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sábado, 15 de fevereiro de 2025

À procura da neve











desenhado e pintado por Lara Rocha - A montanha Alpina 

    Era uma vez uma montanha Alpina com muita neve o ano todo, e lagos gelados, com partes congeladas, outras onde havia água e alimento. 

    Lá viviam muitos ursos e lobos. Além da neve numa parte da montanha, na outra metade era verde, com cabras que pastavam penduradas em rochas, e gado nos campos. 

    Ficava muito perto da povoação, com habitantes que não se atreviam a subir à casa dos ursos, como lhes chamavam. A neve chegava para todos e água de riachos com fartura, peixes que deliciavam os ursos de várias espécies, e o sol também marcava a sua presença mas não derretia a neve. 

    Quando isso acontecia, os habitantes da povoação deliciavam-se com a paisagem porque tudo brilhava, nos campos e à volta das casas, com as gotinhas de água nas flores e na relva, mas o mais especial era mesmo ver as montanhas pintadas de branco. 

    Os ursos e animais do gelo, que partilhavam o mesmo espaço sentiam-se felizes, e em paz, conviviam bem uns com os outros. 

    Riam, brincavam, mergulhavam, caçavam, repartiam os alimentos, e deleitavam-se com tanta neve, onde se deitavam, e dormiam em tocas, ou grutas com neve por cima. 

    De repente, aconteceu uma coisa muito estranha e quase terrível, com que ninguém contava: os incêndios nos montes, nas cidades mais próximas. 

    Os lobos e os cães das casas começaram a uivar como se não houvesse amanhã, um uivo de pânico terror, angústia, na noite em que começaram os incêndios. 

    Era um uivo arrepiante, as pessoas ficaram preocupadas, mas parecia tudo calmo. Os lobos e os cães pareciam pressentir ou anunciar alguma coisa. 

    Quase não conseguiram dormir com os uivos e o ladrar, e de manhã, perceberam o porquê dessa sinfonia! Uma poluição atmosférica que causava aflição, porque deixava o céu escuro, o sol vermelho, e onde ardia igualmente vermelho. 

    Que visão infernal. Os habitantes da povoação sabiam o que era, estavam inquietos, preocupados, com medo, porque o vento podia levar as chamas para a sua zona. 

    Sentiam dificuldade em respirar, tossiam, e tiveram de recolher o gado para não ficarem expostos ao fumo. A temperatura do ar subiu horrivelmente, um calor a que ninguém estava habituado. 

    Apanharam o máximo de alimento e água, não sabiam quanto tempo ia durar. Nessa manhã, os ursos viram que alguma mudança estava a acontecer, sentiram a agitação, um calor que se podia, e nunca tinham enfrentado, viram o fumo preto e o céu vermelho. 

    Ficaram nervosos e com medo, mesmo assim, tentaram disfarçar e fazer o seu dia normal. Pensaram que o que quer que fosse não chegava lá. 

    Os incêndios eram cada vez mais, de maiores dimensões, a poluição piorava, o ar era irrespirável, a neve começou a derreter, e estavam com dificuldade em aguentar aquela temperatura, aquele ar. 

    O gado não saía, as pessoas também quase não porque não aguentavam. Estavam todos muito preocupados. Como a neve estava a derreter, os ursos, cheios de pena e muito furiosos, tiveram de deixar aquele local, e deslocar-se sem rumo, tristes, a chorar, para onde houvesse mais neve, e mais fresco. 

    Andaram vários quilómetros, e encontraram! Que alívio! Fizeram uma festa, tinham neve com fartura, o ar gelado limpou-lhes a poluição, e sorriam, inspiraram e expiraram, rebolaram na neve, mergulharam, caçaram e guardaram alimento nas tocas provisórias. 

    Pelo menos esse era o desejo deles: que em breve pudessem voltar àquele sítio onde viviam. Estavam muito sossegados, poucos dias depois, os incêndios e a poluição continuavam, as temperaturas muito altas também, e chegou ao lugar onde eles estavam. 

    Aterrorizados, perceberam que a neve também tinha desaparecido, e os glaciares estavam a estalar, largando pedaços de gelo, a partir e a derreter aos bocados. 

    Choraram, e furiosos voltam ao sítio onde viviam antes, na esperança de encontrar neve. Quando chegaram, nem queriam acreditar...os incêndios tinham chegado lá, queimaram pastagens, os verdes estavam agora negros e tinham virado cinzas, pó. 

    O gado estava recolhido, a terra ainda fumegava, e a população chorava. Não havia sombra de neve, só calor e cinza. 

    Os ursos ficaram completamente fora de si, gritaram furiosos, mergulharam na água que também tinha diminuído. Felizmente ainda dava para se refrescarem e caçarem para comer. 

    Mas eles queriam neve. Na água, acalmaram e partilharam a preocupação, baixinho, desviados dos ursinhos pequenos para não os assustar. 

- O que está a acontecer? - pergunta um urso

- Não sei! Mas alguma coisa grave, foi. Isto nunca esteve assim. - responde outro 

- Pois não. - concordam todos 

- A população também está assustada e nervosa...Aquele céu metia medo, e este calor, não é normal! - comenta outro urso 

- Não, mesmo! - concordam todos 

- A neve que encontramos mais à frente e o fresco também desapareceram num instante…

- Pois! Até lá estava calor. 

- E agora, aqui...assim! 

- Por este andar não sei onde teremos neve. 

- Teremos de procurar! 

- Ela há-de voltar...espero eu. 

- Também eu! - concordam todos 

- Até esta água está quente…- repara outro 

- Pois está. 

- Que horror. 

- Nestas alturas, gostava de me transformar em humano para lhes perguntar o que está a acontecer. 

- Eu também! - dizem todos

    Passados uns dias, chove torrencialmente, e ajudou a apagar os incêndios, limpou  a poluição, e as terras, o ar ficou bem mais fresco, mas não houve neve. 

    Os ursos voltaram ao sítio para onde fugiram...estava tudo na mesma. 

- Que tristeza! - lamentam e murmuram todos 

    Regressam a casa: 

- Está bem melhor! - diz um urso 

- Realmente! Oxalá traga neve! 

- Vamos fazer uma corrente, dar as mãos e pedir neve? - sugere um urso 

- Boa! - concordam todos 

    Ninguém sabia se ia funcionar, mas tentaram. Os seus antepassados diziam para fazerem isso, e pedirem o que precisassem, ou em momentos de aflição. 

    Chamaram pelos pequenitos, e todos deram as patas. Os adultos explicaram às crias o que iam fazer. Elas compreenderam, e todos pediram em silêncio, num grande círculo, à volta do lago, que a neve regressasse. 

    A chuva torrencial, o vento e o frio continuavam muito intensos depois de pedirem juntos, recolhem às suas tocas. O seu pedido foi ouvido e realizado. Nessa noite nevou, uma boa camada. 

    De manhã acordaram e ficaram muito surpresos, 

- A neve voltou! - grita o urso que sugeriu fazerem a corrente, sorridente

    Batem palmas, riem, soltam exclamações de felicidade, abraçam-se, atiram-se para a neve, ás gargalhadas, rebolam, mergulham na água gelada, congelada de um lado, caçaram, comeram, brincaram uns com os outros, saltitaram. 

    E agradeceram, não sabiam a quem, mas sabiam que existia alguém Superior, que os ajudava sempre que precisavam ou quando pedissem. 

    A neve continuou a cair durante o dia, e a amontoar, o gelo do lago aumentou, do outro lado, a água continuava a correr para se alimentarem. 

    Passou uma alcateia de lobos e um urso perguntou: 

- Óh...lobos, desculpem...podem-nos dizer o que aconteceu há dias? A neve derreteu… 

    Um lobo respondeu: 

- Claro. Houve muitos incêndios, muita poluição, muito calor, muito fumo, temperaturas nunca antes sentidas, de abafar, foi isso que fez derreter a neve, aqui - explica um lobo 

- Aquele sol vermelho e céu cinzento que de certeza também viram. - Acrescenta outro lobo 

- Sim! - respondem os ursos 

- Nós tivemos de ir para outro sítio, a uns quilómetros daqui, à procura da neve, encontramos, mas essa coisa terrível também chegou lá, derreteu a neve, o gelo estava a estalar por todo o lado, e a partir, um calor que não se podia. Voltamos para aqui. A visão não foi a melhor, mas felizmente choveu e agora nevou! 

- Pois é! - dizem os lobos 

- Os humanos disseram que foram as alterações cli...cli....climáticas, ou climatéri...qualquer coisa assim. Pelos vistos, já aconteceu mais vezes. Dizem que está a dar cabo deles e de nós, da Natureza e vai continuar a acontecer. - acrescenta outro lobo 

- Ficaram praticamente sem comida para os bichos, agora! - comenta outro lobo 

- Armazenaram enquanto tinham, até o fogo chegar aqui...mas não nascerá comida tão cedo! 

- Que horror! - dizem os ursos 

- Foi mesmo. Nós sentimos muito medo, quando começaram lá em baixo, muito antes de chegar aqui. 

- Foi quando uivaram muito, não foi? 

- Sim! Nós e os cães das casas, estávamos a avisar, e com muito medo, pressentimos que podiam estar em perigo! 

- Estão muito tristes e preocupados! - diz um lobo 

- Claro! Imaginamos que sim. Nós também tivemos medo que não houvesse mais neve! 

- E nós tivemos medos de tudo! Do fogo, do calor, de poder faltar comida...foi horrível - partilha outro lobo. 

    Os lobos e os ursos conversam mais um bocado, agora mais descansados. Os ursos agradecem a explicação e os lobos seguem caminho. Vão dar uma volta. No regresso um urso diz-lhes: 

- Se precisarem de alguma coisa, estamos aqui! 

- Obrigado! Nós também. - responde o lobo. 

- Foi muito bom termos conversado e partilhado os nossos medos. - acrescenta outro lobo 

- Claro que sim, nós também os sentimos. - diz um urso 

- Pois. - diz outro lobo 

    Como eram amigos, às vezes juntavam-se para passear, conversar, e conviver. Quando precisavam, estavam uns para os outros. 

    Sentiram pena dos animais e das pessoas da povoação, que pensaram eles, devem ter sentido ainda mais medo do que eles, e queriam ajudar. 

    Reuniram-se com os lobos, estes acharam uma ótima ideia, e partilharam o sentimento de pena. Também queriam ajudar. Pensaram em conjunto, como e se podiam ajudar as pessoas da povoação, e tiveram uma ideia. 

    Cada urso e cada lobo carregou fardos de palha, erva seca, erva suculenta, flores silvestres, e outras coisas coisas do chão, por onde passaram, que sabiam que os outros animais comiam. 

    Várias vezes no mesmo dia, deixando á porta de cada pessoa da povoação para os animais. Os ursos levavam pedaços de gelo que estavam a boiar, em sacos que usavam para os manter congelados, puseram nas pias dos animais, derreteram rapidamente e transformaram - se em água. 

    As pessoas da povoação fechavam-se em casa, com medos dos ursos e dos lobos. Mas nem queriam acreditar no que estavam a ver. 

    Em vez de os correr, os ursos e os lobos receberam mimos, alimento extra, e agradecimento: 

- São a nossa salvação e dos nossos animais também. Gratidão gigante, a vocês bichos maravilhosos! - diz uma senhora 

- Nunca vi animais assim, a ajudar-nos e a trazer-nos alimento, bebida. - comenta outra muito surpresa 

- Que coisa fantástica! - suspira um senhor 

- São sempre muito bem vindos. - diz uma senhora comovida 

    Os lobos e os ursos retribuem os mimos com encostos, lambidelas, abraços com as patas á volta dos humanos, e estes riem, deliciados. 

- A terra está a gritar e a avisar que está doente, mas há gente que não a ouve, a ambição e o dinheiro, ou a maldade, não as deixa ouvir a dor da Terra. - lamenta um senhor 

- Ficamos praticamente sem nada para comer, só ração, e não lhes faz tão bem, e esta água...que pura! - diz outra senhora.

- Vivemos um terror! - acrescenta um senhor 

- E vocês tiveram de fugir, não? - pergunta outro senhor 

    Os animais respondem á maneira deles, as pessoas percebem. Durante vários dias, e sempre que os ursos e os lobos percebiam que os outros estavam a ficar sem comida, ou água, faziam caminhadas, com comida e gelo. 

    A população parecia que via seres mágicos, ou encantados, e fartava-se de os mimar, agradecer, retribuir. A neve continuava a cair, lobos, ursos, humanos e animais das casas, tornaram-se numa grande família. Todos ajudavam e as pessoas retribuíam.  

     Ajudar, agradecer, retribuir.  

                                                        Fim 

                                                   Lara Rocha 

                                              15/Fevereiro/2025 


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

A rolinha que tinha medo das alturas

      

Foto tirada por Lara Rocha 


   Era uma vez uma rolinha pequenina que andava em terra, não subia às árvores como as outras. Ficava mais no seu ninho. Olhava para as outras que voavam livremente, de forma tão rápida e tão à vontade que ela ficava muito surpresa. 

   Pensava para consigo mesma: 

- Como é que elas conseguem subir tanto, tão à vontade, tão leves, e descem. Será que só eu é que não consigo? Porquê?! 

   As outras rolas ignoravam-na, deixavam estar no chão, gozavam com ela, riam dela, e não percebiam porque é que ela não voava. Os pais da rolinha não admitiam que as outras a gozassem ou rissem dela, e ralhavam-lhes. 

  Elas fugiam rapidamente, os pais da rolinha diziam aos pais das outras que as filhas não tinham nada que gozar com a deles, porque também já foram daquele tamanho, e não voavam, nem por isso foram gozadas.

   Os pais das outras compreendiam, concordaram, diziam que tinham razão, pediam desculpa, e proibiam as filhas de gozar a pequena. Mesmo assim, elas não resistiam e riam-se, já se tinham esquecido. 

   Só de olhar para os ramos altos onde as outras pousavam, a rolinha encolhia-se toda, estremecia da cabeça até às patas e parecia que ficava com frio. Sacudia-se. 

   A rolinha não dizia nada, não respondia às outras, mas ficava triste. Um dia, a mãe disse: 

- Anda cá para cima, filha! Já consegues voar como nós, de certeza! 

- Áhhh…não! Tenho medo. 

- Tens medo? De quê, se nós fomos feitos para voar e andar em terra? Aqui não tem nada de assustador, e voar é muito bom! Tu é que nunca experimentaste, mas está na altura. 

- Anda ver que bonita que é a vista daqui! - diz o pai

- Como é que eu vou para aí ? - pergunta a rolinha a tremer

- Ora...a mãe acabou de dizer! A voar, é claro. Como nós fazemos. Já não és nenhuma bebé. 

- Tenho medo! - diz a rolinha envergonhada 

- Anda! Deixa-te de coisas. Voa...abre as asas e voa. - diz a mãe 

- Óhhh...venham-me buscar. Eu não sei fazer isso. - suplica a rolinha 

   Uma rolinha mais crescida que nunca a tinha gozado, pousa à beira dela no solo, e diz-lhe: 

- Eu sei que tens medo de voar para ali, e mais alto, eu também tive medo, a primeira vez, como tu, não percebia como é que as outras conseguiam voar tão rápido, tão alto, tão à vontade! Eu, daqui de baixo, a olhar lá para cima, onde estão os meus pais naqueles ramos, e os teus ali, até me encolhia toda, tremia da cabeça até às patas. Depois, ganhei coragem, porque queria ver luzes e sítios diferentes, passear pela cidade, ver outras coisas, pousar em varandas e janelas, telhados altos, ver o que há na cidade, de cima, e é maravilhoso! 

  A rolinha sorri timidamente, meia desconfiada: 

- A sério que sentiste medo? 

- A sério! Os nossos pais também sentiram, mas nem sempre nos dizem, para nos encorajar. Nós temos asas, podemos andar no solo, ou voar. Anda comigo! Quando experimentares, não vais querer outra coisa! Quero ajudar-te. Posso? 

- Como é que me vais ajudar? Eu tenho medo! 

- Não precisas de ter medo, nem há razão para isso! Abre as asas, e segue-me. Estás em segurança, tenho a certeza, prometo! Qualquer coisa, eu estou contigo. 

  A rolinha abre as asas cheia de medo. 

- Podes parar de tremer se faz favor? A tremer não consegues voar. 

- Como é que eu faço isso? 

- É só lembrares-te que tens asas, e podes ir onde quiseres, com elas! As tuas asas fazem parte de ti, são seguras, podes confiar nelas, estão cobertas com as penas, e tens a cauda que te ajuda. Podes pousar quando te apetecer, ou quando vires comida no chão. Elas são feitas para te ajudar. Anda! 

- De certeza? 

- Sim! As outras, e os nossos pais também as têm! E sempre souberam disso! Mas no inicio, é claro que sentiram medo, só que não ficaram com medo, percebiam que podiam confiar nas asas e que são seguras. Anda! Eu estou aqui. Um...dois...três…

 A rolinha amiga, põe as asas na amiga, como se estivesse a pegar nela ao colo. 

- Primeiro, vamos abraçadas, mas daqui a bocadinho quero que vás sem mim, está bem? 

- Ahhh...não sei se consigo! 

- É claro que consegues. Tenho a certeza! Eu confio e acredito em ti. Vamos...confia em mim também! 

- Ahhhh...está bem!

- Boa! Primeiro saltita ao mesmo tempo que eu...um...dois...três…

   A rolinha amiga segura-a, e levanta voo com ela, um voo pequenino, do solo, para o primeiro raminho da árvore, quase pegado ao tronco, baixinho. A rolinha voa, mas a gritar. Pousam no ramo. 

- Não precisas de gritar! Estás em segurança, e eu estou aqui! Agora vais tu sozinha, e eu fico aqui. Vai. Um...dois...três… 

 A rolinha abre as asas e grita outra vez, mas conseguiu dar esse saltinho do tronco para o chão. 

- Boa! Estás a ver como conseguiste? (a rolinha amiga, ri e aplaude) Isso mesmo! Agora, anda para aqui, a voar e sem gritar. Voa, só. O gritar não é preciso. 

 A rolinha faz o que a amiga diz, e consegue sem gritar. Aplaude, e convida-a a libertar-se mais. As duas fazem voos juntas. Primeiro, pequeninos, com saltinhos e voos para o chão, os pais aplaudem, riem orgulhosos. 

 Depois, vão subindo para raminhos mais altos, juntas e em separado, a rolinha percebe que a amiga tinha razão, e ganha confiança nela própria, com a amiga sempre a apoiar, a acompanhar o voo, e a incentivar.

 A rolinha está tão feliz, que vai subindo ramo a ramo, a apreciar a paisagem de cada ponto, onde para, até aos ramos onde estão os pais. 

 A rolinha percebeu que realmente voar era muito bom e conseguia fazer o que todas fazem; além de poder confiar nas suas asas. Adorou tudo o que viu, e passado algum tempo já seguia os adultos, as outras, e a amiga para onde iam, sem medo. 

 Os pais agradeceram à amiga, e sentiram orgulho nas duas que se tornaram inseparáveis, davam passeios animados e leves pela cidade, viam coisas bonitas, aplaudiam, cantavam, pousavam no chão e nas árvores, nas janelas, nos telhados altos, iam com os pais. 

  E foi assi  que a rolinha aprendeu a voar, sem medo, com o apoio  e a compreensão da amiga que também sentiu medo no início, mas aprendeu a confiar nas asas, começou com voos pequeninos, e foi subindo aos bocadinhos para ramos mais altos. 

  O medo, para nós também é assim, vamos perdendo um de cada vez, tentando, treinando, com incentivo, ainda melhor, aplausos, confiança de outros em nós, e nós mesmos, com vontade de descobrir, amizade e respeito. 

 A primeira vez, todos sentimos medo, do desconhecido, existem medos que é bom sentirmos, outros, existem, sem querermos, ou sem percebermos como, porque os sentimos. 

  Podemos aprender a lidar com eles, ou a não alimentá-los, se não fazem sentido, e quando percebemos que são exagerados. Mas todos merecem respeito, não devem ser gozados por outros porque cada um de nós, tem os seus medos, e todos os sentimos. 

                                              FIM 

                                       Lara Rocha 

                                      9/Fevereiro/2025 

        

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Tudo fechado

    Era uma vez uma aldeia numa montanha muito alta, congelada, cheia de neve, onde se sentia um vento cortante, e os dias pareciam ainda mais pequenos do que são, no Inverno. 

     As pessoas que lá viviam eram tão frias umas com as outras que pareciam não saber sorrir, não viam nada de bonito, mas as estrelas quiseram fazer uma surpresa para ver se essas pessoas saiam daquele gelo. 

  Num dia de sol, quando todos estavam no seu trabalho e em casa, começaram a atirar garrafas de água com arco-íris a girar, rodopiar, fazer redemoinhos. 

    Deixaram uma garrafa à porta de cada um, e espalhadas pelo chão. Outras garrafas tinham plantas com gotinhas de água que brilhavam como diamantes ao sol. 

    Em algumas garrafas havia flores pequeninas, muito mimosas, de muitas cores. Numas garrafas estavam pequeninas luzes, de muitas cores a piscar, noutras lindas borboletas gigantes, de tamanhos variados e cores. 

   Noutras garrafas estavam guardadas palavras bonitas, noutras estrelas, noutras, raios de luz de todas as cores, e noutra, brilhantes. Todas teriam de ser abertas, e tudo o que estava em cada uma delas, queria sair. 

    Quando regressou o primeiro habitante viu as garrafas espalhadas,  muito surpreso, começou a ver o que tinha em cada uma delas. Ficou maravilhado, nunca tinha visto tanta coisa nova e bonita. 

- Quem pôs isto aqui? Que coisas tão bonitas…! - diz com um sorriso aberto 

    Ainda ficou mais surpreso, quando viu na sua porta uma garrafa, com um bilhete: «Abre a garrafa, ou as garrafas, que tocarem mais o teu coração, e que te tenham feito sorrir». 

- Mas… 

    Volta a olhar para todas as garrafas, e a que tinha as florinhas pequeninas mimosinhas, foi a que tocou o coração dele, e fez abrir um sorriso luminoso. 

  Abriu a garrafa e as florinhas saltam felizes da garrafa para o chão, dançam e dão risadinhas. 

- Obrigada! - dizem todos 

   O Sr. ri à gargalhada, deliciado ao ver flores tão pequeninas a dançar, a cantar de forma tão diferente da dele, mas tão encantadora. Chega outro e pergunta o que o amigo estava a ver e a rir à gargalhada. 

   Ele responde que encontrou todas aquelas garrafas no chão, cheias de coisas tão bonitas, que o fizeram sorrir, e tinha um bilhete à sua porta, a dizer para abrir aquela, ou aquelas garrafa (s), que tocasse (m) o seu coração, e o tivessem feito sorrir. 

    O amigo riu, e ficou a apreciar juntamente com ele, as florinhas a dançar, a ouvir as risadinhas que depois se separaram e foram parara em vários sítios, espalhadas pela neve. 

    Esse amigo, também tinha o mesmo bilhete à porta da sua casa, tal como todos os outros que foram chegando. Cada um abriu uma garrafa diferente, os outros dois ainda estavam com um sorriso aberto, e maravilhados. 

    Uma senhora abriu a garrafa das plantas com as gotinhas de chuva que brilhavam como diamantes. Mal saíram da garrafa começaram a cantar em forma de agradecimento, umas vozes fininhas, que parecia o som do vento, a passar pelos pinheiros. A Sra. riu à gargalhada. 

- Obrigada. - disseram elas no fim, e espalharam-se pelo espaço 

    Outra senhora, viu o bilhete e o que mais tocou o seu coração, foi a garrafa de água com arco-íris a girar, rodopiar, e fazer redemoinho. 

- Ááááhhh…que coisa tão bonita! - diz a senhora com um sorriso de orelha a orelha. 

    Quando abre essa garrafa, os arco-íris espalham-se pelo ar, em forma de grandes e leves bolas de sabão, onde se veem todas as suas lindas cores. Todos suspiram de espanto e de encanto, seguindo as bolas de sabão com os olhos e com sorrisos abertos. 

   Os habitantes ficam deliciados com o que veem. Outro casal abriu a garrafa das borboletas gigantes de todas as cores. Todos pareciam hipnotizados com tantas, e tão bonitas, tão grandes a esvoaçar levemente à sua frente. 

    Algumas borboletas pousaram nos cabelos, outras nas bochechas, outras nas mãos, como se estivessem a fazer carinho. Abriram sorrisos como nunca antes visto, e soltaram gargalhadas, palmas, exclamações de encanto. 

    As borboletas ficam por ali, escolhem lugares diferentes para se instalar. Outro casal com  filhos, abriu a garrafa das estrelas, que sopraram e espalharam-se por todo o lado, deixando tudo brilhante e luminoso, todos aplaudem. 

    O outro casal com filhos, abre a garrafa dos raios de luz, de todas as cores, que se tornam enormes, e iluminam todo o espaço, como holofotes que giravam, mudavam de direções, escondiam-se nas nuvens e voltavam a aparecer, todos riram com vontade. 

  Os habitantes nem querem acreditar, nunca tinham visto tanta coisa bonita. A garrafa das palavras bonitas, quase era esquecida, foi ignorada, mas um pequeno cãozinho deu sinal: ladrou sem parar à beira da garrafa, depois de a cheirar. 

  Ficaram todos preocupados, com aquele nervosismo do cão. Quando se aproximaram, perceberam que estava lá uma garrafa e dizia: «palavras bonitas», abram por favor e leiam-nas uns aos outros. 

    Como não estavam habituados a dizer e a usar palavras bonitas, sentiram medo, e ficaram quase congelados sem mexer na garrafa, a olhar uns para os outros. 

  Juntam-se vários cães, dos habitantes, cheiram a garrafa, ladram em coro, sem parar, lambem a garrafa, põem as patas em cima, e tentam abrir. 

- Os cães gostaram dela! 

- Se calhar podemos abrir, e ver o que há. 

- É. Deve ser isso que os cães estão a dizer. 

    Os cães ladram como que a confirmar que é seguro abrir. 

- Quem abre primeiro? - pergunta uma senhora

- Posso abrir eu! - diz outra 

    Ficam todos na expectativa, a ver o que sairia da garrafa. O que estaria escrito? Além de palavras bonitas, dizia: Leiam com o coração, sinceridade, e um sorriso na cara. 

- Que coisa estranha! Vamos tentar. 

    Cada um tira um papel com uma palavra bonita, lê em voz alta, com um sorriso, uns deixam escapar umas lagriminhas de alegria, ternura e gratidão, outros distribuem abraços que se tornam longos, outros elogiam, outros dão as mãos, outros procuram pequeninos mimos e oferecem.

    Outros fazem mimos aos animais. No final combinam uma festa à noite, ao ar livre, onde viram as estrelas, como nunca antes tinham visto, as luzinhas pequeninas por todo o lado, os raios de luz que pareciam auroras boreais a dançar, os arco-íris em forma de milhares de bolas de sabão, que se juntaram à festa, esvoaçando por todo o lado. 

    Gostaram tanto das palavras bonitas, que leram, e transformaram num jogo coletivo, onde baralhavam as palavras na garrafa e cada um tirava uma diferente, e as estrelas enviavam todos os dias, palavras bonitas diferentes, e os próprios procuraram. 

    Aprenderam a sorrir com o coração, a elogiar com sinceridade e a abraçar com muito carinho, a conversar muito mais uns com os outros e a ajudar. Aprenderam a apreciar em conjunto e sozinhos as maravilhas da Natureza, que os fazia conversar uns com os outros sobre isso, iam investigar quando não conheciam o que viam, e adoravam ver as lindas borboletas. 

  À noite, juntavam-se para tomar chá, apreciar as estrelas, a lua, e conviver. Tornaram-se uma grande família, onde havia muita amizade, brincadeiras, festas, respeito, felicidade e apesar do gelo da noite, do frio do vento, havia sol, no céu, calor humano, nos abraços, nos elogios, nos sorrisos abertos, nas mãos dadas, nos carinhos que davam aos animais, e uns aos outros, no amor à Natureza, na beleza que aprenderam a ver em tudo o que até aí parecia não existir. 

   As estrelas não podiam estar mais orgulhosas! 

E vocês? Que palavras bonitas acham que estavam na garrafa que dizia «palavras bonitas»? 

Qual ou quais a (as) garrafa (s) que podem vocês escolheriam? 

Porquê? 

Podem deixar as vossas respostas nos comentários, se quiserem. 

                                                                               Fim 

                                                                        Lara Rocha 

                                                                         31/12/2024   


domingo, 15 de dezembro de 2024

Os espirros misteriosos

      Era uma vez um parque no deserto, só com areia ardente, de cor barrenta, o chão cor de laranja, em alguns pontos, a areia parecia Terra, e algumas rochas, dunas. Com tanto calor, onde quase não se respirava, não havia sinais de vida. 

      Mas um dia, algo misterioso aconteceu! A areia espirrou, ecoando por todo o terreno, todo o chão tremeu, e levantou, formando redemoinhos gigantes. As aldeias vizinhas, onde viviam pessoas, sentiram, ficaram muito assustadas a pensar que seria um tremor de terra. Saíram das suas casas, vieram para a rua, e conversaram umas com as outras; todas tinham sentido. 

    Com muito medo, esperaram para ver se acontecia outro. E aconteceu. Mas desta vez foi um som diferente. Um redemoinho, que se tinha levantado com o espirro da areia, ficou sem força, com aquele calor deitou-se, outro redemoinho foi ter com ele, ajudou-o a levantar-se, deu-lhe a mão, o outro voltou a ganhar força. 

    Os dois espirraram estrondosamente, parecia um trovão. Desapareceram rapidamente, e no seu lugar a terra começou a ganhar relva, numa grande extensão. 

    Outros redemoinhos de areia, espirraram em cima dessa relva, apareceram pezinhos de futuras flores e foram largadas sementes ainda por abrir. 

    Formaram-se ventos muito fortes, ciclónicos, que rodaram, rodaram, rodaram, o céu ficou escuro, parecia quase noite, cheio de nuvens. 

    Uns ventos espirraram, e com os espirros formaram-se árvores enormes no espaço onde havia relva e flores, mas também noutros espaços, que faziam sombra. 

    E para que as flores nascessem, outros ventos ciclónicos espirraram. Dos seus espirros surgiu uma chuva torrencial, que regou toda aquela terra deserta e seca. 

    Mas aquele espaço não podia ficar só assim. Então, da água que ficou acumulada na areia, pela chuva torrencial, a areia à volta espirrou outra vez, e formou-se um lago maravilhoso, grande, com margens de rochas, que espirraram e brotam água das suas fendas , para cair no lago, a formar pequeninas cascatinhas. 

    O lago ia ficar só com água? Não! A água queria companhia, então, deu vários espirros! De uns espirros saíram dezenas de peixes de todas as cores, tamanhos, espécies, formas. 

    Os peixes espirram, e aparecem lindos patos, cisnes, gansos, e pedras no fundo do lago. Outro tornado, quando espirra, traz consigo aves de todo o tipo: gaivotas, papagaios, araras, falcões, melros, pardais do deserto, toutinegras do deserto, verdilhões do deserto, corvos, flamingos. 

    Hipopótamos com um lago só para eles, crocodilos noutro lago só para eles. Outro tufão de areia, espirra e espalha animais que vivem na terra, como camelos, cavalos, coelhos, ouriços cacheiros, gatos, cães, ovelhas, burros, galos, galinhas, pintainhos, joaninhas, borboletas, vacas, bois, veados, lobos, raposas, linces, leopardos, panteras, chitas, macacos, elefantes, javalis, e muitos outros. 

    Além dos animais, cada um tinha a sua toca, e num cantinho do deserto, com outro espirro da areia, havia um lago gelado, com gelo à volta, que começava dentro de uma gruta, para pinguins, focas, ursos, leões marinhos. 

    Este lago gelado deu um valente espirro, e formou-se um lago só para golfinhos. Mas ainda sobrava espaço com areia, e na realidade havia pouca água, pouca vegetação. 

    Para resolver essa falta, ouvem-se mais espirros estrondosos, que fazem  tremer o chão, e levantar areia. Desses espirros e com essa areia pelo ar, nasce uma pequena ilha paradisíaca feita de areias brancas, pinheiros, árvores tropicais, palmeiras, e de diferentes espécies, com um pedaço de praia e um pedaço de mar calmo, quente, transparente. 

    Que coisa tão bonita! As pessoas que viviam nas ilhas e praias vizinhas nunca imaginaram o que tinha acontecido naquele espaço inabitável, onde quase não se respirava. 

    Ficaram muito intrigados, e alguém, decidiu passar próximo daquele sítio, pensou que ia transpirar, mas para sua surpresa, vinha das redondezas, um ar muito mais fresco, com cheiro a maresia, a mentol e eucalipto. 

    Ouvia o som do mar, e dos animais. Foi ver...quando chegou, o lugar não era o mesmo que conhecera desde sempre! O que teria acontecido? Como é que tinha acontecido aquela mudança, quem tinha feito aquilo? 

    Estava boquiaberto, chamou os outros, aos gritos, para perceber se estaria a ver bem, ou se estava a imaginar com o calor...Todos viram o mesmo que ele, todos ficaram muito surpresos, a perguntar-se o que tinha acontecido, quem tinha feito aquela maravilha! 

    Gostaram tanto do espaço e do que viram, que aquele sítio passou a ser um refúgio para relaxar, ver as flores, cada qual a mais bonita, cuidar delas, ver os animais, dar-lhes carinho e alimentá-los, meditar, ler, passear, ir para a praia, refrescar-se, e apreciar toda aquela beleza! 

    O mistério de toda aquela transformação continuou por desvendar, mas estavam muito felizes. 

                                                    Fim 

                                               Lara Rocha 

                                           15/Dezembro/2024 

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Os beijinhos das flores



     Era uma vez uma bela montanha com grandes rochedos, desviada da cidade de onde brotavam belos riachos de água. 

    Estes formavam cascatinhas, primeiro pequeninas, depois aumentavam a intensidade da água, à medida que seguiam caminho para um grande lago, onde havia um espaço muito agradável, verde, cheio de árvores, bancos e mesas para merendas, e um rio. 

    Mas além da água que se formava nas grutinhas das rochas, entre muitas fissuras espalhadas até ao rio, nasciam lindas flores selvagens, de várias cores, tamanhos, e  delicadas. 

    Tinham a companhia dos lobos, há muitos anos, das águias, dos falcões, dos veados, das corças, dos esquilos, morcegos, mochos, corujas, lagartixas, coelhos bravos, linces, corvos, e muitos outros. 

    Os pastores levavam o gado: as vacas, os bois, as ovelhas, as cabras, os bodes, para o pasto que naquela zona era muito bom, juntamente com os seus cães. 

    O vento, a chuva, o sol, o calor, as trovoadas, a neve, também marcavam a sua presença, de forma mais ou menos intensa, de acordo com a estação do ano. 

    Os pastores tinham sempre as suas casinhas de resguardo, porque já sabiam o tempo podia mudar. Infelizmente, nos últimos tempos, as cascatinhas e os riachos, tal como o grande rio do parque estavam praticamente secas e paradas, quase não circulavam pelas rochas, nem nas grutinhas. 

    Estavam sem força, e em vez de transparente, a sua cor, era verde, da pouca que circulava. As flores dos rochedos e da margem do lago, bebiam dela, mas andavam a sentir-se estranhas. 

    O sabor não era o mesmo, uma água que antes sabia tão bem, agora, sentiam um sabor estranho, não sabiam o que estava a acontecer. 

    Nunca tinham visto a água daquela cor, sentiam medo, mas bebiam-na porque não havia outra, e precisavam dela, caso contrário, secavam. 

    Uma tarde, ouviram dois pastores que tinham levado o gado, nos rochedos a comentar um com o outro: 

- Moço, já viste que está quase tudo seco, aqui? 

- Pois! Já reparei. Se calhar tem raízes ou lixo ali nas grutas! 

- Pode ser! Ou é de não chover há muito. 

- É verdade! Pode ser das alterações climáticas! Olha a cor da água! 

- Está horrível. Até lá em baixo! 

- Aquilo não será perigoso? 

    As flores ficam em pânico, agarradas aos caules, e trocam olhares: 

- Pois! Também tenho medo! Aquilo...aquela cor parece veneno. 

- Veneno? - murmuram as flores umas com as outras 

- Se for veneno, estamos todos fritos. 

- Fritos mesmo! Nós e o gado, tudo o que aqui está. 

- Não sei como é que as flores resistem.  

- Mas também veneno não será, se não, os nossos animais ficavam mal dispostos, e não estão. 

- Pois. Mas pelo sim, pelo não, é melhor analisarmos a água, não? Os animais bebem-na pelo caminho, mas para percebermos porque é que está daquela cor. 

- É. Boa ideia. Pode ser uma alga. Os meus às vezes também bebem, mas esta de cima também está quase seca, acho que é melhor do que a de lá de baixo! 

-É, mesmo assim, já está com uma cor estranha! 

- Vamos ver às grutinhas de onde ela sai, se há alguma coisa a poluir. 

- Boa ideia. 

    As flores ficam muito ansiosas e com muito medo. Os pastores entram nas grutinhas, iluminam o espaço, e não há nada a impedir a passagem da água, nem a polui-la. Quando voltam a sair, os dois comentam: 

- Nada! 

- É. Deve ser a própria poluição do ar, e de estarem paradas! Mesmo assim, já não são nada do que eram, e pelo sim, pelo não...vamos levar uma amostra para análise. 

- É. É melhor. Estas flores não estão com um ar muito saudável, mas deve ser da pouca água. 

    Os pastores recolhem um bocadinho de água num frasco limpo, em cima e em baixo, e levam ao laboratório. As flores, olham para a água, para ver o seu aspeto. 

- Que exagero, aqueles dois pastores! - comenta uma flor 

- Não estamos assim com tão mau aspeto. - comenta outra 

- Nem eu! - diz outra 

    Mesmo com muito medo, uma flor inclina-se e encosta as pétalas às águas, que tem ao seu lado, como se fosse dar um beijinho, soprar ou fazer uma oração. 

- Óh maravilhas águas, por favor...não estejam doentes, se não, onde vamos beber? Precisamos muito de vocês. Gratidão, gratidão, gratidão, Natureza, por estas águas que nos fazem bem! 

- A quem é que estás a agradecer? - pergunta uma 

- À Natureza! Ela gosta que lhe agradeçam, e acredito que está tão feliz, que vai limpar estas águas. 

- Ela não está boa do caule, nem das pétalas! - diz uma flor surpresa 

- A água deve ter mesmo qualquer coisa venenosa, nunca disse isto. - comenta outra 

    Dá mais um beijinho com a pétala, e endireita-se. As outras gritam: 

- Cuidado! Não te encostes a essas águas. 

- Também acho melhor não, enquanto não soubermos o que está a acontecer com essas águas. 

- Façam o mesmo! Ou não vão beber, só porque aqueles falaram? - convida a flor 

- O que é que tu fizeste? 

- Dei-lhe dois beijinhos e disse o que vocês ouviram. 

- E achas mesmo que as águas vão ficar limpas, só porque disseste isso… 

- Com certeza! Façam, e vão ver amanhã. 

- És mesmo sonhadora. - diz outra 

- Mas…- diz outra assustada 

- O que é que tem o mas? - pergunta a flor 

- Não sei...acho que não...quer dizer...não queria! Mas depois do que aqueles disseram, fiquei a pensar que podia estar ou podemos ficar doentes! - diz outra flor nervosa. 

- Há quanto tempo já bebemos desta água e as de lá de baixo, e nunca nos aconteceu nada? - pergunta a flor 

- Já há bastante tempo, é verdade, quer dizer...desde sempre que estamos aqui. Mas a água não era daquela cor. - responde a outra flor 

- Que mudou de cor e está fraca, está! Porquê? Não sabemos...-repara outra 

- Pode ser a poluição do ar, a falta de chuva. - diz a flor 

- Sim, é...! É verdade. Pelo que sei...desde que estamos aqui, quando não chove há muito tempo, ela fica com esta cor. - lembra outra flor 

- Pois é! - diz a flor 

- Vamos experimentar! Dar também um beijinho nas águas, para ver se acontece alguma coisa. - aceita outra flor 

- E não se esqueçam de agradecer. - reforça a flor 

- Boa! - dizem todas 

- É isso. - concordam todas

    Cada uma encosta as pétalas como fazem para beber, tocam com as pétalas nas águas e nas rochas, como se fossem a dar um abraço às rochas. As águas vibram e fazem pequeninas ondinhas, dão beijinhos com as pétalas e agradecem à Natureza. Convidam as de baixo a fazer o mesmo, e fazem.  

    Na manhã seguinte, nem querem acreditar no que estão a ver...as águas pareciam sair de todos os buracos e mais alguns, até de espaços invisíveis, como se tivesse chovido vários meses, e enchesse os riachos. 

    Uma água limpa, a correr com toda a força, as flores de cima e da berma do rio, aplaudem, felizes, e provam a água: 

- Humm...que delícia! - Suspiram todas 

- Como está transparente e abundante. - comenta uma 

- Mas o que é que aconteceu aqui? - pergunta outra 

- Parece que choveram meses seguidos de ontem para hoje! - comenta uma flor surpresa 

- Realmente! - dizem em coro 

- Que maravilha! - sorriem todas 

- Olhem a de lá de baixo, que espetáculo. Com o sol a dar, parecem brilhantes. - repara outra flor 

- Eu disse que ia resultar! - diz a flor que começou, orgulhosa. 

- Tinhas razão, a Natureza gostou que lhe agradecêssemos. - comenta outra flor 

- E dos nossos beijinhos. - acrescenta outra 

- Claro! Eu disse, e vamos agradecer outra vez, em coro? - sugere a flor 

- Claro que sim, ela merece. Meninas aí de baixo, gritem connosco...vamos agradecer à Natureza! 

- Estamos convosco! - gritam as de baixo 

- Um...dois...três…- grita uma flor de cima 

- Gratidão, gratidão, gratidão, querida Natureza!

    Dizem todas em coro e aplaudem. Chegam os pastores com o gado, e ficam quase congelados com a surpresa de ver tanta água e tão limpa. 

- Mas, mas...o que é que aconteceu aqui? - pergunta um pastor 

- Não sei. Mas realmente as análises deram tudo bem. 

    O gado bebe deliciado, e manifestam-se, como se estivessem a confirmar que aquela água está mesmo boa, e até eles ficaram surpresos. 

    Os pastores sobem com o gado, provam a água das rochas. 

- Que diferença! - diz um pastor 

- Realmente...é pura! - diz o outro 

    Ajoelham-se, rezam e agradecem o regresso e a limpeza da água. 

- E quando for época das chuvas, das trovoadas e da neve é que vai ser! - acrescenta um pastor 

- Pois é. - concorda o outro 

    Os dois dão uma gargalhada, de tão felizes: 

- Até as flores estão mais bonitas! - comenta um pastor 

- Pois estão. 

- Vou já encher a minha garrafa. 

- Eu também. 

    E os dois ficam a apreciar a mudança, encantados, enquanto o gado pasta e bebe a água, sem saberem que foram os beijinhos, os abraços e a gratidão das flores, à Natureza. 

                                                    FIM 

                                               Lara Rocha

                                        25/Novembro/2024  





terça-feira, 19 de novembro de 2024

O gato Neve


    
Era uma vez um grande gato, branco, peludo, de olhos amarelos, que vivia com a família numa toca, adorava desfilar, com o seu ar vaidoso, sentar-se em cima de um cogumelo atraente, vermelho, com pintas brancas. 

    Andava pelo chão, sempre a cheiricar tudo, passeava sem pressa pelo espaço, a olhar para todos com ar que parecia de superior, mas era timidez. 

    O gato empoleirava-se num cogumelo, de cano alto, cabeça larga, via a linda paisagem gelada nas montanhas ao fundo, o verde dos campos, e as várias cores das folhas das árvores, que tentava trepar muitas vezes, mas não conseguia. 

    Ficava irritadíssimo, e a observar atentamente como é que outros animais conseguiam trepar às árvores. Via uma grande cascata, mas não sabia como chegar lá o amarelo dos girassóis e das espigas, o castanho dos troncos das árvores.

    Pensava e olhava atentamente, encantado com as cores das roupas das pessoas que trabalhavam nos campos, via o azul do céu, outras vezes, o cinzento, o roxo, o vermelho, o laranja, o amarelo, o cor-de-rosa. 

    Adorava cheirar tudo, provava pedacinhos de fruta, e recebia mimos, comida, bebida, para ele e para a família, dos habitantes, mas não percebiam porque é que ele se sentava no cogumelo. 

    O cogumelo sentia medo do gato, mas não se mexia. Um dia perguntou ao gato: 

- Óhhh…qualquer coisa, que está aí em cima...eu não sou uma casa, nem uma toca, nem uma árvore, porque é que vens sentar-se sempre aqui, com tanto espaço livre? 

- Primeiro, não sou qualquer coisa, sou um gato! Depois, eu também  tenho casa, família, e ando por aí, mas tu tens qualquer coisa que eu adoro. 

- Áh! És um gato...e então, o que adoras tanto em mim, para não saíres? Eu sou um cogumelo, e dizem que sou venenoso! 

- Sim, já ouvi falar de ti. Porque é que és venenoso? 

- Não sei. 

- Para te defenderes, porque és muito bonito, e muitas pessoas querem provar-te, ou comer-te! 

- Como tu? 

- Eu não te quero provar, nem comer-te. Só venho para aqui, para ver a paisagem, e porque o teu chapéu é largo, confortável, dá para ver bem a paisagem! 

- Que paisagem? 

- Ora...a que tu vês daí. 

- Tu deves ver mais do que eu, estás mais alto! 

- Pois, tens razão! 

- Mas porque é que vens para aqui? 

- Para ver a paisagem, como já disse.

- Desculpa...acho que é mais alguma coisa! 

- Bem...porque...eu sou um gato solitário. 

- Solitário? 

- É. Quase não tenho amigos. 

- Porquê? 

- Não sei. Ouvi dizer que sou...tímido, mas acham que sou arrogante, ou vaidoso. 

- Hummm…também já ouvi dizer isso. 

- Mas estas pessoas comentam tudo! 

- Nem imaginas quanto. 

- De ti também? 

- Claro! 

- E o que dizem? 

- Que pareço um cogumelo de um filme. Não sei o que é isso. Sei que fazem todos uma festa, parece que sou uma estrela, depois lembram-se que sou venenoso. 

- Pois, acho que estou a ver. 

- Também viste esse filme? 

- Acho que sim. 

- E também era venenoso?

- Era. 

- Áh. Está bem, mas agora importas-te de sair de cima, por favor? 

- Claro. 

    O gato dá um salto, e parece que tem quilómetros. O cogumelo assusta-se: 

- Que grande que tu és. Como é que cabias ali em cima? 

- Sim, eu arranjava a caber. Desculpa a minha ousadia. Fico contente por teres falado comigo! 

- És bonito! Branco, com esses olhos...

- Obrigado. 

- Como te chamas? 

- Neve! 

- Neve? Que nome...raro! 

- É por ter o pelo tão branco como a neve, aquela das montanhas, e a que cai aqui no tal Inverno. 

- Áh sei. Sim, realmente pareces. 

- Já viste como tudo à nossa volta é bonito? 

- Sim. Mas em cima de mim, vês alguma coisa de especial? 

- Sim, muita coisa. 

    O gato descreve tudo o que vê. O cogumelo fica encantado, e com muita curiosidade em conhecer essa paisagem que nunca vira. O gato convidou-o a irem para um local onde conseguissem ver. O cogumelo conhece, e os dois ficam em silêncio a contemplar a paisagem. 

- Que bonito! - suspira o cogumelo 

- É mesmo. - concorda o gato 

- Nunca tinha visto como hoje! Obrigado, Neve, por este passeio.

- De nada! Também estou a adorar, e descubro sempre alguma coisa nova, quando vejo a paisagem. 

- Hoje descobriste? 

- Sim. 

- Que interessante! 

    Os dois conversam alegremente, e passeiam por outros sítios. Ao fim do dia, cada um volta para a sua casa. 

- Desculpa, Neve, eu estava errado a teu respeito! Sentia medo de ti, e não sabia que eras um gato, como eras, se me fazias mal...- diz o cogumelo  

- Não faz mal! Compreendo! Eu acho que faria o mesmo. Desculpa eu sentar-me no teu chapéu, sem pedir autorização, não sabia que falavas. - diz o gato 

- Claro, não faz mal. Gostei de ti. 

- Eu também gostei de ti. 

- Vamo-nos encontrar mais vezes, e passear por aí? 

- Com certeza! Estou sempre por aqui.

- Boa. Eu também. 

- Até amanhã. 

- Até amanhã. 

    O gato vai feliz para casa porque alguém conversou com ele, e o cogumelo, feliz porque alguém o levou a ver uma paisagem que ele não conhecia. 

    No dia seguinte, encontram-se alegremente, e encontram uma ave. Perguntam se ela sabe onde fica a cascata. A Ave conhece bem aquele caminho, e leva-os até lá. 

    A cascata é maravilhosa, com uma água limpa, cai com pressão, o barulho dela é relaxante, e os dois quase adormecem. Para acordar, entram na água do lago, mas está tão gelada, que dão um grande salto, mal se molham e um sonoro grito. 

    Vão para a margem, e dão umas valentes gargalhadas: 

- Que água tão gelada. - comenta o gato 

- Pois é! Parece que está cheia de neve. 

- É mesmo. 

    Levanta-se um vento cortante, e o céu fica escuro: 

- Óh não...vai chover? - pergunta o cogumelo 

- Vai. 

- Acho que vamos ter de ir embora! 

- Pois é. 

    Os dois regressam, e começam a cair flocos de neve, os dois amigos ficam numa alegria, como se fosse a primeira vez que viam neve. 

    Brincam um com o outro, pelo caminho, apanham flocos, rebolam na neve que se acumula rapidamente, e o gato ouve os pais a chamá-lo muito aflitos, ao longe: 

- Neve...Neve...onde estás? - grita a mãe 

- Neve...Neve...anda para casa, que está a nevar! - grita o pai 

    Os dois amigos correm, e os pais respiram de alívio. 

- Onde estavas, Neve? - pergunta a mãe 

- Fomos ver a cascata! - diz o gato 

- Pensamos que não ia nevar! - diz o cogumelo

- Quem vos levou à cascata? - pergunta a mãe 

- A águia. - diz o gato 

- É tão bonito! - suspira o cogumelo

- Havemos de ir lá, mas agora, vai para casa, cogumelo, que os teus pais também estão preocupados. A Neve vai ser dura. 

- Pois vai. Sim, vou já para casa. Obrigado. Até amanhã, Neve. Se precisarem de alguma coisa, estamos aqui ao lado. - diz o cogumelo

- Obrigado! - dizem os pais 

- Vocês também. - diz a mãe

- Boa noite. 

- Boa noite. 

    O cogumelo vai para casa dele, ao lado da casa do gato Neve. A neve cai a noite toda, e de manhã continua. 

    Fica uma camada espessa no chão, e de manhã, o gato Neve, quase se confunde com a neve. Toda a floresta e os habitantes vão brincar com a neve, de vez em quando, o gato Neve, esconde-se na neve para brincar, mas rapidamente descobrem-no, pelos olhos.

    Há muitas gargalhadas, muitas escorregadelas, cambalhotas, bonecos de neve, mergulhos na neve, roupas molhadas, sapatos ensopados, fazem um almoço com todos, e o gato Neve faz novos amigos. 

    Os pais estão surpresos com a mudança do filho, e agradecem ao cogumelo. O cogumelo sorri orgulhoso, torna-se um grande amigo do gato Neve, apresenta-o a outros amigos.

    Até os adultos e outros animais, divertem-se na neve, brincam com o gato Neve. Para aquecer, fazem um belo almoço, saboroso, cheiroso, passam o dia a conviver na neve. 

    Ao lanche um chazinho e biscoitos, muita gargalhada, muita animação, danças, brincadeiras, jogos, como já era costume nessa aldeia, quando começava a nevar.  

                                    FIM 

                               Lara Rocha 

                            19/Novembro/2024 

    Gostavam de ter um amigo como o gato Neve, e o cogumelo? 

    Brincariam com eles, na neve? A que jogos? 

Podem deixar nos comentários.