Histórias infantis, para crianças, adolescentes, e adultos, peças de teatro e monólogos
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segunda-feira, 20 de setembro de 2021
A lenda do sorriso da Lua
domingo, 12 de setembro de 2021
O monstrinho marinho
Era uma vez uma criatura marinha muito estranha, que vivia com a sua família nas ruinas de um barco afundado há muitos séculos. O seu ar era muito assustador, mas tinha um grande coração e na verdade era muito generoso, carinhoso, dedicado.
Como ia muitas vezes à superfície, todos conseguiam avistá-lo, entravam em pânico, gritavam e fugiam, mas quando alguém estava em apuros, era o monstrinho que lhes valia, tirando-os da água, salvava-os e desaparecia.
Os que que eram salvos, contavam que tinha sido um ser estranho, monstruoso, a socorre-los, mas os outros não acreditavam, riam, diziam que tinha sido resultado da água e do medo. Ajudava marinheiros, o que para ele era uma brincadeira divertida. levantar os barcos no alto mar, transportá-los nas suas escamas e lombo, quando as ondas pareciam engolir os barcos e os marinheiros.
Os marinheiros confiavam totalmente nele, e sentiam-se protegidos, além disso, o monstrinho sabia muito bem onde havia o melhor peixe para eles. Era um bom guia, como o farol. Também gostava de fazer festas à luz da lua, e em noites de lua cheia adorava juntar-se a grupos de jovens, dezenas ou centenas, que vestiam de maneira diferente, reuniam-se na praia, com música muito alta e barulhenta, animada, dançavam, cantavam, batiam palmas, bebiam, comiam e brincavam.
O monstrinho acompanhava-os e divertia-se tanto ou mais que eles, dançava na areia e na berma da água, próximo deles, era muitas vezes o centro das atenções, como se estivessem a ver uma atuação de circo ou um espetáculo marinho, cheio de magia e alegria.
Todos o adoravam, aplaudiam, gritavam, acariciavam-no, dançavam com ele, por vezes as suas costas serviam de palco para os que cantavam, e desfilava com eles como um palco flutuante com atuações. Ninguém acreditava porque achavam ser imaginação dos jovens. Apesar de todos quererem conhecê-lo, ele continuava a preferir ficar na sombra, no seu recanto sossegado, e ajudar quem precisava.
FIM
Lara Rocha
11/Setembro/2021
O saquinho surpresa
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Era uma vez um grande campo de cultivo variado, onde sobrevoou um pássaro enorme, de uma espécie rara, e largou um saco grande, no solo, deixou-o aberto e levantou voo.
Logo que pousou no chão, saíram do saco doze coelhinhos de várias cores, que correram pelo campo fora entre as plantações.
Estavam com tanta fome e cheirava-lhes tão bem que comeram algumas cenouras, folhas de nabos, couves, erva, beberam água fresca de uma fonte, e procuraram tocas, que encontraram rapidamente em casotas feitas de palha.
Dormiram até ao dia seguinte. e quando os agricultores chegaram nem queriam acreditar no que estavam a ver.
Parecia que o campo tinha sido invadido por centenas de toupeiras esfomeadas. De repente veem na terra seca e húmida, marcas de patas de coelho, por todo o lado, e o saco enorme.
Como é que aquele saco foi lá parar? E onde estava, os coelhos? Correram todo o campo, e encontraram os coelhinhos nas tocas.
Apesar de estarem muito zangados com a destruição que os coelhos provocaram, ficaram enternecidos com eles, e sentiram pena deles. Quando os coelhos os viram ficaram assustados e tremiam de medo, mas os humanos foram muito queridos com os animais. Acariciaram-nos e levaram-nos ao colo para sua casa.
Deixaram-nos ao ar livre e à noite recolheram-nos para os proteger do frio, dos animais selvagens onde já estavam outros coelhos e com quem construíram uma grande família.
Livraram-se de ser vendidos ou cozinhados, e viveram num lugar seguro, onde eram alimentados e acarinhados.
Afinal o saco perdeu o mistério...era um saco surpresa com coelhinhos, largados por uma ave para os proteger.
E vocês? Se encontrassem um saco misterioso, o que teria? Podem deixar as respostas nos comentários.
FIM
Lara Rocha
11/Setembro/2021
terça-feira, 7 de setembro de 2021
Os cavalos das rosas
Era uma vez uma grande quinta onde viviam várias famílias de pessoas e animais, entre eles cavalos.
Mas estes cavalos que pareciam iguais aos outros, não eram. Tinham um poder especial, totalmente desconhecido dos seus donos, dos outros animais e dos próprios cavalos.
Numa noite de tempestade com tudo incluído: chuvadas, vento forte e trovoadas assustadoras, os animais estavam com tanto medo quanto as pessoas, e corriam de um lado para o outro, à procura de abrigo, pois tinham andado a pastar num outro terreno ao lado, e os donos não tiveram tempo de os recolher porque a tempestade começou de repente.
Os cavalos desatam a correr, e dos seus pelos começam a sair rosas de várias cores, umas em botão, outras mais abertas, nem perceberam o que estava a acontecer. Os animais ficaram boquiabertos, parados a olhar para os cavalos e para o chão, a ver tanta rosa.
Pelo caminho de regresso à corte, enchem o chão de rosas, e os humanos que estavam a ver a tempestade da janela, dentro de casa viram as rosas a sair do pelo dos cavalos.
- Que coisa estranha!
- O que há?
- Está qualquer coisa a cair do pelo dos cavalos.
- É água.
- Não. É outra coisa!
- Estás a imaginar, só pode. É normal que seja água, eles andaram à chuva.
Quando a tempestade parou, foram investigar para tirar as dúvidas e ver quem tinha razão. A senhora tinha razão, o caminho estava cheio de rosas de todas as cores que os cavalos largaram dos seus pelos.
- Vês, como eu tinha razão?
- Eu também tinha razão, olha tanta água.
- Está bem, tem muita água, mas como explicas tantas rosas?
- Não sei. Podem ter caído das roseiras, ou levadas pelo vento, ou vieram agarradas às patas.
No estábulo, o pelo dos cavalos está seco, mas à volta das patas, no chão, cheio de rosas.
- Como pode ser?
- Mas o que se passa com estes cavalos?
Chamam o veterinário que não faz a mais pequena ideia do que se passa com os cavalos, nunca tinha visto nada assim.
Outra vizinha também foi perguntar de onde vinham tantas rosas, e nem acreditou que fosse dos cavalos.
De repente, sente-se uma variedade de cheiros horríveis que provocavam náuseas, vinham da lixeira próxima da casa.
Os cavalos ficam nervosos, e inquietos com os cheiros, e galopam até à lixeira. Os donos seguem-nos para ver o que iam fazer, e mais uma vez os maus cheiros ficaram abafados pelo delicioso e leve perfume de milhares de rosas que os cavalos largam.
Os humanos não podiam estar mais orgulhosos e felizes, mesmo sem saber como é que aqueles seus animais tinham tal poder.
Os donos arranjaram mais uma fonte de rendimento, pois aproveitaram as rosas que os cavalos largavam, e venderam-nas na cidade. Num instante, todos ficaram a saber dos cavalos que largavam rosas, e quiseram conhecê-los, sendo fotografados, para casamentos, revistas e festas.
Quando os cheiros da lixeira tomavam conta do ar na aldeia, os cavalos corriam para lá, enchiam o espaço de rosas, e assim melhoravam o ar.
Foi assim que os cavalos ganharam o nome dos Cavalos das Rosas.
E vocês, gostavam de conhecer os cavalos das rosas?
E se vocês fossem os cavalos das rosas? Por onde andariam? O que veriam?
Podem deixar as vossas respostas nos comentários
:)
FIM
Lara Rocha
5/Setembro/2021
A lenda do mês das espigas
A lenda nasceu há muitos séculos atrás, e diziam ter começado como forma de prémio dado pela Mãe Natureza, a uma família muito generosa, pobre, mas muito lutadora, trabalhadora, onde não faltavam legumes, vegetais, frescos, grandes, suculentos, e ainda partilhavam com os outros vizinhos.
Por tanta dedicação, a Mãe Natureza estava sempre a retribuir, enchendo os campos com todas as culturas, incluindo espigas gigantes, para terem sempre pão.
Acontecia durante o mês de Setembro e Outubro, com a chegada da época das vindimas e a entrada do Outono.
Nesta aldeia, a lenda também acontecia, mesmo que os habitantes nunca tivessem visto, as espigas juntavam-se, faziam pratos deliciosos para comer, dançavam iluminados com o reflexo da lua cheia gigante, brincavam, corriam livres, soltas, saltavam, tocavam músicas, e cantavam.
As espigas entregavam pequenas surpresas a todos os habitantes. Deixavam bolinhos e pãezinhos de milho, fofos e deliciosos às portas e janelas das casas da aldeia.
Ofereciam colares de bolinhas douradas pintadas com sol, amarelas e outras cores, pendurando-as nas janelas, principalmente dos quartos das crianças e dos casais, para trazer alegria, saúde e riqueza de alimentos.
Além dos mimos de comer, e dos fios, enchiam conchas, búzios e frascos, com bolinhas de milho, brincos embrulhados em folhas verdes, davam milho aos animais das casas.
Os habitantes não sabiam quem, nem como apareciam aqueles mimos nas portas e janelas, mas faziam uma grande festa para agradecer à Mãe Natureza, tudo o que ela dava.
A Natureza não é uma lenda, é bem real e mesmo muito nossa amiga! Por isso devemos retribuir os presentes que ela nos dá todos os dias! As espigas devemos ser nós.
Se vocês fossem espigas, o que ofereceriam às casas?
FIM
Lara Rocha
5/Setembro/2021
Os girassóis voadores
prato pintado e craquelado por Lara Rocha
Era uma vez um jardim abandonado, com heras gigantes, que pareciam chicotes dançarinos ao vento. Parecia impossível existir vida debaixo daquela sombra toda, mas...surpresa! Sim, debaixo de tanta erva viviam girassóis, uns em sementes, outros já em flor.
Um dia cansaram de tanta escuridão, queriam ver como era o mundo por cima deles, onde viam claridade e não sabiam que era o sol. Como era uma vontade comum, saíram da terra, e pediram ao vento que os tirasse de lá.
O vento que já tinha pensado muitas vezes em convidá-los para sair daquele sítio, mas não quis ser atrevido, respondeu rapidamente ao pedido. Um vendaval tirou todos os girassóis, dezenas deles, do solo sombrio para a superfície.
Os girassóis estavam tão felizes que brilhavam, as suas pétalas e os centros pareciam acabados de regar. Tudo era novo para eles! Pairaram um pouco, enquanto olhavam em volta, reparando em cada pormenor, perguntaram ao vento tudo o que queriam saber.
O vento disse o nome de tudo o que estava à volta deles, eles soltavam grandes exclamações de espanto e de encanto. Voaram por cima de campos muito verdes, rodaram várias vezes, sentiam-se tão leves, quentes, com o sol que tornava a paisagem ainda mais bonita e mágica.
Reparam nos jogos de luz e sombra, nas cores vivas e outras mais escuras, mas tudo era realmente especial. Soltaram risinhos sem motivo aparente, dançaram com outras flores de diferentes espécies, cores e tamanhos, que as receberam de forma tão simpática, levaram-nas a passear e mostraram outras belezas dos espaços.
Continuaram a rodar e a voar, por cima de fontes onde molharam o pé para provar a água, refrescar-se e beber. Ao passar por cima das casas apanharam um grande susto...os cães desataram todos a ladrar ao mesmo tempo, a saltar tentando abocanhá-los.
Os girassóis correram, e o vento ri à gargalhada. Mais à frente, uma senhora com muita idade, solitária, estava à janela da sua casa e pensou que estava a imaginar coisas, ao ver os girassóis a voar. Uma família de 12 girassóis percebeu que a senhora estava sozinha, e parou na beirada da sua janela.
A senhora que parecia estar triste, abriu um sorriso luminoso, parecia uma galáxia numa noite cheia de estelas. Acariciou as suas pétalas, e os girassóis ficaram a conversar com ela. Quiseram fazer-lhe companhia, por isso, e porque gostaram tanto do seu sorriso, deixaram-se ficar numa jarra em casa, com a promessa de que no dia a seguir, a senhora os levaria para o jardim, para terem mais luz e mais espaço, e assim fizeram.
Mais à frente, uma criança pequenina brincava com a sua mãe no jardim, a mãe ficou encantada com os girassóis a voar, puxou um que desceu mais próximo, e mostrou ao pequenino que não sabia o que era. O bebé abriu um grande sorriso, tão bonito como os girassóis.
Depois de brincar com a criança, esse girassol voou outra vez para junto dos outros. Várias dezenas deles, voaram por cima de uma praia, onde não estava ninguém. Pousaram na areia branca e limpa, caminharam pela praia, sentindo a temperatura da areia, molhando o pé na água do mar, e voando por cima da água, embalados, quase parados, lentamente pelo som das ondas.
Mas o passeio não foi sempre tão especial como até aqui para os girassóis. Foram ter à cidade, ficaram tão nervosos com tanto barulho, irritados e mal dispostos com a poluição, o fumo, as buzinas dos carros, os gritos, carros e mais carros a passar a grande velocidade, gente por todo o lado.
Desorientaram-se. chocaram uns contra os outros, só queriam sair dali e não sabiam como, engancharam os pés uns nos outros, nervosos, a empurrarem-se e a gritar. O vento compreendeu e percebeu a aflição dos girassóis, e numa grande rajada tirou-os de lá, levando-os de volta para um campo ao lado do que estava abandonado.
Este campo estava tratado, as heras deixavam entrar a luz, a erva estava bem aparada, fresca, verdejante, era macia, e a terra macia, com uma temperatura muito agradável. Recuperaram o fôlego, descansaram. respiraram ar puro, e de noite, com a Lua Cheia gigante, que iluminava o espaço, voltaram ao sítio onde viviam para ir buscar as sementinhas de girassóis que sabiam que ainda lá estavam, e levaram-nas cuidadosamente para o novo espaço.
Os donos do campo novo, cuidaram dos girassóis, com todo o carinho, que rapidamente as sementes abriram e mostraram lindos girassóis como os outros. De vez em quando iam outra vez voar, encantando quem os via, não voltaram à cidade; preferiram sempre os ambientes naturais.
Estes foram os passeios dos girassóis voadores.
E vocês?
Gostavam de ser girassóis voadores?
Se fossem girassóis voadores, o que fariam? Por onde iriam? O que veriam?
Podem deixar as vossas respostas nos comentários (Crianças e adultos)
:)
FIM
Lara Rocha
5/Setembro/2021
sábado, 21 de agosto de 2021
O unicórnio com raiva
Era uma vez um unicórnio que vivia num lugar secreto da terra, juntamente com outros unicórnios, quase todos generosos, bonitos, simpáticos, divertidos.
Quase todos porque alguns eram focinhudos, pesados, resmungões, sempre de mau humor, irritados. Esses ficavam muito tempo sozinhos porque os outros não gostavam da sua companhia.
Um dia, um dos unicórnios zangados foi passear. Ficou completamente fora dele quando viu terrenos totalmente verdes, cheios de árvores e flores, lagos.
Ele odiava verde, e tudo o que fosse bonito. Como estava irritado, começou aos gritos, parecia uma trovoada com tanta raiva, a sacudir-se todo e a dar coices no ar.
Usou os seus poderes e lançou sobre os terrenos, folhas de árvores secas, castanhas, beges, amarelas, vermelhas, roxas.
Era uma chuva de folhas, no outro terreno verde, depois de outro ataque de raiva por estar tudo verde, despejou toneladas de castanhas, nozes, ouriços e uvas.
No outro ao lado, igualmente verde, abanou as árvores com tanta força que as folhas caíram todas, e ainda correu de forma selvagem, saltou, relinchou, gritou, pisou as folhas todas e riu à gargalhada, voltou para a sua casa mais aliviado, orgulhoso e satisfeito com o que tinha feito e visto.
O vento nem queria acreditar no que estava a ver...ele conhecia o unicórnio irritada, e sabia que aquela confusão toda tinha pata dele. Como não era Outono, ainda faltava um mês, e estava calor, não podia haver folhas secas no chão, aliás essa era a tarefa do vento, e não do unicórnio.
Num valente sopro, juntou todas as folhas em cada campo, numa carcaça de uma árvore muito velha, guardou as castanhas, as nozes, os ouriços e as uvas num celeiro, até que fosse altura própria.
O unicórnio ficou completamente histérico ao ver que o vento tinha arrumado tudo, e os dois tem uma conversa quando se encontram:
- Ei, óh ventolo, de quem foi a ideia de arrumar a obra maravilhosa que eu fiz? - pergunta o unicórnio
- Ei, óh unicórnio desmiolado, foi minha, porquê?
- Porque não tinhas nada que fazer isso.
- Como não tinha nada que fazer isso? Ainda não é altura de estes mimos aparecerem!
- Como não é altura? Eu quero lá saber da altura ou do abaixo, quero é libertar a minha raiva!
- E achas bem as pessoas terem de aguentar a tua raiva?
- Acho maravilhoso.
- Estes produtos são do Outono, não são do Verão. Ainda estamos no Verão.
- Não conheço esses.
- Como não conheces?
- Não sei de quem estás a falar.
- Sabes sim senhora.
- Não sei.
- Então porque é que atiraste estes produtos? As folhas secas, destas cores, atiraste ouriços, castanhas, uvas, nozes...
- Ora, porque foi o que me saiu com...a minha raiva. Expulsei-a de mim, dessa maneira.
- Raiva, raiva...só falas em raiva. Não sei qual é o teu problema.
- Odeio coisas verdes.
- E o que tens a ver com isso? Não gostas da cor verde, olhas para outras. Não tens de atirar com essas coisas, só porque estás de mal com a vida.
Faz-se silêncio.
- Tu...odeias-me não é? Como todos? - pergunta o unicórnio triste
- Não, não posso dizer que te odeio ou que gosto de ti, porque de ti só conheço as asneiras que fazes. Mas acredito que até és um bom animal. Porque dizes isso?
- Porque...na minha terra toda a gente me odeia, só porque sou mais explosivo.
- Sorri. - sugere o vento
- Faço o quê?
- Sorri!
- Não sei o que é isso...
- Não sabes sorrir?
- Não.
- Olha para mim...
O vento sorri, e solta uma leve brisa. O unicórnio fica boquiaberto, de surpreso e ao mesmo tempo encantado.
- Óh, posso dizer-te uma coisa…- pede o unicórnio
- Claro que sim!
- Não sei o que fizeste, mas...achei bonito!
O vento abre um grande sorriso.
- Boa! Fizeste-me sorrir, obrigado.
- Isso é que é sorrir?
- Sim. Tu não sabes sorrir?
- Não.
- Nem sabes o que é um sorriso, e como ele faz bem?
- Não.
- Anda comigo...
- Ui...o que me vais fazer? Já sei, vais dar-me uma tareia...
- Nada disso!
O vento dirige o Unicórnio para um lago de águas congeladas, onde se consegue ver a imagem dos rostos, e do que passar por lá, como se fosse um espelho.
- Vais afogar-me?
- Não. Claro que não. - o vento dá uma gargalhada, levantando-se uma ventania passageira à volta deles
- Que barulho foi esse? - pergunta o unicórnio assustado
- Foi uma boa gargalhada que dei, pelo que tu disseste.
- A sério...? E o que faço agora?
- Agora...olha para ali. Vês este?
- Sim.
- Sou eu, e ao meu lado...aqui...estás tu.
O Unicórnio olha para a sua imagem, em silêncio.
- Sou eu?
- Sim.
- O que vês?
- Ele está...com raiva a olhar para mim.
- Com raiva? Achas que sim?
- Acho que sim, eu estou sempre com raiva, por isso, se ele sou eu, está com raiva.
- Não. Ele está a sorrir para ti.
- A sorrir?
- Exatamente.
- Mas...como...?
- Porque também sabes sorrir.
- Não.
- Sabes sim, se ele está a sorrir tu também sabes sorrir, só nunca viste o teu sorriso, porque estás sempre com raiva, e quando estamos com raiva, não sorrimos.
- Há mais gente a ficar com raiva?
- Há. Todos com quem te cruzas sentem raiva, eu incluído, mas não a liberto em cima dos outros, a fazer asneiras como tu, e muitas outras pessoas.
- Há mais pessoas a fazer asneiras com raiva?
- Sim, e graves. Mas gostas da imagem a sorrir? Olha para ti...este és tu com raiva, e este és tu a sorrir. Qual gostas mais?
O Unicórnio pensa durante alguns minutos, em silêncio, olhando para uma e para outra imagem. Gosto...desta!
- A que estás a sorrir.
- Isso, o que é diferente de mim.
- Experimenta imitá-lo.
O Unicórnio já ia explodir de raiva, mas o vento grita-lhe:
- Parou...imita o que gostaste. Não é esse, é o outro, o que está a sorrir
O vento ensina-o a sorrir, a controlar a raiva, respirando, diz-lhe para quando sentir raiva respirar corretamente, contar mentalmente até 10, desviar-se do lugar ou das pessoas que ele diz provocarem-lhe raiva, saltar, gritar, correr num sítio onde não estivesse ninguém, ver outras coisas, e formas de a descarregar sem fazer asneiras.
Explicou-lhe que todos sentem raiva muitas vezes, mas é melhor não descarregar em cima das outras pessoas porque pode magoar-se, e magoar os outros, sem terem responsabilidade sobre isso.
Ensinou-lhe que nem tudo corre como esperamos, não gostamos de tudo o que nos acontece, nem de todas as pessoas, mas por causa disso, não somos obrigados a estar com elas, mas podemos ser educados com elas, e não precisamos de falar com elas.
Existem muitas outras coisas para ver, para fazer, e muitas pessoas que gostam de nós, como nós gostamos delas, e não gostamos de outras, mas damos-lhes espaço. Não precisamos de fazer guerra por causa disso.
Ainda conversam mais um bom bocado, enquanto o vento mostra coisas bonitas para o Unicórnio ver quando estiver com raiva.
O unicórnio aprendeu boas maneiras com o vento, e no seu meio, todos ficaram muito surpresos com a sua mudança: sorridente, delicado, ajudava os outros, elogiava, e quando sentia raiva, aplicava tudo o que o vento lhe ensinou, sem se magoar, e sem magoar os outros.
No dia em que o Outono começou, o vento convidou o amigo unicórnio para o ajudar a pintar os espaços com as cores Outonais.
O unicórnio não cabia em si de orgulho e vaidade, os dois decoram os campos com as folhas, as uvas, as castanhas, as nozes, os ouriços, brincam um com o outro, rebolam, esfregam-se em cima das folhas, saltam, riem, conversam alegremente, atiram folhas um ao outro com muita gargalhada.
O unicórnio nunca mais foi o mesmo, graças ao amigo vento, com quem dava longos passeios, onde via coisas que ele nunca imaginou que existissem, tão bonitas que não via por causa de sentir raiva. Até convidava outros unicórnios para passear, e divertirem-se.
FIM
Lara Rocha
(21/Agosto/2021)
Atividade de reflexão e debate sobre a emoção da raiva.
Acham que a ideia do vento foi boa?
Acham que o unicórnio estava certo, ao fazer asneiras só porque sentia raiva, e estava sempre mal humorado, zangado?
E vocês: o que diziam ao unicórnio se o vissem a fazer as asneiras, só porque estava com raiva?
E vocês? O que fazem quando sentem raiva?
Já viram outras pessoas com raiva? A fazer asneiras?
O que é que vocês fizeram?
Sugestões:
- atividade de expressão facial de raiva
- atividade de mímica da emoção da raiva
- desenho da raiva






