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sábado, 9 de outubro de 2021

O vendaval de duas pernas - caso prático para estudantes de psicologia; psicólogos; população em geral Adultos

«O vendaval de 2 pernas»

       M., mãe de C., mãe solteira, o pai de C. nunca assumiu a paternidade, e nunca se encontraram pessoalmente. M. mostra-se muito preocupada, nervosa, envergonhada pelo comportamento do seu filho, que não lhe dá sossego, e não sabe o que fazer. Vivem numa pequena aldeia onde todos se conhecem, e todos têm queixas do C.

       Há mais de um ano que C., de 14 anos revela muita agressividade para com as pessoas, em especial dirigida à mãe e à Avó com quem vive e que sempre cuidou dele, tal como da Mãe.

     C. Insulta-as, em casa e na rua, quando sai com elas, humilha-as em público, gritando e empurrando-as, agredindo-as com tanto violência que os vizinhos estão sempre atentos.

      A mãe e a avó já caíram várias vezes com os empurrões de C. Inclusive a avó foi várias vezes hospitalizada pelos ferimentos, sem nunca revelar os motivos das quedas, dizendo apenas que não sabia como tinha caído, que tinha tropeçado, ou que lhe tinha dado uma tontura, argumentando que era da idade.

    Nem a mãe nem a avó fazem queixa dele, porque sentem medo, pois C. Ameaça-as e agride-as, no entanto os vizinhos não deixam passar em branco estes comportamentos, até porque também já foram vítimas da raiva de C.

  C. revolta-se, luta com os vizinhos com violência, insulta-os, e vinga-se constantemente. Parte vidros das janelas com pedras, esconde-se, os vizinhos não o veem mas suspeitam que seja ele. Alicia os mais pequenos a atirar bolas de futebol contra as portas das casas.

     Durante a noite, sai de casa silenciosamente, dá murros e pontapés nas portas dos vizinhos para os perturbar, fazendo com que acordem sobressaltados, mas quando abrem a porta, já C. Desapareceu, esconde-se e ri à gargalhada do susto que provocou nos vizinhos.

    Durante a noite, quando se lembra, destrói flores dos jardins das casas, pisando-as, arrancando-as da terra, cortando as pétalas. Tira galinhas dos capoeiros, tapa-lhes os bicos para não cacarejarem, depena-as, parcial ou totalmente, de acordo com a intensidade da sua raiva, atira-as pelo ar, bate-lhes, roda-as e sai como se nada tivesse acontecido, parte vasos, parece que não pode ver nada direito.

   Maltratou cães vadios que apareceram na Vila, mas os vizinhos fizeram queixa dele, e foi necessária a intervenção da polícia, como aconteceu das outras vezes. Depois disso, muitos vizinhos acolheram os cães.

    Falta frequentemente à escola, a mãe é chamada constantemente e ligam para casa na tentativa de saber o que se passa, mas a mãe nem sabe que ele falta às aulas.

   Quando tal acontece, questiona o filho que não responde e ainda a insulta afirmando que não tem nada a ver com ele. Chumbou por faltas em várias disciplinas.

   Já tentaram colocá-lo em cursos profissionais, mas depois não frequenta nenhum e as poucas aulas que frequentou, não deu sossego aos colegas nem aos professores, levando-os ao limite.

     Insulta todos na escola, agride, destrói objetos de colegas que sentem medo dele, é muitas vezes expulso da escola, mas volta com o objetivo e processa que vai mudar o seu comportamento, mas tudo fica na mesma.

     Passa os dias a fazer asneiras, vai ao parque de estacionamento da escola e risca os carros dos professores, fura pneus, parte vidros, e apesar de ser visto por pessoas dos prédios, de costas, quando chega a polícia, já C. fugiu, e quando confrontado age com naturalidade, negando tudo, e mostrando raiva por considerar que é injusto acusarem-no de coisas que não fez.

   Neste momento está internado numa clínica de saúde mental com acompanhamento psicológico e psiquiátrico. O passo seguinte será trabalho comunitário, vigiado de perto e controlado.

       Mostra-se atualmente mais calmo, com medicação, diz-se arrependido e pensa pedir desculpa a todos, embora a mãe (com depressão e também a receber apoio) não confie nele.

    A mãe não sabe como nem porque começou este comportamento do filho, e apesar de toda a destruição que o filho provocou na Vila, os vizinhos apoiam-na a ela e à avó.

                                                        Lara Rocha 

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Nota para psicólogos, e população em geral. 

Este é um caso fictício, mas pode acontecer em qualquer casa, e causa grandes problemas a todos os que os rodeiam. Foi um monólogo baseado nos critérios de diagnóstico, DSM-IV-TR, 1ª Edição, Lisboa, Janeiro de 2002. 

Perturbação do comportamento  (P. 93 - 99) 

Padrão de comportamento repetitivo e persistente, em que são violados os direitos básicos dos outros ou importantes regras ou normas sociais próprias da idade, manifestando-se pela presença de 3 (ou mais) dos seguintes critérios, durante os últimos 12 meses, e pelo menos de 1 critério durante os últimos 6 meses.

Critérios

- Agressão a pessoas ou animais

1 – com frequência insulta, ameaça ou intimida as pessoas

2 – com frequência inicia lutas físicas

3 – utilizou uma arma que pode causar graves prejuízos físicos aos outros (por exemplo, pau, tijolo, garrafa partida, faca, arma de fogo)

4 – manifestou crueldade física para com as pessoas

5 – manifestou crueldade física para com os animais

6 – roubou confrontando-se com a vítima (por exemplo, roubo por esticão, extorsão, roubo à mão armada)

7 – Forçou alguém a uma atividade sexual

- Destruição de propriedade

8 – ateou fogo deliberadamente com intenção de causar prejuízos graves

9 – destruiu deliberadamente a propriedade alheia (sem ser por ateamento de incêndios)

- Falsificação ou roubo

10 – arrombou a casa; a propriedade ou o automóvel de outra pessoa

11 – mente com frequência para obter ganhos ou favores ou para evitar obrigações (por exemplo, vigariza os outros)

12 – furta objetos de certo valor sem confrontação com a vítima, por exemplo, furto em lojas, mas sem partir ou forçar a entrada, falsificação

- Violação grave das regras

13 – com frequência permanece fora de casa de noite apesar da proibição dos pais, iniciando este comportamento antes dos 13 anos de idade

14 – fuga de casa durante a noite, pelo menos duas vezes, enquanto vive em casa dos pais ou em lugar substituto da casa paterna (ou uma só vez, mas durante um período prolongado)

15 – faltas frequentes à escola com início antes dos 13 anos

B – A perturbação do comportamento causa um défice clinicamente significativo no funcionamento social, escolar ou laboral

C – Se o sujeito tem 18 anos ou mais, não reúne os critérios de Perturbação Anti-Social da Personalidade

TIPO EM FUNÇÃO DA IDADE DE INÍCIO:

312.81 – Tipo início na segunda infância antes dos 10 anos, início de pelo menos uma das características de Perturbação do comportamento

312.89 – Perturbação do comportamento início não especificado: a idade de início é desconhecida

GRAVIDADE:

- Ligeira – poucos ou nenhuns dos problemas de comportamento para além dos requeridos para fazer o diagnóstico os problemas de comportamento só causaram pequenos prejuízos aos outros

- Moderada – o número de problemas de comportamento e os efeitos sobre os outros entre «ligeiros» e «graves»

- Grave – muitos problemas de comportamento que excedem os requeridos para fazer o diagnóstico ou os problemas de comportamento causam consideráveis prejuízos aos outros

Comportamentos destes e outros, merecem atenção, avaliação psicológica e acompanhamento, antes que evolua para situações mais complexas. São muitas vezes percebidos como rebeldia, típicos da pré ou adolescência, má educação,  falta de regras, e outros, mas na verdade, pode ser causa de problemas emocionais mais graves.  

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

A vela e os morcegos

        


foto de Lara Rocha 


      Era uma vez uma vela que foi deitada fora por umas pessoas de uma casa, numa cidade, sem saber porquê. 

      A vela ficou tão triste por essa atitude que antes que a desfizessem, andou sem rumo, muito devagar, a chorar e a lamentar a sua pouca sorte.                                  Ia tão assombrada pela sua tristeza que nem reparou que entrou numa floresta. Continuou a andar, e só percebeu onde estava quando ouviu uns barulhos desconhecidos. 

      Olhou para cima, e viu árvores; ouviu pios que a arrepiaram dos pés até ao pavio apagado. O solo estava mais ou menos silencioso, até que ouviu folhas a mexer, era um animal que não conseguiu ver qual era, felizmente não o encontrou. 

Ouviu lobos a uivar, arrepiou-se toda, e tentou esconder-se, mas não foi muito feliz na escolha do local: uma toca onde estava um grande morcego, confortavelmente sentado num cadeirão, que já a tinha avistado. 

Saiu a porta de repente e perguntou num tom de voz potente, ao mesmo tempo que a vela recua e fica estática: 

- Boa noite, precisa de alguma coisa? Óh, já sei, está perdida. (olha a vela de cima a baixo, cheira-a) Está gelada de medo, mas não há razão para isso. (dá uma gargalhada) Entre! Vamos conversar um pouco. Nunca a vi por estes lados, mas sinto que precisa de ajuda, e estou aqui para isso. Vá...mostre um sorriso, por favor...sou um morcego mas só tenho tamanho, como dizem por aí. Entre... 

            A vela sorri timidamente, e decide entrar, com a delicadeza do morcego. 

- Não me vai comer? - pergunta a vela 

           O morcego dá uma sonora gargalhada: 

- Ora, deixa-me ver...se fazes parte da minha dieta...hummm....vamos tratar-nos por tu... não, não fazes parte da minha dieta. E então, fala-me de ti. Senta-te...faz de conta que estás na tua casa! 

            A vela, mais à vontade, sorri, instala-se, e começa a continuar a sua pouca sorte ao morcego que a ouve atentamente, abana a cabeça, às vezes fica parado a olhar para ela. 

- Mas que pouca sorte! Como é que vieste aqui parar? 

- Não sei! 

- Não sabes?    

- Não! Comecei a andar, e vim aqui parar, mas não me lembro do caminho que segui até aqui. 

- Óh...estou a ver. Estavas na companhia da tua tristeza tão grande. 

- Sim, foi isso. Também te acontece? 

- Claro, às vezes é noite lá fora, e no meu coração! 

- Porquê? 

- Isso...são longas histórias...mas...por tristezas, desilusões...também voo não sei para onde. Apenas...voo, por aí, para apanhar ar, e limpar as más emoções. 

- Como é que tu as limpas? Com uma vassoura? 

(O morcego ri) 

- Com o ar fresco, e as vistas lá de cima. 

- E resulta? 

- Resulta. Queres experimentar? 

- Eu gostava, mas...não voo... 

- Eu levo-te! 

- Então, está bem. 

            O morcego abraça a vela com as suas asas. 

- São quentinhas e macias, as tuas penas, e a tua pele! - diz a vela 

- Sim, é. 

         O morcego levanta voo com a vela, e leva-a a passear pela floresta, mostrando-lhe cada pormenor, apresenta-a a mais uma série de amigos e família dele que a cumprimentam alegremente, e acompanham o morcego no passeio, numa conversa muito animada.                                                                   Ouvem-se os carros a andar na rua, vozes de pessoas a falar, veem-se luzes da cidade, e o som do mar muito próximo. Os morcegos já conhecem essa praia, e vão até lá. Era um espaço totalmente novo para a vela. 

Pousam na areia, o mar estava longe da areia, viam-se luzinhas. 

- O que é aquilo na água, são pirilampos? - pergunta a vela 

- São luzes de barcos de pescadores! 

- O que fazem a esta hora? 

- Pescam! 

- Deviam estar a dormir. 

- Não...Acho que eles são como nós, morcegos, mas uma espécie muito estranha, parece que dormem de dia, e trabalham de noite, mas não têm asas como as nossas, também comem peixe e nós não. 

- Acho que são parecidos com os que me deitaram fora. - diz a vela 

- Áh, sim. Mas nós não te vamos deitar fora. 

- Tu também dás luz, não dás? - pergunta outro morcego 

- Como é que sabes? - pergunta a vela 

- Eu já vi iguais a ti, que tinham uma luzinha, não sei se era um chapéu, um carapuço ou um carrapito! 

(Todos riem) 

- Ora dá lá um bocadinho de luz! - pede outro morcego 

- Sim, nós queremos ver a tua luz. - acrescenta outro 

- Mas... assim sozinha não consigo. Alguém precisa de me acender! - diz a vela 

- E como é que te acendemos? - pergunta o morcego grande 

- Acho que é com...lume...! - diz a vela

- Lume? - perguntam todos 

- Onde vamos arranjar isso? - pergunta outro morcego 

- Aqueles devem ter... - lembra outro morcego 

(Um morcego vai ter com os pescadores e pergunta delicadamente): 

- Boa noite, por acaso algum de vocês tem lume, para acender uma vela amiga nossa? 

(Os pescadores dão uma gargalhada geral) 

- Um morcego a pedir lume para acender uma amiga vela...este mundo está perdido! - diz um pescador a rir 

- Nunca outra ouvi. Mas sim, temos...onde está a sua amiga...? - comenta com os outros - acho que este ainda está na idade dos amigos imaginários, como os nossos filhos. 

(Gargalhada geral) 

- Está ali... por favor! - pede o morcego 

             Os pescadores seguem o morcego desconfiados, e nem querem acreditar no que estão a ver. Está mesmo uma vela com outros morcegos na areia. 

- Ui, não sei se isto é um bom sinal. - comenta um pescador 

- Por favor, podem acender a nossa amiga? - pede o morcego grande 

- Claro que sim... - dizem os pescadores 

             Um dos pescadores acende a vela com um isqueiro, e os morcegos ficam maravilhados com a sua luz, em silêncio, a contemplar a luz da vela. Nunca tinham visto tal coisa.  

- Áhhhhh... - os morcegos soltam uma grande e sonora exclamação 

- Que bonita que é a tua luz! - diz o morcego grande 

- Porque não estava acesa quando foste para a floresta? - diz outro 

- Pois, assim não terias tanto medo! - acrescenta outro 

- Porque eu fui deitada fora, e não tinha como me acender! - explica a vela 

            Os morcegos enchem-na de perguntas: 

- E como te deitaram fora? 

- Quem? 

- Porquê? 

- Mas que maldade! 

- Meninos, sosseguem, e apenas...apreciem esta maravilha que é a luz dela! Ela agora está connosco, e é mais que linda. 

- Obrigada! - sorri a vela 

            Chega uma morcego ciumenta, que ia barafustar com os morcegos, mas fica calada, quando vê a vela. 

- Onde arranjaram isso? - pergunta a morcega 

- É linda, não é? - comenta o pescador 

- Sim, é! - diz a morcega ciumenta 

- Mas não é uma morcega! 

- E o que é que isso interessa? 

- É na mesma nossa amiga! 

- Estava perdida na floresta, foi deitada fora pelos humanos. 

- Vamos fazer uma festa, para a nossa nova amiga? - sugere a morcega ciumenta 

- Claro que sim. Chama o resto do pessoal. - diz o morcego grande 

            A morcega ciumenta comunica a todos que há uma nova amiga e que vão fazer uma festa. Juntam-se todos, contemplam a vela encantados, a luz da vela aumenta, cada um cumprimenta a nova amiga, batem palmas, cantam, dançam. Arranjam-lhe uma casa, e desse dia em diante, cada morcego leva a vela a passear, fazem festas com ela, acendem-na, e ficam em silêncio a apreciar, ou às vezes cantam e conversam alegremente. Nunca mais a deixam sozinha. 

                                                                      FIM 

                                                                  Lara Rocha 

                                                                 4/Outubro/2021 

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

A lenda do sorriso da Lua

     




 Era uma vez uma montanha que guardava uma pequenina aldeia, com as casas e cabanas em árvores antigas, protegidas de calor, com luz natural e todas as condições, há muitos muitos anos atrás. 
    Havia uma lenda sobre essa aldeia que dizia como a lua tinha surgido lá em cima no grande Universo, ainda por cima tão bonita.  
   Dizia a lenda que a Lua foi a realização de um desejo da Terra, uma mulher estranha, que umas vezes chorava, outras vezes ria sem parar; umas vezes ficava tão irritada, que gritava e tudo tremia, outras vezes ficava tão indiferente e gelada, de tanta tristeza que se formava vento, chuva, neve, gelo, granizo, e trovoada. 
  Era apaixonada pelo sol, com quem namorava mas não podia ter filhos, embora fosse um grande desejo dos dois. Um dia, o sol viu crianças acabadas de nascer e outras pequeninas com sorrisos tão bonitos, tão puros que pareciam prata, eram brilhantes, e pediu à grande rainha que lhe realizasse um desejo: já que não podia ver aqueles sorrisos em filhos, queria oferecer à sua namorada, alguma coisa com aquele brilho. 
   A rainha pensou durante algum tempo, e teve uma ideia. Tornou-se invisível, recolheu os cristais dos sorrisos maravilhosos dos bebés de todas as cidades, e noutros pontos do mundo, onde sabia que existiam, e encheu uma bola de vidro gigante, transparente. Quando a Terra fez anos, o sol pediu à rainha que lhe desse a prenda. 
  A Terra estava na expectativa, a olhar para todo o lado, e o sol diz-lhe: 
- Olha para ali! Naquela direção. 
Quando a Terra olha, vê uma bola gigante prateada, luminosa a pairar, cheia de brilhantes. 
- O que é aquilo? - pergunta a Terra surpresa 
- É para ti, meu amor…
    A rainha abre a bola gigante, e sai uma Lua Cheia, linda, cintilante, a transbordar de luz! 
-Áh! Que coisa mais bonita. O que é? Não sai dali? 
- É a nossa filha! Cheia de sorrisos de bebés, dos filhos que desejamos, e não tivemos, aquele brilho é do sorriso deles, por te ver, por seres quem és. Vai estar sempre ali! 
  E de repente, antes que a Terra dissesse alguma coisa, uma ave gigante, pousa no solo com um bebé lindo, como a Terra e como o Sol, sorridente, com um sorriso tão bonito como o brilho que a Lua tinha. 
- Áh! Por esta não esperava. - diz o sol muito surpreso 
A rainha discursa: 
- O amor é mais forte que toda a inveja, e que todo o mal que circula por aí. E esse é o prémio do vosso amor. Sei que é um desejo vosso, e a prenda que o Sol pediu para ti, Terra...mostrou-me muita coisa, ensinou-me muito. Esse é o meu presente de aniversário, por tudo de bom que me dais, Terra e Sol. Sois maravilhosos.  Foi feito com os brilhantes que recolhi, dos sorrisos brilhantes de prata que vi por aí. Pegai no vosso filho! Olhai o sorriso dele. 
    A Terra e o Sol estão tão emocionados que querem pegar os dois ao mesmo tempo no bebé, e este ri de forma sonora, soltando uma série de cristaizinhos prateados. A Terra e o Sol riem com ele. 
- Primeiro pega a mãe. - sugere a rainha 
- É justo! - diz o Sol 
- Tu pegas a seguir. - diz a Terra 
- Está bem! - concorda o Sol
 A Terra pega cuidadosa e carinhosamente no bebé. Abraça-o, beija-o, acaricia-o. 
- Que coisinha deliciosa...como é quentinho e cheiroso! Hummmm... 
- Bem-vindo, filho! - diz o Sol orgulhoso 
  O bebé está feliz com aquele aconchego. A Terra passa o bebé para o Sol, e os dois deliciam-se com os seus sorrisos. 
- É um menino mas vai chamar-se Sorriso da Lua. Gostas do nome, Pai? - sugere a Terra 
- Óh…Sorriso...da...Lua… sim, soa bem, e é mesmo isso que ele é! O nosso sorriso, a nossa Lua Cheia, olha para estas bochechinhas, que coisa mais fofa! Muita gratidão, Rainha maravilhosa! - diz o Sol 
- Gratidão eterna, rainha, por estes presentes...o pai e o filho! - diz a Terra. 
- Estarei sempre aqui para vos ver felizes, e para o que precisarem de mim, claro! - diz a rainha
- Queremos convidar-te para seres a madrinha do nosso Sorriso Da Lua! Aceitas? - diz a Terra 
- Óh…agora fiquei sem palavras...(ri) até...tenho aqui uma lagriminha pendurada...que quer cair. - diz a rainha orgulhosa e feliz a sorrir - Sim, aceito com muito gosto, se é o que vocês querem! 
- Sim! Respondem os dois
   A Terra e o Sol tornam-se rapidamente uns pais maravilhosos, dedicados, orgulhosos, carinhosos, brincalhões, que cuidam muito bem do bebé, uma criança feliz e saudável. A rainha está sempre por perto, e qualquer coisa que precisam, ela aparece rapidamente. 
  Foi assim que nasceu a Lenda do Sorriso da Lua, que encanta todos os visitantes, e até dizem conseguir sentir a alegria contagiante do casal Terra e Sol, outros dizem que a Lua nesse sítio tem uma luz diferente, e muito especial, e até há quem ache que ouve os risos do casal e do bebé. 

                                                                        Fim 
                                                                    Lara Rocha
                                                                20/Setembro/2021 
    

domingo, 12 de setembro de 2021

O monstrinho marinho




Era uma vez uma criatura marinha muito estranha, que vivia com a sua família nas ruinas de um barco afundado há muitos séculos. O seu ar era muito assustador, mas tinha um grande coração e na verdade era muito generoso, carinhoso, dedicado. 

Como ia muitas vezes à superfície, todos conseguiam avistá-lo, entravam em pânico, gritavam e fugiam, mas quando alguém estava em apuros, era o monstrinho que lhes valia, tirando-os da água, salvava-os e desaparecia.  

Os que que eram salvos, contavam que tinha sido um ser estranho, monstruoso, a socorre-los, mas os outros não acreditavam, riam, diziam que tinha sido resultado da água e do medo. Ajudava marinheiros, o que para ele era uma brincadeira divertida. levantar os barcos no alto mar, transportá-los nas suas escamas e lombo, quando as ondas pareciam engolir os barcos e os marinheiros.  

Os marinheiros confiavam totalmente nele, e sentiam-se protegidos, além disso, o monstrinho sabia muito bem onde havia o melhor peixe para eles. Era um bom guia, como o farol. Também gostava de fazer festas à luz da lua, e em noites de lua cheia adorava juntar-se a grupos de jovens, dezenas ou centenas, que vestiam de maneira diferente, reuniam-se na praia, com música muito alta e barulhenta, animada, dançavam, cantavam, batiam palmas, bebiam, comiam e brincavam. 

O monstrinho acompanhava-os e divertia-se tanto ou mais que eles, dançava na areia e na berma da água, próximo deles, era muitas vezes o centro das atenções, como se estivessem a ver uma atuação de circo ou um espetáculo marinho, cheio de magia e alegria. 

Todos o adoravam, aplaudiam, gritavam, acariciavam-no, dançavam com ele, por vezes as suas costas serviam de palco para os que cantavam, e desfilava com eles como um palco flutuante com atuações.                                                                                                                                        Ninguém acreditava porque achavam ser imaginação dos jovens. Apesar de todos quererem conhecê-lo, ele continuava a preferir ficar na sombra, no seu recanto sossegado, e ajudar quem precisava.

                                                                    FIM 

                                                           Lara Rocha 

                                                                                                                                               11/Setembro/2021 

  

O saquinho surpresa


     

   Era uma vez um grande campo de cultivo variado, onde sobrevoou um pássaro enorme, de uma espécie rara, e largou um saco grande, no solo, deixou-o aberto e levantou voo. 

    Logo que pousou no chão, saíram do saco doze coelhinhos de várias cores, que correram pelo campo fora entre as plantações.

    Estavam com tanta fome e cheirava-lhes tão bem que comeram algumas cenouras, folhas de nabos, couves, erva, beberam água fresca de uma fonte, e procuraram tocas, que encontraram rapidamente em casotas feitas de palha.  

   Dormiram até ao dia seguinte. e quando os agricultores chegaram nem queriam acreditar no que estavam a ver. 

     Parecia que o campo tinha sido invadido por centenas de toupeiras esfomeadas. De repente veem na terra seca e húmida, marcas de patas de coelho, por todo o lado, e o saco enorme. 

      Como é que aquele saco foi lá parar? E onde estava, os coelhos? Correram todo o campo, e encontraram os coelhinhos nas tocas. 

      Apesar de estarem muito zangados com a destruição que os coelhos provocaram, ficaram enternecidos com eles, e sentiram pena deles.         Quando os coelhos os viram ficaram assustados e tremiam de medo, mas os humanos foram muito queridos com os animais. Acariciaram-nos e levaram-nos ao colo para sua casa. 

    Deixaram-nos ao ar livre e à noite recolheram-nos para os proteger do frio, dos animais selvagens onde já estavam outros coelhos e com quem construíram uma grande família.  

        Livraram-se de ser vendidos ou cozinhados, e viveram num lugar seguro, onde eram alimentados e acarinhados. 

        Afinal o saco perdeu o mistério...era um saco surpresa com coelhinhos, largados por uma ave para os proteger. 

     E vocês? Se encontrassem um saco misterioso, o que teria? Podem deixar as respostas nos comentários.  

                                                                                       FIM 

                                                                                           Lara Rocha 

                                                                                    11/Setembro/2021 

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Os cavalos das rosas

 


        Era uma vez uma grande quinta onde viviam várias famílias de pessoas e animais, entre eles cavalos. 

        Mas estes cavalos que pareciam iguais aos outros, não eram. Tinham um poder especial, totalmente desconhecido dos seus donos, dos outros animais e dos próprios cavalos. 

        Numa noite de tempestade com tudo incluído: chuvadas, vento forte e trovoadas assustadoras, os animais estavam com tanto medo quanto as pessoas, e corriam de um lado para o outro, à procura de abrigo, pois tinham andado a pastar num outro terreno ao lado, e os donos não tiveram tempo de os recolher porque a tempestade começou de repente. 

        Os cavalos desatam a correr, e dos seus pelos começam a sair rosas de várias cores, umas em botão, outras mais abertas, nem perceberam o que estava a acontecer. Os animais ficaram boquiabertos, parados a olhar para os cavalos e para o chão, a ver tanta rosa. 

       Pelo caminho de regresso à corte, enchem o chão de rosas, e os humanos que estavam a ver a tempestade da janela, dentro de casa viram as rosas a sair do pelo dos cavalos. 

- Que coisa estranha! 

- O que há? 

- Está qualquer coisa a cair do pelo dos cavalos. 

- É água. 

- Não. É outra coisa! 

- Estás a imaginar, só pode. É normal que seja água, eles andaram à chuva.

          Quando a tempestade parou, foram investigar para tirar as dúvidas e ver quem tinha razão. A senhora tinha razão, o caminho estava cheio de rosas de todas as cores que os cavalos largaram dos seus pelos. 

- Vês, como eu tinha razão? 

- Eu também tinha razão, olha tanta água. 

- Está bem, tem muita água, mas como explicas tantas rosas? 

- Não sei. Podem ter caído das roseiras, ou levadas pelo vento, ou vieram agarradas às patas. 

            No estábulo, o pelo dos cavalos está seco, mas à volta das patas, no chão, cheio de rosas. 

- Como pode ser? 

- Mas o que se passa com estes cavalos? 

         Chamam o veterinário que não faz a mais pequena ideia do que se passa com os cavalos, nunca tinha visto nada assim. 

        Outra vizinha também foi perguntar de onde vinham tantas rosas, e nem acreditou que fosse dos cavalos. 

        De repente, sente-se uma variedade de cheiros horríveis que provocavam náuseas, vinham da lixeira próxima da casa. 

       Os cavalos ficam nervosos, e inquietos com os cheiros, e galopam até à lixeira. Os donos seguem-nos para ver o que iam fazer, e mais uma vez os maus cheiros ficaram abafados pelo delicioso e leve perfume de milhares de rosas que os cavalos largam. 

      Os humanos não podiam estar mais orgulhosos e felizes, mesmo sem saber como é que aqueles seus animais tinham tal poder. 

        Os donos arranjaram mais uma fonte de rendimento, pois aproveitaram as rosas que os cavalos largavam, e venderam-nas na cidade.               Num instante, todos ficaram a saber dos cavalos que largavam rosas, e quiseram conhecê-los, sendo fotografados, para casamentos, revistas e festas. 

        Quando os cheiros da lixeira tomavam conta do ar na aldeia, os cavalos corriam para lá, enchiam o espaço de rosas, e assim melhoravam o ar. 

        Foi assim que os cavalos ganharam o nome dos Cavalos das Rosas. 

E vocês, gostavam de conhecer os cavalos das rosas? 

E se vocês fossem os cavalos das rosas? Por onde andariam? O que veriam? 

Podem deixar as vossas respostas nos comentários 

:) 

                                                                FIM 

                                                            Lara Rocha 

                                                            5/Setembro/2021  

A lenda do mês das espigas







        Era uma vez uma aldeia cheia de campos, onde existia a lenda do dia das espigas. Na realidade nunca ninguém tinha visto acontecer o que a lenda dizia. 

       A lenda nasceu há muitos séculos atrás, e diziam ter começado como forma de prémio dado pela Mãe Natureza, a uma família muito generosa, pobre, mas muito lutadora, trabalhadora, onde não faltavam legumes, vegetais, frescos, grandes, suculentos, e ainda partilhavam com os outros vizinhos. 

           Por tanta dedicação, a Mãe Natureza estava sempre a retribuir, enchendo os campos com todas as culturas, incluindo espigas gigantes, para terem sempre pão. 

          Acontecia durante o mês de Setembro e Outubro, com a chegada da época das vindimas e a entrada do Outono. 

           Nesta aldeia, a lenda também acontecia, mesmo que os habitantes nunca tivessem visto, as espigas juntavam-se, faziam pratos deliciosos para comer, dançavam iluminados com o reflexo da lua cheia gigante, brincavam, corriam livres, soltas, saltavam, tocavam músicas, e cantavam. 

          As espigas entregavam pequenas surpresas a todos os habitantes. Deixavam bolinhos e pãezinhos de milho, fofos e deliciosos às portas e janelas das casas da aldeia. 

        Ofereciam colares de bolinhas douradas pintadas com sol, amarelas e outras cores, pendurando-as nas janelas, principalmente dos quartos das crianças e dos casais, para trazer alegria, saúde e riqueza de alimentos. 

         Além dos mimos de comer, e dos fios, enchiam conchas, búzios e frascos, com bolinhas de milho, brincos embrulhados em folhas verdes, davam milho aos animais das casas. 

        Os habitantes não sabiam quem, nem como apareciam aqueles mimos nas portas e janelas, mas faziam uma grande festa para agradecer à Mãe Natureza, tudo o que ela dava. 

        A Natureza não é uma lenda, é bem real e mesmo muito nossa amiga! Por isso devemos retribuir os presentes que ela nos dá todos os dias! As espigas devemos ser nós. 

Se vocês fossem espigas, o que ofereceriam às casas?  

                                

                                                                    FIM 

                                                                   Lara Rocha 

                                                                    5/Setembro/2021