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terça-feira, 24 de outubro de 2023

Monólogo: Gratidão ao meu amor passado

 


Gratidão ao meu amor passado.


NARRADORA - Uma rapariga quer fazer as pazes com o passado, um amor que ela pensou ser para sempre, mas acabou de uma semana para a outro, depois de um pedido de casamento.

Como ela estava iludida! E todas nós ficamos iludidas, mas nem sempre é como imaginamos. Confiamos plenamente, e de repente, tudo se desmorona. Como é possível? Estavam sempre a dizer...aos anos que vai…vira a página, já devias ter arranjado outro. Ele arranjou logo outra, trocou-te, tu devias fazer o mesmo, isso ajuda a esquecer mais rápido.

Já devem ter ouvido isso, de certeza! Mas concordaram? É assim tão fácil? Claro que não, para ele pode ter sido, mas para mim, e para nós, mulheres, nem sempre é assim tão fácil.

Uma série de anos depois, resolveu escrever uma carta positiva, de agradecimento pelos bons momentos, os que devem prevalecer para ajudar a diminuir a raiva, o ódio, a vontade de vingança.


- Gratidão, gratidão, gratidão pela boa escolha do local onde me pediste em namoro, e pela simplicidade com que o fizeste! Gratidão, gratidão, gratidão, pela nossa música, que acompanhou e marcou o início do namoro, naquele sítio de sonho.

Gratidão, gratidão, gratidão, a ti, que te chamei «meu amor» enquanto durou, e tu a mim que me tratavas carinhosamente por «mor». Gratidão, gratidão, gratidão a ti, meu amor passado, pela oportunidade de te mostrar o que eu era sem máscaras, pela possibilidade de me conhecer como namorada, e perceber como sabia amar.

Gratidão, gratidão, gratidão, pela oportunidade recíproca que demos um ao outro, de viver o amor, a amizade, e tudo de bom que vivemos. Gratidão, gratidão, gratidão, por todas as palavras bonitas que ouvi de ti, gratidão, gratidão, gratidão, por todas as gargalhadas que dei contigo.

Gratidão, gratidão, gratidão, a ti, meu amor passado, por me teres correspondido, o único amor correspondido, depois de tanta desilusão, e quando eu já não acreditava que fosse conhecer alguém que se interessasse por mim.

Apesar de todos os meus amigos e familiares me dizerem que um dia ia aparecer, que ele estava guardadinho para mim, que ia aparecer quando menos esperasse, que não havia idades…eu achava que era só para alguns.

Gratidão, gratidão, gratidão, a todos os que me disseram isso! Eu não acreditava, mas a verdade é que de um dia para o outro, apareceste. Gratidão, gratidão, gratidão, meu amor antigo, correspondido, por teres visto tudo o que eu tinha de bom e desconhecia.

Gratidão, gratidão, gratidão, meu amor antigo por me ajudares a crescer e a tornar-me numa pessoa diferente. Gratidão, gratidão, gratidão meu amor antigo e correspondido por todos os momentos de carinho, por todos os abraços, por todos os encontros, por todos os passeios que demos, por todas as coisas bonitas que me mostraste, que vivi, que disseste e que senti contigo ao meu lado.

Gratidão, gratidão, gratidão, por todos os momentos de intimidade, telefonemas, conversas, mensagens, webcam. Gratidão, gratidão, gratidão por me teres feito acreditar no amor!

Gratidão, gratidão, gratidão, pelos presentes que me ofereceste, gratidão, gratidão, gratidão por conhecer a tua família pessoalmente, e pelos dois sobrinhos: um já me chamava «tia», e eu gostava deles como se fossem meus sobrinhos, por aquele momento delicioso em que estive com o teu sobrinho mais velho a dormir no meu colo. Eu quase explodia de felicidade quando ouvi chamar «tia». O outro sobrinho estive pouco tempo com ele, mesmo assim, foi muito bom!

Gratidão, gratidão, gratidão por todas as lágrimas quando ias para fora, e pela alegria dos momentos em que nos falávamos ao telefone todos os dias, pela Internet. Gratidão, gratidão, gratidão pelos postais que me enviaste, pelos toques, pelo anel, por me teres pedido em casamento, um sonho que não se cumpriu, mas pelo menos fui feliz quando o ouvi.

Gratidão, gratidão, gratidão pelos momentos em que fui dormir à tua casa e senti aquele conforto de acordares ao meu lado, e aquele carinho com que me acordavas. Ficávamos os dois assim...lado a lado, de mão dada ou apenas encostados e abraçados, com troca de beijos. Como era bom!

Doeu, quando acabaste, claro! Quando fizeste a tua escolha pela outra, com quem estás agora, e na realidade já estavas, mas eu não sabia. Gratidão, gratidão, gratidão, por todo o romantismo adormeceu em mim, ou já não existe, mas existiu.

Gratidão, gratidão, gratidão, por não seres possessivo, nem ciumento. Gratidão, gratidão, gratidão por me teres apresentado os teus amigos, por me teres aceitado como eu era.

Doeu, claro que sim, quando levaste contigo todos os sonhos que eu tinha começado a construir connosco. Senti que chegamos a ser um «eu», «um tu» e «um nós», sempre que nos fundíamos, tantas vezes, pelo olhar, um no outro, sem palavras, pelos abraços, pelos beijos, pelos sorrisos.

Quando me pediste em casamento, e eu aceitei, porque estávamos bem, ao fim de 4 anos, sonhava com um «eu», um «tu» e um «nós», cada vez melhor, maior e mais forte. Mas quando acabaste no fim de semana seguinte...depois de me teres pedido em casamento, foi muito mau, não gostei, deixei de saber quem era e nunca mais fui a mesma.

Ainda demorei a aceitar que só para ti é que as coisas não estavam bem entre nós. Claro, não podiam estar bem, com a varejeira que andava à tua volta a provocar-te. Não tinhas mais argumentos contra mim, não sabias como te desculpares, e ainda negaste até assumir que não era só ela que estava interessada em ti.

Não sei do que te encantaste com ela! Talvez ela te tenha dado o que eu não te dei! Não dei porque não era mesmo o que eu queria dar-te, pelo menos nesse momento. E parecia que pressentia que não era contigo que eu ia ficar, ou seria medo!

Preferi não me entregar assim tanto, nem tudo! Na verdade é porque não merecias. Foi o melhor que eu fiz! Dei-me muito a ti, tu também deste muito de ti a mim, tivemos momentos muito bons, embalados pela nossa música, que ouvimos várias vezes juntos, e sentíamos uma ligação muito especial, aquela música tinha a ver connosco. Ainda hoje adoro essa música, sorrio, e acho que vai continuar a ser lembrada como a «nossa música», para sempre! Pela beleza, magia, pelas coisas boas que ela transmite.

Fala de amor, quase como foi o nosso, só não foi mais porque não quiseste. Não gostei nem aceitei algumas propostas que me fizeste, sei que também não gostaste, mas aceitaste. Gratidão, gratidão, gratidão por isso! Respeitaste as minhas escolhas e decisões, mesmo com dor.

Tive apoio psicológico ligeiro, quando acabaste, mas foi essencial para eu falar de ti sem chorar, apesar da dor, que pensava perdurar até hoje, mas não. Demorou muito a passar, sim, é verdade, o ódio, mas com o apoio psicológico aprendi a viver sem ti, a recordar os bons momentos.

Demorei muito tempo até voltar a ser outra pessoa, que ainda estou no caminho da descoberta e da construção. O teatro, pouco depois de teres acabado, também ajudou em muita coisa.

Se houver um segundo amor, vai ser uma redescoberta para mim, serei uma nova «eu», porque deixaste-me fossilizada, desconhecida de mim mesma, e não, não arranjei ninguém desde que acabamos! Ao contrário de ti, que uns dias ou semanas antes já tinhas outra, com certeza.

Até te conhecer, aliás, conheci-te, sem pensar que iria dar alguma coisa entre nós, também não acreditava, depois de tanta desilusão, não pensava como seria, não sabia como era enquanto namorada. E tu disseste que eu era uma grande mulher.

Era um misto de incerteza, curiosidade, querer e ter medo. Mas conseguiste ver-me, quiseste dar-me uma oportunidade. Gratidão, gratidão, gratidão por essa oportunidade!

Já vai há tanto tempo...tantos anos…! Não voltei a apaixonar-me. Raramente penso se vai acontecer outra vez ou não. Não sei se conseguirei voltar a amar, a ter alguém que me ame, o amor se existiu acabou, se não existiu, o que quer que seja, acabou!

Parece que foi ontem...e já lá vai há tantos anos…! Foi muito bom enquanto durou. A dor passou e ficaram as lembranças dos bons momentos! Não tenho a certeza se a raiva passou ou adormeceu, com o passar do tempo, eu realmente era boa demais para ti!

É porque não tínhamos de ser um «nós», para sempre...só enquanto durou. O primeiro amor nunca se esquece, nem as desilusões, passe o tempo que passar, elas apenas adormecem e deixam-nos continuar.

Fizeram parte de nós, fazem parte do nosso passado, daquilo que fomos nessa altura, e aprendemos, melhoramos, pioramos, tanto com as desilusões, como com o fim das relações, depois da dor!

Enquanto não aparece outro amor, se é que vai aparecer, fico entre a vontade, o medo, a descrença, a insegurança, o acreditar que vai acontecer de novo, que há alguém destinado para mim, à minha espera, alguém especial, algures...no infinito.

Enquanto não acontece, quero ficar apenas com as tuas boas recordações de vez em quando, só para me fazer sorrir! E hoje, agradecer-te por toda a eternidade, todos os bons momentos, tudo o que fui contigo, tudo o que fomos um para o outro, tudo o que vivemos juntos.

Já não serei a mesma, e tu também não, ninguém volta a ser o, ou a mesma pessoa depois deste acontecimento. Mas poderei ser melhor se houver alguém diferente, que limpe todo o lixo emocional que deixaste em mim.

Talvez um dos propósitos das relações seja esse...transformar-nos, fazer-nos crescer, como se fossem rascunhos, até à perfeição final, a do amor puro, companheiro, leal, sensível, respeitador, brincalhão, divertido, amigo, carinhoso, compreensivo, que nos traga à superfície o melhor de nós, que goste de conversar, que nos descubra diariamente, nos pequenos gestos, nos grandes.

Mesmo assim, hoje, agradeço-te...amor antigo...primeiro amor...cada segundo, cada minuto, cada dia, cada hora, cada semana, cada mês e cada ano. Gratidão, gratidão, gratidão, amor antigo, amor passado…

Mas de hoje em diante, quero libertar o meu coração, de ti, de todas as desilusões e amores não correspondidos, que doeram e destruíram-me, mas felizmente que nunca tivemos nada. Não era para eles, até te conhecer, que me transformaram e ajudaram a descobrir o meu melhor para te dar.

Hoje, agradeço-te por tudo, mas quero libertar o meu coração, deixar-te lá num cantinho, pequenino e derreter o gelo que lá deixaste. Liberto-te! Meu primeiro amor, que já não és, mas já foste, e porque somos também passado, tu fazes parte dele, é lá que estarás, com quem eu fui contigo, juntamente com os bons momentos que de vez em quando gosto de recordar.

Hoje, eu liberto-te para sempre, meu amor, meu primeiro amor! Foi quanto perdeste. Gratidão, gratidão, gratidão por tudo, e...até sempre. Eu liberto-te! Vai! Não precisas de ocupar mais o meu coração magoado e congelado, como o deixaste.

Eu quero libertar-te, quero derreter o meu gelo, deitar fora o lixo emocional da dor que me deixaste. Vai amor...lá para a caixinha do passado, onde talvez me encontres, aquela que fui, quando me conheceste!

A que sou agora, não conheces, nem conhecerás. Encho o meu coração de gratidão por tudo de bom que vivi contigo, e por teres sido o meu primeiro amor. Abro uma frincha para outro alguém, se houver e se conseguir, descongelar, enchê-lo de luz, de amor, e curar as feridas que deixaste!

Havendo ou não outro amor para mim...vai! Para o passado! Não te quero mais no meu presente! Não preciso mais de ti, no meu presente! Vai para o passado e fica lá. Já são muitos anos de prisão para o meu coração. Vai! Eu solto-te dele! Vai lá para o passado, e não voltes, com grande, grande gratidão, para sempre e até sempre! No passado.


                                                              FIM

                                                           Lara Rocha

                                                           23/10/2023

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Os sonhos também dormem. Será que sonham?


  Era uma vez uma floresta sombria, onde poucas vezes entrava o sol. Os seus habitantes eram sonhos, dorminhocos, tristonhos, vindos de seres humanos. 

   Sonhos de todo o tipo: uns de fantasias, outros de obstáculos, uns porque encontravam gente maldosa, invejosa, egoísta, outros encontravam portas fechadas. 

   Uns vinham das dúvidas, das incertezas, dos medos e de fracassos anteriores, outros de projetos cheios de ideias que não eram possíveis de pôr em prática. Eram aos milhares, espalhados pela floresta. 

   Ninguém se atrevia a entrar nela, nem sabiam da sua existência. Até que um dia, uma senhora com uma certa idade, sonhou com essa floresta misteriosa, e viu nela centenas de sonhos, a dormir. 

   Os dela, desde a sua infância, que não realizou, os da adolescência e da idade adulta, que sabia nunca serem possíveis de realizar, fizeram-lhe cair umas lágrimas dos olhos. 

   Os que não encontraram portas abertas, os que outras pessoas não deixaram realizar, ela ficou triste, mas seguiu em frente, e os de agora, do tempo presente, que ela não deixou de ter, mas achava que não conseguia realizar pela sua idade. 

     Mesmo assim, realizava-os nos sonhos, e mantinha a esperança de vir a realizar alguns, aqueles que lhe pareciam mais reais, mais próximos, que tinham mais a ver com o que era e o que vivia. 

     Viu ainda os sonhos que tinha todas as noites, e os pesadelos a tentar acordar os sonhos. No sonho ela grita aos pesadelos: 

- Parem quietos, vão-se embora! Ainda não chega atormentarem-me a noite toda, e ainda vos encontro aqui, a chatear os sonhos?! Não gosto de vocês. 

     Os pesadelos desatam às gargalhadas: 

- Olhe para a nossa cara de preocupados por não gostar de nós! - ri um pesadelo 

- Então tu, não se pode aturar..! Que perseguição. - diz a senhora 

- Não tenho nada a ver com isso. A senhora é que pensa em mim, eu só apareço porque a Sra. quer. - explica o pesadelo. 

- Mas que grande convencido! Achas que alguém gosta de sonhar contigo? Acordamos a gritar…! 

- Ora essa! Só apareço nos vossos pesadelos quando vocês pensam em mim, ou quando têm medo de mim. 

- Claro, toda a gente tem medo de ti, falam em ti na televisão vezes sem conta, como não vamos ter medo de ti? 

      O pesadelo dá uma sonora gargalhada. 

- Credo, essa tua gargalhada mete medo, ao medo! 

      Outra gargalhada do pesadelo.

- Quem é esse? - pergunta o pesadelo 

- Acho que nunca o vi por aqui! - responde outro pesadelo 

- Nem eu! Nem sei se existe. Deve ser outra criação dos humanos! - acrescenta outro pesadelo 

- É! Esse existe em nós, pode ser bom ou mau. - responde a Sra. 

- Mas é pesadelo como nós? - pergunta outro pesadelo 

- Pode ser...quer dizer, pode ser tão grande que se torna um pesadelo feio como vocês! - diz a Sra. 

      Os pesadelos dão umas belas gargalhadas 

- Huuummm…amigos, vamos estar atentos, pode ser que esse tal seja...uma...ela…! Disfarçada. Jeitosa…! 

        Gargalhada geral. 

- Que engraçadinhos! Se sentissem medo, como nós, com certeza não estavam aí a brincar. 

        Gargalhada geral. 

- Ei, riam-se mais baixo, se não ainda acordam os sonhos. Vá, vão dormir, e deixem os outros sonhos mais bonitos e agradáveis descansar, dormir, sonhar ou acordar. - ordena a senhora 

- E por acaso eles sonham? 

- Acredito que sim, se estão a dormir…! 

- Já conhecia este lugar? 

- Não! 

- Então como veio cá parar? 

- Conheci agora, enquanto estou a dormir, e a sonhar. Já vi por aí os meus sonhos antigos, os que não realizei pro vários motivos, os de outras pessoas, e alguns que ainda tenho. Mas também vos encontrei, suas criaturas indesejáveis, pesadelos. 

- Óh! Não diga isso, se não ficamos tristes…- diz um pesadelo com ar de carinhoso 

        Gargalhada geral: 

- Coitadinhos, tenho muita pena de vocês...ui! 

- Dá para ver. Diz na nossa cara que somos criaturas indesejáveis e que fazemos acordar aos gritos. Só estamos a cumprir o nosso dever, a nossa profissão! 

- Pois, pois...que bela profissão, seus feiosos. - diz a senhora a rir 

- Ai, que Sra. tão simpática! - riem todos 

- E sou, exceto quando vocês me chateiam, e me fazem despertar assustada! - diz a Sra. 

- Irraa... que ela é de ideias fixas! - comenta um pesadelo

        Gargalhada geral.  

- Venha connosco, dar uma volta por aqui, enquanto conversamos mais um bocadinho, a ver se fica a conhecer-nos melhor! - convida um pesadelo 

- Está bem! - concordo a Sra. 

        Um dos pesadelos dá-lhe o braço. 

- Está a ver como também somos bonzinhos? 

        Todos riem

- É, claro. Estou a ver que sim, mas não abuses, eu também sou boazinha até certo ponto. 

- Depois também se transforma em pesadelo? 

- É. 

        Gargalhadas, e lá vão pela floresta, a conversar alegremente, a apreciar os sonhos, apresentam-na a dezenas de pesadelos, que a cumprimentam alegremente. 

        Ela já os conhece porque são os seus próprios pesadelos. Além dos dela, viu outros tantos milhares que pensou serem de outras pessoas porque não conhecia. 

   Uns eram semelhantes aos seus, outros, os mesmos, uns completamente irreais, outros a dormir fechados em troncos de árvores. 

     Outros sonhos, de outras pessoas, que ela não conhecia, nem eram seus, pelo menos no momento presente, a dirigir-se para as saídas, os que iam ser realizados. 

       De repente, a Sra. acorda, e fica a pensar onde será essa floresta, e perguntou a si própria se os sonhos dormem. Esperou uma resposta, fechou os olhos, imaginou-se a voltar àquela floresta. 

      Olhou para todo o lado, viu um sonho simpático a espreguiçar-se, ainda de olhos fechados, a torcer-se para um lado, e para o outro, sorri, olha para a Sra. um pouco assustado e a Sra. sorri-lhe: 

- Olá, és um sonho, certo? 

- Sim, sou um sonho de alguém que espera uma porta aberta. Enquanto não aparece, fico por aqui! E a Sra. quem é? 

- Sou um ser humano, que sonho e tenho pesadelos. Estive aqui há pouco, vi os meus sonhos não realizados, por diferentes motivos, vi os meus pesadelos, passeei com eles, ainda me ri com eles, conheci outros pesadelos e outros sonhos, mas não sei onde é esta floresta. Voltei aqui porque fiquei a pensar se...os sonhos que aqui dormem, dormem mesmo, e sonham? 

- Dormir, dormimos, sim. Sonhar, e ter pesadelos, não sei se sonhamos e se temos pesadelos. Talvez! Há quem diga que sim. Tenho a certeza que dormimos e que acordamos, passeamos por aí. Esta floresta chama-se para os humanos, o Inconsciente, a floresta onde os sonhos também dormem, para onde vem todos os sonhos e pesadelos, como se fossem filmes nas cabeças. Existem por aqui apenas fragmentos de sonhos, imagens soltas, umas mais reais do que outras, sombras de pesadelos que não sei de que são feitos, não falo com eles, mas já ouvi dizer muito mal deles. 

- Áhhhh….Floresta  Inconsciente...claro! Aquela parte em nós, desconhecida, que até nos esquecemos que existe! Mas é daí que saem os sonhos, pesadelos, desejos, fantasias, ilusões, frustrações, medos, terrores, aventuras engraçadas, outras não têm piada nenhuma. Claro. É isso! Obrigada, sonho. Vemo-nos um dia destes, quem sabe! - diz a Sra. a sorrir 

- De nada, até um dia destes, sim, podemos encontrar-nos! 

- Dorme bem! 

- Obrigada, igualmente. 

        A Sra. abre os olhos, sorri e murmura; 

- Os sonhos também dormem, e quem sabe....sonham! Dormem enquanto não são realizados, ou quando são substituídos pelos pesadelos. Os sonhos também dormem, e talvez sonhem, mas podem não saber o que é isso! Pelo menos, fazem-nos sonhar e conhecer o nosso mundo interior através de imagens. Maravilhoso...é por isso que a floresta é escura, onde vivem pesadelos e sonhos. Acho que os sonhos dormem e sonham. 

                                                            

                                                                   FIM 

                                                               Lara Rocha 

                                                                6/10/2023 

E vocês, o que acham? 

Acham que os sonhos dormem, e sonham? Ou só dormem na imensa floresta Inconsciente? 

De que serão feitos os sonhos e os pesadelos? 

Se fossem a esta floresta, que sonhos encontravam a dormir? E que pesadelos (temas)? 

Se quiserem podem deixar nos comentários


                                                       

domingo, 24 de setembro de 2023

A missão da menina diferente


         Era uma vez uma menina muito especial, bonita, que vivia numa cidade chamada As Quatro Estações. Nessa aldeia, existiam centenas de meninos e meninas, crianças, adultos, e pessoas com mais idade, que tinham uma missão muito especial: ir pelas grandes cidades anunciar a chegada de cada estação do ano. 

         Quem olhava para eles e elas, pareciam pessoas iguais, mas na verdade, eles e elas não precisavam de transportes para chegar às cidades que lhes estavam destinadas, iam e voltavam para a sua terra no mesmo dia, e sem que as pessoas das cidades dessem por isso, transformavam toda a paisagem de acordo com cada estação do ano. 

         Levavam tudo o que faz parte de cada uma delas: enchiam as cidades de flores na Primavera, sol e chuva, cores, pássaros e outras aves, vento. Levavam o Verão com Sol escaldante, o Outono com toda a sua beleza, e instabilidade do tempo, os dias mais pequenos, mais ventosos, mais chuvosos, mais cinzentos, ou mais solarengos, e o Inverno, com neve, onde ela existe, frio, chuva, nuvens carregadas, trovoada, gelo, mas também roupa quente, lareiras, e o Natal. 

         Dependia do que houvesse nessas cidades, nesses países, porque as estações do ano são diferentes, em várias partes do mundo, mas cada uma com as coisas bonitas, e cada menino, cada menina sabia muito bem o que levar a cada um, vestidos e calçados de acordo com as características de cada lugar, nas diferentes estações. 

         Desta vez tocou à menina Folha Castanha, era assim que se chamava, juntamente com o vento, anunciar a sua estação. Com um vestido castanho escuro, casaco comprido, castanho de vários tons, longos cabelos ondulados em tons amarelos, castanhos, verdes, roxos, salpicos de várias cores, que voavam com o vento, botas castanhas, e lá vai ela toda vaidosa da sua missão. 

         Os pais e os avós, orgulhosos da menina, até deixaram escapar umas lagriminhas, com um grande sorriso. Estala os dedos e chega à primeira cidade, um trânsito infernal, carros e mais carros, buzinas, pessoas a correr, com caras sem sorrisos, irritadas, ao telefone, aos gritos umas com as outras, a mexer nos telefones, nem repararam na chegada dela. A Folha Castanha fica triste: 

- Apetecia-me cobrir esta cidade e esta gente toda de folhas que batessem na cara deles, ou que os colassem ao chão, para ver se paravam um minuto e reparavam na minha chegada! 

        O vento dá uma gargalhada: 

- Achas mesmo que iam reparar em ti? Santa inocência de criança! Não reparam em quem vai à frente do nariz deles, quanto mais... 

- Onde é que eles deixaram o sorriso? 

- Não sei, em casa...! Se lhes desses dinheiro ias ver. 

- Não tenho nada a ver com dinheiro. Essa não é a minha missão. 

- Filha, esquece lá essas coisas boas, e faz o teu papel. Não te chateies com isso, eles não vão mudar. 

        A menina fica triste, todos passam indiferentes por ela. Ela fica irritada. 

- Vento, sopra aí bem forte, para ver se acordam. 

- Olha que eles vão ficar ainda mais irritados!

- Problema deles, eu também estou irritada por terem passado indiferentes. 

- Achas que eles sabem quem tu és? Claro que não. 

- Sopra aí rajadas de vento, por favor. 

- Está bem! 

        O vento sopra forte, e a menina caminha pelas ruas. Quando passa por árvores, cai uma chuva de folhas em cima das pessoas que passam, e ela sorri. As pessoas encolhem-se com o vento gelado, e assustam-se com as folhas que caem, fazem redemoinho à volta delas, e sobem do chão para a cabeça, como se estivessem a enrolá-las. As pessoas gritam, assustadas, sacodem-se, abanam-se, para tentar livrar-se das folhas. 

- É para ver se param 1 minutos, e veem que eu cheguei! Outro minuto para pôr um sorriso na cara. - comenta a menina a rir 

        A menina ri à gargalhada, ninguém repara nela, ela manda nuvens carregadas, escuras, que tapam o sol, o vento fortíssimo, que quase as empurra para trás, a menina aplaude o vento: 

- Boa, vento! Isso mesmo. 

        É folhas a rodopiar por todo o lado, a cair em cima das pessoas, umas já secas, outras frescas, que vão ficar molhadas com a chuvada que a menina manda. Aí sim, todos procuram abrigos debaixo das portas dos prédios, fogem, tentam abrigar-se debaixo das árvores, em cafés, nas paragens de autocarro, onde podem. 

        Como todos pararam, ela desfila sem se molhar, a sorrir para todos, que ficam espantados. Uma senhora com alguma idade, da aldeia da menina Folha Castanha, comenta: 

- Chegou o Outono! 

- Começa hoje? - pergunta jovem

- Começa! E veio carregado de vento, chuva...promete! O Outono é mesmo assim, mas tem a sua beleza. Todos deveriam parar uns minutos por dia e apreciá-lo! Devia ser obrigatório. - diz a senhora  

- O Outono é triste! - comenta outra jovem 

- Não é nada! Isso são ideias da vossa cabeça que só vê computadores e correria à frente. - comenta a senhora

- Pois é! Tem razão, andamos sempre a correr, nem reparamos no que há de bonito à nossa volta! - concorda outra jovem 

- Mas hoje é apenas o primeiro dia, ainda têm muitos dias de Outono pela frente, que devem apreciar. E andar com guarda chuva, algum agasalho porque o tempo é instável. - diz a senhora 

- Pois é! 

        A menina ri-se e aplaude. Para compensar, por terem parado algum tempo para se abrigar, todos olham para ela, ela transforma folhas que estão a cair em borboletas, que beijam as caras das pessoas, e estas sorriam, parece que ficam hipnotizadas por aquela beleza que nunca tinham visto.

- Áh! Que lindo, pareciam folhas, afinal são borboletas... - suspira uma jovem a sorrir 

- E dão beijinhos quando batem na nossa cara! - diz outra a sorrir 

- Nunca tinha visto nada assim, mas é maravilhoso! Se acontecer outra vez este fenómeno, vou ver e fotografar. - comenta outra 

- Realmente, acho que nunca aconteceu! - comenta outra pensativa 

- Ou se calhar já aconteceu, mas vocês é que nunca viram. - diz a senhora 

        A menina ri à gargalhada, e sopra as nuvens para o sol aparecer outra vez. As pessoas olham com mais atenção para as árvores, deliciadas com o bailado das folhas que caem, e outras que se transformam em borboletas. 

        A menina vai para outra cidade, acontece o mesmo, ninguém repara nela, e ela faz o mesmo, até que se lembram que chegou o Outono. Percorre várias cidades, e deixa a sua presença bem marcada, mas nessas, alguém a reconhece, as pessoas com mais idade, com o seu andar vagaroso, os olhos a apreciar a Natureza, que lhe sorriem e dizem: 

- Bem vinda, Outono! 

        Ela sorri, e envia as folhas em forma de borboletas, que voam e dão beijinhos. Essas pessoas riem, e ficam maravilhadas. 

Esta era a missão da menina diferente! 


                                                                    FIM 

                                                                Lara Rocha 

                                                            24/Setembro/2023 

E vocês apreciam o Outono? 

Como sentem a sua chegada? 

O que veem de diferente? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem 


        

   

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Sai do espelho


- Sou adolescente, estou sempre a olhar para o espelho, e a ver como sou imperfeita, o que tenho de menos bonito, a comparar-me com as outras, a querer mudar o que sou. Até que o meu espelho gritou-me:

- Menina, sai daqui!

- Estás a mandar-me embora? Mas que indelicado. Já estás farto de me ver, é?

- É!

- Mas é o teu papel, mostrar o que sou, permitir que me veja se estou bonita, feia, cheia, palitinho.

- Porque estás a fazer isso comigo?

- Porque tu não és a imagem que vês em mim, em mim só vês o teu exterior, e comparas-te com outras, que eu nem sequer conheço, nem quero! Estou cansado de te ver tempo sem fim à procura da perfeição, de defeitos que achas que tens, e de coisas para mudar.

- Mas todas fazem isso!

- Deixa as outras, não quero saber das outras. Não és boneca, nem existem bonecos, não és sereia, fada, princesa, modelo...fantasia! Nada disso existe no teu mundo, naquilo que és!

- Todas e todos queremos ser como as bonecas, as sereias, as fadas, as princesas, as modelos.

- Mas não são, e ainda bem! Porque é que querem ser como elas? Para quê? Para não sentirem nada, para nem sequer se abraçarem, nem sonharem, nem comerem, e muito mais que vocês fazem?

- Era bom, assim não engordávamos, nem éramos postas de lado só porque temos defeitos. Não sofríamos.

- Que ideia mais irrealista! Não sabes se não sofrem. És apenas um ser humano, sois todos seres humanos, tendes muitos comportamentos que realmente parecem bonecos, mas não têm noção disso, nem como isso dói.

- Então o que é que somos?

- Sois apenas seres humanos! Bebés, crianças, adolescentes, adultos. Meninas, meninos, perfeitos como são! Tu és perfeita como és!

- Que simpático! Eu olho para mim, só vejo defeitos, não vejo nada de perfeito.

- Isso é mania tua! Mania das outras, dos outros. Não tens de ser sereia, fada, princesa, modelo, para seres perfeita, nem os meninos, rapazes ou homens, têm de ser perfeitos! Não são. Nunca foram, nunca serão, e ainda bem, se fossem perfeitos, eram outra coisa qualquer, menos pessoas, e seres humanos. Para quê correr e procurar a perfeição, se já somos perfeitos? Sim, somos mesmo! Porque o corpo perfeito é aquele com que nascemos, o que demorou nove meses a ser construído com amor e é perfeito, como é! Com todas as suas imperfeições, que te permitem na mesma fazer tudo o que precisas, queres e aprender a desenvolvê-lo.

- Demorou nove meses a ser construído?

- Claro, é o tempo que demora um pedacinho de gente a formar-se, a crescer, a desenvolver, a crescer, até nascer, com tudo o que precisa para viver fora das barrigas das mães. Deixa para lá a sereia no mundo dela, ela nasceu como é, diferente de ti, vive nas águas. Não tenhas inveja das fadas, elas são lindas, são assim, mas deixa-as livres para serem apreciadas. Não queiras ser princesa, elas vivem nos castelos mas não são felizes como tu podes ser. As modelos parecem perfeitas, acham-se perfeitas, apreciam-nas como tal, mas não têm nada de perfeito! Aquela magreza doentia, passam fome, sofrem! Achas que isso é ser perfeito? Sofrer, passar fome para parecer o que não se é? Essas passam fome porque querem, porque vivem na ilusão do que não existe! Mas se fossem aos países onde há realmente fome, achas que elas quereriam ser magras? As pessoas que passam fome, porque são pobres, achas que estão preocupadas com a perfeição dos corpos, desnutridos? Eles querem é comida.

- Nunca tinha pensado nessa.

- Áh, pois é! Escolhe ser como és, porque és perfeita, os outros são perfeitos nas suas imperfeições que não valem nada! É tudo ilusão da vossa cabeça. Tu tens um corpo perfeito, se ele é saudável, se te permite ver, ouvir, sentir, cheirar, abraçar, dar as mãos, beijar, sorrir, falar, caminhar, cantar, pensar, dançar, aprender, amar à tua maneira, sonhar, brincar. Achas que que quem tu pensas que é perfeito, aprecia isso, ou está preocupado com isso? De certeza que não é feliz, só quer é mostrar o que não é, para provocar inveja em quem vê. Para quê? Isso é perfeição? Claro que não! Nem sequer se acham perfeitos, é tudo ilusão!

- Faz sentido o que dizes!

- Vivem de aparência, achas que isso é perfeição, é bom?

- Não sei, mas...talvez não!

- Podes ter a certeza que não. Se assumissem as suas imperfeições, não estragavam o corpo. Não têm nada na cabeça, muito menos para dar aos outros. Enquanto tu, mesmo achando que és imperfeita, podes dar muito aos outros.

- Acho que tens razão.

- O teu corpo, e qualquer corpo é perfeito com as suas limitações. Tens um corpo perfeito enquanto venceres batalhas, monstros, fantasmas, medos! Tens um corpo perfeito enquanto te levantares das quedas, enquanto és um ser único. Tens um corpo perfeito, enquanto percebes que não és igual a ninguém, nem tens de ser. Não tens de mudar o teu corpo, estragá-lo só porque os outros dizem que não és perfeita, perfeito. Claro que és perfeita, perfeito, tal como és, como são! Cada um com o seu corpo perfeito, imperfeito. A perfeição está em aceitar o corpo que tens, agradecer-lhe, respeitá-lo, nas suas perfeitas imperfeições. Por isso, sai daqui, sai dos espelhos, olha para o mundo à tua volta e para os outros, olha para o teu coração e para a pessoa que és. Deixa lá os espelhos.

- Vou pensar no que me disseste! Obrigada!

- Acho bem que pares de olhar tanto para os espelhos, os espelhos que te põem perfeita e mais bonita, são os de dentro, não são estes como eu!

                                                          FIM 

                                                Lara Rocha

                                               (6/Maio/2023) 


Versão poema:


Não és boneca, boneco, sereia, fada, princesa, modelo…fantasia! 

És apenas um ser humano, 

Bebé, 

criança, 

adolescente, 

adulto. 

Menina, 

Menino, 

Perfeita, perfeito como és! 

Não tens de ser sereia, fada, princesa, modelo, para seres perfeita, perfeito! 

Já és! 

Porque o corpo perfeito é aquele com que nascemos, 

O que demorou nove meses a ser construído com amor

E é perfeito como é, 

Com todas as suas imperfeições. 

Deixa para lá a sereia no mundo dela, 

Ela nasceu como é, 

Diferente de ti

Vive nas águas. 

Não tenhas inveja das fadas, 

Elas são lindas, são assim, 

Mas deixa-as livres, 

Para serem apreciadas. 

Não queiras ser princesa, 

Elas vivem nos castelos 

Mas não são felizes como tu podes ser. 

As modelos não são perfeitas, 

Passam fome, sofrem! 

Escolhe ser como és, 

Porque és perfeita, perfeito nas tuas imperfeições! 

Tu tens um corpo perfeito, 

Se ele é saudável, 

Se te permite ver, 

ouvir, 

sentir, 

cheirar, 

abraçar, 

dar as mãos, 

beijar, 

sorrir, 

caminhar, 

cantar, 

pensar, 

dançar, 

aprender, 

amar à tua maneira, 

sonhar, 

brincar, 

fazer tudo o que precisas e queres. 

Ele é perfeito mesmo com as suas limitações. 

Tens um corpo perfeito enquanto venceres 

batalhas, 

monstros, 

fantasmas, 

Medos! 

Tens um corpo perfeito 

enquanto te levantares das quedas, 

enquanto és um ser único. 

Tens um corpo perfeito 

enquanto percebes que não és igual a ninguém, 

nem tens de ser. 

Não tens de mudar o teu corpo, 

estragá-lo só porque os outros dizem que não és perfeita, perfeito. 

Claro que és perfeita, perfeito, 

tal como eles são. 

Cada um com o seu corpo perfeito, imperfeito. 

A perfeição está em aceitar o corpo que tens, 

agradecer-lhe, 

respeitá-lo 

nas suas perfeitas imperfeições. 


Lara Rocha

(6/Maio/2023) 



Amor rima com cor

Amor rima com cor, 

quando o amor não rimar com cor,

não é amor. 

Amar, rima com respeitar, 

Quando amar não rimar com respeitar,

Não é amar. 

Amor rima com cor, 

Cada um tem a sua cor, 

Mas a palavra amor 

Não tem cor, 

Nem sofrimento, 

Nem dor. 

Tem muitas cores, 

A cor de cada um, 

E todas cabem na palavra amor. 

Amar, rima com

Abraçar, 

Beijar, 

Brincar, 

Sonhar, 

Cantar, 

Dançar. 

Todos podem dar as mãos e participar. 

Vamos lá todos entrar

Nesta dança que é o amor, 

Cada um com a sua cor 

Pode escrever a palavra Amor


Lara Rocha

(19/4/2023) 


sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Os sapos e a festa da chuva

 


      Era uma vez uma grande quinta, numa aldeia onde já não chovia há muitos meses, só havia calor, sol, nada comum, pois era uma aldeia que costumava ter temperaturas agradáveis, o ano todo.  

       Frio e chuva na sua época, tempo quente no Verão, no Outono e Primavera era instável, tanto chovia como estava sol, mas todos respeitavam a vontade da Natureza. 

       Este ano é que estava um calor fora do normal, tudo seco, a erva dos campos, os riachos onde havia sapos, rãs e peixes, secos em quase todo o caminho, pequenas possecas de água de longe a longe. 

       Até eles estavam a sentir-se tristes, cansados, porque já não aguentavam tão pouco água, às vezes percorriam quilómetros atrás de poças de água, e encontravam, deliciavam-se a refrescar-se, a brincar, a cantar.  

       Mas pouco tempo depois, sentiam saudades de casa e regressavam na esperança de encontrar água, mas infelizmente, o seu desejo não se realizava. 

       O dono, com pena deles, deitava água no local onde estavam, tal como fazia aos outros animais da quinta, eles bebiam com sofreguidão, e sobrava pouca para o resto. 

       Um dia, depois de tanta seca e tanto calor, o seu desejo realizou-se. Acordaram numa manhã, cinzenta, fria, até pensaram que os tinham levado para outro sítio, mas não. Estavam na sua casa, trocaram olhares surpresos: 

- Onde estamos? 

- Na nossa casa, parece-me! 

- Sim, olha ali aquelas flores, e a corte dos animais, a casa do senhor e da família. 

- É! Estou a ver, mas o tempo está diferente... 

- Pois está. 

- Será que dormimos tanto, que nem nos apercebemos da mudança de estação? 

- Não, isso não é possível. 

- Mas ainda ontem estava sol e um calor que não se podia, hoje está cinzento, e frio. 

- Pois é, realmente nem parece o mesmo sítio. 

- Será que vai trazer a nossa tão desejada chuva? 

       Eles disseram o que parecia quase a palavra chave: chuva! De repente, parece que se abre uma torneira gigantesca das nuvens, e descarrega uma tromba de água, litros e litros de chuva, como nunca viram, uma ventania fria e forte. 

       Os sapos nem queriam acreditar. Os donos apavorados, tal como os animais, as flores encolhidas, mas ao mesmo tempo felizes por ter água, a erva a assobiar de felicidade com o vento, e por sentirem a chuva. 

       As árvores um bocadinho assustadas porque o vento fustigava-as, mas estavam a gostar do ar fresco e da chuva, podiam ouvir-se os risos delas, e elas deixavam-se levar, com os seus ramos de um lado para o outro, a frescura entre as folhas, fazia-as estremecer e ao mesmo tempo rir. As flores sorriam felizes, sentiam-se frescas, renovadas, eufóricas com tanta água. 

      Os donos assistiram dentro de casa, assustados, mas agradecidos por finalmente chover, os cães muito quietos e assustados, encolhidos nas casotas, em silêncio, no estábulo a agitação era grande, pois os bichos nunca tinham visto tal coisa.  

       Os sapos levantam as patas para as nuvens e fazem vénias como forma de agradecimento, cantam, dançam uns com os outros, abanam-se felizes. 

       Saltam, chapinham, brincam na água, mergulham, boiam, dão gritinhos de alegria e satisfação, coaxam bem alto, nem se abrigam, abrem as patas como se estivessem a apanhar cada gota de chuva que caía.  

       Num instante, tudo fica ensopado, enlameado, o riacho voltou a ter água até às bermas, como ficavam quando a chuva vinha na sua época, e no tempo normal. 

       O dono grita para eles se abrigarem, mas eles nem o ouvem, continuam numa grande festa, tantas eram as saudades da chuva. Só recolhem às suas casas, quando ouvem um estrondoso trovão que iluminou o céu todo, parecia noite, desenhou raios por todo o lado, e rebentou por todo o lado. 

        Os sapos não sabiam o que era, mas assustaram-se realmente, começaram aos gritos e meteram-se nas tocas. A luz na casa falhou, os cães não param de ladrar, os animais na corte, andam de um lado para o outro nervosos.  

        As árvores entram em pânico porque sabem que os relâmpagos podem ser perigosas para elas, estremecem, juntam os ramos umas às outras, cantam para correr com o medo, abanam-se, soltam um grande grito quando um raio cai na terra aos seus pés, além do barulho que fez, mas suspiram de alívio quando percebem que estão todas bem. 

       A tempestade continua, e os sapos não saem mais das casas, até esta passar, ao fim de dois dias a chover sem parar e a trovejar. Apesar de sentirem medo, depois da festa, estão felizes pela chuva, que mudou a paisagem, souberam que tinham água para muito tempo, e as pessoas da casa, os outros animais também. Já não precisavam de fazer quilómetros atrás da água. 

       Enquanto choveu sem trovejar, os sapos saíram muitas vezes das casas, para apanhá-la, numa grande euforia, gritavam, coaxavam, riam, cantavam, dançavam, saltavam, mergulhavam, brincavam uns com os outros, mas quando começavam os trovões, fugiam o mais depressa que podiam, e ficavam calados, assustados. 

- Abençoada chuva! - diz o agricultor

       Quando o sol regressa, perceberam que as pastagens estavam maravilhosas para o gado, os sapos não cabiam em si de felicidade, sempre que chovia, faziam sempre uma festa, um bailado, com cantares e dançares, muito riso e brincadeira. 

       O que era pó, palha seca em vez de erva, amarela, transformou-se em erva fresca, verde, suculenta, tenra. Pouco depois, voltou a neve, com camadas que nunca ninguém tinha visto, e os sapos ficaram recolhidos, porque estava frio, tal como os outros animais, mas encantados com a paisagem. 

        Tudo é preciso, para a Terra, para nós, e para os animais. 

E vocês festejam quando chove, ou ficam zangados e tristes? 

Para que serve a chuva? 

Sentem medo da trovoada? 

O que fazem para não sentir tanto medo? 

Podem deixar nos comentários. 

Até já. 

                                                FIM 

                                             Lara Rocha 

                                     15/Setembro/2023