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sábado, 23 de outubro de 2021

Uma criança sentada à beira do rio


    
       


 Um dia uma criança imaginou...uma criança sentada à beira do rio, deixou que a sua imaginação mergulhasse naquelas águas, que pareciam lágrimas. Ele sabia que o mundo que pensava ser cor de rosa, cheio de amor, paz, igualdade, alegria, carinho, atenção, cheio de felicidade e coisas boas, afinal não existia. 

        Os adultos contavam cada coisa, que ele pensou que realmente não existia um mundo assim tão bom! Seria por isso que as águas para onde olhava pareciam lágrimas. Ele até achava que as águas liam os seus pensamentos, ou o seu coração e percebiam que estava triste. 

        A criança sentada à beira do rio, começou a imaginar...que era uma nuvem enorme, cheia de gotas. Cada gota que se desprendia dela tinha a sua função. Uma caiu numa testa, acariciou os olhos e a cara de alguém que não conseguia chorar. 

        Outras regaram terras secas onde não havia alimento e depois delas caírem nessa terra, tiveram o que comer. Outras curaram doentes, outras aliviaram dores, outras desataram nós nas gargantas e outras cicatrizaram corações feridos. 

        Outras transformaram-se em luz, e fizeram povos em guerra, dar as mãos e chorar pela paz. Outras fizeram companhia e transformaram-se em vozes amigas para quem sofre. Outras brilharam em olhos felizes, e em sorrisos sinceros.

        Ficou tão feliz com o que imaginou, que deixou cair algumas lágrimas naquelas águas, e ondularam-nas. Se tudo isto não fosse um sonho e se cada um tivesse lágrimas como estas, o mundo seria mais humano. 

        Haveria mais paz, amor e felicidade. Mas foi só imaginação de uma criança, que se misturou com as águas que viu, ao que juntou a sua vontade de um dia isto acontecer. 

E vocês, leitores, se fossem como esta criança que se sentou à beira do rio e imaginou um mundo melhor, o que imaginavam? 

                                                    FIM 

                                                Lara Rocha 

                                              28/Agosto/2015 

terça-feira, 19 de outubro de 2021

As companhias dos bancos solitários

     

 

  









Era uma vez um jardim com bancos, solitários, tristes que viviam num silêncio também ele triste e solitário. Um dia conversam uns com os outros, cansados dos silêncio: 

- Desculpem... - tosse um banco 

- O que fizeste para pedir desculpa? 

- Nada! 

- Então não tens que pedir desculpa. 

- Tenho, porque fui interromper o vosso silêncio! 

- O nosso silêncio é o mesmo que o teu silêncio, estamos no mesmo sítio! - comenta outro banco 

        Todos riem 

- Essa está bem vista! - ri outro banco 

- Estou farto deste silêncio! - suspira outro banco 

- Eu também. - dizem todos 

- É um silêncio tão assustador, às vezes! - suspira um banco 

- Assustador? - perguntam todos

- Sim, este silêncio todo faz-me pensar em...coisas...más! 

- Áh! Sim, a mim faz-me pensar em coisas tristes! - comenta outro banco 

- Antes este parque era uma festa! - acrescenta outro banco 

- Tens toda a razão! - dizem todos 

- Pois era. - dizem outros bancos 

- Como eu era feliz! - suspira um banco 

- Eu também. - dizem todos 

- Nós éramos tão visitados, sentavam-se, pedia-se em namoro, dava-se a mãozinha, metia-se anéis nos dedos, cantava-se, juntamente com beijinhos e risinhos! 

- Era tão bonito! 

- Porque será que isso deixou de acontecer? - pergunta outro banco 

- Não sei! - Dizem todos 

- Parece que andam todos fugidos. 

- É verdade. 

- Até gatos se esbarrigavam em cima de nós...

- Artistas pitavam-nos, e sentam-se horas a apreciar a paisagem. Tenho saudades deles. 

- E do riso das crianças, das mamãs que lhes cantavam e que os embalavam. 

- Era tão bonito de ver. 

- Agora não passa ninguém! Nem gaivotas! 

- Esperem...estou a ouvir alguma coisa... - repara um banco que ouve passos 

            Passa um senhor com alguma idade, para e olha para os bancos. Senta-se num dos bancos, que abrem um sorriso de orelha a orelha.

- Finalmente alguém! - grita um banco feliz 

- Desculpe, senhor...quem é? - pergunta o banco onde o senhor está sentado 

- Sou um velho solitário. 

- Óh! - dizem todos 

- Nós também somos solitários. - comenta um banco 

- O que espera daqui? - pergunta outro banco 

- Espero...alguém! - responde o senhor 

- Desculpe, não sei se vai encontrar alguém aqui! - diz outro banco 

- Vou sim...nem que seja...um gato. - diz o senhor 

            E aparece um gatinho vadio. Os bancos ficam arrepiados e em silêncio. O senhor, chama o gato, carinhosamente, pega nele ao colo, faz mimos, o gatinho mia, lambe-o. 

- Conhece esse gato? - pergunta outro banco 

- Conheci agora! Mas vou levá-lo comigo se ele quiser vir. - responde o senhor 

           Levanta-se com o gato, a fazer festas e a conversar com ele, e sai do parque. 

- Viram isto? - pergunta um banco assustado 

- O senhor deve ter poderes! - comenta outro banco 

- Ou então estava mesmo à procura do gato! 

- Mas ele diz que só o conheceu aqui. 

- Pois. 

- E lá voltamos nós ao silêncio. 

            Ouvem-se novamente passos. 

- Vem aí outra vez, querem ver? Se calhar vem buscar outro gato. 

- Não. Não é o mesmo. 

- Este deve vir buscar uma namorada. 

            Todos riem. O rapaz senta-se noutro banco. 

- Rapaz, o que fazes aqui neste parque tão silencioso? - pergunta um banco 

- Vens buscar uma menina? 

- Lamento, mas acho que aqui não vaias conseguir.  

- Vim...buscar o sol, para reforçar a minha luz interior. - responde o rapaz

- Mas que língua é que ele fala? - pergunta um banco 

            Todos riem 

- Como vais fazer isso, amigo? 

- Apenas...olhar para o...horizonte...deixar que os meus olhos absorvam aquelas cores maravilhosas do sol, na água! Áh! Que coisa tão bonita. - diz o rapaz a sorrir 

- Mas, ele está com algum problema, não? - pergunta outro banco 

- Não, sou poeta. - responde o rapaz 

- Áh! - suspiram todos surpresos 

- Então isso consegues. 

            Aproxima-se uma menina, e senta-se noutro banco. Fecha os olhos. 

- Éh lá...- diz um banco entusiasmado 

- Vamos voltar ao antigamente? - comenta outro a rir 

            Os dois olham-se, sorriem. 

- Olá! - diz ele 

- Olá! - responde ela 

            Os bancos ficam com risinhos nervosos 

- Posso perguntar-te o que fazes aqui? - diz ele 

- Vim sentir o vento, deixar que ele leve os meus maus pensamentos, e deixar que esta luz do sol, estas cores me renovem! - diz ela 

- Áh...não posso crer... eu vim atrás do sol, das cores. És poetiza? 

- Também. E tu? 

- Sou! 

            Os bancos sorriem, os jovens aproximam-se, e o rapaz declama uma poesia inspirada pelo momento. A rapariga sorri, ouve encantada, aplaude, e responde com outra poesia. Os bancos assobiam e aplaudem, encantados, com umas lagriminhas e sorrisos. Os dois levantam-se e vão conversar para outro sítio. 

- Ai, como eu gostei do que ouvi! - suspira um banco a sorrir 

- Eu também. - respondem todos

- Acho que acabei de ver nascer uma linda amizade, ou.., algo mais! - dizem os bancos a sorrir 

- Quem sabe! - dizem todos 

- Mas tinham muito jeito. 

            Chega uma jovem muito chorosa, triste, senta-se num banco, e os bancos ficam com pena dela. 

- Então, menina, porque choras tanto? 

- O meu namorado acabou comigo. 

- Óh! - dizem todos 

- Deixa lá, é porque vem aí algum melhor.

- O que vens aqui fazer? 

- Vim secar as minhas lágrimas, curar a minha dor. 

- Desculpa, acho que não vai ser possível. 

- Sim, vou abraçar uma árvore! 

             Todos sorriem, e a jovem fica abraçada a uma árvore como se fosse uma pessoa, a chorar. 

- Coitadinha! Estou com pena dela. - diz um banco 

- Aquilo deve passar. 

- Claro. 

- Está a ficar movimentado. 

- Quem vem lá? 

- Um casal de Avós... 

- Será que se vão sentar aqui? 

            E sentam-se, abraçados, a conversar alegremente, a ver a paisagem e a relembrar tempos em que eram mais novos, naquele parque, com muita gargalhada pelo meio. 

- Foi aqui que me pediste em casamento! - diz ela 

- Pois foi! - diz ele 

- Acho que me lembro deles...estão fisicamente um bocadinho diferentes, mas dá para ver que o amor ainda está lá. - diz o banco que assistiu na altura. 

- Estes vieram atrás das memórias felizes! Que bonitos que estão! - comenta o banco a sorrir 

            O casal foi embora, a menina também. E o parque voltou a ficar silencioso e triste. Ao fim de alguns dias, num dia cinzento, ventoso e chuvoso, o parque é invadido por muitos jovens vestidos de maneiras diferentes, com música alta, bebidas, a cantar, e instalam-se no parque. Ligam a música alta, começam a dançar, a rir, a cantar, a bater palmas, a beber, e começa uma chuva torrencial. Os bancos deixam-se contagiar pela alegria deles.

- O que vieram à procura no parque? - pergunta um banco 

- Da chuva! - diz uma 

- Do vento! - diz outro 

- Da trovoada! - diz outra 

- Da liberdade! - diz outro 

- De nós! - diz outra 

- Da amizade! - dizem todos 

- Da natureza! - diz uma 

- Da música! - diz outra 

- Viemos fazer-vos companhia. - dizem todos 

- Achamos que estão muito isolados, solitários. 

- Podemos ficar? 

- Claro que sim!

- Trouxemos tendas impermeáveis, cobertores, almofadões...

         Os bancos dançam com eles, riem com eles, noite dentro, mesmo com uma sonora e valente tempestade, muita música, alegria, brincadeira, e de manhã, os jovens vão dormir nas tendas, os bancos fazem um círculo, juntam-se, para que as tendas fiquem protegidas, e eles fiquem todos juntos, cada um na sua tenda, dormem até tarde. 

        Aqueles bancos nunca mais voltaram a sentir solidão, nem tristeza. Cada pessoa que lá ia, procurava o que mais gostava, o que mais precisava ou preenchia, mas os bancos eram sempre amigos e acolhedores. 

        Os bancos daquele parque voltaram a assistir a pedidos de namoro, e de casamento, a poetas que procuravam inspiração, a pintores que aproveitavam as imagens e passavam várias horas a pintar, a desenhar, a fotógrafos, e até cantores, dançarinos, artistas de circo e casais a passear os filhotes. 

     Rapidamente encheram-se de companhias diferentes com quem falavam e também eram ótimas companhias. 

                                                                                FIM 

                                                                            Lara Rocha

                                                                            19/Outubro/2021  

domingo, 10 de outubro de 2021

Acordar melodioso

 


         



 Pintado por Lara Rocha no livro de terapia para adultos 



  Era uma vez um dia muito cinzento, com nuvens pesadas, escuras, e pingas sempre a cair. Estava prometida uma tempestade. 

       A Nicas, estava deitada com uma carantonha que chegava quase à porta do quarto, de tanta tristeza, porque já chovia há vários dias, e ela tinha-se zangado com a sua melhor amiga por causa de um motivo sem importância, apenas birra e casmurrice das duas. 

        Andava sonolenta, e cinzenta como o tempo. Estava ainda enrolada nas toneladas de roupa da sua cama, quando de repente ouviu qualquer coisa a bater na janela. 

- O que é isto? Não deve ser nada de especial. 

         Outra vez. 

- Outra vez? Parecem pedrinhas? Mas não está a saraivar. Será alguém a atirar pedrinhas para ver se eu abro? Mas não vou abrir. Nem vou ver quem é. Não me apetece ver gente, nem sair da cama. 

        Mais batidinhas. 

- Que coisa chata! 

        Levanta-se toda nervosa, pronta a gritar, espernear ou o que fosse preciso para despejar toda a sua raiva. Começa a abrir um bocadinho a persiana do quarto, e quando ia começar a disparar palavras agressivas, viu um passarinho a dar bicadinhas no vidro, ficou sem palavras. 

        Era tão bonito, ela nunca o tinha vista. As penas tinham uma variedade de cores que nem era possível contar, cada qual a mais bonita. O passarinho parecia que estava a falar com ela. 

Ao ver aquele ser que parecia frágil, passou-lhe logo o mau humor, abriu a janela, o passarinho tremia como uma vara verde, estava cheio de frio, com medo e encharcado, piava muito baixinho, quase não se ouvia. Sentiu pena dele, tocou-lhe a medo, mas o passarinho caiu de barriga para cima. 

- Óh, coitadinho...deve estar doente. 

        Pega nele, delicadamente, o coraçãozinho dele saltita, parece estar com falta de ar. Ela enrola-o numa toalha, dá-lhe um bocadinho de água, liga para um veterinário, e leva-o. O veterinário seca-o, limpa-o, examina-o, dá-lhe uns medicamentos, e diz à Nicas o que tem de fazer, se quiser ficar com o passarinho. 

        A Nicas, segui e cumpriu tudo o que o veterinário indicou. O passarinho foi melhorando, a Nicas alimentava-o, dava-lhe de beber, fazia-lhe mimos, falava com ele, agasalhava-o, e ao fim de alguns dias, o passarinho estava novo.                                              

Nicas deliciava-se com as cores das suas penas, ele cresceu e as penas ainda ficaram mais vistosas. 

Arranjou-lhe uma gaiola no seu quarto, confortável, sem portas, larga, arejada, com uma cama confortável, cobertores, almofadas de bonecos, e cobria-o carinhosamente, fazendo-lhe mimos, dando-lhe beijinhos, pondo-o a ouvir a mesma música que ela ouvia, e a luzinha de presença não podia faltar.                                               

       O passarinha estava eternamente grato à sua amiga, e para a compensar, numa manhã, quando o sol entrou pela persiana do quarto, o doce passarinho começou a piar, a cantar melodiosamente, de uma forma tão suave para não assustar a Nicas, e ela foi acordando devagarinho, a sorrir, pensando que estava a sonhar com essa melodia. 

- Áh, de onde vem esta melodia? Dos meus sonhos...? Não..., não pode ser...já estou acordada....(ela vê o passarinho com a cabecinha fora da gaiola) Áh, és tu que estás a cantar? Que delícia, uau...

        Aproxima-se, faz-lhe os mimos matinais, ele encosta a cabecinha às mãos dela, ela sorri: 

- Estás a agradecer-me, é, fofinho? Não tens de agradecer. Só fiz o que achei que devia fazer. Não podia deixar-te assim, naquele estado, nem pensar, Só se fosse um cubo de gelo, Aqui em casa todos gostamos muito de ti. 

        Ela abre mais a persiana. 

- Olha, hoje temos sol! Olha que bonito, aquelas gostas da chuva da noite penduradas...e aquelas nas pétalas...com o sol a dar, parecem brilhantes! Já tinhas visto muitas vezes, não? Vamos tomar o pequeno almoço, e passear, que dizes? 

        Ela tem longas conversas com o passarinho, e este responde com o seu chilrear. Os dois vão passear, e o passarinho mostra-lhe coisas que ela nunca tinha visto, dá espetáculos de dança em voo com outros passarinhos.                                                                 

        Nicas segue os seus bailados, com os olhos e com a cabeça, parece que hipnotizada com tanta beleza, aplaude, sorri, ri, tanta cor, tanto movimento, tanto chilrear. Que lindo! Depois do passeio, voltam para casa, e Nicas arranjou um grande amigo! Para ela e para toda a família que também acha o passarinho muito bonito, e ajudam-na a cuidar dele.      

        Para retribuir o cuidado, o passarinho dá concertos, e espetáculos de canto com outros pássaros, a cantar e a dançar, os da casa aplaudem, fotografam, e ao ver aquelas belezas, descansam os olhos, a mente de tanto stress do dia a dia.                             

        O passarinho passa a ser um membro da família, e o despertador melodioso, relaxante, suave de toda a família, pois ia de quarto em quarto, chilrear delicadamente, aumentando de tom mas sempre bonito.                                                      

        Todos acordavam relaxados, bem dispostos e com um sorriso, prontos para lidar com o dia, que quando terminava lá estava o passarinho e os amigos para o presente...do bailado e dos cantos. 

E vocês? 

Já foram acordados por passarinhos? Gostaram?

Como imaginam este passarinho? 

                                                                         FIM 

                                                               Lara Rocha  

                                                                                                                                                  10/Outubro/2021 

As sereias douradas a dançar

 


foto de Lara Rocha 


Hoje de madrugada, numa noite de Verão, estava tanto calor que dormimos com as janelas e varandas abertas. Não corria ponta de vento. Mas de repente levantou-se vento, não sei de onde nem como, mas ele apareceu. 

Fui à janela e vi mulheres a dançar com os cabelos ao vento, elegantes, e dançavam de braço dado, uma música tao suave que não incomodava, mal se ouvia! Nunca tinha visto aquelas mulheres por ali, mas lembrei-me que muitas pessoas da aldeia onde vivo, já as tinham vistos, e eram de uma beleza rara. 

Os cabelos soltos ao vento era uma visão deliciosa, transmitia leveza, e nunca tinha ouvido a música que parecia haver, mas também já me tinham dito que isso acontecia. 

Fui de pijama, saí a porta sem fazer barulho, o vento ficou mais forte, parecia uma pessoa a brincar com os meus cabelos mas não vi ninguém, só as mulheres que tinha visto da janela do meu quarto a dançar. Elas continuavam a dançar e o som da música agora era mais forte. 

Mas...que surpresa! Afinal não eram mulheres a dançar de braço dado, nem com os cabelos ao vento. Eram simples e grandes espigas que dançavam ao sabor da brisa agradável do Verão. Os braços das sereias ricas eram as folhas a tocar umas nas outras, que se encostavam, e a música que pouco se ouvia era o vento a acariciá-las, que passeava vagarosamente entre elas para as refrescar.  

Como ainda estava escuro e eu meia a dormir não sei se imaginei, ou se sonhei que eram as sereias ricas do campo, como se diz na minha aldeia. 

São sereias pela elegância, e douradas pelas bolinhas de milho. Que bonito! Gostei do que vi...ou...será que sonhei? Não, não sonhei, acho que...imaginei, ou...já sei, a culpa foi do escuro que adora brincar com as sombras e acordar a nossa imaginação. 

Voltei a deitar-me, feliz por ter visto as sereias douradas de quem tanto falavam, e eu nunca tinha visto. De manhã cedo acordei com um lindo sol que iluminou todo o campo, onde tudo estava sossegado, com mais um dia de calor, e as sereias douradas a dormir! 

E vocês? Já viram as sereias douradas da vossa janela? 

O que veem da vossa janela?

O que gostavam de ver da vossa janela? 


                                                                        FIM 

                                                                    Lara Rocha 

                                                                    10/Outubro/2021 

 

sonho de rica

     


   Era uma vez uma menina, adolescente que contou à sua amiga o sonho que teve na última noite! Esta noite sonhou com uma casa que não era a dela. Metade mansão, com vestígios e partes de castelo onde ela sentiu que não queria entrar, principalmente porque para entrar lá, precisava de subir umas escadas em caracol, que lhe provocavam calafrios. Eram estreitas e ainda mais pouco depois de as começar a subir. 

        A sala do sonho era espaçosa, decorada com móveis de luxo, bem tratados, e cuidadosamente arrumados, vários candeeiros enormes pendurados no teto, de cristal, tudo brilhava, e tinha uma luz excelente. 

        A mesa da sala era imensamente comprida, muito limpa, cuidadosamente bordada e parecia acabada de passar a ferro. Os copos eram de vidro fino, elegantes, talheres com um banho de prata e outros com banho de ouro, pratos de porcelana, cheios de comidas variadas, empregados vestidos a rigor. 

        Elas as duas, e as suas famílias, mais os amigos comuns, de uma e da outra, encontravam-se nessa sala, felizes. A mansão tinha dois jardins, um à frente, outro atrás, aos quais acedia, percorrendo enormes corredores, e atravessando uma porta enorme que separava a sala do jardim, mas este era visível da enorme varanda que acompanhava toda a sala. 

        Era um jardim harmonioso, belo, bem cuidado, com relva viçosa, aparada, flores de uma variedade incrível de cores e espécies que ela nem sabia onde as tinha ido buscar. No sonho, ela passeava por uma calçada de pedra, descalça, sentiu a brisa leve do vento, viu borboletas igualmente maravilhosas, enormes, coloridas. 

        Disse que colheu um raminho de jacintos e ofereceu à Sara, dizendo-lhe que gosta muito dela. Lembrou-se que no sonho, nesse jardim, também havia uma fonte lindíssima, num lago, com uma estátua no meio: uma criança a sorrir, de mão dada com uma adulta, com ar ternurento. 

        Dos cabelos da estátua da criança brotava água em forma de cascata, transparente, limpa, fresca, a cair com intensidade. Entrou nesse lago, bebeu água dessa fonte, e que se sentiu feliz, serena, cheia de energia, saudável. 

        Na verdade, ela mora num T4, com os pais e os irmãos, mas gostou do sonho, e pensou que um dia gostava de ser tão rica para poder comprar aquele palácio com que sonhou. As duas gostavam de ser rainhas ou princesas, mas pensaram melhor e acharam que não seria por terem tanto luxo, que seriam felizes!  

        Talvez gostassem mais da sua vida simples, rodeada da família que é tão importante para elas, ser felizes com as suas amigas e amigos, e ter a companhia dos seus animais, ter o que comer, o que beber, o que vestir, e como estudar que gostam tanto.

        Lembraram-se que existem muitos meninos que não têm nada. Afinal...elas já tinham todas aquelas riquezas, e mais valiosas do que tudo o que havia na mansão. Onde teria ido buscá-la para sonhar com ela...bom, não importa, o que realmente interessa é que ela é uma menina rica em amor, carinho, amizade, família e amigos.

E vocês gostavam de viver numa mansão? 

Porquê? 

O que teriam lá? 

Quais as cores? 

                                                                    FIM  

                                                                Lara Rocha

                                                            10/Outubro/2021 

                                                                 

sábado, 9 de outubro de 2021

A ventania da sala para casa - caso prático para estudantes de psicologia; psicólogos; população em geral Adultos

CASO 

«A ventania da sala para casa»

S., tem agora 8 anos, começou por dar muitos problemas no colégio, quando o seu comportamento sofreu uma transformação de 360 graus! Era uma doçura de criança, todos gostavam dele, as educadoras até o davam como um exemplo de bom comportamento, os pais e toda a família sentiam um grande orgulho, enchiam-no de mimos, prendas e atenção («talvez demasiada», reconhece a mãe envergonhada).

De repente, passou a ser a «fera selvagem» da casa. Andou mais de um ano «a infernizar a vida aos pais, aos Avós, aos tios e a todas as lojas onde íamos, incluindo supermercados. Fez-nos passar cada vergonha!» (segundo a mãe)

Desde que começou a falar mais corretamente, diz palavrões «como quem diz bom dia» (nas palavras da mãe), insulta. Enquanto não falava bem ele dizia asneiras, e achavam muita piada, riam, ignoravam, pensando que estavam a ter a atitude correta, e esqueceria.

Mas este comportamento tornou-se cada vez mais rotineiro, habitual e mais grave. Todos lá em casa começaram a bater-lhe, a repreendê-lo verbalmente, mas ele voltava à carga quando parecia estar mais calmo e ter compreendido a repreensão.

Não sabiam onde tinha aprendido tais asneiras, suspeitavam que fosse no café onde ia diariamente com o pai e com o avô, embora estes desmentissem, a mãe e a Avó sabiam como era o ambiente do café, e que se utiliza calão, asneiras, o palavrão estava sempre presente nas conversas entre eles.

Aliás, o próprio S., dizia que tinha ouvido no café, o pai, o avô e aqueles velhos todos. Gritava, questionando porque é que os grandes podiam dizer, diziam e não apanhavam, e ele apanhava.

A mãe e a avó respondiam-lhe que ele não tinha que repetir, e começaram a «sacudir-lhe as moscas» (como referiu a mãe). Como resposta a esta reprimenda, com as sapatadas, S. Gritava, esperneava, amuava, dizia «não», e ainda as insultava mais.

As duas ficavam boquiabertas com a quantidade de insultos que uma criança tão pequena já conhecia. S. Insistia que a culpa era do pai, do avô e dos outros velhos.

Explicaram-lhe que tinha que respeitar os pais, e ainda mais, as pessoas mais velhas, como os Avós. S. Não compreendia, revoltava-se («o nome mais suave que nos chamava era «bruxas», tirando este era cada qual o pior»).

Onde quer que fossem, S., não passava despercebido pelos piores motivos, pois combinavam que tinha de se portar bem, com a promessa afirmativa por parte dele, e direito a prémio.

S. exigia o prémio, mas não dava o que tinha prometido, por isso também não levava o prémio. Estava capaz de «deitar a casa abaixo» (como salientou a mãe).

A mãe ordenava que S. Ficasse a seu lado, na primeira rápida distração, S. Desaparecia e onde estava? A tentar destruir o que estava exposto. «Não», gritava S., a mãe dava-lhe uma sapatada nas mãos, agarrava-lhe as mãos, e ele deitava-se no chão.

A mãe dava uma sapatada, e S. Esperneava, rodava no chão, gritava, insultava, deixando toda a gente a olhar para os dois, e as senhoras das lojas ou supermercados, ficavam perturbadas, comentando umas com as outras: «ai se fosse meu filho, levava-me duas...», «que vergonha...», «esta mãe não sabe educar», «olha para aquilo...que cenas! Era duas bem assentes», «deve ser o reizinho lá da casa...», «que palerma...» e outros.

Em casa, «fazia um trinta e um», tentavam pô-lo de castigo, mas não adiantava nada. Parecia não ouvir o que lhe mandavam fazer. Só respondia a gritar, quando mandavam falar baixo, ele dizia que era assim que os pais falavam um com o outro.

Levaram-no ao otorrino para despistar surdez ou outro problema auditivo, portou-se tão mal, que tiveram de chamar enfermeiros para o segurar, nada foi detetado.

Voltou a portar-se bem no colégio, mas em casa «soltava os diabos todos» (palavras da mãe), verbalizava que eram os outros que o irritavam, que lhe faziam mal, que não queriam brincar com ele.

Os pais foram averiguar com as educadoras, as quais negaram e disseram que era S. Quem provocava as outras crianças que estavam sossegadas a brincar, ou a fazer outras atividades; era S., quem ia provocar, insultar e desafiar, quer as educadoras quer as outras crianças, e até auxiliares.

Punham-no de castigo, amuava, gritava, insultava, voltava a levantar-se, as educadoras voltavam a sentá-lo quase à força, ele resistia, só parava temporariamente quando ficava alguma à frente dele, a sentá-lo à força sempre que tentava levantar-se, dizendo-lhe que «não».

S. Ficava irritado, insultava, levava uma sapatada, e parava. Sempre que andava à luta com os outros, depois de provocar e desafiar os mais pequenos, que se defendiam, dizia que a culpa era dos outros meninos, que o irritavam, os outros é que se portavam mal, os outros é que eram maus, os outros.

As educadoras alertaram os pais para o facto de notarem S. Demasiado nervoso, só falava com os outros aos gritos, quando os outros falavam baixo, ele intimidava os pequenos.

Aos pais e avós que o confrontaram com esta realidade de mau comportamento no colégio, dizia que não era verdade, que se portava sempre muito bem, mas a culpa era do «não sei quantos» (segundo a mãe), que lhe dizia para se defender, porque os outros estavam a magoá-lo.

Tratavam-se de amigos imaginários com nomes diferentes, a quem S. Atribuía a responsabilidade e origem dos seus comportamentos. Tentaram explicar-lhe que esses comportamentos não eram bonitos, e que se os outros meninos o magoavam, ele deveria fazer queixa às educadoras.

Levava sapatadas, e ainda fazia pior, era impossível negociar com ele o que quer que fosse, que ele tinha de vencer a dele. Em casa, dizia que as asneiras e os palavrões, os gritos, eram como o pai dele fazia com a mãe em discussões: «tu tiras-me do sério», «vai pastar», «a culpa é tua», e outras coisas piores, S. Repetia tudo.

Pensaram que o filho não ia aprender nem repetir, mas logo perceberam que estavam errados, e tal comportamento era em parte influenciado pelo que ouvia.

Quando o mandavam fazer alguma coisa, para ver se o envolviam mais e se ele acalmava, S. Respondia de forma rude e arrogante, aos gritos: «vai tu, óh palerma», «vai tu, óh palhaça», «faz tu, velha», «odeio-te», e por aí fora.

«Levava na tromba» (palavras da mãe), não adiantava nada, porque respondia ainda pior. Decidiram levá-lo ao pediatra: insultou o médico, esperneou, tentou bater ao médico, mas eu agarrei-lhe as mão, o pediatra receitou-lhe dois calmantes diferentes: um de manhã e outro à noite.

Agora sim, «temos um filho normal, que nos deu descanso, é calmo, adormece muitas vezes, está caladinho, quando fala não grita, e obedece. É um doce. Abençoado pediatra, e abençoados calmantes, que deve tomar para mais uns anos, porque daquela forma, não podíamos aturá-lo, nem educá-lo» (Conclui a mãe).


Lara Rocha

6/Agosto/2021


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Nota para psicólogos, e população em geral. 

Este é um caso fictício, mas pode acontecer em qualquer casa, e causa grandes problemas a todos os que os rodeiam. Foi um monólogo baseado nos critérios de diagnóstico, DSM-IV-TR, 1ª Edição, Lisboa, Janeiro de 2002. 

Comportamentos destes e outros, merecem atenção, avaliação psicológica e acompanhamento, antes que evolua para situações mais complexas. São muitas vezes percebidos como rebeldia, típicos da pré ou adolescência, má educação,  falta de regras, e outros, mas na verdade, pode ser causa de problemas emocionais mais graves.  


Perturbação de Oposição

- padrão recorrente de comportamento negativo, desafiante, desobediente, hostil relativamente à figuras de autoridade que dura pelo menos 6 meses

(Critério A)

- caracterizado pela ocorrência frequente de pelo menos 4 dos seguintes comportamentos:

encolariza-se (Critério A)

discute com os adultos (Critério A2)

desafia ou recusa cumprir os pedidos ou regras dos adultos (Critério A3)

aborrece deliberadamente as outras pessoas (Critério A4)

culpa os outros dos seus próprios erros ou mau comportamento (Critério A5)

Suscetibiliza-se ou é facilmente molestado pelos outros (Critério A6)

Sente raiva ou está ressentido (Critério A7) ou rancoroso e vingativo (Critério A8)

- Comportamentos negativos e de oposição exprimem-se por:

uma teimosia persistente,

resistência às ordens,

falta de vontade para tomar compromissos, ceder ou negociar com os adultos ou companheiros

- A oposição também pode incluir:

uma prova persistente deliberada dos limites geralmente estabelecidos,

ignorando ordens,

discutindo,

não aceitando ser acusado dos próprios atos,

- A hostilidade:

pode ser dirigida contra os adultos ou companheiros,

incomodando-os deliberadamente, ou por agressão verbal (normalmente sem as agressões físicas mais graves que se observam na Perturbação do Comportamento)

manifestações da perturbação estão invariavelmente presentes em casa mas podem não se manifestar na escola ou na comunidade.

Os sintomas da perturbação são tipicamente mais evidentes nas interações com os adultos ou companheiros que o sujeito conhece bem, logo podem não se manifestar durante o exame clínico.

Normalmente os sujeitos com esta perturbação não se consideram a si mesmos negativistas nem desafiantes, mas justificam o seu comportamento como uma resposta a circunstâncias ou exigências pouco razoáveis.

A perturbação de Oposição pode tornar-se mais evidente antes dos oito anos, e geralmente, não depois do início da adolescência. Os sintomas de Oposição aparecem muitas vezes no contexto familiar, mas com o tempo podem aparecer noutros ambientes.

O inicio é geralmente gradual e pode manter-se no decurso de meses ou anos.

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Os comportamentos disruptivos dos sujeitos com Perturbação de Oposição são de natureza menos graves que os dos indivíduos com Perturbação de Comportamento e tipicamente não incluem:

- agressão contra pessoas ou animais,

- destruição de propriedade,

- um padrão de roubo ou fraude

O vendaval de duas pernas - caso prático para estudantes de psicologia; psicólogos; população em geral Adultos

«O vendaval de 2 pernas»

       M., mãe de C., mãe solteira, o pai de C. nunca assumiu a paternidade, e nunca se encontraram pessoalmente. M. mostra-se muito preocupada, nervosa, envergonhada pelo comportamento do seu filho, que não lhe dá sossego, e não sabe o que fazer. Vivem numa pequena aldeia onde todos se conhecem, e todos têm queixas do C.

       Há mais de um ano que C., de 14 anos revela muita agressividade para com as pessoas, em especial dirigida à mãe e à Avó com quem vive e que sempre cuidou dele, tal como da Mãe.

     C. Insulta-as, em casa e na rua, quando sai com elas, humilha-as em público, gritando e empurrando-as, agredindo-as com tanto violência que os vizinhos estão sempre atentos.

      A mãe e a avó já caíram várias vezes com os empurrões de C. Inclusive a avó foi várias vezes hospitalizada pelos ferimentos, sem nunca revelar os motivos das quedas, dizendo apenas que não sabia como tinha caído, que tinha tropeçado, ou que lhe tinha dado uma tontura, argumentando que era da idade.

    Nem a mãe nem a avó fazem queixa dele, porque sentem medo, pois C. Ameaça-as e agride-as, no entanto os vizinhos não deixam passar em branco estes comportamentos, até porque também já foram vítimas da raiva de C.

  C. revolta-se, luta com os vizinhos com violência, insulta-os, e vinga-se constantemente. Parte vidros das janelas com pedras, esconde-se, os vizinhos não o veem mas suspeitam que seja ele. Alicia os mais pequenos a atirar bolas de futebol contra as portas das casas.

     Durante a noite, sai de casa silenciosamente, dá murros e pontapés nas portas dos vizinhos para os perturbar, fazendo com que acordem sobressaltados, mas quando abrem a porta, já C. Desapareceu, esconde-se e ri à gargalhada do susto que provocou nos vizinhos.

    Durante a noite, quando se lembra, destrói flores dos jardins das casas, pisando-as, arrancando-as da terra, cortando as pétalas. Tira galinhas dos capoeiros, tapa-lhes os bicos para não cacarejarem, depena-as, parcial ou totalmente, de acordo com a intensidade da sua raiva, atira-as pelo ar, bate-lhes, roda-as e sai como se nada tivesse acontecido, parte vasos, parece que não pode ver nada direito.

   Maltratou cães vadios que apareceram na Vila, mas os vizinhos fizeram queixa dele, e foi necessária a intervenção da polícia, como aconteceu das outras vezes. Depois disso, muitos vizinhos acolheram os cães.

    Falta frequentemente à escola, a mãe é chamada constantemente e ligam para casa na tentativa de saber o que se passa, mas a mãe nem sabe que ele falta às aulas.

   Quando tal acontece, questiona o filho que não responde e ainda a insulta afirmando que não tem nada a ver com ele. Chumbou por faltas em várias disciplinas.

   Já tentaram colocá-lo em cursos profissionais, mas depois não frequenta nenhum e as poucas aulas que frequentou, não deu sossego aos colegas nem aos professores, levando-os ao limite.

     Insulta todos na escola, agride, destrói objetos de colegas que sentem medo dele, é muitas vezes expulso da escola, mas volta com o objetivo e processa que vai mudar o seu comportamento, mas tudo fica na mesma.

     Passa os dias a fazer asneiras, vai ao parque de estacionamento da escola e risca os carros dos professores, fura pneus, parte vidros, e apesar de ser visto por pessoas dos prédios, de costas, quando chega a polícia, já C. fugiu, e quando confrontado age com naturalidade, negando tudo, e mostrando raiva por considerar que é injusto acusarem-no de coisas que não fez.

   Neste momento está internado numa clínica de saúde mental com acompanhamento psicológico e psiquiátrico. O passo seguinte será trabalho comunitário, vigiado de perto e controlado.

       Mostra-se atualmente mais calmo, com medicação, diz-se arrependido e pensa pedir desculpa a todos, embora a mãe (com depressão e também a receber apoio) não confie nele.

    A mãe não sabe como nem porque começou este comportamento do filho, e apesar de toda a destruição que o filho provocou na Vila, os vizinhos apoiam-na a ela e à avó.

                                                        Lara Rocha 

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Nota para psicólogos, e população em geral. 

Este é um caso fictício, mas pode acontecer em qualquer casa, e causa grandes problemas a todos os que os rodeiam. Foi um monólogo baseado nos critérios de diagnóstico, DSM-IV-TR, 1ª Edição, Lisboa, Janeiro de 2002. 

Perturbação do comportamento  (P. 93 - 99) 

Padrão de comportamento repetitivo e persistente, em que são violados os direitos básicos dos outros ou importantes regras ou normas sociais próprias da idade, manifestando-se pela presença de 3 (ou mais) dos seguintes critérios, durante os últimos 12 meses, e pelo menos de 1 critério durante os últimos 6 meses.

Critérios

- Agressão a pessoas ou animais

1 – com frequência insulta, ameaça ou intimida as pessoas

2 – com frequência inicia lutas físicas

3 – utilizou uma arma que pode causar graves prejuízos físicos aos outros (por exemplo, pau, tijolo, garrafa partida, faca, arma de fogo)

4 – manifestou crueldade física para com as pessoas

5 – manifestou crueldade física para com os animais

6 – roubou confrontando-se com a vítima (por exemplo, roubo por esticão, extorsão, roubo à mão armada)

7 – Forçou alguém a uma atividade sexual

- Destruição de propriedade

8 – ateou fogo deliberadamente com intenção de causar prejuízos graves

9 – destruiu deliberadamente a propriedade alheia (sem ser por ateamento de incêndios)

- Falsificação ou roubo

10 – arrombou a casa; a propriedade ou o automóvel de outra pessoa

11 – mente com frequência para obter ganhos ou favores ou para evitar obrigações (por exemplo, vigariza os outros)

12 – furta objetos de certo valor sem confrontação com a vítima, por exemplo, furto em lojas, mas sem partir ou forçar a entrada, falsificação

- Violação grave das regras

13 – com frequência permanece fora de casa de noite apesar da proibição dos pais, iniciando este comportamento antes dos 13 anos de idade

14 – fuga de casa durante a noite, pelo menos duas vezes, enquanto vive em casa dos pais ou em lugar substituto da casa paterna (ou uma só vez, mas durante um período prolongado)

15 – faltas frequentes à escola com início antes dos 13 anos

B – A perturbação do comportamento causa um défice clinicamente significativo no funcionamento social, escolar ou laboral

C – Se o sujeito tem 18 anos ou mais, não reúne os critérios de Perturbação Anti-Social da Personalidade

TIPO EM FUNÇÃO DA IDADE DE INÍCIO:

312.81 – Tipo início na segunda infância antes dos 10 anos, início de pelo menos uma das características de Perturbação do comportamento

312.89 – Perturbação do comportamento início não especificado: a idade de início é desconhecida

GRAVIDADE:

- Ligeira – poucos ou nenhuns dos problemas de comportamento para além dos requeridos para fazer o diagnóstico os problemas de comportamento só causaram pequenos prejuízos aos outros

- Moderada – o número de problemas de comportamento e os efeitos sobre os outros entre «ligeiros» e «graves»

- Grave – muitos problemas de comportamento que excedem os requeridos para fazer o diagnóstico ou os problemas de comportamento causam consideráveis prejuízos aos outros

Comportamentos destes e outros, merecem atenção, avaliação psicológica e acompanhamento, antes que evolua para situações mais complexas. São muitas vezes percebidos como rebeldia, típicos da pré ou adolescência, má educação,  falta de regras, e outros, mas na verdade, pode ser causa de problemas emocionais mais graves.