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sábado, 15 de fevereiro de 2014

OS SONHOS?


          Era uma vez uma noite de Verão, numa aldeia, onde todos os meninos já dormiam. Enquanto dormiam, aconteceu uma coisa muito estranha…acordaram e ficaram sem sonhos! Voltaram a dormir e continuaram sem sonhos. Nunca tinha acontecido. E mais estranho ainda…na manhã seguinte, todos os meninos descobriram que nenhum tinha os sonhos.
DIANA – Como pode ser? Tivemos todos o mesmo sonho?
NUNO – Não pode ser, dormimos em casas diferentes, e em camas diferentes, não falamos uns com os outros antes de dormir…
SARA – Ficamos todos sem sonhos!
RITA – Como é que isto aconteceu?
TODOS – Não sei.
HUGO – Alguém roubou os nossos sonhos.
FRED – Mas roubou, para quê? Como?
ISABEL – Cada um tem os seus sonhos!
PEDRO – Pois…e os sonhos não são objectos, como os roubaram?
DIANA – Então como explicas o desaparecimento deles?
SARA – Alguém os veio buscar!
TODOS – Quem?
NUNO – E como os roubou? Abriu-nos a cabeça e aspirou os nossos sonhos?
ISABEL – Tens alguma ferida ou marca na cabeça?
NUNO – Não.
FRED – Pode ter sido com uma máquina super poderosa a leyser ou qualquer outra tecnologia.
HUGO – A nossa cabeça não é nenhuma caixa de abrir e fechar para se poder meter e tirar coisas de lá, nem sonhos, nem pensamentos.
TODOS – Pois não.
RITA – Então, o que aconteceu com os nossos sonhos?
TODOS – Não sei.
ISABEL – Será que dormimos esta noite?
TODOS – Sim!
ISABEL – Então se dormimos, tínhamos de ter sonhado.
DIANA – Espera…será que não sonhamos…ou será que sonhamos e não nos lembramos do que sonhamos?
TODOS – Huumm…
PEDRO – Eu lembro-me muito bem que estava a sonhar, e de repente acordei…aí deixei de sonhar, mas devia ter continuado a sonhar, quando voltei a adormecer, e tenho a certeza que não sonhei.
SARA – E que tal se procurássemos os sonhos?
TODOS – Boa!
HUGO – Temos aqui um grande mistério.
NUNO – Estaremos atentos a tudo o que acharmos estranho.
TODOS – Sim.
NARRADORA – Durante todo o dia procuraram os sonhos por todo o lado. Treparam às árvores para ver se estavam lá em cima, mexeram as folhas todas para ver se estavam entre as folhas, ou se algum animal os estaria a comer…Umas árvores riem, outras resmungam.
ÁRVORE 1 (a rir) – Ai, estás a fazer-me cócegas! Pára quieto.
ÁRVORE 2 (a rir) – Pára…olha que eu deito-te abaixo!
ÁRVORE 3 (resmunga) – O que estás a fazer aqui rapariga? Os rapazes é que se penduram nas árvores.
SARA (ri) – Desculpa lá…até parece que as meninas não podem fazer o mesmo!
ÁRVORE 3 – Não é comum…
SARA (ri) – Não é comum mas acontece! Se eu fosse um rapaz tu deixavas-me trepar?
ÁRVORE 3 – Dependia.
SARA – Dependia do quê?
ÁRVORE 3 – Do que me fizesses, e de como me tratasses.
SARA – Estou à procura dos meus sonhos.
ÁRVORES – Dos teus sonhos?
ÁRVORE 3 – Que sonhos?
SARA – Esta noite fiquei sem sonhos.
ÁRVORE 2 – Não dormiste?
SARA – Dormi.
ÁRVORE 1 – Então…?
SARA – Dormi, mas não tive sonhos.
ÁRVORE 2 – Não é preciso ter sonhos todas as noites!
ÁRVORE 1 – Até podemos sonhar de olhos abertos, e acordados.
ÁRVORE 3 – Sim, claro. Além disso…o que é que as árvores têm a ver com isso?
ÁRVORE 2 – Estás a dizer que fomos nós?
ÁRVORE 1 – Nós não saímos daqui.
ÁRVORE 3 – Nós nem passarinhos roubamos quanto mais…isso de…sonhos…!
SARA (sorri) – Não estou a dizer que foram vocês. Estou só a ver se alguém nos tirou os sonhos e deixou em qualquer sítio seguro…Podia ter acontecido, não?
ÁRVORES – Difícil.
ÁRVORE 1 Nós não somos assim tão seguras…pelo menos…para esconder coisas facilmente.
ÁRVORE 2 – Isso jamais poderia ter acontecido…os únicos que se escondem aqui são os bichos entre as minhas folhas, para se protegerem da chuva e dos caçadores.
ÁRVORE 3 – Somos qualquer coisa, menos esconderijos de sonhos.
SARA – Não viram por aqui ninguém estranho?
ÁRVORES – Não.
SARA – Então se calhar estavam a dormir.
ÁRVORE 1 – Minha filha…nós ouvimos os barulhos das profundezas da terra, e a revolta das nuvens…como não ouviríamos passos…o nosso descanso é leve!
SARA – Ouvem os barulhos da terra? Como?
ÁRVORE 2 – As nossas raízes, também são os nossos ouvidos.
SARA – E que barulho faz a terra?
ÁRVORES – Muitos! 
ÁRVORE 1 – Muitas vezes ouvimos o seu coração a bater…
ÁRVORE 2 – A sua respiração…
ÁRVORE 3 – O seu frio.
ÁRVORE 1 – O seu calor…
ÁRVORE 2 – A sua revolta…
ÁRVORE 3 – E tudo o que ela sente, nós também sentimos.
ÁRVORE 1 – Queres um conselho, menina…? Mesmo que não queiras, eu vou-te dar…vai dormir…que os sonhos voltam a aparecer…
(Todas riem)
ÁRVORE 2 (a rir) – Bela sugestão.
ÁRVORE 3 (a rir) – É a melhor solução de todas as que alguma vez imaginei! Muito boa! E fácil…
SARA – Vocês não sonham?
ÁRVORES – Às vezes…
ÁRVORE 1 – Mas somos mais…fabricantes de sonhos…
ÁRVORE 2 – É…quando se sentam no nosso colo, muitos pintores e poetas, constroem sonhos…
SARA – E os sonhos constroem-se?
ÁRVORES – Claro.
ÁRVORE 1 – Depois de construídos, uns não funcionam, outros perdem-se e desfazem-se, outros não se realizam, e outros…até acontecem! Mas fabricam-se todos…
SARA – Então porque não funcionam todos?
ÁRVORE 2 – Talvez porque são mal construídos, ou faltam pedaços para funcionarem na perfeição.
SARA – Então, se não funcionam bem, ou se faltam peças, deviam concertá-los não?
ÁRVORES – Sim.
ÁRVORE 2 – Mas há sonhos que não têm concerto.
SARA – Porque não? Muita coisa tem concerto, por isso, acho que os sonhos também podiam ter.
ÁRVORE 3 – Filha, os sonhos são construídos, também com sentimentos e emoções, quando se estragam não têm concerto.
ÁRVORE 1 – E há sonhos que são únicos…insubstituíveis…se são destruídos pela desilusão, não têm concerto.
SARA – E o que fazem com esses?
ÁRVORE 1 Ficam guardados para recordação, como as fotografias.
ÁRVORE 2 – Usamos para reconstruir alguns sonhos.
ÁRVORE 3 – E para construir novos.
SARA – Áh! Estou a ver…
ÁRVORES – Encontraste-os?
SARA – Os sonhos não…só disse que estou a perceber o que querem dizer…bem, vou procurar noutro sítio.
ÁRVORES – Isso!
ÁRVORE 1 – Boa sorte!
ÁRVORE 2 – Não desistas.
ÁRVORE 3 – Estamos a torcer por ti.
SARA (sorri) – Obrigada. Se virem alguma coisa estranha, por favor, digam.
ÁRVORES – Sim, está bem!
      Procuram nos troncos das árvores que têm buracos, nas flores, nos cogumelos, na relva, nas flores, nas cascatas, nos riachos, campos, nas tocas dos coelhos, nos lagos, entre as folhas das espigas de milho, nos legumes que estão a nascer…e nada! Dos sonhos nem sinal. Chega a noite, e todos estão na expectativa para ver se esta noite os sonhos voltarão. Os meninos deitam-se, adormecem, e esta noite, como na anterior, ficam outra vez sem sonhos…quem roubou os da noite anterior, também roubou os dessa noite. Ontem ninguém tinha visto nada, porque quem roubou tornou-se invisível e não passou por ali, mas hoje, a coruja que estava pousada na árvore mais alta da aldeia, de olho bem aberto, atenta ao mais pequeno ruído, sentiu alguma coisa estranha.
CORUJA – Quem está aí?
          O ladrão dos sonhos ficou gelado, e não tinha como fugir, transformou-se em humano. Ele sabia que com as corujas não se brinca, então, achou melhor dizer a verdade.
CORUJA – Quem és? Sei que estás algures por ai…é melhor apareceres.
LADRÃO (resmunga) – Mas que raio de olhos…estou feito!
CORUJA – Bem me parecia…! Não falha. O que fazes aqui, intruso?
LADRÃO – Vim…só…passear!
CORUJA – Passear a esta hora, por aqui…pela fresca, claro! Sei…! Achas que eu nasci ontem…estás enganado! Sei muito bem quem vive aqui, e quem vem aqui…quantas vezes…sei muito bem que nunca nos vimos antes. Além disso, está tanto calor, que vieste de colete, não foi? O que tens debaixo do colete…?
LADRÃO – Ora…debaixo do colete, tenho…a minha pele e o meu esqueleto…
CORUJA – Sim, sim…e os teus músculos, e as tuas veias, e o teu sangue…desenrola…sei que tens aí outra coisa!
LADRÃO – Não tenho nada!
CORUJA – Tens sim.
LADRÃO (nervoso) – Ora, para que é que queres saber? És algum fiscal?
CORUJA – Sou.
LADRÃO – És polícia?
CORUJA – Sou. Toda a gente que aqui passa, tem que ser revistado.
LADRÃO – Até os habitantes?
CORUJA – Até os habitantes.
LADRÃO – Porquê?
CORUJA – Por segurança. Este é um sitio de paz…Mostra!
LADRÃO – Já disse que não tenho nada!
CORUJA – Vamos…
LADRÃO – Que chata. És mesmo gaja.
CORUJA – Isso é bom ou mau? Sim, sou mulher…
LADRÃO – Vê-se logo! Tão chata, com tanta pergunta…já descobriste tudo!
CORUJA (sorri) – As mulheres são assim!
LADRÃO – Ninguém vos pode dizer nada.
CORUJA – Pode…o pior é que temos sensores de mentiras e vocês não!
LADRÃO – Infelizmente tenho de concordar contigo.
CORUJA – Até já sei o que levas aí…mas quero ouvir da tua própria boca.
LADRÃO – O quê?
CORUJA – És tu a dizer-me! E aconselho-te a dizer o que realmente é…caso contrário, ligo o alarme e será muito pior.
LADRÃO – Alarme?
CORUJA – Claro! Quem rouba dispara o alarme!
LADRÃO – Roubo? Mas…mas, eu…não roubei nada!
CORUJA (irónica) – Não? Óh…mas que injustiça a minha…estou a acusar-te de uma coisa que não fizeste! Coitadinho! Mil desculpas…continuas a achar que eu nasci ontem? Se não roubaste, porque não mostras o que tens debaixo do colete?
LADRÃO – Já te disse que não tenho mais nada além do que todos temos.
CORUJA – Sei…mas então…o que é esse volume?
LADRÃO – Não é nada!
CORUJA – Não é nada…pois…(irónica) sou eu que estou a ver a mais, não é?
LADRÃO – É. Com esses olhos grandes demais!
CORUJA (ralha) – Anda…mostra. Abre o colete, ou eu ligo o alarme e vamos ter sérios problemas. Já estou a perder a paciência contigo.
LADRÃO – Ah…não…não…não é preciso! Calma.
CORUJA – Se não roubaste, podes mostrar…é bom partilharmos.
LADRÃO – Sim, sim.
          Ele abre o colete e todos os sonhos voam, como se fossem bolas de sabão com asas, e vão para os meninos que estão a dormir e voltam a ter sonhos.
LADRÃO (triste) – Óóóhhh…
CORUJA – Que bonito…! Não tinhas nada…só tinhas a tua pele, os teus músculos, as tuas veias, o teu sangue…o que toda a gente tem, não é?
LADRÃO (suspira, triste) – Ai! (envergonhado)
CORUJA – Os sonhos dos meninos andavam a voar por aí, perdidos, e tu…como és bonzinho…apanhaste-os e guardaste-os aí, no teu colete para não terem frio, ou para não lhes acontecer nada, não foi?
LADRÃO (envergonhado) – Foi!
CORUJA – Foi. Claro que sim…eu sei que sim! Mais uma vez, eu fui injusta contigo, não foi?
LADRÃO – Não!
CORUJA – O que estavas a fazer com os sonhos dos meninos?
LADRÃO – Nada!
CORUJA – O que querias fazer com os sonhos dos meninos?
LADRÃO – Nada!
CORUJA – Nada? Roubaste os sonhos aos meninos para nada…? Isso não existe.
(O ladrão começa a chorar, envergonhado)
CORUJA – Que coisa mais feia…primeiro, roubar…e depois…roubar para nada!
LADRÃO – Óh, eu não roubei nada.
CORUJA – Então porque os tinhas no colete?
LADRÃO – Porque queria ver o que são sonhos!
CORUJA – O quê?
LADRÃO – Sim! Eu não sei o que são sonhos…toda a gente fala em sonhos, e eu não sei o que é…sou pobre! Não tenho dinheiro para comprar sonhos.
CORUJA – Óh, santa ignorância…os sonhos não se compram! Ricos ou pobres…todos têm sonhos.
LADRÃO – Eu não tenho.
CORUJA – Como não tens? Não dormes?
LADRÃO – Muito pouco.
CORUJA – Então tens sonhos.
LADRÃO – Durmo mas não tenho sonhos.
CORUJA – Tens sonhos sim…mas não sabes o que são…quando dormes, não vês imagens como se estivesses a ver um filme?
LADRÃO – O que é um filme?
CORUJA – É o que dá na televisão.
LADRÃO – Não tenho televisão.
CORUJA – Não tens televisão? Mas sabes o que é não sabes?
LADRÃO – Aquela caixa quadrada que tem um vidro com pessoas a falar lá por trás?
CORUJA – Isso mesmo.
LADRÃO – É. Não tenho.
CORUJA – Mas vês imagens a dormir?
LADRÃO – Acho que sim.
CORUJA – De certeza que sim. E também podes sonhar de olhos abertos. Imaginar coisas que gostavas de ter, ou de fazer, ou de ser…
LADRÃO – O meu sonho é sobreviver e acordar cada manhã.
CORUJA – Ora aí está. Esse é um sonho que realizas todos os dias, mas tens mais…!
LADRÃO – Sim, ser rico!
CORUJA – Outro sonho…todos sonhamos ser ricos…uns conseguem, outros não. Uns são mais, outros são menos.
LADRÃO – Uma casa maior…
CORUJA – Outro sonho. Já fizeste alguma coisa para esse sonho se realizar?
LADRÃO – Ainda não recebi dinheiro. Era por isso que eu ia roubar os sonhos dos meninos para vender e ter dinheiro para os meus sonhos.
CORUJA – Óh, filho…não é a roubar aos outros que conseguimos realizar os nossos sonhos! Os sonhos pertencem a cada um neste nosso mundo. Cada um, tem sonhos comuns, e tem os seus próprios sonhos. Os sonhos não são como a roupa, ou como os alimentos que se vendem ou que se trocam…são de cada um.
LADRÃO – Então eu não ia vender aqueles?
CORUJA – Não. Podes ter a certeza que ninguém tos ia comprar.
LADRÃO – Porquê?
CORUJA – Porque os sonhos…são construídos, por cada um. Não servem para todos. Cada sonho é diferente, cada pessoa tem um sonho diferente.
LADRÃO – E os meus sonhos?
CORUJA – Tens de os construir, e fazer alguma coisa para os conseguir, sem roubar, e sem fazer mal aos outros.
LADRÃO – E como é que eu os construo?
CORUJA – Na tua mente…como aqueles de ter uma casa, uma televisão, e todos os outros. Lembra-te que infelizmente nem todos os nossos sonhos se realizam, mas há muitos que são possíveis, só que para isso temos de reunir tudo, e fazer o que se pode…
LADRÃO – Não consigo!
CORUJA – Não consegues o quê?
LADRÃO – Sonhar!
CORUJA – Claro que consegues sonhar.
LADRÃO – Não tenho sonhos!
CORUJA – Claro que tens sonhos, e esses que disseste podes muito bem realizá-los.
LADRÃO – Como? Se não tenho dinheiro?
CORUJA – Tens de trabalhar para conseguires dinheiro! Ele não cai das árvores, nem nasce por aí…tens de te dedicar a eles.
          A Coruja e o rapaz têm uma longa conversa, sobre sonhos e como realizá-los. O rapaz fica muito mais feliz, e cheio de força, vai procurar trabalho. Muita gente ajuda-o, e aos poucos, sempre com um sorriso na cara, o rapaz junta dinheiro para realizar o seu sonho de ter uma casa, e uma televisão. Com tanto dinheiro que juntou deu muito melhores condições de vida à família e ficou muito mais feliz e orgulhoso, por conseguir realizar os seus sonhos sem ter de roubar. Os meninos que andavam à procura dos sonhos, nunca mais ficaram sem eles. No dia seguinte, o rapaz pediu à coruja para reunir os meninos, e pediu-lhes desculpa pelo que fez. Eles perdoaram-no e ao saberem que era muito pobre, ofereceram-lhe roupas e outras coisas que não precisavam, e o pai de um dos meninos tratou das obras de reconstrução da casa dele que estava prestes a cair. Ganhou novos amigos…uma segunda família e sempre que podia, agradecia às famílias e aos meninos, com pequeninas ofertas. É mesmo assim…todos precisamos de ter sonhos para vivermos, e para ter algum coisa por que lutar…uns conseguimos concretizar, outros não…mesmo assim, devemos sempre construí-los e lutar por aqueles que são bons, essenciais ou mais possíveis de realizar. Os outros…ficam guardados na nossa caixinha dos desejos. E não precisamos de roubar ou fazer mal…tirar aos outros o que é deles, para termos e construirmos os nossos sonhos. Basta fecharmos os olhos, e deixar que as bolas de sabão com asas que povoam a nossa cabeça, os construa.

FIM
Lálá
(10/Fevereiro/2014)




sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Um amor bruxo-esquelético

Era uma vez uma noite de Lua Cheia, no Verão, numa cidade comum a todas as nossas cidades. Enquanto de um lado, havia barulho de discotecas, música prestes a rebentar tímpanos, gente por todo o lado, que mais pareciam ratos a sair de esgotos, numa correria e euforia loucas, bares, cafés, gritos, risos e discussões, abraços, beijos, e muitas outras coisas mais…do outro lado, existia um mundo paralelo. Muito diferente do citadino. Um sítio muito mais calmo, mais silencioso, com menos gente, pouco iluminado, e rodeado de montes, com casas, túneis, grutas e uns locais de diversão nocturna muito particulares, com uma música horrivelmente diferente daquela que se ouve nas discotecas citadinas. Nessa noite, uma linda e sexy bruxa nova, recebeu a visita de um demónio pequenino, vestido de vermelho, caudinha a dar a dar, corninhos que davam luz, e uma voz diabolicamente doce. Ele lamenta-se:
- (canta) Menina que estás à Lua com os teus cabelos… ai…varreu-se-me! Há aqui muitas bruxas à volta…eu sinto as interferências. A minha sorte é que nem preciso de cantar, para todas gostarem de mim…lindo como eu sou…! As bruxinhas não me resistem! É pena depois aparecerem intrusos que estragam tudo…! No inicio é tudo muito bonito, muito bom…mas depois…tudo voa nas vassouras delas…só pedem aqueles incógnitos…ai, meninas, meninas…que faltinha de gosto! Mas…quem sou eu para discutir gostos…só…faço o que me pedem! Estou para ver quando vai aparecer a minha diabinha metade! Pena…acho que não tenho tempo para…amores…só para…fedores. Ai, que triste sorte a minha. Uau, que jeitosa…! Óh filha, para que pedes um esqueleto…estou eu aqui, e sou bem melhor…!
(Bate na janela da bruxa)
- Boa noite, princesa bruxoca…está alguém em casa?
- Lá vem mais um…que chatos…! Ainda se fossem jeitosos…
(Ela levanta-se, e olha para a janela. Dá um grito assustada, e abre a janela)
- Ááááhhh…o que fazes aqui?
- Olá minha bruxosa linda…
- Mas que descaramento…não me conheces de lado nenhum.
- Conheço-te sim! Vim realizar o teu desejo…
- Que desejo? Não pedi nenhum desejo.
- Pediste sim…pediste…um amor…
- Ááááhhh…já me lembro. Mas eu não pedi um amor por…uma figura como tu.
- (sorri vaidoso) Ai, que simpática! Meu amor…desculpa, mas não posso corresponder-te.
- Que nojo. Eu não estava a falar de ti…nunca escolheria uma coisa como tu.
- (sorri) Óhhh…tão fofinha…Olha que se continuas com esses elogios todos, quem se vai apaixonar por ti, sou eu.
- (ri) Convencido!
- (ri) Ai…que riqueza…o esqueleto vai derreter…
- Esqueleto? Que esqueleto?
- O esqueleto dos teus sonhos.
- Onde é que ele está?
- Vais encontrá-lo hoje.
- (entusiasmada) Hoje? Onde?
- Por aí!
- Que resposta esclarecedora…por aí…por aí…é muito espaço! Como é que eu vou saber quem é?
- Vais saber.
- Como?
- Ele vai dar-te sinais.
- Ele quem?
- O teu esqueleto.
- Mas eu não pedi o meu esqueleto…pedi outro esqueleto.
- Ai, valha-nos todos os monstrengos e mais alguns…! Óh bruxa…acorda…não é o teu esqueleto que vais encontrar…esse já o tens debaixo da pele… é o esqueleto dos teus sonhos…o que me pediste!
- Áh!
- Ele vai ter contigo, não te preocupes.
- O que é que eu tenho que fazer?
- Tens de sair…e passear por aí.
- Só isso?
- Sim. E deixar que tudo aconteça naturalmente.
- Áh…está bem! Se era só isso, porque demoraste tanto?
- Porque tenho muitos pedidos.
- Invejosas.
- Todas querem o mesmo…! Não posso fazer tudo ao mesmo tempo, nem no mesmo dia.
- Está bem.
- Agora vai.
            A bruxa arranja-se toda, e sai de casa, pronta para a conquista. O diabinho continua o seu trabalho. A bruxa desfila sexy, e olha para todo o lado. De repente, ouve um esqueleto a tocar violino e a cantar, sentado no chão, encostado a um tronco de uma árvore. A bruxa pára, e fica maravilhada com o que ouve, parece que fica hipnotizada. O esqueleto olha para ela, e o seu coração dispara, salta do peito e saltita pelo chão. Ele volta a meter o coração no peito, e olha para a bruxa a sorrir, encantado com ele. Está todo a tremer. A bruxa sorri.
- Olá…estavas a tocar tão bem, e a cantar maravilhosamente…porque paraste?
            O esqueleto fica cheio de luz, embaraçado, e o coração lateja com luz.
- (sorri) Ah…eu…gostaste?
- (sorri) Sim, muito!
- (sorri) Obrigado. Senta-te.
- Toca outra vez, por favor…
- Está bem…
            O esqueleto toca uma linda melodia e canta, feliz. A Bruxa ouve-o deliciada, e suspira. Aplaude. O esqueleto tira do violino uma rosa vermelha e oferece à Bruxa. Ela fica toda derretida e dá um beijo ao esqueleto. Ele treme todo e sorri.
- Ai…és um verdadeiro cavalheiro.
- (sorri) E tu ainda não viste nada.
- Ai…até me arrepio…
- (sorri) Isso é bom!
- É.
- Vamos dar uma volta?
- Sim…onde quiseres.
- Estás sozinha?
- Sim…quer dizer…agora estou contigo.
- Eu quero saber se…
- Não, não tenho namorado, nem filhos, nada…e tu?
- Eu também não.
            Os dois vão passear, completamente encantados um com o outro. Conversam, riem, e vão para a beira de um lago. Sentam-se a apreciar a lua, e do lago saem coraçõezinhos brilhantes a latejar. Circundam o casal, e desaparecem na pele dos dois. Os dois olham-se fixamente, a sorrir, e o esqueleto pega na mão da bruxa, delicadamente. Beija-lhe a mão, a bruxa estremece toda, derretida, e ele sorri.
- Que bruxa mais linda…nunca tinha visto igual.
- Mentiroso…com tanta bruxa bonita.
- É verdade, são bonitas, mas nenhuma fez saltar o meu coração como tu!
- (sorri) A sério?
- (sorri) Sim!
- Então quer dizer que…
- Que és especial. Eu sei que és tu o esqueleto dos meus sonhos.
- Óh…tu és a bruxa dos meus sonhos…
            Os dois beijam-se, e os mochos e as corujas começam a cantar.
- Sim, é verdade! – Dizem os dois em coro
- (esqueleto a sorrir) Nascemos um para o outro!
- (sorri) Sim, agora sei que sim…
- Óh minha bruxinha…porque demoraste tanto a aparecer?
- Não sei, minha rainha terrorífica…! Também esperei muito tempo por ti, mas o que importa é que apareceste.
- Pois é!
- Vamos recuperar o tempo perdido, amor...meu esqueleto metade!
- Sim...vamos ser felizes…!
            Os dois beijam-se, e passeiam de mãos dadas, abraçam-se felizes, caminham, conversam.
- Toca para mim, meu esqueleto elegante.
- Tudo o que quiseres, minha preciosidade…
            O esqueleto põe-se de joelhos e toca para a bruxa. A bruxa fica maravilhada, e aplaude. Um coro de morcegos canta, e os dois dançam muito abraçadinhos as músicas românticas. Aplaudem e agradecem. Depois, o esqueleto leva a bruxa a passear para uma praia romântica, numa vassoura, que a bruxa transforma numa potente mota. O esqueleto aplaude, e deliciam-se com o passeio de mota. E ao amanhecer, os dois vão dormir juntos para uma gruta. Este amor durou para sempre, com momentos muito românticos e foram felizes para sempre...

                                                           FIM
                                                           Lálá
                                               (7/Fevereiro/2014)
Desenho de Lara Rocha 



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Os barquinhos


Era uma vez um menino que construiu vários barquinhos. O primeiro foi em papel. O menino lançou-o ao rio, mas pouco tempo durou, porque o papel desfez-se.
- Óh! Que pena.
Construiu outro em esponja. O menino lançou-o ao rio. A esponja boiou algum tempo, mas com tanta água, ficou muito pesada e afundou.
- Mas…onde foi parar a esponja…? Como é que ela se afundou? Ou foi alguém que a roubou?  
Depois, o menino construiu outro, com uma casca de bolota, que pintou e lançou ao rio. Acompanhou-o até que o barquinho caiu numa cascata, desceu rapidamente e mergulhou.
- Não posso acreditar! Óh…volta, barquinho, volta…
Mas o barquinho não voltou. A casca de bolota serviu de alimento a uma tartaruga que vivia por trás da cascata, que viu a casca e comeu, mas depois por causa da tinta, a tartaruga ficou mal-disposta. Tomou um chá de algas e tudo passou.
- As tartarugas comem cascas de bolotas? Não…! Ela não deve ter comido…acho eu. Aquilo era muito duro, e tinha tinta.
O menino ficou muito triste porque perdeu o barquinho de casca de bolota. Voltou para casa e construiu um barquinho de nenúfar. Lançou-o ao rio. O barquinho seguiu ligeirinho e o menino acompanhou-o para ver onde ia parar. Mas o barquinho de nenúfar, foi parar à boca de uma fada do rio, que o comeu deliciada, num abrir e fechar de olhos. Ela adora comer nenúfares.
- Que atrevida…! Gulosa! Isso não é para comeres…! – Ralha o menino
- Também querias? – Pergunta a fada do rio
- Não era para comer! – Diz o menino
- Olha, veio parar aqui, é porque é para comer. Tudo o que vem à rede é peixe. – Diz a fada.
- Isso não é peixe.
- Pois não…é muito melhor que peixe! Huummm…estava mesmo delicioso. Muito obrigada amigo!
- Era o meu barco! – Grita e chora o menino
            A fada mergulha indiferente a rir. E o menino lá perdeu outro barquinho. Volta para casa, muito triste, mas não desiste! Desta vez, constrói um barquinho, feito de casaca de noz. Convencido de que ia ser forte e ninguém o ia levar, lança o barquinho de noz ao rio. O barquinho anda ligeiro e em círculos quando a corrente é mais forte.
O menino ri, mas logo chora, quando de repente, um esquilo esfomeado dá um valente mergulho na água e engole o barquinho de casca de noz, trincando-o. O menino resmunga, mas o esquilo pôs-se em fuga.
Lá volta o menino para casa muito triste, sem o barquinho. Chegou a casa e construiu outro barquinho, com uma tabuinha de madeira que sobrou de umas obras que o seu avô fez. Lançou o barquinho ao rio, mas este não se mexeu…ficou a boiar na água, a balançar de um lado para o outro, até que vem uma enorme águia pelo ar e agarra com as suas enormes garras, a tabuinha.
- Dá cá isso! – Ainda grita o menino, mas a águia não lhe ligou.
            O menino volta a ficar muito triste, e constrói um barquinho de folha de palmeira. Lança-o ao rio, e a folha começa a andar sozinha, devagar.
- Áh! Este vai resistir. – Diz o menino a sorrir.
            Mas estava muito enganado! Quando ele menos esperava…aparece um urso enorme que mergulha para pescar um peixe e enrola-o na folha da palmeira.
- Óh! Não…não posso acreditar.
            O urso levanta-se e olha para o menino com ar de ameaçador. O menino fica com tanto medo que desata a fugir.
- Óh, não…já cá faltava este! Até este…Ai…socorro! Fica lá com o barco…ai, ai, ai…!
O urso seguiu para outro lado, depois de apanhar mais alguns peixes suculentos. Depois de tantas tentativas falhadas, o menino desata a chorar, e pede ajuda ao seu pai e ao seu avô para construir um barco.
Os dois ajudam o menino a construir um belo e enorme barco de madeira resistente, bem montado, bem colado, envernizado, à prova de água e com espaço para ele se sentar. O menino ficou muito contente e puseram o barco no rio. O menino foi passear no seu barco com o pai a vigiar e tudo correu bem.
- Boa, pai…boa Avô…muito obrigado. Vocês são os maiores.
Mesmo com tantas tentativas falhadas, o menino não desistiu, e construiu de vários materiais até chegar ao mais resistente. Vocês também não devem desistir, e devem tentar sempre, mesmo que não consigam fazer sozinhos, peçam ajuda aos adultos…porque afinal todos precisamos de ajuda uns dos outros…não sabemos tudo, não fazemos tudo…não resolvemos tudo só por nós.

FIM
Lálá
(6/Fevereiro/2014)


O balão

NARRADORA – Era uma vez um grupo de meninos e meninas que estavam ao ar livre, numa noite quente de Verão, com uma lua cheia gigante e um céu estrelado. Os meninos estavam a conversar e a apreciar a noite.
LUISINHA – Que linda noite!
TODOS – Pois está.
RITA – Gostava tanto de voar até lá cima, onde estão as estrelas, e vê-las mais de perto…ver o nosso planeta lá de cima…!
TODOS – Eu também.
GONÇALO – Mas não ias conseguir ver nada. Ias ficar tão longe.
RITA – Levavas uns binóculos.
TODOS – Pois.
FRANCISCO – Só se fosses de foguetão.
RITA – Não! Preferia ir de balão.
DANIEL – De balão? Não pode ser…morríamos! Não há ar lá em cima…!
SARA (resmunga) – És sempre o mesmo!
DANIEL – É verdade!
NARRADORA – Enquanto os meninos estão distraídos na conversa, um ser muito especial, na atmosfera, ouviu a conversa.
SER – Estas crianças são maravilhosas! (sorri) Tão pequeninos, tão puros…mas já com um peso…sem capacidade de sonhar e de viajar nos sonhos, pelo mundo da imaginação, com os livros. O que se passa com estas crianças? Elas não costumam ser assim tão…grandes em ponto tão pequeno! Não gosto nada disso…menino…que não acreditas que podes tocar nas estrelas, ou chegar mais perto delas…aqui vai uma prova como podes!
NARRADORA – O lindo ser…tinha corpo de mulher, era transparente e todo o seu corpo tinha estrelas…era uma mulher feita de estrelas, linda! Ela dança e a cada movimento gracioso e elegante que faz, liberta estrelas. Apanha-as com carinho e junta uma por uma, até formar um balão flutuante, transparente, cheio de estrelas a cintilar, como ela. Ela sorri e sopra devagar o balão. O balão começa a descer sem pressa, leve, lindo, cheio de luzinhas…de repente os meninos vêem uma coisa a descer do céu. Ficam boquiabertos e maravilhados.
TODOS – Ááááhhh…!
SARA – Olhem!
DANIEL – O que é isto?
RITA – Parece um avião.
FRANCISCO – Ou é uma nave espacial?
DANIEL (convicto) – Uma nave espacial? Achas que sim? Isso é só nos filmes!
RITA – Está a descer.  
GONÇALO – Será que é um meteorito?
LUISINHA – Aquilo não é um meteorito. Não tem forma disso, nem de uma estrela cadente. Está a andar…devagar!
SARA – Então pode ser um satélite.
(Quando o balão pousa no seu terraço ficam todos assustados)
SER – Não tenham medo! Este é o balão que vos vai levar a tocar nas estrelas!
TODOS (sorriem) – Ááááhhh…
SER – Subam à vontade! Não tenham medo. É seguro.
(Os meninos sobem para o balão que fecha uma cápsula e tem oxigénio, e uma janela panorâmica. Os meninos estão maravilhados)
TODOS – Que lindo! Uau!
SER – Boa viagem!
GONÇALO – Olha que não podemos demorar muito…a mamã pode ficar preocupada!
SER – Não te preocupes. A viagem é rápida.
LUISINHA – Mas quem és tu que estás a falar?
SER – Sou filha do universo e da noite…uma das muitas!
TODOS – Filha do universo e da noite?
SER – Sim! Encantem-se com a paisagem!
NARRADORA – O balão feito de estrelas começa a subir, a subir…e começam a ver as estrelas muito perto. Soltam grandes exclamações e sorriso de alegria e de encanto, tocam no vidro, as estrelas sorriem-lhes e colam-se aos vidros, enviam beijos, os meninos retribuem e tocam nos vidros. Vêem os planetas ao fundo, e as estrelas dançam para eles, de mãos dadas, deixando atrás delas um rasto de brilho que cria lindas imagens…os meninos aplaudem, encantados, e as estrelas escrevem a seguinte mensagem: «Muito obrigada pela vossa visita! Voltem sempre. Boa noite e bons sonhos. Boa viagem!». Todos agradecem e o balão começa a descer lentamente, todo o espaço é lindo, dá vontade de ficar lá mais tempo, mas estão a descer! A Lua, estende a sua mão, pega na cápsula, delicadamente, lança um fio seu, com luz branca brilhante, cheio de pequeninas luas. Embala os meninos se estivessem numa cama de baloiço, com estrelinhas e sóis a cantar docemente… parece um coro de anjinhos, e os meninos começam a ficar com muito sono, até que adormecem quase sem dar por isso, em cima de almofadões feitos de nuvens. O balão aterra na varanda, desfaz-se, e os meninos ficam deitados nos grandes almofadões a dormir. As suas mães estranham tanto silêncio, e quando vão á varanda reparam que estão todos a dormir. Cada mãe arrasta os almofadões devagar para dentro de casa, e cobre o seu menino, para não os acordar. Todos dormem até ao dia seguinte. Será que eles foram mesmo ao espaço, num balão feito de estrelas, ou…apenas tudo não passou de um sonho? O que acham? Também gostavam de ir ao espaço? Se pudessem ir, como iam? O que viam?

                                                           FIM
                                                           Lálá
                                                           (6/Fevereiro/2014)

                                  


sábado, 1 de fevereiro de 2014

A ESTRELA BONECA DE LATA



Era uma vez uma boneca de lata, muito bonita, mas ninguém gostava dela porque fazia muito barulho. Ela ficava muito triste porque via toda a gente a brincar em grupo, felizes e a rir, e ela…sempre sozinha. Logo que se aproximava dos outros meninos, todos fugiam. Os seus pais já não sabiam o que fazer.
Um dia, estava ela a choramingar na beira do rio, a ouvir a água a cantar docemente, quando passava nas pedrinhas e nas cascatas.
- Óh! Quem me dera cantar tão bem como esta água que passa pelas pedras! Quem me dera andar levezinha…de sapatos…quem me dera não ser assim. Porque é que eu tinha de ser assim!
- Porque reclamas tanto, latada? – Pergunta um sapo do rio
- Latada? Até tu…?
- Óh, desculpa…não te quero ofender!
- Tudo bem, já estou habituada.
- É que eu não sei o teu nome.
- Podias-me ter chamado menina, por exemplo, e depois perguntavas o meu nome! Só reparaste no que sou feita.
- Sim, é verdade. Tens razão, desculpa. Tu és feita de lata.
- Eu sei…não precisas de me lembrar.
- Porque estás tão queixinhas?
- Não estou queixinhas, só estou a desabafar.
- O que é isso que estás a fazer?
- Estou a desabafar.
- E para que fazes isso?
- Para não ficar tão triste.
- E resulta?
- Mais ou menos.
- Então se não resulta, porque fazes isso?
- Eu não disse que não resultava! Resulta alguma coisa…mas continuo triste. Tu também ficas triste?
- Claro que sim. Muitas vezes.
- E o que fazes nessa altura?
- Canto…ou…choro…ou…suspiro…sei lá…muitas coisas.
- E resulta?
- Resulta. E tu como é que desa…b…qualquer coisa…aquilo que tu disseste?
- Desabafo?
- Isso!
- Transformo as minhas lágrimas em palavras!
- Áh! Tens poderes especiais?
- Não. Nem isso.
- Então como é que transformas lágrimas em palavras? É que…que eu saiba, só quem tem poderes especiais é que transforma.
- Não é desses poderes que estou a falar…estou a falar daquelas pessoas como os poetas, os pintores, cantores ou actores e dançarinos, que mostram o que sentem de outra maneira.
- Áh! Estou a perceber! E tu és uma dessas pessoas?
- Não! Sou só uma boneca de lata. Falo em vez de chorar.
- Muito gosto…eu sou um sapo! E porque não choras?
- Às vezes também choro. E tu?
- Com certeza que sim. Mas porque é que estás tão triste?
- Porque todos se afastam de mim…! Não gostam de mim.
- Como é que sabes? Já lhes perguntaste?
- Nem preciso de lhes perguntar, eles mostram.
- Como?
- Todos fogem quando apareço, e não me convidam para brincar.
- Porquê?
- Porque faço muito barulho.
- Fazes muito barulho…como assim?
- Eu sou feita de lata, e ao andar faço barulho.
- Mas é só por isso que eles não gostam de ti?
- Sim. Acho que sim!
- E que culpa tens tu de ser feita de lata? Eu sou um sapo…podemos ser amigos, eu e tu, não?
- Claro que sim. Só se não gostares de mim.
- E porque não haveria de gostar de ti…? Mas…que barulho é que fazes? Ora…anda um bocadinho para eu ouvir.
- Tu queres ouvir o meu barulho?
- Quero.
- De certeza?
- Sim…caso contrário não te pediria para andares.
         A boneca de lata anda um pouco e faz barulho.
- Estás desafinada!
- Desafinada? Eu…? Eu não sou um instrumento de música!
- Tu fazes música…tocas música…ao andar, ao correr…
- Sou uma boneca de lata…
- Que toca música.
- Onde estás a ouvir a música?
- Em ti…vou fazer de ti uma estrela.
- O quê?
- Sim. O teu som…é música! Só precisas de uns pequenos acertos!
- Não estou a perceber.
- Eu sou um sapo…
- Sim, já reparei, e eu…sou uma boneca de lata!
- Bem sei, e depois?
- Depois…tu és música, e eu sou canto!
- Tu cantas?
- Canto.
- Pois…que sorte! Eu não! eu só faço barulho.
- Barulho? Onde está o barulho?
- Em mim!
- Não ouvi barulho nenhum…ouvi…música! Música não é barulho.
- Porque dizes que sou música? Eu não toco, nem canto, nem sou instrumento…ui…sapo…que olhos são esses? Estás bem?
- Estou a pensar…
- Ficas assim quando estás a pensar?
- (grita) Já te viste ao espelho?
(A boneca estremece e encolhe-se)
- Não. Nem sei o que é isso.
- Anda cá!
O sapo puxa a boneca de lata, e leva-a a uma gruta, onde tem um espelho.
- Bem - vinda ao meu estúdio! – Diz o sapo vaidoso e feliz
- Estúdio?
- Sim! É onde me preparo para os meus espectáculos.
- Tu fazes espectáculos?
- Faço. Sou cantor, e tu vais trabalhar comigo!
- Mas…a fazer o quê?
- A acompanhar-me. Tens um som maravilhoso para acompanhar vozes de sapos.
- Estás a ser sincero?
- Muito sincero. Olha para ti…como és bonita!
- (sorri) Obrigada. Eu sou esta?
- Sim! Vamos começar hoje…vou chamar a rapaziada.
         O sapo coaxa e aparecem vários outros sapos, no estúdio.
- Olá! – Diz o sapo
- Olá! – Respondem em coro
- Temos visitas? – Pergunta outro sapo
- Temos um novo elemento na família da banda.
- Um novo elemento? – Perguntam em coro
- Sim. Ora ouçam o som dela. É lindo! Por favor…anda…
         A boneca fica tão feliz que anda e dança livremente, fazendo vários sons diferentes, uns mais suaves, outros mais agudos. Os sapos ficam de boca aberta, maravilhados.
- Ááááááhhhh…! – Exclamam os sapos
         Todos aplaudem.
- Apoiadíssimo! – Diz outro sapo
- Lindo! – Exclama outro sapo
- Maravilhoso…! – Suspira outro sapo
- Vai ser um sucesso! – Diz outro sapo entusiasmado
- Não tenham dúvidas. Bravo, minha querida! Agora, vamos cantar e tu, voltas a dançar, está bem?
- Sim!
         Os sapos coaxam e a boneca de lata dança a vários ritmos, que fazem vários sons e acompanha na perfeição os sapos. Os sapos aplaudem a boneca de lata. Nessa mesma noite, toda a floresta vai assistir ao primeiro de muitos concertos de Verão dados pelos sapos, e pelas cigarras e grilos, acompanhados com as danças e os sons da boneca de lata. O primeiro de muitos que se seguiram. Toda a plateia fica muito surpresa, aplaude de pé, oferecem flores, tiram fotografias, pedem autógrafos, e passam a dar muito valor à boneca de lata. A partir daí, todos querem ser amigos da boneca. O sapo tinha razão…transformou mesmo uma boneca de lata, que todos diziam que fazia barulho, numa estrela, e ele e os outros sapos trataram-na como um elemento da família, com respeito e carinho. Ela era para os sapos…uma mãe…ou uma irmã que os ajudava a cuidar de si mesmos e da casa… de tudo o que fosse preciso.

FIM
Lálá
(31/Janeiro/2014)