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quinta-feira, 21 de março de 2024

Jardim confuso

  


   
Era uma vez um jardim muito confuso, onde se encontravam coisas confusas, que nunca se poderia imaginar. Havia tulipas e girassóis que dormiam de dia, e ficavam acordados de noite, conversavam a noite toda, dançavam, cantavam, passeavam pelos campos, e voltavam pouco antes do nascer do sol aos seus lugares. 

    Encontravam-se pinguins que vinham da Antártida, com pedaços de gelo metidos numa mochila até esse jardim, e construíam os seus iglôs à sombra, por trás da grande cascata. O gelo não derretia, e ultimamente, viam-se cada vez mais pinguins a fazer maratonas para ir buscar gelo, e instalar-se no jardim. 

    Havia tartarugas que andavam tão rápido, e faziam corridas pela cidade, com direito a prémio para a que chegasse mais rápido a um determinado ponto da cidade. Outras tartarugas subiam às árvores com tanta facilidade como os macacos e esquilos, Kualas e pássaros. 

    Ouviam-se sapos a grasnar como os patos, e a fazer buracos na terra, como as toupeiras, toupeiras que coaxavam, rãs que cantavam ópera, lagartixas acrobatas, gatos rappers a dar espetáculos para todos. 

    Viam-se gaivotas penduradas em ramos de árvores, com as cabeças para baixo, à procura de peixe, e a dormir, morcegos que gritavam, e batiam com as asas como se estivessem a aplaudir, dormiam pendurados em cogumelos nas raízes das árvores. 

    As joaninhas a andar nas costas de caracóis, deitavam-se, de óculos de sol, e apanhavam sol, enquanto os caracóis andavam na sua lentidão. Quando recolhiam, as joaninhas iam para flores. 

    Flores que guinchavam, outras estavam sempre a rir, outras sempre a choramingar sem motivo, outras a dançar, outras bordavam lindos paninhos, outras teciam com a ajuda de aranhas, cortinas e vestidos, capas para as galinhas, cobertores para cães. 

    Depois, tudo era transformado no que fosse preciso. Ouviam-se lobos que faziam o som dos golfinhos, e golfinhos que uivavam muitas vezes por dia. 

    Nas tocas, havia coelhos que faziam construções, outros distribuíam refeições, serviam almoços, jantares, pequenos almoços e lanches, para quem mais precisava. 

    Cães que eram sapateiros e outros costureiros, muito vaidosos, mas ficava tudo perfeito, e muito bonito. Cadelas cabeleireiras e cisnes barbeiros. 

    Galinhas que vendiam num supermercado, onde havia tudo o que era preciso, galos padeiros, veados e porcos artistas a fazer bolos, a cozinhar, patos que eram médicos. 

Não faltava nada neste jardim, nem a confusão! 

                                          Fim 

                                    Lara Rocha 

                                    21/Março/2023 

Que outras coisas confusas poderiam encontrar, vocês leitores, neste jardim? 

Podem deixar nos comentários. 

Quando a realidade não faz sentido

 

Quando a realidade não faz sentido, a realidade interna e , ou realidade externa não faz sentido, sentimo-nos sem sentido, vivemos no sem sentido, mas passa a ter todo o sentido. 

Quando pensamos na realidade interna, e ou, externa sem sentido, encontramos algum sentido, numas coisas  e outras continuam sem qualquer sentido. 

Quando a realidade interna, e, ou a realidade externa deixa de ter sentido, encontramos algum sentido, em algumas coisas, pessoas, acontecimentos ou pensamentos, ações, sem sentido, que fazem todo o sentido. 

Fazem-nos sentir, que temos sentido, mesmo nas pequenas coisas, ou grandes coisas, que não têm sentido. 

Quando a realidade não tem sentido, pela Guerra sem sentido, pelas doenças sem sentido, pela fome sem sentido, pelas reclamações sem sentido, pelo luxo sem sentido, pelos pensamentos sem sentido, pelos medos com, ou sem sentido, pelas alterações climáticas, por tudo o que não tem sentido, mas existe, queremos encontrar coisas com sentido. 

Uma flor tem sentido, um lindo pássaro tem sentido, o voo dos pássaros e os seus bailados, os seus ninhos, as suas penas, os seus cantos e piares têm sentido, a leveza das suas patinhas têm sentido. 

Uma árvore com uma forma diferente, tem sentido, as suas raízes têm sentido, os troncos têm sentido, as suas crateras, têm sentido, os seus ramos com e, ou sem folhas têm sentido. 

Os mochos, as corujas, as joaninhas, as cigarras, as abelhas, os cães, os gatos, os patos têm sentido, todas as aves, todos os peixes nas suas diferentes cores, tamanhos, espécies, têm sentido, todas as rochas têm sentido, toda a vegetação aquática tem sentido, todos os animais, têm sentido. 

O sol tem sentido, o mar tem sentido, a água tem sentido, as ondas têm sentido, as pedras, as conchas, os búzios, a areia, as algas, têm sentido. 

As montanhas têm sentido, a terra tem sentido, o vento tem sentido, a trovoada tem sentido, as nuvens com formas e cores diferentes, têm sentido, as cascatas têm sentido.

As ervas que dançam ao sabor do vento, têm sentido, os girassóis que se movem e acompanham o sol, têm sentido, o vento que sopra entre os pinheiros, a brisa ligeira, que canta suavemente, tem sentido. 

O frio tem sentido, a chuva tem sentido, a neve tem sentido, as sementes que ficam protegidas pela terra e vão revelando as suas surpresas, têm sentido, as mudanças de estação do ano, têm sentido. 

As bolas de sabão, toda a sua leveza, tamanho e cor, têm sentido, o ar que respiramos, tem sentido, os brinquedos têm sentido, a música e a dança têm sentido. 

As casas têm sentido, a amizade verdadeira e sincera tem sentido, a gratidão tem sentido, a família tem sentido, o amor sincero, puro, verdadeiro, espontâneo, livre, os abraços acolhedores, os sorrisos, a música, a nossa paz, tem sentido, o conforto da nossa casa, tem sentido, o conhecimento tem sentido. 

A pintura tem sentido, o desenho tem sentido, toda a arte, mesmo sem sentido, tem sentido, aquele que cada um de nós lhes dá, conforme o sentido interior e, ou sentido exterior. 

As emoções têm sentido, o carinho tem sentido, a felicidade tem sentido, aquele que cada um atribui. 

O sorriso tem sentido, os abraços têm sentido, as lágrimas têm sentido, as dores têm sentido, as recordações têm sentido. 

Os corações partidos têm sentido, o dormir tem sentido, o acordar tem sentido, o sonhar sem sentido, tem sentido. 

O escrever tem sentido, o ler tem sentido, o imaginar tem sentido, o cantar tem sentido, o rir e o chorar têm sentido, as crianças têm sentido, a sua inocência, as suas gargalhadas, as suas brincadeiras têm sentido, a sua alegria tem sentido. 

Tanta coisa que tem sentido, quando a realidade parece não ter sentido, a vida tem sentido, em coisas com sentido, que parecem não ter sentido. 


                                FIM 

                            Lara Rocha 

                            21/Março/2024 

E para vocês, que coisas sem sentido, fazem sentido, quando a realidade não faz sentido? 

Podem deixar nos comentários. 

            

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Mãos






Mãos...as mãos são uma perfeição por natureza, mas o uso que lhes damos é bom e mau. 

Há mãos que se seguram uma à outra, 

e seguram outros pares de mãos, 

com todo a generosidade e bondade do coração. 

Essas são mãos que brilham, 

mesmo que a sua luz não se veja! 

São mãos que partilham, 

mãos que ajudam, 

que dão força,

que animam, 

que mimam, 

que preenchem um coração dorido, sem cor. 

Há mãos que se juntam uma à outra, 

que acreditam umas nas outras, 

pedem por elas, 

por outros, 

mãos que se unem a outras mãos, 

em círculo ou em fila 

para melhorar o mundo, 

a saúde, 

partilhar a união, 

a alegria, 

a fé, 

a música, 

o amor, 

a amizade. 

Há mãos que se estendem, 

abertas, prontas para dar, 

outras que se fecham, 

prontas para receber sem dar, 

como flores 

que se abrem e fecham 

com a luz do sol ou a noite. 

Podem ser mãos boas 

ou mãos que se fecham indiferentes. 

Há mãos que falam, 

que gritam, 

que apertam, 

que magoam, 

que matam de todas as formas, 

há mãos que pegam ao colo, 

mãos que seguram amor, 

e partilham, 

mãos que se procuram, 

umas mãos encontram-se, outras não. 

Há mãos que passeiam sozinhas, 

outras acompanhadas, 

mãos que escrevem, 

mãos que carregam pesos, 

que limpam, 

arrumam, fazem tudo, 

e mãos que não fazem quase nada, 

porque outras mãos fazem no seu lugar, 

mas são mãos que precisam de outras mãos. 

Há mãos que disparam, 

mãos que destroem, 

mãos que constroem, 

outras mãos que oferecem flores, 

mãos que cantam, 

mãos que insultam, 

mãos que animam, 

mãos que entristecem. 

Há mãos que cortam, 

mãos que se mostram, 

mãos que se escondem, 

mãos de fada, 

mãos de feras, 

mãos que abraçam, 

mãos que separam, 

mãos que empurram, 

mãos que ameaçam, 

mãos que pensam, 

mãos que tiram, 

mãos que põem. 

Há mãos que plantam, 

e mãos que arrancam, 

mãos que brincam umas com as outras, 

e mãos que põem outras mãos de lado. 

Há mãos que contam histórias, 

outras mãos ouvem-nas, 

há mãos que limpam lágrimas, 

e mãos que as provocam nos outros. 

Há mãos que criam, 

inventam, 

pintam, 

desenham, 

escrevem, 

tocam instrumentos 

e fazem outas mãos bater palmas, 

sorrir, ou emocionar-se, 

há mãos que não se tocam, 

há mãos que fogem, 

outras mãos ficam à espera.  

Há mãos que se seguram com promessas 

e mãos que são largadas ao abandono, 

sem que as promessas se cumpram. 

Há mãos que se cumprimentam,

mãos que pedem, 

mãos que se isolam, 

mãos que repousam em cima das pernas, 

mãos que seguram livros 

e folheiam páginas, 

mãos que meditam,

mãos que tricotam. 

Há mãos que acariciam animais, 

e mãos que os agridem, 

há mãos cansadas, 

outras mãos doridas, 

mãos pesadas, 

mãos leves, 

mãos que seguram outras 

independentemente da cor, 

e mãos que só querem outras iguais às suas. 

Há mãos sujas e mãos limpas, 

mãos de trabalho duro, 

mãos mimosas, 

vaidosas, que gostam de ser vistas, 

mãos valiosas, 

mãos criminosas, 

mãos amorosas, 

mãos nervosas, 

mãos calmas. 

E todas são...Mãos! 

                            Fim 

                         Lara Rocha

                      7/Fevereiro/2024 

                              



 

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Monólogo Porque foges de mim

    Porque foges de mim? Porque não tentas olhar para o meu coração? Onde está o que sou realmente! A minha cara não me define, a não ser quando ela expressa alguma emoção, como a tristeza, ou a raiva, os ciúmes e qualquer outra. 

      É uma cara como outra qualquer, só se vê por fora, agrada a uns mas não agrada a todos, tal como tu, não agradas a toda a gente, a tua aparência, mas talvez se olharem para ti, com olhos de ver, para o que está debaixo da tua cara, para o teu coração, talvez fiquem surpresos, porque, podem ficar desiludidos. 

     Vão pelo que agrada aos olhos, a fachada, mas o que diz a fachada, da pessoa, com tudo o que ela é? Vão pela imaginação, pelo desejo, pelo bonito, que se virem com olhos de ver, percebem que a fachada e o que diz, é apenas o socialmente desejável...tens ou têm uma cara bonita, e falam bem, prometem o que depois não cumprem...de que vale a fachada, e a cara bonita, se o coração é um fosso? 

       Porque foges de mim? Foges sim, não digas que não, nem tens consciência disso! Ou terás e fazes isso porque queres, porque achas que eu nunca vou perceber?! 

      Mas foges, porque para umas e uns a careta condiz com a letra, o que é esperado, mas na prática, não fazes isso? Na prática, só existe letra. Silêncio! Qual resposta, qual silêncio...indiferença. 

     Porque foges de mim? É por causa do meu aspeto? Porque não tentas olhar para o meu coração, e deixas o teu descobrir como é o meu? Não é a cara que mostra o coração, nem o que a pessoa tem de bom, enquanto pessoa, na relação contigo e com os outros. 

     Eu não estou na cara, estou no coração. Eu...aquele ser de quem tens medo, mas é lá que eu estou realmente, como sou, o que vivi, o que sofri, os meus medos, desejos, fantasias, sonhos, dores, desilusões, tal como tu. Porque sou muito mais do que o que tu vês, por fora...porque não me vês?

    Dou muito trabalho não é? Mas achas que a conquista não dá trabalho? Dá sim, e não é com duas tretas, meia dúzia de palavras agradáveis, bonitas. E o resto? 

    Sim, dou trabalho, porque a pressa desilude, não deixa a ver a realidade, não permite descobrir como somos. Para quê, ter pressa, na construção de uma amizade ou de uma relação mais séria? 

   O caminho da descoberta é muito mais bonito, isso é que preenche realmente! Cada dia, a cada encontro, deixar que os olhos conversem entre si e se descubram. 

     Mas isso não acontece na cara. Sou muito mais do que tu vês, por fora! Mas foges de mim, estás no teu direito, só que isso magoa. Tu dirás: problema teu, porque também tu, já deves ter passado pelo mesmo. 

   Porque não me vês? Nem sei se olharás para mim,...mas se olhares, não me vês, a tua resposta continua a ser a indiferença, o silêncio, mesmo com questões que não têm nada de pessoal, são apenas partilhas profissionais, que ajudariam a crescer. 

    Nem sabes o privilégio que tens, em estar a trabalhar, e não precisar de divulgar o teu trabalho, como muitos de nós fazemos, vezes sem conta, e as respostas quais são? Silêncios! Como as tuas! 

   Seria muito mais interessante e enriquecedor se houvesse partilha. Partilhei o teu trabalho, e de mais alguns, mas vocês fizeram isso por mim? Não! Isso dói, e espero que nunca passes pelo mesmo. 

    Tens uma conversa agradável, que privilégio. Mas de que adianta teres a conversa agradável, e conquistares com ela, com simpatia, se depois parece que deixo de existir para ti? 

    Porque não me vês? É a minha luz que te ofusca? Tens medo dela, é? Não sei porquê! Não tenhas. Podes aproximar-te, ver-me com olhos de ver! Ela não te queima! 

   Porque não me vês com os teus olhos interiores, não a minha cara, mas o meu coração? Está escuro? Está, mas tu também tens luz, podes usá-la para ver. 

   Porque não me vês com os teus olhos interiores? Dá muito trabalho, claro! E trabalho, é coisa que não te falta. Que privilégio. Infelizmente não é o meu, nem o de muitas mais pessoas. 

   Mas tenta...porque não? Poder ter surpresas inesperadas! Porque também queres distância de mim, sem o dizeres diretamente, percebo que é isso que queres, uma realidade que não queria ver, mas recentemente vi. Só pode! 

     Porque me ignoras? Pois, não tens tempo! Mas para outras e outros, tens todo o tempo do mundo. Podes entrar, a porta só está encostada...desde que não entres com espadas, ou paus ou pedras, garras...porque se isso acontecer, não vais conhecer o melhor de mim, e sim, o pior! 

      E nesse momento, não voltarás. Todos temos dois lados, mas somos «obrigados» educados, a esconder os piores lados, sempre que possível. Entra suavemente, com delicadeza, com palavras agradáveis, carinhosas, meigas....caminha sem pressa por entre as minhas ruas do coração! 

     Leva a lanterna, porque muitas estão sem luz. Vai tentando, e quem sabe, deixo-te entrar à primeira, ou posso estar de férias, mas prometo responder quando regressar. 

       Está nas tuas mãos, ou na tua escolha de entrar e explorar, ou olhar só para fora. Não precisas de ter medo de mim, eu não mordo, não como pedaços só quero que saibam olhar para a minha luz, e que a absorvam! Que cuidem dela, que a tratem com carinho, delicadeza e respeito, não com silêncios quando partilho qualquer coisa. 

       Onde estás? Porque não apareces? Porque não te aproximas? Vem! Se tiveres as chaves para entrar. Tenta! Espero-te, mas estou cansada! Quero esperar-te mas estou cansada! 

    Continuo à espera? Não, ao fim de tanto tempo, cansei. Não apareceste, nem dás sinal. Não, podes vir, vamos ver se te deixarei entrar. Não, não te espero mais. 


                                                                                     FIM 

                                                                      Lara Rocha 

                                                               20/Janeiro/2013 


segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

As árvores douradas


fotos de Lara Rocha 

Era uma vez um grande grupo de árvores num parque da cidade, iguais às outras, verdes, castanhas no tronco, frondosas no Verão e na Primavera, com poucas folhas no Outono e no Inverno. 

Umas tinham uns troncos largos e outros mais fininhos, mais largos e mais compridos, mais longos e mais curtos para os lados, e para cima. 

Outras tinham os troncos mais estreitos e os raminhos esguios, uns mais curtos, outros mais compridos, uns para cima, outros para baixo e outros para os lados. 

O parque era muito agradável, e visitado, principalmente de dia, mas à noite...acontecia algo mágico de grande beleza, que quase ninguém via. 

Essas árvores que pareciam iguais às outras, absorviam toda a luz do sol, todo o calor, e à noite, pareciam autênticos candeeiros. 

Ficavam todas iluminadas, a luz do sol que tinha guardada de dia, percorria  o tronco principal, como se fossem fios elétricos. 

A luz que saia deles era amarela dourada, brilhante, intensa, forte, e do tronco grande, passava para os seus troncos mais finos, nas diferentes posições. 

Umas a seguir às outras acendiam-se e aqueciam o espaço frequentado por pessoas que gostavam de ir para lá à noite, passear, ler, meditar, desenhar, tocar música. 

Algumas pessoas cortavam um tronco pequeno e plantavam como se fosse uma árvore num vaso, para ver se funcionava nas suas casas. 

Não funcionavam! Porque não ficavam ao sol, e porque tinham sido cortadas da árvore principal. Além de iluminarem e aquecerem, ainda soltavam raios gigantes de luz amarela dourada por cima de todas as casas onde havia conflitos, doentes e problemas. 

Iam aos hospitais, para ajudar as pessoas que lá estavam a curar-se. Algumas conseguiam, outras, infelizmente não. 

Não viam os raios mas sentiam a sua energia, sorriam corajosos, do «nada», sentiam-se mais calmos, e mais fortes na sua passagem. Outras pessoas conseguiam ver os raios. 

Os animais de rua adoravam dormir aos seus pés, para se aquecerem, e os troncos faziam carinhos aos cães e gatos. 

Estas árvores pareciam ter telepatia, porque quando alguém pensava nelas, ou desejava ter a sua luz por perto, os raios dourados estendiam-se e iam mesmo para a beira dessas pessoas, enchê-las de luz. 

As pessoas nem sempre a viam, mas sentiam a sua presença, energia calorosa, tranquila, relaxante. Já experimentaram tocar numa árvore? 

Experimentem, e enquanto a abraçam, imaginem que saem dela, raios de luz dourada. Como se sentem ao abraçá-la? Sentem a sua luz? Como é? 

As árvores são muito generosas para nós, fazem-nos tão bem que parecem ter luz dourada, como estas, não é? 

    Podem deixar nos comentários. 

                                      FIM 

                                 Lara Rocha 

                                14/Janeiro/2024 

    


O arco-íris sobre o mar

 


      Foto de Lara Rocha 

    Era uma vez uma ilha deserta, onde não ia ninguém a não ser aves marinhas e animais aquáticos. Era muito bonita, onde se respirava ar puro, a água era transparente e calma, ouvia-se o seu cantar sereno e melodioso com o movimento das ondas, que se mexiam sem pressa, baixinho. 

     Tinha palmeiras, areia branca e limpa, macia. Era um recanto mágico onde a entrada do ser humano não era permitida. Quem tentava entrar, voltava rapidamente empurrado pelos golfinhos que não os deixavam aproximar-se sequer!  

    Eram vigilantes atentos! Os homens pensavam que no início era brincadeira, mas rapidamente percebiam que os animais não os queriam lá, ficavam irritados e quase os atacavam. 

   As aves cantavam felizes, as gaivotas voavam por todo o lado, pousavam na areia, mergulhavam no mar, sem ser incomodadas nas palmeiras e noutras árvores selvagens. 

    As focas, os leões marinhos, as lontras, os golfinhos, os cavalos marinhos, e toda uma variedade de peixes nadavam livremente, brincavam uns com os outros. 

      Parecia uma ilha de sonho, e era mesmo, porque estava intacta. Não se sabia como tinha nascido ali, há quantos anos ou séculos,  e porque é que ninguém conseguia entrar nesse espaço. 

      Por causa deste mistério, despertava muito a imaginação de quem a via, inspirava a criação de lendas, na tentativa de encontrar as respostas que procuravam. 

    Um dia, o céu ficou escuro na praia da cidade e na ilha. Todos os animais ficaram muito assustados, agitados, inquietos. As aves voavam sem rumo, desajeitadas, assustadas, chocavam umas com as outras e caíam ao mar. 

- Mas o que é que está a acontecer aqui? - pergunta uma gaivota 

- Não sei! Não consigo voar! - diz outra 

- Parece que desaprendi ou que me esqueci de como voar! - lamenta outra assustada.

- Isto não me cheira bem! - comenta uma lontra 

- Nem a mim! - acrescenta um golfinho 

- Está a acontecer ou vai acontecer alguma coisa muito estranha! - diz um leão marinho 

   Levanta-se um forte vento, que começa a sacudir a areia, as palmeiras, as árvores, a fazer redemoinho. 

- O que é isto? - pergunta uma foca assustada 

- Não sei! Nunca vi nada assim. - responde outra assustada 

- Este vento não é normal! - comenta uma gaivota 

- E olhem a cor do céu! - repara outra ave marinha 

- Uuuuiii que medo! - dizem em coro 

     Os peixes parecem ligados à tomada, mexem-se sem saber para onde vão, parece que estão a fugir de alguma coisa. 

- Olhem os peixes! - repara um cavalo marinho 

- Estão loucos…! - responde um leão marinho assustado e espantado 

      As ondas tornam-se revoltas, enormes, como nunca as tinham visto, tudo faz redemoinho, as nuvens estão muito pesadas, parece que vão estourar, e são escuras. 

- Fujam! É uma valente tempestade! - grita outro golfinho

  Os animais escondem-se o mais rápido que podem, nervosos, assustados, e quando encontram abrigo, olham para o céu...por cima e a todo o comprimento da ilha, surge um gigantesco e lindo arco-íris duplo, e na praia da cidade mais outro. 

        Os animais ficam boquiabertos com aquele fenómeno maravilhoso.

- Áh! Que coisa tão bonita! 

- Uau! 

- Que lindo! 

- É enorme. 

- E tem outro mais pequeno ao lado! 

- Na praia da cidade também há. 

- Que raro, aparecerem aqui dois arco-íris. 

- Olhem que bonito! As cores do céu, com algum sol e estes arco-íris… 

- São mesmo! 

- Parece magia! 

- Ááááááhhhh

  Soltam grandes exclamações de espanto, parece que ficam hipnotizados por aquelas belezas, e pouco depois desaparece, com o sol, dando lugar a uma valente chuvada torrencial, vento ciclónico, que deixa os animais nervosos e aos gritos, agarrados às árvores. 

   Debaixo da água, nas suas tocas, porque o mar também está assustador, chega às palmeiras, e bate-lhes com força, parece que engole a areia. 

        A chuva faz fumo ao cair no mar. Os animais que estão fora de água ficam a apreciar, com medo, mas ao mesmo tempo encantados. Uns valentes trovões rasgam e iluminam os céus. Todos gritam e tentam fugir mas não têm para onde, voltam para o mesmo sítio. 

- Nunca vi nada assim! - comenta uma gaivota 

- Nem eu. Quer dizer, vi na outra praia… - diz outra gaivota 

- Se calhar foram os humanos que mandaram para aqui, como não os deixamos entrar…- diz outra gaivota a rir 

        Todas riem: 

- Se calhar tens razão! 

- Que medo! - grita um golfinho do mar 

- O que estás a fazer aqui fora, rapaz? - pergunta uma gaivota 

- Volta a mergulhar. - recomenda outra 

- Vim ver se já tinha passado. E se vocês estão bem! 

- Não te preocupes connosco! Estamos bem… em segurança. - diz a gaivota 

- Põe-te também em segurança! 

- Mergulha. 

        O golfinho volta a mergulhar 

- Está horrível! - comenta o golfinho com os outros 

- Ainda não passou? - pergunta outro 

- Não! Nem está para passar já.   

- E as outras estão em segurança? 

- Disseram que sim. 

- E aquela coisa maravilhosa? 

- Não estava! 

      A tempestade dura várias horas, quando acalma, os arco-íris voltam a aparecer. Os animais abrem grandes sorrisos, respiram de alívio por já ter passado a tempestade, e felizes por verem outra vez aquelas cores tão bonitas do arco-íris. 

- O que será aquilo tão bonito? - pergunta uma foca 

- Será que quer dizer que vai haver outra tempestade? - pergunta outra foca 

- Acho que não! 

- Mas não sei o que é! 

- Nem eu, mas sei que é muito bonito! 

- Ainda bem que já passou. 

- Também acho! 

- Que grande susto! - dizem em coro

        Gargalhada geral. 

- É bom que não volte a acontecer tão cedo! - diz um golfinho 

- Isso acho que é muito improvável! - diz uma gaivota 

- O quê? Acontecer, ou não acontecer? - pergunta uma foca 

- Não acontecer! - dizem todos 

- Pois. Também acho. - concorda a foca 

- É pena aquelas cores tão bonitas, desaparecerem tão rápido! 

- Deviam estar sempre ali, como o sol! 

- Também acho. 

- Olhem como ficou a areia… 

- Toda ensopada! 

- E as palmeiras… 

- Também. 

- O mar bateu ali com uma força! 

- O que nós tivemos de nos agarrar aos troncos e o que nos safou foram aquelas toquinhas. 

        Continuam a conversar, e apesar da tempestade, eles adoraram ver o arco-íris. Para eles foi uma grande e agradável surpresa! Abraçam-se todos, felizes e sorridentes, por terem escapado todos, e a paz da ilha regressa, sem a presença dos humanos, mas possivelmente com mais tempestades. 

        Mas sempre que viam o arco-íris, e sem saber o que era, para eles era qualquer coisa de mágico, e de encher os olhos com aquelas cores. Apesar do medo das tempestades, sabiam que quando estava para acontecer alguma, onde se esconder e abrigar em segurança, até passar. 

     Para eles, a melhor parte eram os arco- íris sobre a ilha que a tornavam ainda mais bonita e aguçava ainda mais a curiosidade, a imaginação dos humanos da praia da cidade, que viam aquele espetáculo natural. 

E vocês? Gostam de ver o arco-íris? 

Quais são as suas cores? 

Gostavam de estar numa ilha como estas? Sim, não, porquê? 

Já viram algum arco-íris? E uma tempestade? Sentiram medo? 

Podem deixar nos comentários.

                                            FIM 

                                       Lara Rocha  

                                   14/Janeiro/2024

        

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

A oferta da jardineira

  

fotos de Lara Rocha 

  Era uma vez uma vez um jardim público de uma cidade. Numa tarde, uma senhora que lá ia todos os dias, apreciar cada rosa e cada flor, cada cor, encantada. 

     Observava flor por flor, todos os pormenores, e era como se estivesse a vê-las pela primeira vez, fotografava-as, olhava para elas lentamente, como se estivesse a comê-las e a saboreá-las, com um sorriso. 

      Andava à volta delas, tocava nas pétalas, carinhosamente e às vezes até lhe escapavam algumas lágrimas de felicidade. Por isso, agradecia aos jardineiros e jardineiras que já a conheciam, dando a mão e dois beijinhos, sorridente: 

- Olá! Bom dia! 

- Bom dia! - respondiam todos a sorrir 

- Como está, querida? - pergunta uma jardineira 

- Bem, obrigada, e a minha amiga? 

- Também, obrigada! 

- Como não podemos estar bem, neste jardim tão bonito, tão bem tratado, por vocês? Muito obrigada a cada um e a todos por isto.

- Obrigado! - diziam todos e todas 

- Estão fantásticas estas flores! 

- São cuidadas com amor e carinho! - diz outra jardineira 

- É verdade! É como eu trato as minhas, por isso é que estão tão bonitas. 

- Não tenho dúvidas disso! - diz outra jardineira 

        Uma outra jardineira pega numa semente que ia plantar de uma flor que ela sabia ser especial, para aquela senhora. Oferece-lhe e diz: 

- Obrigada pela sua simpatia e por nos dar valor! Por isso, ofereço-lhe esta semente de flor, para plantar num vaso, e pôr onde quiser na sua casa! 

- Óh! Mas que amor....levo com muito gosto, farei isso! Estou curiosa para saber qual é. 

- Isso, minha amiga, só quando ela despertar...acho que não demorará muito! 

- A seu tempo! Sei que elas precisam de tempo, carinho, dedicação, atenção, alimento, como nós! 

- Isso mesmo! 

- Bem, vou andando! Muito obrigada e até amanhã! - diz a senhora 

- Até amanha! - respondem todos 

        A senhora regressa a casa, planta a semente num vaso, cobre com terra, rega e deixa-a à luz do sol na varanda. 

- Bem vinda à minha casa! Foste-me dada com todo o carinho por uma pessoa boa, que já conheço há muito tempo! Ias nascer num jardim público, mas ela quis que crescesses aqui, comigo! Vou cuidar de ti! Que flor serás tu, sementinha? Cresce ao teu ritmo, não tenhas pressa, eu espero! Vais passar por várias fases, passa por cada uma delas, o tempo que precisares. 

        A senhora vai fazer outras coisas, e a semente ouviu a sua voz. 

- Que voz é esta? É...meiga! Pelo menos acho que gostei do que ela disse! De onde terei vindo? 

       Nesse dia seguinte, tudo na mesma, no dia seguinte também, A Sra. fala com ela todos os dias, rega quando é preciso, põe-na ao sol. 

        A sementinha ouve com atenção e ri-se. Ao fim de algum tempo, começa a aparecer o pezinho verde pequenino, fininho, leve, com umas folhinhas e uma cabecinha...a da flor, que se cansou de estar no escuro, e achou que já podia sair. Mas ainda não se mostra. 

- Áh! Aqui parece bem melhor! - diz a flor 

        As outras flores da varanda olham-na em silêncio, mas já sabem que é nova ali. A senhora fica numa grande alegria quando vê a flor a começar a aparecer. Bate palminhas, sorri-lhe: 

- Olá! Bons olhos te vejam pequenina flor! Já estás cá fora? Hummmm... 

        E conta-lhe como foi o dia. Para as outras não ficarem ciumentas, a senhora também cuida delas. O pezinho vai crescendo e alargando, tal como a cabecinha da flor, agora, em botão. 

- Áh! És uma rosa! - diz a senhora a sorrir - como cresceste! Já estás em botão! Que linda! De que cor serás? Para já não consigo ver! Mas deixa-te estar! Quando estiveres pronta, abre! 

        De tanto falar com ela, e cuidar com carinho, amor, a flor cresce rapidamente, Começa a falar com as outras que lhe dão as boas vindas. 

- Vocês são tão bonitas! E simpáticas. Obrigada por isso!

        As flores riem: 

- Ora essa! Nós é que agradecemos! 

- Tu também és igual a nós… 

- Quer dizer....igual não, tens uma cor diferente, mas és muito simpática e bonita!

- Óhhh…A sério? Obrigada! Já se vê a minha cor? 

- Quase! - dizem todas 

- Vermelha, cor de fogo...talvez! 

- Áh! Que giro! E que claridade é esta? Às vezes é muito escuro e fresco, outras vezes, fica assim uma claridade quente! Sabem dizer-me o que é? 

- É a noite! E o sol, o dia

- Ás vezes de dia não há sol, há nuvens e chuva! Mas há alguma claridade. 

- É. O muito escuro, é a noite! Quando a nossa mãe dorme! 

- Áh! - diz a flor - então agora é dia! 

- Sim! - dizem todas 

- E com sol! - acrescenta outra 

- Que agradável que é! - diz a flor 

- Sim! 

- Vocês gostam de estar aqui? - pergunta a flor 

- Sim! Muito. 

- Somos muito bem tratadas 

- Acredito! A mãe é muito carinhosa. 

- É! - dizem todas 

- A voz dela, e o carinho dela ajudam-nos a crescer, e a ficar mais bonitas, como ela disse! 

- Que giro! E à noite quando está muito escuro, o que fazem? 

- Fechamo-nos em nós mesmas. Cobrimo-nos com as nossas pétalas, quando há sol abrimo-nos para receber a claridade e guardar o calor que nos aquece à noite. 

- Áh! 

        As flores têm longas conversas, e riem. Uns dias depois, a flor cada vez maior, abre-se e mostra a sua cor. A outra flor tinha razão: ela é uma rosa cor de fogo, com rajadas vermelhas, cor de laranja, amarelas e uns toques de rosa. 

        As outras flores ficam maravilhadas com ela. 

- Áh! Ela tinha razão! És mesmo cor de fogo. Que bonita! 

- Vocês conseguem ver as minhas pétalas? 

- Sim! Já estás grande e aberta! 

- As nossas cores são todas diferentes! 

- Pois são! - dizem todas 

- Lindas, lindas! 

- Obrigada. Tu também és! 

        A Sra. chega da rua, e vai ter com as flores. Solta uma grande exclamação de surpresa e encanto: 

- Olá minhas belezas! Já viram a vossa amiga, como também é bonita? Que cores maravilhosas! Estás enorme. 

        A Sra. acaricia as pétalas de cada uma das rosas, sorri como costuma fazer no jardim, onde vai, fotografa e mostra `jardineira que lhe ofereceu a semente. A jardineira e as outras ficam deliciadas com aquela beleza. 

- Como é bonita essa rosa! É como a senhora. Não sabia o que estava na semente, mas é realmente especial. E como está enorme! Falou muito com ela, não? - pergunta a jardineira com um sorriso

- Sim, como falo com todas as outras! Mais uma vez muito obrigada por este presente! 

- De nada! Dei-lhe com todo o gosto, por dar valor ao nosso trabalho! 

- Claro que dou valor ao vosso trabalho! Se não fossem vocês isto não existia nem estaria bonito! 

- Obrigada, obrigado! - dizem em coro, jardineiras e jardineiros 

- Obrigada, nós! E volte sempre. Estamos por aqui. 

- Que bom que estão por aqui! 

        Dão um abraço, sorriem, e as flores tratam muito bem da rosa cor de fogo! São uma verdadeira família de flores. Conversam, riem, apreciam a paisagem de dia, surpreendem-se com as mudanças do tempo.

       Sentem o vento, abraçam-se  e encostam-se mais umas às outras quando está mais frio, veem a chuva, adoram ouvir o seu barulho a cair, e às vezes também apanham com algumas gotas.  

        Sentem o sol, e adoram o seu calor, a claridade, à noite recolhem-se e descansam. A Sra. nunca as abandona. Vai todos os dias falar com elas, quando está a chover tocada à vento, e quando está frio, ela puxa-as para uma zona coberta da varanda, põe um biombo à sua frente para não se molharem, rega-as, acaricia-lhes as pétalas, uma por uma, e elas agradecem com a sua beleza. 

        Já pensaram como os jardineiros dos jardins das cidades são importantes? São eles que tornam esses espaços tão bonitos aos nossos olhos que adoramos fotografar, e apreciar. São os jardineiros e jardineiras que põem as flores na terra e cuidam delas com carinho e amor regam-nas, alimentam-nas, falam com elas e mantêm o espaço à sua volta, limpo. 

        A minha gratidão a todos os jardineiros e jardineiras que fazem tudo para ajudar a natureza a presentear-nos com a sua beleza! E a todas as pessoas que têm flores em casa e cuidam tão bem delas com carinho, dedicação, atenção e amor! 

E vocês tratam bem das flores? Gostam de as ver? Conhecem alguém que trate de flores? Agradeçam-lhes por tratarem tão bem delas. 

                                            FIM 

                                       Lara Rocha 

                                     10/Janeiro/2024