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terça-feira, 17 de setembro de 2024

A brincadeira da menina Outónia

Foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma menina chamada Outónia que todos os anos visita o Planeta Terra, mas este ano está desmotivada e triste, revoltada, porque de ano para ano, deixam de reparar na sua chegada. 

Ela gosta de ser o centro das atenções, adora oferecer coisas bonitas, mas se não reparamos nesses presentes, fica triste. Nos últimos anos, a Outónia percebeu uma grande mudança na forma como os habitantes lidam com ela. 

A pobre menina tem-se sentido invisível, reparou que muitos dos habitantes vão a olhar para os telemóveis, completamente absorvidos naqueles minúsculos aparelhos, pela rua e em todo o lado. 

Passa por todos, e ninguém a vê, nem um sorriso, nem para uma árvore ou uma simples folha olham, ou um passarinho pequenino. A menina Verona que estava quase de saída da sua estadia em Portugal, vê a Outónia a espreitar à janela numa nuvem, triste, a olhar para Portugal. 

- Olá Outónia! - diz a Verona 

- Olá! - responde a Outónia 

- Como estão a correr as tuas férias? - pergunta Verona 

- Bem, e as tuas? - pergunta Outónia 

- Também! Já estou quase de regresso a outro lugar. 

- Eu não vou para aí este ano. 

- Não vens? Como não vens? 

- Não! Podes ficar aí mais tempo, ou a Invernia já pode vir também. 

- Mas...o tempo dela ainda não chegou! Não podemos passar umas por cima das outras, chegamos para tudo. E somos amigas, vimos para aqui no tempo que temos de vir. Eu ainda tenho mais lugares para onde ir! Tenho sempre alguém que me substitua, e és tu, Outonia! A mãe, quer assim. 

- Eu sei, mas arranjem outra! A Primavera ou inventem outra! - diz a Outonia desanimada 

- Não me parece que isso possa acontecer, ou que alguma vez vá acontecer! 

- Azar o deles. Também, não fará diferença para esses aí. 

- Quem? 

- Os que vivem aí em baixo.

- Porque não? Claro que faz diferença. Eles precisam de nós as quatro, todos os anos. 

- Isso era antes! Agora só querem aquelas coisas nas mãos, só olham para aquilo e nós não existimos. 

- Isso é verdade, e é triste, mas não é caso para não vires, porque ainda há quem repare em nós. Ainda vejo gente a passar sem essas coisas nas mãos, e a olhar para as árvores, para as folhas, a sorrir por sentirem o vento, crianças divertidas a pisar folhas que caem...- relembra a Verona 

- A sério? 

- Sim. Estás triste, já percebi! - diz Verona 

- Eu cansei de ser ignorada! Se não for, não faço diferença. 

- Óh! Não digas uma coisa dessas, vens e logo vês! Há sempre alguém que repara em nós. Tu é que só estás a ver e a pensar em quem não repara...para quê? Para ficares triste. Mas quem repara, fica feliz de nos ver. 

- Achas? 

- Tenho a certeza! Anima-te. Está quase a chegar o teu dia. 

Chegou o dia em que a Verona saiu de Portugal, e a Outónia chegou. Como estava triste, trouxe muitas nuvens carregadas e frio. Ouviu muitas reclamações, de gente que passou cheia de pressa, passeou vagarosamente. 

E quando viu todos a olhar para os ecrãs, dá um grande espirro, que faz cair gotas de chuva e abana as árvores de onde caem milhares de folhas em cima das cabeças, em cima dos telemóveis, da roupa, dos pés, das pessoas que passavam. 

Sacudiram as folhas e continuaram, muito irritadas. 

- Nem assim...- murmura a Outónia, zangada 

Foi para os sítios que a amiga Verona indicou, onde reparavam nelas. As aldeias dos arredores da cidade. Levou um vestido brilhante, de sol, parecia de ouro, com as cores das folhas no Outono, e desfilou pelos campos. 

Os girassóis, as espigas de milho, as uvas, as castanhas que espreitavam dentro dos ouriços, as nozes, reconheceram-na. Abriram um grande sorriso, suspiraram de encanto e gritam em coro: 

- Olá Outónia.

- Olá! - responde a Outónia a sorrir 

- Muito bem vinda! - diz um girassol 

- Que bonita que estás! - diz uma castanhinha 

- Obrigada! - diz a Outónia a sorrir 

A Outónia não cabe nela de felicidade. 

- Obrigada por estares de volta! - diz uma videira

- Uau! Sempre bonita. Fizeste boa viagem? - elogia uma espiga 

- Sim, obrigada. Ainda pensei não vir, mas depois a Verona convenceu-me. 

- Ora...porque não vinhas? - pergunta uma folha de videira 

- Não podias faltar, nem pensar! Fazes muita falta. - diz uma uva

- Claro! - dizem todos 

- Obrigada, por repararem em mim. 

De repente, os donos da casa vão para o campo, olham em volta e reparam que tudo está muito mais bonito, muito maior, brilhante, luminoso, com cores vivas e uma brisa suave. 

- Áh! Que maravilha. - suspira um Sr. já com alguma idade 

- Ela chegou! - diz a esposa a sorrir 

- Quem? - perguntam os adultos

- A Outónia. - respondem todos os mais velhos 

- Quem é essa? - perguntam surpresos 

- Então? Que dia é hoje? Não é hoje que começa o Outono? Ai essas cabeças. Não admira, só veem telemóveis à frente - resmunga outra senhora 

A menina Outónia dá uma gargalhada, com vontade, e aplaude. Os adultos ficam um pouco envergonhados. 

- Muito boa! Afinal não sou só eu que reparo e resmungo - diz a Outónia a rir 

Os rapazes e meninas mais novas, filhos dos adultos, estão completamente absorvidos com os telemóveis, nem reparam, nem estão atentos à conversa dos adultos. 

Chegam ao campo, os mais novos sentam-se debaixo de uma grande árvore, um castanheiro, com os telemóveis ligados, sem falarem sequer uns com os outros, enquanto os pais e os avós trabalham na apanha de fruta (uvas, castanhas, espigas, nozes), conversam e riem entre eles, encantados com as surpresas da Outónia. 

A Outónia fica irritada com o que vê, crianças que em vez de estarem a correr pelos campos e a ajudar os adultos, a apreciar as coisas bonitas, estão debaixo de uma árvore a olhar para ecrãs pequenos, sem conversar. 

- Meninos, larguem essa coisa, e venham mas é para aqui! - grita o Avô zangado 

Foi como se o Avô não tivesse falado. Os dois Avôs aproximam-se, zangados: 

- Não ouviram o que o Avô disse? - grita um dos Avós 

- Larguem isso! - grita o outro Avô 

Não respondem, nem olham para os Avós. A Outónia, muito irritada, dá uma ajuda: gira, gira, gira e volta a girar sobre si mesma, depressa, a soprar, e faz levantar uma montanha de folhas do chão para cima das crianças da cabeça até aos pés. 

Elas gritam, o vento é tão forte que lhes tira os telemóveis das mãos, e atira folhas de várias cores brilhantes, para a cara delas, faz cair ouriços no chão, aos pés deles. 

As crianças gritam assustadas, mas ficam encantadas com as folhas. Os Avós riem e agradecem à Outónia: 

- Muito bem, Outónia. 

- Era o que nós íamos fazer! 

- Muito obrigado! 

Os pais das crianças ficam muito surpresos e envergonhados. 

- É, meninos, venham para aqui. - diz a mãe 

- Larguem isso e venham brincar com a Natureza! - diz o pai 

- Pois claro! - murmura e aplaude a Outónia a rir 

- Agora estais a falar? - pergunta um Avô 

- Nem deviam trazer isto para aqui. - diz o outro Avô 

- Também acho - diz a Outónia a rir 

- Na vossa infância, não tinham nada disto, e eram mais saudáveis, mais felizes. - lembra uma Avó 

- Mesmo! Até eu era mais feliz - ri a Outónia 

- Já para ali. - grita um Avô 

- Excelente! - diz a Outónia 

- O que vamos fazer com isto? - pergunta uma criança 

- Óh valha-nos...nem têm imaginação para inventar brincadeiras com folhas. - comenta um Avô 

- Nós sabíamos bem o que fazer com elas! - comenta o outro Avô 

- Brinquem com as folhas, criaturas! - grita o outro Avô 

- Inventem. 

- Não sabemos como brincar com isto! - diz uma menina 

- Santa Ignorância! - comenta a outra Avó 

- Vão ver aos telemóveis. - diz outra senhora que está a ajudar, a rir-se 

Todos dão uma gargalhada. 

- Como brincamos com elas, pai? - pergunta outra 

- Não acredito que estão a perguntar isso! - diz a Outónia, surpresa 

- Então...puxem pela imaginação, elas estão em cima de vocês, aos vossos pés, inventem! 

- Também acho! - diz a Outónia 

- Na nossa geração, sabíamos bem como brincar com elas. 

- Confirmo! - diz a Outónia 

- Tendes aí castanhas, para apanhar, e tirar os ouriços. - diz outra mãe 

- Como se faz isso? - pergunta outra criança 

Os adultos nem querem acreditar. Os mais velhos ensinam os mais novos, a brincar com as folhas, dão ideias, brincam com eles, ensinam as crianças e apreciam com elas a beleza de cada folha. 

Ensinam como se tiram as castanhas dos ouriços, mostram a beleza das uvas, das maçãs, das espigas, provam-nas, ajudam a apanhar os frutos, as nozes, e as castanhas. 

Num instante, as crianças divertem-se e inventam novas brincadeiras. A Outónia aprecia, deliciada e sorridente, orgulhosa, vaidosa, ri às gargalhadas com o vento. 

A Outónia ri às gargalhadas com o vento, não se lembraram mais, nem procuraram mais os telemóveis. Viram passarinhos que andavam por lá desde sempre, mas só nesse dia os viram, e ouviram o seu canto, porque nos outros dias estavam a olhar para o telemóvel. 

Fizeram carinhos nas penas, viram os girassóis nesse dia e nunca tinham visto, viram as lindas uvas e folhas que nunca tinham visto. Saborearam, sentiram o sabor das maçãs, das uvas, o vento na cara e no cabelo a fazer-lhes mimos, sentiram as castanhas, nozes, abriram ouriços, coisas que nunca pensaram ver, nem fazer, deram água e alimento aos animais da quinta. 

Os adultos perceberam como eles estavam felizes,  e que tudo era muito mais saudável do que os jogos eletrónicos e os telemóveis, naquelas idades. 

Nos dias seguintes, as crianças não quiseram saber dos jogos eletrónicos, divertiram-se como nunca, e ajudaram os adultos. A Verona tinha razão! 

Em cada aldeia por onde a Outónia passou, era valorizada e apreciada, reparavam na sua chegada e ganhavam saúde, estavam sempre à espera dela para fazer festas, brincadeiras, apreciar tudo o que ela lhes dava, todas as surpresas. 

Faziam danças, desenhavam, fotografavam, cantavam, aprenderam a fazer pão de milho, centeio, a apanhar cereais, comeram pipocas, desfolharam espigas, brincaram com elas, fizeram bolos com os produtos do Outono, e perceberam que tudo o que está fora dos telemóveis vale a pena ver, apreciar, contemplar, tocar, provar, cheirar, brincar, sentir, aprender coisas novas, e ser feliz. 

A Outónia ficou tão feliz que retribuiu e encheu os habitantes de mimos. 

                                                       FIM 

                                                   Lara Rocha

                                                11/Setembro/2024  

E vocês? 

O que fazem no Outono? 

Já experimentaram estas coisas tão deliciosas que a Outónia oferece? 

Já viram a Outónia a chegar? 

Como a imaginam se ela fosse uma menina? 

Podem desenhá-la, ou escrever nos comentários. 

Estejam atentos...ela está a chegar, quero ver quem a vai apreciar, e recebê-la com carinho.  





domingo, 1 de setembro de 2024

Somos fortes




 Somos fortes ou fazemo-nos de fortes? 

Umas vezes somos, 

outras vezes fingimos que somos. 

Mas o fingir não dura para sempre. 

Um dia, 

queremos fingir que somos fortes, 

mas todo o nosso corpo 

e principalmente as nossas lágrimas traem-nos. 

Tiram-nos a máscara de fortes! 

Não quer dizer que somos fracos, 

afinal apenas significa que…

um dia cansamos de fingir que somos fortes. 

Um dia as máscaras caem e ficamos despidos, 

porque um dia cansamos de fingir que somos fortes, 

o fingimento não dura para sempre 

e o que se encontra por trás das máscaras de fortes 

também não fica lá para sempre. 

Somos humanos, 

não somos fantoches, 

não temos máscaras…

as máscaras 

mais cedo ou mais tarde derretem…

e tudo se revela. 

Umas vezes somos realmente fortes, 

sem máscaras, 

outras vezes fingimos que somos fortes. 

Até que a máscara cai e não conseguimos mais. 

Nem fingimos mais que somos fortes. 

A força não se vê na máscara. 

Vê-se nos momentos 

em que ela se revela por trás da máscara, 

e nesse momento, 

não há fingimento que nos valha! 

Tudo passa a ser real, seja o que for. 

Podemos conseguir fingir…

até que os olhos perdem a força. 

Sim, 

eles também cansam, 

nós podemos fingir, 

mas os olhos não. 

                                        Fim 

                                   Lara Rocha 

                                  27/Abril/2014 

sábado, 31 de agosto de 2024

Se tiveres

Era uma vez uma menina adolescente, que queria chorar, mas o seu sofrimento era tão grande, a angústia era enorme, que guardava e segurava todas as lágrimas para si. 

Sentia muita vergonha de chorar, porque todos lhe diziam para não chorar, que era uma vergonha, que não tinha motivos para tanto, ficava com cara feia se chorasse e outros comentários. Chamavam-lhe chorona, mimalha, bebé, e outros nomes. 

Ela ficava triste, queria chorar, e não conseguia. Tinha as suas desilusões que a deixavam triste, mas mesmo assim, não conseguia chorar. Então, duas lágrimas dos seus olhos, fartas de estar presas, de estarem quase a sair, e não conseguirem, lembraram-se de falar com ela, para ver se finalmente conseguiam sair. 

- Se tiveres uma lágrima, deixa-a cair. - diz uma lágrima 

- Quem são vocês? 

- Somos as tuas lágrimas. 

- Áh. Não me interessam! Desapareçam, não quero falar convosco. Nem sequer vos estou a ver. Acho que estou a ouvir coisas. 

- Não! 

- Somos mesmo nós, as tuas lágrimas!  

- Aquelas que não deixas sair, aquelas que queres deixar cair, mas não deixas. 

- Não posso! - diz a adolescente 

- Porque não? 

- Nós estamos sempre na esperança de cair, quando pensamos que vamos cair, tu voltas atrás. 

- Isso faz-te mal. 

- Faz mal? Faz mal é ouvir aqueles comentários por chorar, por isso é melhor ficarem aí no vosso canto, dentro dos olhos. 

- E tu gostas disso? 

- Não, mas não tenho alternativas! 

- Porque não? 

- Porque toda a gente diz que não posso chorar. 

- Só cada um sabe porque nos deixa cair, e ainda bem! É para isso que servimos. 

- Mas que disparate! 

- É. 

- E eles não choram? 

- Não. 

- Mas tu não queres chorar? 

- Nem penso nisso. 

- Mas queres! 

- Nós sabemos que queres. 

- Como é que sabem? 

- Porque quando pensamos que vamos finalmente sair, tu recuas e não saímos outra vez. 

- Pois, porque não posso chorar. 

- Mas queres! 

- Às vezes.

- E porque não choras? 

- Porque chamam-me nomes feios. 

- Estás preocupada com o que dizem, e fazem o mesmo? 

- Sim. Não gosto de os ouvir a chamar isso. 

- É mais importante deixares-nos sair, quando queres, sempre que queres, do que dares ouvidos a esses comentários, de quem também choram. 

- Acham? 

- Temos a certeza - dizem as duas 

- Como é que sabem? 

- Ora...nós existimos em todos os olhos. Caímos de todos os olhos. Desde os olhos mais pequeninos, que ainda mal veem o mundo, aos olhos mais enrugadinhos que choram de tristeza, ou solidão, de dores. Nós vemos milhares de lágrimas a cair de milhões de olhos. 

- Óh sim, isso é triste. 

- E como fazem isso? 

- Caímos, esses milhares de olhos, deixam-nos cair, quando querem, sempre que precisam, às vezes às escondidas, e tu nem às escondidas. 

- E tu, dás-nos esperança, e de repente, voltas a fechar-nos. 

- Mais uma vez, quase saiamos, e tu prendeste-nos outra vez. 

- Porque...porque...não sei, porque não posso! 

- Que insensível. 

- Áhhhh...!

- Deixa-nos cair, como fazem todos os olhos! 

- Quer dizer, alguns, porque os teus, não nos deixam cair.  

- Não a prendas! - diz outra lágrima 

- Não nos prendas! - dizem as duas 

- Não posso deixar cair lágrimas. 

- Porque não? 

-Nunca outra ouvi. 

- Toda a gente as deixa cair. 

- Não! 

- Deixa- a cair. 

- Não a prendas. 

- Mas porque vou deixar-vos cair? Para me chamarem nomes feios? 

- Esquece os nomes feios. 

- A lágrima limpa a tua alma.

- Tira-te as dores! 

- Acaricia-te a pele do rosto. 

- Põe-te os olhos a brilhar. 

- Não te magoa! 

- E nunca te desilude ou trai. 

- Deixa-nos cair! - pedem as duas lágrimas dos dois olhos 

A adolescente, faz-lhes a vontade, deixa-as sair, elas gritam de felicidade, escorregam pela cara abaixo como se estivessem num escorrega de um parque radical, riem à gargalhada. 

- Uaaaaaauuuu. - gritam as duas 

- Finalmente! 

- Que lindos olhos! 

- Estão brilhantes. 

- Nós dissemos-te. 

A adolescente sorri e continua a deixar cair lágrimas, estas sentem-se felizes.  Na descida, beijam e acariciam a cara da adolescente, ela sorri. 

- Obrigada por nos libertares! 

- Não nos prendas mais. 

- Deixa os comentários para lá, e deixa-nos sair, não nos prendas! Por favor. 

- Está bem! - promete a adolescente

E  desde esse dia, a Adolescente, deixou de se preocupar com os comentários dos outros, e a deixar cair as lágrimas sempre que precisava, sempre que estava triste, sempre que se sentia desiludida, angustiada, ou magoada. 

As lágrimas não cabiam nelas, de felicidade, por poderem sair dos olhos, e a Adolescente até ganhou abraços, novas amizades, por deixar cair as lágrimas. 

Deixou de se fazer de forte, e percebeu que realmente todos os olhos devem deixar cair as lágrimas, seja de dor, tristeza, felicidade, raiva, frustração, desilusão e outras emoções que nos invadam. 

Porque engolir as lágrimas dói, fazermo-nos de fortes, quando o momento não é para isso, dói, adoece o corpo e a alma. Uns choramos com mais facilidade do que outros, nem que seja às escondidas, mas quem julga os outros por estarem a chorar, talvez nunca tenha experimentado a liberdade e a saúde de deixar cair as lágrimas.

                                                                                                    FIM 

                                                                                               Lara Rocha

                                                                                              7/Abril/2014  

E para vocês é fácil chorar? 

O que vos faz chorar com mais facilidade? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 

                


sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Os olhos dourados do bebé

 

Foto e boneco de Lara Rocha 

    








Era uma vez um bebé, que vivia numa floresta com os seus pais e família, numa árvore. 

 Quando estava calor, dormiam num monte de relva fofa, macia, aos pés da árvore, e quando estava frio, dormiam dentro da árvore. 

Durante o dia aproveitavam o calor natural do sol, e a sombra, no cimo da árvore. 

Todos se conheciam nessa floresta, e de vez em quando, era visitada por pessoas.

Um dia de Verão, um grupo de crianças foi com adultos visitar a floresta, de dia. 

De repente, viram um lindo bebé a dormir em cima da relva fofa, aos pés da árvore, coberto por uma mantinha. 

  Os pais estavam no cimo da árvore, descansados, porque sabiam que o bebé estava em segurança, e sempre vigilantes. Os vizinhos também davam uma olhadela. 

Os visitantes aproximaram-se, deliciados com a beleza do bebé. 

Quando este abriu os olhos, eram de cor amarelo dourado, de pestanas longas, cabelos que pareciam penas, muito bem tratados e luminosos, brancos com tons azulados. 

Era uma fofura. Os visitantes assustaram-se, e o bebé também. 

Um adulto descansou o bebé, a sorrir: 

- Olá pequenino, não te vamos fazer mal. Que lindo que tu és! 

    O bebé retribui o sorriso. 

- É um animal bebé… 

- Não! Acho que é humano. 

- Os humanos não têm esta cor de olhos, e a cara dele, não parece humana, igual à nossa. 

- Mas é muito bonito! 

- É. 

Os pais desceram, e aproximaram-se, eram uns lindos pássaros de uma espécie rara, com penas enormes, de muitas cores, pareciam pavões, olhos igualmente amarelos dourados que brilhavam. 

Todos ficam espantados, com a beleza deles, surpresos. 

- Áh! Que lindos, estes pássaros. 

- Diz outro adulto. 

- Nunca os tinha visto! 

- Nem eu. 

Cumprimentaram os visitantes, abrindo as gigantescas e longas penas. 

- Olá! 

- Olá. 

- Que pássaros tão bonitos, são de uma espécie rara, não? 

- Sim! 

- Mas temos mais família aqui. - acrescenta o pássaro 

- E são parecidos convosco? - pergunta um adulto 

- São. - respondem os dois 

- Nunca vimos esta espécie por aqui. - diz outro adulto 

- Pois, é normal. Nós não estamos sempre em exposição. 

- Áh, claro. 

- Este bebé...conhecem? - pergunta um adulto 

- Sim, conhecemos! 

- É nosso filho. 

- Filho? - perguntam todos 

- Sim, não sabem o que são filhos? - pergunta a mãe 

- Sabemos, claro, mas...não estávamos à espera de ver assim uma família tão diferente e tão bonita. - diz uma adulta 

- Mas deixam o bebé aqui assim, sozinho? - pergunta outra adulta 

- Ele não está sozinho, temos vizinhos que vão deitando o olho, e nós também estamos ali em cima, sempre vigilantes. - explica a mãe 

- Áh! E conseguem vê-lo dali? 

- Perfeitamente! - diz o pássaro 

- Já sabemos as horas a que ele adormece, a que ele acorda, quando se assusta, tal como vocês, humanas. É que lá em cima está calor para ele. - explica a mãe 

- Claro! - dizem todas 

A mãe pega no bebé e todos ficaram muito surpresos, porque pensavam que era um bebé humano. 

Afinal, era um bebé pássaro, de uma espécie rara, com peninhas pequeninas pelo corpo todo, em tons azulados, com os olhos amarelos dourados, peninhas na cabeça, e umas garrinhas que impunham respeito. 

- Áhhhh! - Exclamam todos 

- É um passarinho bebé? - pergunta uma criança 

- Sim! - dizem todos 

- Pensávamos que era um bebé humano como nós. - diz uma adulta a rir

Os pássaros riem e os visitantes também. 

- Mas ele não tem nada de humano. - diz uma adulta 

- Pois não, agora que vimos, mas enquanto estava deitadinho, todo enroscadinho, a dormir, cobertinho, pensávamos que era um bebé. 

- Óh, tão fofinho! - suspiram todos os humanos, encantados 

- Que lindo! - diz outra humana 

- Ele não tem as penas iguais a vocês, pais! - repara uma criança

- Tu também não és igual aos teus pais, pois não? - pergunta a mãe 

- Dizem que não…! 

- Claro que não. Desculpe a indiscrição (ri) são crianças. - diz outra adulta 

- Ora essa, sabemos bem como são as crianças. Faz parte, e é bom que elas reparem nessas diferenças! O nosso filho pode também não ter as mesmas cores que nós, quando crescer, ou pode ter algumas. Não sabemos, mas pela família...não tem acontecido, os filhos serem muito parecidos ou iguais aos pais. - explica a mãe 

- Com certeza. Nós humanos, também não somos iguais, dentro de casa, ainda mais diferentes, fora. - diz outra adulta 

- Ele ainda vai ganhar cor nas peninhas, estas vão cair, e vão nascer umas coloridas, como as nossas. Quando nascemos, temos estas cores azuladas, mas à medida que vamos crescendo, ganhamos outras. - explica a mãe 

- Áh! Que giro. É como o nosso cabelo quando somos bebés, e crianças, e a cor de olhos, ou os traços da cara. - acrescenta outra adulta 

- Pois. Ele ainda não anda, nem voa. 

- Tem tempo! - diz outra adulta 

- Claro que sim, e nós também, porque a infância é a idade mais bonita e passa tão rápido. - diz a mãe 

- Mesmo! - concordam todas as humanas e humanos

- Bem, não vos vamos incomodar mais! - diz uma humana 

- Não incomodam. - diz a mãe 

- Já estamos habituados a receber visitas. - diz o pássaro pai 

- Voltaremos noutro dia. - diz uma adulta 

- Quando quiserem. - diz a mãe 

- Obrigada, e desculpe. - diz outra adulta 

- Foi um gosto! - diz a mãe 

Cada um faz festinhas ao passarinho pequenino, os seus olhos brilham mais intensamente, e sorri. 

Todos retribuem a doçura com um sorriso e carinhos. 

- Voltaremos. - dizem todos 

E como prometido, passados uns dias, o grupo estava lá outra vez, brincaram com o passarinho, e com os pais, riram muito. 

O passarinho cresceu, e o grupo acompanhou as mudanças das penas, realmente, tão bonitas como as dos pais. 

Estes ganharam um amigo para a vida, foram muitas vezes à floresta, brincar e conversar com o passarinho que cresceu rapidamente, mas adorava correr com as crianças, brincar com elas, mostrar-lhes sítios encantados. 

O pássaro dava abraços carinhosos, com as penas que se foram tornando longas, e tanto as crianças como os adultos adoravam-no. 

Entretanto, chegou o Inverno, o passarinho e a família protegiam-se dentro das casas, nas árvores, no conforto das lareiras. 

Mesmo assim saiam para apanhar sol, brincar na neve com as crianças e os adultos que continuavam a acompanhá-los. 

Os pais dos diferentes pássaros também iam, com os filhotes, brincar com os adultos e as crianças na neve. 

Bebiam chá quente, que os pais faziam, faziam bonecos de neve, riam muito, eram momentos muito divertidos. 

Todos ganharam uma amizade, como uma grande família. Realmente, nem tudo o que vemos primeiro, é a realidade! 

                                        FIM 

                                  Lara Rocha 

                             29/Agosto/2024 

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Porque não tocas, flauta?


Era uma vez um pequenino rapaz, que vivia numa pequena casa, no meio da floresta com a sua família. 

Um dia, no Natal, o seu Tio ofereceu-lhe uma flauta, mas só pegou nela quando era mais crescido, num fim de tarde com um pôr do sol gigante, umas cores que pareciam saídas de um quadro. 

O Tio explicou-lhe como se fazia, experimentou soprar, e não saiu nenhum som. 

Muito surpreso, tenta outra vez, e nada. Espreitou para a flauta, aparentemente não tinha nada que não a deixasse tocar. 

- Porque é que isto não toca, se eu estou a fazer como o tio disse? - pergunta o menino a olhar para a flauta 

De repente, soa uma voz pequenina: 

- Vai lavar essa flauta ali ao rio. 

- Mas, mas...quem é que está a falar? 

- Vai lavar essa flauta ali ao rio. 

- Mas ela não está suja. 

- Está! 

- Quem é que está a falar? 

- Vai lavar esse flauta ali ao rio. 

- Está bem, pronto, já que tanto insistes! Mas eu quero ver quem está a falar! 

- Primeiro vai lavar a flauta ao rio. 

- Já vou! 

O menino, sem perceber o porquê da insistência da voz em lavar a flauta no rio, molha-a na água, e esta começa a borbulhar. 

- A água está a borbulhar..! 

E de repente, do interior da flauta saem bolas de tintas de cores diferentes, pequeninas, que ao tocar na água aumentam de tamanho. Ficam tão grandes, e a pairar no ar que o menino até se assusta. 

- O que é isto? 

- São cores. Toca agora! - diz a voz 

O menino toca e sai um som estridente da flauta, as bolas estremecem, encolhem, como se ficassem arrepiadas. 

- Áh, mudaram de forma…! 

- Arrepiaram-se com o som. Toca melhor.- diz a voz 

- Mas como? 

- Como o teu tio te ensinou. 

- Eu fiz isso há bocado e não tocou nada, não saiu nenhum som. 

- Mas toca agora. - manda a voz 

- Não sei tocar. 

- Sabes sim - diz a voz 

O menino experimenta, e vê um peixinho transparente, de cristal a dar luz. Descobre que é a voz que ele ouvia, 

- Toca! 

- Foste tu que me mandaste lavar aqui a flauta? 

- Sim. 

- Áhhh...que lindo! Nunca te vi por aqui. De onde saíste? 

- Da flauta. 

- Era por tua causa que a flauta não tocava? 

- Era. Esta água está maravilhosa! 

- E como é que estavas numa flauta? 

- Para te ensinar a tocar. 

- Áh! E tu sabes tocar? 

- Sei. 

- E estas bolas que apareceram? 

- Já vais ver. Segue os meus movimentos... 

- Está bem. 

- Sopro para aqui? 

- Sim. 

O peixinho parece dançar, como se fosse um maestro ao mexer com as barbatanas, com um sorriso. As misteriosas bolas de cor, parecem ganhar vida própria, bailarinas, esticam, encolhem, aumentam, diminuem, mudam de cores, rebolam no ar, seguindo os sons. 

O menino fica tão encantado com aquele som, o peixinho e as bolas coloridas, que toca entusiasmado, mas a certa altura, as bolas cansam, o peixinho e o menino também. 

- Obrigada! Adorei. Podes vir aqui mais vezes, para me ensinares mais? 

- Sim, claro, vou ficar aqui. 

- Boa! E estas bolas para que servem? 

- Umas vão rebentar, com surpresas lá dentro, outras, vão dançar connosco, enquanto tocamos. 

- Áh! Que giro. E quando é que as bolas com surpresas vão rebentar? 

- Espera! 

- Vou ter de esperar? 

- Com certeza! 

- Mas eu queria saber agora. 

- Não! Ainda não podes, elas estão cansadas. 

- Está bem. 

- Vai descansar também. 

O menino obedece, janta com a família, vai dormir, e quando se deita no escuro, vê uma luz de presença ao seu lado. Assusta-se, mas fica encantado com ela.

- Não te assustes! Sou uma das bolas coloridas com surpresas. Rebentei. Vim fazer-te companhia, juntamente com a Lua e as estrelas! 

- Áh! Que linda, obrigado. 

- Vim inspirar-te e tomar conta de ti. 

- Está bem. E o que tem as outras bolas de cores? 

- Logo verás, ou quando elas quiserem, 

- Mas eu queria já! 

- Queres tudo já, não pode ser. 

- Pronto, está bem, eu espero. 

Os dois conversam, até o menino adormecer. No dia seguinte, cheio de sol e calor, volta a tocar flauta, junto ao rio, com as instruções do peixinho, e as bolas coloridas a dançar. A luz de presença continua com o menino, 

Nada acontece, tal como nos dias seguintes, até que...uma outra bola colorida, rebenta, e cobre todas as árvores, enche-as de frutos, e lindas cores. Folhas salpicadas de verde, vermelho, folhas vermelhas, folhas com salpicos de roxo e vermelho, amarelo, folhas verdes, folhas castanhas. Frutos como uvas lindas, enormes, penduradas nas ramas, maçãs vermelhas e amarelas, outras com cores misturadas, grandes, ouriços pendurados, e outros que caem, cheios de castanhas grandes.  

O menino assiste a tudo. 

- Qual era a surpresa desta bola que rebentou? 

- Olha bem para lá! Para as árvores! - recomenda o peixinho 

- Estão cheias de cores…! E aquelas cheias de frutos. - diz o menino  

- Quando é que isto acontece? - pergunta o peixinho 

- No...no...Outono? 

- Isso mesmo! - diz o peixinho 

- Então...começou o Outono, e a bola que rebentou, trouxe o Outono? 

- Sim! 

- Áh! Que lindo…! Uau, adoro aquelas cores, estão carregadas de frutos. 

O menino está maravilhado, tal como a família, ao ver aquelas cores e frutos. Continua a tocar, e uns dias depois, outra bola rebenta, Surge um cãozinho pequenino, do mais fofo que há, lindo, muito meigo, e outra bola rebenta, de onde sai a mãe do cãozinho, com mais três filhotes, igualmente lindos! O menino nem quer acreditar. 

Fica tão feliz, que continua a tocar, aquela flauta, e todos os dias, uma cor das bolas coloridas, faz com que o menino repare num aspeto bonito da Natureza, atrai passarinhos, borboletas, pirilampos, cuida muito bem dos cãezinhos que o adoram. 

Uma das bolas rebenta e faz com que ele repare na beleza da Lua Cheia, e nas estrelas, outra leva-o a apanhar chuva, feliz, a brincar com os animais, e a última, que rebenta, cobre tudo com um grosso manto branco, gelado, um vento cortante, que obriga a acender a lareira e a conviver com a família, com muitos petiscos, brincadeiras, gargalhadas.

Esta última bola, trouxe o Natal, e um irmãozinho bebé, para o menino, o seu desejo como prenda de Natal, de quem cuida com todo o carinho com a ajuda da mãe e do pai. 

E o menino continua a tocar, continuam a acontecer coisas mágicas, toda a família aplaude, quando o ouve. O tio, não cabe nele de orgulho. 

Era por isso que a flauta não tocava, mas quando a magia saiu, muitas coisas boas começaram a acontecer!  

E se fossem vocês a receber uma flauta que não tocasse? 

Porque não tocava? 

E se recebessem bolas surpresa, que rebentavam, o que é que elas trariam? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem. 


                                        FIM 

                                 Lara Rocha 

                          26/Agosto/2024 



sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Até qualquer dia, sonho

 



Até qualquer dia, sonho! 

Olá sonho! Gratidão por toda a companhia que me fizeste, estes anos todos, gratidão pela tua presença durante estes anos, e por manteres viva em mim, a eterna, pensava eu, esperança de sermos companheiros diários. 

Gratidão, sonho, por me fazeres acreditar que nos íamos encontrar, realizar os nossos projetos conjuntos, gratidão por me levares a visitas na biblioteca e nos livros, que me fizeram enriquecer a mente, material, mais material, e material, porque achava que podia precisar, que este e aquele dariam jeito, este ou aquele era melhor retirar apontamentos, posso precisar. Fizeste-me acreditar que seria bom ter esses apontamentos. 

Gratidão, sonho, por me fazeres ter objetivos estes anos todos, de procurar, divulgar, concorrer, esperar respostas positivas, quando só recebemos respostas negativas e silêncios. 

Mesmo assim, sonho, continuaste comigo, e dizias-me: continua a tentar, faz isto, ou faz aquilo, experimenta fazer assim, deixa aqui, deixa ali, tentei, tentamos estes anos todos, sem sucesso. 

Mesmo assim, tu continuaste comigo! Tínhamos lugar, tínhamos contacto, tínhamos a luz da esperança acesa, que às vezes se apagava, mas tu estavas lá, e a luz voltava a acender, para se manter na penumbra, até que umas vezes se apagava e outras vezes se acendia mais forte, mas quase se apagar outra vez. 

Gratidão, sonho, pelos dois primeiros anos em que trabalhamos juntos, felizes, em que nos sentimos realizados e úteis, em que tivemos sucesso, até que a luz apagou, voltou a acender com outros objetivos e tu estavas lá, a manter a esperança viva, para eu não desistir. 

Mas a realidade é que nada mudou, continuamos juntos, com os nossos projetos, ideias, estudos, formações, e continuamos a luta para manter a luz acesa, que algum dia desses que já passaram há uns anos, ia realizar novamente o nosso...sonho! 

Muitas coisas influenciaram a não realização do nosso projeto conjunto, e continuam a influenciar, mas desta vez, ao fim de cerca de oito anos, tu cansaste de estar ao meu lado. 

Percebeste melhor a realidade do que eu, gratidão por isso, já que eu não percebi logo, talvez tu já soubesses que não iriamos vencer, mesmo assim, incentivaste-me a tentar, a não desistir, a procurar, a partilhar, a investir, a estudar, a continuar. 

Eu também cansei, desculpa! Cansei de acreditar que íamos conseguir, desisti, qualquer pessoa desistiria mais cedo, com certeza, mas tu, sonho, mantiveste-te do meu lado, fizemos uma boa equipa, apesar dos frutos não terem vingado. 

Nenhum de nós tem responsabilidade, são coisas do mundo em que vivemos. Vivemos alguns bons momentos juntos, de entusiasmo, confiança, acreditar que as coisas iam melhorar, mais dia menos dia. 

Eu e tu, sonho, construímos expectativas irrealistas, planos com base nos nossos desejos, e porque corria bem para outros, também pensávamos que correria para nós! 

Foi duro, sim, todo o investimento, os altos e baixos, foi triste, sim, enquanto acreditamos juntos, foi bom, mas logo a seguir, tudo se desmoronava, com a frustração dos «nãos», dos «silêncios», dos «já temos», dos «ficaremos com o seu contacto e se precisarmos ligamos», entre outros, que no início mantinham a luz acesa, até que se apagava. 

Continuamos a tentar, tudo na mesma...um dia tínhamos de cansar e decidimos desistir. A nossa união foi enfraquecendo, praticamente não nos encontramos, não construímos mais projetos, porque tu sabias que não se iam concretizar, mesmo assim, continuavas comigo, e davas-me força para eu não desanimar. 

Mas eu desanimei. Desculpa, sonho! Obrigada por me abrires os olhos, e desculpa eu só cair na realidade, agora. Hoje, a luz do nosso castelo, onde residiam os nossos sonhos, apagou! Permaneceu o vazio que já existia e tínhamos esperança que se enchesse. 

Por tempo indeterminado…! Como aconteceu desde o início, porque perdemos a esperança, porque desistimos de acreditar e de lutar, porque vimos que com a realidade que nos rodeia, não valia a pena continuar a construir o nosso cantinho. 

Cansamos, ficamos e estamos tristes, mas há-de passar, como das outras vezes em que sentimos tristeza. Não sabemos o que virá a seguir, mas os dois acreditamos que os mesmos planos tão desejados não será. Cansaste de me alimentar, e eu também. 

Deixamos tudo no nosso castelo, onde esteve tudo, estes anos todos. Hoje, a luz apagou mesmo! Não custou, mas acho que na minha essência, custou, doeu, como das outras vezes. 

Ficaste lá, sonho! Eu vim embora. Prometo que te vou visitar, também podes vir, para conversarmos sobre outras coisas, para matarmos saudades...o meu coração e a minha mente, estão sempre abertos para ti, como tu sabes, e como estiveram estes anos. 

Descansa, sonho! Eu também vou descansar, o que precisares, sempre que quiseres, sabemos onde estamos. Dorme, sonho, descansa, não estás lá sozinho, tens contigo todos os meus (nossos) sonhos, todos os projetos, todos os planos, todas as tentativas, os fracassos também, toda a força que me deste, as lembranças da minha companhia, os sucessos. 

Tudo. Trata bem de tudo, e até qualquer dia, quem sabe, encontramo-nos por aí, noutro castelo qualquer, ou no nosso. 

Por agora, dorme, sonho, descansa, logo veremos. Vemo-nos qualquer dia, obrigada por tudo. 

                                                                Lara Rocha 

                                                                9/8/2024 

domingo, 14 de julho de 2024

A lenda da praia petrificada

 Foto de Lara Rocha 

     Era uma vez um lugar muito longínquo, no meio de um mar sempre revolto, com ondas que pareciam devorar quem se aproximasse. Não sabiam se era uma ilha desabitada, um banco de areia, um deserto, ou uma praia, porque não tinha vegetação. 
   Para quem via, parecia um conjunto de pedra e um monte de areia. Tinham razão! Era um monte de areia para onde o acesso era impossível, porque as ondas tenebrosas eram as donas daquele pedaço estranho. 
    Os pescadores e as pessoas que viviam nessa praia, conheciam uma lenda da chamada praia petrificada. Como todas as lendas, quando não se sabe o que aconteceu de verdade, ou se foi mesmo isso que aconteceu, despertava a imaginação e fazia sonhar os ouvintes. 
    Cada um imaginava aquele espaço de forma diferente, inspirados pela lenda. Era intrigante, misterioso. A lenda da praia petrificada passou de geração em geração, uns dias via-se mais, outros estava mais coberta. 
    Contavam que esse espaço, tinha sido há muitos séculos atrás, uma bela praia, com águas cristalinas, areias brancas, vegetação, animais marinhos e aves, sem pessoas. 
    Não vivia lá ninguém porque a sua temperatura ultrapassava os 80 graus, e às vezes mais de 1oo graus, claro, qualquer ser humano que entrasse nessa praia, não aguentava. 
    Quer dizer, segundo a lenda, o único habitante, não humano da praia maravilhosa, era uma criatura, grande, uma mistura de tartaruga, com patas grossas, unhas compridas, o corpo coberto de penas coloridas, boca grande, cheia de dentarrões, orelhas grandes e barbatanas pois a sua casa era principalmente no mar. 
    Muito forte, sempre raivoso, odiava a presença de humanos, e para que a praia fosse toda dele, a sua raiva e maldade eram tão grandes, que os seus barulhos, a sua respiração, fervilhava como um caldeirão de lava, e o seu bafo era realmente muito quente. 
    Tudo parecia derreter à sua passagem, a areia parecia barro, e pó de um deserto, e depois voltava ao normal. A praia ficava deserta, era toda dele, quando recolhia, o mar ficava a ferver, e todos saiam das tocas. 
    Desfilava na praia, muito lentamente, não era simpático, mas também deixava os outros animais e plantas em Paz. Todos o respeitavam, mas não gostavam dele, como era antipático e demasiado quente, todos se escondiam, e sua excelência sorria, vaidoso, orgulhoso, já estavam habituados ao calor daquele ser horroroso. 
    A maldade e a raiva eram tantas, que as nuvens sentiam medo dele, fugiam, quase sufocavam e secavam em poucos segundos, ao passar por cima da praia. Nunca chovia! Por causa disso, tudo começou a secar rapidamente. 
A água do mar, fugiu, misturou-se com as ondas gigantes que rodeavam aquele espaço. Que alívio! Adoraram sentir aqueles abraços e embalos frescos das ondas gigantes. Foram muito bem acolhidas. 
    Aos poucos, todas as outras ondas deixaram a praia e estavam juntas, no mar alto. Já não aguentavam mais aquele calor da criatura. Eram mais quentes que as outras ondas, mas sentiam-se bem e adoravam aquele espaço. 
    As aves, os belos peixes exóticos, cheios de cor, as estrelas do mar, as conchas, os búzios, os cavalos marinhos, polvos, algas e até corais libertaram-se e fugiram, saíram aos milhares. 
   Essa fuga foi uma agradável surpresa para os pescadores de alto mar, e fizeram as suas delícias. Filmavam e fotografavam quando estes andavam mais pela superfície. 
  Os pescadores tentaram chegar mais próximo da praia misteriosa, mas não conseguiram por causa da temperatura sufocante, e só viam areia barrenta. A lenda conta que a temperatura nessa praia subiu cada vez mais, porque a criatura sentia-se sozinha, e triste, o ar tornou-se irrespirável. Parte da areia transformou-se em rocha, pedras de grandes dimensões que faziam figuras estranhas, a quem se juntou a criatura. 
  Como a criatura que mandava na praia, ficou sem água, umas pedras que estavam debaixo de água derreteram, e a sua raiva pela fuga da água, dos animais aumentou ainda mais, tal como a sua temperatura. 
  Até ela se transformou em rochedo de pedra, com uma forma um bocado diferente da sua original: perdeu as penas coloridas que tinha por todo o corpo, as patas e barbatanas colaram ao chão, juntamente com as outras rochas que se amontoaram. 
   Muitos séculos depois, ainda ninguém consegue chegar lá, mas os pescadores, navegadores e investigadores, continuam a sentir a temperatura muito alta, muito mais do que a que sentem no mar. 
  Acreditam que seja a raiva, a frieza, a antipatia, e a respiração, o bafo, da criatura misteriosa que lá habitava, e afugentava assim os humanos. Quando vista com binóculos e aparelhos de longo alcance, por não conseguirem chegar lá com o calor, conseguem ver as rochas com formas diferentes. 
  A lenda diz que os pescadores e estudiosos acabaram por descobrir a criatura e a praia petrificadas, veem o seu formato e sentem que é dela que vem aquele calor irrespirável, na praia onde não se conseguia viver, nem chegar perto, embora de vez em quando, a chuva já caia nessa praia. 

E vocês? Já viram na praia, rochas que parecem animais e outros seres como este da lenda? 

Também imaginam formas nas rochas, e como terá ficado assim, mesmo que não conheçam lendas? 

Se nunca o fizeram, experimentem, é muito divertido. Podem deixar nos comentários as vossas opiniões. 

FIM 
Lara Rocha 
13/Julho/2024 


Foto de Lara Rocha 
A praia petrificada