CASO
«A
ventania da sala para casa»
S.,
tem agora 8 anos, começou por dar muitos problemas no colégio,
quando o seu comportamento sofreu uma transformação de 360 graus!
Era uma doçura de criança, todos gostavam dele, as educadoras até
o davam como um exemplo de bom comportamento, os pais e toda a
família sentiam um grande orgulho, enchiam-no de mimos, prendas e
atenção («talvez demasiada», reconhece a mãe envergonhada).
De
repente, passou a ser a «fera selvagem» da casa. Andou mais de um
ano «a infernizar a vida aos pais, aos Avós, aos tios e a todas as
lojas onde íamos, incluindo supermercados. Fez-nos passar cada
vergonha!» (segundo a mãe)
Desde
que começou a falar mais corretamente, diz palavrões «como quem
diz bom dia» (nas palavras da mãe), insulta. Enquanto não falava
bem ele dizia asneiras, e achavam muita piada, riam, ignoravam,
pensando que estavam a ter a atitude correta, e esqueceria.
Mas
este comportamento tornou-se cada vez mais rotineiro, habitual e mais
grave. Todos lá em casa começaram a bater-lhe, a repreendê-lo
verbalmente, mas ele voltava à carga quando parecia estar mais calmo
e ter compreendido a repreensão.
Não
sabiam onde tinha aprendido tais asneiras, suspeitavam que fosse no
café onde ia diariamente com o pai e com o avô, embora estes
desmentissem, a mãe e a Avó sabiam como era o ambiente do café, e
que se utiliza calão, asneiras, o palavrão estava sempre presente
nas conversas entre eles.
Aliás,
o próprio S., dizia que tinha ouvido no café, o pai, o avô e
aqueles velhos todos. Gritava, questionando porque é que os grandes
podiam dizer, diziam e não apanhavam, e ele apanhava.
A
mãe e a avó respondiam-lhe que ele não tinha que repetir, e
começaram a «sacudir-lhe as moscas» (como referiu a mãe). Como
resposta a esta reprimenda, com as sapatadas, S. Gritava, esperneava,
amuava, dizia «não», e ainda as insultava mais.
As
duas ficavam boquiabertas com a quantidade de insultos que uma
criança tão pequena já conhecia. S. Insistia que a culpa era do
pai, do avô e dos outros velhos.
Explicaram-lhe
que tinha que respeitar os pais, e ainda mais, as pessoas mais
velhas, como os Avós. S. Não compreendia, revoltava-se («o nome
mais suave que nos chamava era «bruxas», tirando este era cada qual
o pior»).
Onde
quer que fossem, S., não passava despercebido pelos piores motivos,
pois combinavam que tinha de se portar bem, com a promessa afirmativa
por parte dele, e direito a prémio.
S.
exigia o prémio, mas não dava o que tinha prometido, por isso
também não levava o prémio. Estava capaz de «deitar a casa
abaixo» (como salientou a mãe).
A
mãe ordenava que S. Ficasse a seu lado, na primeira rápida
distração, S. Desaparecia e onde estava? A tentar destruir o que
estava exposto. «Não», gritava S., a mãe dava-lhe uma sapatada
nas mãos, agarrava-lhe as mãos, e ele deitava-se no chão.
A
mãe dava uma sapatada, e S. Esperneava, rodava no chão, gritava,
insultava, deixando toda a gente a olhar para os dois, e as senhoras
das lojas ou supermercados, ficavam perturbadas, comentando umas com
as outras: «ai se fosse meu filho, levava-me duas...», «que
vergonha...», «esta mãe não sabe educar», «olha para
aquilo...que cenas! Era duas bem assentes», «deve ser o reizinho lá
da casa...», «que palerma...» e outros.
Em
casa, «fazia um trinta e um», tentavam pô-lo de castigo, mas não
adiantava nada. Parecia não ouvir o que lhe mandavam fazer. Só
respondia a gritar, quando mandavam falar baixo, ele dizia que era
assim que os pais falavam um com o outro.
Levaram-no
ao otorrino para despistar surdez ou outro problema auditivo,
portou-se tão mal, que tiveram de chamar enfermeiros para o segurar,
nada foi detetado.
Voltou
a portar-se bem no colégio, mas em casa «soltava os diabos todos»
(palavras da mãe), verbalizava que eram os outros que o irritavam,
que lhe faziam mal, que não queriam brincar com ele.
Os
pais foram averiguar com as educadoras, as quais negaram e disseram
que era S. Quem provocava as outras crianças que estavam sossegadas
a brincar, ou a fazer outras atividades; era S., quem ia provocar,
insultar e desafiar, quer as educadoras quer as outras crianças, e
até auxiliares.
Punham-no
de castigo, amuava, gritava, insultava, voltava a levantar-se, as
educadoras voltavam a sentá-lo quase à força, ele resistia, só
parava temporariamente quando ficava alguma à frente dele, a
sentá-lo à força sempre que tentava levantar-se, dizendo-lhe que
«não».
S.
Ficava irritado, insultava, levava uma sapatada, e parava. Sempre que
andava à luta com os outros, depois de provocar e desafiar os mais
pequenos, que se defendiam, dizia que a culpa era dos outros meninos,
que o irritavam, os outros é que se portavam mal, os outros é que
eram maus, os outros.
As
educadoras alertaram os pais para o facto de notarem S. Demasiado
nervoso, só falava com os outros aos gritos, quando os outros
falavam baixo, ele intimidava os pequenos.
Aos
pais e avós que o confrontaram com esta realidade de mau
comportamento no colégio, dizia que não era verdade, que se portava
sempre muito bem, mas a culpa era do «não sei quantos» (segundo a
mãe), que lhe dizia para se defender, porque os outros estavam a
magoá-lo.
Tratavam-se
de amigos imaginários com nomes diferentes, a quem S. Atribuía a
responsabilidade e origem dos seus comportamentos. Tentaram
explicar-lhe que esses comportamentos não eram bonitos, e que se os
outros meninos o magoavam, ele deveria fazer queixa às educadoras.
Levava
sapatadas, e ainda fazia pior, era impossível negociar com ele o que
quer que fosse, que ele tinha de vencer a dele. Em casa, dizia que as
asneiras e os palavrões, os gritos, eram como o pai dele fazia com a
mãe em discussões: «tu tiras-me do sério», «vai pastar», «a
culpa é tua», e outras coisas piores, S. Repetia tudo.
Pensaram
que o filho não ia aprender nem repetir, mas logo perceberam que
estavam errados, e tal comportamento era em parte influenciado pelo
que ouvia.
Quando
o mandavam fazer alguma coisa, para ver se o envolviam mais e se ele
acalmava, S. Respondia de forma rude e arrogante, aos gritos: «vai
tu, óh palerma», «vai tu, óh palhaça», «faz tu, velha»,
«odeio-te», e por aí fora.
«Levava
na tromba» (palavras da mãe), não adiantava nada, porque respondia
ainda pior. Decidiram levá-lo ao pediatra: insultou o médico,
esperneou, tentou bater ao médico, mas eu agarrei-lhe as mão, o
pediatra receitou-lhe dois calmantes diferentes: um de manhã e outro
à noite.
Agora
sim, «temos um filho normal, que nos deu descanso, é calmo,
adormece muitas vezes, está caladinho, quando fala não grita, e
obedece. É um doce. Abençoado pediatra, e abençoados calmantes,
que deve tomar para mais uns anos, porque daquela forma, não
podíamos aturá-lo, nem educá-lo» (Conclui a mãe).
Lara
Rocha
6/Agosto/2021
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Nota para psicólogos, e população em geral.
Este é um caso fictício, mas pode acontecer em qualquer casa, e causa grandes problemas a todos os que os rodeiam. Foi um monólogo baseado nos critérios de diagnóstico, DSM-IV-TR, 1ª Edição, Lisboa, Janeiro de 2002.
Comportamentos destes e outros, merecem atenção, avaliação psicológica e acompanhamento, antes que evolua para situações mais complexas. São muitas vezes percebidos como rebeldia, típicos da pré ou adolescência, má educação, falta de regras, e outros, mas na verdade, pode ser causa de problemas emocionais mais graves.
Perturbação de Oposição
-
padrão recorrente de comportamento negativo, desafiante,
desobediente, hostil relativamente à figuras de autoridade que dura
pelo menos 6 meses
(Critério
A)
-
caracterizado pela ocorrência frequente de pelo menos 4 dos
seguintes comportamentos:
encolariza-se
(Critério A)
discute
com os adultos (Critério A2)
desafia
ou recusa cumprir os pedidos ou regras dos adultos (Critério A3)
aborrece
deliberadamente as outras pessoas (Critério A4)
culpa
os outros dos seus próprios erros ou mau comportamento (Critério
A5)
Suscetibiliza-se
ou é facilmente molestado pelos outros (Critério A6)
Sente
raiva ou está ressentido (Critério A7) ou rancoroso e vingativo
(Critério A8)
-
Comportamentos negativos e de oposição exprimem-se por:
uma
teimosia persistente,
resistência
às ordens,
falta
de vontade para tomar compromissos, ceder ou negociar com os adultos
ou companheiros
-
A oposição também pode incluir:
uma
prova persistente deliberada dos limites geralmente estabelecidos,
ignorando
ordens,
discutindo,
não
aceitando ser acusado dos próprios atos,
-
A hostilidade:
pode
ser dirigida contra os adultos ou companheiros,
incomodando-os
deliberadamente, ou por agressão verbal (normalmente sem as
agressões físicas mais graves que se observam na Perturbação do
Comportamento)
manifestações
da perturbação estão invariavelmente presentes em casa mas podem
não se manifestar na escola ou na comunidade.
Os
sintomas da perturbação são tipicamente mais evidentes nas
interações com os adultos ou companheiros que o sujeito conhece
bem, logo podem não se manifestar durante o exame clínico.
Normalmente
os sujeitos com esta perturbação não se consideram a si mesmos
negativistas nem desafiantes, mas justificam o seu comportamento como
uma resposta a circunstâncias ou exigências pouco razoáveis.
A
perturbação de Oposição pode tornar-se mais evidente antes dos
oito anos, e geralmente, não depois do início da adolescência. Os
sintomas de Oposição aparecem muitas vezes no contexto familiar,
mas com o tempo podem aparecer noutros ambientes.
O
inicio é geralmente gradual e pode manter-se no decurso de meses ou
anos.
DIAGNÓSTICO
DIFERENCIAL
Os
comportamentos disruptivos dos sujeitos com Perturbação de Oposição
são de natureza menos graves que os dos indivíduos com Perturbação
de Comportamento e tipicamente não incluem:
-
agressão contra pessoas ou animais,
-
destruição de propriedade,
-
um padrão de roubo ou fraude