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domingo, 2 de maio de 2021

Sereia ou peixe?

         


Era uma vez uma Vila de pescadores, onde viviam famílias simples, trabalhadoras e humildes. Os homens, desde os mais novos até aos mais velhos, saiam antes do sol nascer, e algumas das esposas, namoradas, sentiam o coração muito apertadinho. Tinham medo que não voltassem, ou que lhes acontecesse alguma coisa. Então, sempre que os homens iam para o mar, as mulheres de todas as idades não dormiam mais. Abraçavam e beijavam os filhos, os namorados, recomendando-lhes cuidado. Seguravam as lágrimas até eles irem  para os barcos no mar alto, juntavam-se, davam as mãos e rezavam por proteção! Aí sim, as lágrimas pelo medo saiam dos seus olhos! Não erram homens de fé, achavam que tinham muita coragem, era a missão deles, só tinham de a cumprir, mesmo que soubessem que era arriscado, e diziam com segurança que o mar era amigo deles. Um dos jovens perguntou à namorada: 

- Porque é que vocês se põem com essas cerimónias de lamechices quando vamos para o mar? 

A namorada responde: 

- Não são lamechices, é medo! 

- Medo...! Que ridículo. - graceja o namorado 

- Vocês não têm medo, queres ver? 

- Claro que não! Isso é coisa de mulheres. O que fazem? 

- Rezamos! Pedimos proteção, que voltem sãos e salvos, que pesquem muito peixe, mas façam boas viagens. 

- Não tendes mais nada que fazer? Que patetice, isso não existe? 

- Ai não? Felizmente têm voltado sempre. Já que não acreditas, pelo menos respeita porque dói-nos muito! Ficamos com o coração muito apertadinho! 

- Está bem, desculpa! Acredita lá no que quiseres. 

- E se rezássemos às sereias, aí vocês também rezavam não era? Até faziam outras coisas com elas. 

O namorado ri. 

- Sereias? Também achas que existem? Vives no mundo da infância. Coitadinha, cresce. 

        A namorada fica zangada, não se falam mais nesse dia, cada um está no seu trabalho. De madrugada, o mesmo ritual repete-se. Todas rezam, mas a namorada não dá beijo nem abraça o namorado, só lhe diz: 

-  Que as sereias te guiem. Ingrato... 

- As sereias? E tu não ficas com ciúmes se for com elas? 

- Não. 

            O namorado ri-se, vai para o barco com os outros homens, e nessa noite o mar está muito revolto. As gaivotas estão muito nervosas, piam, voam desvairadas, parecem perdidas. 

- Mas o que é que se passa hoje? - pergunta uma mãe 

- O mar está muito revolto...as gaivotas tão inquietas, os nossos homens hoje não deviam ter ido. 

- Ai, que nervos! - diz outra 

        Enquanto as mulheres estão nervosas e rezam, outras choram e acendem velas, os barcos dos maridos andam aos trambolhões, no mar, os marinheiros gritam, tentam lutar contra a força das ondas, mesmo não tendo por hábito rezar como as mulheres, sentem vontade de o fazer, porque correm perigo. Dizem que não sabem como, mas veem uma sombra que não conseguem distinguir se é de peixe ou de uma mulher com cauda de peixe que lhes dá uma valente chicotada com a cauda e atira-os a grande velocidade para a costa, onde chegam todos ensopados, mas sãos e salvos. As mulheres respiram de alívio. 

- Hoje não deviam ter ido para o mar! - resmunga uma mais nova

- Tendes razão! - dizem todos 

- Não imaginávamos que o mar ia estar tão bravo! - diz outro 

- Andamos aos trambolhões, mas alguém nos atirou para aqui! 

- Quem? - perguntam todas 

- Uma sombra com cauda de peixe! Não conseguimos ver o que era. 

- Acho que alucinaram com o medo! - comenta uma namorada 

- Rezaram? - pergunta outra mãe 

- Sim! - respondem todos 

- Foram ouvidos! Talvez agora percebam porque fazemos aquelas lamechices todas, não é, amor? - pergunta a namorada irónica 

- É! Desculpa!

- Foi uma sereia? 

- Não. Não sei. . 

- Qual sereia? Foi a força da oração deles e da nossa crença. 

            Todos concordam, abraçam, beijam as esposas e namoradas, e nesse dia há festa para retribuir as orações que os salvaram. Silenciosamente, os homens achavam que foi uma sereia que os salvou, mas para disfarçar, diziam que foi um peixe, mandado pelos pedidos das mães, esposas, e namoradas. A partir desse dia, respeitaram as suas esposas, e aprenderam a fazer o mesmo. Rezavam antes de sair para o mar, porque sabiam que com o mar não se brinca, mas respeita-se. Nunca sabiam na verdade o que esperavam. Mas pelo menos sentiam-se mais protegidos, e quando  viam o mar revolto, já não iam. E vocês? Acham que eles foram salvos por uma sereia ou um peixe? 


                                                                    FIM 

                                                                 Lara Rocha 

                                                                2/Maio/2021 

sábado, 1 de maio de 2021

o silêncio e as suas funções



foto de Lara Rocha 








Umas vezes o silêncio é...De ouro, quando ficamos entregues a nós mesmos, aos nossos pensamentos, aos nossos momentos e reflexões. Outras vezes o silêncio é...de prata, quando nos faz descansar! 

O silêncio ás vezes fecha-nos, quando a saudade bate à porta e olhamos para dentro de nós, à procura de diamantes. Outras vezes o silêncio mata, quando esperamos a lembrança de alguém, quando o coração bate mais forte à espera de alguém, ou de noticias...

O silêncio às vezes dói....O silêncio às vezes gela...O silêncio às vezes é bom...O silêncio às vezes cura! O silêncio às vezes é uma janela que se abre...O silêncio às vezes é uma gruta escura...O silêncio às vezes dá - nos luz! Outras vezes o silêncio faz-nos chorar. 
Todos os silêncios fazem-nos crescer, mesmo quando o silêncio dói.

                                            Lara Rocha 
1/Maio/2021 

Monólogo: a amizade, as estações do ano e as flores

 



A AMIZADE E AS FLORES

    As amizades são como as flores…Umas verdadeiras, naturais, coloridas, frescas, delicadas, constantemente bem tratadas, com carinho, palavras simpáticas, abraços...outras...São naturais, coloridas, e frescas. 

  São aquelas que podem durar uma eternidade, e começar até antes de nascer, umas permanecem para sempre, enquanto vivem, outras, são fogo de vista! 

    Lindas no início, que nos enchem os olhos, preenchem-nos, fazem-nos renascer, como se fossemos a terra a acordar do longo sono do Inverno, na Primavera, mas tal como as estações do ano terminam, para que a terra se renove, passado uns tempos, por falta de dedicação, por esquecimento, por maldade…Murcham! 

     Passamos da Primavera para o Outono, que apesar da sua beleza, à medida que caminha para o Inverno torna-se mais tristonho.

     Como esperávamos o despertar de uma amizade que fantasiávamos, com a certeza quase absoluta de que ia ser boa e de repente, desaparece, como as folhas das árvores que caem e voam levadas pelo vento, secam, são pisadas. 

      Outras, são artificiais, bonitas, coloridas, e estão sempre intactas, como as compram e no local onde as deixam.

   Há aquelas flores que têm espinhos, outras não. Outras parecem nascer do nada, como se fossem uma semente largada do bico de um pássaro que pressente que ali é um bom terreno para desabrocharem flores. 

    Mas não depende do pressentimento dele, porque as amizades não são sementes de flores, às vezes parece que vai nascer alguma coisa, e pode começar, mas logo a seguir, por qualquer razão que nem sempre conseguimos explicar...Morrem! 

     Voltamos a ser Inverno. O nosso mundo interior gela, ou congela, ficamos tristes, choramos, ou tornamo-nos uma espécie de navio encalhado num glaciar, nem para trás, nem para a frente. 

    Questionamo-nos o que fizemos, se a culpa foi nossa, ou se foi o outro que quis. Se estávamos tão bem, porque acabou? Perguntas que podem ficar sem respostas, simplesmente porque tinha de ser assim, talvez fosse o melhor, apesar da dor. 

   Sim, apesar da desilusão, e da perda, ainda temos esperança de encontrar novos amigos, assombrados pela dúvida, mas com vontade que aconteça. 

    Ficamos entre a Primavera e o Verão, e somos Verão, quando encontramos pessoas, aquelas que nos tiram muitos espinhos: do sofrimento, da dor, da tristeza…há outras que nos espetam ainda mais espinhos no coração. 

   Mas infelizmente também existem aquelas flores que não são de nenhuma estação do ano específica, surgem em qualquer época do ano, e que nos fazem percorrer num piscar de olhos as quatro estações do ano em poucos dias. 

     São aquelas flores bonitas e atraentes por fora, mas por dentro, estão repletas de bichos: os bichos da falsidade, da mentira, do cinismo, do interesseiríssimo, e os do abandono quando mais precisamos. 

     Essas flores podem estar muito tempo na nossa vida, quer queiramos, quer não, e porque não sabemos que são flores venenosas, apesar da sua sedução externa, e beleza enganadora! 

  Se soubéssemos, nem sequer nos aproximávamos delas, porque saberíamos que nos iriam fazer mal. 

     Apesar disso, são como as estações do ano, passam por fases em que nos sentimos na Primavera, no Verão, no Outono e no Inverno, ou no Inferno! 

   Vivemos momentos bonitos e felizes, carinhos, enquanto duram, enquanto a fachada não desaba, enquanto não secam!      Sim, no Inferno também, quando começamos a perceber o que está por trás da beleza aparente. Puro veneno! 

   O ideal seria que todas as amizades fossem como as flores naturais, coloridas, tratadas com amor fraterno, carinho, dedicação, respeito, presença, sinceridade e sem espinhos, ou se os tivéssemos. 

    Que os amigos os conseguissem tirar, em vez de nos espetarem ainda mais, e que nos sentíssemos mais vezes na Primavera e no Verão, do que no Outono e no Inverno, nestas duas últimas, só para apreciar as belezas naturais que elas nos proporcionam sabendo que não podemos tocar-lhes. 

                                        Lara Rocha 

                                       1/Maio/2021

domingo, 18 de abril de 2021

Achamos que somos de ferro -monólogo para adultos e adolescentes


 


Às vezes achamos que somos de ferro! Sim, de ferro, pois claro! Isso queríamos nós, quando fazemos planos para uma manhã, a pensar que a manhã vai render muito, tem muitas horas para tudo o que planeamos, ou achamos que somos capazes. 

      Isso mesmo, achamos que somos de ferro e que tudo se vai cumprir, com 50 mil tarefas ou textos de mais de 400 páginas, como achamos que somos de ferro, o que nos vai impedir? 

      É que não existem obstáculos nem contratempos que nos atrasam, como a falta de vontade em começar, o cansaço, a triateza, o mau ambiente de trabalho, as relações de rivalidade, competição, os conflitos, o trânsito, os prazos apertados, tudo é para o mês anterior ou com sorte, para o dia seguinte, mas vamos lá assumir: somos de ferro, vestimos uma armadura que não deixa passar nada porque é de ferro e nós também! 

     Que importância tem se estamos cansados? Qual cansaço qual quê? É preciso ganhar o nosso dinheiro, mesmo que pouco, e não interessa se a família fica para segundo lugar?! 

     Todos precisamos de dinheiro, a família incluída, e até agradecem porque assim podemos dar-lhes todos os luxos que eles querem. 

     Nada contra mas, eles começam a cobrar... nas notas, no comportamento, no stress. Não tem qualquer problema, nós somos de ferro e eles também, os medicamentos resolvem, reforçam o ferro! 

     Somos de ferro, não estamos cá com mariquices. A familia está assegurada, é um dado adquirido, eles compreendem que não lhes podemos dar atenção, porque estamos a trabalhar, para termos uma vida boa! 

     Uns comprimidinhos para crianças, adolescentes e pais resolvem, e os professores também são de ferro, são eles que têm de assumir a responsabilidade pelo comportamento de stress,  pela baixa nas notas e desinteresse. 

      Os professores são de ferro, eles é que passam mais tempo com os pequenos, eles é que têm de substituir os pais, porque estes são de ferro, estão a trabalhar para poder ter os meninos eme1500 atividades por dia, desde manhã até dormir, porque têm de ser os melhores em tudo, têm que ter as notas mais altas que o do lado. 

     Mas como não sobem as notas com tantaa explicações, apoios, centros de estudo, escolas de tudo e mais alguma coisa? 

      Eles são de ferro, tem de ser de ferro, eles aguentam, são jovens, estão cheios de vida, energia e saúde, se for preciso uns comprimidos ajudam, nem que seja pior que droga e tenha mais efeitos secundários do que droga, mas é para bem deles e eles agradecem! 

     Somos de ferro e estamos a trabalhar para eles. Brincar, descansar, parar uns minutos, relaxar, pintar, desenhar, observar a natureza, conversar com eles, contar-lhes histórias, dar-lhes colo, eatar com eles sem mais nada, só nem que seja 30 minutos depois do trabalho. 

      Qual quê? Tudo isso é perda de tempo para todos! Os pais levam trabalho de casa, os filhos levam tanto ou mais trabalho de casa depois de 1 dia inteiro de escola em escola, de supostas aprendizagens que os vão tornar os melhores. 

      É preciso trabalhar, o resto são fantochadas. Os filhos têm tudo, só precisam de aproveitar esse apoio, para serem os melhores, terem altas notas. 

       Nem que não sejam humanos, e uns joguinhos eletrónicos que não ensinam absolutamente nada, deixa-os sossegadinhos, porque os pais têm de trabalhar. 

     Eles sao de ferro, aguentam, são novinhos, cheios de energia. Não levantam as notas, não é pelo cansaço coisa nenhuma, nem por não brincarem, ou andarem o dia todo com tantas tarefas quanto os adultos... Claro que não! 

      Eles são de ferro, aguentam! Os grandes também aguentam. A culpa é dos professores que não sabem ensinar. 

      Os maus comportamentos na escola, são culpa da escola, a escola é que tem de saber educar e ensinar como se devem comportar, claro! 

     Todos aguentamos! Pois, somos de ferro, enquanto o ferro dura, mas ele enferruja, e o corpo cobra. Problema dele. 

       Achamos que somos de ferro e que conseguimos com toda a certeza alcançar os nossos objetivos, além daqueles de sermos sempre perfeitos em tudo, nunca falhar, nunca errar porque o outro passa à frente se revelamos a mais pequena falha. 

       Somos de ferro, e de certeza que aguentamos quando nos fecham as portas, quando nos criticam, quando alguém passa à nossa frente só porque teve mais umas décimas. 

       Somos de ferro porque lutamos até não podermos mais, mas temos de conseguir, dê por onde der, porque temos que agradar aos nossos pais, eles investem tanto em nós, financiam-nos tudo, a nossa obrigação é sermos os melhores em tudo, nem que para isso a nossa saúde fique em risco. 

       Que chechada... nem pensar em falhar, errar ou termos notas tão baixas. Porque somos de ferro, aguentamos, e eles merecem. Somos de ferro?! 

       Somos de ferro, quando usamos máscaras, quando disfarçamos emoções para os outros não verem, quando frustram as nossas expectativas seja de que tipo forem. 

       Somos de ferro? Não. Somos feitos de carne e osso, somos humanos com sentimentos, emoções, cansaços, desilusões, frustrações, inquietações, medos, irritações, responsabilidades, formulamos expetativas e planos, propostas, sonhos que não se realizam, quando perdemos as nossas batalhas, quando cedemos ao cansaço, à desilusão, ao sem sentido das coisas que nos acontecem, às injustiças!

       Somos metade ferro, enquanto conseguinos lidar mais ou menos bem com os acontecimentos, e metade humanos quando reconhecemos que afinal não somos de ferro, e sim, de carne e osso com fracassos. 

        As crianças são de ferro? Não, nem de próximo! Elas precisam de ser humanas, de pais, de brincar, de serem melhores pessoas e seres humanos, do que os melhores na escola. 

      As crianças não são de ferro, são humanos, frágeis, não querem remédios, nem mil atividades ou apoios de estudo. 

      Querem os pais, querem a sua atenção, a sua presença, a sua interação com eles e brincar, tempo para respirar, relaxar! 

      Não somos de ferro, embora às vezes tenhamos de ser ou parecer mas não somos! Em algum momento tudo o que somos vai atravessar o ferro de que parecemos ser, independentemente da nossa vontade! 

      Não há como negar, não há como esconder, nem como não sair debaixo dos ferros. Todos, desde bebés aos Avós, podem parecer de ferro mas mais cedo ou mais tarde o ferro derrete, enferruja. 

        Não vale a pena fingir que somos o que não somos, e sermos o que somos, com aceitação. A aceitação dói muito no início e às vezes dura vários dias a passar, mas não somos de ferro, por isso mais vale vive-lo! 

        Gostaríamos de ser feitos de ferro, pelo menos não sofriamos tanto, porque lidar com outros seres humanos é difícil, provoca desilusão, e é difil aceitar que falhamos muitas vezes, que poucas vezes conseguimos cumprir os nossos planos  e a nossa vontade de agradar, de sermos perfeitos, de sermos sempre os melhores.

       De que vale sermos os melhores na escola, se depois falha a saúde e o humanismo no trato com os outros? 

       Vale a pena sermos de ferro? Vale a pena usarmos máscaras de ferro com medo de não agradar aos outros? Vale a pena quererem transformar os vossos filhos em ferro? Não somos de ferro, somos humanos! 

Fim 

Lara Rocha 

18/Abril/2021 

sexta-feira, 16 de abril de 2021

As misteriosas flores gigantes

        













Era uma vez um jardim vazio, que pertencia a uma casa de uma senhora que vivia com o seu marido e os filhos estavam próximos. O casal adorava sair, viajar, mas um dia, cansaram, e começaram a ficar mais pela cidade onde viviam com os filhos e os netos. A senhora olhava para o jardim da sua casa, e pensava:

- Não gosto deste jardim tão vazio. 

     Decidiu que iria plantar algumas flores para dar mais vida àquele espaço. Comprou uma série de sementes de flores diferentes, plantou-as com carinho, sorridente, com a ajuda do marido, espalhadas pelo espaço. 
         Nos dias seguintes, eles cuidaram dela com amor, como se tratassem de filhos, regaram-nas, conversaram com elas, e começam a aparecer umas cabecinhas muito pequeninas, com folhinhas. 

- Não demorará muito estão aí a aparecer! - diz a esposa 

- Pelo menos sempre vai haver mais cor e vida neste jardim. - comenta o marido 

- Foi por isso que as plantei, estava cansada de ver só verde. Vamos ver o que vai sair daqui, se o terreno é bom, se vão resistir. 

     Da noite para o dia, os pés das flores tornaram-se compridos, e os botões maiores, já se começavam a ver cores, lindas. O casal estava encantado, mas o que eles não esperavam era que aquelas cabecinhas de flores, da noite para o dia, abriram e tornaram-se gigantes, com pés altos, e pétalas enormes, cada qual a mais bonita. 

        Nunca tinham visto daquilo. 

- O que aconteceu aqui? - pergunta a senhora

- Nunca vi tal coisa! - diz o marido

- Que coisa mais linda! - suspira a senhora 

    Chamaram os filhos, os netos, a família toda, que ficaram igualmente escandalizados com o tamanho daquelas flores, e encantados. Com os olhares invejosos de alguns vizinhos que não sabiam cuidar dos seus jardins, diziam que aquelas flores eram falsas, e algumas murcharam, mas quando os donos falaram para elas, voltaram a ficar viçosas, e a crescer. 
       As flores pareciam crescer de dia para dia, mais e mais, até que formaram trepadeiras naturais com flores, cada qual a mais bonita. Não sabiam de onde tinham vindo flores tão grandes, como aqueles, nem com tantas cores, até que uma joaninha que pousou numa das flores disse ao casal que foi o amor com que eles as trataram. 
      Eram flores muito delicadas, e muito sensíveis às emoções das pessoas, só acontecia a pessoas com um coração bom, que cuidavam, regavam e conversavam com as flores. Era por isso que as flores dos vizinhos cresciam pouco, ou murchavam rápido. 
     O marido disse que ia publicar e convidar muita gente para ver, a pagar a entrada. Infelizmente, por causa dessa ambição, as flores murcharam, mingaram e outras desapareceram. 
      Realmente enquanto tiveram visitas, receberam muito dinheiro, mas as flores tão maravilhosas e tão grandes sentiram a inveja de quem as via, e a vontade do senhor enriquecer à custa da natureza. 
       A esposa lembrou-se da mensagem da joaninha, e proibiu muito zangada, que o marido continuasse a fazer essa asneira. O marido ficou tão zangado com ela que não a ajudou a plantar, e saiu de casa, deixou-a sozinha. 
    Foi à procura de formas de enriquecer. A senhora dedicou-se às novas plantações, tal como fez da primeira vez, e como dessa vez, as flores cresceram enormes, lindas.  
     As suas lágrimas eram tantas que regaram as cabecinhas das flores, mas à medida que elas se iam tornando gigantes, com as longas conversas que a senhora tinha com elas, as flores voltaram a ter tamanhos e cores nunca vistas.   
         Cresceram tanto, eram tantas que formaram uma barreira contra a inveja, pois o amor da senhora, e o seu coração eram mais fortes do que os invejosos e não permitiu que entrasse na sua casa mais ninguém, a não ser aquelas pessoas que sabia terem bom coração. 
    Todas as flores que a senhora plantou ficaram enormes, tornaram-se um chamariz para borboletas, cada qual a maior, e de rara beleza, que ela fotografava, joaninhas, abelhas e outros insetos que se tornaram quase outra família. 
        Os filhos e os netos, instalaram-se na sua casa, para recuperar da tristeza e num instante, com tanta beleza, com aquele tamanho nunca antes visto, rapidamente ficaram novos, cheios de alegria, ao ver que as flores que plantaram ficaram como as da Mãe e da Avó...enormes, lindas, altas. Algumas eram tão grandes que chegavam às janelas e ao telhado. 
           Quando se trata a natureza com amor, ela surpreende-nos! 

                                                                    Fim 
                                                                Lara Rocha 
                                                                16/4/2021
 

A bola no rio, o cão e os patos

      


Foto de Lara Rocha 

        Era uma vez uma bola de futebol, que pertencia a uma criança que a perdeu no rio, como não podia ir lá buscá-la, era perigoso, deixou-a ficar muito triste. A bola, igualmente triste, andou por cima da água, vários quilómetros a tentar sair de lá. 

        Pediu ajuda aos sapos e rãs, perguntando-lhes onde havia saída, mas estes só conheciam saídas para esgotos, e claro que a bola não queria ir para um esgoto, porque só o cheiro que já pairava à entrada, era nojento. Ele não percebia como é que haviam animais a viver naquele espaço. 

        Ratazanas ainda tentaram tirá-la de lá, mas só conseguiam chutá-la, a pôr-se em cima dela e a deixar-se rolar. Estavam mais divertidos do que em qualquer labirinto, ainda mais a e vê-la rolar de uns para os outros, como se fosse um jogo de futebol. 

        A bola não gostou nada daquelas criaturas, e fez de tudo para fugir a sete roladas, ou menos, felizmente conseguiu. Rolou na água tão rápido quanto pôde, foi parar a uma cascatinha feita de rochas por onde a água passava a correr. 

        Respirou de alívio, e deixou-se ficar naquele sítio, a ouvir o som da água com o baloiço. Olhou em volta, não havia saída. Só água, pequenas cascatinhas. O sol fazia brilhar a água, o que tornava aquele espaço especial. 

- Que lindo! O que será que brilha tanto? - suspira a bola 

        Foi ao ritmo mais lento da água, a olhar para todo o lado, o brilho parecia mudar de sítio, à medida que ele avançava, tanto era estreito, como começava a alargar e apanhava o rio todo! Pensou que eram pedras preciosas, mas pelo caminho não viu nenhuma, só viu o misterioso e belíssimo brilho na água. 

        E de repente, do lado de fora, na margem, ouviu um cão a ladrar que estava a ver a bola. Era um cão de água, que ladrava sem parar, ao ver a bola a rolar na água. Saltou disparado da margem para a parte mais baixa do rio, onde estava a bola, abocanhou-a, e esta ficou muito assustada. O dono do cão chamou-se, e ele voltou à margem com parte da bola na boca.

- Tu e as bolas...larga isso! - ralha o dono 

        Mas o cão não largou, e começou a brincar com a bola. O dono achou engraçada, e começaram os três a brincar. O dono atirava a bola e perdia-se de riso ao ver o cão a correr completamente louco atrás da bola, quase sem parar à beira de bola. 

        Às vezes até parou mais à frente da bola, deu meia volta, e voltou a correr para abocanhar a bola. O dono ria à gargalhada, e a bola também, filmou e fotografou, depois entraram os três na brincadeira. A bola ladrava como o cão, os dois pareciam conversar e entender-se muito bem. 

        O dono ria e atirava a bola, o cão abocanhava a bola, rolava no chão com ela na boca, chutava-a com a pata, ela deixa-se ir na brincadeira, às vezes fugia de propósito para a relva, onde o cão se sacudia, e voltava a esfregar-se na terra, com a bola na boca. 

        Depois de tanta brincadeira, como era um cão de água, ele e a bola entraram no rio para tomar banho, brincaram na água, como dois patinhos, o dono apreciava deliciado. E não é que aparecem mesmo 6 patos bravos que nadam loucos de medo, de forma desordenada, o cão a ladrar sem parar, a bola a ladrar e a grasnar como os patos, dividida entre o cão e os patos. 

        Os patos ficaram desorientados com o medo do cão que corria atrás deles, nadavam em círculo, para um lado e para o outro, deslizavam, chocavam uns com os outros, quanto mais eles tentavam fugir, mais o cão os perseguia a tentar agarrar. 

      O dono ria sem parar, até que gritou para ele  sair, e deixar os patos em paz. O cão obedeceu, mas esqueceu-se da bola e seguiu caminho com o dono. A bola ficou com os patos, que a rodearam, depois do susto. 

- Maldito animal...- grita um pato 

- Vai-te embora! Deixa-nos sossegados! - grita outro pato 

- Nunca outra nos aconteceu, um cão dentro de água a tentar apanhar-nos! - diz outro pato zangado 

- Francamente! - respondem os outros 

- E tu, quem és? - pergunta um pato à bola 

- Sou uma bola. Eu pertencia a outro menino, que me atirou para aqui, como era perigoso não me veio buscar. Depois encontrei este cão, estive a brincar com ele, pensei que me ia levar mas afinal deixou-me aqui. 

- Óh, que história triste, pobre bola. - lamenta um pato 

- Agora tens-nos a nós. 

- O que fazes? 

         A bola e os patos têm uma longa conversa, enquanto passeiam ao sabor da água. A bola perguntou aos patos, o que brilhava tanto, quis saber porque apareciam só alguns brilhantes na água, outras vezes apanhava o rio todo, quando na verdade, pelo caminho nunca tinha visto nenhum brilhante, mas era tão bonito! 

        Os patos explicaram-lhe que era o sol que refletia na água, mas não existiam mesmo brilhantes. Eles pensaram o mesmo, quando viram a primeira vez, mas ouviram várias pessoas a dizer que era efeito do sol. Concordaram que também adoravam ver aquele brilho todo, e andar sossegados ao sabor da água. 

       Chegada a hora de recolher, os patos bravos vão para a sua casa, e levam a bola, deixando-a num sítio bem seguro, um ninho que construíram de propósito para a bola, junto deles, bem confortável e aconchegante com penas, palha, e erva.  

        No dia seguinte, os patos brincam com a bola, tão divertidos como o cão, que não voltou a ir buscar a bola, porque esta escondia-se, no meio dos patos, e o menino também nunca mais o viu, mas ganhou a sua nova família, os patos, que a tratavam tão bem. 

E vocês, já viram bolas no rio? 

Acham que elas encontraram amigos, procuraram a saída ou ficaram lá? 

                                                                FIM 

                                                             Lara Rocha 

                                                             16/4/2021   

       

monólogo: gelo, chuva fria e gotas de orvalho













A cada desilusão, a cada ilusão que criamos, a cada tristeza que sentimos. A cada perda, cada derrota, cada abandono...cada doença, a cada maldade, a cada injustiça...lançamos um pedaço de gelo para o nosso coração. 

Umas vezes grande, outras vezes pequeno, mas é sempre uma pedra de gelo! 
Uns pedaços derretem, outros não! Uns transformam-se em lágrimas, outros ganham ainda mais força, peso e espessura. 

E quanto mais gelo acumulamos mais pesados ficamos. E mais frios somos. Quem pode desfazer os cubos de gelo? Talvez...Cada um de nós, alguém, ou nunca os desfaremos. Mas mais cedo ou mais tarde, o gelo torna-se visível Mais gelado, mais duro. E nós? Em que nos transformamos? Em nada  a não ser...Gelo! 

As lágrimas que caem dos nossos olhos, umas vezes são chuva fria, outras vezes são água do mar. Umas vezes são águas limpas,  outras vezes, águas poluídas. Umas vezes transportam alegria outras vezes tristeza.

Outras saudades de bons momentos, de pessoas especiais, outras, muitas outras coisas. Mas todas lavam a alma, e desatam os nós que às vezes apertam tanto tempo a garganta  E o coração. Cada gota de orvalho brilha com os raios de sol.

Cada gota de orvalho é um brilhante oferecido pelos anjos. Cada gota de orvalho conta um desgosto da terra, uma dor, por cada  crueldade do homem. Em cada gota de orvalho pode também brilhar um olhar ou um sorriso feliz. Cada gota de orvalho é um lindo mistério, um toque mágico, uma promessa boa, um bom presságio, pelo menos, de um momento de paz!  Enquanto vemos uma gora de orvalho a brilhar  com o sol. 

                                                                Fim 

                                                            Lara Rocha 

                                                            16/4/2021