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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

As bailarinas





          Era uma vez uma floresta, despida, com as árvores que só tinham os troncos, sem folhas, coberta de branco, e tudo congelado. O chão estava vidrado e muito escorregadio.
Um dia umas esquilinhos que viviam no parque de uma cidade onde não havia neve, nem gelo, só frio e poluição, foram passear e procurar sítios onde pudessem mostrar a sua arte: dançar balé.
Nos arredores da grande cidade encontraram essa floresta, entraram e começaram logo a escorregar. Deram as mãos e uns gritinhos, quando quase caiam.
- Olhem…isto está muito perigoso! – Diz uma esquilinho
- Pois está! – Dizem todas
- Se eu não estivesse agarrada a vocês, tinha caído com toda a certeza!
- Pois! Nós também.
- E podias magoar-te bem…!
- Claro!
- Ei…esperem aí…!
- O que foi?
- Estamos à procura de palcos, certo?
- Certo! – Dizem todas
- Mas é melhor sairmos daqui…
- Não. Aqui é um ótimo sítio para atuarmos. Olhem para isto…tudo está congelado.
- Sim, mas achas que o gelo aguenta o peso?
- Acho que sim!
- Não sei se é seguro.
- Porque não?
- Deve ter água por baixo!
- E depois?
- E depois? Se tem água e o gelo parte, caímos à água gelada…nem quero pensar.
- E porque é que isso haveria de acontecer?
- Não sei…!
            Uma coruja ouve a conversa.
- Posso ajudar-vos?
            As esquilos estremecem e olham para todo o lado.
- Aqui, em cima da árvore… - Diz a coruja
            A coruja desce devagar, e pousa no gelo.
- Olá! – Dizem todos
- Olá! O que fazem aqui? – Pergunta a coruja
- Viemos passear! – Dizem todas
- À procura de um palco. – Completa uma
- Um palco? Aqui? – Pergunta a coruja surpresa
- Sim! – Respondem todas
- Somos bailarinas de gelo, e às vezes usamos patins! – Explica outra
- Áh! Entendi. – Diz a coruja
- Achas que aqui é um bom sítio? – Pergunta outra esquilo
- Sim! Aqui têm gelo por todo o lado.
- Mas será que o gelo não parte?
- Não! – Assegura a coruja
- Já alguém tinha atuado aqui? – Pergunta outra esquilo
- Não! Espetáculos não, mas já vieram para aqui ensaiar…a camada de gelo é muito grossa, já está acumulada há muito tempo, e está muito frio! – Explica a coruja
- Uau! – Exclamam todos
- Podemos fazer aqui o nosso espetáculo.
- É que nós vivemos num parque de uma cidade onde não há gelo, nem neve, só há uma coisa que eles chamam poluição…muito barulho…frio, mas sem neve, e com chuva e vento! – Diz outra esquilo
- Entendo! Claro que podem fazer aqui, à vontade. Precisam da minha ajuda? – Pergunta a coruja
- Podes…ajudar-nos da divulgação…anunciar o nosso espetáculo…e… - sugere outra esquilo
- Sim! Com muito gosto! – Diz a coruja
     A coruja ajuda na decoração, e enquanto divulga, as esquilinhos ensaiam o seu espetáculo. Numa noite de lua cheia, enorme, a floresta enche-se de luzes, brilho, música, e público.
          As bailarinas estão simplesmente maravilhosas, lindas, graciosas, delicadas, brilhantes, sorridentes, coloridas. Uma esquilinho faz a apresentação, a lua ilumina todo o espaço, além das luzes do palco.
       Todos aplaudem, a música começa a tocar, e as doces esquilinhos dançam de uma forma tão bonita, que deixam todo o público encantado. Umas danças são feitas com patins de gelo, num lago congelado, outras entre as árvores, com sapatinhos, brincadeiras, piruetas movimento elegantes e depois convidam o público para dançar.
     Recebem muitas palmas, tiram-lhes muitas fotografias, e elas fazem centenas de espetáculos durante todo o Inverno, por toda essa floresta, onde havia muitos lagos e fontes congelados.
         Quando começa a Primavera, as esquilinhos não fazem mais espetáculos, porque o gelo derrete, e há água por todo o lado. Mesmo assim, elas não se esquecem da sua amiga coruja, que as leva a conhecer a floresta sem gelo, tão diferente da que conheceram durante todo o Inverno.
       Cada pedacinho da floresta que estava coberta de gelo, agora, na Primavera, tinha cores, sons, movimento, flores e muita água corrente, que parecia que cantava.

FIM
Lálá

(15/Novembro/2016)

A aldeia dos esquilos

                                                                             foto de Lara Rocha 

Era uma vez um bairro de árvores ocas onde viviam esquilos, que se davam muito bem. Sempre que algum precisava de alguma coisa, todos ajudavam como podiam. Este ano o Verão tinha sido muito longo, escaldante e seco.
Como já previam no inicio do Outono, e porque já tinham ouvido o esquilo sábio dizer que o Inverno ia ser gélido, muito chuvoso e ventoso, os esquilos fizeram longas caminhadas, durante vários dias por muitos pinhais, e campos.
Foram em grandes grupos, e a cada regresso, vinham carregados com tudo o que conseguiam, tudo o que lhes fazia falta, em grandes sacos resistentes, construídos pelas mãos habilidosas das costureiras, e carrinhos.  
Todos ajudavam a carregar. Andavam cá e lá, enchiam voltavam a casa, guardavam no armazém coletivo, e voltavam a sair; carregavam e voltavam. Pelo caminho cantavam, conversavam, riam, subiam às árvores, com a ajuda uns dos outros, viam a paisagem e ficavam maravilhados, tiravam fotos.
Trepavam vários ao mesmo tempo, atiravam as nozes e os que ficavam em baixo apanhavam as que já tinham caído e as que vinham das árvores. Depois apanhavam pinhas para comer, e cascas de árvores para aquecer as casas, musgo e folhas.
O Outono passou a correr, e o frio começava a espreitar. Os esquilos já conseguiam sentir que o tempo estava a mudar, mas ainda continuavam a recolher mais comida e coisas que precisavam.
Um dia, eles estavam já bem agasalhados a apanhar pinhas, quando o céu ficou cheio de nuvens, depois de terem saído de casa com sol. Caem umas gotinhas de chuva, e eles desatam a correr rasteiros ao chão, com muita dificuldade por causa do vento forte e gelado.
Quando chegaram ao bairro, foram ao armazém público reforçar os alimentos. Cada um encheu as despensas e as salas, entraram e saíram dezenas de vezes, parecia uma grande cidade, e ajudaram-se uns aos outros. Instalaram-se confortavelmente nas suas casas, e aqueceram-nas, as árvores, encostaram-se mais umas às outras.
Um bom esquilo não conseguiu ficar descansado a pensar que as árvores estariam também com frio. Lembrou-se de pedir a cada um uns cobertores, para cobrir as árvores. Como eram muito generosos, não pensaram duas vezes…cada um, deu mais que um cobertor.
Uns esquilos treparam aos telhados das suas casas e agarrados uns aos outros cobriram as copas das árvores com muito carinho. As suas esposas esquilinhos ficaram em baixo a sofrer, muito preocupadas e com uma cama elástica, caso algum caísse. Por um lado estavam cheias de frio, e nervosas, mas também orgulhosas pelo gesto dos seus maridos, e filhotes.
Os cobertores estenderam-se, e porque o bairro tinha a forma de um círculo, cobriram os troncos em baixo também, e as raízes. O ambiente ficou muito mais agradável, quente, confortável e as árvores ficaram felizes.
Com tantos cobertores, a neve que começou a cair quase não entrou, e os esquilos puderam continuar a encontrar-se fora das portas para conviver. Às vezes faziam jantares, e almoços, onde partilhavam alimentos e divertiam-se sempre muito, adoravam estar juntos.
Outras vezes faziam lanches e serões onde os esquilos mostravam os seus talentos: uns liam poesias que escreviam, outros pintavam quadros e mostravam, outros dançavam e tocavam, faziam desfiles de moda, aplaudiam e até se esqueciam do resto do mundo à sua volta.
Não lhes faltava nada! Festejaram o Natal, numa linda e enorme festa, e assim ficaram até que chegou a Primavera, quando saíram das tocas e puderam brincar.

FIM
Lálá
(14/Novembro/2016)

  

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Tudo trocado

Era uma vez uma casa com um jardim, onde aconteceu uma coisa muito estranha. A casa foi invadida por uns duendes traquinas, muito brincalhões que estavam sempre do contra. Não gostavam de nada como viam, e tinham a mania de se divertir a trocar tudo. Nada ficava como antes. Entravam sem pedir licença e viravam tudo ao contrário.
Foram a uma casa, à cozinha e puseram as panelas que estavam no escorredor da loiça, dentro de vasos que estavam na janela. Os vasos foram para dentro de tachos. Os pratos foram para as gavetas, onde estavam os talheres. Os talheres foram para os armários onde estavam os pratos, e os copos puseram no frigorífico. As toalhas, os guardanapos, os apoios das panelas, os aventais e os panos da louça levaram-nos para a dispensa. Na dispensa, esvaziaram uma prateleira que estava muito arrumadinha por produtos, com arroz, massa e açúcar, e levaram-nos para o forno.
Todos aplaudiram muito e riram. Continuaram nessa casa, e foram à casa de banho, esvaziaram os armários que tinham medicamentos, puseram os medicamentos na banheira, o papel higiénico no armário dos medicamentos, o tapete da banheira puseram no bidé, as toalhinhas que estavam numa gaveta: umas puseram no chão, outras em cima do armário, outras na tampa do autoclismo, outras no suporte das toalhas. Aplaudiram e riram muito.
Passaram para o piso dos quartos. Entraram no quarto das crianças, saltaram em cima das camas das crianças, deram cambalhotas em cima da cama, desfizeram as camas que estavam tão bem feitinhas pela mamã, saltaram em cima das almofadas, rebentaram duas almofadas que soltaram milhares de penas. Brincaram com as penas, a soprar de uns para os outros, e a escorregar em cima das que caíram no chão, começaram a espirrar sem parar, atiraram pijamas para o chão, e levaram brinquedos. Aplaudiram e riram muito.
Foram para o quarto dos pais, desfizeram as camas, puseram o lençol pendurado nas cortinas, outro lençol foi para dento do armário, de onde tiraram roupas e puseram-nas debaixo da cama, esvaziaram uma gaveta e puseram lá os chinelos, atiraram tudo o que tinha numa cómoda para outra gaveta e puseram os sapatos da mamã em cima, e os sapatos do papá noutra gaveta da cómoda. Espalharam os brinquedos dos filhos por todo o quarto dos pais…parecia que tinha passado lá uma rajada de vento. Aplaudiram e riram muito.
Foram para a sala, e trocaram os álbuns de fotografias que estavam numa gaveta, puseram-nos numas prateleiras de livros, e os livros ficaram uns na lareira, outros no carrinho das bebidas, outros em cima do sofá. Mudaram os sofás de posição: um ficou encostado à parede, outro levaram-no para o corredor, e outro ficou na varanda da sala, onde espalharam roupas que estavam na sala, por toda a varanda, umas penduraram no estendal, outras nas janelas. Aplaudiram e riram muito.
Foram para outra casa, e para outra, e para outra, correram as casas todas do bairrinho. Divertiram-se até não poder mais, e puseram tudo ao contrário, por onde passaram.
O que eles não sabiam é que os guardas do bairrinho, viram tudo, e esperavam-nos à entrada com uns enormes cães, que rosnavam com os dentes cerrados, e quase deitavam lume pelos olhos.
Os guardas não os deixaram sair, nem os cães, e mandaram-nos entrar outra vez em cada uma das casas, e pôr tudo no lugar que devia estar. Os duendes não gostaram nada, e não se mexeram. Os guardas telefonaram aos donos da casa, e estes vieram logo ver o que tinha acontecido…nem queriam acreditar! Aí tiveram mesmo de arrumar tudo, na presença dos donos, dos guardas, e dos cães que impunham respeito.
O pior é que com a brincadeira, eles não sabiam de onde tinham tirado as coisas, mas os donos das casas, com muita paciência, disseram-lhes os sítios de cada coisa, e eles não tiveram outro remédio se não…arrumar tudo.
Gostavam de desarrumar, mas não gostavam nada de arrumar, por isso, tiveram de inventar outras brincadeiras.

FIM
Lálá
(7/Novembro/2016)



E vocês? Arrumam, desarrumam, ou arrumam e depois arrumam?
Acham que eles fizeram bem, em pôr tudo ao contrário?
O que lhes aconteceu depois de desarrumarem tudo?



segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O desfile das abóboras







fotos de Lara Rocha 

Era uma vez um enorme campo, numa montanha, onde viviam muitas famílias de belas abóboras, umas maiores, outras mais pequenas, e cabaços, e todos os anos faziam concursos, desfiles e encontros entre abóboras que vinham de todo o lado, uma ótima oportunidade para passarem um dia diferente, e conviverem, estarem mais tempo umas com as outras, e divertir-se.  
Este era um desfile, onde as abóboras se vestiam de tudo o que quisessem, uma espécie de Carnaval, e no fim, o prémio para todos era um magusto.
Ainda faltavam alguns dias para o maior de todos, mas já se sentia uma grande euforia, e muita agitação, desde que todas tinham recebido o anúncio da festa.
Uns dias antes, cada família de abóboras preparava cuidadosamente os fatos que queriam vestir, as abóboras costureiras não tinham mãos a medir, para apertar, alargar, cozer e fazer novos fatos.
As abóboras cozinheiras também já preparavam todos os pratos que iam servir, reuniam todos os ingredientes, corriam de um lado para o outro, para encontrar os melhores.
As abóboras decoradoras idealizavam, desenhavam, construíam, experimentavam, e misturavam cores, para tornar o espaço mais bonito, e agradável. Tinham realmente muito gosto e jeito.
Os cabaços carpinteiros também preparavam tudo, trabalhavam muitas mais horas do que o habitual para pôr tudo como devia ser, cadeiras, mesas, palcos, escadas, prateleiras, e tudo o que fazia parte.
O grande dia chegou finalmente. Ao fim da tarde, com um céu em tons de roxo, e a ameaçar chover, as famílias começaram a reunir-se, no espaço, que parecia um palácio.
Estavam encantadas com as decorações. Havia música, muitos abraços, beijos e gargalhadas, mas o melhor de tudo eram os disfarces que cada um tinha arranjado.
Umas abóboras vestiram-se de estrelas com vestidos e saias de tecidos brilhantes, douradas, prateadas, lantejoulas de várias cores, que tornavam a roupa ainda mais brilhante, maquilhagem a condizer, e sapatos, as folhas todas arranjadas e lindas.
Outras abóboras iam vestidas de sereias, com longas cabeleiras e vestidos muito compridos, a imitar caudas, brilhantes, cheias de cores. Outras abóboras iam vestidas de flores de várias espécies, outras de animais de toda a espécie, outras de nuvens, outras de bolas de sabão, outras de vulcões, outras de elementos e fenómenos naturais, expressões faciais, outras de legumes, e outras de utensílios de cozinha.
Os petiscos estavam deliciosos, houve muita gargalhada, e com as barriguinhas bem cheias, não faltou animação: primeiro o desfile, em que cada um passava pelo palco, e todos aplaudiam, votando secretamente num papel e numa casotinha, um de cada vez, na farda que mais gostaram.
Depois, todos dançavam à vontade, como queriam, umas vezes sozinhos, outras vezes acompanhados, brincavam, riam, conversavam. E quase de madrugada, faziam o magusto até ao nascer do sol, com muita alegria.
A este desfile com magusto seguiam-se muitas outras festas, às vezes relacionadas com temas, outras vezes para comemorar algum acontecimento importante, outras vezes só para estarem juntos e brincar.
As abóboras adoravam esses encontros! E vocês?
- Conseguem imaginar abóboras disfarçadas? Abóboras costureiras, abóboras cozinheiras?
- Se vocês fossem uma abóbora, que disfarce levariam para o desfile?
- Se vocês fossem uma abóbora, o que festejariam com as outras abóboras?
Imaginem, e se quiserem escrevam ou desenhem.

Fim
Lara Rocha 
(31/Outubro/2016)







candeeiro abóbora, de Lara Rocha 

O espantalho muito pretendido




Era uma vez um espantalho que vivia num campo onde havia muitas abóboras, carnudas, grandes e enormes, lindas, que dava mesmo vontade de comer. Os cães tomavam conta dele, e não deixavam ninguém tocar-lhe ou roubá-las. Ladravam sem parar, rosnavam e atiravam-se se fossem teimosos. Uma vez, uns pássaros tentaram comer uma abóbora, e tirar palha do espantalho para construir ninhos.
- Fora daí…! Au…Au…au… - Gritavam os cães
- Deixa o espantalho! – Gritava outro cão
- As abóboras não são para vocês…ponham-se a voar daqui para fora. – Rosnou outro cão.
- Óh…por favor…eu preciso de palha e erva para fazer um ninho! – Pediam os passarinhos
- E eu preciso de palha para cobrir os meus filhos nos ninhos, aquecê-los…por favor…deixem-nos levar daqui um bocadinho de palha! – Implora outro passarinho.
- Não pensem que essa vossa história nos comove. Fora! – Gritou outro cão
- Há muita palha e erva por aí! Nesta não tocam! – Acrescenta outro cão.
Os passarinhos levantavam voo, tristes, e tentavam voltar para roubar palha, mas os cães estavam sempre atentos e rosnavam e ladravam, perseguiam-nos até que eles saíssem do campo.
- Teimosos! – Resmungavam os cães.
- Voltaram? – Pergunta um cão a rosnar
- Querem ser a nossa refeição? – Pergunta outro cão
- Vá lá! Só um bocadinho…por favor! – Pediam os passarinhos
- Não! – Gritam os cães
- Da próxima vez que voltarem, vão ser o nosso jantar, ou dos nossos donos. – Resmunga outro cão ameaçador
Os passarinhos lá iam procurar palha para outro lado, mesmo assim às vezes ainda tentavam aproximar-se, só que rapidamente eram corridos. Mas não eram só os passarinhos que queriam comer a palha do espantalho.
Os burrinhos e os cavalos também tentavam comer a palha mais baixa, a dos pés e pernas do espantalho, que era onde chegavam melhor. Os cães não deixavam. Ladravam, rosnavam e corriam atrás dos cavalos e dos burrinhos, que fugiam muito assustados e só paravam quando sentiam que estavam seguros, longe dos cães.
Às vezes a vontade dos cavalos e dos burrinhos comerem a palha do espantalho era maior do que o medo e do que os cães, por isso, voltavam a tentar várias vezes, mas os cães não deixavam.
- Fora daqui! – Gritavam os cães a ladrar muito irritados
- Teimosos. – Resmungavam
- Esta palha não é para comer… - Relembrava outro cão
Os burrinhos e os cavalos tentavam de várias maneiras conquistar a amizade dos cães, para ver se tinham sorte, e se estes os deixavam comer a palha que eles tanto queriam, mas não adiantava nada…! Os cães não caiam!
Numa noite, uma bruxa sobrevoou o campo na sua vassoura:
- Áh! Mas que beleza de espantalho! Vais ser meu…ih, ih, ih, ih, ih, ih, ih…ih, ih, ih… - comenta a bruxa
Os cães ficam muito atentos, e agitados:
- Que coisa é aquela que está ali parada? – Pergunta um cão
- Acho que…não sei…! – Responde outro cão
- Tem um aspeto assustador! – Diz outro cão
- É uma bruxa! – Reconhece o espantalho
Os cães ficam muito agitados e assustados, juntam-se mais à volta do espantalho com os dentes de fora, a rosnar, mas a bruxa não teve medo, deu umas sonoras gargalhadas e adormeceu os cães agitando a sua vassoura, antes que eles tivessem tido oportunidade de defender o espantalho.
- Óh! Não acredito! O que aconteceu aos bichos? Costumavam proteger-me e agora deixam-me ir com este ser que não conheço! Ai…ela vai dar cabo de mim! Maldita. – Diz o espantalho muito assustado
A bruxa leva o espantalho consigo, levantando voo às gargalhadas, toda satisfeita. Já no seu buraco onde vivia, a bruxa tinha algumas dezenas de espantalhos.
Ela tentou destrui-lo e transformá-lo em mau, mas os outros espantalhos que ela já tinha lá, gostaram tanto deste que não deixaram que ela lhe fizesse mal.
Um dos espantalhos adormeceu a bruxa com um sopro muito mal cheiroso, que ela própria lhe tinha dado, e assim conseguiram todos fugir para o campo de onde tinha sido levado o espantalho, que estava cheio de abóboras iluminadas, e onde todos festejaram toda a noite.
De manhã todos dormiram no campo, em cima de molhos de palha, sem ninguém dar por eles. A bruxa não desistiu, estava louca de fúria, tentou várias vezes atacar o campo e destruí-lo, mas a união dos espantalhos que tinham ganho alguns poderes, evitou que a bruxa conseguisse vencer as suas maldades.
Ela ficou muito irritada, frustrada, e surpresa, porque achava que era muito poderosa e afinal estava a ser vencida por espantalhos que tinha transformado para serem seus escravos.
E as festas continuaram!
Fim
Lálá
(30/Outubro/2016)


O espantalho medroso


        Era uma vez um espantalho que vivia num campo de produtos alimentares, em cima de um pequeno armário onde se guardavam os cereais como milho, trigo, centeio e outros. Além dos produtos, o campo tinha enormes girassóis.
O espantalho era de palha, estava vestido, calçado e tinha sido levado para o campo há muitos pouco tempo. De dia gostava de estar lá, do sol, das cores, tinha sempre a companhia das pessoas, ouvia muitos barulhos diferentes, mas logo que escurecia e as pessoas voltavam para casa, ele ficava mais triste, e quando era noite, ficava muito triste.
Sentia-se muito sozinho, o mais pequeno barulho assustava-o, porque todos lhe eram desconhecidos, e não conseguia ver nada. Ele quase nem se mexia com medo. Não segurou mais as lágrimas, e soluçou, mas parou quando um gato foi com as suas patinhas de lã, muito levezinho pelo campo fora a farejar.
Quando encontrou o espantalho ele já tinha visto, disse-lhe:
- Boa noite!
O espantalho estremece, fica gelado e responde a medo:
- Ai que susto! Boa noite! Quem está aí? Vai-te embora…não podes comer os cereais aqui do armário…xôôô…
- Ei…! Não estás a ser nada simpático! – Diz o gato
- Não tenho que ser simpático! Tenho de proteger os produtos dos meus donos
- Entendo! Mas comigo não precisas de falar assim…eu sou da casa! Sou um gato, um dos muitos que foram acolhidos por estas pessoas queridas!
- Não foram muito queridas, pelo menos comigo, deixaram-me aqui sozinho, nesta escuridão! – Lamenta o espantalho
- Tu és um boneco de palha, certo?
- Certo!
- Então, a tua função não é assustar ou afastar vadios que queiram roubar ou comer os cereais e essas coisas deliciosas?
- É!
- E tens medo?
- Sim. Está muito escuro aqui! Acho que não me deviam deixar cá fora de noite.
- Mas de noite é que é preciso tomar conta…!
- Porquê?
- Porque de noite é mais fácil roubar ou comer…
- E tu, não tens medo?
- Não! Já estou habituado! Mas diz-me do que tens medo?
- Não há luz aqui! Eu gostava de ter luz! Está muito escuro. E estes barulhos que não conheço!
- Não está tudo escuro; se não eu não te tinha visto, e vejo-te!
- Se calhar já conheces o terreno!
- Sim, mas não é só por isso! Olha para a tua frente…
- Áh! Estou a ver alguma coisa.
- Claro! No sítio onde estás é escuro, mas por cima de ti, e à tua volta há luzes. As da rua, as da casa, a da lua e das estrelas…olha! Ali em cima…aquela bola enorme e as pintinhas todas à volta!
- Áh! Que lindo! Pois é! Nunca tinha visto aquilo.
- Claro! Só se vê de noite. E se tens medo, tudo à noite parece muito mais assustador, há muitas sombras, as coisas parecem transformar-se em gigantes, monstros, criaturas horríveis…tudo fica mais inspirador para a criatura medricas.
- Como é que sabes isso?
- Já passei pelo mesmo.
- Então também já tiveste medo?
- Claro! Toda a gente, e animais incluídos, têm medo! Enquanto não conhecemos os espaços, e as coisas que nos rodeiam, temos medo.  
- E quem é aquela de que falaste? Mora aqui?
- Aquela quem?
- A criatura de que me falaste.
- A criatura medricas?
- Sim!
- É uma criatura que está por todo o lado.
- Como é que ela é?
- Ela está aqui agora. É difícil descrevê-la.
- Onde está? Não vejo ninguém.
- Pois. Mas está!
- Então como consegues vê-la?
- Ela vive na nossa cabeça! É ela que nos faz ter medo! É ela que transforma tudo o que vemos, em coisas horríveis!
- Como é que sabes?
- Também vive na minha…quer dizer…já viveu, mas depois saiu.
- E para onde foi?
- Não sei! Sei que às vezes ainda me vem visitar, mas por pouco tempo.
- Quando tens medo?
- Isso mesmo!
- E de que tens medo?
- De algumas coisas.
- Quais?
- Do que não conheço, de alguns sítios, e de alguns animais.
- Áh! Mas…e estes barulhos?
- Estes barulhos sempre estiveram aqui. São pequenos insetos que cantam! E outros brilham, dão luz. Tu não estás sozinho…
O gato explica-lhe tudo e convida o espantalho a ir dar uma volta pelo campo, para o conhecer, enquanto conversam alegremente um com o outro. O espantalho vai muito assustado, e pára muitas vezes, vai com os olhos muito abertos, e o corpo muito preso.
O gato ri-se e diz-lhe:
- Não precisas de abrir tanto os olhos, deixa-te ir…confia em mim. Aqui não há perigo, podes andar à vontade! Olha os meus amigos…Olá boa noite, malta.
Os outros gatos aproximam-se, o gato apresenta-os, e criam logo uma linda amizade com o espantalho. O espantalho aprende a conhecer muito bem o terreno e fica deliciado a ouvir os barulhos das cigarras e grilos a cantar.
Depois, um outro espantalho, do campo vizinho, também se torna amigo dele, e os dois começam a ter longas conversas um com o outro, e a juntar-se para ver as estrelas, passear pelos campos com os gatos.
Uns dias depois, uma fada dos campos ofereceu uma luzinha a cada espantalho, pendurando-a no seu pescoço, e pôs outra luz maior aos pés de cada um.
O espantalho vizinho apresenta outros espantalhos, de outros campos, e encontraram-se muitas vezes para conviver. Com a amizade que o espantalho criou, com os gatos e com os espantalhos, nunca mais se sentiu sozinho, e perdeu alguns medos.
Quando todos tinham medo de alguma coisa nova, ou barulho estranho, rapidamente deixavam de o ter, porque abraçavam-se uns aos outros, ou davam as mãos, e iam todos juntos, ver o que era.
Quando percebiam que não era nada de tão assustador quanto imaginavam, respiravam de alívio e riam-se.  
Eles sabiam que o medo muitas vezes não existia mesmo, e alguns eram só da sua imaginação, que se desfaziam quando viam que não era nada de tão perigoso…o medo ajuda-nos a proteger, e a ter mais atenção!
O medo faz parte de nós, e todos nós temos medos! Uns podem ser mais reais do que outros, uns desaparecem rápido, outros demoram mais tempo.
Uns aprendemos, outros criamos e outros não sabemos como nascem…quer dizer…imaginamos.

E vocês, do que têm medo? Peçam a um adulto para vos falar dos medos. Eles também os têm!
Fim
Lálá
(30/Outubro/2016)