Número total de visualizações de páginas

sábado, 8 de maio de 2021

Terra!

 

Desenhado por Lara Rocha 


Porquê? 

Porquê tanta gente sem vida, ou vivas mas vazias? Porquê? Tanta gente violenta, com sede de vingança, porquê? Tanta cabeça perdida? Porquê tanta gente louca a fundir-se na terra, em lágrimas, em desespero? Porquê tanta gente em destruição, que vive entre gritos, os delas e os dos outros contra elas? Porquê tanta gente a suicidar-se? 

Tantos porquês, que pensamos...tantos porquês que ficam sem resposta, apenas com a certeza...o mundo está doente! Tempestades absurdas nunca antes vistas, intempéries nunca antes sentidas, sismos e tsunamis que parecem descarregar toda a raiva que o ser humano exala a toda a hora, contra a terra, contra si, contra todos. 

A raiva do ser humano que passa para a terra, e esta devolve, em forma de fenómenos atmosféricos perfeitamente escandalosos, que apenas faziam parte do nosso pior imaginário, dos nossos pesadelos, mas estão a materializar-se. 

Que medo! Sim, muito! Isto é para acordar! Acordemos enquanto é tempo, se é que ainda o temos, porque ele voa. Tudo isto é para nos sacudir as consciências, para termos consciência do que andamos a fazer, a comportarmo-nos com a terra. 

Devíamos amar a Terra, como amamos as nossas mães, avós, filhas, irmãs, é dela que viemos, é nela que vivemos desde que nascemos, é dela que vivemos.

Cuidemos dela, amemo-la, protejamo-la, ou então, ela vai ensinar-nos a amá-la, e já não iremos aprender, já será tarde demais, ela já nos terá ensinado. Continua a ensinar, fá-lo todos os dias, mas os seus filhos, todos nós, continuamos a não ouvir, a não querer aprender a ler as mensagens que ela nos manda todos os dias. 

Ignorámo-la, e ela vai aprendendo a fazer o mesmo connosco. E não pensemos que as tempestades só acontecem fora, aqui no nosso cantinho sagrado não acontece nada! 

Pois, mas os glaciares derretem a olhos vistos, os fenómenos naturais visitam-nos, nada está como antes! Nada será igual àquela terra onde já vivemos. Não é só lá fora que as desgraças acontecem, e que a terra dá lições, aqui, a nós, também dá e dará, mais cedo ou mais tarde. 

Aliás, já estão a acontecer, nós é que com o corre corre, a ambição da produção, da riqueza, do dinheiro, da produção, esquecemos o resto, o principal. A nossa casa de origem! A nossa mãe de origem! 

Somos todos responsáveis, vejamos bem o que estamos a fazer. Por causa do homem selvático, louco, assassino da Natureza, que a destrói, de todas as maneiras que pode, polui com tudo o que inventa, só a pensar em si, no seu viver bem, talvez aí esteja a explicação de tudo! Pobre terra. Doente e cheia de doentes! 

                                        Lara Rocha 

                                        8/Maio/2021 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

O espelho das estrelas

       


 Era uma vez uma linda flor, numa janela de uma casa. Geralmente a flor ficava na beirada da janela, mas quando chovia guardavam-na num alpendre, para ficar protegida. Numa noite, as estrelas faziam o seu passeio noturno quando espreitaram pelos binóculos para o planeta terra, gostaram tanto daquela flor que se aproximaram, de tal maneira que conseguiram ver-se refletida nela. 

        Era uma flor que dava luz, e tinha pétalas lisas, macias, bonitas. As estrelas quiseram experimentá-la, e desceram, disfarçadas de borboletas para poderem pousar. A flor tinha umas gotinhas de água flutuantes que deslizavam de pétala em pétala, porque tinham-na regado, ao fim da tarde, achou um bocadinho estranho ver borboletas por ali àquela hora. 

        As estrelas disfarçadas de borboletas, transformaram-se em pirilampos, e sobrevoaram a flor, vendo a sua imagem refletida nas gotinhas. Esta já conhecia os pirilampos, mas assustou-se, e acendeu a sua luz, as estrelas disfarçadas conseguiram ver-se fletidas, como se estivessem em frente ao espelho. 

- Olá, linda flor, não te assustes, nós somos estrelas, mas tivemos de nos disfarçar de borboletas e agora de pirilampos. Vimos-te lá de cima, que bonita que tu és. 

- Espera aí...és uma flor ou um espelho? 

- Sou uma flor. 

- É que nós estamos a ver-nos aí nas tuas pétalas, em forma de pirilampos e de estrelas. 

- Áh! Devem ser as gotinhas de água da rega, ao fim do dia que adoram dormir nas minhas pétalas para eu ficar viçosa, fresca. 

- E tu dás luz? 

- Sim! 

- Áh! Nunca vimos uma flor a dar luz. 

- Eu também não sei como dou luz, acho que sou a única. 

- Então devemos estar a ver o nosso reflexo por causa da tua luz. 

- Vocês também têm luz, por isso pode vir de vocês, e veem-se nas gotinhas. Que lindas que são!

- Obrigada, tu também. 

- Fala-nos deste espaço onde moras... - pede uma estrela 

            A flor e as estrelas têm uma longa conversa, riem, e deixam um presente à flor, para lhe dar a certeza que voltariam muito em breve. Salpicaram as pétalas com o seu brilho, pareciam manchas de tinta, em formato de estrelas, e sempre que as gotinhas passassem por lá, ou o sol lhe tocasse, podia ver o arco-íris, que como combinaram, seria sempre as estrelas estivessem por perto, ou quando ela se sentisse sozinha, sabia que em breve estariam juntas, para grandes diversões. 

            Os donos não sabiam que aquela flor ganhava manchas de tinta brilhantes nas pétalas, nem descobriram como, mas era uma das flores preferidas deles, que atraia lindas e gigantescas borboletas, pirilampos, abelhas e as próprias estrelas iam ver-se ao espelho. Passaram várias noites a encontrar-se, a flor levou as estrelas a conhecer o espaço, a casa, o jardim que elas adoraram, com a sua luz, brincaram, cheiraram, rodaram na relva, acariciaram as outras flores, e nunca mais largaram a flor. As estrelas tornaram-se as melhores amigas da flor, levando muitas mais amigas, e passando noites divertidíssimas. 

                                                                FIM 

                                                           Lara Rocha 

                                                            5/Maio/2021

                                                        


segunda-feira, 3 de maio de 2021

Os peixinhos e as bolas de sabão

            
desenho aguarela 


      Era uma vez um peixinho que vivia numa gruta, atrás de uma gigante cascata desde a montanha até à margem. Um dia, o peixinho espreitou uns meninos na margem, com um sorriso de orelha a orelha, aos gritinhos e saltinhos, risinhos e palminhas, a correr felizes atrás de bolinhas de sabão, enquanto outros meninos e adultos as faziam: umas enormes, outras mais pequenas, médias, grandes. 
      Corriam atrás das bolas que alguém soprava, saltavam com os cães que tentavam abocanhar. Eram aos milhares, de todos os tamanhos. Os adultos sopravam devagar para que as bolinhas de sabão saíssem enormes, e não rebentassem, como acontecia com algumas que mal chegavam a formar-se. Quando isto acontecia, as crianças riam à gargalhada, juntamente com os adultos, e sopravam elas, para mostrar aos adultos que sabiam fazer melhor do que eles. 
     Ele não sabia como faziam mas achava tão giro, o entusiasmo e a alegria que todos mostravam, e a beleza das bolas enormes que conseguiam fazer. Parecia fácil, apenas soprar. Depois de observar atentamente, foi para a gruta e tentou fazer o mesmo. 
     Com a boca e a sua respiração já fazia bolinhas, pegou numa argola, deixada no rio, soprou como via fazer mas não saíram bolinhas nenhumas. Rodou, virou ao contrário, soprou e bolinhas nem vê-las. Outros peixes pensaram que o peixinho estava a rodar a argola para brincarem com ele. 
     Então, atravessam a argola enquanto ele segurava, penduravam-se nela, o peixinho largou-a muito zangado e sentou-se amuado. Os amigos perguntaram porque é que ele estava tão aborrecido, se a brincadeira que tinham acabado de fazer até estava a ser divertida. 
     O peixinho explicou que espreitou os meninos na margem e estava a tentar fazer o mesmo. Todos os peixinhos foram espreitar à margem, ver como estavam a fazer, e ouviram um adulto a dizer: 

- Meninos, já não há mais bolinhas! Acabou a água e o sabão! 

     Chegam uns artistas de circo com argolas enormes, para fazer bolas de sabão, e o jovem que estava com os pequenos pediu-lhes um bocadinho de água com sabão, se não se importassem. Um dos artistas partilha, todo simpático, conversam uns com os outros, e os artistas faziam bolas ainda maiores, o triplo do tamanho das dos meninos. 
       Todos ficam maravilhados ao ver tanta bola de sabão, tão grande, cruzada com as mais pequenas, encaixadas umas nas outras sem rebentar, a voar, leves. As crianças e os outros adultos aplaudiram. Os peixinhos voltaram para a gruta, prepararam uma bacia com água e sabão, e sopraram vários tamanhos de argolas que apanharam no rio. Uau! Conseguiram. 
      Algas, peixes de todas as espécies e tamanhos, anémonas, estrelas-do-mar, cavalos marinhos, camarões, e muitos outros atravessaram as enormes bolas de sabão que os peixinhos fizeram. Umas rebentaram outras não, mesmo assim, a partir desse dia, passaram horas a brincar uns com os outros, a fazer bolas de sabão, e a espreitar na margem. 
      Que giro! Afinal os peixinhos também sabem fazer bolas de sabão, quando descobriram como se faz, não pararam mais. 


                                                                                                                             FIM 
                              Lara Rocha 
                                                                                                                        3/Maio/2021 
Aguarela depois de seca 


domingo, 2 de maio de 2021

O pássaro que dava gargalhadas

pintado a óleo por Lara Rocha 
           

            Era uma vez um pássaro gigante, com grandes penas, todas coloridas, que vivia escondido no tronco de uma árvore. Não gostava de pessoas, por isso só saía da árvore quando não passava ninguém. Um dos seus passatempos preferidos, sem saber que conseguia ter esse efeito, era além de dançar e exibir-se quando saia da árvore, ver comédias e rir à gargalhada. 

            Com todo o corpo e com toda a alma! Quando as pessoas passavam e ouviam essas gargalhadas estrondosas, estridentes, tinham reações diferentes. Umas arrepiavam-se dos pés à cabeça, ficavam estáticas, paradas em frente à árvore, como se estivessem coladas ao chão, só a mexer os olhos de um lado para o outro, a olhar para cada árvore, a tentar descobrir de onde vinham as gargalhadas. 

            Outros andavam sem pressa, mas quando ouviam as gargalhadas pareciam foguetes, corriam sem olhar para trás, e só paravam num sítio seguro a recuperar o fôlego. outras gritavam e corriam. Tudo porque não viam pássaro, nem pessoa, de onde viriam as misteriosas gargalhadas? 

            Um dia o pássaro decidiu sair da árvore, não deu as gargalhadas mas quem passou reparou nele, pela beleza das cores das suas penas gigantes e por ele estar a exibir-se, que parecia dançar. Aplaudiam, e ele fazia vénias todo vaidoso. 

Quando as pessoas começaram a rir-se, o pássaro deu as gargalhadas, aquelas de quem toda a gente tinha medo. 

- Áh! Então eras tu que davas aquelas gargalhadas que pareciam de gente! 

        O pássaro não sabia do que estavam a falar, mesmo assim, ria com vontade, com alma, dentro e fora da árvore. Eram umas gargalhadas contagiantes, e muito saudáveis, tão agradáveis de ouvir, que em vez de medo, depois de saberem de onde vinham, juntavam-se, e além de apreciar o passeio, deliciavam-se com as gargalhadas do pássaro. 

                                             FIM 

                                        Lara Rocha 

                                         2/Maio/2021 

Sereia ou peixe?

         


Era uma vez uma Vila de pescadores, onde viviam famílias simples, trabalhadoras e humildes. Os homens, desde os mais novos até aos mais velhos, saiam antes do sol nascer, e algumas das esposas, namoradas, sentiam o coração muito apertadinho. Tinham medo que não voltassem, ou que lhes acontecesse alguma coisa. Então, sempre que os homens iam para o mar, as mulheres de todas as idades não dormiam mais. Abraçavam e beijavam os filhos, os namorados, recomendando-lhes cuidado. Seguravam as lágrimas até eles irem  para os barcos no mar alto, juntavam-se, davam as mãos e rezavam por proteção! Aí sim, as lágrimas pelo medo saiam dos seus olhos! Não erram homens de fé, achavam que tinham muita coragem, era a missão deles, só tinham de a cumprir, mesmo que soubessem que era arriscado, e diziam com segurança que o mar era amigo deles. Um dos jovens perguntou à namorada: 

- Porque é que vocês se põem com essas cerimónias de lamechices quando vamos para o mar? 

A namorada responde: 

- Não são lamechices, é medo! 

- Medo...! Que ridículo. - graceja o namorado 

- Vocês não têm medo, queres ver? 

- Claro que não! Isso é coisa de mulheres. O que fazem? 

- Rezamos! Pedimos proteção, que voltem sãos e salvos, que pesquem muito peixe, mas façam boas viagens. 

- Não tendes mais nada que fazer? Que patetice, isso não existe? 

- Ai não? Felizmente têm voltado sempre. Já que não acreditas, pelo menos respeita porque dói-nos muito! Ficamos com o coração muito apertadinho! 

- Está bem, desculpa! Acredita lá no que quiseres. 

- E se rezássemos às sereias, aí vocês também rezavam não era? Até faziam outras coisas com elas. 

O namorado ri. 

- Sereias? Também achas que existem? Vives no mundo da infância. Coitadinha, cresce. 

        A namorada fica zangada, não se falam mais nesse dia, cada um está no seu trabalho. De madrugada, o mesmo ritual repete-se. Todas rezam, mas a namorada não dá beijo nem abraça o namorado, só lhe diz: 

-  Que as sereias te guiem. Ingrato... 

- As sereias? E tu não ficas com ciúmes se for com elas? 

- Não. 

            O namorado ri-se, vai para o barco com os outros homens, e nessa noite o mar está muito revolto. As gaivotas estão muito nervosas, piam, voam desvairadas, parecem perdidas. 

- Mas o que é que se passa hoje? - pergunta uma mãe 

- O mar está muito revolto...as gaivotas tão inquietas, os nossos homens hoje não deviam ter ido. 

- Ai, que nervos! - diz outra 

        Enquanto as mulheres estão nervosas e rezam, outras choram e acendem velas, os barcos dos maridos andam aos trambolhões, no mar, os marinheiros gritam, tentam lutar contra a força das ondas, mesmo não tendo por hábito rezar como as mulheres, sentem vontade de o fazer, porque correm perigo. Dizem que não sabem como, mas veem uma sombra que não conseguem distinguir se é de peixe ou de uma mulher com cauda de peixe que lhes dá uma valente chicotada com a cauda e atira-os a grande velocidade para a costa, onde chegam todos ensopados, mas sãos e salvos. As mulheres respiram de alívio. 

- Hoje não deviam ter ido para o mar! - resmunga uma mais nova

- Tendes razão! - dizem todos 

- Não imaginávamos que o mar ia estar tão bravo! - diz outro 

- Andamos aos trambolhões, mas alguém nos atirou para aqui! 

- Quem? - perguntam todas 

- Uma sombra com cauda de peixe! Não conseguimos ver o que era. 

- Acho que alucinaram com o medo! - comenta uma namorada 

- Rezaram? - pergunta outra mãe 

- Sim! - respondem todos 

- Foram ouvidos! Talvez agora percebam porque fazemos aquelas lamechices todas, não é, amor? - pergunta a namorada irónica 

- É! Desculpa!

- Foi uma sereia? 

- Não. Não sei. . 

- Qual sereia? Foi a força da oração deles e da nossa crença. 

            Todos concordam, abraçam, beijam as esposas e namoradas, e nesse dia há festa para retribuir as orações que os salvaram. Silenciosamente, os homens achavam que foi uma sereia que os salvou, mas para disfarçar, diziam que foi um peixe, mandado pelos pedidos das mães, esposas, e namoradas. A partir desse dia, respeitaram as suas esposas, e aprenderam a fazer o mesmo. Rezavam antes de sair para o mar, porque sabiam que com o mar não se brinca, mas respeita-se. Nunca sabiam na verdade o que esperavam. Mas pelo menos sentiam-se mais protegidos, e quando  viam o mar revolto, já não iam. E vocês? Acham que eles foram salvos por uma sereia ou um peixe? 


                                                                    FIM 

                                                                 Lara Rocha 

                                                                2/Maio/2021 

sábado, 1 de maio de 2021

o silêncio e as suas funções



foto de Lara Rocha 








Umas vezes o silêncio é...De ouro, quando ficamos entregues a nós mesmos, aos nossos pensamentos, aos nossos momentos e reflexões. Outras vezes o silêncio é...de prata, quando nos faz descansar! 

O silêncio ás vezes fecha-nos, quando a saudade bate à porta e olhamos para dentro de nós, à procura de diamantes. Outras vezes o silêncio mata, quando esperamos a lembrança de alguém, quando o coração bate mais forte à espera de alguém, ou de noticias...

O silêncio às vezes dói....O silêncio às vezes gela...O silêncio às vezes é bom...O silêncio às vezes cura! O silêncio às vezes é uma janela que se abre...O silêncio às vezes é uma gruta escura...O silêncio às vezes dá - nos luz! Outras vezes o silêncio faz-nos chorar. 
Todos os silêncios fazem-nos crescer, mesmo quando o silêncio dói.

                                            Lara Rocha 
1/Maio/2021 

Monólogo: a amizade, as estações do ano e as flores

 



A AMIZADE E AS FLORES

    As amizades são como as flores…Umas verdadeiras, naturais, coloridas, frescas, delicadas, constantemente bem tratadas, com carinho, palavras simpáticas, abraços...outras...São naturais, coloridas, e frescas. 

  São aquelas que podem durar uma eternidade, e começar até antes de nascer, umas permanecem para sempre, enquanto vivem, outras, são fogo de vista! 

    Lindas no início, que nos enchem os olhos, preenchem-nos, fazem-nos renascer, como se fossemos a terra a acordar do longo sono do Inverno, na Primavera, mas tal como as estações do ano terminam, para que a terra se renove, passado uns tempos, por falta de dedicação, por esquecimento, por maldade…Murcham! 

     Passamos da Primavera para o Outono, que apesar da sua beleza, à medida que caminha para o Inverno torna-se mais tristonho.

     Como esperávamos o despertar de uma amizade que fantasiávamos, com a certeza quase absoluta de que ia ser boa e de repente, desaparece, como as folhas das árvores que caem e voam levadas pelo vento, secam, são pisadas. 

      Outras, são artificiais, bonitas, coloridas, e estão sempre intactas, como as compram e no local onde as deixam.

   Há aquelas flores que têm espinhos, outras não. Outras parecem nascer do nada, como se fossem uma semente largada do bico de um pássaro que pressente que ali é um bom terreno para desabrocharem flores. 

    Mas não depende do pressentimento dele, porque as amizades não são sementes de flores, às vezes parece que vai nascer alguma coisa, e pode começar, mas logo a seguir, por qualquer razão que nem sempre conseguimos explicar...Morrem! 

     Voltamos a ser Inverno. O nosso mundo interior gela, ou congela, ficamos tristes, choramos, ou tornamo-nos uma espécie de navio encalhado num glaciar, nem para trás, nem para a frente. 

    Questionamo-nos o que fizemos, se a culpa foi nossa, ou se foi o outro que quis. Se estávamos tão bem, porque acabou? Perguntas que podem ficar sem respostas, simplesmente porque tinha de ser assim, talvez fosse o melhor, apesar da dor. 

   Sim, apesar da desilusão, e da perda, ainda temos esperança de encontrar novos amigos, assombrados pela dúvida, mas com vontade que aconteça. 

    Ficamos entre a Primavera e o Verão, e somos Verão, quando encontramos pessoas, aquelas que nos tiram muitos espinhos: do sofrimento, da dor, da tristeza…há outras que nos espetam ainda mais espinhos no coração. 

   Mas infelizmente também existem aquelas flores que não são de nenhuma estação do ano específica, surgem em qualquer época do ano, e que nos fazem percorrer num piscar de olhos as quatro estações do ano em poucos dias. 

     São aquelas flores bonitas e atraentes por fora, mas por dentro, estão repletas de bichos: os bichos da falsidade, da mentira, do cinismo, do interesseiríssimo, e os do abandono quando mais precisamos. 

     Essas flores podem estar muito tempo na nossa vida, quer queiramos, quer não, e porque não sabemos que são flores venenosas, apesar da sua sedução externa, e beleza enganadora! 

  Se soubéssemos, nem sequer nos aproximávamos delas, porque saberíamos que nos iriam fazer mal. 

     Apesar disso, são como as estações do ano, passam por fases em que nos sentimos na Primavera, no Verão, no Outono e no Inverno, ou no Inferno! 

   Vivemos momentos bonitos e felizes, carinhos, enquanto duram, enquanto a fachada não desaba, enquanto não secam!      Sim, no Inferno também, quando começamos a perceber o que está por trás da beleza aparente. Puro veneno! 

   O ideal seria que todas as amizades fossem como as flores naturais, coloridas, tratadas com amor fraterno, carinho, dedicação, respeito, presença, sinceridade e sem espinhos, ou se os tivéssemos. 

    Que os amigos os conseguissem tirar, em vez de nos espetarem ainda mais, e que nos sentíssemos mais vezes na Primavera e no Verão, do que no Outono e no Inverno, nestas duas últimas, só para apreciar as belezas naturais que elas nos proporcionam sabendo que não podemos tocar-lhes. 

                                        Lara Rocha 

                                       1/Maio/2021