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segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Gratidão pelas nozes e amor à Natureza

        

fotos de Lara Rocha 

        Era uma vez uma aldeia, onde havia uma montanha muito alta. Nessa aldeia viviam centenas de esquilos em árvores centenárias com grandes troncos ocos, onde fizeram portas e janelas. A partir do mês do Setembro, que era, segundo a lenda das origens da aldeia, festejavam as nozes, e faziam muitas atividades para agradecer ao planeta, por terem alimento o ano todo. 

        Havia festa dia e noite, que começava com um momento de reunião com todos, em círculo, onde cantavam, aplaudiam, e faziam vénias aos pés de um gigantesco pote de vidro cheio de nozes, tocavam no vidro, outros beijavam e cada um agradecia como gostava mais. 

        Os esquilos mais velhos da aldeia, com o pelo branco, benziam as nozes, faziam uma oração, todos rezavam com ele, cantavam e acendiam velas à volta do pote, mas não eram as velas que ardiam, eram elétricas, com um interrutor que cada um ligava ao passar num grande fio elétrico, agradecendo como queria. 

        Fotografavam, e a festa continuava. Aconteciam corridas de nozes, que eram largadas de um balão de ar gigante, e os esquilos ficavam eufóricos, corriam atrás delas, pela montanha abaixo que dava acesso às casas, as esposas e restantes famílias, acompanhavam-nos ao lado, com grandes sacos para encher quanto mais podiam. 

        Os esquilos corredores atiravam para os sacos, com uma pontaria arrepiante, em movimento e não acertavam em ninguém. No meio de muita gargalhada, cambalhotas, quedas, escorregadelas, mas sacos a estourar de nozes, bem precisas para o Inverno demasiado rigoroso que rapidamente se aproximava. 

        Chegados à aldeia, eram presenteados com um belo banquete, num mobiliário de cascas de nozes, em pratos e talheres de cascas de nozes, uma bela sopa cremosa de castanhas e nozes, sumo de uva em copos de casca de noz, puré de castanhas com nozes, pão com nozes, e todos conviviam, ao som de músicas compostas por esquilos artistas, estudantes de música e cantores. 

        Música para todos os gostos que dançavam até de manhã. Descansavam o resto o dia, e no dia seguinte acontecia a corrida das nozes, em carros feitos de cascas de nozes. Era uma loucura e uma delícia de ver.

        O primeiro a chegar ganhava uma taça feita de noz. Os outros recebiam o prémio de consolação:  uma noz. Depois, festa outra vez. Outra atividade que fazia parte dessa festa, era o desfile de moda, mais para as esquilos fêmeas, que desfilavam lindos vestidos e acessórios de moda, para o Outono/ Inverno, maravilhosamente feitos pelas Avós, Mães e Tias. 

        As modelos eram de todas as idades, e passeavam-se pela passadeira ao longo do pequeno rio que passava naquela zona. Aplaudiam, e no fim, umas compravam às outros, encomendavam roupa a gosto, e com pequenas mudanças. 

        Os esquilos machos, conviviam e assistiam a jogos de futebol entre si, com bolas feitas de nozes, torneios de sabedoria, exposições de trabalhos manuais feitos a partir da noz, à noite, havia concursos de culinária entre esquilos macho e esquilos fêmeas, com votação, provas de degustação e prémios. 

        Depois da comezaina, vinha a caça às nozes, que eram escondidas por toda a aldeia, nos sítios menos prováveis, outras mais ou menos fáceis de encontrar, onde todos, até os mais pequenos participavam. Dançavam pelo caminho ao som da música alta, enquanto apuravam os narizes e as mãos para encontrar o máximo. 

        Cada um tinha um saquinho, cheiravam tudo e mais alguma coisa, espreitavam em todas as tocas, apanharam alguns sustos, com habitantes subterrâneos, que gritavam ao vê-los, e rapidamente fugiam, algumas gargalhadas e quedas, mas no fim, ganhava quem fosse o mais rápido e o que tivesse o saco mais cheio. 

        Era tudo registado, porque cada um tinha um número, pesavam cada saco, e havia peso limite. Quem tivesse acima desse valor, perdia alguns pontos. Diziam que era para chegar para todos. Ninguém levava a mal, e no fim todos festejavam, com trocas de carinhos, e até pequeninos presentes, feitos pelos mais pequenitos do colégio. 

        Depois havia o mercado solidário, onde montavam uma enorme tenda, em forma de noz, compravam quase de graça, ofereciam e vendiam o que tinham a mais, o que outros podiam precisar, e o que fazia falta. 

        E um acontecimento que ninguém estava à espera. De repente....abateu-se sobre a aldeia uma enorme e assustadora tempestade, com trovões, chuva e vento muito forte. Os alarmes dispararam todos, e cada um dirigiu-se para as suas casas, numa correria como nunca antes vista.

        Felizmente, conseguiram todos proteger-se, não se molhar, e estavam em segurança com as suas famílias, apesar do medo. No dia seguinte, além das nozes, foram agradecer o ter conseguido escapar, e por nada ter ficado estragado. 

        Os mais velhos decidiram criar um centro de convívio, seguro, para todos se encontrarem no Inverno, de forma segura e que não tivessem de passar pelo perigoso frio. Pensaram, planearam e pouco tempo depois, construíram no espaço coberto de árvores nas traseiras das casas, próximas umas das outras, uma cobertura com pedaços de cascas de nozes que não se aproveitavam para comer, equipado com todo o conforto de um salão. 

        Num curto espaço de tempo, e com a ajuda de todos, puderam reunir-se sempre que queriam para conviver, dançar, cantar, fazer jantaradas, almoçaradas, festas de aniversários, reuniões, desafios, brincadeiras. e até casamentos. Todos adoravam aquele espaço. 

        A estreia de utilização do salão, foi um jantar e uma festa de agradecimento à Natureza, por terem abrigo, família, alimento, e por estarem em segurança, protegidos. Puseram outra vez as nozes num gigantesco pote de vidro, cada um acendeu uma vela eletrónica à volta do pote, cantaram, dançaram, rezaram e agradeceram. 

        Mas desta vez, o que os esquilos mais velhos da aldeia não sabiam, nem estavam à espera, é que também tinham preparados uns mimos para eles. Cada um dos mais velhos recebeu de cada esquilo vários presentes, uns comprados no mercado solidário, outros feitos pelos próprios, uma ternura.

        Ofereceram coisas muito úteis, como meias, camisolas interiores, botinhas de agasalho, pijamas, cobertores, saquinhos, almofadas, bonequinhas, bombons de nozes e de castanhas e outras que quiseram. Além das ofertas materiais, receberam beijinhos e abraços de todos. 

        Os mais velhos ficaram mesmo muito felizes, com um sorriso de orelha a orelha, retribuíram com carinho, cantigas, danças e muita alegria. E assim, custou menos a passar a tristeza dos dias pequeninos de Inverno, na companhia uns dos outros, em família, com amigos, em festa, quase nem deram pela chuva que marcou muitas vezes presença, e suportaram melhor o gelo. 

        O Natal nesta aldeia, foi mesmo muito diferente e ainda mais especial do que nos anos anteriores, porque todas as famílias, depois de jantarem juntas, nas casas de familiares, como é tradição em todo o mundo, encontraram-se no salão, onde tiveram direito a troca de prendas, muita festa e muita alegria. 

        No final da noite de Natal, voltaram a pôr o gigantesco pote de vidro com nozes, e agradeceram, acenderam uma velinha eletrónica, rezaram, fizeram vénias. Encontravam sempre motivos para agradecer, juntar-se e conviver. 

E vocês. também agradecem todos os dias, ou às vezes? O que agradecem? 

                                                                    FIM 

                                                                    Lara Rocha 

                                                                   12/Outubro/2020  

        

        

domingo, 11 de outubro de 2020

A saia das invejosas

 

         Era uma vez uma menina que andava numa escola, onde outras meninas tinham inveja dela. 

        Muito bondosa, simpática, tímida, amiga e preocupada com todos, ao contrário das outras que se fizeram de amigas dela para a  prejudicar, e tentar desviar a atenção de toda a gente para elas. 

         Diziam mal dela nas costas a toda a gente, inventavam coisas más que ela não tinha feito e tentavam envenenar todos contra ela, para que se afastassem!

          A menina dava-se bem com toda a gente, e quem a conhecia, gostava dela, não acreditava no que as outras diziam, nem contavam à  amiga que tinham dito maldades e coisas feias, falsas, sobre ela.

          Uma tarde de festa de Natal na escolinha, a menina vestiu uma linda saia, com folhos, e às cores. 

           Tirou-a para vestir um fato de bailarina e atuar, as invejosas aproveitaram esse momento para sujar a saia da menina com tinta, corta-la em tiras em baixo e não satisfeitas, ainda salpicaram os sapatos. 

           Foram para a plateia como se nada tivessem feito, e aplaudiram, o espetáculo que correu lindamente. 

           Ela estava feliz, principalmente porque os seus pais e mais família estavam lá. Mas quando regressou...nem queria acreditar no que estava a ver! 

- A minha saia… o que aconteceu? Quem fez isto? E agora? 

           Desata num choro, com gritos, vai a correr ter com a mãe e a professora, muito aflita, mostra a saia: 

- Mãe, professora… olhem o que fizeram à minha saia e aos sapatos! Quem foi? Para que é que fizeram isto…? 

          A mãe e a professora soltam uma grande exclamação. 

- Não pode ser! - dizem as duas 

- Mas como foi possível? - pergunta a mãe 

- Temos de descobrir e castigar. - diz a professora 

- Acho muito bem. Obrigada senhora professora. 

- Querida, tens alguma ideia de quem possa ter sido? - pergunta a professora 

- Não! 

           As suas verdadeiras amigas, pediram para falar com a professora, na sala, e contaram tudo o que sabiam das invejosas, logo, suspeitavam delas. A professora agradeceu, entendeu e disse que ia descobrir. 

          Não foi difícil: as responsáveis estavam muito nervosas, e a professora chamou-as. Fez de conta que não sabia de nada, contou o que tinha acontecido e percebeu nas suas caras, mesmo sem falarem. Elas disfarçam: 

- Ah, a sério? 

- Coitadinha. 

- Isso não se faz... 

- Que maldade. Ela deve estar muito triste. 

- Eu não ia perdoar.

- Nem eu. Ia descobrir quem tinha feito isso. 

          A professora abre a porta da sala e manda entrar a mãe da menina e a menina. Elas ficaram tão assustadas e tão nervosas, vermelhas até à raiz dos cabelos, e a tremer. 

- Mãe... quer dizer alguma coisa? 

- Quero saber quem pôs a saia da minha filha assim. 

          As invejosas não dizem nada. 

- Sabem quem foi, meninas? Viram alguma coisa? - pergunta a professora 

- Não! 

- Porque é que estão tão nervosas? - pergunta a professora

         As meninas não respondem. 

- Foram vocês, não foram? Porque fizeram isto? 

         As meninas ficam muito envergonhadas: 

- Fomos nós! - acusa-se uma delas 

- Porquê? Alguma vez a minha filha vos fez mal? Ou estragou alguma coisa vossa? 

- Não. - respondem todas 

- Então porque é que fizeram isto? 

- Porque temos inveja dela. - confessa outra 

- Inveja? De quê? - pergunta a professora 

- Porque toda a gente gosta delas, repara nelas e em nós não! 

- Porque será? - pergunta a professora 

- Que coisa mais feia! Quem é que vos ensinou a ser assim? Vou falar com os vossos pais agora… 

           A professora chama os pais das meninas, a menina chora, desiludida. A professora conta aos pais o que elas fizeram, os pais ficam muito envergonhados, pedem desculpa à mãe e à menina, todos ralham com elas e dão sapatadas.

         Descoberto o mistério, vão para casa, a mãe da menina lava a saia que ficou estragada, devotada e manchada. 

        As mães da menina ofereceram-lhe roupa nova e puseram as filhas de castigo, mas nunca mais se esqueceram e não voltaram a fazer maldades porque a professora também não permitia. 

          As meninas que contaram tudo o que sabiam, continuaram a ser boas amigas dela, e receberam um prémio da professora. Tudo ficou resolvido. 

                                   FIM 

                                    Lala

                                  11/ Outubro/ 2020 


terça-feira, 6 de outubro de 2020

Coisas estranhas (monólogo para psicólogos; estudantes de psicologia e público em geral - adolescentes e adultos)

 

Coisas estranhas

    (monólogo)

Sou a Dara, tenho 19 anos feitos há pouco tempo, e estou a fazer uma cura de sono. Estudo na Faculdade e andava numa fase de muita euforia, a viver noitadas de borga, convívio, até quase de manhã, copos e comes, tudo a que há direito.

Bem, aquele ambiente com toneladas de adrenalina por todo o lado, uau! Impossível ficar indiferente e não alinhar. Temos que aproveitar, porque tudo passa muito rápido, e é um tempo que não volta!

Assumam! Esse é o nosso, vosso pensamento quando para a faculdade, não é? Parece-nos que vamos acabar amanhã, então temos que viver tudo e mais alguma coisa, hoje. Uns mais, outros menos, e compreende-se!

Depois de vários anos no secundário em que é só marrar, livros, copianço, testes, aulas, trabalhos, explicações, notas, bué, bué de competição, e limitações.

Ufa, fica cansada e stressada só de dizer esta parte. Que loucura. Por fim podemos respirar, pelo menos algum tempo...patrão fora, já se sabe, dia santo na loja. Eu diria mais: Universidade, igual a libertação, e segunda adolescência. (ri)

Sim, ainda somos adolescentes, metidos a adultos. Queremos curtir, já somos de outra idade, já irre...responsáveis por nós, claro! Está-se bem, é o mundo perfeito!

Que espetáculo, agora é a nossa altura de provocar inveja aos mais novos, que ainda estão no secundário, como nos acontecia quando lá estávamos e pensávamos como seria fixe, ansiávamos e até contávamos os dias para estar nas Universidades.

Socializamo-nos, praxes, brincadeiras, integração, orgulho, vaidade, baldas a algumas aulas. Beber até cair. Não faz mal. No dia seguinte podemos dormir a manhã toda e de tarde estamos nas aulas, corporalmente, revitalizadas, mentalmente a pensar na noite que se aproxima, de mais convívio, mas temos de beber menos porque de manhã temos aulas, e somos muito atinadinhos.

Claro. Claro. O mundo ideal é irreal. Nada disto condizia com os nossos planos. Chegámos à noite, desse dia e… pimba. Quando damos por ela, ou sem dar por isso, convívio, copos, até de manhã, o sol nascer.

E de manhã, passávamos em casa, nos apartamentos, que estava longe de casa, banho, mudar de roupa, pequeno-almoço, material para as aulas e lá estávamos, frescos, como se tivéssemos dormido a noite toda.

Arranjadinhos, bem-dispostos, lúcidos, cheios de pica, com o fogo todo para mais um dia, cheio de coisas novas para aprender. E voltava tudo ao mesmo. Noites, copos até o fígado suportar a última gota, ou transbordar onde calhasse, até de manhã.

Qual sono? Tínhamos muito tempo para dormir, estávamos só no início, depois a coisa acalmava! Interessava era curtir, socializar, fazer amigos para a vida!

Começa a fase dos trabalhos. Noites, mas não era para os fazer, a vida da faculdade é muito mais do que estudo e trabalho, não é só estudo, livros, aulas, temos muito tempo para os fazer, para tudo isso, o que interessa é estar presente.

Havemos de recuperar. Se chumbarmos à primeira, tá-se bem, acontece a qualquer um, passaremos à segunda, terceira ou quarta...ninguém corre connosco. O que interessa é aproveitar.

Pois, é que o corpo e a cabeça têm raízes daquelas como as árvores que saem para os passeios! É que o corpo e a mente têm adrenalina que nunca mais acaba e habitua-se a não precisar de dormir e repousar.

Ora pois! Talvez no mundo ideal, perfeito, isso acontecesse, se não precisássemos de dormir, nem de silêncio e descanso. Mas não vivemos no mundo ideal, e sim, no mundo real, bem diferente.

Só nos lembramos disso quando? Quando ao fim de dois ou três meses, umas vezes menos, outras pessoas nem precisam de tanto tempo, começamos a quebrar! Tudo se transforma, tudo começa a falhar!

Quando é que eu me apercebi que vivia no mundo real, e que nada do que eu estava a fazer e a viver, era o melhor para mim? Quando é que eu me lembrei que sou falível, e que não sou sempre aquela adolescente, cheia de vontade de achar que leva o mundo à frente, que é tudo dela.

Dela e dos amigos que acham que vão para a faculdade e controlam tudo, sabem muito bem o que estão a fazer, e aguentam borgas o ano todo, tanto como as aulas, noitadas seguidas, diretas, como se nada fosse!

Só acordamos, eu e as minhas amigas de apartamento, quando nos começamos a passar. Sim, a passar completamente. A primeira a dar sinal, foi uma delas, que num dia passou pela mesa, olhou para a toalha que tinha uns desenhos curtidos, de alimentos e bolos, chávenas, garfos e facas.

Perguntou-me porque é que eu tinha posto tanta coisa na mesa, se ia haver alguma festa. Disse que via as coisas da toalha em 3D, como se estivessem fora da toalha e a mexer.

Eu não as vi a mexer, mas realmente, pensando bem, via-as muito grandes, talvez maiores do que o que elas eram. Disse-lhe que a mesa ainda não tinha nada, e eram os desenhos da toalha. Partilhamos a mesma ideia… se calhar estamos com a vista cansada.

Sim, poderia ser, não demos muita importância. Uns dias depois, a outra minha amiga foi à despensa, e começou aos gritos, porque diz que viu uma sombra a entrar, antes dela acender a luz, e quando acendeu a luz, não viu a sombra, mas sentiu a sua presença.

Fez-nos andar a procurar na casa toda, porque ficamos sugestionadas, nunca sabemos o que pode andar por um sítio desconhecido. Realmente, depois de revirar a casa, espreitar nos sítios mais inesperados, cheias de medo, aramadas com vassouras e facas, não vimos ninguém.

À noite, a outra minha amiga, deu um grito na casa de banho, fomos ver o que tinha, e estava branca, sentada na sanita. Perguntamos o que tinha acontecido. Disse que tinha visto no espelho uma cara que não era a dela. Ficamos todas assustadas, e juntas fomos todas olhar para o espelho.

Não sei se foi sugestão, ou influencia umas das outras, todas vimos caras que não eram as nossas, a mexer, e com uns olhares penetrantes, fundos. Desatamos todas aos gritos, deitámo-nos na cama e cobrimo-nos com os lençóis.

Olhamos em volta, e não conhecíamos aquele espaço. Perguntamos umas às outras onde estávamos, e quem éramos. Depois de algum tempo sem dizermos nada, fez-se luz. Reconhecemos o lugar e umas às outras. Ficamos alerta, de luz apagada, prontas a agir no mais pequeno movimento ou som estranho.

Uma das amigas, depois de apagar a luz, fica agitada, e grita: meninas, não vos quero assustar, mas...estou a sentir uma coisa estranha...não sei o que é!

Acendemos de imediato a luz, à procura dela, e ela disse: sinto uma presença diferente neste quarto. Presença? Perguntamos nós, a olhar para todo o lado, numa grande inquietação.

Garantimos-lhe que só estávamos 4… Contamo-nos umas às outras várias vezes, parecia que nem sabíamos contar, apontávamos, e incluíamo-nos, contávamos sempre 4, mas ela continuava a dizer que éramos cinco.

Não víamos mais ninguém, nós só nos víamos a nós as 4. Perguntamos se ela via alguém, em corpo como nós, ela jurou que não via outro corpo, mas sentia a presença.

Uma das nossas amigas sugeriu que ela não se preocupasse, porque devia ser uma reação ao desconhecido, ou ao escuro, e depois do susto que tínhamos apanhado a ver outras caras no espelho, podia ser normal.

Ela concordou, pediu desculpa, apagamos a luz, e tentamos dormir, mas aquela sugestão misturada com medo de estar lá mais alguém, acho que nos perturbou.

Caiu uma peça de roupa que estava mal acomodada e como estávamos todas demasiado alerta, parece que o barulho foi muito intenso. Ouviram alguma coisa, meninas? Ouvimos!

Demos um salto na cama, acendemos a luz, e vimos o que podia ter sido. Aparentemente só a roupa. Foi ela, a presença estranha que deitou a roupa abaixo. Disse a minha amiga. Mostra-te! Gritou a minha amiga. Eu…? Perguntamos todas. Não, a presença, respondeu ela, quase da cor da parede.

Ai, senti uma vibração no chão… eu também…disseram duas amigas. Será um tremor de terra, ou a presença? Começamos todas a gritar e atentas ao que ia acontecer a seguir.

Não apareceu ninguém, e a vibração foi o telemóvel de uma delas que estava no chão, com uma mensagem. Ela tinha-se esquecido que estava a carregar.

Ficamos mais aliviadas, e sobre a presença que a outra sentia, enchemo-nos de coragem aparente, e espreitamos debaixo da cama. Só estavam os sapatos dela.

Decidimos tomar um chá, e uns comprimidos sedativos que usávamos de vez em quando, no secundário antes dos exames. Foi remédio santo. Não sentimos mais nada, dormimos como já não acontecia há muito tempo. De manhã acordamos bem-dispostas, e nem falamos mais no assunto.

Na noite seguinte, a minha amiga voltou a sentir a presença, mas não nos disse nada, só que outra, diz que ouviu um estrondo que parecia estarem a deitar a nossa porta abaixo.

Mas o estrondo só ela é que tinha ouvido, mais nenhuma de nós. Sai disparada do quarto para a porta, com uma faca em punho, muito aterrorizada. Fomos atrás dela, e tivemos medo por a vermos de faca em punho a olhar para a porta.

O que vais fazer com isso? Perguntamos. Está alguém a tentar entrar aqui. Eu ouvi um estrondo, parecia que estavam a deitar a porta abaixo. Esta porta! Negamos, e ela não ficou muito convencida. Tivemos de espreitar pelo olho da porta, e realmente não estava ninguém.

Começamos a achar tudo muito estranho e confuso. No dia seguinte, outra amiga, sentiu que lhe cheirava a fumo e a enxofre pela casa toda. A nós não cheirava.

A outra continuava a sentir a presença e todas a ver caras que não eram a nossa. Decidimos ir juntas ao médico, porque pensamos ter alguma coisa muito grave.

Contamos todos estes acontecimentos, e o médico receitou-nos uma pedra para dormir, regularizar o sono. Já estamos a tomar há várias semanas, e realmente, pouco depois de começarmos a tomar, deitámo-nos e não ouvimos mais nada, não sentimos mais nada.

Conhecemos bem o espaço, sentimo-nos bem neste apartamento, e temos muito trabalho para fazer, que deixamos acumular, mas não conseguimos ficar até muito tarde.

Não voltamos a sair à noite, pelo menos enquanto temos trabalhos para entregar. Não, não façam isso, não se armem que aguentam noites atrás de noites, com copos, até de manhã. Isso é só uns dias, mas depois, tudo vira ao contrário.

Depois desse susto, somos raparigas diferentes. Com os medicamentos não podemos consumir álcool, vamos a jantares convívio, claro, mas muito menos, e voltamos cedo para os apartamentos porque há trabalhos a fazer.

Aprendemos a descansar, e aproveitamos todos os tempos para trabalhar, compensar o tempo perdido que não foi mau, mas foi demasiado eufórico e agitado.

Quase nos destruía. Aproveitem, divirtam-se, mas acima de tudo, sejam responsáveis e tenham cuidado, com regra. O mundo não acaba amanhã, e têm muito tempo para tudo, divertir, aprender, estudar, brincar e muito importante, descansar.

Não abusem! Boa sorte.


FIM

Lara Rocha

6/Outubro/2020


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

DANÇAR ATÉ CAIR (MONÓLOGO para Adolescentes e Adultos; psicólogos)

        

                                desenhado por Lara Rocha 

    Sou a super Márcia...ou serei Marciana? Ainda não vai há muito, acho eu, que sabia como me chamava! Agora estou confusa. Não interessa. Sou uma dessas que vai dançar até cair! Não sei quem era essa que gosta assim tanto de dançar, não me lembro de dançar, mas sonhei muitas vezes que dançava e que era feliz ao dançar. Dava autênticos xous! Até quase furava o chão, pelo menos era o que me diziam. Sonhava ou foi real? Parecia mesmo real. Disseram-me que aconteceu mesmo, mas se essa que adorava dançar, dançava assim tanto, que quase furava o chão, até cair...eu não a conheci! Disseram que era eu. Como fui eu, se estou aqui neste sítio tão estranho, que não é o meu quarto? Ou se é o meu quarto, aquele sítio confortável, seguro, bonito, onde me transformava...eu…ou a outra tal de quem falam, que me imitava, ou que era eu, está muito diferente. Não tenho qualquer memória de ter modificado, com esta decoração mórbida. Acho que tinha bom gosto, mas talvez tenha sido a outra, aquela de quem se fala...louca...que mudou o que era o meu quarto. Não sei quem lhe deu autorização para mexer nas minhas coisas, nem sequer falei com ela, nunca a vi mais gorda, nem mais magra, não sei se é bonita ou feia, ou se dança bem! Duvido que dance bem, eu é que dançava bem, espetacularmente bem, até cair. Essa tal, que devia ser eu...mas se era eu, porque é que eu não me lembro? Como estava a dizer...essa que adorava dançar, dava espetáculo, às 6ªs feiras e aos sábados, acho que era isso...pelo menos é o que dizem por ai. Era quase a minha espiritualidade, um ritual…! Bem, e que ritual! Lembro-me que bebia alguma coisa, acho que era água, não sei, estão para aí a dizer que tinha mais alguma coisa, eu nunca senti, a minha cena, era dançar até cair. Acho que de tanto dizer...até cair, cai mesmo! Sei que estava a dançar e de repente o palco virou-se ao contrário. As luzes estavam loucas, piscavam sem parar, e encandeavam-me. Na plateia não tinha gente, só tinha extraterrestres, caras horrendas, monstros que se riam na minha cara, unhacas que saiam do teto, das cortinas, dos holofotes, e tentavam agarrar-me. Umas aranhas gigantescas saltaram não sei de onde, e puseram-se em cima de mim, sentadas, a apertar-me, quase me abafavam. Que nojo! Eu gritava, ou a tal, gritava… e quanto mais gritava, mais garras apareciam em chamas, vindas do Inferno, só pode. Tudo girava, tudo ria, os monstros da plateia pareciam possuídos, riam, mostravam-me línguas bífidas, gigantescas, que rodopiavam, os seus olhos aumentavam cada vez mais, saiam de órbita e entravam, com luzes psicadélicas. Sentia um cheiro estranho, não sabia o que era, ouvia estrondos que pareciam explosões, e vozes aos gritos que não percebia nada do que me diziam. A minha roupa, ou a roupa dela...parecia ter ganhado vida própria, até ela dançava, tanto como a artista. Apertavam o meu corpo, como serpentes, beliscavam-me, as cores tinham-se transformado todas em fosforescentes psicadélicas. Umas mãos saíam de buracos no palco e apertavam-me as pernas, os pés, eu tentava libertar-me, e as mãos arranhavam-me. Depois os monstros da plateia, voltaram a ser pessoas, com ar esgazeado, olhos brilhantes, vidrados, insultavam-me, apontavam-me dedos, os homens mostravam-me a … arte sacra… com luzinhas a piscar, do mais horrível que pode haver. Que nojo, aquilo abria e fechava, quase parecia que me iam sugar, e mostravam os rabos, feios...que medo! Eu não queria ver tanto! As mulheres dançaram comigo, esfregavam-se, umas nas outras e em mim, gritavam, riam, até que pegaram em mim, a cantar, as luzes estavam cada vez mais fortes, e perturbadoras, os sons cada vez mais estridentes. As safadas estavam tão loucas e tão eufóricas, que me atiraram pelo ar, para a plateia, e era suposto os gajos segurarem-me! Mas não! Deixaram-me cair redonda no chão e ficaram a olhar para mim. Apaguei. Deixei de ver coisas, ouvir coisas...tudo ficou escuro e silencioso. Acordei num quarto parecido com este, e disseram-me que estava no hospital...porque tinha caído do palco abaixo, e havia uma substância na água que tinha bebido, e pelos vistos já há muito tempo. Confirmou-se. Depois de ter contado o que tinha visto e ouvido, disseram-me que tinham colocado uma substância alucinogénia. Fizeram-me uma limpeza ao estômago, deram-me não sei o quê, mas foi remédio santo. Ao fim de algum tempo, estava nova. Completamente possuída de raiva, fui a casa de cada um dos meus amigos que costumavam ir comigo, ou com a tal...e a cara de pau deles, deixou-me ainda mais demoníaca! Armaram-se em santinhos e disseram-me que não sabiam de nada, que eu estava normal, nessa noite, muito feliz, como em todas as outras noites…, super divertida, super bem-disposta, mas de repente caí e perdi os sentidos. Como não sabiam de nada? De certeza que também tinham visto aquelas coisas todas. Não! Não viram nada! Duvidei, voltei ao médico e ele confirmou, que foi tudo um delirium por uma substância que tinham posto na minha bebida. Então, os meus amigos tinham razão! Eles não tinham visto nada daquilo que eu vi. Fiquei muito estranha, e como gostei tanto do efeito de um calmante que tomei uma altura, decidi tomar não me lembrava da dose, mas era grande. Fiquei tão perturbada e irritada que tomei...dois diazepans...é isso! Lembrei-me agora do nome. Mas que grande anormal! Se eu tivesse dormido um sono, teria feito melhor. É verdade! Pouco depois de ter tomado Diazepam, alguém na minha casa tomava, acho que era a flechada da minha Avó...uma dose que acho que nem aos cavalos se dá, coitados deles se tomam isso. Voltei a delirar, antes de adormecer. Tinha a certeza que o que estava a ver era real, mas mais uma vez levaram-me ao hospital, aspiraram-me o estômago e puseram-me a soro, lá com umas coisas mais, uns medicamentos para proteger. Esses deliriuns, não foram tão agressivos como os primeiros. Mas foram igualmente estranhos! Tinham a ver com...pareciam...pesadelos, não sei. Penhascos, quedas, ondas gigantes, peixes devoradores, pedras que se mexiam, areias movediças, cheias de falsos, onde caí. Depois houve uma explosão por baixo dos meus pés, e eu voei com o impacto porque a areia movediça era a cobertura de uma cratera de um vulcão. O meu corpo destilava, na verdade eu estava banhada em suor. Ia a voar por cima da praia, e chegava a uma outra cratera, cheia de lava a fervilhar. Eu brincava com a lava, como se aguentasse a temperatura dela, comia-a, mastigava-a, cheirava-a...cheirava-me a enxofre...e acabei a vomitar no chão da minha casa. Os médicos disseram-me que foi consequência de intoxicação de medicamento, e logo esse. Horrível. Depois disto, não voltei às discotecas, nem a dançar. Ganhei muito medo, não sei. Não sei quanto tempo durou, perdi a noção do tempo, e ainda hoje, agora, não sei que dia é, nem semana, nem há quanto tempo estou aqui, ou que horas são. Mas foi o suficiente para saber como é mau! Recuperei, mas tenho muito medo, há gente capaz de tudo. Se eu soubesse quem foi, não sei o que lhe fazia. Talvez...dava-lhe o mesmo para ver se ele ou ela, via o mesmo que eu, mas numa dose a triplicar. Um dia, vai ter a paga! É a minha esperança. Talvez esse ser maldito já tenha feito o mesmo a muitas outras e outros. O médico disse que já não era o primeiro, mas não disse se foi no mesmo sítio que eu, ou se viu a mesma coisa que eu. É muito mau, não sei como há gente tão perigosa e tão mal intencionada. Agora estou aqui...num quarto que não é o meu, numa casa que não é a minha, rodeada de batas brancas a toda a hora, a escrever os meus delírios, a pedido de um estagiário de psiquiatria, para o seu relatório de estágio. Jeitoso e giro por sinal, mas é claro que esta parte não lhe vou escrever...ou será que posso escrever isso? Não! É melhor contar só a parte dos deliriuns, não vá ele pensar que esse comentário simpático, é outro delírio meu! Acho que não estou a delirar...o futuro Dr. É mesmo giro, jeitoso e carinhoso. Ups...espero não ter nenhum delírio com ele (ri à gargalhada), só se for...um sonho...erótico...ou da minha imaginação. É uma visão agradável. Ora… está aqui uma pergunta difícil. Acreditei no que vi, e ouvi? Sim, esta é fácil, acreditei. Que conselho dou às pessoas…? Hummmnão beba, nas discotecas, ou, bebam com alguém ao lado da vossa confiança, não sei. Nunca se sabe quem está por lá, e o que vai pôr na bebida. Há gente que fica feliz por dar cabo dos outros. Quase conseguiram dar cabo de mim. Eu caí, qualquer um pode cair. Não sei se fui clara nesta mensagem, mas é o que me ocorre. O Dr. Giro que faça o resto, como entender. (ri) Daqui a pouco está aí. Se eu tivesse delírios com ele, até teria sido bom...acho que voltava a repetir, só para ter alguma coisa com ele, pelo menos, por alguns instantes...encontro delirante! (ri à gargalhada) Que giro! Acho que até vou escrever esse romance! (ri) Quem sabe serei famosa. Não. É melhor não, podem querer experimentar e ainda me arranjam problemas. Qual será o alucinogénio para ter esse delírio, com o Dr. Giro? (ri à gargalhada) que loucura! Que máximo. Acho que estou a delirar outra vez. Não! Uau! É ele! Jeitoso! (ri à gargalhada) Comporta-te, Márcia ou Marciana ou lá quem és! Óh… uma pergunta difícil...que dia é hoje? Dia de semana, mês, ano…? Já estou aqui há muito tempo? Que dia foi ontem? Quantos anos tenho? O nome dos meus pais…? Tenho irmãos…? Não sei! Sei lá! Nem sei quantos são hoje, quanto mais ontem, nem se o ontem já aconteceu. Hummm… não sei! Será grave, não saber isto? (pensa um pouco) Não sei mesmo. (grita) Doutooooooooooorrrrrrrrrrrrr… venha cá rápido, se faz favor…não sei que dia é hoje. Óh não. Acho que ainda estou a delirar, ou será que o delírio limpou a minha memória? Doutoooorrrr….


                                         Fim

                                    Lara Rocha

                                (4/Outubro/2020)



domingo, 20 de setembro de 2020

As árvores e os balões

         


       Era uma vez um jardim de uma cidade, que parecia igual aos outros, com árvores enormes, umas mais frondosas do que outras, e todas estavam imóveis, aparentemente! Sim, aparentemente imóveis, porque quando não havia ninguém nas ruas, e reinava o silêncio da noite, estas árvores divertiam-se a jogar aos balões. 

        Isso mesmo! Todos os dias, algumas crianças deixavam fugir balões, para grande tristeza delas, que voavam das suas pequeninas mãos, ou dos vendedores, e repousavam nos ramos das árvores, lá em cima, onde não se conseguia chegar.

        Uma das árvores, que era mais sensível, quando os balões chegavam aos seus ramos, desprendia-os, sacudindo-se, ou com a ajuda de outros ramos mais fininhos, e devolvia o balão ao pequenito. 

        Mas nem todas faziam o mesmo, porque também elas adoravam balões e faziam verdadeiros torneios com equipas, entre si. Atiravam vários balões ao mesmo tempo, umas para as outras. 

        Um mocho era o árbitro, e juiz de ar. Dava-se ao trabalho de contar quantas vezes os balões não tocavam em nenhuma árvore, e se saíssem fora daquele espaço onde estavam, ou furassem balões de propósito por estarem zangadas, era-lhes mostrada uma pequena lâmpada vermelha que alguém tinha deixado no parque. 

        As árvores divertiam-se muito, riam, partilhavam os balões, mas também se zangavam, discutiam, ralhavam umas com as outras quando não corria como esperavam. O mocho não admitia que chamassem nomes feios, e castigava se houvesse lutas entre elas. 

        Por cada jogo, somavam pontos e ganhavam elogios. No fim de cada jogo tinham de trocar abraços, encostando e entrelaçando os ramos mais finos, agitando as folhas com as outras equipas, e o mocho seguia com os seus olhos, cada movimento, cada troca de abraço.

        De vez em quando, faziam campeonatos de jogos de balões, que voavam sem parar, de forma desorganizada, violenta e apressada, com a ansiedade e vontade de todas ganharem. O mocho ficava nervoso, e tonto dos olhos, mandava parar os jogos, obrigava-as a relaxar e a jogar com juízo, caso contrário ninguém se entendia e deixava de ser jogo. 

        Ficavam tão nervosas e entusiasmadas que nem ouviam o árbitro. Nessas alturas,  recolhia todos os balões e lançava um forte piar, que quase parecia mais agudo do que os apitos. As árvores arrepiavam-se até à raiz, estremeciam e pareciam congelar. 

        Quando o mocho percebia que estavam mais calmas, dizia: 

- Vamos voltar ao torneio, com juízo, se não, ficam todas sem pontos. 

        Mais calmas, voltavam a jogar divertidas, com os balões até ficarem completamente vazios. Ao nascer do sol, as árvores continuavam no mesmo sítio, e afinal...estes jogos de balões, aconteceram na imaginação de um menino que olhou para uma árvore cheia de balões entalados nos ramos, uns mais cheios, outros mais vazios. 

        Ficou muito curioso sobre o que aconteceria aos balões que fugiam. Para onde iriam? Será que as árvores também gostavam de balões, e de jogar com eles? E vocês? O que acham que acontece aos balões que fogem? Para onde irão? Serão atacados por aves? Ou voarão até se esvaziarem? 

        Podem deixar as vossas respostas nos comentários :) 

                                                          FIM 

                                                          Lálá 

                                                   16/Setembro/2020

       

eu e tu, filho (monólogo para Adolescentes e Adultos)

        


        Uma mãe adolescente, quase adulta, tem um bebé com poucos dias de vida, que tinha pensado em abandonar e volta a casa com ele, cheia de medos, dúvidas, mas com muito amor. 
        Enquanto está na sua cama, ela olha para ele, e conversa com ele. 

          Que perfeição! Coisa mais linda. Como é possível! Tantos medos, tantas incertezas, 
tantos sonhos, tão grande desilusão, que foi compensada com este tesouro! Meu filho, mais 
lindo! 
        E eu que pensei abandonar-te, deitar-te fora, porque o palerma do teu pai não assumiu. Mas que estúpida, que egoísta...com esta idade, devia estar com bonecos, ou a namoricar, não com um filho na barriga e nos braços. 
        Não sei se alguma vez me vais perdoar por isso, talvez nunca venhas a saber, mas deves ter sentido isso, dizem que sentem, e acredito! O mais certo é que não venhas a saber disto, porque pode fazer-te muito mal, e também não interessa, o mais importante é que levei a gravidez até ao fim, sempre bem acompanhada pelos meus pais, amigas, e médicos, mas sem o teu pai. 
         Somos tão fáceis de iludir. Ainda meias adolescentes... sim, porque pela idade, acabei  de sair da Adolescência, e ia para a Universidade. Tinha tantos sonhos, tantos projetos, mas nenhum passava por te ter comigo! Pelo menos, não agora. Uns anos mais tarde, dizia eu. 
        Até conhecer o ser incógnito que é o teu pai, que nunca vai saber que existes, como ele próprio disse: não fui eu que o fiz, foste tu. Sim, porque nunca acreditou que eu estivesse grávida. 
        Talvez ele tivesse tanto medo como eu, agora entendo. Mas já que aconteceu, não há outro remédio, a não ser assumir, estejamos preparados ou não. Acho que nunca se está preparado, a não ser quando se deseja mesmo ter um filho e a relação está mais sólida. 
        Não era o caso da nossa, e eu estava disposta a deixá-lo à vontade, se ele não me quisesse, mas quando soube que tu já estavas cá, queria que ele também fizesse parte da minha felicidade, e que me acompanhasse no nosso medo! 
        Achava eu, que ele ia aceitar. Dois adolescentes, a tomar conta de uma criança, coisa que tínhamos sido há tão pouco tempo, e achávamos que já eramos adultos, grandes, capazes de tomar conta e sustentar um ser indefeso. 
        Quem é que quer uma prisão...? Um filho é um presente, mas também dá muitas despesas, eu via por mim, e pelos meus pais, exige sacrifício, porque não podemos fazer certas coisas como se faz quando não temos ninguém por nossa conta. 
        É verdade! Mostrei-lhe exames, tudo, e ele teve a grandessíssima lata de achar que os exames eram falsos, feitos a computador por mim, ou por alguém que estava grávida, só para o prender! 
        Como é que era possível eu fazer uma coisa dessas? Nós estávamos um pouco afastados, chateados, e de repente dou-lhe essa notícia, da tua chegada. Ele ficou possuído, como se fosse uma coisa do outro planeta, ou o fim do mundo.  
        Magoou-me muito essa atitude dele, mudou de número de telemóvel, insultou-me de tudo, chegou a agredir-me, a fazer-me passar vergonha na rua, chutou-me da casa dele, disse para eu não o procurar mais.
        Eu ainda tentei procurá-lo, claro, mas ele tinha sempre a mesma atitude agressiva comigo! Eu tinha aquela ideia, fantasia, de uma família como a minha, e como muitas, com mãe,  e pai, pelo menos.
        Nós estávamos mais ou menos bem, pensei que fosse só uma pequena crise, como todos os casais têm, umas zangas, e a seguir estava tudo bem, mas infelizmente não. Ele não me queria mesmo, ainda menos depois de saber que esperava um filho. 
        Doeu muito, isso, e muitas vezes pensei durante muito tempo em desistir, não queria 
ter-te com um pai que não te queria, nem a mim, achava injusto ter de escolher entre tu e o 
teu pai. 
        Vê lá, até isso ele fez comigo...mandou-me escolher... ou ele ou tu. Era só o que faltava eu escolhê-lo, porque na realidade, ele não era garantia nenhuma como acontecia na minha fantasia. 
        Mas tu, existias, estavas comigo, eras um pedacinho de mim e dele, não tinhas que pagar pelo que aconteceu entre mim e ele, e não deu certo, como muitas relações hoje em dia! Oxalá tu sejas parecido comigo.
        É claro que eu não posso obrigá-lo a gostar de mim, mas ele teria que te reconhecer e ajudar-me a cuidar de ti. Mais uma fantasia, uma visão romântica da vida a dois, que não passa disso mesmo!
        Para mim, essa ideia romântica chegou a ser real, porque gostamos um do outro, na altura, namoramos, e entregamo-nos um ao outro, fundimo-nos um no outro, completamo-nos, sonhamos juntos, mas não estavas incluído, pelo menos não assim. 
        Mas as coisas nem sempre correm como sonhamos, desejamos ou esperamos. Deixamo-nos levar pelo fogo, e não pensamos que pudesses aparecer assim tão rápido. Não voltamos a falar, desde que lhe disse que tu estavas aqui. Passamos 9 meses, só tu e eu, vamos continuar a ser só nós os dois, eu e tu. 
        E os teus Avós. Pelo menos os meus pais, que te amam. Eles também não imaginavam 
que iam ser Avós tão cedo, mas ficaram felizes, e fazem tudo, desde o início para o nosso bem. Apoiam-nos, a mim, e a ti. 
        Desculpa, filho, eu ter pensado em não te ter, ou deixar-te, dar-te a alguém... depois daquela ligação especial entre nós os dois, estes meses, e agora olhando para ti, meu amor...uma perfeição, só me apetece andar ao estalo comigo mesma...como é que eu pude pensar numa coisa terrível como essas? Se os teus Avós soubessem, acho que me desfaziam, e com razão!
        Que ser maravilhoso... se o teu pai não nos quiser, viveremos um com o outro, e um para o outro, pelo menos, eu para ti. Interrompi os estudos, mas não faz mal. Tu és a prioridade. Não te vai faltar nada. Como a mim, também nunca me faltou nada.
        Tenho muitos medos, sim, tive, e tenho, de não saber cuidar de ti, ou de não te poder 
dar tudo o que precisas. Não te vou dar tudo o que queres, porque também nunca tive tudo 
o que queria, e ainda bem! 
        Amor não te vai faltar, nem os cuidados, nem a mãe. Claro que há mães que são obrigadas a abandonar os filhos bebés, ou porque não têm condições, ou porque não querem, ou porque foram abusadas. Compreendo! Talvez se me acontecesse isso, eu fizesse o mesmo!
        Aliás, quase fiz isso! Mas como seria capaz...por causa do teu pai não me querer, não nos querer. Pensei muitas vezes se estava preparada, se tinha maturidade para ser tua mãe. Preparadas nunca estamos, só com  a prática! 
        É claro que não me sentia preparada, nem madura para assumir uma responsabilidade dessas. Enquanto era adolescente, tive pavor, só de imaginar que pudesse vir a ser mãe, embora gostasse de bonecos, mas só de conhecer o que as grávidas passam para ter um filho, não era para mim. 
        Tu não foste planeado, nem propriamente desejado, mas quando soube que existias, 
passaste a ser desejado, claro, não tinha porque não te desejar, se os meus sonhos com o teu 
pai, passavam por ter uma família: eu, ele e alguns filhos! Não era agora, mas seria. 
        Se não fossem os teus Avós, talvez não estivéssemos aqui os dois, agora. Que loucura. Sim, infelizmente há casos desses, mas como tive apoio dos teus avós, levei-te até ao fim, e agora tenho-te aqui. 
        Não foi fácil, filho. Tu deves ter sentido, que houve dias em que estava cheia de pensamentos maus, stresses, pânicos, dias em que me senti muito triste, dias em que só me apetecia fugir, desistir de ti, e de mim, acabar com tudo... porque o teu pai não estava connosco, não queria saber de nós. 
        Pensei que não podíamos viver sem ele, não fazia sentido, mas estava a ser muito egoísta! Quando me lembrava de ti, tu eras o único que me fazia continuar, mesmo sem o teu pai. Mas que disparate!
        O teu pai safa-se sozinho, mas tu precisavas de mim para tudo, e eu não podia deixar de cuidar de ti, nem de mim. O teu pai não merecia ser mais importante para mim, do que tu. 
        Não sei explicar, talvez tu, o meu amor por ti, foi crescendo, à medida que te consegui ver, nas ecografias, ouvir o teu coração, sentir-se a mexer, e a dar pontapés, sentir as tuas mãozinhas e pezinhos...a ver-te tão perfeito! 
        Que bom, ter-te aqui, meu amor, meu anjinho! És lindo! A mãe está aqui. O pai, vamos ver se estará, se não estiver, pelo menos tens o amor da tua mãe e dos teus avós, das minhas amigas a quem vais chamar tias, e que te adoram. 
        Desculpa ter pensado em abandonar-te, ou deitar-te fora, tu tens sido o melhor que me 
tens acontecido. Estás aqui, do meu lado, estiveste comigo este tempo todo, a apanhar com tudo o que eu vivi, e experimentei, a comer o que eu comia, e sentir o que eu sentia e às vezes era mau! 
        Cresce devagarinho. É tão bom ver-te, assim, pequenino. Sei que vais crescer, mas só quero que tenhamos saúde para poder estar sempre do teu lado, apoiar-te, amar-te! És a minha força, a minha luz, a minha razão de existir.
        O resto, virá! O mais importante és tu, é para ti que viverei, e é por ti que estou aqui. Não duvides do meu amor por ti, e sei que também me amas! Agora somos nós os dois. Com, ou sem o teu pai, nós os dois estamos juntos! Isso é o que interessa.
        Meu filho! Como me soa bem dizer isso. Também deves gostar de ouvir dizer. É uma 
sensação mesmo especial, indescritível. Meu amor, meu ser de luz, pedacinho de mim. 
Mesmo que o teu pai nunca te procure, ele será sempre teu pai.
        E quem sabe um dia, se o quiseres conhecer, ou se ele quiser ver-te, nunca vou proibi-lo de te ver, até será bom para ti. Será mais uma fantasia minha, um desejo, que não sei se virá a acontecer. Tudo passou. 
       Ainda tenho muitos medos: que tenhas algum problema de saúde, ou eu, que eu não 
saiba como cuidar de ti, que te falte alguma coisa, e muitos outros, que todas as mães 
sentem. Mas também se aprende, e tudo se resolve! 
        Os teus avós também não estavam à espera de ser avós tão cedo, mas depois do susto, aceitaram, e fizeram de tudo para me apoiar, como sempre aconteceu. São maravilhosos, vais adorá-los, eles já te amam, e tenho a certeza, tu também podes ter a certeza, desse amor deles por nós os dois, vão ajudar-nos! (Pega no bebé ao colo, abraça-o, acaricia-o, sorri-lhe) 
        Ainda temos muito tempo para nos conhecermos, e para o nosso amor crescer ainda mais. Aconteça o que acontecer, eu sou a tua mãe! E tu és o meu filho! Isso nunca vai 
mudar! Amo-te! 


                                                         FIM 
                                                     Lara Rocha 
                                                 19/Setembro/2020

                        

        




     

sábado, 19 de setembro de 2020

o escorrega dos gatos

         

Foto de Lara Rocha 

Era uma vez um dia de pleno Inverno, onde tudo à volta estava gelado, exceto uns gatos vadios que se protegiam do frio sem terem lugar certo, era em qualquer árvore onde existisse uma toca. 

    Numa dessas tardes cheias, ameaçava chover, e os gatos já há vários dias andavam de olho num escorrega gigante de uma casa para uma piscina. Olhavam e voltavam a olhar, sem saber o que era, mas cheios de curiosidade.

    Os donos da casa saíram e os gatos puderam finalmente investigar mais de perto o que era aquilo. Entraram no jardim, cheiraram, e mal puseram uma pata no escorrega, coberto de água e gelo, deslizaram a alta velocidade, sem conseguir parar. 

    Tentaram agarrar-se, espetaram as unhas no gelo, deram muitas cambalhotas, voltas e mais voltas, viraram-se ao contrário, miaram aflitos, tentaram segurar-se uns nos outros, mas só pararam no muro da piscina. Quase eram projetados, a sorte é que a piscina também estava coberta com um plástico e gelo. 

- Uau! - suspiram todos ofegantes

- O que é que acabou de acontecer aqui? - pergunta um gato 

- Não sei. - respondem todos 

- Estes humanos são loucos. Metem-se numa coisa destas? - comenta outro gato 

- Malta... não sei o que é isto, mas foi radical! - diz um gato a rir 

- Foi. - Dizem todos numa gargalhada coletiva 

- Acho que nunca andamos tão rápido como hoje... - comenta outro gato a rir 

- Parece que fizemos uma maratona! - diz outro gato 

- Aquilo parece um bocado perigoso, mas até foi divertido. - diz outro 

- Sim. - concordam todos 

- Vamos outra vez? - sugere outro gato 

- Vamos... 

    E os gatos voltam a subir o escorrega, com muita dificuldade, deslizes, arranhadelas e unhadas no gelo, pequenas descidas enquanto subiam, muita brincadeira, às vezes até se deixavam escorregar de propósito, giravam e voltavam a subir, riram, tentaram agarrar-se uns aos outros, mas escorregavam e miavam.

      Ao chegar ao topo do escorrega, recuperaram o fôlego, olharam para a paisagem. 

- Que linda a paisagem daqui. - suspira um gato 

- É mesmo! - concordam todos 

    Ficam em silêncio a percorrer a paisagem com os olhos, encantados. 

- O que haverá ali por trás do nevoeiro...? - pensa alto, um gato 

- Talvez... monte! - responde outro gato 

- Sim. - concordam todos 

- Uau! - suspiram todos 

    Sentem o vento no pelo, estremecem, sacodem-se. Aparece um jovem a tocar violino, e para a olhar para os gatos. Deitam-se de barriga e começam a descer, deixam-se levar ao sabor do gelo, e do entusiasmo. 

    O rapaz começa a tocar, e os gatos parecem deslizar no escorrega, ao som da música que ele toca. Rodam, dançam, giram, mudam de posição, brincam, miam divertidos, e param outra vez no muro da piscina. 

    O rapaz aplaude, e gosta tanto que os convida para repetir o que fizeram, enquanto ele toca, e filma. Os gatos aceitaram, voltaram a subir o escorrega, e tanto na subida como na descida do escorrega, divertem-se, gritam, riem, dançam, fazem coreografias, ao som do violino. 

    O rapaz aplaude, agradece e para retribuir convida-os a entrar na sua casa. Oferece-lhes um banho de água quente, numa bacia para cada um, enquanto prepara petiscos e camas confortáveis, os gatos deliciam-se com a água quente, conversando alegremente uns com os outros sobre o que tinha acontecido nesse dia. 

    Saem do banho, esfregam-se nas toalhas, o rapaz penteia-lhes o pelo, dá-lhes de comer, e põe-nos comodamente instalados em almofadões perto da lareira. Enquanto se deliciam com os petiscos, o conforto e o calor, ouvem as histórias do jovem, que fala com eles, como se estivesse com pessoas. 

    Os gatos compreendem-no, lambem-no, esfregam-se nele, e o jovem mostra-lhes os vídeos daquela tarde. Todos se riem com vontade. Depois desse dia, os gatos não saíram mais daquela casa, e tornaram-se amigos inseparáveis do jovem, uma segunda família. 

    Sentiam-se uns reis. participaram em muitos trabalhos do amigo músico, com bailados inventados por eles, cheios de encanto e magia. Esses trabalhos passaram a ser o sustento do jovem. 

    Um escorrega que mudou a vida de gatos e de um jovem músico   


                                                            FIM 

                                                            Lálá 

                                                   19/Setembro/2020