Histórias infantis, para crianças, adolescentes, e adultos, peças de teatro e monólogos
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quarta-feira, 9 de outubro de 2024
Castelinho de sonho
domingo, 6 de outubro de 2024
Como será a toca dos morcegos?
Foto de Lara Rocha
Era uma vez no jardim de uma casa grande, onde vivia uma família com dezenas de morcegos nas árvores.
As crianças sentiam medo de os ver esvoaçar no escuro da noite, mesmo depois dos pais e dos avós terem dito que eram morcegos, importantes para a Natureza, e para os humanos, não faziam mal.
Comiam mosquitos e outros insetos que apanhavam, e de dia ninguém os via. Como mesmo assim não conheciam, nunca se tinham aproximado deles, nem das árvores onde viviam, durante o dia, a imaginação das crianças, começou a funcionar, para ver se deixavam de ter medo.
- Como será a casa deles? - pergunta uma menina
- Os papás e os avós disseram que eram por aí, nas árvores. - afirma um menino
- Mas eles dormem de cabeça para baixo! - comenta outra menina
- Sim, e nas árvores existe muito espaço para dormirem de cabeça para baixo, imagino eu, porque todas as árvores aqui são enormes. - diz outra menina
- Pois é! Também não sei. - comenta outro menino
- Será que a casa deles tem salas, quartos, casas de banho, cozinhas, despensas, frigoríficos, fogões, lareiras, sofás, camas, cadeiras, mesas, armários e tudo o que nós temos? - pergunta uma menina
- Acho que não. - dizem todos
- Também acho que não. Eles são muito pequenos para caber nas árvores com isso tudo, e as árvores também não são grandes. - comenta um menino
- Eu acho que eles não devem ter mobília, dormem pendurados em qualquer lado! - afirma outra menina
- Pois, também acho. - concordam todos
- Será que eles têm cobertores? - pergunta uma menina
- Claro que não. Se dormem pendurados, onde é que vão segurar os cobertores, e os lençóis? - responde um menino
- Pois, é verdade! - concorda a menina
Espreitam pela janela, e veem as sombras dos morcegos muito pequeninos, pendurados.
- Olhem, estão ali… - repara uma menina
- A dormir cá fora? - pergunta um menino
- Devem estar com frio. - diz outra menina
- Não. Eles já são frios quando dormem. - afirma outro menino
- Parecem folhas! - comenta uma menina a rir
- Pois é. - dizem todos a rir
Chega o Avô e comenta:
- Então, o que estão para aí a dizer?
- Avô, olha os morcegos ali. - diz uma menina
- Estão cá fora! - exclama outra menina
- Sim, e depois? - pergunta o Avô
- Eles devem estar congelados! - comenta outra menina
- Parecem folhas...(todos riem)
- Querem ir vê-los mais perto? - desafia o Avô
- Está bem. - concordam todos
- Eles não vão acordar? - pergunta outro menino
- Não. - garante o avô
O Avô vai com eles a uma das árvores onde estão três morcegos muito próximos, a dormir, de cabeça para baixo, as asinhas fechadas sobre si mesmos, pendurados num raminho fininho.
- Olhem eles aqui! - diz o Avô
- Áhhhh…- exclamam as crianças
- São mesmo pequeninos! - repara uma menina
- Pois são. Olhem as asinhas deles...fechadas para dormirem e para não aquecerem, porque eles são de sangue frio, e só assim é que conseguem dormir. E para não verem a luz do sol. - explica o Avô
- Podemos tocar-lhes? - pede uma menina
- Sim. Com carinho e sem medo - diz o Avô
Cada menina e cada menino faz festinhas nos morceguinhos, primeiro com medo de tocar, depois, como os morcegos não reagiam, tocaram à vontade. Adoraram a experiência, soltaram risinhos e exclamações.
- Áhhh! Que giro, são fofinhos. - comentam
- São! E sabem uma coisa engraçada? Quando se magoam numa asa, ela cura-se sozinha. - conta o Avô
- A sério? - perguntam todos surpresos
- Sim! - garante o Avô
- Já viste algum assim, Avô?
- Aqui vejo todos os dias. E vi, quando andei na tropa, mas os morcegos eram gigantes.
- Gigantes? - perguntam todos
- Sim.
- Não tinhas medo deles? - pergunta uma menina, surpresa
- Não! - garante o Avô
- E eles não vos faziam mal? - pergunta um menino
- Não, nós não éramos refeição para eles. - diz o Avô a rir
- Eles também dormiam assim, pendurados? - pergunta outra menina
- Dormiam! - responde o Avô
- Nas árvores? - pergunta um menino
- Sim, e noutros sítios, como aqui. - responde o Avô
- Deviam ser pesados! - comenta outra menina pensativa a imaginar
- Eu peguei num ao colo, era pesadinho, sim. - conta o Avô
- Pegaste num ao colo? - perguntam em coro surpresos
- Ele não te mordeu? - pergunta outro menino
- Claro que não...ele estava a dormir! Eles é que têm medo de nós. - diz o Avô
- Têm? - perguntam todos surpresos
- Pois. - diz o Avô
- Porquê? - perguntam todos
- Não sei. Talvez...porque saibam que podemos fazer-lhes mal. Acham que somos uma ameaça para eles. Nunca lidaram connosco, como os cães, os gatos, e outros animais. Convivem connosco na paz, partilham o mesmo espaço que nós, mas não há qualquer perigo! - explica o Avô
- Nunca pensei! - comenta uma menina
- Nós é que temos medo deles. - diz um menino
- Não há razões para ter medo destes bichinhos. - garante o Avô
Todos riem.
- E a toca deles, tem mobílias? - pergunta um menino
O Avô dá uma sonora gargalhada
- Óh filho, achas que sim? Para que querem mobílias, se eles dormem pendurados em qualquer sítio?
- E quando está frio? - pergunta outra menina
- Eles caçam na mesma, e depois metem-se...talvez...numa toca! - explica o Avô
- Acho que está aqui uma toca! - repara uma menina
- É. Parece! Ora espreita… - sugere o Avô
A menina espreita para metade de um tronco com uma grande abertura e por dentro, parece ter escadinhas.
- É aqui, Avô, olha quantos estão a dormir pendurados aqui, nas escadinhas do tronco.
Todos espreitam.
- Realmente, não tem mobília nenhuma! - comenta um menino
- Claro que não. - diz o Avô a rir
- Estes também estão a dormir, com as asinhas fechadas sobre eles mesmos, para se aquecer, talvez. - comenta outra menina
- Onde é que eles guardam o que caçam, se não tem frigorífico? - pergunta um menino
- Eles não precisam de frigorífico para guardar o que caçam. Comem tudo na hora, quando têm fome, voltam a sair. Já comem quantidade suficiente para aguentar o dormir de dia. - explica o Avô
- Está ali outro, Avô! Debaixo do telhado da casota do cão. - repara outra menina
- Está sim, sra. Deve ser por isso que o cão ladra tanto.
- Será que ele não tem medo do cão?
O Avô ri:
- Claro que não tem medo do cão. O cão não lhe chega, nem tem medo dele, ladra só para o cumprimentar. Olhem quantos estão ali, no fio onde antes se punha a roupa a secar!
- Áh! Que giro. - comentam em coro
- E onde é que eles têm casa de banho? - pergunta uma menina
- Fazem em voo. Achas que estão preocupados como nós? Não precisam de casa de banho, nem de mobílias. - responde o Avô a rir
- Eu pensei que a toca dos morcegos também era uma casa como a nossa! - comenta uma menina
Todos riem
- Eu também. - diz outra menina
- Não, já têm tudo o que precisam. Dormem onde possam ficar de cabeça para baixo, e à sombra, à fresca, o resto não precisam de mais nada. Só precisam de comida. - comenta o Avô
- Uau! - suspiram todos
- E como é que eles veem a comida? À noite, têm lanternas? - pergunta outra menina
O Avô dá uma gargalhada
- Claro que não têm lanternas, mas têm detetores, uma espécie de radares, nos bigodes e os olhos é como se fossem infra vermelhos que lhes indicam onde estão os petiscos.
- Que giro! - exclamam todos
- Vamos dar por aí uma volta, a ver se encontramos mais. - convida o Avô
- Ali, Avô, debaixo daquele telhado onde se guardam as espigas.
- Isso mesmo, no espigueiro. Olha como eles dormem ali. À sombra, sossegados, de cabeça para baixo até à noite. - responde o Avô
- E caçam a noite toda? - pergunta outro menino
- Talvez! Deve ser também por isso que dormem o dia todo. Também não gostam de muita luz. A luz do dia não os deixa ver a comida. - responde o Avô
Continuam à procura de morcegos, e reparam em muitos morcegos pendurados nos sítios mais estranhos, conversam e riem, ficam encantados com o que veem.
- Eu gostava de ser morcego, nem que fosse só uma noite! - diz um menino
- Que nojo! Ias comer insetos...! - comenta uma menina
- Para que queria ser morcego? - pergunta outro menino
- Só para ver como é que eles ficam à noite, como é que eles veem a comida à noite, como é que veem as cidades e as aldeias, os campos. - imagina o menino
- Devia ser giro! - diz outra menina a rir
- Eu não queria ser morcego! - comenta outro menino
- Porque não?
- Não gosto de dormir pendurado...quer dizer, acho que não ia gostar.
- Se fosses mesmo morcego, ias gostar, porque era assim que dormias, e que dormem todos os morcegos. - diz uma menina
- Pois. - dizem todos
- Eles são muito leves e livres! - diz uma menina
- Acho que também gostava de ser morcego uma noite, e dormia numa gruta cheia de cristais. - diz outra menina
Todos riem
- Isso também gostava, e com água! - acrescenta outra menina
À noite, espreitam pela janela, e veem dezenas de morcegos a esvoaçar numa correria de um lado para o outro.
Agora já não sentem medo, e riem às gargalhadas a ver a agitação, com voos cruzados, a subir e a descer, outros a pousar nas tocas, depois de um bom bocado a caçar.
Assim, perderam o medo dos morcegos, e todos os dias, apreciavam-nos da janela, riam, imaginavam histórias com morcegos, viam-nos de dia, faziam-lhes festinhas.
E vocês?
Gostavam de ser morcegos por uma noite?
Como seria?
O que veriam?
Onde dormiriam?
Como imaginam as tocas dos morcegos?
Já viram morcegos ao vivo? Como eram?
FIM
Lara Rocha
6/Outubro/2024
quinta-feira, 3 de outubro de 2024
O esquilo bondoso
Era uma vez um esquilo que não parava um segundo! Enquanto estava de olhos abertos, tinha sempre o que fazer, parecia ligado à tomada.
Corria de um lado para o outro, pedia aos trabalhadores no campo, que lhe emprestassem cestas, baldes, bacias, e desaparecia na floresta.
Os trabalhadores emprestavam-lhe, não sabiam para que era, mas achavam engraçada e misteriosa aquela correria toda.
Apanhava uma série de bolotas, pinhas, castanhas, folhas de Outono, enchia tudo o que podia, ficava com uma boa quantidade para si, para poder comer no Inverno, no conforto da sua casinha de árvore, e partilhar se precisasse.
Armazenava, mas distribuía por quem mais gostava, dizia que não podia perder tempo e tinha muito que fazer.
O que iria fazer um esquilo, com aquilo tudo? - perguntavam os trabalhadores
O esquilo fazia embrulhos de bolotas nas folhas que caiam das árvores, de várias cores, e oferecia aos outros esquilos, aos porcos que também comiam bolotas.
Deixava à porta dos trabalhadores tudo o que lhe emprestavam, com pequenos mimos, embrulhados nas folhas: pinhas que pintava com muitas cores diferentes, as cores do Outono.
Outras mais brilhantes, uvas com um tamanho grande, e um sabor delicioso, que eles desconheciam, maçãs grandes, bonitas e doces, castanhas grandes.
Os trabalhadores ficavam muito surpresos, e numa tarde em que o esquilo passou a correr, perguntaram:
- Ei...obrigado por teres devolvido o nosso material!
- De nada! Obrigado eu - diz o esquilo a sorrir
- Onde vais a correr tanto?
- Podemos ajudar?
- Fica aqui um bocadinho connosco!
- Ahhh...está bem! - diz o esquilo, um pouco cansado
- Mas, porque o trouxeste com isto tudo? - pergunta uma senhora
- Para vos agradecer, e lembrar que é Outono!
- Mas que coisas tão bonitas! - diz uma senhora
- E são deliciosas! - diz outro senhor
- Onde foste buscá-las? - pergunta outras senhora
- Fui...por aí! O que interessa é que tenham gostado! - responde o esquilo
- Claro que sim! - respondem todos
- Mas gostávamos de saber onde é, para irmos apanhar também. - comenta outra senhora
- Aaaaahhhh... eu trago-vos!
- Mas que querido! - comenta uma senhora a sorrir
- Que esquilo tão generoso! - diz uma menina
- Também dou a quem precisa mais, sim. - confirma o esquilo
- Então, estás convidado para a nossa festa.
- Está bem! Obrigado. Quando é? E onde?
Os trabalhadores explicam tudo, contam a tradição, e o motivo da festa. O esquilo não fazia ideia, mas adorou ouvir tudo sobre a famosa tradição no Outono.
Depois de muita conversa:
- Muito obrigado. Adorei saber tudo o que me contaram. Cá estarei. Se precisarem de alguma coisa de mim, eu ando sempre por aí.
- E andas sempre a correr?
- Bem...quase sempre! Não posso perder muito tempo. Tenho muita coisa para fazer. Não sei andar de outra maneira - diz o esquilo
- Mas também precisas de descansar!
Todos riem.
- Sim, também descanso! Então...até já.
- Até já. - dizem todos
Lá vai o esquilo, e a festa começa a ser preparada. Sem que estivessem a contar, no dia da festa, de manhã bem cedo, o esquilo estava no largo, verdejante, a fazer a decoração das mesas, com coisas que tinha feito, parecido com os presentes que ofereceu aos trabalhadores.
Cheio de energia, feliz, pinhas aqui, pinhas ali, pintadas de diferentes cores, castanhas espalhadas, uvas em cima de folhas de árvores, nozes ao natural, outras pintadas na casca de fora, lindas! Velas em cascas de nozes, e outros objetos decorativos que o esquilo tinha criado.
Quando os trabalhadores viram, nem queriam acreditar.
- Ááhhhhh... que coisa mais linda! - suspiram
- Obrigado! - diz o esquilo a sorrir
- Mas não precisavas de ter este trabalho todo!
- Fiz com todo o gosto, não foi trabalho nenhum. Trabalho têm vocês, a preparar as refeições e petiscos todos!
- Sim, mas também fazemos com gosto.
- Acredito! Estou curioso para provar - diz o esquilo
- Já está quase tudo pronto, daqui a bocadinho começamos a trazer.
- Querem ajuda?
- Não, obrigado! Já fizeste tanto.
- Está bem.
Os trabalhadores estão maravilhados, e como o esquilo não consegue estar quieto, vai ajudar. Todos riem com a energia dele.
Depois de tudo pronto, começa a festa. Vestidos a rigor, muita música, muita animação, muita dança, muitos abraços, cantares, fotografias, petiscos, brincadeiras, jogos, o esquilo come de tudo, adora tudo, até não poder mais, como os trabalhadores.
Há momentos de contemplação da Natureza em silêncio, e agradecimento de cada um a tudo o que ela dá, tudo o que ela tem de maravilhoso.
Escrevem bilhetinhos, e põem aos pés de uma árvore, abraçam a árvore, acariciam-na, encostam-se a ela, dão as mãos à volta da árvore, de olhos fechados, e dizem em coro, em voz alta: «gratidão, Mãe Natureza por tudo o que nos dás!»
Largam as mãos, sorriem, aplaudem, e depois a animação continua noite dentro, com o esquilo sempre divertido, a fazer rir toda a gente, muita gargalhada e brincadeiras, a beber e a brindar com sumos de frutas, deliciosos, dançam, batem palmas, e a festa acaba com a chegada do nascer do sol, apreciado por todos.
O esquilo e os habitantes estão muito cansados e com sono, e cada um vai para sua casa. Depois de recuperados, ao fim do dia, comem o que sobrou, e ajudam a arrumar as coisas, com o esquilo todo elétrico.
O esquilo passa a ser visto como um amigo, um elemento de uma grande família, que visitava praticamente todos os dias, além da dele, mesmo no Inverno, com neve e frio, bem agasalhado, perguntava a todos se precisavam de alguma coisa.
Era muito bem recebido nas casas todas, ofereciam-lhe chá e biscoitos deliciosos. E no Natal voltavam a fazer uma grande festa, com a presença do esquilo, e os seus presentes tão lindos para cada um.
Estava sempre presente, e até apresentou a sua família, e amigos, aos trabalhadores, que nunca tinham visto tanto esquilo junto, e tão simpáticos como eram.
No Inverno ficava mais recolhido, a preparar presentes, mesmo assim, visitava a família e os amigos humanos.
Era um esquilinho mesmo bondoso!
E vocês?
Se fizessem uma festa no Outono, quem levariam?
O que poriam nas mesas?
Que produtos de Outono conhecem?
Como seria essa festa?
Podem deixar nos comentários, se quiserem :)
FIM
Lara Rocha
3/10/2024
terça-feira, 17 de setembro de 2024
A brincadeira da menina Outónia
Era uma vez uma menina chamada Outónia que todos os anos visita o Planeta Terra, mas este ano está desmotivada e triste, revoltada, porque de ano para ano, deixam de reparar na sua chegada.
Ela gosta de ser o centro das atenções, adora oferecer coisas bonitas, mas se não reparamos nesses presentes, fica triste. Nos últimos anos, a Outónia percebeu uma grande mudança na forma como os habitantes lidam com ela.
A pobre menina tem-se sentido invisível, reparou que muitos dos habitantes vão a olhar para os telemóveis, completamente absorvidos naqueles minúsculos aparelhos, pela rua e em todo o lado.
Passa por todos, e ninguém a vê, nem um sorriso, nem para uma árvore ou uma simples folha olham, ou um passarinho pequenino. A menina Verona que estava quase de saída da sua estadia em Portugal, vê a Outónia a espreitar à janela numa nuvem, triste, a olhar para Portugal.
- Olá Outónia! - diz a Verona
- Olá! - responde a Outónia
- Como estão a correr as tuas férias? - pergunta Verona
- Bem, e as tuas? - pergunta Outónia
- Também! Já estou quase de regresso a outro lugar.
- Eu não vou para aí este ano.
- Não vens? Como não vens?
- Não! Podes ficar aí mais tempo, ou a Invernia já pode vir também.
- Mas...o tempo dela ainda não chegou! Não podemos passar umas por cima das outras, chegamos para tudo. E somos amigas, vimos para aqui no tempo que temos de vir. Eu ainda tenho mais lugares para onde ir! Tenho sempre alguém que me substitua, e és tu, Outonia! A mãe, quer assim.
- Eu sei, mas arranjem outra! A Primavera ou inventem outra! - diz a Outonia desanimada
- Não me parece que isso possa acontecer, ou que alguma vez vá acontecer!
- Azar o deles. Também, não fará diferença para esses aí.
- Quem?
- Os que vivem aí em baixo.
- Porque não? Claro que faz diferença. Eles precisam de nós as quatro, todos os anos.
- Isso era antes! Agora só querem aquelas coisas nas mãos, só olham para aquilo e nós não existimos.
- Isso é verdade, e é triste, mas não é caso para não vires, porque ainda há quem repare em nós. Ainda vejo gente a passar sem essas coisas nas mãos, e a olhar para as árvores, para as folhas, a sorrir por sentirem o vento, crianças divertidas a pisar folhas que caem...- relembra a Verona
- A sério?
- Sim. Estás triste, já percebi! - diz Verona
- Eu cansei de ser ignorada! Se não for, não faço diferença.
- Óh! Não digas uma coisa dessas, vens e logo vês! Há sempre alguém que repara em nós. Tu é que só estás a ver e a pensar em quem não repara...para quê? Para ficares triste. Mas quem repara, fica feliz de nos ver.
- Achas?
- Tenho a certeza! Anima-te. Está quase a chegar o teu dia.
Chegou o dia em que a Verona saiu de Portugal, e a Outónia chegou. Como estava triste, trouxe muitas nuvens carregadas e frio. Ouviu muitas reclamações, de gente que passou cheia de pressa, passeou vagarosamente.
E quando viu todos a olhar para os ecrãs, dá um grande espirro, que faz cair gotas de chuva e abana as árvores de onde caem milhares de folhas em cima das cabeças, em cima dos telemóveis, da roupa, dos pés, das pessoas que passavam.
Sacudiram as folhas e continuaram, muito irritadas.
- Nem assim...- murmura a Outónia, zangada
Foi para os sítios que a amiga Verona indicou, onde reparavam nelas. As aldeias dos arredores da cidade. Levou um vestido brilhante, de sol, parecia de ouro, com as cores das folhas no Outono, e desfilou pelos campos.
Os girassóis, as espigas de milho, as uvas, as castanhas que espreitavam dentro dos ouriços, as nozes, reconheceram-na. Abriram um grande sorriso, suspiraram de encanto e gritam em coro:
- Olá Outónia.
- Olá! - responde a Outónia a sorrir
- Muito bem vinda! - diz um girassol
- Que bonita que estás! - diz uma castanhinha
- Obrigada! - diz a Outónia a sorrir
A Outónia não cabe nela de felicidade.
- Obrigada por estares de volta! - diz uma videira
- Uau! Sempre bonita. Fizeste boa viagem? - elogia uma espiga
- Sim, obrigada. Ainda pensei não vir, mas depois a Verona convenceu-me.
- Ora...porque não vinhas? - pergunta uma folha de videira
- Não podias faltar, nem pensar! Fazes muita falta. - diz uma uva
- Claro! - dizem todos
- Obrigada, por repararem em mim.
De repente, os donos da casa vão para o campo, olham em volta e reparam que tudo está muito mais bonito, muito maior, brilhante, luminoso, com cores vivas e uma brisa suave.
- Áh! Que maravilha. - suspira um Sr. já com alguma idade
- Ela chegou! - diz a esposa a sorrir
- Quem? - perguntam os adultos
- A Outónia. - respondem todos os mais velhos
- Quem é essa? - perguntam surpresos
- Então? Que dia é hoje? Não é hoje que começa o Outono? Ai essas cabeças. Não admira, só veem telemóveis à frente - resmunga outra senhora
A menina Outónia dá uma gargalhada, com vontade, e aplaude. Os adultos ficam um pouco envergonhados.
- Muito boa! Afinal não sou só eu que reparo e resmungo - diz a Outónia a rir
Os rapazes e meninas mais novas, filhos dos adultos, estão completamente absorvidos com os telemóveis, nem reparam, nem estão atentos à conversa dos adultos.
Chegam ao campo, os mais novos sentam-se debaixo de uma grande árvore, um castanheiro, com os telemóveis ligados, sem falarem sequer uns com os outros, enquanto os pais e os avós trabalham na apanha de fruta (uvas, castanhas, espigas, nozes), conversam e riem entre eles, encantados com as surpresas da Outónia.
A Outónia fica irritada com o que vê, crianças que em vez de estarem a correr pelos campos e a ajudar os adultos, a apreciar as coisas bonitas, estão debaixo de uma árvore a olhar para ecrãs pequenos, sem conversar.
- Meninos, larguem essa coisa, e venham mas é para aqui! - grita o Avô zangado
Foi como se o Avô não tivesse falado. Os dois Avôs aproximam-se, zangados:
- Não ouviram o que o Avô disse? - grita um dos Avós
- Larguem isso! - grita o outro Avô
Não respondem, nem olham para os Avós. A Outónia, muito irritada, dá uma ajuda: gira, gira, gira e volta a girar sobre si mesma, depressa, a soprar, e faz levantar uma montanha de folhas do chão para cima das crianças da cabeça até aos pés.
Elas gritam, o vento é tão forte que lhes tira os telemóveis das mãos, e atira folhas de várias cores brilhantes, para a cara delas, faz cair ouriços no chão, aos pés deles.
As crianças gritam assustadas, mas ficam encantadas com as folhas. Os Avós riem e agradecem à Outónia:
- Muito bem, Outónia.
- Era o que nós íamos fazer!
- Muito obrigado!
Os pais das crianças ficam muito surpresos e envergonhados.
- É, meninos, venham para aqui. - diz a mãe
- Larguem isso e venham brincar com a Natureza! - diz o pai
- Pois claro! - murmura e aplaude a Outónia a rir
- Agora estais a falar? - pergunta um Avô
- Nem deviam trazer isto para aqui. - diz o outro Avô
- Também acho - diz a Outónia a rir
- Na vossa infância, não tinham nada disto, e eram mais saudáveis, mais felizes. - lembra uma Avó
- Mesmo! Até eu era mais feliz - ri a Outónia
- Já para ali. - grita um Avô
- Excelente! - diz a Outónia
- O que vamos fazer com isto? - pergunta uma criança
- Óh valha-nos...nem têm imaginação para inventar brincadeiras com folhas. - comenta um Avô
- Nós sabíamos bem o que fazer com elas! - comenta o outro Avô
- Brinquem com as folhas, criaturas! - grita o outro Avô
- Inventem.
- Não sabemos como brincar com isto! - diz uma menina
- Santa Ignorância! - comenta a outra Avó
- Vão ver aos telemóveis. - diz outra senhora que está a ajudar, a rir-se
Todos dão uma gargalhada.
- Como brincamos com elas, pai? - pergunta outra
- Não acredito que estão a perguntar isso! - diz a Outónia, surpresa
- Então...puxem pela imaginação, elas estão em cima de vocês, aos vossos pés, inventem!
- Também acho! - diz a Outónia
- Na nossa geração, sabíamos bem como brincar com elas.
- Confirmo! - diz a Outónia
- Tendes aí castanhas, para apanhar, e tirar os ouriços. - diz outra mãe
- Como se faz isso? - pergunta outra criança
Os adultos nem querem acreditar. Os mais velhos ensinam os mais novos, a brincar com as folhas, dão ideias, brincam com eles, ensinam as crianças e apreciam com elas a beleza de cada folha.
Ensinam como se tiram as castanhas dos ouriços, mostram a beleza das uvas, das maçãs, das espigas, provam-nas, ajudam a apanhar os frutos, as nozes, e as castanhas.
Num instante, as crianças divertem-se e inventam novas brincadeiras. A Outónia aprecia, deliciada e sorridente, orgulhosa, vaidosa, ri às gargalhadas com o vento.
A Outónia ri às gargalhadas com o vento, não se lembraram mais, nem procuraram mais os telemóveis. Viram passarinhos que andavam por lá desde sempre, mas só nesse dia os viram, e ouviram o seu canto, porque nos outros dias estavam a olhar para o telemóvel.
Fizeram carinhos nas penas, viram os girassóis nesse dia e nunca tinham visto, viram as lindas uvas e folhas que nunca tinham visto. Saborearam, sentiram o sabor das maçãs, das uvas, o vento na cara e no cabelo a fazer-lhes mimos, sentiram as castanhas, nozes, abriram ouriços, coisas que nunca pensaram ver, nem fazer, deram água e alimento aos animais da quinta.
Os adultos perceberam como eles estavam felizes, e que tudo era muito mais saudável do que os jogos eletrónicos e os telemóveis, naquelas idades.
Nos dias seguintes, as crianças não quiseram saber dos jogos eletrónicos, divertiram-se como nunca, e ajudaram os adultos. A Verona tinha razão!
Em cada aldeia por onde a Outónia passou, era valorizada e apreciada, reparavam na sua chegada e ganhavam saúde, estavam sempre à espera dela para fazer festas, brincadeiras, apreciar tudo o que ela lhes dava, todas as surpresas.
Faziam danças, desenhavam, fotografavam, cantavam, aprenderam a fazer pão de milho, centeio, a apanhar cereais, comeram pipocas, desfolharam espigas, brincaram com elas, fizeram bolos com os produtos do Outono, e perceberam que tudo o que está fora dos telemóveis vale a pena ver, apreciar, contemplar, tocar, provar, cheirar, brincar, sentir, aprender coisas novas, e ser feliz.
A Outónia ficou tão feliz que retribuiu e encheu os habitantes de mimos.
FIM
Lara Rocha
11/Setembro/2024
E vocês?
O que fazem no Outono?
Já experimentaram estas coisas tão deliciosas que a Outónia oferece?
Já viram a Outónia a chegar?
Como a imaginam se ela fosse uma menina?
Podem desenhá-la, ou escrever nos comentários.
Estejam atentos...ela está a chegar, quero ver quem a vai apreciar, e recebê-la com carinho.
domingo, 1 de setembro de 2024
Somos fortes
Somos fortes ou fazemo-nos de fortes?
Umas vezes somos,
outras vezes fingimos que somos.
Mas o fingir não dura para sempre.
Um dia,
queremos fingir que somos fortes,
mas todo o nosso corpo
e principalmente as nossas lágrimas traem-nos.
Tiram-nos a máscara de fortes!
Não quer dizer que somos fracos,
afinal apenas significa que…
um dia cansamos de fingir que somos fortes.
Um dia as máscaras caem e ficamos despidos,
porque um dia cansamos de fingir que somos fortes,
o fingimento não dura para sempre
e o que se encontra por trás das máscaras de fortes
também não fica lá para sempre.
Somos humanos,
não somos fantoches,
não temos máscaras…
as máscaras
mais cedo ou mais tarde derretem…
e tudo se revela.
Umas vezes somos realmente fortes,
sem máscaras,
outras vezes fingimos que somos fortes.
Até que a máscara cai e não conseguimos mais.
Nem fingimos mais que somos fortes.
A força não se vê na máscara.
Vê-se nos momentos
em que ela se revela por trás da máscara,
e nesse momento,
não há fingimento que nos valha!
Tudo passa a ser real, seja o que for.
Podemos conseguir fingir…
até que os olhos perdem a força.
Sim,
eles também cansam,
nós podemos fingir,
mas os olhos não.
Fim
Lara Rocha
27/Abril/2014




