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sábado, 10 de março de 2018

AS FLORES DO JARDIM DOS ABRAÇOS



           Era uma vez um jardim cheio de flores de variadas espécies, todas lindas, grandes, vistosas, com cores encantadoras. Foram todas plantadas por uma civilização de um povo índio, que vivia numa floresta longe da civilização.
         Contam que um dia, cada índio dessa tribo encontrou à sua porta um saquinho de sementes que não sabiam o que eram, nem quem as tinha deixado lá. Pensavam que talvez fosse algum presente de um antepassado.
           Mesmo não sabendo o que iria nascer dali, nem de onde vinham, plantaram-nas com muito carinho. Quando as sementes cresceram, perceberam que iam ser flores. Rapidamente elas começaram a crescer e a mostrar toda a sua beleza de cores nas pétalas.
          Além das maravilhosas belezas que mostravam, estas flores poucos dias depois de estarem enormes, começaram a mexer-se, no sítio onde estavam, mas pareciam dançar sem música.
          Primeiro, os índios não queriam acreditar no que estavam a ver. Discutiram entre eles e pensavam que estavam a ver coisas que não existiam…seria um efeito hipnótico da beleza das flores.
        Depois, voltaram a olhar para o jardim e elas continuavam a mexer-se, os índios acharam tão divertido, mesmo pensando que estavam a imaginar, e mexeram-se com elas, seguiram o seu ritmo e repetiram os seus movimentos. A esses movimentos juntaram as danças deles, e as flores repetiam-nos.
       Os índios ficaram assustados. Que espécie de flores tão estranhas, dançavam e repetiam as danças humanas. Nunca tinham visto nada assim, nem tinham visto tudo, porque além de dançarem, as flores ainda trocavam abraços entre elas, coisa que os índios não faziam.
        Quando as flores se abraçavam, ouviam-se risinhos. Os índios repetiram entre eles, mesmo sem saber que eram abraços. Primeiro copiaram a medo, quase não encostaram os corpos, encostavam-se e fugiam; com olhares desconfiados e tremores, gritinhos, benziam-se assustados.
         Mas ao ver que as flores ficavam com as suas cores mais brilhantes e vistosas, riam, e pareciam mesmo gostar, os índios tentaram outra vez, e sentiram que podia ser bom. Mesmo assim, ainda abraçavam superficialmente.
       As flores continuaram a abraçar-se, e os índios repetiam, até que perceberam que afinal era bom, e gostavam tanto que começaram a dar abraços mais longos, mais carinhosos, e sentiam-se felizes, com uma energia melhor e mais bonitos, com sorrisos mais abertos.
         As flores tinham uma mensagem e uma missão muito importante, que era ensinar os índios a abraçar, e não sabiam, mas elas foram enviadas por antepassados. Quando perceberam que os abraços aprendidos com as flores eram tão bons, tão confortáveis e cheios de coisas boas, estes passaram a fazer parte do seu dia-a-dia, das suas tarefas, muitas vezes por dia, sempre que se encontravam, tal como o dançar com as flores.
            Esta é a lenda das flores do jardim dos abraços.

FIM
Lálá
10/Março/2018

sexta-feira, 9 de março de 2018

O CAVALO SOBRE AS ONDAS




        

    Era uma vez um lindo cavalo com asas que vivia numa aldeia de nuvens, com a sua enorme família, onde tinha tudo. Ele sentia-se feliz na sua aldeia, mas às vezes gostava de sair e ir para a praia, que ficava por baixo. Para lá chegar tinha de atravessar apenas um fofo, claro e macio caminho de nuvens.
        Não se via todos os dias, aliás, ele fazia de tudo para ir à praia sem ser visto. Quem estava na praia de dia, às vezes viam-no, mas pensavam que eram nuvens juntas a formar a imagem de um cavalo. Outras vezes, aparecia de noite, quando a lua era tão grande e luminosa que quase parecia mergulhar.
        Quando ia de noite, cavalgava sobre as ondas pequeninas que cresciam com o pisar das suas patas. De dia, cavalgava longe da costa, e só refrescava as suas asas, algo que adorava fazer.
        Um dia, de noite, com a lua enorme e luminosa, lá foi ele…atravessou o caminho e cavalgou por cima das ondas grandes até quase à areia, a sentir a aragem agitar-lhe suavemente as crinas. Tinha muita vontade de conhecer a areia, saber o que se sentia nas patas, se era macia ou áspera, quente ou fria, ou se tinha cheiro.
         Deu mais uns passinhos e olhou para trás.
- Áh…a paisagem que se vê daqui é muito diferente! Nunca tinha visto. Que linda lua! Como o mar é mesmo interminável…já parecia não ter fim, mas daqui é muito maior. E a brisa…também é mais fresca, aqui. Ali não sinto tanto, ou é mais leve. E a areia...?
        Finalmente pôs as suas patinhas na areia, primeiro a medo, tocou um bocadinho e tirou rapidamente. Voltou a tocar, e a recuar outra vez. Até que decidiu pousar totalmente as patas na areia molhada, mas não sabia que se chamava assim.
- Áh…é…macia e fria. Mas acho que está molhada, parece…grossa…é parecida com lama.
        Caminha mais para cima, na areia seca, ao longo da praia, sempre atento a tudo o que sentia.
- Agora a areia está mais quente, é mais fina, e parece que está…seca. É diferente. A brisa também é mais forte. Tanto espaço…tanta areia. Então é aqui que as pessoas se deitam, ou será ali? Se calhar é nos dois sítios, quando há sol. É muito agradável.
        Estava encantado com aquela experiência, mas ainda queria saber mais. Decidiu sentir a areia com o corpo todo, estendeu as patas, sentou-se, mexeu-se livremente, e gostou tanto que se esfregou totalmente, rebolou na areia, às gargalhadas, esfrega com as patas, levanta a areia:
- Faz cócegas…que maravilha! É mesmo macia. Áh, áh, áh…
        Sacode-se, para e olha para a paisagem à sua frente.
- Uau! Isto é lindo!
        Fecha os olhos, inspira, expira, e sente o cheiro a maresia:
- Áh…que cheiro é este…? Vem dali…é…do mar? Hum, que agradável.
      Fecha os olhos outra vez, sente o cheiro a maresia, a aragem suave a mexer nas suas crinas, e o som do mar suave, ao longe, pareciam sussurros. Abre os olhos, vê a lua gigante e sorri.
- Que linda que está a lua. Adoro esta paisagem, a aragem, este som.
        O vento sopra mais forte, e assobia entre as folhas das palmeiras:
- Quem está aí?
        Olha em volta e não vê ninguém, mas ouve outra vez o som:
- Áh…é o vento! Gosto deste som!
        O cavalo levanta-se, e cavalga mais um pouco por aquele espaço.
- Maravilhoso! Obrigado, Natureza, por este sítio, por tudo o que há aqui. Adoro o sítio onde vivo, mas aqui também parece um lugar de sonho. Vou voltar para a minha aldeia…mas vou voltar aqui outro dia!
        Regressa ao mar, cavalga pelas ondas sem pressa, para e volta a olhar para trás. Cavalga mais um pouco e regressa a casa, quase hipnotizado com tanta beleza.
Conta à família, e vão todos à praia. O mar ganha ondas enormes, com tantos cavalos a cavalgar, dirigem-se para a areia, e experimentam o mesmo que o cavalo. Ficam tão felizes, e gostam tanto daquele sítio, daquelas sensações que fazem uma festa e divertem-se até ao nascer do sol, que também ficam a ver da praia, e só de manhã regressam para a sua casa.
                              
FIM
                                          Lálá
                                   9/Março/2018

quarta-feira, 7 de março de 2018

Os quadros atrás das portas

   

        Era uma vez uma menina que entrou numa casa onde havia muitas portas. Pelo corredor ouviam-se vários sons, e cheiros diferentes. A menina quis saber onde levavam aquelas portas, mas como eram misteriosas, pediu a presença do seu anjo da guarda, que apareceu de imediato.
- Olá! Obrigada por teres vindo. Quero abrir estas portas...por favor, protege-me...
- Combinado. - Diz o anjinho
            A cada porta que abria, perguntava ao seu anjinho se podia abrir sem perigo. O anjinho confirmava que sim. A primeira porta, tinha um lindo quadro pintado por alguém, com uma imagem de uma bailarina numa paisagem montanhosa.
- Quem pintou este quadro...? Que lindo!
            Apreciou o quadro. Abriu a segunda porta, e tinha uma janela, que tentou abrir, mas não conseguiu. Da janela via-se um jardim com cores de Outono.
- Parece ser outro quadro, mas a janela parece mesmo verdadeira, e vê-se que tem um jardim com cores de Outono.
            A outra porta mostrava uma praia paradisíaca, mas a menina não podia entrar, nem ouvia o barulho do mar ou do vento.
- Óh. É outro quadro, que parece uma praia paradisíaca. Porque é que eu não posso entrar? Esta paisagem é tão bonita.
- Mas é um quadro! - Relembra o anjinho
- Pois.
           Na porta ao lado, ouviu gritos, tiros, explosões, choros. Ficou assustada. O anjinho recomendou-lhe:
- Não abras essa porta! É a porta da guerra, é assustadora e feia!
- A porta da guerra? Consegues ver daí?
- Consigo, por isso é que te estou a dizer.
- Vocês não vão para esses países em Guerra? Há tanta gente a sofrer.
- Não! Bem gostaríamos, mas não nos deixam entrar.
- Mas é uma guerra mesmo, ou é uma pintura sobre guerra? Eu estou a ouvir gritos, choros, tiros, explosões...
- É um quadro sobre a guerra, mas é muito realista e feio.
- Se é um quadro como é que eu consigo ouvir?
- Tem uma gravação de sons, para causar impressões nas pessoas que o vêem e saber do que se trata.
- Áh! Então não é real.
- Não. Aqui não é real, mas infelizmente é real em muitos países do Mundo.
- E porque é que eu não posso abrir? Se é uma pintura, não é perigoso.
- Certo, se quiseres abre, mas as imagens são muito feias, acho que não devias ver.
- Está bem! Então não vejo. As que vejo na televisão sobre a guerra são horríveis, e assustadoras, às vezes também não me deixam ver.
- Pois não, e fazem muito bem, porque as imagens são mesmo muito feias e más.
- E a do lado, posso abrir?
- Podes.
            Ela abre a porta do lado e ouve sons de passarinhos.
- Pássaros na gaiola! Que lindos...têm umas penas que dá gosto. Áh...afinal não são reais... são...pintados, mas eu estou a ouvi-los.
- Sim, tem uma gravação com o chilrear deles, para quem vê a pintura sentá-la de forma mais especial.
- Que bonito que é ouvi-los...e aquelas cores das penas. A natureza é mesmo perfeita!
- É.
           Abre as portas seguintes: uma tem uma pintura com coelhos espalhados a correr por um campo de erva alta, outros coelhos parecem estar escondidos atrás de árvores porque só se vê parte da cabeça, com orelhas, ou o rabinho. No outro quadro está pintado uma menina entre cerejeiras, com um cesto cheio de lindas cerejas e algumas no chão. Na porta ao lado, estava pintada uma montanha coberta de neve, com uns raios de sol entre as árvores. A outra mostrava um lago com patos em fila, atrás da mãe, e uma paisagem à volta muito verde. Outro tinha pintado uma gruta com um ribeirinho de água, gelo, e cristais. A outra mostrava a fotografia de uma família enorme e feliz, com uma noiva. Na outra tinha nuvens com formas engraçadas, a outra mostrava dunas de um deserto, e cactos, na outra apareciam grandes águias, umas em voo, outras pousadas em terra. Ainda viu uma casa de campo, com pessoas que pareciam quase reais, animais da quinta que pareciam sair da tela. Noutra viu um céu estrelado à noite, e noutra uma tela em branco, com pincéis, lápis de cor, e de cera, tintas.
- Porque será que esta tela está em branco, e tem aqui material de pintura?
- Não sei, talvez seja de quem pintou as outras todas, e ficou sem ideias, não pintou mais.
             Entrou o pintor, sorridente e diz:
- Olá pequena. Viste as minhas pinturas?
- Olá. Sim...desculpe ter entrado assim.
- Ninguém disse que não podias ter entrado, aliás, a porta principal está sempre aberta para quem quiser apreciar o que quero dizer ao Mundo, e a quem vê.
- Gostei muito dos seus quadros. Parecem muito reais... e aqueles com sons, ainda mais. O seu quadro da guerra não vi. As imagens da guerra são muito feias, tristes, e assustadoras! E aqueles sons...não quis ver.
- Tens toda a razão. As imagens que lá tenho não são bonitas...são de muita tristeza, dor, e revolta! Não gosto de guerra, nem eles gostam, mas pintei para me libertar desses sentimentos. Às vezes alguns de nós precisamos de ver essas imagens horríveis para pensarmos, e deixarmos de ser tão exigentes, estamos sempre a dizer mal e a reclamar de tudo, mas se virmos estas imagens e outras, onde há crianças e bebés com fome, pensamos duas vezes antes de sermos ingratos! Temos tudo, temos paz, e ainda assim, queremos sempre mais. Temos tudo o que os dessa imagem e das outras pagariam milhões para ter, casas...as suas que foram destruídas, sonhos que ficaram subterrados com as crianças que ficaram lá debaixo. Saúde, brinquedos, comida, roupa...nós temos casa, conforto, luz, roupa, comida, brinquedos, não temos guerra nem bombas a cair sobre as nossas cabeças, temos água, que eles não têm, temos ar, que eles têm mas poluído. Não temos do que reclamar, mas reclamamos porque nos falta sempre algo material que achamos que é imprescindível ter, às vezes só porque o outro tem. Não é?  Não temos de fugir, as nossas crianças têm mesas, cadeiras, computadores, livros, mas outros não têm nada, e mesmo assim são educados, interessados, aprendem e são felizes com o pouco, muito pouco, quase nada que têm.
- É verdade! Que lindo pensamento! - Diz o anjinho com as lágrimas nos olhos
- Sim, pois é, nunca tinha pensado nisso.
- Os que menos têm, são os que mais agradecem, e reconhecem! - Acrescenta o pintor
- Pois é! Já ouvi dizer que sim. E para que é aquela tela branca com os materiais? Ficou sem ideias?
- Podes pintar tu!
- A sério?
- Sim.
- Mas, eu não sei pintar!
- Claro que sabes. Todos sabemos.
- Acha?
- Tenho a certeza, e não tem de ficar perfeito. Se ficar perfeito deixa de ser natural.
- Mas os seus estão perfeitos, e parecem naturais.
- Obrigada, mas não, não estão perfeitos...eu não quero que fiquem perfeitos. Experimenta!
- Ahhh...acho que não vou conseguir...e se estrago a sua tela?
- Não faz mal. Tenta! É claro que vais conseguir.
              A menina pega numa cor e desenha um círculo, uma lágrima e mais círculos pequeninos. Depois diz:
- Não está bem... mas sabe o que quer dizer? Quer dizer...o círculo de fora é o nosso mundo, que está a chorar, e quer um abraço!
- Quer um abraço de paz, para secar as lágrimas, não é? - pergunta o pintor a sorrir
- Sim!
- Está maravilhoso. Deixa-o aí, por favor, e escreve essa interpretação!
- Onde?
- Aí em baixo... é tão bonita essa mensagem! Quero que todos vejam.
- Obrigada! Também podia pôr a sua... - Sugere a menina
- Já pensei nisso, mas quero dar liberdade às pessoas que vêem os meus trabalhos para pensarem o que quiserem...eu posso pensar isso, mas elas podem pensar diferente!
             A menina escreve a sua interpretação na tela, o seu anjinho da guarda sorri orgulhoso e rendido às mensagens que ouviu do pintor e da menina.
- O senhor é uma alma de luz! - Diz a menina
- Obrigado, filha... sou apenas um ser humano! Como tu, e os meus filhos.
- Tem filhos?
- Sim, sou casado, e tenho 6 filhos. Felizmente, todos eles bem educados, generosos...
- Almas de luz! - Acrescenta a menina
- Isso! - Sorri o pintor
- Eles também pintam?
- Alguma coisa...
- Porque não põe aqui os quadros deles?
- Eles não pintam quadros, mas qualquer dia, ponho-os a pintar quadros.
- Bem, vou deixá-lo pintar. Parabéns pelos seus quadros, e continue! Áh...e muito obrigada pelo que me ensinou hoje! Não me vou esquecer da sua mensagem.
- Obrigado, serás sempre muito bem-vinda, sempre que quiseres! - Diz o pintor
- Obrigada. Até já.
- Até já.
             A menina sai com o seu anjinho, e reescreve a mensagem que o pintor lhe transmitiu, num bloco que anda sempre com ela. O anjinho confirma que foi tudo aquilo que ela escreveu.
            E vocês, que portas abririam? O que teria em cada uma delas?

                                                                   FIM
                                                                   Lálá  
                                                               7/Março/2018
             

terça-feira, 6 de março de 2018

Os miminhos do sol

            

fotos de Lara Rocha 

Era uma vez um jardim de uma casa que nunca apanhava sol, mas tinha flores como as tulipas, as mimosas e os girassóis que abrem de dia, à medida que o sol lhes aparece e desaparece. Como o sol não aparecia nessa parte do jardim, as flores estavam murchas, de tanta tristeza, com as pétalas fechadas, outras meias fechadas, secas, sonolentas, fracas e friorentas.
            Quando viam o sol, faziam de tudo, com a pouca força que ainda lhes restava, para chamar a atenção do sol, mas este não as ouvia, nem via. Mesmo assim, elas não perderam a esperança de um dia o sol as ouvir. Uma noite, decidiram unir-se, juntaram as suas pétalas para se aquecerem, e uma tulipa sugere:
- Amigas, e que tal se pedirmos todas juntas, já que estamos assim com as pétalas tão perto umas das outras para nos aquecermos, um desejo?
- O quê? - Perguntam todas
- Estás a sonhar não? - Pergunta outra tulipa desconfiada
- Não, estou com tanto frio que nem consigo pensar em dormir. O que eu sugiro é que as nossas forças se juntam para pedirmos que o sol nos veja.
- Mas, achas mesmo que temos força? Alguma de nós tem força nesta altura?
- Temos! Vá lá...já vencemos outras coisas antes...
- Sim, isso é verdade, mas eram situações diferentes.
- Certo, mas podemos tentar esta vez! Vá lá...por favor...vamos pedir em conjunto.
- Não custa tentar, não é?
- Claro!
- E pedimos o desejo a quem?
- Às estrelas.
- Pareces as crianças...acreditas mesmo que as estrelas...aqueles pontos brilhantes lá em cima, tão bonitos, mas tão...tão...tão longe daqui, vão ouvir o nosso desejo? O sol não ouve!
- O sol não realiza desejos, mas as estrelas...dizem que sim.
- E como vamos fazer isso?
- Damos as nossas pétalas, fechamos os olhos, pensamos com muita força no que queremos, e acreditamos que o nosso desejo se vai realizar. Eu acredito!
- Pedimos em voz alta ou em voz baixa?
- Juntas temos mais força...por isso acho que será melhor pedirmos todas juntas.
- Concordo!
- É. Temos todas o mesmo desejo!
- Claro.
- Não sei porque nos puseram aqui, se sabem que precisamos de sol!
- Também não sei.
- Vamos lá! 1...2...3...
         Juntam as pétalas, olham para as estrelas e pedem em conjunto: «queridas estrelas, por favor, que o sol nos veja!» Repetem várias vezes, num coro mágico, com vozes doces. As estrelas ouviram-nas, e foram falar com o sol. As flores adormeceram, e na manhã seguinte, um sol radioso, quentinho e claro, iluminou aquele canto do jardim. As flores abriram os olhos, e nem queriam acreditar...gritam todas:
- Sooooooooooooooooooooooooollllllllllllllllllllllllllllllllllllllll....
           Abrem um grande sorriso, e o sol acaricia-lhes pétala por pétala, carinhoso, elas soltam risinhos, viram para um lado e para o outro, felizes, soltam exclamações de satisfação, e rejuvenescem. As suas pétalas tornam-se grandes, abertas, com cores mais fortes, viçosas, agradecem ao sol e às estrelas:
- Eu disse que as estrelas nos iam ouvir! - Diz a tulipa feliz
- Áh! Sol...que maravilha! - Suspira um girassol
- Que saudades tuas, sol! - Comenta uma mimosa
- Estávamos a ficar cada vez mais fracas, murchas, tristes...
- Estou como nova! Áh! - Suspira outro girassol 
- Porque nunca nos ouviste?
- Não sabia que estavam aqui! Este jardim tem muitas flores, e há milhares de outras flores por aí que precisam de mim, desculpem! - Diz o Sol a sorrir
- Áh! Já me sinto muito melhor... - Suspira uma mimosa
- Eu também! - Diz outra mimosa
- Parece que até estou a sonhar. - Comenta outra tulipa feliz
- Não estão a sonhar...as estrelas enviaram-me o vosso pedido, e é mais que justo! - Diz o sol
- Eu disse que se pedíssemos juntas, tínhamos mais força! - Relembra a tulipa que sugeriu o pedido às estrelas
- Obrigada, sol! - Dizem todas em coro
- E vão mudar de sítio! - Diz o sol
- Boa! Assim lembras-te de nós todos os dias! - Diz outra mimosa a rir
- Claro que sim! Não me esquecerei. - Diz o sol  
           A senhora da casa decide mudá-las de sítio, e planta-as num lugar do jardim juntamente com outras flores que adoram sol, e à noite dormem. Elas crescem, e acompanham todos os dias o sol, desde que nasce até que se deita, lindas como as outras. Todos os dias, as flores receberam os miminhos do sol, nas pétalas, e tornaram-se cada vez mais saudáveis.
           Todos nós precisamos de sol, e as flores também, mesmo as que dormem à noite.

                                                                          Fim
                                                                         Lálá 
                                                                   6/Março/2018

domingo, 4 de março de 2018

O castelinho na tua mão



         Era uma vez uma menina que foi para a praia com a sua família, num dia quente de Verão, com muito sol.
         Logo que pousaram as coisas na areia, a menina pediu aos pais para ir para a água, os pais deixaram porque havia muitas possas e o mar estava longe.
         Foi a correr, e entrou devagar, primeiro molhou os pés, viu caranguejos pequeninos, estrelas-do-mar coladas nas rochas, e peixinhos.
         Molhou as pernas até aos joelhos, e depois até à barriga, até que mergulhou mesmo. Nadou, e quando olha para o lado, vê um rapaz a construir alguma coisa na areia. Saiu da água, e foi ter com ele.
O rapaz sorri-lhe.
- Olá, estás sozinha, pequena? - pergunta ele
- Olá. Não, os meus pais estão lá em cima, ali...com as minhas tias. E tu?
- Eu estou sozinho.
- Como te chamas?
- Chamo-me João, e tu?
- Eu chamo-me Sofia.Onde estão os teus pais?
- Estão na minha casa. Ali.
- Porque é que eles não vieram para a praia?
- Porque não quiseram. Está muito calor.
- O que estás a fazer?
- Estou a brincar com a areia.
- Tu já és muito crescido, não podias brincar com a areia. Os crescidos não brincam.
- Achas?
- Acho.
- Não sei porque não podem brincar. Quem te disse isso?
- Todos os grandes dizem.
- Fazem mal, se não brincam. Eu sou crescido, mas brinco na mesma, e não tenho vergonha. Fico feliz por brincar.
- Eu também.
- Claro, todas as crianças gostam de brincar.
- Mas os crescidos, quando vamos à escola dizem que já não podemos brincar.
- Isso é mesmo injusto! Não te acredites neles.
- Não nos deixam brincar, é por isso que eu gosto mais dos dias em que não vou à escola, quando estou de férias, porque só nesses dias é que posso brincar. O que vais construir?
- Já vais ver.
            O rapaz constrói um castelo em areia, e enquanto isso fala com a menina. No fim, ela solta uma grande exclamação:
- Áh! Que lindo.
- É um castelo de areia.
- Está maravilhoso.
- Obrigado.
- Como conseguiste fazer um castelo que parece quase verdadeiro, daqueles de princesas e príncipes, reis e rainhas...?
- Já construí muitos! Mas o mar lavou-o para longe.
- E tu não conseguiste segurá-lo?
- Não! Ele foi mais rápido.
- Nem te perguntou se podia levá-lo?
- Não!
- Óh, deves ter ficado triste!
- Não.
- Eu gostava de ter um castelo assim!
- Gostavas?
- Gostava, mas de certeza que não consigo construir um castelo assim.
- Porque não?
- Não sei.
- Então eu vou oferecer-te este!
             A menina sorri.
- Como é que vais fazer isso? Não posso levar esse castelo assim.
- Este é um castelo mágico.
- É mágico? Porquê?
- Porque tu gostaste dele, e eu vou pô-lo na tua mão, para que possas levá-lo.
- Mas ele não se desfaz quando o puseres na minha mão?
- Não! Porque só tu vais vê-lo, e vais poder levá-lo para todo o lado que quiseres.
- A sério? Quem está lá?
- Isso não sei. Vais poder descobrir isso tudo...de certeza que vais encontrar no castelo muita gente Queres ver? Estende a mão.
            O rapaz sopra para o castelo e este aparece na mão da menina, em tamanho pequeno.
- Áh! Tu fizeste magia...ele está aqui.
- Eu disse-te que era um castelo mágico.
- Que lindo! Mas, e agora como é que eu vou poder levá-lo para todo o lado? E como é que não vão vê-lo? Eu estou a vê-lo.
- Se lhe soprares ele desaparece, para poderes fazer tudo o que tens de fazer, e quando quiseres que ele aparece, olhas para a tua mão, pensas na palavra castelo, sopras e ele volta a aparecer.
- Mas como é que eu vejo quem vive lá?
- Podes pedir que o castelo aumente, para um tamanho que consigas entrar, e ver quem está lá.
- Áh! Que giro! Obrigada.
- Acho que vem aí alguém à tua procura.
- Óh, pois é. É a minha tia. Vou para ali...obrigada pelo castelo. Vejo-te por aqui outro dia.
- Sim, quem sabe! Diverte-te. E não te esqueças que o castelo está na tua mão. Não deixes de brincar, mesmo que os adultos não deixem, não lhes faças a vontade. Estuda, mas não te esqueças de brincar.
- Como é que eu faço isso? Eles estão sempre a tomar conta e a ver o que faço...
- Brinca quando eles não estiverem a ver. É para isso que serve esse castelo na tua mão.
- Está bem. Obrigada.
              A pequena vai ter com a tia, brinca com ela, fala, ri, toma banho, mergulha, corre, enche-se de areia, e na hora mais perigosa vai para casa. No fim do almoço, vai para o seu quarto, está muito curiosa para saber quem vive no castelo da sua mão. Enquanto os adultos descansam, ela também se deita, mas olha para a sua mão, pensa na palavra castelo, sopra e ele aparece tão grande, como o espaço do seu quarto. Ela abre um grande sorriso. Bate à porta do castelo, e é recebida por simpáticos guardas, cheios de energia, sorridentes, com roupas coloridas e elegantes:
- Olá visitante, bem-vinda
             Fazem uma vénia e estendem a mão à menina. Levam-na a passear pelo castelo, entre lindos jardins, floridos, flores de todas as cores, espécies, com chilreares diferentes, pássaros de muitas espécies e penas fantásticas, borboletas de muitos tamanhos, formas e cores. As princesas estão à janela, e a menina vai ter com elas.
- Olá! - Dizem as princesas
- Olá! -  Diz a menina
- Anda ter connosco. - Convida uma princesa
- A vista daqui é maravilhosa! - Diz outra princesa
            Os guardas acompanham a menina até às princesas,  que oferecem um chá à menina, apresentam os reis, as rainhas, os príncipes, as outras princesas, e as divisórias do castelo. A menina fica encantada com o que vê. Ouve alguém a chamar, e diz:
- Óh...vou ter de ir embora, mas volto daqui a bocado, está bem?
- Sim, está bem. Nós estamos sempre aqui. Aparece!
- Até já!
- Até já!
             A menina volta para o seu quarto, sorridente, sopra para o castelo e este desaparece. Mas afinal ninguém a tinha chamado. Então, volta a pensar no castelo e olha para a mão. O castelo aparece, e a menina conhece o resto do castelo. Depois desse dia, sempre que a menina queria ir ao castelo, este aparecia, e quando soprava, desaparecia. A menina não se esqueceu do que o rapaz da praia lhe disse, por isso, quando as aulas começaram depois das férias, ela já era muito amiga das princesas, brincava muito com elas, passeava pelo castelo, lanchava com elas, e elas também conheceram o quarto da menina. Viveram muitas aventuras e os adultos nunca descobriram que ela brincava às escondidas, porque eles não deixavam brincar.
             E vocês também têm um castelinho na vossa mão? Como é esse castelo? Quem vive lá? 

FIM 
Lálá 
(4/Março/2018)