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domingo, 5 de novembro de 2023

Escrever

 Escrever…

Foto, caderno e caneta de Lara Rocha 

Escrever é limpar a alma, varrer o coração, arrumar as gavetas das emoções, organizar os pensamentos, arquivar recordações. 

Escrever é...libertar e lavar o nosso mundo interior, melhorar a nossa saúde, perceber o que acontece, procurar e encontrar respostas, viajar, fazer despertar sonhos. 

Escrever é...ganhar asas e pousar na felicidade, escrever é...andar de mãos dadas com a nossa criança interior, 

Escrever é pôr todo o nosso ser a respirar, a revelar-se, a construir-se diariamente, na sua totalidade. 

Escrever é...transformarmo-nos a nós, ao mundo, aos outros, é permitir que a nossa imaginação se revele, e nos faça viver! 

Escrever é deixar sair todas as «máscaras», que engolimos, escondemos, para fingir que está tudo bem. 

Escrever é viver, sonhar, respirar, brincar com as palavras, com imagens, com sinais de pontuação. 

Escrever é...deixar o corpo e a alma sair da prisão, falar, rezar, pedir, implorar, cantar, gritar, chorar, rir, sonhar, segredar, dar voz aos sentimentos, emoções e pensamentos. 

Escrever é plantar e ver nascer um novo ser, a cada transformação. Escrever é...sentirmo-nos vivos, inteiros, únicos, verdadeiros. 

Escrever é...fazer viver, é viver! Acalmar, curar, limpar, respirar, clarear, ser feliz! 

E para vocês? O que significa escrever? O que escrevem, para que escrevem? 

                                                           FIM 

                                                      Lara Rocha 


                                                        

A verdadeira união

A verdadeira união entre duas pessoas é algo muito mais do que o contacto físico, e troca de olhares...aliás, começa com quando os olhos falam, a boca cala-se, e as palavras flutuam ao sabor do diálogo que se estabelece entre os dois corações. 
União significa a fusão de dois corpos que se ligam emocionalmente, numa só energia vibratória, numa linguagem sem palavras, com uma conversa que só eles têm e sabem o que dizem. 
Os corpos não ouvem, mas os olhos falam, o toque das mãos um no outro falam, os sorrisos espontâneos sem motivo aparente falam, os abraços falam, tudo fala na sua linguagem própria, secreta. 
União é paciência, carinho, sorriso, é o que fica depois da ilusória e fugaz paixão. Paixão, aquilo que agrada aos olhos, mas nem sempre fica depois desse fogo...Na união, permanece um encantamento diário, o apreciar, o contemplar o outro, a vontade de descobrir o outro, lentamente, sem pressa, a saborear, e percorrer todos os labirintos do outro. 
A verdadeira união entre duas pessoas tem amizade, lembrança, a sensação de pertença sem posse, a troca de carinhos não forçada, natural, recíproca, com a aceitação do outro, e resposta. 
União é mimos, pequenos gestos, rir, brincar, conversar sem medo, beijar com respeito, é estar presente e dar espaço, é confiar! 

                                Fim 
                           Lara Rocha 

E para vocês? O que é união, namoro? Amizade? 
 

Evolução


 Evolução…

No início...raiva, raiva e mais raiva! As entranhas remexiam-se a toda a hora, dia e noite. Queriam sair de onde estavam, expulsar o que lhes pesava, o que sentiam. 

coração e o estômago reclamavam...uma sede imensa de vingança povoava a minha mente, o meu corpo, todo o meu ser. 

Pela dor que me causaste, e por todos os sonhos construídos, com toda a perfeição...e carinho, durante quatro anos. 

Sonhos de felicidade, de amor, de família, do eu-tu igual a nós...destruídos como um terramoto em segundos que não deixa nada de pé. 

De um dia para o outro, restou a desilusão, a tristeza, a solidão, a baixa auto-estima, a ponto de te dar razão! Onde já se viu? Hoje sei que nunca a tiveste. 

À medida que o coração foi secando, e as lágrimas cristalizaram,  a raiva foi dando lugar à indiferença, a indiferença que mostrou que não me merecias. 

E de facto, não! Com isto surgiu a revolta e o arrependimento por tudo o que te dei. Tudo o que te dei com amor, tu mandaste para a fogueira da ilusão, e para o terramoto da minha desilusão. 

Doeu! Muito! Muito tempo. Com uma imensa cratera que ficou  cheia de lixo! Recentemente...a cratera permanece, mas ao contrário de antes, atualmente a cratera está vazia. 

Agora...não há lá nada. Nem raiva, nem ódio, nem indiferença ou sede de vingança sequer! Tudo o que pudesse lá ficar, seria muito mau! 

Seria um lixo tóxico, e seria continuar a valorizar-te. Isso não podia continuar a acontecer. Agora...o que às vezes ainda permanece, é o sentimento de gratidão por todos os bons momentos, e muito bons. 

Felizes, românticos, de grande carinho, ternura, inocência, simplicidade, risos, e sonhos construídos em conjunto. 

Gratidão, por um dia me teres dado valor, por me permitires mostrar o que eu era. Gratidão por receberes o meu amor, por me deixares amar-te, pela possibilidade de libertar amor. 

Gratidão, por me fazeres sentir alguém especial, e amada! Gratidão por ter olhado, um dia, para mim com os olhos do coração! 

Sim, gratidão, é muito vasta, não se restringe a ti. Mas por agora...é para ti...gratidão pelas boas recordações! Nada mais! Gratidão por tudo, e até...um dia!

                                                                                FIM 

                                                                         Lara Rocha 

                                                                        

        

No dia em que...



Fotos de Lara Rocha 

 No dia em que deixamos de ser o nós, e voltamos a ser eu e tu...eu na minha...e tu na tua...foi o dia em que me desintegrei como um meteorito. 

O dia em que deixei de saber quem era, pois tu levaste contigo, tudo de mim! No dia em que eu morri por dentro...pus o meu coração encharcado e a estourar em lágrimas, a secar nas cordas da máscara do sorriso, mas o meu coração furou e o meu mundo parou. 

O meu corpo ficou doente! O meu cérebro latejou, estourou...As lágrimas saíram pelos olhos num mar de sofrimento, dor, raiva... 

O coração batia descompensado, confuso, louco. Não dormi várias noites! Até que gritou: «chega!», acalmei à força...com um  sol forçado. 

Entretanto, o coração foi secando, ficando com menos lágrimas! 

E voltei a saber quem era, muito lentamente, voltei a construir-me e a reconstruir-me quando reentrei para o teatro. 

Foi maravilhoso! Uma paixão antiga, que suspendi, mas quando voltei, voltei a sorrir com vontade.

Renasci! E o coração continuou a secar, no varal dos meus olhos. 

Umas vezes envolvido em máscaras, outras tantas vezes voltou a encher-se de lágrimas, a doer, a apertar, a gritar. Outras vezes, voltou a secar. 

Hoje, o coração já não está a secar, mas às vezes ainda fica na sombra. 

Aliás, se olhasses bem no fundo dos meus olhos, amor terminado, verias que ainda existia alguma lama! 

A lama da desilusão, a lama do medo de me entregar, e outras lamas que não secaram. 

Mas prometo-te, novo amor, se apareceres, que vai passar! E quando nos encontrarmos, se nos encontrarmos, a lama secará por completo, antes de tu apareceres. 

Espero-te sem lama. 

                                    Fim 

                             Lara Rocha 

Uma nova esperança


Criança - Às vezes a nossa vontade é abraçar o mundo! 
Adulto - Qual mundo? 
Criança 1 - O nosso mundo. 
Criança 2 - Isso é impossível! 
Criança 1 - Mas eu gostava. 
Criança 3 - Como é que ias fazer isso? 
Criança 1 - Não sei. Talvez, se tivesse super poderes, e conseguisse voar.
Criança 2 - Para que querias abraçar o nosso mundo? 
Criança 1 - Toda a gente gosta de um abraço, o nosso mundo, também! Acho eu. 
Adulto 2 - Que bonito isso! Também acredito que sim, que o nosso mundo goste de abraços. 
Adulto 1 - Mas a única coisa que conseguimos abraçar é o nosso mundo interior, na nossa vontade, imaginação e pedido às estrelas, feito por crianças. 
Criança 3 - Mas para que querias abraçar o nosso mundo? 
Criança 4 - Só se te abraçares a um balão. 
Criança 2 - Eu acho que ele não ia gostar do teu abraço! 
Criança 1 - Porque não? 
Criança 2 - Porque não ia ver os teus braços. 
Criança 1 - Mas se eu tivesse super poderes, o nosso mundo ia ver os meus braços e de certeza que ia querer um abraço. 
Adulto 2 - Porque querias dar um abraço ao nosso mundo? 
Criança 1 - Porque ele está muito triste e doente! 
Adulto 2 - Isso é verdade. 
Adulto 3 - Na sua inocência, elas acreditam que podem mudar o mundo… (ri) 
Adulto 1 (a rir) - E pedem às estrelas…
Crianças - Eu peço às estrelas! 
Adultos - Pedem? 
Adulto 2 - O quê? 
Adulto 3 - Rebuçados, príncipes e prendas, ou irmãozinhos.
Crianças - Não! 
Criança 1 - Pedimos coisas mais sérias, como um longo e carinhoso abraço ao nosso mundo. 
Adulto 1 - Este mundo desalinhado…
Adulto 2 - Mundo louco! Desculpa, ele não ia querer saber dos teus abraços. 
Criança 1 - Porque não? 
Adulto 2 - Porque ia estar ocupado com outras coisas! 
Crianças - Que coisas? 
Adulto 4 - Coisas que...não têm nada a ver com abraços. 
Criança 3 - Mas eu queria coisas boas! Acho que dessa maneira, o desejar coisas boas para o mundo, já é dar-lhe um abraço, não achas? 
Criança 1 - Sim. 
Adulto 2 - Muito bem visto! Também é mesmo uma forma de lhe dar um abraço, sim senhora.
Adulto 3 - Felizmente ainda há pequenas coisas e momentos especiais
Adulto 3 - Que nos fazem de repente 
Adulto 4 - Desligar da realidade 
Adulto 1 - É!
Todos - E entrar numa dimensão de Paz. 
Crianças - Sim! 
Criança 1 - E um abraço é uma pequena coisa boa! 
Crianças - Pois é. 
Criança 3 - Mas o nosso mundo não tem braços como os nossos. 
Criança 4 - Eu se pudesse também dava um abraço ao nosso mundo! Mesmo que ele não tivesse braços. 
Criança 2 - Como é que fazias isso? 
Adulto 4 - Pedias às estrelas? 
Criança 2 - Não. Desenhava eu, a dar um abraço ao nosso mundo, com braços, e feliz. 
Adulto 2 - Olha, muito boa ideia. 
Criança 1 - Ele ia gostar, porque tu desenhas bem. Faz isso. 
Criança 2 - É, vou fazer isso, obrigado. 
Adulto 4 - Com isso, 
Adulto 3 - Ganhamos força, 
Adulto 1 - E uma nova luz 
Adulto 5 - É! Para enfrentar as trevas que vão surgindo! 
Criança 1 - Qual é o vosso desejo para esta noite? 
Criança 2 - Dormir, e sonhar! 
Criança 3 - Para mim é não ter pesadelos. 
Criança 4 - O meu é que os monstros e aquelas figuras más não apareçam no meu quarto. 
Criança 2 - A mim, não me aparecem essas figuras, não tenho medo do escuro. 
Criança 1 - O escuro também faz parte do nosso mundo, as estrelas que só se veem no escuro, e a lua! 
Adulto 2 - É verdade. E é muito bonito. 
Criança 1 - O meu desejo esta noite é sonhar, ou imaginar que abraço o mundo. 
Adulto 3 - Muito bem, espero que consigas ter esse sonho tão especial, e bom, já que não podes abraçar o nosso mundo! 
Criança 1 - Não posso abraçar o nosso mundo, mas posso abraçar pessoas que fazem parte do meu mundo, e era o que todos deviam fazer. 
Criança 3 - Assim também já davam um abraço ao nosso mundo! 
Adultos - Muito bem. 
Crianças (para os adultos) - E os vossos desejos esta noite? 
Adulto 1 - Olha agora...nunca me fizeram esta pergunta. 
(Todos riem); mas eu digo: que esta noite, cada um de nós tenha força! 
Crianças - Para quê? 
Adulto 1 - Para que a cada momento, cada dificuldade vencida 
Adulto 2 - Eu acrescento ao teu...para que a cada momento, cada dificuldade vencida ganhemos uma nova esperança!
Criança 1 - Esta noite, peço às estrelas que ajudem as pessoas 
Crianças (em coro) - A nunca desistir! 
Adultos - Boa! Por mais difícil que seja a situação, a dificuldade, a dor, o sofrimento. 
Adulto 3 - O meu desejo para esta noite é que...o amor seja a única arma entre os povos! 
Criança 1 - Assim já abraças o nosso mundo. 
Adultos - É verdade. 
Adulto 2 - Eu desejo também que a união, construa um mundo melhor! 
Adultos e crianças (em coro) - União...mundo melhor! 
Adulto 3 - Posso dizer outro desejo? 
Todos - Sim. 
Adulto 3 - Desejo que o mundo dê as mãos, 
Adulto 1 - Boa, em vez de armas ou dinheiro, 
Adulto 4 - E que todos tenhamos saúde, 
Adulto 5 - Que a medicina evolua, e que tudo tenha cura! 
Adultos e crianças (em coro) - Que tudo melhore. 
Criança 2 - Esta noite, outro desejo meu, é que acabem com as injustiças! 
Criança 4 - Que acabe a guerra e a fome. 
Crianças e adultos (em coro) - Boa! 
Criança 3 - Que haja uma estrela a brilhar 
Criança 1 - Em cada sorriso, 
Criança 2 - Em cada olhar! 
Adulto 2 - Boa, em vez da tristeza! 
Crianças - Sim. 
Criança 5 - Também desejo que a cada manhã, o mundo melhore! 
Crianças e Adultos (em coro) - Que o mundo melhore! 
Criança 3 - E que as pessoas melhorem, 
Adulto 2 - E que todos vivamos 
Crianças e adultos - Em paz, neste nosso lindo planeta azul. 
Criança 1 - Vou fechar os olhos e imaginar, ou sonhar que dou ao abraço ao nosso mundo! 
Crianças e Adultos - Eu também. 
Criança 1 - Está bem. Amanhã digam-me se conseguiram. 
Crianças e Adultos - Está bem. 
Criança 2 - Esperem...antes, que tal se dermos um abraço uns aos outros? 
Crianças e Adultos - Boa. 

(Trocam abraços carinhosos, beijinhos e sorrisos) 

Todos - Boa noite! 


                                            FIM 
                                        Lara Rocha 
                                      (Janeiro/ 2010) 

O número de elementos que leem o texto, pode ser alterado, com mais ou menos pessoas, só por adultos, ou só por crianças, ou os dois. 
Pode ser dramatizado, ou apenas lido de forma expressiva. 
A partir daqui podem surgir outras reflexões que poderão ser partilhadas aqui (nos comentários), por exemplo feitas em grupo nas turmas onde for lido. 

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

O menino que imaginava

   Era uma vez um menino que vivia numa casa de campo, grande, de pedra, com um jardim onde existia uma fonte que o fascinava, além das flores. 

foto de Lara Rocha 


 Havia qualquer coisa de mágico, que ele não sabia explicar, mas adorava aquela fonte. A água a correr, límpida, aquele cantar doce e o som das variações da água a cair, faziam-no relaxar e sorrir. 

    Ele cantarolava sem letra acompanhando os ritmos com mais ou menos força da água, ria, outras vezes inventava letras, aplaudia feliz. 

    Ele dizia que aquela água tinha cristais, quando o sol dava na fonte. Às vezes olhava para a fonte e via pequenos arco-íris a flutuar, a andar pela água, a pairar em frente aos seus olhos. 

foto de Lara Rocha 

  Quando isso acontecia, soltava grandes exclamações de encanto: 

- Áhhhhhh....que lindo! Como é que isto veio aqui parar? 

   Imaginava-se muito leve, tão leve como aquela água e os arco-íris. Imaginava que era o próprio arco-íris e tinha consigo um caderno, uma lapiseira onde escrevia tudo o que mais gostava. Até o que imaginava ver enquanto arco-íris, ou o que cantaria a água. 

   Outras vezes achava que aqueles arco-íris eram seres mágicos da floresta, como nas histórias que os adultos lhe contavam, e ele próprio completava com a sua imaginação, gostos, os cenários, as personagens, sendo ele próprio uma delas. 

    Não gostava quando as abelhas se aproximavam da fonte. Pedia-lhes para elas não o picarem e ficava imóvel. Elas só queriam beber, e brincar com as flores, alimentar-se. 

- Fica descansado! Só queremos beber e descansar nas flores, alimentarmo-nos. Podemos? - pediu uma abelha 

- Está bem! Se não me picarem...estejam à vontade. - diz o rapaz 

- Se não mexeres connosco, nem nos bateres podemos conviver como bons amigos! - diz outra abelha

- Combinado! - diz o rapaz, e acrescenta: 

- Gosto muito desta fonte! 

- Nós também! - dizem as abelhas em coro 

    Quando as ouvia zumbir, parecia-lhe que estavam a cantar, ou às vezes a ralhar umas com as outras. O menino ria à gargalhada, e elas riam com ele, imitava os sons das abelhas e parecia estar a cantar ou a conversar com elas, com as flores. 

    Ele apreciava cada detalhe das flores, desenhava algumas, conversava com elas. Adorava ver borboletas que pousavam na água para beber, e era cada qual a mais bonita. 

  Perguntava-lhes como era ser borboleta, e elas respondiam-lhe, ele escrevia. Imaginava-se como borboleta, os passeios que daria se fosse como elas. 

    Parecia que também cantavam, ou tocavam piano com as suas finas patinhas, e asas que batiam na água. 

    Elas saltitavam e dançavam, e ele fazia o mesmo em terra, depois de acompanhar todos os movimentos delas. 

    Outra coisa que para ele era mágico: ouvir o som do vento entre as folhas das árvores, as agulhas dos pinheiros, as flores, as searas de milho nos campos, a erva do chão. 

    Ao ouvir o som da chuva, ele pensava se não se magoariam. Adorava vê-la cair, todo o tipo de chuva: a mais fina, a chuva com granizo, a chuva pesada que inundava tudo, a chuva com a trovoada, a chuva com vento, a chuva silenciosa. 

    Imaginava a chuva, e a trovoada como pessoas, um casal a discutir ou a conversar, como pessoas, ou instrumentos musicais. 

  Imaginava conversas entre os cães, gatos, pássaros, galinhas, pintainhos, porcos, galos, cavalos, vacas, ovelhas e tudo o que via. 

    Acariciava e apreciava cada tronco, galho, e musgo de cada árvore, sorria, falava com elas, agradecia, abraçava as que conseguia, encostava-se a elas, para apreciar tudo o que tinha à sua volta, todas as maravilhas e tesouros. 

  Adorava tudo o que o rodeava, tratava todos os animais e pessoas com carinho, ajudava-as, deitava-se na terra, que adorava fazê-lo. 

  Adorava o sol, as nuvens, as pedras, as frutas, o frio e o calor, mexer na terra, senti-la, cheirá-la, tocar-lhe. 

  A sua família e amigos chegaram a pensar que ele teria algum problema de saúde mental mas não tinham a certeza, porque ele era um menino como os outros. 

   Os pais e os avós, os tios, as tias, os primos, as primas também brincavam com ele, e davam-lhe atenção, mas todos os dias ele tinha esses momentos só para si. 

    Agradecia por tudo o que tinha, por tudo o que via, por tudo o que a terra lhe oferecia. Ensinou os adultos e as crianças a fazer o mesmo. 

    Uns seguiram o exemplo dele, e adoraram, outros não, ou só faziam alguma coisa, de vez em quando. Ele não se importava, porque ao fazer isso, era feliz, e ajudou muita gente a ser feliz. 

    Sentia-se preenchido, era saudável e sonhador!

E vocês? 

Reparam e agradecem, apreciam tudo o que têm à vossa volta? 

O que veem à vossa volta? 

Descrevam num papel, ou podem partilhar aqui, um lugar à vossa volta, um caminho, e escrever tudo o que veem, ou tudo o que viram, tudo o que imaginaram, e gostariam que esse sítio tivesse. 

E destes lugares da história? 

Qual ou quais cenários gostaram mais? 

O que, ou como imaginavam? 

                                FIM 

                            Lara Rocha 

                            30/10/2023 

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Santa Inocência, na Adolescência



NARRADOR/A - O amor: o Amor é o sentimento mais forte e mais bonito de todos. Ele ultrapassa todos os limites da vida. Na adolescência, a fantasia e o romantismo, a vontade de descobrir o corpo, o outro, as emoções que fervilham, a necessidade de nos sentirmos amados, desejados, correspondidos, confundem-se com Amor! 

       Incluindo o Amor Platónico, a Atração que acontece quando nos cruzamos com uma cara agradável aos olhos, e com a vontade de melhorarmos a nossa auto-estima. 

       Achamos que só porque é bonito ou bonita de cara, ou tem um corpo bem feito, e cruzamo-nos um com o outro, é aquele ou aquela que é para nós, é aquele ou aquela que vai ser o nosso amor «eterno». 

       Ele ou ela olhou para mim...eu olhei para ele...sorrimos e nasceu ali o amor...trocamos movimentos cativantes, mais ou menos atrevidos, e...uau...ele gostou de mim, tenho a certeza, ou ela quer alguma coisa comigo! 

       Sonhamos acordados, o ou a outro, outra, não nos sai da cabeça, queremos aquela pessoa, nem que seja só para curtir, ou viver uma noite de diversão, só para descobrir o corpo, sentir emoções intensas, sentir que estávamos certas, ou certos, que era mesmo para nós! 

       E aqueles que vemos na televisão, ou nas revistas, queremos ter um caso com eles, só para ser famosos e ricos. Construímos castelos, imaginamos, e depois tudo se pode desmoronar, rapidamente esquecemos que o amor não nasce com uma trocas de olhares, ou de sorrisos, nem de uma noite quente, uma troca de beijinhos e abracinhos num par de horas. 

       Demora, dá trabalho conhecer alguém, construir uma amizade, ganhar confiança, para namoros de qualidade. A pressa em conhecer o outro, ou a diversão leva-nos a desilusões, a vazios interiores, a enganos e por vezes a ISTS, indesejáveis, que sabemos que existem, sabemos como se transmitem, sabemos como evitá-las, as gravidezes na adolescência, muitos problemas. 

       Mesmo assim, na hora do caldeirão a ferver, esquecemos tudo, queremos é aproveitar, curtir, se não der certo, a seguir vem outro. A adolescência é uma fase difícil, em que existe muita fantasia, mas fantasiar é bom, ajuda-nos a conhecer melhor quem somos, o que queremos, quem queremos ao nosso lado. 

       Estas respostas só as recebemos com a maturidade, mais para a frente, depois de várias experiências fracassadas que fazem sofrer, mas ajudam a crescer, a ser mais seletivos. 

     Inclusive a dizer «não», a manter o nosso «não», não queremos aquilo, não queremos assim, não queremos isso...mesmo que o outro vá embora. Se vai embora, não tem de ser nosso, e é porque não era mesmo para nós. 

       Só percebemos isto, depois das dores passarem, depois de pensarmos sobre o que aconteceu, mas é importante termos uma boa auto-estima para não nos sentirmos a cair num precipício ou num abismo. 

       Não podemos aceitar tudo, quando nos envolvemos com alguém, continuamos a ser duas pessoas separadas, individuais, diferentes, que têm a sua vida, os seus amigos com quem podem continuar a sair, a conviver, sem terem de estar sempre juntos, não podemos aceitar que o outro nos obrigue a fazer o que não queremos, nem satisfazer todas as vontades dele, se não são as nossas!

       Porque o namoro na adolescência e em qualquer idade, não é posse, não admite violência de qualquer espécie, inclui confiança, e muito diálogo. Qualquer desejo não satisfeito, qualquer desilusão, qualquer «não», na Adolescência é um filme de terror, mas ajuda-nos a amadurecer, a separar a ilusão da realidade. E é melhor sofrer por terminar o que não é para nós, do que estar com alguém só para nos sentirmos completos, e respeita-se as vontades mesmo que sejam diferentes. 

       Deixo-vos com um exemplo de uma Adolescente sem auto-estima, apaixonada e não correspondida, que fantasiou um encontro com o seu amor platónico, embora ela soubesse que dificilmente o iria conhecer alguma vez! 

       Mas enquanto imaginava e fantasiava com ele, um amor correspondido (que nunca foi, nem poderia ser), adormecia a dor de uma desilusão, um rapaz para quem ela era totalmente indiferente...uma paixão de parte dela, por alguém real que não sentia nada por ela. Mal se conheciam, apenas de vista, mas ele despertava nela emoções que ela pensou ser paixão e demorou a esquecer. 

       Deixaram de se encontrar, a rapariga sofreu mais algumas desilusões, o que lhe dava alguma alegria, ânimo, era a fantasia com o seu amor platónico, que a fazia sentir-se preenchida, desejada, amada. 

       Aqui fica o testemunho dela...reflitam sobre tudo o que vos disse! 

RAPARIGA - Uma vez, conheci um rapaz muito bonito. Quando olhei para ele; o seu sorriso lembrava um paraíso, lindo e romântico; o seu olhar era mais profundo que o mar. 

       Foi amor à primeira vista...e como eu gostaria que fosse real, para toda a vida. Nunca o tinha visto, mas parecia que já nos tínhamos encontrado. Imaginava eu, noutras existências, e que nos reencontramos mais uma vez para viver um amor verdadeiro! 

       Pura fantasia! Eu sabia, mas todas as noites, quando olhava para uma fotografia dele, e principalmente nas noites em que a Lua também mostrava a sua paixão pelo Sol, Lua Cheia, eu via aquele sorriso, que lembrava o paraíso. 

       Nessa noite, o meu sonho foi lindo e risonho! Com ele! No dia seguinte, ainda com o sonho na cabeça como se tivesse sido real, quando fui à cidade, não o encontrei. 

        Olhava para todas as caras masculinas, na esperança de o ver em alguma, imaginava eu, que ele também viria à minha procura, ter comigo, viver esse amor. Santa Inocência! 

        Fiquei muito triste porque logo percebi que era só um sonho meu! Quando ele teve um acidente, eu ainda o amei mais! E ao olhar para as estrelas eu só pedia que ele ficasse bem, e que os meus sonhos fossem realidade! 

        Agora, quando estou triste, olho para a fotografia e sorrio! Porque ele ensinou-me o paraíso com o seu sorriso e o seu olhar tão profundos como o mar! Ele tornou a minha adolescência mais alegre, mais romântica, ajudou-me a desenvolver a imaginação e a imaginar-me como namorada de alguém. 

        Ajudou-me a esquecer as outras desilusões, e a dar o meu máximo, o meu melhor, a concretizar muitas das coisas que imaginei com ele, na prática, quando tive o meu primeiro amor correspondido, em idade adulta. 

       Fantasiar é bom, ajuda a crescer, e a ensaiar o que queremos, o que não queremos, antes de ir para a prática, um namoro real. Entretanto passa a fase da ilusão, dos amores platónicos, que adormecem com as adolescentes e os adolescentes que fomos. 

       Fantasiar é bom, desde que não impeça de vivermos os nossos amores verdadeiros, se tivermos de os viver, com gente como nós, desde que não se torne uma obsessão, não foi o caso, mas acontece. 

       Há que pensar no resto... 

                                                    FIM 

                                                Lara Rocha

                                             24/Outubro/2023