Número total de visualizações de páginas

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Os sapos e a festa da chuva

 


      Era uma vez uma grande quinta, numa aldeia onde já não chovia há muitos meses, só havia calor, sol, nada comum, pois era uma aldeia que costumava ter temperaturas agradáveis, o ano todo.  

       Frio e chuva na sua época, tempo quente no Verão, no Outono e Primavera era instável, tanto chovia como estava sol, mas todos respeitavam a vontade da Natureza. 

       Este ano é que estava um calor fora do normal, tudo seco, a erva dos campos, os riachos onde havia sapos, rãs e peixes, secos em quase todo o caminho, pequenas possecas de água de longe a longe. 

       Até eles estavam a sentir-se tristes, cansados, porque já não aguentavam tão pouco água, às vezes percorriam quilómetros atrás de poças de água, e encontravam, deliciavam-se a refrescar-se, a brincar, a cantar.  

       Mas pouco tempo depois, sentiam saudades de casa e regressavam na esperança de encontrar água, mas infelizmente, o seu desejo não se realizava. 

       O dono, com pena deles, deitava água no local onde estavam, tal como fazia aos outros animais da quinta, eles bebiam com sofreguidão, e sobrava pouca para o resto. 

       Um dia, depois de tanta seca e tanto calor, o seu desejo realizou-se. Acordaram numa manhã, cinzenta, fria, até pensaram que os tinham levado para outro sítio, mas não. Estavam na sua casa, trocaram olhares surpresos: 

- Onde estamos? 

- Na nossa casa, parece-me! 

- Sim, olha ali aquelas flores, e a corte dos animais, a casa do senhor e da família. 

- É! Estou a ver, mas o tempo está diferente... 

- Pois está. 

- Será que dormimos tanto, que nem nos apercebemos da mudança de estação? 

- Não, isso não é possível. 

- Mas ainda ontem estava sol e um calor que não se podia, hoje está cinzento, e frio. 

- Pois é, realmente nem parece o mesmo sítio. 

- Será que vai trazer a nossa tão desejada chuva? 

       Eles disseram o que parecia quase a palavra chave: chuva! De repente, parece que se abre uma torneira gigantesca das nuvens, e descarrega uma tromba de água, litros e litros de chuva, como nunca viram, uma ventania fria e forte. 

       Os sapos nem queriam acreditar. Os donos apavorados, tal como os animais, as flores encolhidas, mas ao mesmo tempo felizes por ter água, a erva a assobiar de felicidade com o vento, e por sentirem a chuva. 

       As árvores um bocadinho assustadas porque o vento fustigava-as, mas estavam a gostar do ar fresco e da chuva, podiam ouvir-se os risos delas, e elas deixavam-se levar, com os seus ramos de um lado para o outro, a frescura entre as folhas, fazia-as estremecer e ao mesmo tempo rir. As flores sorriam felizes, sentiam-se frescas, renovadas, eufóricas com tanta água. 

      Os donos assistiram dentro de casa, assustados, mas agradecidos por finalmente chover, os cães muito quietos e assustados, encolhidos nas casotas, em silêncio, no estábulo a agitação era grande, pois os bichos nunca tinham visto tal coisa.  

       Os sapos levantam as patas para as nuvens e fazem vénias como forma de agradecimento, cantam, dançam uns com os outros, abanam-se felizes. 

       Saltam, chapinham, brincam na água, mergulham, boiam, dão gritinhos de alegria e satisfação, coaxam bem alto, nem se abrigam, abrem as patas como se estivessem a apanhar cada gota de chuva que caía.  

       Num instante, tudo fica ensopado, enlameado, o riacho voltou a ter água até às bermas, como ficavam quando a chuva vinha na sua época, e no tempo normal. 

       O dono grita para eles se abrigarem, mas eles nem o ouvem, continuam numa grande festa, tantas eram as saudades da chuva. Só recolhem às suas casas, quando ouvem um estrondoso trovão que iluminou o céu todo, parecia noite, desenhou raios por todo o lado, e rebentou por todo o lado. 

        Os sapos não sabiam o que era, mas assustaram-se realmente, começaram aos gritos e meteram-se nas tocas. A luz na casa falhou, os cães não param de ladrar, os animais na corte, andam de um lado para o outro nervosos.  

        As árvores entram em pânico porque sabem que os relâmpagos podem ser perigosas para elas, estremecem, juntam os ramos umas às outras, cantam para correr com o medo, abanam-se, soltam um grande grito quando um raio cai na terra aos seus pés, além do barulho que fez, mas suspiram de alívio quando percebem que estão todas bem. 

       A tempestade continua, e os sapos não saem mais das casas, até esta passar, ao fim de dois dias a chover sem parar e a trovejar. Apesar de sentirem medo, depois da festa, estão felizes pela chuva, que mudou a paisagem, souberam que tinham água para muito tempo, e as pessoas da casa, os outros animais também. Já não precisavam de fazer quilómetros atrás da água. 

       Enquanto choveu sem trovejar, os sapos saíram muitas vezes das casas, para apanhá-la, numa grande euforia, gritavam, coaxavam, riam, cantavam, dançavam, saltavam, mergulhavam, brincavam uns com os outros, mas quando começavam os trovões, fugiam o mais depressa que podiam, e ficavam calados, assustados. 

- Abençoada chuva! - diz o agricultor

       Quando o sol regressa, perceberam que as pastagens estavam maravilhosas para o gado, os sapos não cabiam em si de felicidade, sempre que chovia, faziam sempre uma festa, um bailado, com cantares e dançares, muito riso e brincadeira. 

       O que era pó, palha seca em vez de erva, amarela, transformou-se em erva fresca, verde, suculenta, tenra. Pouco depois, voltou a neve, com camadas que nunca ninguém tinha visto, e os sapos ficaram recolhidos, porque estava frio, tal como os outros animais, mas encantados com a paisagem. 

        Tudo é preciso, para a Terra, para nós, e para os animais. 

E vocês festejam quando chove, ou ficam zangados e tristes? 

Para que serve a chuva? 

Sentem medo da trovoada? 

O que fazem para não sentir tanto medo? 

Podem deixar nos comentários. 

Até já. 

                                                FIM 

                                             Lara Rocha 

                                     15/Setembro/2023

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Já imaginaram?

         Já imaginaram…? Já imaginaram o que era, se o interior da nossa cabeça fosse feita de areia? 
    Não precisávamos de ir para a praia! 
   A praia, é praia, e nós somos nós. 
    Pois. A praia é feita de areia, se o interior da nossa cabeça fosse feita de areia, éramos pedras ou peixes, algas ou outra coisa qualquer. 

      E como é que chegávamos lá? Para a praia podemos ir a pé ou de carro, mas como íamos para o interior da nossa cabeça se ela fosse feita de areia? Não sei! Através da nossa imaginação, podíamos estar sempre lá! 

     Se o interior da nossa cabeça fosse feita de areia escrevíamos as coisas más na areia, depois vinha a água do mar e apagava! E achas que era possível? Acho! Se o interior da nossa cabeça fosse feito de areia. 

  Era bom! Ou então se pudéssemos transformar os maus pensamentos, as más recordações, os nomes das más pessoas, na areia, ou em pedra, até podia ser mais fácil esquecê-las! 

    É. Mas o interior da nossa cabeça fosse feito de areia e do que éramos mais felizes. Ou não...porque as coisas boas também podiam desaparecer. 

    Não! Não escrevias as coisas boas na areia, onde houvesse mar perto. Escrevia-se noutro sítio, com uma pena de gaivota ou estrelas. Boa. 

      Se o interior da nossa cabeça fosse feito de areia, nós não éramos humanos, cheio de dunas, ondas, ilhas, grutas, parecem colchões insufláveis, ou caminhos. 

    É por isso que não esquecemos facilmente o que nos faz sofrer, nem quem nos magoa. Se o interior da nossa cabeça fosse feito de areia, acho que não tínhamos histórias para boas para contar, as nossas vitórias, e lembrar aquelas que nos fazem rir, nem podíamos, comer, nem andar, nem falar...Pois, isso é verdade! 

    Mas para algumas coisas era bom que o interior da nossa cabeça fosse feito de areia! Nem que fosse só um cantinho, onde escrevêssemos as coisas que gostávamos de esquecer, as pessoas que nos magoam, as desilusões, as frustrações, os sonhos não realizados, os nossos desejos e projetos que ficaram na nossa mente, ou no papel, e depois vinha o mar e levava tudo para longe. 

    Era bom! Eu também gostava, dizem que é tudo importante...mas podíamos pôr as coisas más na areia, e o mar devolvia para esse sítio, as coisas más, transformadas em coisas boas, memórias felizes pessoas boas. Se o interior da nossa cabeça fosse feito de areia, éramos mais saudáveis, mais felizes. 

    Se pudesses ver o interior da tua cabeça feito de areia, de que cor era a areia? 

Era do tamanho de uma praia, tinha rochas? Mar? 

De que cor era o mar? 

Tinha cantos para escrever coisas boas, e outro para escrever coisas más? 

O que escrevias mais? 

     Imaginem essa praia e escreve em dois sítios: as coisas boas, e as coisas más. 

    As coisas boas, escreve com uma pena, imagina essa pena como quiseres, e imagina-a a escrever essas situações boas, ou com estrelas. 

    As coisas más, escreve-as enquanto imagina que as transformas em pedras, e vê-as ir com o mar, com um sorriso, ou em formato de barco, navio a ir para longe. Podes imaginar outras coisas.

       Bom passeio pela praia do interior da tua cabeça feito de areia. 

                                                  FIM 

                                              Lara Rocha  

                                            29/Agosto/2023 

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Mundo perfeito na imaginação de uma criança

 


       








Um dia, uma criança sonhou… Sonhou com um Mundo, azul…lindo… limpo, sem poluição… Só natureza pura… Um Mundo sem Guerra, cheio de paz, e de pessoas boas…

Onde todos eram amigos, onde havia respeito entre todos e por todos, onde havia bondade, simpatia, sorrisos, sinceridade, felicidade. 

Um Mundo…Onde não havia miséria, onde havia comida para todos…onde não havia poder nem superiores…Onde todos se ajudavam…E conviviam…

Um Mundo…Onde os velhinhos não estavam sozinhos, e eram admirados por todos, respeitados, protegidos por todos, onde não eram abandonados pelos filhos…

Um Mundo…Onde todos tinham família, cheia de amor e carinho…Onde a Mulher tinha valor, onde a mulher não era usada, nem maltratada…

Um Mundo…Onde as crianças estavam com os seus pais…Onde eram amadas, desejadas pelos pais, onde tinham carinho…Um Mundo…Onde todos tinham casa, e ninguém dormia na rua…

Um Mundo…Sem doenças, sem violência, um Mundo…Cheio de sol, e às vezes com chuva…Um Mundo…Cheio de cores…E de sonhos…Onde todos trabalhavam, onde todos se ajudavam…Onde todos viviam com alegria! 

Mas o Mundo só pode ser de sonho, e perfeito, naquele lugar especial e mágico…A nossa imaginação capaz de criar um Mundo especial…Só nosso! 

O Mundo real, não é perfeito…Mas podia ser bem melhor! Um Mundo onde o coração e a paz fossem os reis…Um Mundo Perfeito!  

Um dia uma criança sonhou…Com uma grande bola azul que estava perdida num espaço imenso...A criança olhou para a bola azul, encantada…aproximou-se…deixou-se levar pela beleza da sua luz…E pelo tamanho da bola…

A bola chamava-a...A criança tocou-lhe a medo…A bola sorriu-lhe. A criança sorriu, olhou a bola, tocou-lhe, a bola gritou-lhe:

- Cuida de mim! por favor!

        A criança abraçou a bola ternamente e disse:

- Quem és tu…?
- Sou o Mundo onde vives.
- Cuidarei muito bem de ti. És linda, perfeita!
- Sou o teu Mundo.

O Mundo de cada um pode ser perfeito, na sua imaginação, mas o Mundo em que vivemos está muito longe de o ser. 

Já foi perfeito…Já foi meio perfeito e meio imperfeito, mas agora não está imperfeito, sequer…Nem perfeito…Se estivesse imperfeito…Não estaria mal…
   
Mas o nosso mundo está louco, doente, desordenado, revoltado, descontrolado…Ai, Mundo, Mundo…Como tu estás! 

Perfeito…? Só aos olhos inocentes e puros das crianças. O mundo de cada um…Pode ser perfeito e também imperfeito, mas…

E a ti linda bola azul…A ti, quem te volta a pôr perfeita? Mesmo na imperfeição, pela inveja de quem não o é, e nunca será…! Continuas a ser perfeita! 

Porque teimam…Em transformar a tua perfeição, em imperfeição? Para quê? Só pode ser por inveja…Gente louca, gente feia, gente doente, gente maldosa…

Ai, Mundo, Mundo…Existe em mim, uma parte de ti perfeita…Onde só eu caminho, onde só eu toco, onde só eu te abraço, onde só eu te protejo, e cuido de ti. 

Ai, Mundo, Mundo…Só precisas de amor…Não de ódio e Guerra! Mas onde está o amor? Está perdido…Só existe naquela parte de ti…Que em mim…É perfeita! 

Ai, Mundo, Mundo…Faltam-te abraços, falta-te respeito…falta amor por ti…Ai, Mundo, Mundo…Pobre Mundo! Cuidarei sempre de ti, como sempre fiz…Com amor, com gratidão, com carinho, com respeito…

Ai, Mundo, Mundo…Abraços e Beijos. Melhores dias virão para ti…Meu Mundo…Linda bola azul. 

                                            Fim 
                                       Lara Rocha 
                                       1/Março/2013 
                        



Fui nos braços da Lua
Ao colo dela,
Linda, 
Redonda de felicidade, 
Brilhante. 
Para o mundo 
Onde vive a inocência...

Onde passeamos todos juntos, 
De mãos dadas pela paz.
Onde brincamos sem maldade
Onde partilhamos 
Onde somos autênticos e felizes. 

Onde não há guerra,
Nem dor 
Nem raça 
Só amor! 

Onde tudo é perfeito. 
Onde há cor 
Onde todos os sonhos são possíveis 
Onde não se fecham portas. 

Onde a música nunca para 
Onde o sol brilha, 
Onde não há noite,
Só estrelas que brilham de dia, 
Nem limites, 
Nem fronteiras. 
LÁ…
No mundo da fantasia 
LÁ…
No cantinho secreto, 
Onde não há tempo...
Onde vive
A eterna e bela infância

Lara Rocha 
5/Dezembro/2014

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

O camelo que foi à neve, e e os da neve ao deserto


    
    
Era uma vez um camelo todo moderno, que trocou o deserto onde vivia, por uma aldeia com neve, onde tinha uns amigos que o convidaram. 
           Lá foi ele todo curioso e entusiasmado, com a sua roupa leve e fresca, mas na mala levava roupa quente. Os amigos foram buscá-lo à praia da cidade, cheia de neve à volta. 
          Cumprimentam-se alegremente, e o camelo sente os ossos a congelar: 
- Mas que frio! Parece que já nem sinto os ossos… estão todos a partir-se. 
          Os amigos riem: 
- É impressão tua! - diz um 
- Isso é de não estares habituado. - diz outro 
- Veste já um kispo. 
         O camelo tira da mochila um kispo, os amigos ajudam-no a vestir calças, meias, botas, luvas, gorros, entre escorregadelas, conversas e gargalhadas. 
     Já totalmente preparado para o frio, suspira. 
- Olha à tua volta, que lindo, tanta neve… 
        O camelo percorre toda a paisagem de neve com os olhos, abre um grande sorriso: 
- Uau! É mesmo muito bonito. - comenta o camelo 
- Anda, vamos para casa porque daqui a pouco é noite! - comenta um 
- Já? 
- Sim. 
- Vais adorar. 
        Cada um mete a pata de cada lado do camelo, e ajudam-no a deslocar-se para casa. Pelo caminho, o camelo sente o ar gelado do vento, toca na neve, quase escorrega algumas vezes. 
- Como é leve a neve. E fria! - comenta o camelo 
- É! 
         Os amigos tocam na neve, cheiram, e ficam todos vermelhos com o frio. Continuam e chegam a casa dos amigos, onde os espera uma lareira fantástica, as mães a cozinhar, os pais foram às compras, e os animais estão recolhidos, esticados em cima da manta, consolados com o calor agradável. 
        Os animais assustam-se com o tamanho do camelo. Todos riem. Cumprimentam as mães, e estas dão as boas vindas ao camelo. 
- Olá, bichos, quero apresentar-vos o nosso amigo que veio do deserto. 
        Os cães e os gatos cheiram-no, ladram e miam à sua volta, olham-no de cima a baixo. 
- Eles gostaram de ti. - comenta um amigo 
        Conversam alegremente, os pais chegam com as compras, comem um belo jantar, com muita conversa e gargalhadas. No fim do jantar, o camelo vê a paisagem da janela. 
- Anda lá fora, aí não vês nada. 
        Vestem os kispos e vão brincar com a neve à porta de casa, correm, caem, rebolam, riem, atiram neve uns aos outros, fazem bonecos de neve, um deles igual ao camelo. 
        Ele aplaude, os cães também se divertem à grande, ladram, os gatos miam e saltitam, até ficarem com a roupa encharcada. Voltam para o quentinho da casa, tomam um banho quente, vestem os pijamas, bebem um chá à beira da lareira, numa conversa muito animada, o camelo conta coisas sobre o deserto, e os amigos ficam muito curiosos em conhecer o deserto também. 
        Dormem uma bela soneca, cheios de cobertores, numa cama macia, com almofadões, sacos camas, e o quarto um conforto que dava gosto. 
        Nos dias seguintes, os amigos levam o camelo a visitar a aldeia onde vivem, cheia de neve, o camelo nunca tinha vista tanta neve. Brincou com os amigos, viu animais que não existia no deserto, constroem mais bonecos de neve, fazem piqueniques num parque cheio de neve, onde só as mesas e as cadeiras escapam, caminham sobre a neve, o camelo adora o barulho das patas a pisar a grande camada de neve. 
        Brincam, descansam, agasalham-se, o camelo agradece todo o carinho, o conforto da casa, da cama, da lareira, a simpatia dos pais dos amigos, agradece e abraça os amigos, e combinaram encontrar-se novamente, agora no deserto. 
        Foi o que aconteceu, umas semanas depois, os amigos que viviam na neve, foram ao deserto onde vivia o amigo. Ficaram espantadíssimos, nunca tinham imaginado sequer como era, só ouviram o amigo falar do deserto, mas estar lá era muito diferente.           Levaram roupa fresca para de dia, e roupa mais quente para a noite, porque no deserto arrefecia bastante. Abraçam-se e são recebidos numa grande festa, os camelos juntam-se todos para dar as boas vindas, e cada camelo recebe os amigos em sua casa, numas grutas mais pequenas, e numas grutas maiores, onde não lhes faltava nada. 
        De dia passeiam pelo deserto, e descobrem surpresas agradáveis, também tinha coisas bonitas, flores exóticas, pequeninas lagoas, plantas, árvores, aves raras, bonitas, outros animais, frutas saborosas. 
        Os amigos adoraram sentir a areia, brincar na areia, o sol, e a frescura da noite, as grutas onde dormiram, e a segurança, o sossego que era aquele espaço, os petiscos, e tudo era novidade para eles, tal como a neve que se via do deserto, um pouco longe, no cimo das montanhas altas, e à volta, onde viviam os amigos. 
        Combinaram encontrar-se mais vezes, falavam-se todos os dias pela internet, e por telemóvel, e quando queriam iam ter uns com os outros. 
        Um dia, o inesperado aconteceu: nevou no deserto, como nevou na montanha. Os camelos estavam em estado de choque, eufóricos, nunca tinha acontecido, até ficaram assustados, mas depois, foi diversão total, o camelo chamou os amigos da neve, e a festa durou vários dias no deserto com neve. 
        Nunca souberam como foi possível nevar no deserto, só sentiram algumas noites, em que estava realmente muito mais frio, mas nunca pensaram que iria nevar. 
        Os camelos estavam emocionados, mas uma voz estranha, nem sabiam de onde vinha, disse que não deveriam estar assim tão felizes por ter neve no deserto, porque era sinal de que o planeta Terra estava doente. 
        Ficaram tristes, e muito surpresos, a voz tinha razão. A neve derreteu, os camelos foram à montanha com neve, onde viviam os amigos, e estava calor, coisa que também nunca tinha acontecido, quase nem havia neve. 
        A voz voltou a repetir: o planeta Terra está doente, é por isso que quase não há neve, e há calor. Cuidem dele. Na verdade o planeta Terra está doente, e tem acontecido muitas mudanças estranhas, violentas, nunca antes vistas, chuvas torrenciais, ondas de calor onde nunca tinha havido, neve a derreter, ou nem sequer há neve. 
        Todos ficaram muito pensativos, e nós, também devíamos pensar todos os dias um bocadinho no nosso planeta, que está realmente doente! Fazer-lhe bem, para não termos surpresas como as dos camelos e dos amigos, que são bonitas, mas não são um bom sinal.

Vocês cuidam do planeta? 
Como? 
Vocês também acham que o planeta está doente? Porquê? 
O que fazem para ele não ficar mais doente? 
O que ainda podemos fazer por ele? 
Já imaginaram neve no deserto? 

Podem deixar os vossos comentários. 

                                            FIM 
                                         Lara  Rocha 
                                        16/Agosto/2023 

terça-feira, 25 de julho de 2023

De que cor é a paz?


aguarela 


    Era uma vez um menino que andava muito pensativo, sobre a Guerra e a Paz. 

    Não gostava nada do que via na televisão sobre os países em guerra, nem de ouvir os adultos a falar sobre Guerra, mas era o que existia. 

    Chorava quando ia dormir, agradecia por o seu país ter Paz, e por tanto ele como a família estarem em Paz. Pedia nas suas orações em conjunto com a família, que a Guerra acabasse e que houvesse Paz. 

     Antes de ir dormir, aquelas imagens e a pena que sentia daquelas pessoas, perturbavam-no, mesmo não estando lá, porque conseguia imaginar-se naqueles sítios, imaginava o que ele próprio sentiria e a sua família se algum dos seus estivesse lá. 

     Adormecia com as lágrimas a cair, mas acreditava que um dia a Guerra acabaria. Para tornar o sono mais agradável, depois de pensar na Guerra, pensava e perguntava-se: 

- Será que a Paz só tem a cor branca? Ou será que tem as cores da bandeira onde andam em Guerra, e as nossas em so...li...soli...solidaridade...ai...solidariedade, acho que é assim que se diz. 

        No dia seguinte, de manhã, ao pequeno almoço, perguntou à mãe: 

- Mãe...de que cor é a Paz? 

- É branca! 

- Será que não tem outra cor? 

- Não. Despacha-te mas é, esquece lá a cor da paz...! Temos de sair a seguir. 

- Está bem! 

        Entra o pai, e o menino pergunta: 

- Pai, de que cor é a paz? 

- É da cor do não me chateies, que estou cheio de pressa e do despacha-te! 

- Porque é que estão tão zangados? Também querem a Guerra, é? 

- Come e despacha-te. - gritam os dois 

- Deixa lá a Guerra, ela não está cá. 

     O menino fica tão triste, que quase não toma o pequeno almoço, e os pais cheios de pressa nem reparam. 

     Engolem os deles, pegam no menino, metem-no no carro e vão depressa levá-lo ao colégio, a mãe num carro e o pai no outro, com velocidade, a murmurar, a resmungar baixinho, a bufar, por causa do trânsito, a buzinar, a bater com as mãos no volante. 

     Nem um beijo deram um ao outro, nem ao menino, largam-no à porta do colégio e avisam-no que a Avó vai buscá-lo ao fim do dia. 

      O menino está triste como a noite. Entra na sala, cumprimenta a educadora, senta-se num canto triste. 

     A educadora vai ter com ele, preocupada, e pergunta: 

- Então, príncipe, estás muito triste hoje, o que aconteceu? 

    O menino desata num pranto, a educadora abraça-o, acaricia-o na cara, e o menino a soluçar responde: 

- Os meus pais hoje foram maus comigo, como são sempre. 

- Foram maus…? Mas....o que fizeram? Bateram-te? 

- Não. Gritaram comigo, eu perguntei se a paz tinha outra cor, mandaram-me despachar, disseram que a Paz tinha a cor do não me chateies e do despacha-te...isso não são cores, pois não? 

- Não! 

- Estão sempre a correr, sempre a gritar um com o outro e comigo, eu não gosto da Guerra, choro sempre à noite, por aquelas imagens, e agradeço por estarmos em paz, mas afinal, os meus pais não fazem pela paz, fazem Guerra. 

- Óh, meu querido, isso é muito bonito de tua parte. Os teus pais fizeram isso sem pensar, estavam com pressa para ir para o trabalho, os adultos são assim. 

- Nem deram um beijinho um ao outro, nem a mim...eu não gosto quando eles falam assim um com o outro e comigo! Parece que gostam da Guerra. 

- Não, eles não pensaram, só estavam com pressa, mas de certeza que te amam, e que querem a paz. 

- Mas, eu queria saber se havia outra cor da paz...eu gosto da Paz. Não sei porque ficaram tão zangados com essa pergunta! 

- Vais ver que à noite, já estão mais calmos. 

- Não gosto de os ver sempre a correr. Tu também corres? 

- Às vezes, sim, corro, quando me atraso, e às vezes também resmungo com o meu marido e com os meus filhos, mas gostamos da paz, fazemos pela paz, e ao fim do dia estamos todos bem. 

- Porque é que fazem isso? 

- Olha, porque...os adultos são uns apressados! Deixa lá, agora vamos mas é brincar! 

- Mas, e tu, achas que a Paz tem outra cor? 

- Huuummm… a paz tem a cor branca! Mas sim, pode ter outra cor. Que agora não sei. E tu, achas que a paz pode ter outra cor? 

- Sim! Azul, ou...amarelo, ou verde. 

- Áh, sim? Porquê?

- Azul porque é a cor do céu, do dia, o amarelo porque dá claridade e luz, o verde porque é natureza, e traz bem. 

- Olha, muito bem visto! Concordo contigo. Essas cores também me trazem Paz. Gosto muito dessas cores. 

- Eu também. 

- Agora lembrei-me de outra cor da paz…

- Qual? 

- A do sorriso! 

- Áh! Sim, e a dos abraços...-diz o menino

- Também! 

     A educadora abraça o menino, e este retribui o sorriso e o abraço. 

- E qual é a cor dos abraços? - pergunta o menino

- São muitas cores! Todas as alegres. 

- E a cor dos sorrisos? 

- Todas as cores alegres. 

- Tu gostas dessas cores? 

- Adoro. E tu? 

- Eu também. 

- Vamos lavar a carinha, brincar com os meninos e tu pode ir perguntando ou perguntamos na roda, aos outros meninos qual é a cor da Paz, combinado? 

- Combinado. 

   O menino abre um grande sorriso, vai brincar com os meninos, alegre, e quando se sentam na roda, a Educadora pergunta: 

- Meus amores...hoje o nosso amiguinho trouxe uma pergunta muito boa e bonita: qual é a cor da Paz? Eu quero saber o que cada menino acha! 

- Branca! - respondem em coro 

- Mas que outras cores podem ter? 

- A cor dos abraços. - diz uma menina 

- Que lindo! - diz a educadora 

- Tem a cor de quando nos portamos bem! - diz um menino 

- Gosto muito dessa cor! - diz a educadora a sorrir 

- Azul. - diz uma menina 

- Boa! Gosto muito dessa cor, para mim também me faz sentir paz. 

- É a cor dos jardins! - diz uma menina 

- Boa! Qual é a cor dos jardins? 

- São muitas. Verdes, todas as cores das flores. 

- A água! 

- Os rios! 

- Os lagos!

- Os pássaros. 

- A cor da amizade! 

- A cor dos risos. 

- A cor dos sorrisos. 

- A cor das estrelas e dos animais.

- A cor do carinho. 

- A cor de algumas canções! 

- A cor do canto dos pássaros. 

- A cor das borboletas e das joaninhas.

- A cor do vento. 

- A cor da chuva. 

- A cor das árvores, das folhas nas estações do ano. 

- A cor do dizer «bom dia», do «obrigado», do «gosto muito de ti». 

- A cor da praia. 

- A cor do mar. 

- É os pais não andarem sempre a discutir. 

- Pois, os meus andam sempre a discutir. 

- Os meus também! Às vezes nem falam comigo, só quando eu saio de onde eles estão. Apetece-me pô-los de castigo, ou dar-lhes umas sapatadas, como eles fazem.

      Todos dão uma gargalhada. 

- Não gosto nada quando eles fazem isso! 

- Nem eu! 

- Os adultos são mesmo assim. - diz a educadora 

- É os pais não andarem sempre a correr. 

- Os meus pais estão sempre a correr, engolem o pequeno almoço, fazem-me correr e engolir o pequeno almoço. 

- Os meus também. 

- Mas isso não é paz. 

- Depois de certeza que fazem as pazes…! 

      E ficam ali um bom bocado de tempo a dizer as cores que achavam que tinham a paz, na verdade, era tudo o que lhes trazia paz, o que os fazia sentir paz. 

      A falar de paz, e de Guerra, dão as mãos e pedem pela paz. O menino estava feliz com tanta coisa bonita que ouviu, e para ele tudo o que ouviu também eram as cores da paz. 

     No fim do dia, a Avó vai buscá-lo ao colégio, abraça-o, beija-o, e leva-o para sua casa, faz-lhe um lanche com tudo o que ele gosta. O menino pergunta ao Avô: 

- Avô, a Paz tem outras cores? 

- Sei lá, nunca a vi! 

- Já parecem as respostas dos meus pais! - diz o menino 

- Ááááhhhh...então não vives em paz comigo? - diz a Avó 

- Tem dias! - diz o Avô 

- Avó, para ti qual é a cor da paz? 

- Hummm…são muitas cores! 

      Enquanto o menino lancha com a Avó, a Avó diz-lhe cores parecidas com as que os meninos disseram. O menino sorri:

- Obrigada, Avó! Disseste coisas parecidas com o que os meninos disseram hoje. É que os meus pais estão sempre zangados, a correr, sempre a mandar-me despachar, sempre a correr, sempre a resmungar...eu acho que eles não conhecem a Paz. Eu não gosto da Guerra, quando adormeço peço sempre para a Guerra acabar, e agradeço por estar em paz, afinal vem os meus pais e andam em guerra. 

- Santa Inocência! - murmura e ri o Avô 

- Não, filho. Não andam em guerra, andam é mais nervosos, com muitas coisas a fazer, pensam em muita coisa ao mesmo tempo, atrasam-se, é o trabalho, é o trânsito...mas isso não é Guerra.

- Gritam um com o outro, e comigo, mandam-me despachar, fiz esta pergunta, o meu pai disse que era a cor do despacha-te e do não me chateies, nem repararam que eu nem tomei o pequeno almoço todo. Não me deram beijinhos, foram o caminho todo a resmungar. 

- Tu quando fores mais crescido, vais perceber melhor, mas não é Guerra, como a da televisão. 

- Mesmo assim não gosto. 

- Eu sei, mas é normal. 

     A Avó conversa com o menino mais um pouco, os pais vão buscá-lo quase à noite, e veem que o menino não quer ir. 

- Então filho? 

     Ele não responde, está triste. 

- Fez queixinhas. - diz a Avó 

- De quê? - perguntam os dois 

     A Avó conta a conversa que teve com ele, os pais ficam envergonhados, pegam nele ao colo, pedem desculpa, abraçam-no, beijam-no. 

- Eu não quero ir para a Guerra, nem para casa, para vos ouvir sempre aos gritos um com o outro, e comigo, a mandar despachar-me, ou a dizer que não me chateies. 

- Desculpa, filho. Estávamos nervosos, cheios de coisas para fazer, mas agora estamos mais calmos. 

- Não interessa. Magoaram-me! E magoam-me muitas vezes com as vossas pressas...parece que não existo. Só sirvo para vos atrasar, e para ser mais uma coisa a fazer. 

- Não, não é isso. 

- És o nosso filho, trabalho é trabalho, filho é filho. 

- Não parece. Vocês não gostam um do outro, nem de mim. 

- Claro que gostamos, amamo-nos, e a ti também. 

- Então porque estão sempre aos gritos um com o outro, a bufar, a gritar comigo, a mandar-me despachar...sempre a correr...isso é Paz? Não conheço essa cor, como Paz. 

- Desculpa, filho! - dizem os dois 

- Os adultos às vezes são muito mauzinhos, mas não é por mal. É sem querer, sem pensar. 

- Mesmo assim, amam-se e amam os filhos. 

- Como te amamos a ti. 

- A Avó não grita comigo, nem me manda despachar. Vou ficar com ela. 

- Prometemos que não voltamos a fazer isso, está bem? 

- Não acredito! 

- Podes acreditar. 

- Só estão bem no meio da Guerra, para vocês não existem cores da paz. Que tristeza! E deixam-me muito triste. 

- Nós sabemos

- Vamos! - diz a mãe 

- Jantamos e brincamos contigo, contamos-te uma história… pode ser? 

- Não acredito que vão fazer isso. Estão sempre com pressa! Até ao jantar, e para me deitar. 

- Mas a partir de agora vai ser diferente! 

- Se não for diferente, eu fujo para a casa da Avó. 

- Está bem. - diz o pai a rir 

- Vamos? - diz a mãe 

- Avó, está atenta ao telefone, se faz favor. Eu não acredito neles! 

- Obrigado, filho, por nos abrires os olhos! - diz o pai, triste 

- Obrigada, meu amor...não imaginávamos o quanto sofrias. 

- Mas em casa, explicamos-te, ou quando cresceres. 

- Eu não quero ser grande...quero viver sempre na Paz. Vocês nem sabem as cores da Paz, não veem nada, como podiam ver a minha tristeza…? É sempre o despacha-te, não há bom dia, nem beijinhos… 

- Tens razão! - dizem todos 

     Todos riem, e lá convencem o menino a ir para casa. Nesse dia cumprem o que prometeram e viram a diferença na criança. 

     Nos dias seguintes, sempre que podiam, evitavam discutir um com o outro, e gritar com a criança. 

     E para vocês…? Qual é ou quais são as cores da Paz, além do branco? Porquê? (crianças e pais, tios, avós...) 

Já pensaram nesta situação real em muitas famílias? A correria todas as manhãs, outras prioridades, em vez de estar inteiros com os filhos? Já imaginaram como eles se sentirão? Mesmo que as vossas preocupações sejam compreensíveis? Já agradeceram o vivermos num país em Paz? Tudo o que temos, e tudo o que os inocentes em Guerra perderam? 


Coisas simples, podem encher-nos de Paz. 


Podem deixar nos comentários se quiserem.

                                            FIM 

                                     Lara  Rocha 

                                   25/Julho/2023