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quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A estranha nuvem



Era uma vez numa aldeia, há muitos, muitos anos atrás, com famílias numerosas. Não eram muito ricos em dinheiro, mas tinham alimentos que a terra dava, amor, carinho, dedicação, entreajuda, amizade, partilha e alegria. 

  Faziam muitas festas, mesmo com pouca luz das ruas, às vezes reforçada pela luz da Lua, momentos maravilhosos que fazia sonhar. Reuniam-se ao ar livre na praça para ouvir e contar histórias, ver as estrelas e conviver. Os adultos conversavam, as crianças corriam, brincavam, cantavam, saltavam, faziam jogos coletivos, e era uma grande animação.  

    Além dos habitantes, voavam sobre as flores e pousavam nas janelas, nas árvores, nos vasos, nos arbustos, em todo o lado, centenas, milhares de pirilampos que encantavam toda a gente com a sua misteriosa e maravilhosa luz. 

   Não havia poluição, nem prédios, por isso iluminavam com toda a força. Até os que fugiam das cidades vizinhas, juntavam-se a estes. Um dia, infelizmente, a aldeia começou a crescer, as construções aumentaram, e com elas, os candeeiros com luzes fortes, iluminação pública por todo o lado. 

    A poluição quase tanta como nas cidades. Os pirilampos começaram a refugiar-se na flores, não saíam à noite, ou se o faziam era por pouco tempo. Começaram a sentir o peso da poluição e das luzes, que os deixavam confusos, irritados, perdidos, cansados. 

  A sua luz começou a enfraquecer, os habitantes mais velhos ainda perguntavam por eles. Comentavam entre si, o que seria feito dos pirilampos, porque tinham deixado de os ver quando saíam para os procurar. 

   Algumas noites, ainda tiveram a sorte de ver uma pequenina luzinha dentro de algumas flores. Espreitaram e viram que eram os pirilampos, mas estranharam ser uma luz tão fraquinha. 

- Acho que os pirilampos estão doentes - comenta um habitante 

- Também acho! - dizem todos 

- Quase não brilham! - diz outro 

- Estão em vias de extinção. 

- Que pena! 

- Porque será? 

- Não sei! 

- Coitadinhos. 

   Como não aguentavam aquele ambiente, decidiram procurar outro sítio. Numa noite, saíram todos juntos, praticamente sem luz nas caudas. Formaram uma nuvem escura, parecia uma invasão de mosquitos, com umas pintinhas luminosas, quase pareciam estrelas no céu noturno. 

   Voaram devagar, bem juntinhos uns aos outros para se ajudarem, se precisassem e dar força coletiva. Estavam tristes. Os habitantes, e quem viu do solo, assustou-se: 

- Olhem aquela nuvem, parece de mosquitos...a ondular! - repara um dos habitantes

- É mesmo! 

- Acho que é melhor irmos para dentro. 

- Eles parece que vão noutra direção! 

- Pois, mas podem voltar para aqui. 

- Hummmm....não me parece! 

- Eu acho que aquilo é uma nuvem no céu noturno...algum fenómeno astrológico! Tem umas pintinhas brilhantes, e mexem-se. 

- Cá para mim é concentração da poluição. 

- Também pode ser infelizmente. 

- Áh! Pois é... - concordam todos 

    Ficam a apreciar a nuvem negra que parecia do espaço, ou o bailado dos pássaros à noite, a ondular, a mexer em bando, pontos negros, com pontos luminosos. 

- Parece o bailado dos pássaros, à noite! 

- Mas eles não voam de noite, nem fazem bailados no escuro, a não ser que sejam morcegos. Só que os morcegos não têm luz. 

- Que estranho!

- Sim, é verdade. Só espero que não seja uma praga de insetos para dar cabo das nossas plantações e alimentos. 

- Também acho. - dizem todos 

- Longe vá o agouro. 

  Quando olham para as flores onde costumavam ver as luzes dos pirilampos, viram-nas escuras. Muito intrigados, espreitam e não veem nada! Nem rasto dos pirilampos. 

- Onde estão os pirilampos? 

- Desapareceram…! 

- Óh! Não acredito. - Lamentam

- Eram tão bonitos. - comenta outro 

- Pois eram. 

- Para onde terão ido? 

- Acho que para o papo de algum animal ou bando de animais esfomeados. 

- Que horror. 

- É a lei da sobrevivência. 

 Enquanto os habitantes procuravam explicações para o desaparecimento dos pirilampos, a nuvem afastava-se cada vez mais. Ao passarem na grande cidade, ninguém reparou neles. 

   Aqui voaram depressa, e fugiram para o monte da cidade, onde se respirava um ar mais fresco, e aparentemente puro. Descansaram, estavam exaustos. Gostaram desse lugar, ficaram por lá alguns dias, a sua luz tornou-se novamente mais forte. 

    Adoravam voar livres, no escuro, com a aragem fresca do vento, outras vezes quente, conseguiam ver a lua, as estrelas. Pessoas que gostavam de ir a esse monte, viam-nos, fotografavam-nos, e foram espalhando a novidade que havia pirilampos no monte. 

  A partir desse dia, todas as noites, dezenas de pessoas iam vê-los, maravilhados, tentavam apanhá-los para ter em gaiolas como se fossem grilos, mas eles não deixavam, fugiam, apagavam as suas próprias luzes. 

- Já não se está sossegado em lado nenhum! - reclama um pirilampo nervoso 

- Que perseguição! - comenta outro irritado 

- Realmente…! - concordam todos 

- Para que é que nos querem apanhar? Não somos grilos nem borboletas...ora! - lamenta outro pirilampo intrigado

- São um perigo, estes terráqueos. 

- São mesmo! - dizem todos 

- Se calhar iam vender-nos! - comenta outro pirilampo

- Mas era só o que faltava. Nós fomos feitos para andar cá fora. 

- Pois! Mas essas criaturas nem devem saber isso, ou não querem saber. 

- Também é verdade. 

- Daqui a pouco temos de mudar de sítio outra vez! - diz um pirilampo 

- Que horror! 

    De dia ninguém os via, de noite, para terem paz, começaram a sair do monte, e foram visitar o Jardim da Cidade. Gostaram muito desse lugar, não foram vistos, sentiram segurança, e paz, deliciaram-se com as flores, a terra fresca, as gotas da rega, a escuridão. 

   Quem os via no monte à noite, deixou de os ver. De vez em quando revisitavam a aldeia de onde saíram, em forma de nuvem negra que pareciam insetos, ou uma nuvem no espaço com estrelas em movimento. 

  Mas ninguém os via, porque os habitantes achavam que tinham desaparecido, e não procuraram mais. Nas cidades ninguém os via, e nesse jardim, estavam sossegados, não gostavam daquelas luzes. 

  Afinal, a nuvem misteriosa, eram os pirilampos em voo, juntos, à procura de um espaço sossegado. 

                                                         FIM 

                                                  Lara Rocha 

                                                28/Abril/2025 


E vocês, veem pirilampos na vossa cidade? 

O que acham que podiam fazer para chamar pirilampos?  

Acham que eles gostam mais do campo, ou da cidade? 

E vocês? Se fossem pirilampos, por onde andavam? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                                


                                    


sábado, 16 de agosto de 2025

A borboleta de xaile

 


Era uma vez uma borboleta enorme, leve, de asas vermelhas, muito bonita e generosa , que usava uma xaile preto, sempre que saía ou para se agasalhar. Era uma borboleta mágica. 

    Uma noite, ouviu uns gritos e choros no campo de plantações ao lado da flor onde repousava. Ficou atenta, de ouvidos bem abertos, e olhos ainda mais a ver se percebia de onde vinham realmente. 

    Uma outra borboleta disse-lhe que era no campo e que já há uma série de noites, dias, talvez semanas, ouvia esses gritos e choros. A borboleta veste o xaile preto e vai por cima do campo numa noite fantástica de Lua Cheia, luminosa, parecia amanhecer, mas ainda era de noite. 

  Quem chorava e gritava era um boneco de palha, um espantalho, que apanhou um grande susto ao ver uma sombra enorme da borboleta refletida no chão. O boneco de palha solta um grito e estremece a soluçar: 

- Lá vem mais um...!Óh não! - 

- Mais um quê? - pergunta a borboleta - Isso não é maneira de falar comigo! Boa noite! 

- Desculpa! - pede o boneco triste e a olhar para ela envergonhado - Boa noite. Mas como é que eu posso ter uma boa noite, ou um bom dia...-resmunga o boneco. 

- Não sei porque estás a falar assim comigo! Calma, sou do bem! Porque estás tão irritado, e choroso? Nervoso…

- Quem és tu? - pergunta o boneco a choramingar 

- Sou uma borboleta!   

- És muito estranha! Eu sou um boneco de palha pelo que dizem. Não sei, nunca me vi. Só sei que estou farto de estar aqui, farto de levar com raios de pássaros que pousam em mim, comem-me pedaços em tudo quanto é sítio. Sou um boneco de palha, farto de levar com...bem...com o que elas fazem...com...porcaria de pássaros, penas, patas! Estou farto de ser comido por burros, gado, cegonhas, chuva, sol, vento, trovoada. Percebes? Estou farto de  levar com outros insetos irritantes em cima de mim, como se fosse de comer! Depois fazem de mim...cama! Estou farto daqueles pássaros enormes de todo o tipo que me picam com aquelas horríveis garras e bicos de quilómetros (a borboleta ri) Estás a rir porque não és tu que levas com eles. Sacodem-se em cima de mim, que nojo! Deixam-me penas e outras porcarias, outras criaturas irritantes. Alguém me pôs aqui, a achar que ia ser a solução para esses bicharocos estranhos, mas não adiantou nada! Nem quando estão aqui pessoas. Vem para aqui crianças e adultos, dar-me pontapés, murros, puxam-me fios de palha, descem-me o fecho das calças que me vestiram, não sei para quê, põem-se com risinhos, também não sei porquê, nem qual a piada. Só sei que se riem e fazem comentários estranhos. Metem-me coisas nos bolsos, da camisa, e das calças, tiram-me o chapéu, põem nas cabeças deles, usam uma caixa, que nem sei o que é aquilo, nem para que usam, tentam tirar-me as sapatilhas...são um terror! Estou farto. Queria fugir daqui. E tu, o que fazes aqui? 

- Ouvi alguém a gritar e a chorar, vim ver se podia ser útil...ajudar alguém ou algum animal. 

- Óh…não sei o que queres dizer com isso, mas senti uma coisa boa!  Ouviste os meus gritos e choro? (surpreso) 

- Sim! Ouvi. 

- Desculpa, se calhar estavas a dormir, não? - pergunta o boneco 

- Não, não te preocupes! Já viste a Lua que bonita que está? - pergunta a borboleta 

- Lua? Quem é a Lua? - pergunta o boneco

- Esta luz que está no campo! 

- Áh! Nunca tinha visto...quer dizer, já tinha visto mas não sabia o que era! 

- Pois! Estavas sempre centrado em ti, e no que te faziam, que a tristeza e a raiva não te deixavam ver. 

- Se fosses tu, se calhar também ficavas triste, e com raiva, não? 

- Bom...sim...talvez! 

- Mas ela está perto? Parece... 

- Não! Está muito longe, mas parece estar perto porque está muito, muito grande. Está lá em cima, onde estão as estrelas. 

- Áh! É bonita. Conheces? 

- Conheço. As estrelas e a Lua! Em que te posso ajudar? - pergunta a borboleta 

- Não sei se me podes ajudar. 

- Mas...o que mais querias neste momento? - pergunta a borboleta 

- Sair daqui, deixar de estar aqui pendurado a fazer figuras tristes e a servir de diversão para uns, alimento para muitos, saco de porrada para outros tantos, e por aí fora. 

- Claro! Compreendo a tua revolta e o teu desejo. 

- Obrigado, mas acho que não me podes ajudar, não foste tu que me fizeste assim. 

- Posso! - diz a borboleta 

- Como? 

- Posso tirar-te daí e transformar-te num menino, se quiseres, para teres uma casa, com todo o conforto, pais, irmãos, amigos. Gostavas que isso acontecesse? 

- Não sei que nomes são esses que disseste,  mas, senti uma coisa boa...acho que gostava. Sempre será melhor do que estar aqui neste estado. 

- Muito melhor! 

- Mas podes fazer isso? 

- Posso. 

   A borboleta abre o xaile, o boneco fica encantado com as asas dela. 

- Que bonita que tu és! Nunca vi uma borboleta assim. 

   A borboleta sorri: 

- Obrigada, mas eu já estou cá há muito e bem perto. 

- Já sei, a minha tristeza e raiva, não deixaram. 

- Isso mesmo! 

- Preparado? 

- Sim. 

- Agora não fales, por favor. Nem tenhas medo. Confia em mim, está bem? 

- Está bem. 

   A borboleta murmura alguma coisa, roda o xaile em cima do boneco, à volta dele, passa o xaile pelo boneco todo, várias vezes, o boneca fica um pouco assustado e incrédulo, mas com esperança e curiosidade para saber o que vai acontecer. 

  Prometeu que confiava na borboleta e assim  fez. Num toque de magia, o boneco desaparece cheio de estrelas douradas, e aparece em forma de menino de carne e osso.

  Estava vestido com a roupa de boneco de palha, calçado com as sapatilhas. 

- Desejo realizado! - diz a borboleta a sorrir - Que lindo! Vão adorar-te. 

   A borboleta ri, retira um espelho da capa, e o menino vê o seu reflexo. Primeiro, fica muito surpreso, depois sorri.

- Ele está a fazer o mesmo que eu! 

- Sim. 

  A borboleta explica pacientemente. 

- Agora: salta, corre, toca em ti, para veres do que és feito. - diz a borboleta

  O menino sorri, não sabe como fazê-lo, a borboleta saltita, ensina tudo o que ele tem de aprender, ajuda-o, ele vê que tem pernas, pés, braços, mãos, dedos nas mãos, dedos nos pés, cara, olhos claros, boca, dentinhos, mãos, orelhas, sobrancelhas, cabelo. 

  Tudo! Como nós, humanos, mas ainda demora algum tempo a perceber as diferenças e faz muitas perguntas à borboleta que explica tudo pacientemente, exemplifica, para eles fazer o mesmo e aprender. 

- Muito obrigada, borboleta! - diz o boneco, agora menino - acompanha-me, por favor! Se não te importares. Tenho... 

- Tens medo! - diz a borboleta 

- Acho que é isso. 

- Está bem. 

- Isso é bom ou mau? 

- Depende, mas geralmente é bom. Vais aprender isso com os teus pais e irmãos. 

 O menino segue as instruções da borboleta, para andar, correr, saltar, respirar, sorrir, falar, cantar, lidar com as pessoas. O menino explora, feliz, todo o ambiente. Corre, salta, encontra-se com outros animais, vê toda a natureza, brinca com a borboleta, rebola na relva, no chão. 

  Os dois têm longas conversas. Já de manhã, a borboleta leva-o para uma casa de um casal já com filhos da idade do menino, mais novos e mais velhos, muito simpáticos, carinhosos, sensíveis, que falam com ele, para o conhecer, e adoram-no. 

 O casal planeava adotar uma criança mas estava difícil. A borboleta sabia disso, e mandou para lá esse menino, que o apresenta, em forma de uma linda mulher, de xaile preto, roupa vermelha, cabelos muito longos e escuros, olhos escuros, pele morena, o menino está abismado com quem vê: 

- Bom dia, aqui está o vosso menino que tanto desejavam adotar! 

 O casal sorri, emocionado, abraça-se, abraça os filhos, abraça a borboleta em forma de mulher, e abraça o menino. Não cabem neles, de felicidade. O menino também não podia estar mais feliz. 

- Bem vindo, meu amor! Nosso amor. - diz a mãe 

- Não te vai faltar nada, prometemos! - diz o pai

    Os irmãos sorriem, e ele retribui. 

- Não temos palavras para lhe agradecer, Sra...? - diz a mãe 

- Luz. Luz, chega! Não é preciso o Sra. De nada. Tratem-no bem, como tratam os vossos filhos, e o que precisarem de mim, estou por aqui, vou passando por aqui. Até já. 

  A borboleta abraça todos, os irmãos e os pais, levam-no para dentro de casa, onde mostram a casa toda, dão-lhe o nome Hugo, ele sorri muito, dão-lhe de comer e beber, preparam uma cama para ele, confortável, com uma almofada, coisas que nunca tinha experimentado, mas estava nas nuvens. 

 Os irmãos emprestaram-lhe brinquedos, deram-lhe roupas, era um menino educado, calmo, sorridente, que ajudava nas tarefas, brincava com os irmãos, muito carinhoso com todos, ouve histórias que os irmãos contam, até vai para a escola como os irmãos. 

  Todos os adoram, acolhem-no, ajudam-no, ensinam-lhe coisas novas e a brincar, muito atento, esperto, educado, simpático, um menino muito querido. A borboleta está sempre vigilante, atenta, todos os dias, umas vezes como mulher, outras vezes como borboleta de xaile preto. 

 Os dois conversam alegremente, todos os dias, quando o menino está sozinho, e ele diz à borboleta como está feliz. Uns dias depois, o menino apresenta a borboleta aos irmãos, e aos pais, que ficam maravilhados com ela. 

 Esta, de vez em quando deixa-lhes uns pequenos presentes, mimos, por tratarem tão bem do seu amigo, com as magias do seu xaile preto. 

Que prendas acham que a borboleta de asas vermelhas e xaile preto, deixava? 

Já viram uma borboleta vermelha de xaile preto? 

E se vocês fossem o boneco de palha? Pediam o mesmo que ele? 

Realizavam o desejo do menino se fossem a borboleta? Como? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                                                              FIM 

                                                      Lara Rocha 

                                                    16/Agosto/2025 


segunda-feira, 14 de julho de 2025

As filhas do vento


       Era uma vez uma pequena aldeia rodeada de árvores. Em alguns sítios entrava o sol, noutros, as árvores eram tão frondosas que o sol quase não entrava. Mas para os habitantes da aldeia de casinhas baixinhas pareciam de bonecas, isso não era preocupação porque onde o sol entrava, aquecia tudo e muito. 

    Precisavam da sombra e refugiavam-se debaixo das árvores. De há uns tempos para cá, alguma coisa estranha andava por ali. Já todos tinham visto o que parecia uma sombra, transparente, para uns. 

    Outros, viram o que parecia uma mulher transparente ou de vestido branco luminoso, que talvez tocasse um instrumento, porque ouviam uma música. Alguns habitantes diziam ter visto fumo a ondular. 

    Na verdade não sabiam o que era, pois mudava de forma muitas vezes. Todos viam, e todos sentiam medo, apesar da curiosidade. Seria uma habitante, ou um habitante novo? De dia não viam, poderia ser uma animal noturno, só era visto de noite, e como não conheciam, o medo não os deixava aproximar desse ser de muitas formas que tanto os intrigava. 

    Uma noite, um grupo de crianças que brincava à porta de casa, num larguinho, viu o que parecia ser um fumo cinzento, a ondular, parecia estar a dançar. Ouviam música, começam aos gritos, e o fumo desata a fugir, tal como elas. 

    Que grande susto! Os pais perguntaram o que tinha acontecido, e elas contaram. Os pais riram, pensaram que era da sua imaginação. Mas para surpresa deles, o fumo ondulante que tinha fugido, voltou. 

    Os pais viram. E um pouco assustados, perguntam: 

- Fumo...por aqui? De onde vem? 

    O fumo rodopia várias vezes, e aparece em forma de mulher transparente a tocar como já a tinham visto. Os pais ficam assustados, mas ao mesmo tempo encantados. 

    Os vizinhos que estão à janela por terem ouvido os gritos das crianças também estão incrédulos. À beira da mulher, aparece outra sombra branca, do mesmo tamanho, outra mulher, com um violino. 

    Era a música que eles ouviam. Todos ficam de boca aberta, e as mulheres sombras brancas riem. 

- Quem são vocês? - pergunta uma senhora, assustada 

- Não precisam de ficar com esse medo todo! - diz uma mulher sombra 

- Somos do bem! - diz a outra 

- Nunca vos vimos por aqui, só recentemente! - explica um senhor 

    Estava uma brisa nessa noite, e depois formou-se um vento forte, que põe as sombras a ondular, a dançar, a tocar música, só perceberam passado algum tempo, que eram os diferentes sons do vento, quando este passava entre as folhas, na erva alta, nas espigas dos campos. 

- Somos feitas pelo vento! - diz uma sombra 

- E de fumo, ou neblina, conforme o seu estado de espírito, se está bem disposto, mal disposto. 

- Ele gosta de variar e brincar! É por isso que já nos devem ter visto também com outras formas…! - acrescenta outra senhora 

- Quem é o vento? Um vizinho novo? - pergunta uma senhora 

- Não, minha senhora! O vento, que a senhora e todos vocês sentem, todos os dias. Umas vezes, uma brisa, outras vezes mais ou menos forte, até quase ao ciclone! - explica uma sombra 

- Áh! Sim, é verdade. Mas ele tem filhos ou filhas? Não sabíamos. Mas o vento não se vê. Só se sente, e vocês as duas veem-se! - responde a senhora 

- Pois! Também não sabemos porque é que ele faz isso! - diz outra sombra

- Respeitamos o trabalho e as brincadeiras, as alterações de humor dele. - diz a outra sombra 

- E gostamos do que ele faz connosco. - acrescenta a outra sombra 

- Claro! - respondem todos 

- Sim, é verdade. - dizem todos os habitantes 

- Umas pessoas dizem que vocês são fumo ondulante, que dança e toca. 

- Outras pessoas dizem ver uma mulher de luz transparente. 

- Sim, é isso mesmo. 

- Outras vezes somos da cor das nuvens em dias de chuva, para nos protegermos. 

- O nosso Pai é um grande artista! Adora mudar-nos a forma e brincar connosco! - diz uma sombra 

- Nós já tínhamos visto, mas não sabíamos quem eram, de que espécie eram. 

- Querem sentir o nosso abraço? - pergunta uma sombra 

- Sim! - dizem todos 

- Aproximem-se. 

    Os habitantes aproximam-se um pouco a medo, e quando as sombras as abraçam, elas sentem as variações do vento: desde uma brisa, vento moderado, fraco, ligeiro, até um vento cortante, gelado, quando elas se afastam e começam a dançar para os habitantes levemente, de forma alegre, e a outra sombra toca. 

    Todos os habitantes perdem o medo, deixam-se contagiar pela leveza e música delas, com várias cores, brilhos e luzinhas. Tão bonitas, tão leves, parecem artistas de rua, acrobatas, divertidas, brincalhonas, giram sobre elas próprias, cruzam-se, entrelaçam-se, uma na outra, e o público acompanha com um olhar maravilhado, surpreso, e encantado.   

    Deliciavam-se a ouvir os diferentes sons do vento que elas transmitem. Todos sentem as aragens, e os sopros fortes, dançam com elas, e uns com os outros, e aplaudem. Elas sorriem, agradecem e depois desse encontro, gostaram tanto que prometeram encontrar-se mais vezes. 

    E vocês: se pudessem ver o vento, teria forma? Qual? Cheiro? Qual? Sabor? Qual? Cor? Ou cores? Qual ou quais? Tocaria algum instrumento musical? Qual ou quais? Gostavam de ver o vento? 

    Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                                                                    Fim 

                                                                Lara Rocha 

                                                               14/Julho/2025 

domingo, 13 de julho de 2025

A casa dos patinhos

  

foto de Lara Rocha, tirada num jardim (2025) 


  Era uma vez uma família de patinhos que viviam num pequeno ribeiro, calmo, da casa numa quinta, que ia aumentando mais adiante e encontrava-se com um rio maior, para outro enorme. 

  Geralmente estava bom tempo, mas de repente, acontece uma grande mudança, como já não se lembravam de sentir. Um dia com um calor muito estranho. 

   Uma atmosfera que causava aflição e medo, estava tão pesada que até os habitantes se queixavam e andavam mais lentos. Os patinhos quase não se mexiam, pareciam sonolentos, os pássaros murchos nos ninhos, como se fosse noite, ou Inverno. 

   Os animais das cortes, pareciam pressentir alguma mudança porque mostravam-se inquietos, agitados, entravam e saiam dos estábulos a correr desvairados, sem destino, voltavam a entrar com falta de ar. 

    Os donos da casa sentiam-se muito cansados e preocupados com aquela mudança do comportamento dos animais, aquela atmosfera horrível, um calor sufocante, sem sol. 

   O céu fica cada vez mais pesado, escuro e a juntar à preocupação dos donos, os cães desatam a uivar e a ladrar. Eles tinham razão, porque de repente, surgem no céu rajadas de clarões e trovões estrondosos, que abanavam o chão. 

  Os donos ficaram dentro de casa, com medo e a rezar para que aquilo passasse rápido, e para não ser nada de mau. Mas estavam enganados. 

  Infelizmente, começa uma chuva torrencial, tão forte como nunca antes tinham visto. Nem queriam acreditar que fosse verdade, só existia noutros países, mas era mesmo verdade, naquele lugar, onde nem sequer imaginavam. 

   Os pássaros e outros animais conseguiram proteger-se nos troncos, nos estábulos, mas os patos não tiveram tempo. Quase como se estivessem a dormir, deixaram-se ir pela corrente, que se tornava cada vez mais cheia, mais suja, mais forte, e fazia muito barulho. 

   Os pobres patos não sabiam o que estava a acontecer, nem onde iam parar, mas algum sítio haveriam de encontrar. Tentavam voar, mas era impossível.

 Tentaram sair da água mas esta era mais forte do que eles. Grasnavam forte, agarraram-se uns aos outros com muito medo, rodopiaram várias vezes na água, algum lixo bateu contra eles. 

- Tanta água! - grita um patinho 

- Onde vamos parar? - pergunta outro 

- Não sabemos. Vamos ver. Estamos juntos, não nos larguem. - diz a mãe pata 

  Os pais sentiam tanto medo, como os pequenos, mas tentaram disfarçar; sempre a segurar nos pequenos. A enxurrada continuava, mas felizmente os patos conseguiram saltar numa zona mais larga, onde também havia água que assustava. 

    Esse rio era mais largo, tinha margens,  e os patos conseguiram voar para lá. 

- E agora? - pergunta a pata mãe

- Não conheço este sítio! - diz o pai pato 

- Nem eu. - diz a mãe pata 

- Vamos ver! - sugere o pai 

    Ao longo da margem, em pedra, a chover torrencialmente mas já em segurança, protegidos pelas árvores que abanavam quase até ao chão, para o lado da rua, e voltavam a levantar-se, os patos correm com medo. 

  Caminharam uns metros, e viram uma praia. O mar metia medo, chegava quase à estrada, com ondas que fustigavam tudo e enormes. Os trovões iluminavam tudo, e estouravam ruidosamente por todo o lado. 

- Viemos ter onde…? - pergunta um patinho 

- À praia! - responde uma gaivota que eles não tinham visto. 

- Como é que andam por aqui com esta tempestade? - pergunta outra gaivota 

- Não sabemos! - respondem os patos 

- Nem sabemos o que está a acontecer, nunca vimos tanta água, mas viemos com a força dela. - explica a mãe pata 

- Era muita água suja, e arrastou-nos. - acrescenta o pai pato 

- Nós viemos de uma quinta, com outros animais. 

- Áááhhh…! - dizem as gaivotas 

- Que pena! - lamenta uma 

- Vieram com o enxurro? - dizem várias gaivotas 

- Sim. 

- Abriguem-se aqui! - sugere uma gaivota 

- Entrem, fiquem à vontade. - diz outra 

- Este barco está abandonado, quer dizer, nós fizemos dele a nossa casa, quando está mais frio, ou chove, vamos para a parte de baixo, que é coberta. Tem várias casotinhas. Fiquem aí numa delas. 

- Obrigado! - dizem todos 

  Entram no barco abandonado, com o que restava dele, realmente podiam aproveitar para viver vários animais. Conversam com as gaivotas, elas tentam arranjar alimento para todos e conseguem, com dificuldade, por causa do vento. 

  No dia seguinte, ouvem toda a gente na praia a falar de muitos estragos. Os patos ficam preocupados. Estão muito agradecidos às gaivotas, mas voam no sentido inverso para ver se encontram novamente a quinta onde viviam. 

  Nem querem acreditar no que estão a ver...tanta coisa estragada, tanta árvore caída, casas com coisas partidas, telhas no chão, vidros, portas quase arrancadas, lixo por todo o lado. Os campos não se viam, estavam alagados de água. 

   Ouviram e viram pessoas aos gritos a ver a destruição, aterrorizadas, e a chorar por terem ficado com estragos nas casas, nos telhados, nos campos, nos carros. 

  Encontraram a quinta onde viveram, não viam o seu lago, estava cheio de água, coberto de pedras e paus, lama, os campos completamente inundados com água, os donos em prantos, a tirar água aos baldes, de dentro de casa, das cortes, um filme de terror, também eles tinham estragos no telhado e nos vidros. 

  Os patos sentiram muita pena deles, ficaram desolados, com as lágrimas nos olhos. Não aguentaram, nem podiam fazer nada, voltaram para o barco da praia. Contaram às gaivotas a desgraça que viram. 

    As gaivotas ficaram tristes, e convidaram-nos a dar uma caminhada pela praia, apanhar sol, para acalmar, enquanto elas iam pescar. Foi o que fizeram, patas na areia molhada, o mar muito mais calmo, tanto andaram na areia como no mar, e deliciaram-se com comida. 

    Mesmo gostando tanto do primeiro sítio onde viveram, e dos donos, decidiram ficar a viver no barco que consideravam confortável, aconchegante. 

    Uma casa perecida com a deles, com as vizinhas gaivotas, com quem se davam muito bem, e eram ótimas pescadoras. Conversavam, brincavam, riam, passeavam, pescavam e abrigavam-se. 

    Nos dias seguintes, voaram várias vezes, com as gaivotas, por cima da casa antiga, que tinha desaparecido, viam os donos a tentar recompor-se. 

  Tanto os patos, como as gaivotas, sentiam-se tristes, e queriam ajudar, mas eram corridas de muitas casas, com a revolta dos moradores que também pensavam que estas iam roubar alimentos. 

    Claro que a culpa não era delas, mas elas compreendiam que fosse a tristeza e a revolta. Deixaram-se estar na praia, no barco, naquele novo espaço, que tornaram mais confortável e aconchegante, com a ajuda das gaivotas que fizeram ninhos quentes, para os patos. 

   Como se sentiram bem nesse barco, não voltaram para a quinta. Viam o nascer do sol, contemplavam o maravilhoso pôr-do-sol, aplaudiam, sorriam, outras vezes, iam com as gaivotas vê-los do mar. Ainda mais bonito. 

   As tempestades começaram a ser mais frequentes, o mar onde estava o barco, mas outro lugar seguro que encontraram, foi a casa também abandonada de um antigo pescador. Estava vazia, as gaivotas e os patos resguardavam-se lá. 

    Num dos dias que foram revisitar a quinta, repararam que ainda havia muita coisa estragada, e a sua casa, do pequeno rio, não tinha sido reconstruída. 

    A sua tristeza era enorme. Não percebiam porque é que estava a haver tantas tempestades tão violentas, mas ouviam toda a gente a falar nelas, e a dizer que era a poluição, as alterações climáticas, o aquecimento global. 

    Mesmo que não soubessem o que era isso, percebiam que não era bom. E era perigoso para todos. 

E vocês, porque é que acham que há cada vez mais tempestades, com muitos estragos? 

Se as gaivotas e os patos vos perguntassem, o que lhes respondiam? 

Se fossem os patos, onde preferiam morar: no barco abandonado, ou na casinha do pescador? 

Porquê? Podem deixar nos comentários, se quiserem.

                                                            Fim 

                                                      Lara Rocha 

                                                    12/Julho/2025 

 

                                        

                                                

 

A viagem de uma pena

  

   Era uma vez uma pena que se soltou de um pavão, muito bonita, comprida, brilhante, pousada na relva a apreciar a paisagem. 

     O que lhe chamou mais a atenção foi uma criança sorridente, do outro lado da margem a lançar um barquinho feito de esponja, colorido, leve. 

      Nunca tinha visto um barquinho daquele estilo. O menino lançou o barquinho, a cantarolar, baixinho, e disse: 

- Boa viagem, barquinho! Xau. 

      O barquinho começa a andar lentamente, porque o rio tinha pouca água, ao sabor desta, o menino acompanha os movimentos, parece estar a imaginar onde irá parar, levanta-se, e acompanha pela margem, olhando também para a paisagem à sua volta. 

      A pena entra na água mas está tão fria, que sai para se aquecer e apanhar sol, mas fica tão curiosa com o barquinho que vai pela relva a acompanhar a viagem do barquinho e o menino, maravilhada. 

      A sua imaginação começa a trabalhar, sobre para onde irá aquele barquinho, o que encontrará na água e fora dela. Será que alguém vai entrar no barquinho? Talvez um peixinho, um sapinho, uma rãzinha, uma borboleta, uma pedra, uma gota de água? Uma folha de uma árvore? Uma abelha? Ou será que já leva alguém lá dentro? Hummm...não, não vejo ninguém. Será que vai um passarinho a viajar no barquinho? Ou...uma pena, como eu? Será que vai o menino? Não...o menino não sabe lá! Ou, será que é uma armadilha para caçar algum animal? O menino tem ar de bonzinho, acho que não fazia isso. Talvez o barquinho encontre pedras grandes, como é que ele vai sair de lá? Pode ser difícil. 

       Vê o menino entrar na água, porque tal como a pena do pavão imaginava, o barquinho encontrou pedras altas e nem a água conseguia empurrá-lo. O menino pega no barquinho, e põe-no na parte mais lisa. Sai da água, e continua a ver para onde vai. A pena aparece e comenta consigo: 

- E se aparece um patinho, será que vai abocanhá-lo? 

        Aparece mesmo um patinho, o menino grita-lhe, quando se preparava para abocanhar o barquinho. 

- Nem penses! Isso não é para comeres! 

        O patinho não lhe mexe, mas segue atrás dele. Mais à frente, o barquinho fica a rodopiar num buraco com água entre rochas e não consegue sair. O patinho vai lá e empurra-o com o bico. 

- Obrigado, pato! - diz o menino 

- Pensei que ias gritar outra vez comigo. Eu já sabia que isto ia acontecer. - diz o pato 

- Desculpa! Obrigado. 

        O barquinho segue viagem, o pato atrás, a pena numa margem, e o menino na outra. A pena imagina: 

- E se aparece um rato que o quer comer? 

        Aparece mesmo um rato, que tenta morder o barquinho, mas o menino e o pato gritam: 

- Nem te atrevas! 

        O rato recua e encosta-se assustado à parede, logo a seguir esconde-se num buraco. Mais à frente, o barquinho passa por uma zona cheia de pedrinhas, e trepida demais. O patinho pega nele, o menino grita com o pato: 

- Larga isso! 

        Mas quando vê que o patinho tirou o barquinho de tantas pedras, sorriu: 

- Áh! Desculpa, patinho. Obrigado. 

        O barquinho segue, e todos o acompanham, até que para nas grades onde acaba o lago. O menino aprecia a paisagem, vê a pena de pavão na relva, molha os pés, vai buscá-la e põe-na no barquinho, para voltar para o mesmo sítio. A pena sente um bocadinho de medo, mas está toda refastelada. 

- Mas que barquinho tão agradável, tão macio...parece uma nuvem, ou uma espuma! Áh! Que gira paisagem, daqui! Senta-se, aprecia a paisagem, deita-se e vê o céu, a cor do céu, os pássaros, ouve o som da água, vê as árvores e os seus troncos com formas diferentes, as folhas verdes, de vários tamanhos, e tons, a abanar com o vento, como se fossem mãos a acenar. 

        Ela sorri e abana-se também, diz olá, vê a água, a sua cor, as pedrinhas, dezenas de peixes de vários tamanhos e cores, à volta do barco e dos lados. Ela ri, e fica com vontade de lhes tocar, como faz o menino que a acompanha, com os pezinhos na água. 

        Molha as mãos, e desata às gargalhadas quando toca nos peixes, porque são escorregadios, e nadam rápido. Alguns param aos seus pés e aceitam mimos, outros fogem. A pena também os vê nas rochas onde o barquinho ficou preso, para não rodopiar, o menino tira-o e põe-no na água. Faz o mesmo quando passa no monte de pedrinhas. 

        A pena vê flores bravas, e relva verde, esquilos a correr, coelhos bravos, cães a passear com os seus donos, pais a passear bebés, pessoas a andar de bicicleta, a pé, a jogar à bola. O menino também viu, enquanto deu o resto do passeio, relaxado, e no final, ele tira a pena do barquinho, atira-a a rir-se, para a relva, e tira o barquinho da água. 

        A pena fica triste e zangada, pela indelicadeza do rapaz. Vai embora e a pena ficou na dúvida se imaginou essa viagem, ou se a fez mesmo, porque já não viu o menino, nem o barquinho. 

- Será que sonhei, imaginei ou dei mesmo este passeio tão bom naquele barquinho? Porque é que ele tinha de estragar o passeio, ao tirar-me do barquinho e deixar-me aqui na margem? Depois de um passeio tão bom, ou...um sonho, imaginação, não sei...ele não devia ter feito isso! Põe-me no barquinho, e no fim atira-me assim para a relva, leva o barquinho, e eu fico aqui? Óh! Não gostei. Só gostei enquanto andei no barquinho. E o pato, onde está? Se calhar ficou lá atrás. Ele até foi simpático, cuidou do barquinho, livrou-o de alguns perigos. 

        A pena levanta-se, e recolhe-se bum buraquinho de um tronco, porque estava frio. Um passarinho pega na pena com o bico, e leva-a para o seu ninho, para cobrir os seus filhotes. 

        A pena fica assustada, mas quando percebe que é para aquecer passarinhos pequeninos, sente-se orgulhosa e deixa-se ser levada. 

Será que foi um sonho, imaginação ou realidade? 

Se vocês imaginassem um passeio num barquinho como estes, como seria? 

O que veriam? 

E se fossem a pena de pavão, como imaginariam o passeio do barquinho? 

E o que é que o barquinho encontraria? Um rio calmo, ou um rio cheio de obstáculos? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                                              

                                 FIM 

                             Lara Rocha 

                                                                                                               12/Julho/2025 

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Os cubos doces


 

    Era uma vez uma casinha de campo, onde vivia um casal com filhos, e os netos, porque os pais tinham ficado no desemprego. Havia cada vez menos flores, por causa da poluição, e dos terrenos secos, pelo calor, e falta de chuva. 

  Isto era perigoso, e estava a tornar-se um problema, porque as abelhas precisavam de pólen, mas estava a tornar-se escasso. 

    Até as abelhas estavam a ficar desesperadas, com as flores secas. Um dia aproximaram-se da janelinha da casa, espreitaram, viram que havia um pacote em cima da mesa, com alguma coisa que os habitantes punham numa chávena. 

  Quando a família saiu, deixou uma frincha na janela, aberta. Entraram, cheirou-lhes a doce, puseram uma patinha, provaram, e era mesmo doce. Eram cubinhos de açúcar. Sem pensar duas vezes, chamaram umas pelas outras, e cada uma levou um cubinho para uma árvore. 

  Não sabiam que era açúcar, mas queriam era comer. A família regressou e reparou que o pacote estava quase vazio. 

   Muito assustados, procuraram pela casa, vestígios. Não descobriram nada, entretanto, na árvore, a Abelha Rainha ficou completamente possuída, ao saber que as abelhas tinham invadido uma casa, e roubado cubos de açúcar. 

  Chamou todas, olha-as nos olhos, com um ar ameaçador, e intimidatório, que elas congelaram. Sentiu vontade de gritar, e ralhar, respirou fundo e perguntou, desiludida: 

- O que é que vocês fizeram?

- Fomos… fomos… - dizem todas com medo 

- Foram onde? - pergunta a Rainha a tentar responder de forma calma 

- Fomos…

- Onde? - grita, zangada 

- Ahhh...

- Fomos à procura de comida. 

- À procura de comida...roubada? - explode a Rainha e grita: Roubaram cubos de açúcar...numa casa! (Põe a pata na testa, respira fundo) Verdade? 

- Sim…- dizem todas encolhidas e com medo 

- Não posso acreditar! Como puderam fazer uma coisa dessas? Como se atreveram? Quem é que vos ensinou a fazer isso? - grita a Rainha 

   As abelhitas, ficam muito envergonhadas e tristes, a olhar para o chão. 

- Pensaram no que fizeram? - pergunta a Rainha - que vergonha! 

- Desculpe Rainha, é que estávamos cheias de fome. - diz uma 

- Cheias de fome...francamente! - Resmunga a Rainha 

- É que há poucas flores, infelizmente, está tudo muito seco, temos de arranjar em algum sítio. - explica outra 

- Mas precisavam de roubaaaaaaaarrrr? - grita a Rainha com raiva e de olhos muito abertos

- Aquilo é docinho. - diz outra 

- Mas não é para vocês. - ralha a Rainha 

- Não faltam flores nos arredores, basta dar corda às patas e às asas, e procurar. Eu vi uma série delas. Vão imediatamente devolver os cubos de açúcar à família e pedir desculpa. - ordena a Rainha 

- Mas...

- Mas o quê? Não há mas, nem meio mas. Rápido, e eu estou de olho. 

- E se eles nos fazem mal? 

- Problema vosso. Ninguém vos mandou mexer no que não é vosso. Vão…! Eu estou a ver. 

      As abelhitas, tristes, pegam nos cubos de açúcar que sobraram, e pousam na janela da casa. Quando a família as vê, abre a janela, e repara que têm os cubos de açúcar na mão. A abelha Rainha vai atrás. 

- Encontraram os cubos de açúcar? - pergunta a dona da casa 

     A abelha Rainha vigia, e acena com a cabeça. 

- Nós...roubamos! - diz uma envergonhada 

- Roubaram? Como assim? - pergunta a senhora 

  A abelha Rainha acena com a cabeça, e dá a entender que também não percebe 

- Viemos devolver. - diz outra 

- E pedimos desculpa. - dizem todas 

- É que aqui quase não há flores e estão secas. 

- Pois! Não admira, da maneira que está o clima. 

- Estávamos cheias de fome. Isto era docinho, comemos algumas, mas viemos devolver as outras. 

- Realmente já tínhamos reparado que faltavam cubos, mas nunca pensamos que tivessem sido vocês. - diz o Senhor 

- Pois, têm razão! - dizem todas 

- Não voltamos a fazer isso. - diz outra 

- Podemos entrar para os colocar outra vez no saco? - pergunta uma abelha 

- Claro que sim. - diz a senhora 

- Obrigada! - dizem todas 

       Os donos da casa sentem pena delas, e põe um potinho de mel à disposição na janela.

- Isto é para vocês! Feito por vocês, ou por abelhas como vocês. Compreendemos que sentem fome! Por isso, como devolveram os cubos de açúcar, podem comer à vontade, fica aqui na janela, do lado de fora, e uma tacinha com água. Temos aqui mais. 

- Não nos vão atacar, pois não? 

- Não, claro que não! - garantem as abelhas 

- Estamos envergonhadas por termos roubado estes cubos de açúcar. 

- Está tudo bem, deixem isso para lá! Devolveram, obrigada, agora têm a recompensa: este potinho à disposição, com água, e quando este acabar, há mais. - diz a senhora 

- Muito obrigada! - dizem todas as abelhas 

- Em breve haverão mais flores, para se deliciarem com o pólen delas, e a nós, com o vosso trabalho, este mel, delicioso! 

- Que bom! - gritam todas as abelhas felizes, e tocam as asinhas umas nas outras 

- Sirvam-se à vontade! Com licença...vamos jantar - diz a senhora 

- Bom jantar, e muito obrigada. - dizem todas 

- Mais uma vez, pedimos desculpa 

- Estão desculpadas. 

  Apesar de zangada, a Abelha Rainha está orgulhosa, e as abelhitas deliciam-se com o mel, e a água, enquanto a família da casa janta. Recolhem, a Abelha Rainha diz sentir-se orgulhosa delas, para não se voltar a repetir, e ficou feliz com o prémio por terem devolvido os cubos de açúcar. 

    Todos os dias vão cumprimentar, alimentar-se, e conversar com a família, de repente, formam-se violentas tempestades, com trovoada, chuva, vento, vários dias e noites seguidas. Isso abre as sementes das flores que a senhora falou, às dezenas de todas as espécies, e cores. 

    Na altura de recolher o pólen, as abelhas estavam maravilhadas com as flores, e a qualidade do pólen, até ofereciam à família, que adorava comer pólen. Agradeciam às abelhas, e estas à família. A janela passou a ser a segunda casa das abelhas, e o local de trabalho. 

 Ganharam amigos humanos, com quem conversavam e partilhavam pólen, mel, água, dedicação, carinho, até aconchego em dias frios, ou quando queriam descansar, como recompensa. Também levavam à Abelha Rainha que parecia estar a comer um banquete de príncipes, sorria orgulhosa e deliciada, tal como a restante família das abelhitas. 

    Nunca mais passaram fome.

E vocês, acham que a Abelha Rainha teve razão? 

E as abelhitas, fizeram bem ter pedido desculpa e devolver os cubos de açúcar? 

Vocês faziam o mesmo que a senhora da casa? Sim, não, porquê? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                                                                            Fim 

                                                                       Lara Rocha   

                                                                     11/Julho/2025