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terça-feira, 9 de outubro de 2018

O gigante esfomeado

  

Era uma vez um ser gigante, que sobrevoava muitas cidades. Quer dizer...na verdade ele não era assim tão gigante! 
Só parecia, porque quando o viam ele estava muito esfomeado, como só conheciam a sua sombra e os barulhos que fazia, imaginavam-no com um tamanho assombroso, uma bocarra enorme, garras e patas que impunham respeito.
Mas ao aterrar para ir buscar comida, ninguém pensava que ele era a figura escura que viam, porque tinha um tamanho normal, não passava de um gato grande. 
Como é que ele parecia tão gigante, ninguém sabe explicar. Talvez fosse a sua fome, que o tornava muito maior do que era na realidade.
Mesmo assim, ele continuava a assustar, porque a sua fome não era bem de comida. Corria atrás das pessoas, e todos gritavam, porque pensavam que ia atacá-los, ou comê-los. O pequeno gigante não entendia porque todos fugiam dele.
Um dia, o sábio da aldeia, farto de queixas desse ser assustador, pediu para ser chamado quando esse tal monstro aparecesse que ele queria vê-lo. O sábio não acreditava que fosse um monstro, havia alguma coisa que lhe dizia que as pessoas estavam a exagerar.
         E assim foi. Quando o terrível monstro imaginário voltou a aparecer, todos os habitantes gritaram. O sábio apareceu. O gigante ficou assustado, e tremia, branco, com o medo.

- É ele! - Gritam todos

- Cuidado! - Recomenda um vizinho

- Ele é perigoso, olhe que tem máscaras e tudo, porque quando o vemos aqui por cima é enorme e ruidoso, aqui em baixo é esta amostra.

- Não se deixe levar pelo ar dele... é falso.

- Calem-se! Vão para as vossas casas. Eu quero ficar a sós com ele.

- Mas... - dizem todos surpresos

- Eu já disse. Vão para casa.

- Mestre...

- Casa! - Ordena o sábio

- Veja lá!- Alertam todos

- Casa. - Diz o sábio firmemente

- Se precisar...

- Vão!

Todos se retiram, com medo, e o gigante ainda com mais medo. O sábio olha-o de cima a baixo. Suspira, fecha os olhos, fica em silêncio uns segundos e dá uma risadinha...depois... solta uma valente gargalhada, que quase congela o gigante.

- Óh, pequeno...desculpa a minha gargalhada! - Diz o sábio

O gigante está quase congelado com o medo

- Então... tu... é que... (outra gargalhada) és o...tal monstro... que sobrevoa a cidade e ataca?

- Ah... sou? Talvez... não sei, acho que é o que dizem para aí.

O sábio dá outra gargalhada

- Muito gosto em conhecer-te...(gargalhada) tenebroso gigante.

- Não se ria para ele! - grita uma voz dentro de uma janela

O gigante ri nervoso.

- Onde está o teu gigantismo? - pergunta o sábio a rir

- Não sei porque dizem que sou gigante.

O sábio ri:

- A cabeça desta gente inventa cada uma...é o medo do desconhecido que desperta a imaginação!

- Áh! Não sei o que é isso. Mas...E o senhor não tem medo de mim? Está-se a rir?

- Não! Claro que não tenho medo de ti. Sei que és do bem!

- Como é que sabe?

- Sei! O que fazes por aqui?

- Estou esfomeado... vim à procura de comida.

- Comida...? Huuummmm... mas não é uma comida qualquer, como a nossa pois não? - pergunta o sábio

- É. - Diz o gigante

- Não é! Sentes fome?

- Sinto!

- Fome de comida?

- Sim.

- Não!

- Então... eu é que sei como está a minha barriga. Está vazia.

- Certo...mas... e a tua alma está alimentada?

- Está... - Diz o gigante, triste

- De quê?

- De... da comida que lhe dou.

- Vá lá... tu sabes que não é desse tipo de comida que estou a falar.

- Não?

- Claro que não! Tu vens à procura de comida para a tua alma! Queres saciar a tua fome de carinho, amizade, amor, atenção, afeto, risos... companhia... não é?

- É? - Pergunta o gigante muito surpreso

- É! E tu sabes muito bem do que estou a falar!

                O gigante faz silêncio e olha para o chão.

- Porque é que toda a gente diz que sou gigante?

- De facto não és assim tão grande em tamanho, mas as pessoas vêem o tamanho da fome da tua alma, com o tamanho dos ruídos que fazes, e por correres atrás deles.

- Mas eu não corro atrás deles para lhes fazer mal.

- Certo, mas eles não sabem da fome da tua alma. Tu só transmites a fome interior...que eles não conhecem! Como é gigante a tua fome! Toda a gente tem fome...as mesmas fomes que tu...a do corpo e a da alma, mas só conhecem a do corpo. Se conseguissem ver a da alma, tudo seria diferente.

- E porque é que eles não conseguem a fome deles...?

- Há muitas coisas que não os deixa ver essa fome interior deles...

- Como é que eu posso matar a minha fome...?

O sábio suspira.

- Deixa-me pensar um pouco, por favor. Enquanto isso, podes vir a minha casa.

O sábio entra em casa com o gigante, os dois conversam durante muito tempo, enquanto tomam chá. O Sábio decide fazer um baile com todos os habitantes, a que chamou: baile dos gigantes, e apresenta o gigante.

O sábio fala da fome interior, e todos deixam escapar algumas lágrimas, quando reconhecem que também eles têm um gigante dentro deles, ruidoso e faminto de amor, de atenção, carinho, afeto, diálogo, amizade, companhia.

Nesse dia todos os gigantes esfomeados se encontraram, partilharam afetos, abraços, carinhos, amizade, conversaram, acolheram o gigante, pediram desculpa, e encheram-no de carinho. Ele não podia estar mais feliz, e passou a ser mais um daquela cidade.

Somos cada vez mais, gigantes esfomeados de valores, de amor, de amizade, dos outros, embora tenhamos medo de nos aproximarmos. Há muitos fatores que não deixam ver os gigantes uns dos outros, se não, veríamos que afinal somos mais iguais na nossa essência, do que alguma vez imaginamos, e por muito diferentes que sejamos, não deixamos de ser... gigantes esfomeados!



FIM

Lara Rocha

9/Outubro/2018



                                                                







  

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Pequenas rimas para estimulação do vocabulário, da atenção, audição e da descoberta




Uma borboleta que usava chupeta,
pegou na caneta e tentou escrever.
Não teve ideias,
Pousou a caneta,
E voou atrás das ideias. 

A Julieta trincou uma malagueta,
A malagueta ardeu na sua garganta,
Pegou na corneta,
Soprou e tocou uma cançoneta.

O Pedrinho atirou um pauzinho para o lago,
Onde havia um patinho.
Acertou no patinho,
O patinho grasnou
E atirou o pauzinho para o Pedrinho.

O Pedrinho não gostou do patinho,
O patinho não gostou do pauzinho,
A Luisinha deu um beijinho ao Pedrinho,
O Pedrinho pediu desculpa ao patinho,
O patinho desculpou o Pedrinho,
E os dois deram um abracinho.

A porca Janota, subiu a uma árvore
para apanhar uma grande bolota,
Mas escorregou e deu uma grande cambalhota,
Caiu no chão que estava cheio de bolotas,
Para quem a viu foi uma risota.

Um peixinho saltou do laguinho,
Foi parar a um raminho,
Chegou um passarinho
Ao raminho onde estava o peixinho.
O passarinho pegou no peixinho
Com as suas patinhas
E devolveu o peixinho,
Ao seu laguinho.

A Mariana queria uma banana.
Perguntou a uma ratazana que estava a comer outra banana,
Onde havia uma banana.
A ratazana disse que a banana estava numa cabana.
A Mariana perguntou à ratazana
onde era a cabana,
onde ela foi buscar a banana.
A ratazana levou a Mariana até à cabana,
E as duas comeram outra banana.
 
O Paulinho ia pelo caminho,
Encontrou um guizo, que pensava se de um bebé.
Apanhou o guizo,
Sentiu umas pedras a cair em cima de si,
Olhou para cima,
E viu que caia granizo.
O granizo foi tão forte
que provocou muitos estragos      
e muito prejuízo.

Quais são as palavras que rimam?

                                                              Lara Rocha 
                                                              1/10/2018
 

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

ALDEIA ALGODÃO


      
Foto de Lara Rocha 
      Era uma vez muitos bonecos feitos de algodão que viviam na atmosfera, onde vemos as nuvens. Um dos seus passatempos preferidos era apanhar os balões que vinham da terra, aqueles que fugiam das mãos das crianças.

Enquanto as crianças choravam desconsoladas, por terem ficado sem os balões, a bonecada lá de cima ficava eufórica. Sempre que chegavam balões todos da mesma cor, ou coloridos, saltavam felizes, aos gritinhos.

Agarravam nos balões, esvaziavam-nos e metiam-nos numa máquina especial, que os derretia, para serem transformados em roupas, brinquedos, camas, móveis e outros objetos. Quando ganhavam uma nova função, os bonecos distribuíam-nos pelas famílias que mais precisavam, ficando com o resto e algumas coisas para eles também.

Trabalhavam muitos bonecos de algodão nessa fábrica, e nas poucas horas livres que tinham fora de trabalho estavam com a família. Outras vezes, faziam torneios desportivos com esferas muito leves, feitas de pedacinhos de nuvens que sobravam das misturas com os balões.

Umas esferas eram do tamanho de berlindes, muito coloridas, com padrões e desenhos que pareciam desenhadas à mão, mas faziam parte dos balões transformados. Outras eram enormes, muito redondinhas e também cheias de cores misturadas.

Eram centenas de esferas tão fofas, tão macias, tão leves e confortáveis que muitas quase pareciam de veludo. Uns bonecos atiravam-nas uns para os outros, outros jogavam volley, outros, futebol, com publico que aplaudia, vibrava, ria, e puxava pelos jogadores. Outros grupos jogavam basquetebol, com as bolas maiores, e o publico delirava.   

Quando não havia jogo, e estava muito calor, os bonecos mergulhavam em piscinas de água que chegava da terra pela evaporação, verdadeiros jácusis, com bolhas de água a borbulhar. Era uma grande animação.

Os mais velhinhos gostavam de ficar noutra piscina onde se sentavam em escadinhas de nuvens, ou em tapetes feitos do mesmo material no chão da piscina. Conversavam, riam e massajavam o corpo com jatos de água, uns mais fortes, outros mais suaves, podiam escolher entre água fria, água morna e água quente.

Nesta aldeia também havia parques com mesas, cadeiras, e lagos ao ar livre, onde podiam flutuar, caminhar, descansar, ouvir o silencio e o som do vento, voar em pássaros e asas de águias, ou em nuvens.

Faziam piqueniques e festas tradicionais, viam a terra por um miradouro, o mar, os rios, as casas, as estradas, os carros, as praias e o sol.

Um dos momentos que eles mais gostavam era deitar-se nas soleiras das suas casas, ou nos terraços, e ver as estrelas e a lua a desfilar… o outro momento em que todos os habitantes se reuniam e sentiam paz…quase um momento de meditação ou oração silenciosa coletiva, em que ninguém falava, era o nascer e o pôr-do-sol, muito aplaudido quando aparecia e quando desaparecia.

Ficavam tão encantados que não se atreviam a interromper aquele momento tão mágico. No final, sorriam, e como todos se conheciam, trocavam abraços e recolhiam. Tudo era leve, desde os habitantes, até todo o meio onde viviam.

Já imaginaram como seria bom se o nosso lindo planeta terra fosse mais vezes assim, com esta aldeia? E se todos tivéssemos momentos em que parávamos a ver o sol nascer e pôr-se, em silêncio?

Imaginem…!



                                               FIM

                                               Lálá

                                               25/Setembro/2018




quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O fio dourado

         
          Era uma vez um grupo de anjinhos que brincava com um fio cheio de estrelas, que atiravam uns para os outros alegremente, enrolavam-se no fio e trocavam abraços quando puxavam todos ao mesmo tempo. Na terra viam-se estrelas cadentes, e nunca se descobriu que eram os anjos a brincar com esse fio. Só sabiam que era lindo!
          Cantavam doces melodias, com uma voz tão suave que pareciam acordes de violinos, ou sininhos a tocar. Dançavam, deixando-se levar com a brisa suave e o vento, sem pressa, leves, luminosos, transparentes, mas vestidos de estrelas cintilantes, para não serem vistos na terra.
          No meio de tanta doçura, vivia um planeta muito invejoso, que estava sempre triste, amuado, zangado, irritado, sem motivo, e choramingava, não suportava a ideia dos anjos conseguirem ser tão felizes com tão pouco, e ainda menos, vê-los tão divertidos, tão amigos.
          Sempre que via os anjos, quase explodia de raiva, por estes não lhe ligarem...não o faziam por maldade, mas apenas sabiam que o planeta não gostava deles, nem era seu amigo, por isso, deixavam-no sossegado. Sabiam muito bem, como era invejoso de os ver felizes, mas não ligavam.
          O planeta fartou-se de ser ignorado, e por estar tão triste, decidiu roubar o fio com que os anjos brincavam. Um fio que afinal era dourado, e quando não estava a ser usado, não tinha estrelas.
- Mas o que é que este maldito fio tem de especial, que os diverte tanto? - Perguntou o planeta  enquanto olhava atentamente para o fio. Dava voltas e mais voltas ao fio, e não via nada que fosse divertido, naquele fio. Enrolou-o muito zangado e atirou-o para o chão, ficando outra vez amuado.
Chegou a altura de brincar outra vez, e os anjos ficaram muito surpresos por não ver o fio.
- Mas... onde está o fio?
- Ontem deixamo-lo aqui e hoje não está!
- Será que o levamos para outro sítio, e nem nos lembramos...?
- Hummm...acho que não!
- Não! Eu tenho a certeza que o deixamos aqui.
- Vamos procurar melhor.
- Acho que ninguém vinha buscá-lo...!
- Também acho que não.
Começaram a procurar, e de repente passa uma constelação de estrelas, em forma de seta.
- Precisam de ajuda, amigos...? - pergunta a estrela que ia à frente
- Estamos à procura do nosso brinquedo...
- Um fio dourado com estrelas!
- Ontem deixamo-lo aqui, como sempre, mas hoje não está!
- Vamos procurar por outros sítios.
           As estrelas da constelação, já o descobriram, e discretamente dão indicação aos anjos que o fio está nas mãos do planeta invejoso. Os anjos perceberam o sinal, agradeceram e foram ter com o planeta. Como quem não sabe de nada, para ver onde chegava o descaramento dele, perguntam:
- Olá vizinho, estamos à procura de um brinquedo, tu por acaso não o viste aí? Ou...em algum sítio?
O planeta fica corado, todo atrapalhado e a gaguejar:
- Eu...na...não, não...não vi tal coisa.
- Hummm... - dizem os anjos em coro
- Está bem!
- Não faz mal.
- Se por acaso vires, avisa-nos, por favor... está bem?
- Si...sim, claro! Não se preocupem. Boa sorte. Espero que os encontrem rápido.
- Obrigada. - Dizem todos
Quando os anjos viram costas, e quase saem o planeta sente-se mal, e grita:
- Esperem... por favor.
Os anjos param, e viram-se para ele, devagar:
- Diz...?
- Óóóhhhh...que vergonha!
- Nós? - Perguntam os anjos surpresos
- Não. Eu. - Diz o planeta, muito envergonhado
- Então? - perguntam todos
- O que se passa?
- É que... prometem que não ficam zangados, nem me fazem mal?
Os anjos levantam a pálpebra e olham para ele, surpresos:
- Prometemos!- respondem todos
- Pareces preocupado...
- Estou envergonhado pelo que fiz.
- O que fizeste?
- Bem. Nem sei por onde começar? - Os anjos olham para ele a sorrir.- Vocês estão à procura do brinquedo não é?
- Sim.Viste-o? - perguntam os anjos
- Vi...quer dizer...eu sei...ups...bem, eu...sou eu que tenho o vosso brinquedo! Já falei! Ufa! Ai...desculpem, eu sei que não devia ter feito isso, mas fiz porque queria perceber o que vos faz tão felizes, e tão divertidos, eu não consigo. Sou solitário, não tenho nada que me faz feliz. Pensei que o vosso brinquedo fosse mágico, e me fizesse feliz, mas não fez. Podem levá-lo. Desculpem-me!
Os anjos dão uma gargalhada.
- Foi muito mau o que eu fiz! - Diz o planeta
- Não! - Dizem todos os anjos
- Quer dizer, roubaste...ou...tentaste roubar o nosso brinquedo, isso é mau, claro!
- Não se faz, mas sabemos que na verdade, tu não fizeste por mal.
- Só quiseste tentar ser feliz.
- E queria que vocês fossem meus amigos, mas não gostam de mim. - Acrescenta o planeta
- Nós gostamos de ti, mas não te chamávamos porque achávamos que tu é que não gostavas de nós, que tinhas inveja!
- E tinha, confesso que sim! Outra coisa má, e que me deixa com vergonha.
- Não te preocupes, nós compreendemos!
- Podias ter arranjado outra maneira de seres nosso amigo, de brincar connosco, nós nunca te poríamos de lado.
- A sério...? - pergunta o planeta surpreso
- Claro. - respondem todos
- Não era a roubar o nosso brinquedo que ias conseguir ser nosso amigo, mas como disseste a verdade, e como não fizeste por mal, nós convidamos-te a brincares connosco, se quiseres, porque também não és obrigado a brincar connosco. - diz um anjo
- Eu sei...desculpem!
- Não é o brinquedo que tem magia, e que nos faz felizes, sabes, nós é que já somos naturalmente felizes, porque estamos aqui, rodeados por quem amamos, com amigos, inventamos coisas para brincar uns com os outros, sentimos a natureza, somos livres.
- Há muito mais que nos faz feliz, o brinquedo é só um auxiliar.
- Mas tudo parte de nós, do nosso coração, da nossa luz.
- Tu também não precisas de ter inveja de nós, também podes ser muito feliz! Nem precisas do nosso brinquedo para seres feliz... queres experimentar? Anda connosco.
           O planeta sorri, junta-se aos anjos, devolve o fio dourado, e fazem jogos coletivos, brincam com o planeta, atiram o fio dourado uns para os outros, entrelaçam-se, saltam, dão cambalhotas, muitas gargalhadas, e passeios.
          O planeta compreendeu tudo o que os anjos disseram sobre a felicidade, e experimentou que era verdade o que diziam, pois todo o carinho e todos os sorrisos, abraços e brincadeiras que partilhou com eles, encheram-no de alegria, como nunca antes visto. Era um novo planeta.
          Os anjos acolheram-no e trataram-no como mais um elementos da família, alguém que brincava e que se divertia muito com eles, com quem trocavam abraços.
          O fio dourado foi só um pretexto para os aproximar, mas o principal, o que realmente os deixava felizes, era a amizade que os unia, a admiração, o carinho. Essas são as estrelas que decoram os fios dourados que nos unem uns aos outros, não é? 

FIM 
Lálá 
20/Setembro/2018

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A pena, o dente de leão e a joaninha


A pena, o dente de leão e a joaninha

foto de Lara Rocha 

                Era uma vez uma joaninha que vivia num cogumelo com a sua família. Tinham em casa um dente de leão, que era o seu animal de estimação muito dedicado, meigo, companheiro, educado, e adorava ajudar. Recebia muita atenção e mimos.

                Uma tarde foram passeá-lo, estava nublado, frio, e preparava-se para chover, mesmo assim saíram um pouco de casa. Uma pena cai aos pés da joaninha, cansada. Todos param a olhar para ela.

- Uma pena, aqui? – exclamam todos

- Não é nada comum! – repara a mãe joana

- É comum, sim, vocês é que andam sempre distraídos, sempre a pensar noutras coisas, mas sempre que eu saio, vejo penas aos montes. – diz o dente de leão

- Nunca me chamaste para ver? – reclama a joaninha mais pequena

- Pensei que vias como eu, mas nunca falamos sobre isso…temos sempre outros assuntos. – explica o dente de leão

- Pois, tens razão. – concorda a joaninha

- Foi trazida pelo vento, ora…qual é o espanto? – pergunta o pai

- Que insensível. Ela pode trazer uma mensagem importante. – diz a mãe joana 

- Não acredito que acreditas nessas coisas… - resmunga o pai

- Sim, acredito, e faz favor de me respeitar… obrigada. – diz a mãe

- Deve ser uma armadilha de um animal invejoso ou da feiticeira – comenta outra joaninha pequena

- Ai, que nuvem negra! – comenta o dente de leão

- Onde? – perguntam todos

- Ali, e aqui, nesta cabeça às pintas! – diz o dente de leão

                Dão uma gargalhada geral.

- Desculpem estragar a vossa boa disposição… mas… o que tenho para vos dizer é muito sério. – interrompe a pena

- Eu não disse? – Afirma a mãe joana

- O que é? – perguntam todos, agora sérios

- Venho por parte do Luzerninha!

- O Luzerninha…? – perguntam todos em coro, assustados

- Sim! E os avisos dele devem ser levados muito a sério! Ele sabe o que diz, e foi ele que me mandou avisar. Vem aí uma tempestade. Eu confirmo, porque estava com ele e vi, além disso, estou muito cansada, pois tento voar, as já caí muitas vezes, a atmosfera está muito pesada, cheia de nuvens e húmida. Há muito vento! – responde a pena

- Bem, se foi o Luzerninha é melhor não demorarmos – diz outra joaninha

- É. Não percam tempo, ela aproxima-se a passos muito largos. Vou acabar os meus avisos e também recolho. Não saiam de casa. Protejam-se e protejam as vossas coisas. – recomenda a pena

- Obrigada! – respondem todos

                As joaninhas e o dente de leão ficaram mesmo assustados, e voltam para casa logo que fecham a porta, começa a chover torrencialmente.

- Nem parece chuva! Parecem pedras. – repara uma joaninha

- Ai, que medo… - diz o dente de leão, nervoso

- Não te preocupes, dentinho, estás connosco. – tranquiliza a joana mãe

                O vento assovia, abana as janelas, a porta, as flores quase saem da terra, os trovões parece que rebentam dentro de casa, e o telhado quase levanta. De repente batem á porta. A mãe espreita:

- É a pena!

                Abre a porta e a pena está completamente encharcada, a tremer:

- Peço desculpa! Posso recolher-me aqui um bocadinho? Enquanto a tempestade não passa. Bati a várias portas mas ninguém me abriu. É que estou toda ensopada, quase não me mexo, estou cheia de frio, e não consigo voar…!

- Claro que sim! Entra! Seca-te e quando parar vais. A mesa dá para mais gente! Está quentinho, aqui! – diz outra joaninha

- Muito obrigada. – responde a pena

                Ela entra com a mãe joaninha. Vão para a beira da lareira, o dente de leão fica ciumento, e espirra.

- Então? Parece que estás com ciúmes?! É nossa amiga!

- Óh, coitadinha! Está toda murcha.

- Vem secar-se até o vento e a chuva pararem…não consegue voar! – explica a mãe

- Claro! Bem-vinda! – dizem todos

                Todos conversam com a pena enquanto ela se seca. Jantam, e a pena acaba por dormir na casa delas porque a tempestade dura a noite toda. A partir dessa noite, a pena torna-se mais um elemento daquela família, levando-lhes coisas para agradecer o acolhimento, avisos importantes, e leva-os a passear por sítios onde nunca tinham ido.

                O dente de leão gostou tanto dela que davam boleia um ao outro, trocavam abraços e muitas gargalhadas, brincavam juntos, muitas vezes por dia, e carregavam as joaninhas. Esta família do coração da pena nasceu numa tempestade! É mesmo assim, às vezes temos outras famílias além da nossa feita de amigos, que gostam de nós e que nos preenchem.

                Vocês também têm outra família, além da vossa? Quem faz parte dela?

                                                               FIM

                                                               Lálá

                                                               7/Setembro/2018

a casa da pena







                











          



foto de Lara Rocha 



          Era uma vez uma pena grande, muito leve, e com cores brilhantes. Andava à procura de uma casa onde pudesse descansar dos seus voos e abrigar-se. Já tinha percorrido muitos quilómetros, espreitado por muitas janelas de quartos, vivido em muitos parapeitos, mas logo que a viam sopravam-na ou deitavam-na abaixo. Já tinha pousado em muitas ervas, muitas areias de praias diferentes, árvores e ninhos, mas de todas elas era expulsa pelo vento mais cedo ou mais tarde, ou pisada por pés humanos.
     Continuava a sua procura solitária, nenhum sítio lhe agradava, todos lhe pareciam no início sossegados, mas logo se transformavam em lugares assustadores, onde era maltratada. Numa das suas procuras, olhou para uma janela de uma casa, onde lhe parecia ser um talvez um quarto de criança, cheio de brinquedos, que não estava lá, mas a janela estava aberta.

            Pousou no beiral, respirou fundo, olhou em volta e disse:

- Acho que vou ficar aqui um pouco, só para recuperar forças, espero que não me corram outra vez! Se aparecer alguém vou esconder-me…onde? Áh! Aqui. De certeza que não me veem.

Boceja e deita-se à sombra. Olha para o quarto e diz:

- Que lugar tão bonito! Será que há um espacinho para mim? Quem dormirá aqui? Gosto deste espaço.

            Olha para o chão e vê um violino pousado, encostado à parede.

- Acho que encontrei a minha casa! O que é aquilo?

           E decide entrar pela janela. Dirige-se para o violino, olha e volta a olhar. Aproxima-se e afasta-se, olha à volta para ver se estava segura.

- Está muito silêncio aqui!

         O violino acorda, boceja barulhentamente, e sopra a pena com força. A pena bate na parede e grita:

- Ai! O que foi isto?

- Menina? – Pergunta o violino intrigado.

- Não! Não sou menina…acho eu…! Sou uma pena!

- Uma pena?

- Sim.

- Não nos conhecemos, pois não?

- Vives neste quarto?

- Não! E tu?

- Eu sim! Já há muito tempo. Sou um violino.

- Um violino?

- Sim!

- E o que fazes neste quarto?

- A menina do quarto, toca-me. Sou um instrumento musical. E tu?

- Eu sou uma pena.

- O que fazes aqui?

- Estou à procura de uma casa. Já passei por muitas casas, mas fui corrida de todas!

- Porquê?

- Por muitas razões, que para mim não justificavam a expulsão, mas sabes como são os humanos…estranhos!

- Sim, tens razão.

- Achas que posso ficar neste quarto?

- Desculpa, eu gostava muito de te ajudar, mas é melhor perguntares à menina!

- Onde está a menina?

- Acho que está cá em casa. Olha, lá vem ela.

- Óh!

                A pena fica cheia de medo, paira e olha para a menina. A menina vê a pena:

- Áh, uma pena! Como é que entrou para aqui? Áh, pois…pela janela que está aberta.

- Óh, não! Lá vou eu ser outra vez expulsa…! – suspira a pena triste

- Que linda pena! – Diz a menina

                Agarra na pena, e esta encolhe-se.

- Vou guardá-la. Nunca vi uma pena tão bonita! Mas onde?  

                O violino solta uns acordes.

- O que foi, violino? Também gostaste dela?

                O violino dá um acorde alegre, a dizer que sim!

- Já sei…não te importas que ela fique aí, pois não, violino? É que a minha mãe não quer penas na janela, nem no quarto.

- Não! – Responde o violino

- Obrigada, violino!

                A menina pousa a pena no violino, e recomenda-lhe:

- Olha pena, esta vai ser a tua casa! Quando entrar aqui alguém escondeste, vais por aqui, e assim não te veem. O violino é teu amigo, vais ver. Ele toca muito bem! Podes falar com ele, que ele responde. Eu também falo com ele. Ele respondeu-me, que não se importava que ficasse aqui, e que gostou de ti!

                A pena sorri, e respira de alívio:

- Obrigada, menina!

- Áh! Tu também falas, pena?

- Falo!

           A pena conta-lhe a sua história, as casas que já teve, e ao ouvir os passos da mãe pede à pena para se esconder. A pena esconde-se dentro do violino, a mãe não desconfia. Quando saiu do quarto, a pena e o violino tem uma longa e divertida conversa. Mais tarde, a menina pega no violino e começa a tocar. A pena que estava a dormir, desperta e acorda assustada.

- Óh, desculpa, pena! Não sabia que estavas a dormir. Gostaste da tua nova casa?

- Adorei! – diz a pena

- Toca comigo! – convida a menina

- Eu não sei tocar! – Diz a pena

- Tocas comigo! Eu ensino-te!

- Está bem!

       A menina explica e a pena aprende rapidamente. Toca sozinha uma linda melodia, ao dançar levemente nas cordas do violino que sorri deliciado. A menina fica embalada, aplaudem a pena, e tocam os três em conjunto. Depois, só a menina, que faz a pena pairar, a seguir toca a pena ao mesmo tempo que brilha mais, soltando brilhantes, com todas as suas cores. A menina parece que fica hipnotizada com tanta beleza. Fazem outras experiências, juntos e em separado. A mãe entra no quarto, e a pena esconde-se rapidamente.

- Áh! És tu que estás a tocar essas músicas tão bonitas?

- Ouviste-as, mamã?

- Ouvi.

- Sim, fui eu! Inventei! Estava a brincar com as notas, e a tocar sem pauta!

- Muito bem! Que lindas músicas. Tenta lembrar-te das notas e escreve-as, para tocares nas aulas. A tua professora vai ficar muito orgulhosa de ti. Continua!

- Obrigada, mamã. Até já.

       A mãe sai, os três respiram de alívio. A mãe não viu a pena mágica. Voltam a tocar as mesmas músicas, e a menina escreve as notas musicais.

- Obrigada, amigos! – Diz a menina a sorrir

                Todos os dias inventam músicas novas. A menina toca na aula, com a pena dentro de casa…o seu violino, e ajuda-a nas músicas. A professora gosta tanto que a convida para dar espetáculos na escola, e noutros locais. Todos não cabem em si de orgulho e felicidade pela menina, pelas músicas e pelo brilho. Os três nunca mais se separam. A menina tornou-se muito famosa, a pena encontrou uma casa, e uma família…a menina e o violino.

Às vezes a pena ia para a janela do quarto apanhar ar, ver a paisagem e inspirar-se para ajudar a criar novas músicas. Dançava livre, flutuava, passeava leve com o vento que a levava e conversavam os dois alegremente. Ia, mas voltava sempre para o quarto da menina.

Quando estava calor, a pena refrescava-se numa fonte de quem era amiga. Para lhe agradecer, deixava muitos brilhantes de várias cores na água. Muita gente achava que aquela fonte era mágica.

Depois, andava muito feliz, largava brilhantes pela erva e em cima das árvores. Quem via, parecia uma cascata de diamantes de cor. Outros brilhantes da pena iam para as pétalas das flores por onde sobrevoava, estas ficavam ainda mais bonitas, dançavam e riam.

Não estava sempre em casa. Mas voltava e partilhava com os seus amigos onde tinha ido, o que tinha feito, e o que tinha visto, porque tudo isto inspirava a menina para as suas músicas.

Uma pena cheia de sorte! E se vocês tivessem uma pena no vosso quarto? De onde vinha? Como era? Que fazia? Onde a punham a viver? Imaginem e escrevam…ou desenhem.



FIM

Lálá

7/Setembro/2018

domingo, 12 de agosto de 2018

os cestos com pernas

            Era uma vez um pomar muito sossegado, onde haviam macieiras, laranjeiras, castanheiros, oliveiras, videiras, pessegueiros, tangerineiras, pereiras, e muita erva, onde pastavam animais. Pertencia a casa de um casal, com 4 filhos, e na casa ao lado viviam os Avós. Setembro chegou rapidamente, e com ele vem a época das colheitas, é altura de apanhar tudo o que houvesse, antes que os pássaros, ou pessoas de fora, os roubassem.
            O dia começou bem cedo para esta família, que depois do pequeno-almoço e os pequenos ainda com sono, puseram mãos à obra, carregaram cestos e mais cestos de palha, baldes e bacias para o campo, tesouras nas mãos e luvas, e começaram a encher.
            Estavam todos a cantar, enquanto trabalhavam e de repente algo misterioso aconteceu... uns cestos virados ao contrário. Mas eles tinham a certeza que todos os cestos que levaram, ficaram virados para cima. Como é que aqueles estavam virados ao contrário? Nem sequer havia vento.
Continuaram a trabalhar e a cantar. Quando repararam, os cestos estavam na mesma virados ao contrário, mas noutro sítio. Como? Mudaram de sítio? Os cestos não têm pernas...como é que se mexeram?
            Acharam muito estranho. Olharam outra vez, e nem queriam acreditar no que acabavam de ver. Os cestos não têm pernas, mas aqueles que se mexeram...tinham pernas! O quê? Cestos com pernas? É verdade! Olharam e voltaram a olhar. Viram os cestos a correr, a levantar-se do chão, a andar de um lado para o outro, e pés com pernas pequenas feitos da mesma palha que os cestos, como se fossem de pessoas! Quem teria feito aquilo?
             Pararam o trabalho e foram ver mais perto. Correram atrás dos cestos com pernas. Os cestos assustaram-se, começaram a correr em círculo uns atrás dos outros, a gritar, as pessoas correram atrás deles, sempre em círculo como eles, mas os cestos corriam tão rápido que não conseguiam apanhá-los, correram tanto em círculo atrás dos cestos que ao fim de algumas voltas, caíram redondos no chão, ficaram tontos. Os cestos deram umas valentes gargalhadas ao ver as pessoas caídas.
- Olhem, olhem, parecem frutas podres... - diz um cesto a rir
- É! Aquelas que os pássaros começam a comer primeiro! - Diz outro cesto a rir
- Pareciam um bando de maluquinhos a correr às bolinhas... só faltava fazerem bolinhas de sabão com os pés, de tanto correr atrás de nós! - Diz outro cesto a rir
              Enquanto os cestos gozam, e brincam com as pessoas, no campo em frente, estava um burro a correr feito louco, parecia muito assustado e começou a zurrar, a pular com saltos nada elegantes. Atravessa a estrada a zurrar fortemente, e a dar coices. Estava tão nervoso que quase pisava as pessoas que estavam deitadas no chão a recuperar, encolheram-se e começaram a gritar, mas os cestos não escaparam. Levaram uns valentes coices do burro e rolaram pelo campo fora, como se fossem bolas, foram pisados, e ainda levaram com o pobre animal que caiu com a língua de fora em cima dos cestos, completamente cansado.
              Os cestos ficaram todos amassados, tortos, quase foram esmagados. As pessoas levantaram-se ainda a gemer, olharam para o burro e para os cestos, tentando perceber o que tinha acontecido.
- Mas de onde saiu este animal louco? - pergunta a mãe assustada
- Eu nunca o vi aqui? - diz o pai surpreso
- A quem pertence? - pergunta a Avó
- Não sei. - Diz o Avô
- Se calhar foi uma bruxa ou um feiticeiro! - diz a menina 
- Olhem os estragos que ele fez...pobres cestos, e agora nem se levanta dali. - comenta a Avó
- O bicho não está no seu estado normal. - aprecia o Avô
            Os cestos levantam-se com muita dificuldade, devagar, e a gemer.
- Socorro! - Gritam os cestos
            As pessoas vão ter com eles.
- Óh camião, sai de cima de nós... - grita um cesto que ainda tinha uma para em cima
            O burro dá meia volta e põe-se de pé.
- Como é? De onde vens, animal? - pergunta o pai
- Louco! - ralha o Avô
- Sou fugitivo! - responde o burro
- O quê? - perguntam todos
- Sim. - diz o burro
- De onde? - pergunta a mãe
- A quem pertences? - reforça a Avó
- Não sei dizer de onde vim, já estou a andar há muito tempo. Fugi do meu dono que era louco, carregava-me demasiado, maltratava-me. Cansei. Ele bebeu demais, ficou a dormir à porta do café com os amigos, e eu... fugi, nem olhei para trás. O meu anjo guiou-me. - explica o burro
- Os animais também têm anjos da guarda? - pergunta o menino
- Claro que sim! - afirma o burro
- Mas eu não estou a ver nenhum anjo? - comenta o menino
- Eu vejo-o, e ele está ao meu lado... isso é o mais importante! - responde o burro convicto
- Só fizeste asneiras! - ralha o Avô
- Óh...peço desculpa, não era minha intenção. Mas, estava mesmo muito assustado. Posso ficar aqui?  - suplica o burro com ar de piedade e inocente
- Não! - gritam todos
- Vai-te embora. - ordena o pai
- Tu és louco! - grita o Avô
- Quem, eu? - pergunta o pai
- Não! Ele. - responde o Avô
- Eu? - pergunta o burro
- Sim! Claro, tu é que entraste aí e levaste tudo à frente! Quem faz isso não está no seu juízo perfeito! - explica o Avô 
- Óh, vá lá...deixem-me ficar aqui, por favor. Eu posso ajudar-vos a carregar os cestos, ou a chegarem aos pontos mais altos das árvores, posso correr com os pássaros que querem levar a vossa fruta, posso fazer muita coisa.  - implora o burro
- Hummm....- pensam todos
- Acho que ele tem razão...ele pode ser-nos útil.  - diz a mãe
- Será que podemos confiar nele? - pergunta o Avô
              A Avó olha para os olhos do burro, o burro fica imóvel, assustado e nem pestaneja...sorri.
- Sim, podemos confiar nele! - garante a avó
             O burro respira de alívio.
- Se ele fizer asneiras és tu que pagas.  - resmunga o Avô
- Está bem. - Diz a avó sem medo
- Ficamos com ele, então? - pergunta a mãe
- Sim! - Responde a Avó
- Sim! - Responde o burro sedutor
- Sim. - respondem todos
- Óh... muito obrigado! Não se vão arrepender! - assegura o burro a sorrir
              Os Avós dão-lhe de beber, e de comer, sacodem-no, e ele comprova logo o que disse: ajeita os cestos que ficaram tortos e amassados, os novos donos voltam a cortar a fruta, o burro baixa-se e os cestos sobem para o seu lombo, ele anda de um lado para o outro, divertido, para apanhar tudo, tal como os cestos que tanto andam pelo seu lombo como saltam para o chão e sobem os degraus das escadas que os senhores usam para ir subindo.
              Que colheita maravilhosa. O burro foi uma ajuda preciosa, e os cestos com pernas dormiram na mesma cabana que o burro, tornando-se grande amigos, com muito riso, conversas e brincadeiras  durante a noite, passeiam pelos campos e vêem as estrelas na companhia uns dos outros, aconchegam-se, atiravam folhas uns aos outros, escorregavam nelas, riam, rebolavam, saltavam, cantavam, e quando o tempo arrefece têm direito a cobertores, e uma porta.
              Os novos donos estão orgulhosos com a presença do burro nas suas vidas. Nunca descobriram de onde vinham os cestos com pernas feitas do mesmo material, nem quem os tinha posto ali, mas a verdade é que gostavam deles.
           
E vocês? Perdoavam as asneiras do burro? Ficavam com ele?
Quem acham que fez, e pôs os cestos com pernas naquele campo?

                                                                        FIM
                                                                        Lálá 
                                                                  12/Agosto/2018