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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O FLOCO E OS FLOCOS


            

















         Era uma vez um floco de neve, branco, muito leve. Passeava entre nuvens enormes, muito escuras e muito pesadas. Uma nuvem pequenina ficou maravilhada a ver o floquinho passear tão leve e tão sorridente que quis segui-lo para ver onde ia.
            A sua mãe, uma nuvem muito pesada, muito escura, cheia de raios de trovoada não gostou nada que a pequena tivesse ido atrás do floquinho e começa a disparar raios.
O floquinho, não percebeu o que estava a acontecer, só sentiu um empurrão e começou a descer a rodar a grande velocidade. Rodou, rodou, rodou…gritou assustado e aterrou num monte de folhas secas no chão de um parque cheio de meninos.  
- Mas que coisa tão estranha…onde estou? Como é que eu vim parar aqui?
            Todos os meninos o rodeiam e olham para ele:
- Um floco de neve…-Grita um menino, todo feliz
- Sim…! – Gritam todos
- De onde veio? – Pergunta outro menino
- De lá de cima, é claro. – Responde outro menino
- Então quer dizer que…vai começar a nevar. – Diz uma menina
- Sim. Olhem aquelas nuvens. – Observa outra menina
- Que pesadas e escuras. – Reparam todos
- Pois é! – Diz a professora
- Olhe professora, vai nevar…está aqui um floco de neve. – Repara uma menina
- Pois está. Está muito frio, e aquelas nuvens são mesmo de chuva…- Diz a professora
- Em forma de neve! – Acrescenta outra menina
- Isso mesmo. – Diz a professora
            A nuvenzinha que o seguia, depois de o procurar por todo o lado, lá em cima, viu que ele estava lá em baixo. Começou a chorar com pena do floco. E porque está tanto frio, as suas lágrimas transformam-se em gelo, e quando aterram, no solo, junto do outro floco, são floquinhos de neve.
            Os meninos fazem uma grande festa, gritam, riem, todos querem pegar nos floquinhos.
- Áh…! – Gritam todos
            Estendem as mãos, e os floquinhos caem nelas.
- Que levezinhos… - Diz a professora a sorrir
- Pois são! – Respondem todos
            Sopram floquinhos de neve uns para os outros, felizes. Uns floquinhos caem e abraçam-se uns aos outros, juntando-se a muitos outros, e formando grandes pedaços de neve.
            Eles caem sem parar, e os flocos começam a acumular. Em certos sítios, os meninos já conseguem fazer com os montinhos de flocos, um boneco de neve, e bolas para atirar uns aos outros.
A nuvem já não sabe qual é, nem onde está o floco que ela tinha visto. Chora ainda mais, e forma-se ainda mais neve.  
- Tantos flocos juntos…Agora já não sei qual deles és…! Óh… porque é que foste lá para baixo? Eu queria brincar contigo. - Suspira a nuvem
            A nuvem ficou tão triste, que caíram mais flocos.
- Tanto floco… óh, não acredito.
- Não sejas egoísta. Olha como estão felizes lá em baixo. – Grita a nuvem mãe trovoada.
- Foste tu que o mandaste lá para baixo?
- Claro.
- Porquê?
- Onde já se viu. Não eras tu que tinhas de ir atrás dele…ele é que tinha de ir atrás de ti, e conquistar-te, se conseguisse.
- Mas eu é que estava a gostar dele.
- Por isso é que eu o mandei lá para baixo.
- Então foste tu…?
- Fui.
- Porquê?
- Ele nunca seria para ti.
- Não sabes!
- Claro que sei…não seria. Andavas sempre com ele perdido.
- Só queria que ele fosse meu amigo.
- Mas ele podia não querer. E depois? Ficavas a sofrer, é claro.
            Mas a nuvem não desistiu. Nessa mesma noite, enquanto tudo dormia, ela aspira todos os flocos de neve. Olha para eles.
- Onde está o meu floco? Ai, como é que eu vou saber? Eles são todos iguais…
- Já estamos cá em cima outra vez? – Pergunta outro floco
- Parece que sim. – Diz outro floco
            A nuvem não reconhece o amigo e manda outra vez os flocos de neve todos lá para baixo. Amontoam-se e formam tapetes de neve à porta das casas, aos pés das árvores e no chão.
            Da nuvem formam-se mais flocos, e caem nos troncos das árvores. A nuvem aspira outra vez os flocos todos para ver se encontra o que ela tinha gostado e não encontra. Volta a atirar os flocos todos para o solo.
            A quantidade de neve cresce cada vez mais, porque a nuvem desistiu de procurar entre milhares de flocos. Eram todos iguais…todos brancos, todos muito leves e frios…
            Os flocos caem sem parar. Juntam-se todos no solo, e os meninos, na manhã seguinte acordam com uma bela paisagem branca, com um sol frio e fraquinho.
            Cada um, e depois em grupo, fazem lindos bonecos de neve, diferentes, vestidos a rigor com a estação, decorados com muito gosto e divertem-se muito.
            E vocês? Já sentiram um floquinho de neve a cair na vossa mão? Como foi? Gostaram?

FIM
Lálá

(19/Novembro/2014)

sábado, 15 de novembro de 2014

O DESEJO DA RAINHA


                                     foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma rainha invejosa, má, fria, arrogante e vaidosa, exigiu de um empregado seu uma aquisição muito diferente. Ela estava à janela e viu o arco-íris no monte, por isso, pensando que o arco-íris era uma coisa que se podia levar, mandou um dos seus criados para lá.
- Vai, e não voltes sem aquilo! – Ordena a rainha
- Mas…
- Cala-te. Não há mas, nem meio mas…vai.
- Eu lamento, mas esse seu desejo é muito difícil.
- Não quero saber…arranja-te! Eu quero os arco-íris e ponto final. Rápido.
- Mas…
- Despacha-te, antes que seja noite, eu quero ainda hoje…se não vieres com os arco-íris hoje…vou castigar-te!
- Senhora…
- Cala-te! Vai.
            O pobre criado não falou mais e segui. Não queria desiludir a sua rainha, mas ele achava difícil apanhar um arco-íris, só que não podia confessar isso com a rainha. Para ela ficar contente e não o despedir, pôs pés ao caminho e segui para o monte. Pelo caminho viu o arco-íris, mas quando chegou…e de repente…o arco-íris desapareceu.
- Óh…ainda não cheguei lá, e o arco-íris já desapareceu…
            Ele ia tão distraído que escorrega numas folhas e cai num buraco depois de rebolar várias vezes. Um burro salta para o buraco, manda um coice e atira-o pelo ar. Ele grita, e o burro sai do buraco a rir-se.
- Olha, em vez de te estares a rir, ajuda-me.
- Amigo…rir é bom!
- Eu não achei piada nenhuma.
- Rir, alivia a dor.
- Pois, pois…deve ser.
- É verdade! Olha que eu sou burro, mas sei umas coisas.
- Sim…sim…podes levar-me ao monte por favor?
- Ao monte? Eu…não vou para lá, mas se me disseres o que vais lá fazer, pode ser que eu vá.
- Vou lá buscar o arco-íris para a rainha.
- O quê?
            O burro desata às gargalhadas, e o rapaz ri-se por contágio, por ouvir as gargalhadas do burro.
- Desculpa… (ri outra vez)
- Estás bem-disposto! – Diz o rapaz a rir
- É que…isso tem muita piada.
- O quê?
- A rainha quer…um arco-íris…áh, áh, áh, áh… (recomeça às gargalhadas)
- Mas porque é que te estás a rir tanto?
- Porque ela nunca vai conseguir ter o arco-íris.
- O quê?
- Pois. Ai ela não sabe?
- Não sei…
- Ela não sabe que o arco-íris aparece e desaparece, e não se pode tocar nele?
- Não…?
- Também não sabes? Vais perder tempo a ir ao monte buscar o arco-íris. Nunca vais apanhar um…a não ser nos teus sonhos de olhos fechados…ou abertos…ih, ih, ih…
            O rapaz fica pensativo, e aparecem outra vez outros arco-íris.
- Agora vou apanhar aquele…
- Vais? Boa sorte… (desata a rir)
- Leva-me lá por favor.
- Está bem. Sobe
            O rapaz sobe para o lombo do burro, e quando chegam ao monte, o arco-íris desaparece. Volta a aparecer, e o rapaz faz tudo para o apanhar. O arco-íris aparece e desaparece.
- Mas estás a brincar comigo…?
- É mesmo assim, elas não estão a brincar…
- Mas…e agora como é que vou levar um arco-íris àquela mulher…? Ela lembra-se de cada uma…
- Acho que vais ter de a enfrentar e dizer-lhe a verdade…
- Verdade? Ela mata-me.
- Mas vais ter de dizer, porque na verdade, nunca vais conseguir apanhar nenhum arco-íris…ele só existe com luz do sol e água…é…ilusão. Não se pode tocar, nem agarrar, nem meter num frasco ou num saco.
- Não?
- Não!
            O rapaz fica desiludido e com muito medo da rainha. Quando chega ao palácio, conta a verdade à rainha, muito envergonhado e cheio de medo.
- Incompetente! – Grita a rainha quase a explodir.
            Ela chama outros criados para lhe irem buscar o arco-íris, mas eles também não conseguem, porque aparecem e desaparecem, não se sabe para onde. Os criados também fazem de tudo e não conseguem nada. Voltam ao palácio e a rainha fica completamente histérica.
Decide ir ela própria ao monte apanhar os arco-íris que quisesse, e tem a certeza absoluta que vai conseguir. Mas quando chega lá…acontece exactamente a mesma coisa: os arco-íris aparecem e desaparecem num instante, e a rainha não consegue tocar em nenhum.
- Mas o que é que se passa aqui? – Pergunta a rainha muito zangada
            O burro desata às gargalhadas.
- Nunca vai conseguir…
- Cala-te! – Grita a rainha – Alguém anda a roubar os arco-íris é? Apanhem o ladrão…- Manda a rainha
            Os criados correm todo o monte, todas as tocas, todas as árvores à procura dos ladrões do arco-íris.
- Mas que gente tão…rara! – Diz o burro às gargalhadas
- Porque é que te estás a rir…? Ajuda a apanhar os ladrões. – Manda a rainha muito incomodada.
- Nunca vão encontrar um único ladrão…- Diz o burro a rir
- Porque não? Eles têm de andar por ai. – Diz a rainha
- (RI) Eles não existem…
- Como não existem? Os arco-íris aparecem e desaparecem, não é sem razão…de certeza que são roubados por alguém.
- Não.
            O burro dá uma longa explicação á rainha sobre os arco-íris. A rainha fica envergonhada.
- Óh…não posso acreditar. Eu queria tanto um arco-íris…
- Mas isso é da mãe…ela não oferece às mãos criminosas do homem…são só para os olhos verem tal beleza…
- É mesmo bonito.
- Sim! Se a mãe permitisse que tocassem ou levassem um arco-íris, uma coisa tão bonita, já não existia…muitos homens já o tinham vendido uma série de vezes, só para fazer dinheiro, outros já o tinham fundido e transformado noutra coisa qualquer. Se fosse possível levar um arco-íris, cada um…nunca ninguém repararia nele…nem que ele é tão lindo. Nem tudo o que existe na natureza é para ser tocado ou comido…há muita coisa que é para ser sentida, e vista com os olhos. Quando tocamos com as mãos…estragamos tudo! – Explica o burro
            O burro ensina a rainha a ver com olhos de ver…a reparar nos mais pequeninos pormenores, sem tocar, apenas…ver…sentir…e a rainha descobre que afinal não conhece nada da natureza. Aparecem passado um bocado, nas nuvens uma série de arco-íris, maravilhosos, com cores nítidas, brilhantes, grossos.
- Ali há água, está a ver…?
- Não.
- Mas há, porque o arco-íris vem de lá.
            Começa a chover e o arco-íris desaparece. A rainha fica encantada.
- Áh! Que maravilha… - Suspira a rainha
- Tem de vir mais vezes passear e sentir a natureza, em vez de fazer pedidos estranhos…- Diz o burro
- Pois, é verdade.
- Venha, vou mostrar-lhe mais coisas.
            A rainha vai montado no burro, e este mostra-lhe tudo. A rainha parecia outra vez criança, ou que nunca tinha visto aquilo tudo. Correu, saltou, riu, rebolou na relva, brincou com os criados, feliz nos campos, andou descalça, apanhou flores, fez fios e arcos de malmequeres, pôs girassóis no cabelo, chapinhou em lagos, bebeu de fontes…estavam todos encantados com ela.
A rainha percebeu que o desejo dela era impossível de realizar, mas para compensar, quando tentou apanhar o arco-íris, descobriu muitas coisas novas, sentiu-se livre e muito feliz. Pediu desculpa aos criados pelo pedido tão estranho, e ofereceu-lhes uma bela cesta de frutas que mandou apanhar para cada um…enorme, cheia de frutas dos seus campos, frescas e suculentas.
A rainha teve na mesma os arco-íris…mas nos seus olhos!

FIM
Lálá
(15/Novembro/2014)





sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A BONECA DE PONTAS DE LÁPIS

Era uma vez um menino que tinha centenas de lápis de cor, e de cera, muito pequenos dentro de uma caixa. A mãe disse-lhe para ele deitar tudo fora, mas ele não queria. Tinha pena das árvores que foram cortadas para ele ter aqueles lápis, por isso queria levá-los até ao fim.
            A sua irmã mais velha ouviu a conversa entre ele e a mãe, e tem uma bela ideia:
- Mano, dá-me esses lápis.
- O quê? O que vais fazer com eles?
- Uma coisa bonita…anda cá.
            Os dois juntam-se, aguçam os lápis pequenos, e quando reparam já têm centenas de aparas e pontas.
- Não sei para que estivemos a aguçar isto tudo. Alguns ficaram reduzidos a quase nada…a pontas…e agora vão para o lixo. – Murmura o Francisco
- Não vão nada para o lixo. Queres ver…?
            O Francisco está muito surpreso, e pensativo…o que será que ela vai fazer com o que iria para o lixo? Aquilo não dava para pintar, quanto mais para fazer outra coisa. Mas estava muito enganado.
A irmã cola numa grande folha de cartolina, as centenas de aparas, pontas e bicos de lápis, de todas as cores, e forma uma linda boneca completa! Cabeça, tronco e membros, olhos, nariz e boca, orelhas, cabelo, pestanas, sobrancelhas, um sorriso fantástico, pescoço, tronco, braços, pernas, mãos, pés…e roupa, cheia de cor! Parecia uma princesinha. Dá gosto olhar.
- Ááááhhh…ficou linda! – Diz Francisco a sorrir, surpreso.
- Eu disse-te! – Diz a irmã a sorrir orgulhosa
- Como conseguiste fazer isto?
- Fazendo.
- Nunca tinha visto uma boneca feita de lápis de cor, aparas e bicos.
            Os dois mostram á mãe, e a mãe fica maravilhada. Aplaude, tira foto e completa o trabalho, pondo outra cartolina por trás, para a boneca ficar de pé. Uns dias mais tarde, com outras pontas que sobraram, fazem outra amiga para a boneca, com os mesmos materiais, também muito bonita, cheia de cor.
E vocês? Já experimentaram fazer uma boneca assim? Já viram alguma?

FIM
Lálá

(13/Novembro/2014)

O LIVRO, AS FOLHAS, AS PALAVRAS E AS LETRAS

        Era uma vez um livro que todas as crianças que visitavam a biblioteca da cidade, adoravam. Tinha imagens lindas, e toda a história era encantada.
        Um dia, o livro cansou-se de tanto lhe mexerem e reuniu as folhas para tomar uma decisão, e comunicar o seu cansaço. Decidem em conjunto tirar umas férias.
        Para isso, separam-se da capa do livro, e umas das outras. Trocam agradecimentos, e vão de férias. Umas vão pelo chão, outras, pelo ar, como pássaros para outras florestas encantadas, de outros livros e sonhos.
        O livro tinha centenas de folhas, e porque as páginas se separaram…desapareceu. De cada folha do livro, saltaram as palavras: umas, que voaram como borboletas desajeitadas, outras chocaram com as nuvens, outras foram sopradas pelo vento, e caíram em praias, outras caíram em lagos, e outras quase foram comidas.
        Em vários sítios das florestas por onde andaram, as palavras misturaram-se com letras de outras palavras que se separaram pelo caminho, e quando repararam, ligavam bem, por isso caminharam juntas e formaram novas palavras.
        Outras letras fizeram piruetas, viram-se todas ao contrário, dão cambalhotas com palavras antigas que estavam perdidas e abandonadas…que grande diversão e que grande confusão!
        Algumas palavras e letras soltas, foram apanhadas por uns meninos de um colégio que estavam ao ar livre a brincar. As educadoras ajudaram as crianças a apanhar essas palavras e letras, como se estivessem a apanhar bolas de sabão no ar, guardam-nas nos bolsos das batas, trocam uns com os outros, e as educadoras pedem às letras para darem as mãos.
        As letras dão as mãos, e todas descobrem lindas palavras, que as educadoras escrevem num quadro. Com todas as letras e palavras que juntaram, construíram uma linda história.
        Outras letras e palavras que escaparam foram presas por um jovem escritor que procurava inspiração e ideias para escrever. Elas dançam aos pares, e fazem coreografias umas com as outras…com isso, o escritor descobriu palavras encantadas para os seus poemas, e brincou com elas, para descobrir novas palavras.
        Mais à frente, um menino que não falava, viu letras soltas…ficou tão feliz com elas que começou a cantá-las, e quando as letras soltas se juntaram, o menino começou a dizer palavras. Ao dançar com as letras e com as palavras, conseguiu falar e construir frases.
        Uma menina que gaguejava, e era gozada por todas as outras, ia a correr e engoliu uma série de letras. Tossiu muito, e quando parou, começou a dizer as palavras com todas as letras que lhes costumavam faltar, e tornou-se capaz de falar, sem gaguejar.
        E as palavras e as letras, viveram muitas mais aventuras enquanto viajaram. Na biblioteca, o livro ainda não tinha aparecido. Todos andavam loucos à procura dele…mas nem uma única folha lá estava.
        Passados vários dias, e depois de tanto passeio, novas amizades, e aventuras, a capa do livro encontrou-se outra vez com as folhas, as letras, as palavras e as imagens porque os meninos estavam a ficar tristes e com muitas saudades do livro. As fadas dos livros, fazem uma magia e as folhas voltam a juntar-se ao livro.
        E tudo volta a ser como antes!
FIM
Lálá

(13/Novembro/2014)   

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

OS RABISCOS DA PENA

                                                                     foto de Lara Rocha 
                                                                               
            Era uma vez uma pena enorme de um pássaro que deveria ser também enorme, mas ninguém sabia a quem pertencia. O tal pássaro nunca tinha sido visto antes. Essa pena enorme apareceu numa pequenina praia de areias brancas, onde pouca gente lá ia…só pessoas que viviam perto.
            A primeira a ver a pena na areia foi uma menina. Pegou na pena, desenhou na areia um balão e de repente aparece um balão branco. A menina fica surpresa, mas quer mais cor. Pega na pena e escreve as cores que gosta mais e que quer ver no balão. Não aparece nenhuma palavra, mas aparecem todas as cores que ela tinha escrito. Pousa a pena e vai passear com o balão, feliz a saltitar pela praia.
Vai uma jovem, pega na linda pena e desenha na areia um coração. O coração sai da areia, flutua e paira à frente dos seus olhos. A jovem sopra o coração e diz-lhe para pousar na janela do quarto do menino de quem ela gosta. O coração pede para ela escrever o nome do rapaz, e dizer onde mora. O nome aparece brilhante, e o coração voa diretamente para a janela do rapaz.
Ele recebe o coração e vai ter com ela à praia. Os dois passeiam de mão dada e deixam a pena na areia. Aparece um pescador, pega na pena e desenha na areia um barco e uma sereia. Da areia salta o barco, e a sereia rema para o mar, dentro do barco com o pescador. A pena fica na areia. Chega um velhinho e desenha uma roda de muitas pessoas. Na praia aparecem muitas pessoas mais ou menos da sua idade. Ele fica surpreso.
Uma velhinha desenha um sorriso na areia, com a pena, e a luz desse sorriso espalha-se por todos os outros velhinhos da roda. Outro velhinho desenha uma bola, aparece uma bola e todos jogam com ela, felizes, como as crianças.
Pousam a pena na areia. Outros habitantes experimentam e desenham tudo o que desejam. Os desejos realizam-se, mas de entre tantos desejos, todos materiais, surgem uns muito especiais de um pequenino grupo de meninas: uma desenhou com a pena uma pomba branca, outra desenha no bico dessa pomba, a palavra PAZ.
O pássaro levanta da areia com a palavra no bico, e voa, espalhando gotas de paz, que caem da palavra, por onde passa.
Outra menina desenha uma lâmpada e escreve a palavra CURA, a outra menina escreve a palavra SAÚDE, outra escreve a palavra AMOR. Da areia salta uma lâmpada com essas palavras.
As três meninas levantam-se, dão a mão e um abraço. A pena levanta e envolve as meninas numa série de grandes círculos cheios de luz, que giram rapidamente. Os círculos sobem e escrevem no mar, a palavra AMIZADE. As meninas aplaudem e brincam juntas.
Para escrever uma amizade, também podemos usar uma pena, mas não uma qualquer…apenas aquela pena mágica que está pousada no coração de cada um de nós, e é essa pena que desenha tudo o que nos acontece, e também numa amizade.
Há coisas que somos nós que desenhamos, com a nossa pena na nossa praia para a amizade, mas há outras, que a pena com que os nossos amigos escrevem na areia, risca, apaga ou transforma…desenha de novo, coisas feias…que poluem a nossa praia.
Procuremos sempre que possível, sermos nós a escrever com as nossas penas, coisas bonitas e boas, nas nossas praias, e com a mesma, ou com outra pena, risquemos, apaguemos ou transformemos as coisas feias ou más que poluem a areia da praia da amizade.
Risquemos as nuvens negras e desenhemos o sol; transformemos a tristeza e as lágrimas, em sorrisos e em estrelas. Troquemos a dor, pelo carinho, abraços, beijos e respeito!
E a vossa pena? O que escreve na vossa praia?
Procuremos escrever só coisas boas…tesouros que só a amizade consegue desenhar, se soubermos usar a pena.

FIM
Lálá

(10/Novembro/2014)

O ABRIGO DAS ÁRVORES

Era uma vez uma árvore despida pelo vento entre o Outono e o Inverno. Quando reparou que todas as suas belas folhas tinham caído aos seus pés, resmunga triste:
- Óh…não pode ser…estou despida! O que aconteceu às minhas lindas folhas? Ai…que frio…brrrrr…!
        A árvore não se apercebeu que durante a noite, enquanto dormia, o vento tirou-lhe folha por folha. As folhas são para as árvores, como as roupas para nós; por isso, como os seus ramos estavam sem folhas, a árvore sentia-se despida.
        Era um acontecimento novo para esta árvore, porque antes tinha sido plantada numa floresta com muito calor, onde tinha sempre belas folhas.
        Na manhã seguinte, dois meninos irmãos passam pelo parque onde está a árvore, para ir para a escola e vêem muitas folhas no chão.
- Olha, mano…tantas folhas! – Diz a menina
- Uau! Que lindas! – Dizem os dois
- Devem ser desta árvore… - Diz o menino
- Pois…se estão aos pés dela, só podem ser dela. – Diz a menina
- Esta árvore parece…triste! – Repara o menino
- Áh! Pois é!
- Claro que estou triste…estou sem folhas e tenho muito frio…vim de um país muito quente! – Resmunga a árvore
- Óh! Coitadinha! – Dizem os meninos
- Habitua-te, amiga! Aqui…é mesmo assim. Nesta altura…ninguém escapa! Olha á tua volta! Estamos todas iguais! – Diz outra árvore sem folhas
        A árvore olha em volta, suspira triste:
- Pois é! Tens razão…mas eu tenho muito frio.
- Nós também tivemos no inicio, agora já não! – Diz outra árvore sem folhas.
- Mano, vamos levar estas folhas para a nossa escola ou para a nossa casa.
- Sim! Está bem!
        Os meninos enchem um balde de folhas cada um.
- Ei, onde vão levar as minhas folhas? – Pergunta a árvore indignada
- Já não são tuas! – Diz outra árvore
- O que vão fazer com elas?
- Não sei.
- Vão levá-las.
- Para onde?
- Para…muitos sítios!
- Mas eu não dei autorização…! Já percebi tudo…foram eles que me roubaram as folhas. Devolvam-nas! – Grita a árvore
- Não preciso que tenham pena de mim…devolvam-me as folhas! – Ordena a árvore
- Impossível, amiga.
- Como é que deixam que eles façam isto? – Pergunta a árvore zangada
- Não podemos fazer nada!
- Ai…que raiva! Apetece-me desfazê-los…
- Não te zangues…não vais ter as folhas de volta.
- Mas eu quero as minhas folhas…aquelas que eles arrancaram e vão levar descaradamente! Sem vergonhas… - Grita a árvore nervosa.            
        As crianças vão para a escola com as folhas e as três árvores ficam a conversar. Na escola todas as crianças brincam felizes no recreio, espalham as folhas, saltam em cima delas, escorregam e caem na relva fofa, riem, fazem trabalhos com outras folhas, cantam músicas do Outono, e ao voltar para casa, a menina vai com o irmão cobrir a árvore, com um saco cama, velho. Os seus gatos ajudam-nos a esticar o saco cama e a prendê-lo. A árvore sente-se melhor, mais confortável e mais quente. As outras duas árvores inclinam-se para ela e os seus troncos engancham-se uns nos outros, para se aquecerem as três.
        No dia seguinte, cai neve, e as árvores ficam todas brancas, quase congeladas. Tremem de frio. Os habitantes fazem uma fogueira muito perto das árvores. Primeiro, elas ficam com medo por verem fogo, mas quando sentem o seu calor tão agradável, descongelam.
        A fogueira apaga de noite, e as árvores congelam, mas quando juntam os troncos, parte do gelo derrete. As noites seguintes trazem ainda mais neve, os habitantes constroem uma casota de madeira à volta das árvores com telhado, e porta. Que bela casa!
        As árvores estão lá quentes e confortáveis, bem juntinhas, com cobertores, durante todo o inverno, são visitadas muitas vezes por dia pelos habitantes, que se abrigam na sua casota, recebem muitos abraços de pessoas que lhes agradecem, até à primavera.
        Na primavera, as árvores saem da casa de madeira para receber o sol, e ver as folhas verdes a nascer, passam o tempo a sorrir, ao contrário do inverno em que tiveram muito frio e estavam mais tristes…o que sempre lhes valeu foi a sua amizade.
        O estarem as três juntas, debaixo da casota, tornou-as grandes amigas umas das outras, nem dão pelo inverno passar. São quase uma família. Também foi por isso que a árvore que vinha do calor, habituou-se muito rápido.  
        A casotinha ficou para elas, para se abrigarem do calor a mais, com belas folhas, do vento, e da chuva.

FIM
Lálá

(10/Novembro/2014)

O CARRINHO DAS FLORES




     Era uma vez uma menina que vendia flores, depois da escola para ajudar os seus pais. Montava na sua bicicleta e no atrelado levava várias dezenas de flores, de todas as cores e espécies.
   Passeava pelas ruas todas da sua aldeia, sempre com um belo sorriso na cara, e muita gente comprava as suas flores, até pediam encomendas.
     Geralmente, chegava a casa sem uma única flor, e isso deixava os seus pais felizes, orgulhosos. Eles não queriam que ela trabalhasse, por causa da escola, mas tinha de ser. 
  Numa ida às ruas, duas bruxinhas transformaram-se em abelhas, que foram atraídas pelas cores e pelo cheiro. Um gato vadio reconhece-as e murmura de uma esquina:
- Lá estão estas! O que é que elas vão inventar desta vez…? Que chatas! – Comenta um gato
        Ele vai ter com elas:
- O que estão a tramar, sua malditas?
- Cala-te! – Gritam as duas
- Não tens nada com isso. – Resmunga a outra bruxa
- Vai-te embora! – Grita uma bruxa
- Essa agora… A rua é de todos! Se vocês que são umas víboras entram aqui, eu que sou bom, ainda mais. - Diz o gato a rir
- Xiu. – Ordenam as duas
- Tu vais estar caladinho, não vais? – Diz uma bruxa
- Quieto! – Ordena a outra
- Olha…lá vem ela.
- Transforma-te.
- É melhor mandarmos este gato para outro sítio, antes que ele estrague tudo.
- É.
        Dão um pontapé no rabo do gato, este desata a correr e esconde-se atrás de um caixote do lixo, mas fica atento ao que elas vão fazer.
- Malditas! E vão logo chatear a menina das flores, que é uma flor. Um dia destes tramo-vos! Acho que a menina é mais inteligente que elas, e não se vai deixar levar por elas…cuidado, menina! – Murmura o gato  
     Transformam-se em abelhas quando vêem a bicicleta a aproximar-se, seguem a menina, seduzindo-a:
- Menina…que lindas flores! – Repara uma bruxinha
- Obrigada! – Diz a menina a sorrir
- E cheiram bem… - Diz a outra bruxinha
- É! – Diz a menina
- Olha…desculpa estarmos aqui a rondar…
- E a elogiar as tuas flores…
- Bem, os elogios são sinceros, mas, nós podemos experimentar…
- Só um bocadinho…
- Do pólen de uma dessas flores?
- Por favor…
- Se não te importares, claro!
- Claro que podem. Á vontade! – Diz a menina
- Óh, mas que querida! – Diz uma abelha feliz
- Muito obrigada, pela tua bondade e simpatia… - Diz outra abelha
- Gosto muito do vosso mel…! – Diz a menina
- Áhhh…! – Exclamam as duas abelhas
- Nunca ninguém elogiou o nosso mel…só tu! – Diz a abelhinha a sorrir
- E é graças às tuas flores…ah…quer dizer…a todas as flores da tua aldeia. – Afirma a outra abelhinha
- Claro! – Diz a menina
   As duas abelhinhas provam o pólen de algumas flores e deliciam-se.
- Hum! – Suspiram as duas
- É mesmo bom!
- Delicioso!
- Mas agora não me suguem as flores todas, por favor…! – Pede a menina
- Óh! Claro que não! – Dizem as duas
- Já vamos embora. – Garante a abelha
- Muito obrigada, e boa sorte para as tuas vendas! – Diz outra abelha
- Obrigada. – Diz a menina a sorrir
        Nessa noite, as bruxas convidam as amigas e vão todas fazer uma grande festa no jardim e nos campos onde mora a menina, e onde há imensas flores.
  Fartam-se de comer…sugam pólen com palhinhas, tiram pólen com pás e colheres, misturam em sumos e barram nos pães, enchem frascos com pólen e saquinhos com pólen e pétalas de flores.
        De manhã, a menina acorda e repara que as flores estão murchas, com os centros despidos de pólen. A menina grita:
- Ááááhhh…quem fez isto?
- As abelhas! – Respondem as flores em coro
- Ai…! – Suspiram
        A menina fica muito raivosa. Volta a regar as flores, planta outras novas, mas fica vários dias sem vender. Quando vê abelhas chuta-as e grita-lhes:
- Vão trabalhar, palermas! Invejosas.
        De repente, umas fadinhas voam e despejam pólen em cima das flores. Elas voltam a ficar enormes e lindas. 
     A menina vai tentar vendê-las e quando chega ás ruas, estão lá as duas bruxas, muito atraentes a tentar vender as flores que roubaram e que fizeram com o pólen que tiram das flores da menina. Até o carrinho é igual.
  Embora sejam perfumadas, são flores artificiais. A menina fica assustada e muito zangada. Como já todos a conhecem, compram as flores verdadeiras da menina.
       As bruxas tentam destruir todas as flores do carrinho da menina, por inveja e por maldade, mas as flores disparam os seus espinhos, pó dos pinheiros e enchem as bruxas de picos.
       Elas gritam e desatam a fugir aos gritos e aos espirros, a coçarem-se sem parar.
- Bem-feita! – Grita uma senhora
- Mereceram! – Diz outra senhora
- Vigaristas. – Gritam várias senhoras
- Roubaram o nosso pólen! – Diz uma flor
- Eram flores falsas! – Confirma outra senhora
    E as flores da menina são visitadas pelas fadinhas, borboletas, joaninhas e abelhinhas verdadeiras, e até passarinhos pousam e mimam as flores, dançam delicadamente com os seus pezinhos levezinhos, transportam bocadinhos de pólen por todo o lado.
     Depois dos picos, as bruxas disfarçadas nunca mais voltaram a roubar o bom pólen das flores, nem fizeram mais festas que deixavam as flores murchas, e as flores voltaram a estar sossegadas nos seus campos, sem visitas indesejadas.
      Não lhes valeu de nada a maldade com que destruíram as flores da menina, pois não?

FIM
Lara Rocha 

(11/Novembro/2014)