada um. 
- E os sorrisos? Os abraços? 
- Tudo isso é bom, é do bem, só existe nos corações, eu também não posso fabricar. 
- Porque não? 
- Porque isso também não há assim à venda, há dentro de algumas pessoas, as pessoas que fazem bem, no coração delas, eu não posso andar por aí a roubar bocadinhos de amor, de abraços, e sorrisos, ou outras coisas bonitas. 
- Mas não podes criar uma luz que transmita paz, e que se solte nos sítios que mais precisam? 
- Hummm...não sei. Acho que não! Mas, agora vai brincar, se eu conseguir digo qualquer coisa. 
- Está bem, obrigada. 
            O menino saiu, e o feiticeiro riu às gargalhadas. 
- Santa Inocência! Coitadinho... 
            E continuou a rir, mas de repente parou, pensativo: 
- Espera ai...ele é inocente, mas...uma luz que acalme... talvez consiga criar! Pelo menos para ele não ficar tão triste, e até pode ser que funcione! Uma luz que acalme...que transmita paz....
            Revirou vários livros, procurou, pediu inspiração, e conseguiu criar umas luzinhas muito leves, de cores muito suaves, que acreditava acalmarem. Chamou o menino e comunicou-lhe a invenção. O menino ficou todo iluminado com um sorriso de orelha a orelha. 
- Mas como vais lançar estas luzinhas? - Pergunta o feiticeiro 
- Presas no papagaio. 
- Áh! Está bem! Boa sorte...e vamos acreditar que vão funcionar. Pede ao vento que tas leve para os países em guerra. 
- Está bem! Muito obrigada. 
          O feiticeiro guarda as luzinhas todas num saco. 
- São lindas...! - Diz o menino quase hipnotizado
- Sim, são. - Diz o feiticeiro 
         O menino agradece mais uma vez, e vai logo ter com o seu amigo papagaio. Prendeu as luzinhas no papagaio, e explicou para pedir ao vento que as leve para longe, mas pelo caminho podia largar as luzinhas em muitos sítios onde havia pessoas doentes. O papagaio estava preparado, orgulhoso e feliz por levar umas luzinhas tão poderosas, que acreditava cumprirem o seu desejo. 
- Vai amigo! Boa sorte, estou aqui... vai-me dizendo para onde devo levar-te. 
- Combinado! 
          O menino corre de um lado para o outro, como sempre livre, leve, solto, feliz, e o papagaio voa ao sabor dos seus movimentos, dando indicações ao menino para onde virar. Em todos os sítios onde chegou e sabia que havia pessoas doentes, largou centenas de luzinhas, que seguiram o seu caminho, e foram ter com quem mais precisavam. As pessoas melhoraram e ficaram curadas. 
           Depois, pediu ao vento para levar as luzes para mais longe, onde havia guerra. As luzes voltaram para os campos do menino, umas semanas depois, todas furadas e fundidas, umas largas centenas. O menino nem queria acreditar! Os dois choraram destroçados, perceberam logo que a maldade tinha ganho nesses países, e que até desfizeram as luzes. Começaram a pensar em como estariam as pessoas...se as luzes estavam naquele estado...como não estariam as pessoas, e as crianças, as casas...tudo! 
- O feiticeiro tinha razão! O amor não se vende por aí, tem de vir do coração de cada um de nós, juntamente com a felicidade, a bondade, a vontade de ser bom, e a humildade. O amor é mágico, mas os feiticeiros não podem fabricá-lo! Tem de partir de cada um, já tem de estar em cada um. - Diz o menino ainda a chorar
 - Óh! E nós temos isso tudo, porque nos devolveram as luzes naquele estado? - Lamenta o papagaio 
- Porque não tinham o mesmo que tu, filho! - Diz o feiticeiro que apareceu de repente, sem se saber de onde. 
- Ai que susto...estava tão mergulhado na minha tristeza que não te vi chegar. Já viste o que aconteceu? As luzes que mandei para os países em guerra, voltaram todas furadas! - E desata outra vez a chorar. 
- Claro! Entendo a tua tristeza! Eu disse-te que não podia fabricar paz, tentei fazer umas luzes que despertassem a paz, mas a maldade é tanta que eles nem as viram, não perceberam para que eram! 
- As outras foram entregues, e resultaram! - Diz o menino a chorar 
- Pois! As que curaram. Porque essas pessoas precisam de amor, de abraços, de todos os ingredientes vindos de corações bons, puros, como o teu! O teu desejo era sincero e funcionou.- Diz o feiticeiro 
- Mas o meu desejo para a paz nos países em guerra também era sincero! - Garante o menino 
- Não tenho dúvidas disso. Mas o deles não era! Foi por isso que elas voltaram. - Diz o feiticeiro 
- Óh, estou tão triste! - Diz o menino
- Eu também. Tinha tanta esperança que iam funcionar! - Acrescenta o papagaio
- Parte dela funcionou! Deves sentir orgulho e ficar feliz por isso.- Diz o feiticeiro
- E a outra? - Pergunta o menino 
- Com a outra não podes fazer mais nada, filho! Não vais ser tu a mudar os corações de pedra, que só tem maldade! 
- Porque é que eles são assim? Já pensaram na quantidade de pessoas que...bem, nem quero imaginar como estarão as pessoas, as casas e tudo...se as luzes ficaram assim! 
- Pois! É melhor nem imaginar! Mas continua a pedir nas tuas orações, que haja paz. Pode ser que um dia chegue lá a tua luz, e a de muita gente, a luz da bondade, a luz do amor, do bem. Não podemos fazer mais nada, infelizmente. Apenas podemos espalhar essa luz tão bonita, pelos que estão mais perto de nós, e pelos que querem recebê-la! - Explica o feiticeiro
- Entendi. - Diz o menino
            E naquela tarde, o menino continua triste, arruma as luzes numa gruta, e por cima de cada uma delas deixa cair uma lágrima, tal como o papagaio que o ajuda a arrumar. À noite, chorou outra vez e pediu paz. Ele não conseguiu levar paz e luz aos países que estão em guerra, como queria, mas conseguiu distribuir a sua luz, pelas pessoas que mais precisavam à sua volta, a quem ele ajudava, sorria, abraçava, visitava, com quem brincava, e falava, a quem dava carinho, e a quem dizia palavras simpáticas.
           Ele era um menino bom! Depois da tristeza, voltou a ser o menino feliz que era, que corria livre pelos campos, e adorava que o vento brincasse com os seus cabelos, a fazer voar o seu amigo papagaio. 
           Nós também não podemos acabar com a guerra nos países lá muito longe, mas podemos levar as nossas luzinhas mágicas, às pessoas mais próximas de nós, do bem, com corações bons, ao fazermos pequeninas coisas por elas, como o menino! 
           Experimentem, e podem experimentar rezar também pela paz! A paz só podemos fazer por nós, connosco e com os outros à nossa volta, ela já existe em alguns corações. Vocês conhecem corações bons? 

Fim 
Lálá 
22/Janeiro/2018