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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O presente da Princesa Verona


A princesa Verona costuma aparecer na terra no Verão, chega no dia 21 de Junho, quando a princesa Vera vai de férias. 
Não é difícil saber que ela chegou, desfila com toda a sua beleza e sedução, todos sentem os seus passos leves, tão leves… que parece flutuar.
As suas roupas saltam à vista de quem passa, pelas suas cores ardentes, e arejadas, frescas, cheia de luz, brilho, alegria, sorrisos e risos. 
Ela é tão especial que contagia todos os seres humanos mais felizes, entusiasmados, procuram as praias, o mar, as montanhas, e tudo o que refresque. 
O Sol entrega-se completamente a ela, fica louco de paixão e desejo por esta princesa, eufórico…
Mas…esta princesa também vai de férias, para a chegada de outra princesa: a Outonia, não sem antes deixar um presente aos terráqueos porque sabe que todos ficam muito tristes quando vai embora. As duas são muito amigas, e encontram-se no dia 21 de Setembro.  
        Este ano a Princesa Verona não sabia o que deixar de presente, e pediu ajuda à sua amiga Outonia que chegou na noite de 20 para 21 de Setembro, com uma Lua Cheia enorme, luminosa, um céu cheio de estrelas, e um ar quente no cimo da montanha mais alta nos arredores da cidade. 
          A Lua sorri às duas.
- Amiga Outonia…fizeste boa viagem?
- Olá Verona, sim, foi muito longa, mas correu tudo bem, obrigada. Já vais embora não é?
- Sim! Vou de férias. Sei que eles vão ficar muito bem entregues. Mas não sei o que lhes deixar de presente desta vez! – Suspira a princesa Verona
            A lua tosse:
- Desculpa, princesa Verona, mas não concordo…acho que já deixaste um belo presente para eles…olha que não merecem tanto. Fartaram-se de pegar incêndios.
- Isso é verdade! – Responde a princesa Verona
- Até tu ficaste com alergias e doente, lembras-te? – Relembra a lua
- Sim, claro que me lembro… - Diz Verona triste
- Então, acho que não devias deixar nada. – Sugere a Lua
- A Lua tem razão, amiga. – Concorda a princesa Outonia
            Faz-se silêncio e as três ficam pensativas.
- Olha…se fazes mesmo questão de deixar alguma coisa…espera até de manhã, e aparecemos as duas juntas, numa dança… - Sugere a Outonia
- Não posso esperar. Tenho de ir andando…bom, este ano não deixo nada. – Diz a Verona
- Ou mandas depois. – Diz a Outonia
- Porque não fazem agora, vocês as duas? Pode ser que alguém vos veja…- Sugere a Lua
- É…também nos divertimos um pouco. O que achas? – Pergunta Outonia
- Está bem! – Concorda Verona
         As duas estalam os dedos, dão umas voltas, rodopiam perto do chão, e aparecem vestidas de gala. 
      Aparece logo o vento coscuvilheiro, e as fadas da Natureza, que começam a tocar com as suas harpas, flautas, violinos, violoncelos, ferrinhos e tambores.
As fadas sabem muito bem que música tocar, e as duas princesas dançam ao som das várias músicas, leves, lindas, de mãos dadas, a flutuar, e cruzam-se várias vezes.
Enquanto dançam, espalham magia por todo o lado, riem, rodam no ar, com os longos cabelos a esvoaçar, as árvores do espaço despertam, e dançam com as princesas…as suas folhas começam a desprender-se devagar, a medo, uma por uma, e também elas dançam umas com as outras, juntamente com as princesas.
Ainda ficam muitas nas árvores, aquelas que são mais tímidas, e que já estão tristes por saber que a princesa Verona vai embora. 
Cada princesa espalha as suas cores, o vento dá uma ajudinha, soprando-as em diferentes direcções, e elas juntam-se, separam-se, fazem rodas sempre a dançar, e a rir, misturam-se ao dar abraços, as princesas acariciam as árvores, e os seus troncos arrepiam-se de frio. 
Umas folhas que caíram dão as mãos e fazem um enorme cobertor de folhas para cobrir os ramos das árvores.
É uma noite cheia de música, de diversão, muitas gargalhadas e brincadeiras entre as duas princesas, as folhas e as árvores. 
Com os primeiros raios da manhã, as centenas de folhas que caíram adormecem no chão, aos pés das árvores, a Princesa Verona saiu discretamente, e silenciosa, suavemente, quando a princesa Outonia também se deitou e dormiu na relva fofa.
Na manhã seguinte, o sol aparece, e a princesa Outonia acorda com a claridade.
- Já é de manhã? Verona…
            Procura Verona pelos arredores, mas não a vê.
- A Verona já foi embora.
- Óhhh…! Não pode ser, e eu adormeci, sem falar mais com ela, ou sem lhe dar um abraço. Óh Verona, podias-me ter acordado! – Diz Outonia, triste
            Do sol, Verona responde:
- Outonia…dorme! Ainda é muito cedo.
- Porque é que já foste embora? Não te vi mais, nem falamos mais, nem te dei um abraço!
- Demos muitos abraços…vá lá, não fiques triste, se não também fico. Eu vou voltar, muito em breve!
- A sério? – Diz Outonia com um sorriso
- Claro que sim. Só chegaste hoje, mas eu ainda vou continuar aí contigo mais uns dias. Para fazermos mais umas festas! Gostei muito desta noite. – Diz Verona sorridente
- Eu também! Era por isso que eu já estava triste…a pensar que só nos veríamos daqui a uns meses! – Responde Outonia
- Não! Já devias saber que todos os anos eu fico contigo mais tempo…não te lembras?
- Claro que me lembro, mas vi-te com tanta pressa…
- Eu sou assim. Tu já chegaste, mas eu vou ficar mais uns dias. Este é o meu presente para os terráqueos, este ano…para lhes dizer que embora esses me tivessem mal tratado, acredito que vão melhorar, e que podem mudar…passar a tratar-me melhor. Vão apanhar um grande susto, vais ver.
- Com a tua presença?
- É! Mas daqui a bocado eu conto-te…agora descansa, que eu também vou descansar.
- Está bem. Obrigada, amiga!
- Obrigada eu…até já.
- Até já.
           As duas princesas dormiram um pouco, e voltaram a encontrar-se muitos dias seguidos. Foi um início de Outono muito seco, e com dias ainda muito quentes. 
        A princesa Verona ainda ficou mais dias, e queria assustar os humanos, mas estava mais preocupada em divertir-se.
A princesa Outonia é mais tímida, e chegou discreta, mas igualmente linda: vestida com cores: vermelhos, verdes, amarelos, cor-de-laranja, castanho claro e escuro, roxo. 
E este ano a princesa Outonia ensinou a sua amiga princesa Verona a construir lindos tapetes com as folhas, parecem mantas de retalhos, cheios de cores.
A princesa Verona adorou. Por isso é que vemos sempre tantas folhas espalhadas pelo chão, o que tem a sua beleza, pela mistura de cores, e variedade de tamanhos, formatos...
As crianças adoram andar por cima destes tapetes, mas nem sempre acaba bem…porque caem…principalmente quando chove.
Alem destas belezas, estes dois manos oferecem às pessoas: castanhas, frutos deliciosos como uvas, que fazem muito bem à saúde, milho, espigas, há muita alegria nas vindimas, fazem-se magustos, e os campos ficam lindíssimos.
Como as pessoas no Outono ficam mais tristes, a princesa Verona ficou muitos mais dias, com a sua amiga princesa Outonia, para as deixar mais felizes e mais bem-dispostas.
As duas princesas estiveram pouco tempo sem se verem, porque não tardou nada e chegou a Princesa Invernia, antes do dia previsto, com todas as suas belezas.
E vocês? Já sentiram a presença destas duas princesas? A Verona e a Outonia?
Que presentes já vos deixou a Princesa Verona antes de ir de férias?
E a princesa Outonia? Já viram os lindos tapetes que ela faz?


FIM
Lara Rocha 
(27/Agosto/2015)



quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A personagem da história



Era uma vez uma menina que adorava passear nos livros, sempre acompanhada das personagens. Todos os dias ela ia por sítios diferentes, e às vezes voltava àqueles lugares que tinha gostado mais, e encontrava-se outra vez com os seus amigos, que a levavam de volta à Natureza.
Outras personagens, noutros lugares, ofereciam – lhe flores, chocolates, chás, bolos caseiros, roupas e brinquedos. Outras personagens eram muito estranhas no seu aspecto, mas encantadoras por dentro…muito bondosas.
Essas levavam-na a passear por locais misteriosos, cheios de objectos que serviam de pistas para ela seguir, enigmas por todo o lado…a cada passo que ela dava, encontrava alguma coisa, com códigos secretos, imagens, sons, e cores que tinha de descobrir. As surpresas nunca mais acabavam!
Todas as personagens pensavam em conjunto com ela sobre as pistas, e isso era uma grande ajuda, porque já conheciam bem esses lugares, mesmo assim, eles próprios ficavam a conhecer coisas que nunca imaginavam existir.
Quando descobriam…era um verdadeiro mundo de sonhos, onde às vezes encontravam coisas estranhas. A menina gostava muito dessa parte.
Outras vezes, mergulhava com sereias, golfinhos e cavalos-marinhos, no fundo do mar, de águas quentes, limpas e transparentes, sem lixo. Muito diferente das praias que ela conhecia.
Explorava com eles corais, tocava em algas enormes e de cores diferentes, que pareciam fazer-lhe mimos, via peixes raros, lindos, e alguns um pouco feios, mas bondosos e sossegados.
Depois, deva passeios por lagoas, em barcos feitos de cascas de nozes, e velas de escamas de peixes, às cores. De dia nesse mar, ela via um reflexo do sol na água, e montes de brilhantes a boiar e a mexer-se na superfície. Que lindo!
Quando ela passava pelo brilho reparava que eram fadas do mar…cada qual a mais bonita, com fato-de-banho brilhante, que se refrescava e divertia, dançava e mergulhava entre gargalhadas.
Quando os barquinhos de casca de noz, passavam por elas, elas voavam à volta deles, e salpicavam-nos com água e brilhantes. Todos adoravam esse mimo.
Também passeava muitas vezes por parques, jardins, palácios, castelos e nuvens. Um dia, uma das suas viagens a um parque, foi interrompida por uma personagem que saiu do livro onde vivia e foi ter à sala da menina, onde já tinha estado antes.
A personagem estava muito triste e com as lágrimas nos olhos. A menina conhecia essa personagem, e perguntou-lhe o que tinha acontecido, como é que ela tinha ido ali parar.
A personagem disse-lhe que foi passear e perdeu-se…agora não conseguia voltar a casa, por isso, lembrou-se de ir visitar a sua amiga menina, para ver se ela a podia ajudar.
A menina deu a mãozinha à personagem e garantiu-lhe que a ajudava. Abriu o livro da história onde vivia a personagem, folheou as primeiras folhas, e diz-lhe:
- É aqui que tu vives!
- Áh! Isso mesmo…sim…esta é mesmo a minha casinha… - Diz a personagem feliz com um grande sorriso
- Mas já vais voltar, ou queres lanchar comigo, e eu volto a deixar-te em casa, mais daqui a bocadinho? – Sugere a menina
- Áh! Está bem, se não vou atrapalhar…vamos!
As duas lancham juntas, e conversam alegremente. Mais tarde, como prometido, a menina abre o livro da casa da personagem, dão um abraço e dois beijos, a menina dá-lhe a mão e a personagem entra em sua casa.
- Muito obrigada, amiga! – Diz a personagem
- De nada! Aparece sempre que quiseres.
- Combinado!
A mãe chama a menina para ir jantar. Ela fecha o livro, e vai jantar. Quando vai dormir, a menina já tem as fadas dos sonhos e o João Pestana à sua espera, comodamente instalados na sua cama.
Quando ela chega, também vive com eles milhares de aventuras, dá muitos passeios, e descobre novos mundos, nos sonhos. Ela adora receber a visita de personagens, e divertir-se com elas.  
Ler, ver livros, e ouvir histórias, faz-nos dar muitos passeios, conhecer muitos sítios, brincar com personagens, e diverte-nos. É muito bom!
E vocês? Já conheceram, divertiram-se, e foram passear com personagens de livros que leram, ou histórias que ouviram?
Onde?
Com que personagens?
O que viram?
O que gostaram mais?
Qual foi o melhor passeio que deram?
Que personagens gostaram mais de todas, até agora?

FIM
Lálá
(20/Agosto/2015)


Caminho de ida e volta

                                                foto tirada por Lara Rocha 

Era uma vez uma boneca feita de madeira, palitos, por isso era fininha. A sua cabeça era uma bolinha redonda de madeira. Os olhos, dois botões pretos, o nariz uma molinha e a boca um pedacinho de feixo. Tinha cabelos compridos de cor castanha muito encaracoladinhos feitos de lã. Usava uns sapatinhos de malha a condizer com o vestido. Esta boneca vivia numa toca de uma árvore com a sua família, numa grande floresta, onde tudo era puro e bonito, não havia poluição, nem guerra.
Uma tarde, a boneca saiu de casa e disse aos pais que ia dar uma voltinha. Os pais deixaram-na ir, com muitas recomendações, as de sempre, sobre a segurança, e que ela já sabia de cor e salteado. Ouviu e prometeu ter cuidado. Ela não tinha nenhum lugar especial para ir na grande floresta, mas queria andar um pouco.
Seguiu pelo caminho do costume, e viu coisas que sempre tinham estado lá, mas como ela passava sempre a correr, ou ia distraída sozinha com as suas brincadeiras, ou com os manos, primos e amigos, por isso não reparava em nada.
Desta vez, ela caminhou devagar, e viu tudo o que conseguiu ao pormenor, coisas lindas, flores, árvores que pareciam gente, de braços abertos e troncos ondulados. Cruzou-se com coelhos, que saiam das tocas apressados, viu toupeiras à superfície à procura de raízes.
Ouviu e viu passarinhos a chilrear e crias bebés em ninhos à espera de comida, esfomeados, viu as suas mães a voar e a transportar alimentos. Parou para conversar com fadas que estavam a costurar uma bela toalha rendada, abelhas e borboletas a aspirar pólen das flores e a levá-lo para as fábricas onde os anões o transformavam, em rebuçados, cremes, xaropes, bolos, e outros objectos.
Brincou com macacos, fugiu de leões, chitas, leopardos, e panteras, correu com lebres, andou montada no cavalo Universo, e depois passeou de caracol que a levou a ver o resto…as cascatas onde estavam fadas a tomar banho, sereias a aquecer as lindas vozes e a ensaiar para espectáculos, morcegos a dormir pendurados em troncos e em grutas, onde entrou, e viu cristais no tecto e no chão.
- Que coisas tão bonitas! Nunca tinha vindo aqui. Aquelas sereias cantam mesmo bem! E que lindas que são. Um dia destes, viu ver se elas me deixam tomar ali um banhinho! As águas são transparentes. O sítio onde vivo é mesmo maravilhoso, cheio de surpresas. Como é que eu nunca vi aquilo? Se calhar já estavam lá, acho que não iam aparecer ali, só para eu ver! Estas grutas…são um sonho…parecem salões de bailes! E a água a cair…a circular por estes caminhos…parece que fazem música! É tão bom este som! Onde será que vai dar esta água?
E continua a explorar a gruta, até chegar a um laguinho com peixes de todas as cores e tamanhos.
- Áh! Que lindo! Então vem ter aqui a água! Tantos peixes…e um de cada cor…são todos diferentes.
Um peixinho brincalhão vem à superfície com a boca cheia de água, e envia um grande chafariz para a boneca, da sua boca. Ainda não satisfeito, mergulha de propósito e com esse salto, a boneca leva um banho completo. Ela grita e o peixinho ri-se.
- E agora? Como é que eu me vou secar?
E sai da gruta muito zangada. Continua em frente, e o sol seca-lhe a roupa num instante.
- Obrigada, sol!
E pára junto a um enorme campo onde estão vacas, bois, cavalos e póneis a pastar sossegados. Por trás tem uma montanha, aquela que a boneca vê do terraço da sua casa, mas nunca lá foi.
- Aqui…é onde acaba a aldeia. Já andei tudo? Parece que andei pouco.
E começa a subir à montanha. Pelo caminho apanha amoras, framboesas e umas folhas que ela conhece bem, que dão para fazer chá. Vê plantações de milho, de cabaças, pepinos, alfaces, batatas, árvores de frutos vários, cruza-se com alguns lobos que a cumprimentam e perguntam se quer ajuda, ou se está perdida. Ela agradece e diz que não, aproveita e conversa um pouco mais com eles…que simpáticos que eles são.
De repente, o céu que estava limpo, quando a boneca saiu de casa, fica cheio de nuvens, escuras, carregadas, e o sol esconde-se. A boneca estava tão encantada com a paisagem que estava a ver do cimo da montanha, que só acordou quando sentiu um vento frio e forte acabado de se levantar. A boneca estremece, olha para o céu muito surpresa, e pergunta:
- Áh! O que aconteceu? Ainda há bocado estava sol, e agora…nuvens por todo o lado e este vento…ficaram com inveja, foi? Também vieram ver a paisagem?
As nuvens riem, e caem algumas gotas de chuva em cima da boneca. A mãe da boneca, como sabia que a filha era muito distraída, pensa em tudo, e sabia que ela ia perder-se no passeio, enviou uma borboleta especial, que foi sempre atrás dela, discreta e silenciosa, para a proteger e tudo o que ela precisasse.
- Menina…acorda! Está na hora de ir para casa. Não tarda nada, vai chover forte! – Diz a borboleta
- Áh! Quem és tu?
- Estou sempre contigo!
- És a minha sombra?
- Não! Sou tua amiga e tua protectora!
- Nunca te tinha visto antes!
- Pois não…mas ando muitas vezes contigo!
A boneca sorri, não sabe que foi a mãe que a enviou, mas gosta dela e agradece-lhe.
- Então, mas ainda não me disseste o que aconteceu ao céu…
- Vamos embora! Eu explico-te pelo caminho.
- Está bem! Realmente está frio e há muitas nuvens.
Elas descem a montanha, e cruzam-se com matilhas de lobos que voltam para as tocas apressados. Os pássaros voam baixinho e com dificuldade, correm para os ninhos, caem mais pingas.
A borboleta abre as suas asas, que pareciam pequenas, mas abertas eram enormes, e abriga a boneca.
- Áh! Tens guarda - chuva?
- Tenho!
- Já sabias que ia chover?
- Já.
- Como? Eu não sabia de nada!
- Mas não se tem falado noutra coisa…tu é que com certeza, e como sempre, andas distraída!
- Do que estás a falar?
- Não reparaste que havia mais agitação na floresta?
- Reparei…mas…o que é que isso tem a ver com as nuvens e a chuva?
E passam esquilos a correr, carregados de nozes, os coelhos e as lebres voltam para as tocas a correr, tudo procura abrigo.
- Porque estão todos a fugir? – Pergunta a boneca
- Porque está a chover. Acorda rapariga…amanhã será um dia muito especial…
- Alguém faz anos?
- Não! Quer dizer…que eu conheça não!
- Então é especial porquê?
- Porque hoje...termina o Verão, e amanhã chega o Outono! No Outono, o tempo é mais instável, por isso já se preparam para depois não andarem à chuva, nem passarem fome!
- Ááááhhh…claro! Como é que eu não me lembrei disso!
- Estás sempre distraída! É por isso que estou sempre contigo!
- Óh! Muito obrigada. Foi a minha mamã que te enviou, não foi?
- Foi!
- Realmente, se não fosses tu, eu já estava toda encharcada. Nunca pensei que fosse chover.
- Claro! Mas na estação do ano que começa amanhã, devemos pensar nisso, e estar preparados para essas alterações…de calor…para frio, e de sol para nuvens, vento…
- Pois. Não me lembrei que hoje termina o Verão. Até parece que o Outono é que já chegou.
- Sim.
A chuva carrega e ela acelera o passo. Pelo caminho conta à borboleta tudo o que viu, e chega a casa, seca! Os pais ficam descansados quando ela entra a porta.
- Mãe…Pai…manos…sabiam que está a chover? – Repara a boneca
- Claro! – Respondem todos
- Basta olhar lá para fora. – Acrescenta um irmão
- Pois. Já sabiam que ia chover? – pergunta a boneca
- Não! – Respondem todos
- Mas amanhã vai haver festa aqui na floresta! – Lembra outro irmão
- Ai…já te tinham dito? – Pergunta a boneca muito surpresa
- Já! – Confirma o irmão
- A mim não me tinham dito. – Diz a boneca
- Já tinham dito, sim! Tu é que estás sempre distraída e não ligaste! – Comenta outra mana
- É verdade! – Dizem os pais
- Hoje termina o Verão! – Lembra a boneca
- Sim! – Respondem todos
- Já sabíamos. – Lembra outro mano
- E amanhã começa o Outono! – Diz a boneca
- É! – Respondem todos
- E vai haver a festa da folha, aqui na floresta. – Lembra outra mana
- Áh! Boa! Adoro essa festa! – Diz a boneca
A chuva cai torrencial, com trovoada e vento forte. A boneca conta tudo o que viu… Se não fosse a borboleta enviada pela mãe, a boneca tinha-se perdido, ou tinha apanhado uma grande chuvada.
No dia seguinte, faz-se a grande festa da folha, na floresta, com muitos petiscos, bebidas, danças e cantares.
Acham que a boneca continuou a ser muito distraída, ou começou a estar mais atenta ao que acontecia à sua volta? E vocês? Fazem alguma festa quando chega o Outono?
O que é que vêem nos vossos caminhos? 
Já alguma vez caminharam mais devagar e nesses passeios descobriram coisas que nunca tinham visto antes? O que viram? 

FIM
Lálá
(20/Agosto/2015)




quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A fisga





Era uma vez um menino muito malandro que ocupava a maior parte do seu tempo a brincar com uma fisga que o seu Avô construiu. 
Quando o Avô a construiu não foi a intenção de que ele a usasse para fazer asneiras e maldades, mas essa parte, não era a vontade do menino.
Das primeiras vezes, meteu a sua família em gastos, porque atirava pedras com a fisga contra os vidros das casas dos vizinhos de quem ele não gostava, e os vidros ficavam estalados ou partidos.
Os vizinhos iam resmungar e os pais pagavam os estragos, mas punham o menino de castigo. 
Passado uns dias, ele punha-se com ar de anjo doce, sorridente, meigo, ajudava toda a gente, e voltavam a dar a fisga, com a promessa de que não voltaria a fazer nada de mal. Era só fachada, porque pouco depois, estava a fazer asneiras.
Da segunda vez, ia com a fisga pelo caminho, e atirava bolotas a quem passava, principalmente aos mais velhos, e ria-se. 
É claro que os mais velhos não acharam piada nenhuma, e alguns ainda lhe deram uns puxões de orelhas, mesmo depois de ele pedir desculpa.
Para que não fizessem queixa dele, ele fazia-se de bonzinho, ajudava os mais velhos em quem acertava, e inventava a desculpa esfarrapada de que estava a tentar correr os pássaros que pousavam nas plantações para as comer, mas às vezes falhava na pontaria.
Esta desculpa convencia uns, que acreditavam e até lhe agradeciam, diziam que ele estava a ser muito simpático, cuidadoso e amigo, ao proteger as plantações, mas recomendavam-lhe que treinasse melhor a pontaria, para não acertar nas pessoas.
Mas outros ficam mesmo muito zangados, e nada servia de desculpa, por mais que ele quisesse arranjá-las, e faziam queixa aos pais. 
Os pais punham-no de castigo, mas o seu ar de criança, e as desculpas que ele arranjava, acabavam por transformar os pais, em castigadores passageiros.
Ralhavam-lhe, punham-no de castigo, mas não adiantava nada, porque a seguir ele mostrava o seu lado mais inocente e doce, e os pais acabavam por acreditar que ele não fazia mesmo por mal.
Outra vez, quando saiu do castigo, lembrou-se de atirar pedras a pássaros…feriu muitos, e alguns magoaram-se mesmo a sério, ainda mais quando o menino se lembrou de convidar os pássaros a experimentar a fisga…!
Eles experimentaram-na como se fosse um baloiço, pendurando-se no elástico, e outros faziam equilibrismo. O menino aplaudia e ria-se, e os pássaros ficavam todos vaidosos!
Não pensavam que podiam magoar-se, mas um dia o menino malandro quis divertir-se à custa dos pássaros, e disse para eles se agarrarem ao elástico que iam voar.
Os pássaros já sabiam voar, mas este voo ia ser diferente! Quando os pássaros pousaram, o menino puxou o elástico e largou…os pobres pássaros chilrearam assustados, tentaram dar às asas mas não conseguiram porque iam com tanta velocidade que perderam o controlo de tudo.
Uns só pararam quando chocaram com as árvores, outros quando caíram na água, outros caíram no solo, outros no telhado, e todos se magoaram. O menino fartou-se de rir, maldoso, mas quando deixou de os ver, foi à procura.
Quando viu que todos estavam feridos, ficou muito envergonhado e arrependido. Pediu ao Avô que o ajudasse…disse-lhe a verdade…o Avô deu-lhe umas valentes sapatadas, e ralhetes, sermões…o menino ouviu calado e com as lágrimas nos olhos.
Pegaram nos pássaros, meteram-nos num carrinho de mão, e levaram-nos ao veterinário da aldeia. Todos tiveram de fazer vários curativos. 
O Avô ficou com os pássaros na sua casa, alimentou-os, deu-lhes água e carinho, e o menino ficou triste pelo que fez.
- Óh…que vergonha! Só fiz asneiras com esta fisga…como foi possível! Não sabia que isto era tão perigoso. Ai…! – Murmura o menino
Apareceu um anão com asas que assistiu a tudo e foi mandado por uma fada com poderes bondosos, e disse:
- A partir de agora não vais mexer mais nessa fisga. Eu vou levá-la.
- O quê?
- Isso mesmo.
- Quem és tu?
- Isso não interessa. Sou do bem, e vou levar a tua fisga. Não soubeste brincar com ela.
- Sim, tens razão, mas não podes levá-la assim.
- Só estou a cumprir ordens.
- Ordens? De quem?
- Dá-me a fisga e não me faças mais perguntas.
- Mas…
- Rápido. A fisga!
- Olha que ela é perigosa.
- Olha a quem vens dizer… (ri às gargalhadas) é por isso que vais ficar sem ela.
- Óhhhh…
O menino entrega a fisga e o anão desata a correr com ela. O menino vai falar com o Avô e faz queixa.
- Bem-feito. – Diz o Avô
- Ainda estás zangado comigo, Avô?
- Claro! Achaste que eu ia ficar contente, depois de tanta asneira que fizeste? Eu não te ofereci isso para seres mau.
     Uns dias depois, o Anão com asas regressa e devolve a fisga.
- Vê se agora a usas com muito juízo.
- A minha fisga! – Diz o menino com um grande sorriso
   E mal o anão vira costas, o menino foi experimentar. Para grande surpresa dele, quando puxa o elástico em sítios diferentes, quando tentou acertar em aves, flores ou pessoas, voaram gotinhas de luzes, bolinhas de água, flores perfumadas, borboletas, bolinhas de sabão, e beijinhos.
Ele experimenta atirar pedras, mas estas caem-lhe nos pés e nas costas. Ele chora e resmunga, aparece o anão com asas a rir às gargalhadas, e diz-lhe que é uma lição para o menino aprender…o menino percebeu que era a consequência de ter feito tanta asneira e tanta maldade com a fisga.
Agora só iria usar a fisga para o bem, para atirar coisas boas às pessoas e às aves, até para as casas. 
E foi isso mesmo que o menino fez…em vez de pedras e bolotas, atirava só o que a fisga mandava…a partir daí, todos começaram a gostar muito do menino, porque ele só tinha que puxar o elástico, a fisga fazia o resto, mandava tudo o que era preciso nesse momento, para a pessoa. A fisga tornou-se mágica, e com ela, o menino ajudava todos os que precisavam.
FIM
Lálá
(19/Agosto/2015)


domingo, 9 de agosto de 2015

Os golfinhos dos sete ofícios




Era uma vez uma praia de areias claras e águas quentes, serenas, transparentes. Todos os corpos celestes: o sol, a lua, e as estrelas, adoravam ver-se ao espelho desse mar, passear sem pressa nesse espaço e brincar, ver os espectáculos dos maravilhosos golfinhos. Era uma praia cheia de surpresas e espécies animais de rara beleza, como pássaros exóticos de penas de sonho…árvores fantásticas muito antigas, flores e corais.
Era pouco frequentada por humanos, e quando estes punham lá os pés, geralmente as coisas não corriam lá muito bem. Uns, que achavam conhecer bem o mar e a praia, aventuravam-se em mergulhos primários, e nem sempre as coisas corriam como o esperado. Outros humanos quando se reuniam nessa praia só tinham como objectivo reunir-se e divertir-se da maneira mais irresponsável e estúpida que conheciam: fazer asneiras, beber álcool até cair e poluir a praia com as garrafas e restos de comida.
Isto tirava os golfinhos do sério! Ficavam muito irritados e só tinham vontade de fazer os humanos engolirem todo o lixo. O pior é que quando reparavam na porcaria que estava na praia, já os responsáveis tinham ido embora.
Como os golfinhos não suportavam ver lixo na praia, eram eles que limpavam a praia…iam para a areia e com as caudas varriam, as gaivotas comiam os restos e levavam o resto do lixo nos seus bicos e patas para as lixeiras que conhecem. Nessas manhãs, as gaivotas comiam verdadeiros banquetes.
Os golfinhos também não gostavam muito quando viam mergulhadores amadores, porque já sabiam que não tinham sossego. Muitos ficavam aflitos e lá iam os golfinhos busca-los para a superfície. Em troca, depois do susto, recebiam muitos mimos, fotos e doses extra de peixe.
Além de salvarem pessoas de limparem a praia, os golfinhos também tiravam pescadores de marisco, que ficavam presos em armadilhas e empurravam barcos de pesca que não conseguiam sair dos bancos de areia.
Também protegiam os corais dos roubos, chutando com as caudas que pareciam fustigas, os atrevidos dos mergulhadores que tentavam levar uma recordação do fundo do mar. Os golfinhos estavam sempre atentos, não lhes escapava nada!
Para os mergulhadores profissionais, os golfinhos eram uns verdadeiros guias pois conheciam o mar como ninguém, e levavam-nos para os sítios mais bonitos, pelos caminhos mais seguros.
Alguns centros de terapia com crianças e com adultos, levavam-nos para esta praia e os golfinhos adoravam. Eram uma preciosa ajuda para eles. Divertiam-se muito, riam com eles, saltavam com eles, faziam espectáculos e mergulhavam com eles, e brincavam todos juntos, muito felizes.
Além dos belos espectáculos, os golfinhos adoravam aparecer, eram fonte de inspiração para pintores, escritores, escultores, fotógrafos, e músicos que aproveitavam a sua imagem para CDS de relaxamento.
Eram mesmo uns golfinhos dos sete ofícios…não tinham sossego! Mas gostavam de todos os trabalhos que faziam.

FIM
Lálá

(30/Julho/2015)