Histórias infantis, para crianças, adolescentes, e adultos, peças de teatro e monólogos
Número total de visualizações de páginas
terça-feira, 3 de julho de 2018
No vale dos sonhos não realizados
Era uma vez um vale muito longínquo, desconhecido, sossegado, com paisagens e recantos maravilhosos, daqueles que só existem na nossa imaginação. Para lá só iam os sonhos que os humanos não realizavam, porque eram impossíveis, e desse vale chegavam os sonhos que temos todas as noites, e aqueles que sonhamos de olhos abertos, mais os que sonhamos quando ouvimos ou vemos alguma coisa que gostaríamos de realizar, os que gostávamos que acontecessem mesmo, ainda que saibamos que não são possíveis de realizar, mas gostamos deles.
Os seres mágicos diferentes de nós, trabalhavam em conjunto para fabricar e enviar os nossos sonhos, sempre que recebiam alarmes, a qualquer hora, todos os dias, sem parar, carregando num botão e noutro, e em milhares, sempre a tagarelar e a enviar mensagens uns aos outros, sentados em frente a gigantescos computadores que disparavam centenas e milhares de imagens, palavras, sons, enviadas para milhões de pessoas a uma velocidade de milésimos de segundos para todo o lado.
Nunca se cansavam, iam trocando de trabalhadores para descansarem, e estarem com as famílias. Era a loucura. Um dia, cansaram mesmo...ficaram fartos de receber pedidos de sonhos para terem bens materiais: carros de luxo, serem milionários, terem grandes vivendas, tudo automático e maquinado em casa, no trabalho, para não terem de trabalhar nem sair do lugar, terem mulheres à disposição, terem consolas e jogos eletrónicos, motas, dinheiro, mais dinheiro, mais dinheiro.
Quando pensavam em fazer greve, e estavam exaustos, todos a discutir, a gritar uns com os outros, recebem umas mensagens muito especiais. Um murmurou:
- Lá vem mais pedidos de dinheiro...
Mas ficaram estáticos quando perceberam que os sonhos não realizados, e que queriam que fossem realizados eram muito diferentes. Esses vinham de crianças e adultos que fugiam da guerra, e o seu maior sonho era que a guerra acabasse e pudessem voltar a viver em paz, nas suas casas reconstruidas, nas suas terras, com as suas famílias, e que não precisassem de andar a fugir, nem de arriscar a vida em barcos frágeis como papel na água.
Outros pedidos vinham de crianças e familiares que tinham como maior desejo, o seu maior sonho era ter saúde, recuperar a saúde que tinham perdido. Também receberam pedidos de pessoas muito pobres, que tinham como maior desejo enriquecer, receber roupas, uma casa, e uma família que os amasse. Algumas crianças pediam carinho, colo de pais, atenção, sorrisos, comida.
Ficaram todos em silêncio, um silêncio tão profundo que se assustaram, quando despertaram daquela realidade que tinham acabado de receber, e choraram. Quando recuperaram, puseram mãos à obra, e prepararam todos os pedidos em conjunto, com muito carinho e muita alegria. Depois com tudo pronto, entregaram aos anjos, e estes distribuíram por quem os pediu. Todos assistiram felizes e orgulhosos, principalmente porque tinham realizado os desejos de quem não pedia sonhos que eram impossíveis!
A Natashinha acordou, feliz, porque pensou que tudo o que ela tinha acabado de sonhar, a realização daqueles sonhos mais bonitos, tinham mesmo acontecido. Mas...quando contou aos seus pais, estes disseram-lhe que tinha sido só um lindo sonho dela, mas infelizmente não se realizou. A menina ficou muito triste e desiludida. Os pais ficaram orgulhosos por ela querer ajudar e desejar coisas tão bonitas, mas sabiam que não iam realizar-se porque sabiam como era a realidade. Natashinha perguntou:
- Para onde vão os desejos e os sonhos que não se realizam?
- Vão para as estrelas lá em cima... - diz a mãe a sorrir
- Deixa-te de floriados...não vão para lado nenhum, ficam na nossa cabeça!- resmunga o pai
- Vão para as nossas orações e um dia vão realizar-se! - Diz a avó
- Como, avó?
- Se rezarmos todos os dias, juntos...!
- Áh!
- E deves continuar...devemos continuar a rezar todos os dias, a pedir os nossos desejos, e sonhos para nós e para os outros, mas só se vão realizar aqueles que forem generosos, não aqueles desejos e sonhos de dinheiro, e coisas.
- Entendo! Tu rezas, Avó?
- Claro que sim, e o teu Avô também.
- E as nossas orações vão para onde?
- Isso não sei, nunca as vi ir...sei que vão, para onde não sei.
- Tanta fantasia... - resmunga o pai
- Não devemos deixar de acreditar que um dia vai acontecer! - diz a mãe
- Pois claro! - Reforça a avó
- Para onde vão os nossos sonhos...? - Pergunta a Avó
Entra o Avô e responde:
- Para o vale dos sonhos não realizados.
- Onde é, Avô? Já foste lá?
- Não sei onde é! Nunca fui lá, mas sei que vão para lá...
- E quem os manda para lá? - pergunta a menina
- As nossas expectativas! - respondem todos em coro
- As nossas esperanças. - diz a mãe
- O nosso acreditar nos sonhos, e que eles se vão realizar! - acrescenta o Avô
- Talvez andem por aí a vaguear... - pensa alto a menina
- É... - respondem todos
- Porque é que os sonhos não se realizam? - pergunta a menina
- Não sei. - Respondem todos
- Porque acordamos deles e são interrompidos, desaparecem no ar quando abrimos os olhos. - Diz a menina
Mudam de conversa, e não pensam mais em sonhos. Mas é uma realidade...muitos dos nossos sonhos e desejos não se realizam. Para onde vão, de onde vem, como aparecem na nossa mente, quem os constrói, para que os temos, se não se realizam? Porque ficamos tristes, por não serem realizados? Porque enchemos os sonhos e desejos com demasiadas expectativas, acreditando que eles se vão realizar, quando não se realizam, ficamos tristes, porque as nossas expectativas não foram de encontro ao que imaginamos ou desejamos, às vezes são completamente diferentes.
Ainda é tudo um grande mistério, mas uma coisa é certa... precisamos de ter sonhos, é bom termos sonhos, mesmo sabendo que muitos não se realizarão, enquanto estamos a sonhar, tudo pode acontecer! As orações em grupo, feitas por cada um de nós, com o coração também poderão realizar o nosso sonho de ter saúde, paz, colo, carinho, família, muito mais do que se desejarmos ter coisas que não nos fazem tanta falta.
Experimentem rezar em conjunto, num grande conjunto, pela paz no mundo, e pela saúde dos doentes....quem sabe... talvez o nosso sonho saia do vale dos sonhos não realizados, e se torne uma linda realidade!
FIM
Lálá
(3/Julho/2018)
quinta-feira, 12 de abril de 2018
O coelho de orelhas enormes
Era uma vez um coelho com umas orelhas enormes. Apesar de todos os habitantes o gozarem, e rirem das suas orelhas, até lhe chamavam nomes feios, às vezes ficava triste, e não respondia às provocações, logo a seguir lembrava-se que era uma marca que distinguia toda a sua família dos outros coelhos, e até sentia orgulho, ficava feliz, sorria e andava pela floresta como se estivesse a desfilar.
Um dia, estava um dia tão quente de Verão que quase não se respirava. Um bando de formigas quase desmaiava, estavam a ficar quase torradas e desidratadas. Outros animais passavam por elas e só queriam encontrar sombra, por isso passavam rápido. O coelho passeava-se lentamente, abanava as suas orelhas e assim refrescava-se. Olhou para o bando de formigas, percebeu que estavam a precisar de ajuda, pôs-se de joelhos, inclinou-se sobre as formigas, e abanou-as. As formigas sentiram fresco, e ficaram muito envergonhadas porque também elas diziam mal das orelhas do coelho.
- Venham comigo, vou levar-vos a uma fonte onde se podem refrescar. Abriguem-se aqui debaixo das minhas orelhas ! - Diz o coelho
- Óh, não...não merecemos...nós dizemos mal das tuas orelhas. - diz a formiga chefe
- Não faz mal. Venham, vocês estão a precisar. - Insiste o coelho
Lá vão as formigas debaixo das orelhas de quem diziam tão mal, envergonhadas, e o coelho leva-as para a fonte. As formigas deliciam-se e refrescam-se com água da fonte, bebem e tomam banho, o coelho abana as orelhas, até faz vento, e as formigas recuperam.
- Muito obrigada, querido coelho! As tuas orelhas abrigaram-nos...
- E refrescaram-nos.
- Obrigada! Muito obrigada, amigo coelho!
- Desculpa-nos. Não vamos voltar a dizer mal das tuas orelhas!
- As minha orelhas são grandes mas servem para muitas coisas. São o que distinguem a minha família das outras famílias de coelhos. - Diz o coelho
- É verdade! - Dizem todas
- Vão para a sombra! Está demasiado calor, e bebem água.
As formigas abrigam-se à sombra, e o coelho continua o seu passeio. Ele conseguia passear mesmo com calor, porque as suas orelhas abanavam e refrescavam-no. Num outro dia, de frio e chuva, o coelho passeia e encontra um ninho com passarinhos pequeninos no chão, que quase ficavam congelados e ensopados. Sentou-se no chão junto ao ninho e abriu as suas orelhas, tapando o ninho para que não apanhassem chuva, e cobriu os passarinhos até os pássaros pais chegaram.
- O que estás a fazer, seu malvado? - Resmunga o pássaro pai
- O ninho dos seus filhotes caiu da árvore, eu estava a abrigá-los e a cobri-los, não lhes vou fazer mal. - Explica o coelho
- De certeza que não foste tu que deitaste o ninho abaixo? - Pergunta o pai pássaro desconfiado
- Absoluta! - Garante o coelho
Os passarinhos confirmam com o chilrear.
- Afinal as orelhas grandes não tem nada a ver com a bondade! - Comenta a mãe irónica
- Pois não! - Diz o pai pássaro.
- Obrigada, coelho! - Diz a mãe
- Óh... - Diz o pai pássaro, triste
- O que se passa, sr. Pássaro? - Perguntou o coelho
- Estou envergonhado, e devo-lhe um pedido de desculpas. - Diz o pássaro pai
- Não estou a perceber! - Diz o coelho
- É que... - começa o pai, e a mãe interrompe:
- É que ele não era muito simpático a falar de si, coelho, mas agora provou-lhe que afinal tem um coração grande.
- Sim, eu sei, entendo...tenho um coração grande como as minhas orelhas! - Diz o coelho a sorrir orgulhoso
- É... ! Desculpe! Que vergonha. - Diz o pai surpreso
- Não se preocupe, eu sei que todos me gozam por causa das minhas orelhas, dizem coisas feias sobre elas, mas eu não me importo, porque elas distinguem a minha família que tanto amo, das outras famílias de coelhos. Tenho orgulho nelas, e são úteis.
- Você, também foi muito útil. - Diz o pai
- Muito obrigada! - Dizem todos
- Quando precisarem de mim, chamem-me! Até já...
- Até já. - Dizem todos
Os pássaros põem o ninho num sítio mais abrigado e protegem-se do frio. Mais à frente, uns gatinhos pequeninos miam desesperados com a chuva e o frio.
- Venham cá. Abriguem-se aqui, nas minhas orelhas.
Os gatinhos ficam com medo.
- Venham. Não tenham medo, as minhas orelhas não mordem.
Os gatinhos metem-se debaixo das orelhas do coelho, o coelho enrola-as nos gatinhos para os aquecer, e abrigá-los.
- Estás à chuva, coelho?
- Não se preocupem. Querem ir para onde?
- Podes levar-nos para a nossa toca, por favor...?
- Claro que sim, onde é?
Os gatinhos explicam onde é, e ele deixa-os lá. Eles agradecem e quando o coelho sai, cruza-se com borboletas que voam desvairadas, e com dificuldade.
- Abriguem-se aqui... - convida o coelho
As borboletas agarram-se às orelhas do coelho, ele dobra-as e cobre-as até uma árvore onde elas costumam descansar. As borboletas gostaram tanto das orelhas dele que pediram para brincarem nelas num dia de sol. E o coelho prometeu que iria. Foi o que aconteceu no dia seguinte, que estava sol. Foi uma tarde tão divertida, com as borboletas a andar de baloiço nas orelhas do coelho, ele rebolou com elas na relva, ainda se juntaram às brincadeiras uns grilos e uns gafanhotos que andavam no campo.
Depois destes dias, todos aprenderam uma grande lição, a respeitar as orelhas do coelho, e sempre que precisavam dele, ele estava lá. Às vezes nem precisavam de pedir, porque andava sempre de um lado para o outro, e oferecia ajuda a quem percebia que estava em apuros. Mais nenhum animal disse mal das suas orelhas enormes, até porque elas serviam de guarda-chuva, guarda-sol, ventoinha, cobertor, baloiço e meio de transporte.
Realmente, o seu coração era tão grande como as suas orelhas enormes, de quem todos diziam mal, e chamavam nomes feios.
FIM
Lara Rocha
12/Abril/2018
sexta-feira, 16 de março de 2018
Uma chuva diferente
Era uma vez um grupo de meninos que estava no recreio da sua escola a brincar, e de repente, uma nuvem gigantesca, escura, paira sobre toda a aldeia no meio do monte. Os meninos assustam-se, e param de brincar. A professora recomenda-lhes:
- Meninos, abriguem-se. Vai chover a sério.
Os meninos gritam com medo, correm para o recreio coberto, ouvem um trovão estrondoso e começa a chover a sério. Parece uma chuva como qualquer outra, mas esta tem uma surpresa. Juntamente com a água, caem sementes e milhares de flores, de todas as cores. Esta chuva parece que canta, mas não é a água que canta, são os pássaros que ela traz, e flocos que parecem neve, mas são sementes de flores.
- Tanta chuva! - gritam todos
- Esta chuva canta. - Diz um menino
- Não pode ser! - Dizem todos
- Oiçam...
- Áh...pois é!
- Que estranho, nunca ouvi a chuva a cantar.
- Nem eu!
- Os meus avós já ouvem a chuva a cantar há muitos anos.
- Esse cantar é uma forma de dizerem que faz muito barulho quando cai. - Explica a professora
- Áh! E não canta?
- Não.
- Olhem...esta chuva traz flores... - Observa uma menina
- Uma chuva com flores?
- Não pode ser!
- Áh, mas é!
- Professora, eu acho que estamos a sonhar...
- Não! Isto é mesmo real.
- Que lindas flores...áh...
Quando para de chover, os meninos saem, uma senhora velhinha vai à escola, toca à campainha, e diz à professora:
- Querida professora, desculpe estar a interrompê-la, mas as suas aulas vão ter de terminar por hoje!
- Mas, porquê?
- Porque acabou de acontecer algo muito especial.
- O quê? Choveu...
- Sim, choveu, mas não reparou que era uma chuva diferente?
- Os meninos dizem que sim, e por acaso também vi, mas não estou a perceber porque é que as aulas vão ter de parar.
- Porque esta chuva tem uma mensagem, que todos vamos ter de encontrar.
- Uma mensagem? - perguntam todos
- Sim. Uma mensagem. Já se esqueceu da nossa missão anual, professora? A professora também tem de vir.
- Missão anual...?
A senhora sorri:
- E depois eu é que sou velha, louca e esquecida...está bem! Que dia é hoje, professora? Não pense mais, venha com os seus meninos. Não me pergunte mais nada, apenas, acompanhe-me, e acender-se-á uma luz na sua cabeça que só pensa em transmitir idiotices aos seus alunos, que não lhes fazem falta nenhuma. O que estão a aprender aqui, não vai ter qualquer utilidade para eles, não vai torná-los mais humanos, não vai ensiná-los a amar e a respeitar a natureza! Venham...
A professora fica sem palavras e pensativa, até um pouco ofendida por estarem a dizer mal do seu trabalho. A professora e os meninos seguem a senhora velhinha, sem saber o que iam fazer. Pelo caminho a senhora recomenda:
- Estejam de olhos bem abertos, porque a mensagem podem estar em qualquer lugar.
- E como é que nós a descobrimos? - pergunta uma menina
- Filha, isso saberás quando a encontrares.- responde a senhora
- Mas como é que ela é? - pergunta outra menina
- Saberás como ela é, quando a encontrares.
- Mas quem é ela? Uma rapariga...? - pergunta um menino
- Logo verás. - responde a senhora
- Estamos à procura de alguém que desapareceu? - pergunta outro menino
- Estamos! Desapareceu no dia 21 de Dezembro do ano passado.
- E só vão procurá-la agora?
A senhora ri e murmura:
- Santa ignorância.
Vão todos de olhos bem abertos, e veem flores por todo o lado, noutros sítios a terra borbulha, onde caíram as sementes que vinham na nuvem.
- Olhem, a terra está a fazer bolinhas. - Repara outra menina
- Boa! - diz a senhora
- Ali tem montes de flores! - repara outra menina
- Ali parece que as flores estão a formar uma letra...olhem...é um P.
- Isso mesmo! - Diz a senhora
- Ali, há outra letra feita de flores... um...
- R. - Gritam todos
- Sim. - Diz a senhora
- Encontramos duas letras feitas de flores. Um P e um R. Será que faz parte da mensagem que estamos à procura?
A senhora ri e não responde, mas aconselha:
- Continuem à procura!
- Está ali um I... aquela flor parece um I. - repara um menino
- Muito bem! - Diz a senhora
- I. - Gritam todos
Começam a ouvir os pássaros que vinham na nuvem a cantar, espalhados por muitas árvores, onde veem muitos ninhos, com passarinhos a chilrear felizes, ninhos com ovos ainda fechados, e relva fresca, gotinhas de chuva penduradas nos troncos das árvores, ainda sem folhas, e outras gotinhas em flores.
- Este som...já o ouvi antes.- Relembra outra menina
- Pois já! Era a canção que a chuva cantava há bocado! - Diz outra menina
- Pois era! - Confirma a professora
A senhora sorri. Mais adiante, veem outro grupo de flores que formam outra letra:
- Está ali um M. - repara outra menina
- Um M. - Gritam todos
- P...R...I...M... - soletra a professora
- Ainda falta. - Diz a senhora
Olham para todo o lado.
- Um A... - grita outra menina
- A! - Gritam todos
- P...- soletra um menino
- R...- soletra uma menina
- I... - soletra outro menino
- M...- soletra outra menina
- A...- soletra outro menino
- Prima...! - Gritam todos
- Ainda falta. Continuem à procura. - Diz a senhora a sorrir
Continuam a olhar para todo o lado, e outro menino encontra um V, feito de flores no meio de uma fonte com água corrente.
- Está ali um V...! - repara outra menina
- P...R...I...M...A...V... - Soletram todos em coro
- Procurem que vão encontrar mais... - diz a senhora
Andam mais um pouco, e veem um E, entre a relva verde a alta, que dança ao sabor do vento, e forma um V por onde passa.
- Ouçam o que a relva diz. - Aconselha a senhora
Faz-se silêncio, e ouvem o barulho do vento, que também mexe com os cabelos:
- Está a dizer Vvvvvvvvvvvvvvv.... - gritam todos
- Mas está ali em E...não tem nada a ver com um V...
- O E está ali, feito pelo vento, que diz...Vvvvvvvvvvvvvvvvv...Era só para ouvirem a felicidade do vento, e a obra de arte que ele fez. - explica a senhora
- Qual obra de arte? - Pergunta um menino
- Óh valha-me santa dormência...filhos, o que estamos à procura? O que é que encontramos? - pergunta a senhora
- Da mensagem.
- De letras.
- E não é uma obra de arte, que a Natureza faz? Letras com flores, com vento, com sons e pássaros...? Ai, ai, ai...tanta distração. Continuem a procurar.Não veem nada, não admira, estão sempre enfiados em livros e em salas... como hão-de conhecer o que se passa cá fora...- comenta a senhora
- Ainda há mais?- pergunta outra menina
- Claro que há! - diz a senhora
Olham para a frente e veem outra letra:
- R...! - gritam todos
- Muito bem! - diz a senhora
- Temos um...P...R...I...M,...A...V...E...R... - diz a professora
Andam mais um pouco e no monte, veem outra letra em flores:
- A...! - gritam todos
- Que susto...só sabem gritar! - Diz a professora
- P...R...I...M...A...V...E...R...A...! Primavera! - Gritam todos com um grande sorriso
- Já descobriram a mensagem que a chuva trazia... a Primavera. Mas mantenham-se em silêncio, a mensagem está incompleta. - diz a senhora
Quando ficam em silêncio, ouvem uma série de vozes a gritar Primavera...vozes de crianças, de adultos, gargalhadas, veem passar coelhos meios trôpegos a sair das tocas, e a correr desajeitados, ainda meios ensonados.
Ouvem cucos a cantar perto e longe, veem flores que estavam fechadas há muito tempo a abrir, e a mostrar toda a sua beleza.Veem bandos de lindas borboletas a voar graciosamente, e a dançar, joaninhas pousadas nas flores, e a fazer pequeninos voos, gotinhas de água a brilhar ao sol, e arco-íris pequeninos em cima da relva que abana com o vento.
Veem e ouvem gelo a estalar, pequeninos riachos a descongelar e a correr devagar para se encontrarem mais à frente na grande cascata, para onde se dirigem os meninos. Sons maravilhoso, cores por todo o lado, brilho, luz, animais, flores...tudo desperta!
Passa por eles uma linda e misteriosa mulher, muito leve, perfumada, que flutua, cheia de cores e flores, com um vestido fantástico de folhos.
- Olá! Cheguei...
- Primavera... - exclamam todos a sorrir
- Muito bem-vinda! - Diz a senhora
- Muito obrigada pela receção. Vemo-nos por ai...até já!
A primavera segue caminho, por outros lugares.
- Muito obrigada por nos mostrar coisas tão bonitas! - Diz a professora
- Muito obrigada! - Dizem os meninos
- De nada! Essa é uma das minhas missões...e venham mais vezes cá para fora, porque a Primavera gosta de ser vista, apreciada, sentida! Ela merece...
- Até logo. - Dizem todos
- Até logo.
Os meninos voltam com a professora para a escola, eufóricos, e fazem uma composição na sala, a contar toda a magia que presenciaram. Aquele momento foi mesmo especial.
E vocês, já viram a Primavera? Procurem-na...peçam à vossa professora para vos levar a ver a mágica Primavera, e descubram tudo o que ela traz. Ou desenhem as suas letras com flores...
FIM
Lálá
16/Março/2018
sábado, 10 de março de 2018
AS FLORES DO JARDIM DOS ABRAÇOS
Era uma
vez um jardim cheio de flores de variadas espécies, todas lindas, grandes,
vistosas, com cores encantadoras. Foram todas plantadas por uma civilização de
um povo índio, que vivia numa floresta longe da civilização.
Contam que um dia, cada índio dessa
tribo encontrou à sua porta um saquinho de sementes que não sabiam o que eram,
nem quem as tinha deixado lá. Pensavam que talvez fosse algum presente de um antepassado.
Mesmo não sabendo o que iria nascer
dali, nem de onde vinham, plantaram-nas com muito carinho. Quando as sementes
cresceram, perceberam que iam ser flores. Rapidamente elas começaram a crescer
e a mostrar toda a sua beleza de cores nas pétalas.
Além das maravilhosas belezas que
mostravam, estas flores poucos dias depois de estarem enormes, começaram a
mexer-se, no sítio onde estavam, mas pareciam dançar sem música.
Primeiro, os índios não queriam
acreditar no que estavam a ver. Discutiram entre eles e pensavam que estavam a
ver coisas que não existiam…seria um efeito hipnótico da beleza das flores.
Depois, voltaram a olhar para o
jardim e elas continuavam a mexer-se, os índios acharam tão divertido, mesmo
pensando que estavam a imaginar, e mexeram-se com elas, seguiram o seu ritmo e
repetiram os seus movimentos. A esses movimentos juntaram as danças deles, e as
flores repetiam-nos.
Os índios ficaram assustados. Que espécie
de flores tão estranhas, dançavam e repetiam as danças humanas. Nunca tinham
visto nada assim, nem tinham visto tudo, porque além de dançarem, as flores
ainda trocavam abraços entre elas, coisa que os índios não faziam.
Quando as flores se abraçavam,
ouviam-se risinhos. Os índios repetiram entre eles, mesmo sem saber que eram
abraços. Primeiro copiaram a medo, quase não encostaram os corpos,
encostavam-se e fugiam; com olhares desconfiados e tremores, gritinhos,
benziam-se assustados.
Mas ao ver que as flores ficavam com
as suas cores mais brilhantes e vistosas, riam, e pareciam mesmo gostar, os
índios tentaram outra vez, e sentiram que podia ser bom. Mesmo assim, ainda
abraçavam superficialmente.
As flores continuaram a abraçar-se,
e os índios repetiam, até que perceberam que afinal era bom, e gostavam tanto
que começaram a dar abraços mais longos, mais carinhosos, e sentiam-se felizes,
com uma energia melhor e mais bonitos, com sorrisos mais abertos.
As flores tinham uma mensagem e uma
missão muito importante, que era ensinar os índios a abraçar, e não sabiam, mas
elas foram enviadas por antepassados. Quando perceberam que os abraços
aprendidos com as flores eram tão bons, tão confortáveis e cheios de coisas
boas, estes passaram a fazer parte do seu dia-a-dia, das suas tarefas, muitas
vezes por dia, sempre que se encontravam, tal como o dançar com as flores.
Esta é a lenda das flores do jardim
dos abraços.
FIM
Lálá
10/Março/2018
sexta-feira, 9 de março de 2018
O CAVALO SOBRE AS ONDAS
Era uma vez um lindo cavalo com asas que vivia numa aldeia de nuvens, com a sua enorme família, onde tinha tudo. Ele sentia-se feliz na sua aldeia, mas às vezes gostava de sair e ir para a praia, que ficava por baixo. Para lá chegar tinha de atravessar apenas um fofo, claro e macio caminho de nuvens.
Não se via todos os dias, aliás, ele
fazia de tudo para ir à praia sem ser visto. Quem estava na praia de dia, às
vezes viam-no, mas pensavam que eram nuvens juntas a formar a imagem de um
cavalo. Outras vezes, aparecia de noite, quando a lua era tão grande e luminosa
que quase parecia mergulhar.
Quando ia de noite, cavalgava sobre as
ondas pequeninas que cresciam com o pisar das suas patas. De dia, cavalgava
longe da costa, e só refrescava as suas asas, algo que adorava fazer.
Um dia, de noite, com a lua enorme e
luminosa, lá foi ele…atravessou o caminho e cavalgou por cima das ondas grandes
até quase à areia, a sentir a aragem agitar-lhe suavemente as crinas. Tinha muita
vontade de conhecer a areia, saber o que se sentia nas patas, se era macia ou
áspera, quente ou fria, ou se tinha cheiro.
Deu mais uns passinhos e olhou para
trás.
- Áh…a paisagem que
se vê daqui é muito diferente! Nunca tinha visto. Que linda lua! Como o mar é mesmo
interminável…já parecia não ter fim, mas daqui é muito maior. E a brisa…também
é mais fresca, aqui. Ali não sinto tanto, ou é mais leve. E a areia...?
Finalmente pôs as suas patinhas na
areia, primeiro a medo, tocou um bocadinho e tirou rapidamente. Voltou a tocar,
e a recuar outra vez. Até que decidiu pousar totalmente as patas na areia
molhada, mas não sabia que se chamava assim.
- Áh…é…macia e fria. Mas
acho que está molhada, parece…grossa…é parecida com lama.
Caminha mais para cima, na areia seca, ao
longo da praia, sempre atento a tudo o que sentia.
- Agora a areia está
mais quente, é mais fina, e parece que está…seca. É diferente. A brisa também é
mais forte. Tanto espaço…tanta areia. Então é aqui que as pessoas se deitam, ou
será ali? Se calhar é nos dois sítios, quando há sol. É muito agradável.
Estava encantado com aquela experiência,
mas ainda queria saber mais. Decidiu sentir a areia com o corpo todo, estendeu
as patas, sentou-se, mexeu-se livremente, e gostou tanto que se esfregou
totalmente, rebolou na areia, às gargalhadas, esfrega com as patas, levanta a
areia:
- Faz cócegas…que
maravilha! É mesmo macia. Áh, áh, áh…
Sacode-se, para e olha para a paisagem à
sua frente.
- Uau! Isto é lindo!
Fecha os olhos, inspira, expira, e sente
o cheiro a maresia:
- Áh…que cheiro é este…?
Vem dali…é…do mar? Hum, que agradável.
Fecha os olhos outra vez, sente o cheiro
a maresia, a aragem suave a mexer nas suas crinas, e o som do mar suave, ao
longe, pareciam sussurros. Abre os olhos, vê a lua gigante e sorri.
- Que linda que está
a lua. Adoro esta paisagem, a aragem, este som.
O vento sopra mais forte, e assobia
entre as folhas das palmeiras:
- Quem está aí?
Olha em volta e não vê ninguém, mas ouve
outra vez o som:
- Áh…é o vento! Gosto
deste som!
O cavalo levanta-se, e cavalga mais um
pouco por aquele espaço.
- Maravilhoso! Obrigado,
Natureza, por este sítio, por tudo o que há aqui. Adoro o sítio onde vivo, mas
aqui também parece um lugar de sonho. Vou voltar para a minha aldeia…mas vou
voltar aqui outro dia!
Regressa ao mar, cavalga pelas ondas sem
pressa, para e volta a olhar para trás. Cavalga mais um pouco e regressa a
casa, quase hipnotizado com tanta beleza.
Conta
à família, e vão todos à praia. O mar ganha ondas enormes, com tantos cavalos a
cavalgar, dirigem-se para a areia, e experimentam o mesmo que o cavalo. Ficam tão
felizes, e gostam tanto daquele sítio, daquelas sensações que fazem uma festa e
divertem-se até ao nascer do sol, que também ficam a ver da praia, e só de manhã
regressam para a sua casa.
FIM
Lálá
9/Março/2018
Etiquetas:
areia,
brisa,
família,
fantasia; sensações; natureza,
história infantil; cavalo com asas; nuvens,
lua,
ondas,
praia
Subscrever:
Mensagens (Atom)





