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sexta-feira, 16 de maio de 2014

A PISCINA DAS BOLAS

                                                                        foto de Lara Rocha 


Era uma vez uma montanha muito alta, onde não vivia lá ninguém. Esta montanha ficava num sítio onde ninguém sabia sorrir. As pessoas da cidade andavam sempre carrancudas, e não se cumprimentavam.
            Um dia, os antepassados da aldeia, observaram atentamente das nuvens as reacções das pessoas.
- Não posso acreditar! Francisco olha para aquelas carantonhas? – Diz a Senhora Andreia
- Que medo! – Diz o Senhor Francisco  
- Aquilo são pessoas? – Pergunta a senhora Dára
- São. – Respondem Francisco e Andreia.
- Mas que estranhos que eles são…acho que até o homem das cavernas saberia sorrir. – Diz a Senhora Dára
- Alguma coisa não está bem! – Constata Fernando
- Pois não! – Acrescenta Emília.
- Acho que devíamos fazer alguma coisa para melhorar aqueles ares pesados. – Sugere a Senhora Dára.
- Sim, mas o quê? – Pergunta Sr. Francisco
- Tenho uma ideia…- Grita Emília
            Emília conta a sua ideia, todos estão de acordo e põem mãos à obra. Preparam uma enorme piscina de plástico, insuflável, cheia de bolas coloridas que fazem cócegas quando se pega nelas. Ao lado, põem uns trampolins com protecções, camas elásticas, arcas de bolas de sabão que saem aos milhares, pistas de gelo, piscinas quentes, corredores com sol e com neve, escorregas, baloiços e um restaurante.
            Pegam em tudo isso, e muitas nuvens levam-nas para a Terra, pousando-as no centro da cidade durante a noite.
- Tudo pronto! – Grita Emília.
- Está óptimo! – Elogia Fernando
- Agora eles vão sorrir, tenho a certeza. – Diz a Senhora Andreia, convicta.
- Com certeza! – Reforça o Sr. Francisco
- E a música, onde está? – Pergunta a Senhora Dára
            Aparece uma nuvem roxa muito pesada que traz a aparelhagem.
- Áh! – Dizem todos aliviados
- Só podias ser tu…- Comenta o Sr. Francisco
- E o que é que tem, ser eu? – Pergunta a nuvem roxa
- Estás velha e és pesada. – Responde o Sr. Francisco
            Ouve-se um trovão. A nuvem roxa estoura de zangada, em cima do Sr. Francisco, e molha-o todo.
- Olha o respeito! Já te viste ao espelho? Para a próxima mando-te um raio. – Ameaça a nuvem roxa.
- Desculpa…saiu-me! – Diz o Sr. Francisco
- Preconceituosos…só porque sou mais lenta e estou pesada, já sou velha? Faço as mesmas coisas que vocês. Mais ninguém se lembrou da música, só a velha não foi…? E a velha sou eu, imaginem se eu fosse nova como vocês! – Comenta a nuvem roxa
- Podes pôr ali a música, por favor? – Pede Andreia
- Ora vês…? Com certeza, querida Andreia. Ensina o careca como é ser educado. – Diz a nuvem roxa
- Careca? – Diz o Sr. Francisco muito indignado.
- É o que tu és…não é? – Comenta a nuvem roxa a rir
- Estás a vingar-te! Está bem…eu entendo
- Eu? A vingar-me? Não…! – E ri-se.
            Coloca a aparelhagem onde lhe pediram, sorri e todos dizem
- Muito obrigada.
            Vêm se está tudo a funcionar bem, e voltam para as nuvens. Na manhã seguinte muito cedo, as primeiras pessoas que se levantam ficam muito espantadas ao ver aqueles brinquedos todos.
- Áááááááááááhhhhhh…!
- O que é isto?
- O que vai haver aqui?
- Quem pôs isto aqui?
- Não está ninguém?
            Olha, e voltam a olhar para todos os brinquedos, e os antepassados sorriem. A nuvem roxa liga a música, todos estremecem, e olham para todo o lado. A nuvem roxa diz aos gritos:
- Bom dia! Gente…vamos lá largar essas trombas enormes…onde estão os vossos sorrisos? O sol sorri mais que vocês…sorri para vocês, e vocês retribuem-lhe com trombas! Ingratos! Vamos…tudo isso é para experimentarem. Um…dois…três…toca a sorrir.
            Os habitantes estão assustados, e não sorriem nem se mexem. A nuvem roxa chama outra vez a atenção:
- Experimentem…nada disso morde! Vamos…
            As crianças são as primeiras a experimentar. As cores das bolas chamam-lhes a atenção. Ouve-se uma música alegre e as crianças saltam para a piscina. As bolas começam a fazer-lhes cócegas. Elas começam às gargalhadas, e a mexer em todas as bolas.
Contagiam-se umas às outras, e todas começam a rir…a seguir, como se fosse uma epidemia, os adultos também começam a rir de ouvir o riso das crianças, e experimentam as camas elásticas. Eles gritam, saltam e riem como as crianças, andam em todas as brincadeiras, brincam com as crianças, riem às gargalhadas, rebolam, entram na piscina das bolas, dançam, e o melhor de tudo é que começam a sorrir uns para os outros, a trocar abraços e carinhos, a dar as mãos e a partilhar os brinquedos como as crianças.
É lindo de ver. Os antepassados estão felizes e orgulhosos.
E desde esse dia, a aldeia nunca mais foi a mesma! Desapareceram as caras trombudas, e apareceram caras com grandes sorrisos, e olhos brilhantes. Todos os habitantes da aldeia tornaram-se uma verdadeira e grande família, todos amigos, todos risonhos e sorridentes uns com os outros, começaram a fazer muitas festas, juntos. Ganharam mais saúde.
            O riso faz mesmo milagres. E vocês riem muito?
            Façam o favor de rir muitooooooo….

                                                           FIM
                                                           Lálá
                                                           (16/Maio/2014)
                                                            




terça-feira, 13 de maio de 2014

A SEMENTINHA

 

    Era uma vez uma sementinha pequenina que estava pousada em cima de uma pétala de rosa vermelha, grande, linda, macia…parecia de veludo. 
A sementinha tinha sido levada pelo vento, e já vinha de muito longe, aos trambolhões, às cambalhotas, aos tropeços, às cabeçadas…estava muito cansada e toda amassada.
       Quando sentiu a pétala, suspirou de alívio:
- Áh! Que alívio! A viagem terminou! Ufa! Não sei como resisti!
- Está alguém, ou alguma coisa em cima de mim…estou a ouvir uma voz…- Diz a pétala
        A semente estremece assustada:
- Óh, não…parece que a viagem afinal não terminou. Onde vou agora?
- Olá! Quem és tu? – Pergunta a pétala
- Sou uma semente. Ou…pelo menos era! Agora não sei se ainda sou!
- Áh! Sim! És uma semente. Estou a ver-te.
- Estás a ver-me? Boa! E como estou?
- Estás com um ar muito abatido!
- É! Mas estou inteira, ou falta-me alguma coisa?
- Estás inteira! Mas não estás a dizer coisa com coisa…
- Desculpa…estou muito cansada. Vais mandar-me embora, eu sei. Tens razão! Estou onde não devo.
- Não, nada disso! Fica à vontade! Não te vou mandar embora, descansa.
- Óh! Muito obrigada. Vim de muito longe, dei muitas cambalhotas, cabeçadas, tropeções…
- Onde?
- Pelo caminho, nas árvores, nos vidros das casas, nos telhados, no chão…era onde calhava.
- Magoaste-te?
- Um pouco.
- Precisas de curativo, ou de alguma coisa?
- Não! Acho que não!
- Mas como vieste aqui parar?
- Vim trazida pelo vento.
- De onde?
- Não sei…sei que…quer dizer…eu acho que vim de muito longe!
- Óh! Coitadinha…então descansa!
- Muito obrigada. Gosto muito destas pétalas.
- Obrigada. Dorme bem.
      E a sementinha dome muito tempo. Começa a chover e a trovejar muito nesse dia e nesse sítio. A pétala da rosa fecha-se, protege e aquece a sementinha, que não se apercebe de nada, de tão confortável que está.
    Enquanto a tempestade dura vários dias, a sementinha fica na pétala fechada. O sol abre, a pétala também abre, a sementinha acorda feliz e cheia de energia. Tira o casaco e salta para a terra.
   A sementinha gosta tanto dessa terra onde estão as rosas, que muda-se para lá, instala-se confortavelmente, e está protegida.
  O tempo vai passando e aquecendo, e a sementinha quer apanhar ar…abre a janelinha da sua casa, e põe a cabecinha de fora, com chapéu. 
     Com o sol e com a chuva, a sementinha cresce, alarga e transforma-se numa linda rosa, em tons de vermelho nas pétalas, e macias como as outras.
     As outras flores saúdam-na, ficam encantadas com ela, e dão-lhe as boas vindas. Depois deste dia elas passam a ser uma verdadeira família de belas rosas, todas diferentes umas das outras.
  Às vezes encontramos plantas e flores nos nossos jardins, que não sabemos como foram lá parar…pode muito bem que uma sementinha como esta, que sai de uma terra e vai para a outra, onde se sente muito bem. 
   Esta é uma das muitas prendas que a mãe natureza nos dá…e quantas vezes não reparamos nelas, não é?
    Experimenta passear um dia, por um jardim habitual, e repara em todas as flores que há lá…se voltares a esse sítio uns dias mais tarde, vê se existem as mesmas flores que viste, ou se vês outras.
     Se fosses uma sementinha como esta, de onde terias saído?
   Terias sido levada pelo vento, sozinha ou de outra maneira?
      Essa nova terra tinha mais flores?
     Ficava muito longe ou perto do sítio de onde tinhas saído?
       Serias uma sementinha de quê?
Se quiseres desenha essa sementinha e o espaço onde ela se instalou, ou a flor que teria essa sementinha.

FIM
Lara Rocha 
(13/Maio/2014) 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

AS SAPATILHAS

       



      Era uma vez um menino pequenino que se lembrou de ir passear sozinho para o campo, onde os seus pais e avós trabalhavam. De repente, quando vai a correr, aparece-lhe um lobinho bebé. Menino e lobo gritam frente e frente, um para o outro, de susto.
-Ááááááááááhhhhhhhhhhhhhh….Aúúúúúúúúúúúúúúúúú…
O menino desata a correr de medo para um lado, e o lobinho para outro. Pelo caminho, as sapatilhas saem-lhe dos pés, e o lobinho que correu atrás de si, para lhe pedir desculpa, tropeçou nas sapatinhas, caiu e rebolou pelo campo fora, só parando contra uma árvore. Os passarinhos começam a rir às gargalhadas.
- Bem-feito, lobo atrevido! – Comenta um passarinho a rir
- Ei…eu sou um lobo pequenino! Qual é a piada?
- Estavas a perseguir o menino, tropeçaste nas sapatilhas dele…
- Malditas sapatilhas ou lá o que é…para que é isto serve? Eu não ia fazer-lhe mal.
- Ouvi-o a gritar…! – Diz outro passarinho
- Eu também gritei. Assustamo-nos um com o outro. Mas eu ia atrás dele para lhe pedir desculpa. – Explica o lobo
- Tu és malvado…não acredito em ti. – Diz outro passarinho
- Olha que salto já aí para cima, para veres quem sou realmente! – Ameaça o lobo
- Não precisas…! Eu vejo-te!
- Estás a dizer que sou mau…não sou.
- Ai não? Mas estás a ameaçar-me…
- Não! Ai…ninguém me compreende…toda a gente tem medo de mim! – E começa a chorar
- Não acredito nessas tuas lágrimas! – Comenta outro passarinho
- Mas devias acreditar…ele está mesmo triste! – Comenta uma lobinha que passa naquele momento
- O quê? – Perguntam os passarinhos em coro
- Outro? – Diz outro passarinho
- Outro quê? Vocês não entendem nada! – Diz a lobinha
- Vocês são maus e perigosos! – Dizem os passarinhos em coro
- E vocês são preconceituosos e racistas. Só porque uns totós se lembraram de inventar que somos maus, vocês já acreditam! Francamente. Ele está a falar verdade. – Diz a lobinha
- Claro! Estás a defender os da tua família. – Diz outro passarinho
- Não. Se fosse mau, eu seria a primeira a dizer, mesmo que fosse da minha família.
- A sério?
- Claro que sim.
- Vou-me embora! – Diz o lobinho triste
- Vou contigo! – Diz a lobinha
- Eu tropecei nesta porcaria… - Diz o lobinho
O lobinho fica todo esfolado, e não corre mais atrás do menino. Dá um pontapé nas sapatilhas, muito nervoso, e atira-as para a cabeça de um bode que estava muito tranquilo a pastar.
As sapatilhas ficam encaixadas nos cornos do bode. Todos os outros animais riem às gargalhadas.
- O que é que está na minha cabeça? – Pergunta o bode
- Umas coisas encaixadas nos cornos. – Responde a sua esposa cabra
- Mas o que é?
- São umas coisas…não sei o quê!
         O bode dá com os cornos no chão e as sapatilhas caem.
- Que coisa estranha…tem um cheiro diferente! – Diz o bode
- É aquilo que os humanos calçam nos pés. – Diz a cabra
- Como é que uma coisa de pés de humanos vem parar aos meus cornos? Que porcaria…cheira mal. – Resmunga o bode
         O Bode dá umas marradas nas sapatilhas e com um coice, manda-as para longe. Todos riem. As sapatilhas vão ter ao campo de baixo onde andam cães e cavalos, a correr. Caem no campo, passa um cavalo a correr e quase esmaga as sapatilhas. Não as vê.
O cão vai a correr e encaixa as sapatilhas em duas patas. Por causa disso dá uma valente cambalhota. Os cavalos riem. O cão nervoso sacode as patas e manda as sapatilhas para o chiqueiro, acertando em cheio no lombo de um porco. O porco grunhe nervoso, e estremece.
- Que susto! O que é que me acertou? Pedras? – Pergunta o porco
- Podemos jogar à bola com isso… - Diz outro porco
- Boa! – Gritam todos os porcos
         Fazem equipas, e jogam à bola com as sapatilhas, muito divertidos, com muitos trambolhões, cambalhotas e gargalhadas entre si. Quando o menino recupera do susto e volta para trás, repara que não tem as sapatilhas.
- Parece que o lobo já se foi embora…que susto! Agora…vou voltar para casa, espero que aquele malvado não apareça outra vez. Estou descalço? Onde estão as minhas sapatilhas? Devem estar por aí…
         O menino volta pelo mesmo caminho, a olhar para todo o lado, para ver se o lobinho não aparecia, e se encontrava as sapatilhas. Ele vê uma grande confusão e poeirada no chiqueiro.
- Os porcos andam à luta?
         O menino aproxima-se.
- Ei…o que se passa, porcos?
         Os porcos param de jogar e olham para ele.
- Estamos a jogar à bola…queres entrar? – Convida um porco
- Está bem!
         Ele entra no chiqueiro e nem quer acreditar…
- Não acredito! Vocês estão a jogar à bola, com as minhas sapatilhas? Olhem para elas…que nojo…
         Os porcos ficam envergonhados.
- Desculpa, miúdo…não sabíamos que eram as tuas sapatilhas.
- Mas são…como é que elas vieram aqui parar?
- Boa pergunta…acertaram-me no lombo e não sei como aconteceu.
- O quê?
         O porco conta a história do que aconteceu. O menino fica muito zangado. Pega numa bola que está no chiqueiro e joga com eles divertido. O Avô vai à procura dele, e chama-o.
- Estou aqui, Avô!
- O que estás a fazer no chiqueiro, filho? Olha para ti, todo sujo…
- Estive a jogar à bola com os porcos. Foi muito divertido, Avô…tens de jogar também com eles.
- Mas que disparate! – O Avô ri às gargalhadas.
- Quer jogar? – Pergunta um porco
- Vamos lá! – Responde o Avô.
         Avô e neto jogam à bola com os porcos, divertidos, com muitas gargalhadas.
- Mas que bem que os porcos jogam…sim senhora! – Diz o Avô a rir – Mas agora chega. Vamos embora.
- Obrigado, porcos…até logo.
         Os porcos grunhem, felizes. O menino pega nas sapatilhas e vai com o Avô de mão dada.
- Olha para essas sapatilhas! Que imundas…
- Avô…elas já andaram por muitos sítios hoje, até chegar ao chiqueiro…para fugir de um lobo bebé.
- O quê? Tiveste medo de um lobo bebé?
- Tive…e as sapatilhas fugiram-me dos pés, enquanto corri.
- O lobinho não te ia fazer mal.
- Não?
- Claro que não.
- Ele uivou.
- Pois…coitado do pobre…ficou com tanto medo como tu!
- Achas que ele teve medo de mim?
- Tenho a certeza.
- Mas eu tive mais medo dele.
- Talvez não.
- Ele deve ter voltado para casa…
- Pois. Fugiu como tu.
- Sim.
         Os dois conversam alegremente até casa. Ao chegar a casa, a mãe assusta-se, mas depois ri-se com o aspeto do Avô e do neto. Os dois contam o que aconteceu, e tomam um belo banho. A mãe lava as sapatilhas e põe-nas a secar.
       Mas que grande confusão que umas sapatilhas provocaram! E vocês? Arrumam as vossas sapatilhas ou deixam-nas no meio do caminho?
Se as deixam desarrumadas, é melhor arrumá-las para não caírem, nem vocês, nem os vossos pais. Podem magoar-se muito! Como elas são para andar nos pés…devem ficar no sítio dos sapatos…não é? Ou debaixo da cama…

FIM
Lara Rocha 
(9/Maio/2014) 

terça-feira, 6 de maio de 2014

A costureira de ondas



Era uma vez uma senhora já com muita idade, mas parecia muito jovem, e realmente, o seu interior era ainda de uma criança. Ela vivia sozinha, mas recebia sempre a visita de muitas amigas, todos os dias que iam lanchar a casa dela, conversar, rir e fazer arranjos ou roupas.
Era uma senhora muito bem-disposta, risonha, brincalhona e muito feliz. A sua casa ficava perdida num pinhal, e perto de uma praia, onde raramente iam pessoas, por ser de acesso difícil.
Mesmo assim, ela ia lá muitas vezes, com as amigas e sozinha. Gostava muito de se sentar no seu terraço, onde via o mar, e na areia. Enquanto ela olhava para o mar sonhava, imaginava, e depois, bordava todos os seus sonhos nas ondas.
Bordava em tecidos azuis, ondas muito grandes e redondas, com linhas de vários tons de azul, e verde, tal como ela via o mar em cada dia. Além das ondas, ela bordava o que tinha imaginado enquanto olhava para o mar, e às vezes eram coisas mágicas, objectos marinhos como conchas, algas, búzios, peixinhos, pedras, estrelas-do-mar, gaivotas, barcos, pescadores, sereias, golfinhos e muito mais.
Uma imagem mais bonita que a outra…cada linha do tecido, cada cor que ela utilizava, tinha um significado! Contava um pedacinho da sua imaginação, e do que ela tinha sentido, ou pensado nesse momento!
Geralmente, os seus sonhos eram felizes, porque todos os bordados eram muito coloridos, outras vezes, quando se sentia mais triste, bordava ondas gigantes, com círculos enormes, cores mais escuras e linhas brancas mais grossas, pareciam verdadeiras tempestades.
Um dia, numa noite de tempestade, o mal ficou louco de fúria, e o vento, juntamente com a chuva e a trovoada, engoliram a areia e chegaram ao pinhal. A chuva parecia pedra a cair e a bater nos vidros, com tanta força que quase os partia. O vento soprava tão forte, fazia muito barulho…até arrepiava a espinha, e quase deitava as árvores do pinhal abaixo…elas pareciam bailarinas para um lado e para o outro, folhas contra folhas, como se dessem cabeçadas, e partiram-se muitos caninhos. Caiam dezenas de pinhas, que eram atiradas pelo vento, contra a porta e contra o telhado da casa. a trovoada era tão forte, que viam-se flashes de trovões a iluminar tudo, e depois uns estrondos tão grandes, que a casa até abanava…que medo! Parecia um filme do fim do mundo.   
A costureira estava muito assustada, estremecia, encolhia-se, aconchegava - se mais nos cobertores, e os terríveis trovões rebentavam mesmo por cima da casa. Não havia maneira de fugir.
Como se tudo isto não bastasse, as ondas gigantes, subiram a praia e entraram por baixo da porta da sala. Molhou tudo. Até alguns trabalhos que a senhora tinha feito ultimamente sobre o mar.
Uma onda viu os trabalhos e ordenou:
- Meninas…vamos embora! Esta casa não é para estragar…olhem nós aqui!
            As outras ondas apreciam:
- Áhhh! Que bonitas…!
- Uau! Nós somos assim?
- Ááááhhh…
- Olha que bem que estamos!
- Lindas!
- Esta é casa daquela senhora que vai sempre à praia olhar para nós…
- Ááááhhh…!
            E as ondas levam os trabalhos da senhora. Saem a porta, e ficam a ler os bordados no pinhal. As ondas percebem a linguagem dos sonhos, por isso, tudo o que a senhora bordou, elas lêem, e comentam umas com as outras.
- Áh! – Suspiram todas as ondas encantadas.
- Mas que maravilha esta senhora!
- Olha que linda…
- Áhhh…ela aqui estava mesmo triste…
- Coitadinha!
- Olha como ela nos pôs aqui…parecemos uns monstros.
- Deve ter sido num dia parecido com o de hoje.
- Sim, estávamos mesmo zangadas.
- Pois era!
- Ááááhhh…que romântica!
- Ai, até fico comovida.
- Óh mulher, segura lá essas lágrimas. Já há aqui água que chegue.
(Todas riem)
- Pois…já me esquecia que sou água salgada…
(Riem)
- Que sonhos tão bonitos, que tem esta senhora.
- Olha, até está aqui a nossa sereia…
-Áh! Pois é.
- Meninas…olhem esta história…Ááááhhh…
            Elas lêem, encantadas, suspiram, sorriem, riem e choram, conforme o que a senhora bordou. A tempestade acalma. A senhora vai à sala, e vê tudo encharcado.
- Áh! Não posso acreditar…está tudo molhado. O mar entrou aqui…! Os meus últimos bordados…? Ai…lá foram eles, com o mar…
            Ela ouve uma voz:
- Estão aqui connosco.
- Estamos aqui.
            Ela abre a porta e vê que há ondas no pinhal. As ondas dizem em coro:
- Boa noite, bela senhora.
            Quem está aí?
- As ondas…!
- O quê?
            As ondas explicam à senhora, e conversam um pouco, depois do susto:
- Sim…nós chegamos até aqui, trazidas pelas trovoadas e pelo vento.
- Que noite! Parecia o fim do mundo.
- Não se preocupe com os seus trabalhos. Estão inteiros…
- Onde?
- Aqui, connosco.
- Mas quem deu autorização?
- Desculpe o abuso…mas vimo-nos aqui nos tecidos, e gostamos tanto, que lemos os seus sonhos, e os seus sentimentos.
- Áh! Sim…? – Diz a senhora a sorrir
- São lindos!
- Estamos embaladas pelos seus sonhos…e sentimentos.
- A sério?
- Sim.
- Vocês entendem a linguagem dos sonhos?
- Sim!
- Conseguimos entender cada desenho seu.
- São bordados.
- Lindos!
- Como faz isto?
- Com linha, e agulha.
- Que delícia.
- É romântica…e às vezes também fica triste.
- Claro.
- Mas nota-se que é uma senhora feliz.
- Sim, isso é verdade. Muito feliz.
- É. Usa muita cor, e escreve palavras muito boas, bonitas, sonoras…
- Para algumas pessoas, não passam de desenhos, mas para mim, têm muitos significados.
- Pois claro! E nós entendemos.
- Que coisas mais lindas…
- E sentimos que gosta de nós.
- Também…muito. Vou ver-vos todos os dias, e depois, passo para os tecidos, o que me disseram nesse dia…o que eu senti…o que eu vi, ou que imaginei.
 - Muito obrigada.
- Por favor, vá visitar-nos mais vezes, e leve os seus desenhos…
- Está bem! Fica prometido.
- Nunca deixe de desenhar o que sente, e nunca deixe de sonhar.
- Pois não. Isso é o que me mantém viva, jovem, apesar da idade, e quebra a solidão.
- Quando se sentir sozinha pode vir ter connosco.
- Está bem. Irei. Posso pedir-vos uma coisa?
- Claro.
- Façam-me um carinho, por favor…
- Mas…
- Vai ficar molhada.
- Cheiram tão bem. Vá lá…toquem-me.
- Mas, olhe que estamos frias…
- Não faz mal. Eu quero sentir-vos.
- Mas nós não queremos que fique doente.
- Não…
            E as ondas aproximam-se devagar, carinhosa e delicadamente da senhora, dos seus pés, e acariciam-na. Ela molha os pés, e as mãos. Dá uma gargalhada, como se fosse uma criança. As ondas riem com ela. E brinca com as ondas, chapinha, senta-se, acaricia-as e molha-se, ri, e as ondas riem com ela, dançam juntas, e trocam carinhos.
O sol está quase a nascer. A senhora está, como se tivesse dormido a noite toda. Levanta-se do pinhal, feliz e sorridente, as ondas voltam para a praia, também felizes.
Ela entra em casa, toma um bom banho quente, e um bom pequeno-almoço, veste uma roupa quente, acende a lareira, e pega num pano azul. Enquanto se aquece, põe-se a bordar o que aconteceu e o que sentiu.
Primeiro…bordou a tempestade, o medo, os barulhos, o vento, a chuva, as pinhas a bater no telhado e nos vidros, os trovões…cores escuras…depois…bordou a parte mais feliz! O seu encontro com as ondas, as conversas, as brincadeiras, as carícias, e o que sentiu.
A senhora já tinha construído milhares de bordados com momentos e sentimentos felizes, mas este último, tinha sido o bordado mais completo e mais especial.
No final do quadro, bordou uma senhora, com uma criança dentro dela. Isto queria dizer que naquela noite, ela sentiu-se criança outra vez, e foi por isso que ficou tão feliz!
Como tinha prometido, levou o bordado à praia e mostrou às ondas. As ondas aplaudiram, vaidosas e emocionadas. Cada onda beijou o pano carinhosamente.
Essa felicidade, tal como a criança que ela bordou dentro do corpo da senhora, passaram a fazer parte dos seus dias.   

FIM
Lálá
(6/Maio/2014)