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domingo, 9 de agosto de 2015

Os gatos e as bolas











Era uma vez uma ninhada de sete gatos, o Pai Ré, a Mãe Mi, e os filhos: Dó; Fá; Sol; Lá e Si. Eram todos grandes e robustos, o pai de pelo preto e branco, a mãe com pelo branco. O Dó, e a Fá tinham pelo preto, a Sol e a Lá eram brancas, e a Si era malhada, com pelo preto e branco.
Os de pelo preto tinham olhos verdes, as brancas, olhos azuis, e a malhada, olhos amarelos. O pai gato tinha uns olhos que mudavam de cor conforme a luz, entre o amarelo e o verde, a mãe, olhos azuis.
Uma família muito bonita e feliz, que vivia nas ruínas de um castelo muito antigo, cheia de casotinhas onde dormiam, no cimo de uma montanha. Ultimamente, nessa montanha andavam a cair muitas bolas e balões que não sabiam de onde vinham. Talvez da cidade ou fugidos das mãos de meninos.
Os gatitos acharam muito misterioso e quiseram descobrir de que eram feitas aquelas bolas cheias de cor, que pareciam muito mais leves que as outras. E eram mesmo…eram bolas de sabão de todos os tamanhos, pequenas, grandes, médias e enormes.
Umas pairavam, no ar, outras deslocaram-se pelo ar muito devagar, outras bolas voaram rápido até desaparecerem, outras rebentaram no ar, e outras ficaram pousadas nas flores até rebentarem. As flores arrepiaram-se e tossiram.
Os gatinhos seguiram atentos, todos os movimentos das bolas, o Dó tentou apanhá-las e a Fá seguiu o seu exemplo. A Si ri-se e disse-lhes:
- Seus totós…ainda não perceberam que estas bolas não são para apanhar?
- Pois não! São bolas de sabão! – Acrescenta a Sol
- Áh! – Exclamam o Dó e a Fá
- Pois é! – Diz o Dó
- É por isso que são tão leves! – Diz a Fá
- E sabem a sabão! – Comenta uma flor
Todos riem
- Como é que sabes? Conseguiste comer alguma? – Pergunta a Lá
- Não comi, mas muitas rebentaram em cima de mim! – Responde a flor
Todos riem
- Algumas ainda não rebentaram. – Repara a Sol
- Mas vão rebentar e não demorarão muito. – Assegura a flor
- Que pena! Eu queria tanto voar numa bola daquelas! – Suspira a Si
- Eu também. – Concorda o Dó
E tentaram imaginar onde irão aterrar. Mas logo são distraídos por outras bolas, que também chegam a voar, eram todos redondinhos, cheios de cor e com fios. Eles não sabiam que eram balões, e não resistiram.
- Outras bolas? – Perguntam todos em coro
- Estas parecem mais pesadas! – Repara a Fá
- É! Estas não são de sabão! – Garante a Si
- De que serão feitas? – Pergunta a Sol
- E também parecem leves!
Primeiro cheiraram, não sentiram qualquer cheiro. Depois tocaram numas com as patas, e arrepiaram-se com o material…uns balões rebentaram logo, quando os gatinhos rasparam a patinha. Que grande susto! Até saltaram para trás a tremer.
Outros balões esvaziaram-se quando os gatinhos furaram sem querer, com as unhitas, estremeceram, saltaram e miaram aos gritinhos. Outros gatinhos puseram – se em cima dos balões, rebolaram e caíram porque os balões não se seguraram e acharam muito divertido.
 Outros rebentaram à primeira prova, logo que os bichos espetaram os dentinhos. Os gatinhos gritam e miam muito assustados. Depois dos balões, os gatinhos vêem na montanha outras bolas muito coloridas, umas de espuma, outras de borracha, e outras de esponja. Com desenhos, e muitas cores muito diferentes.
- Será que estas também vão rebentar? – Pergunta a Mi assustada
- Espero que não! – Respondem todos
- Como é que elas apareceram aqui? – Pergunta a Si
- Devem ter vindo da cidade! – Supõe a Fá
- Estas são diferentes! – Repara a Sol
- Parecem mais duras. – Diz o Dó
Primeiro, os pequenos exploram – nas de todas as maneiras que conhecem, com unhas e dentes, põem-se em cima delas, saltam, tentam segurar-se mas logo caem. Os outros riem, e fazem o mesmo.
- Estas são mais duras! – Repara a Sol
- Pois são! – Dizem todos
- E não rebentaram! – Diz a Si
- Ainda bem! Nem furaram! – Diz a Fá
Depois todos atiram as bolas, uns para os outros, correm atrás delas, agarram-nas com a boca, seguram-nas com as patas, e brincam divertidos. Quando dão por ela, depois de muito trambolhão, cambalhotas e muita gargalhada, os bichos jogam com os pais que não resistem à brincadeira.
À noite, a Princesa Noite, com o seu vestido bordado de estrelas, espalhou por todas as ruínas do castelo, dezenas de luzes de todas as cores que iluminaram todo o espaço que até esse dia não tinha uma única luz.
Os gatos ficaram tão felizes por terem luz que festejaram a noite toda e redescobriram todo o espaço que pensavam conhecer muito bem, mas as surpresas que viram, nunca mais acabaram.
De uma das bolas de luz sai uma bela arara, que os guia por cada recanto e divisória do castelo. Cada canto, curva, parede, porta e janela, estava recheada de lendas e histórias maravilhosas, com personagens encantadas e muita magia.
Os gatos não couberam neles de felicidade e de encanto, fizeram uma autêntica viagem no tempo e nem dormiram nessa noite. Nunca imaginaram a maravilha e os mistérios que aquele conjunto de pedras na montanha, abandonado, escondia.
Sentiram-se uns verdadeiros Reis. Viram o sol nascer nessa manhã, cantaram num doce e melódico miar para agradecer e foram descansar completamente rendidos à magia daquele lugar.
E vocês? Se fossem gatinhos e vivessem nas ruínas de um castelo, como era esse espaço? Onde ficava?
Tinha mais casas ou viviam lá animais? Quais?
Tinha flores?
E luzes? Ou era um sítio onde só havia a luz do sol e da lua?
Que surpresas acham que os gatinhos descobriram?
Em que sítios do castelo?
E se vocês fossem estes gatos, o que descobririam com a luz nas ruínas do castelo?
Escrevam ou desenhem.
FIM
Lálá

(2/Agosto/2015) 

Os caracóis no campo dos girassóis

Imagem pintada por Lara Rocha 


Era uma vez uma grande família de caracóis que tinham um lugar fixo para ficar. Gostavam de andar sempre de um lado para o outro, e acampavam onde queriam. Já tinham percorrido e frequentado vários campos e eram sempre expulsos pelos humanos porque devoravam tudo o que era folha e planta verde.
De tanto comer, alguns caracóis estavam tão gordos e tão pesados que já não cabiam nas suas próprias cascas…as suas casas. Olhavam com tristeza para as casas e queriam voltar. Suspiravam e soluçavam arrependidos na berma do lago onde rezavam aos seus Deuses:

- Óh…! Não posso acreditar.

- Nem eu! – Dizem as Deusas caracóis

- Como é que eu consegui comer tanto…até não caber na minha própria casa?

- Pois é! – Dizem as Deusas caracóis

- A gula…! – Comenta uma Deusa caracol

- Que tristeza!

- Também acho! – Dizem todas as Deusas caracóis

- Isto é muito mau.

- É! – Dizem as Deusas caracóis

- Horrível.

- É mesmo! – Dizem as Deusas caracóis

- O que é que fizemos para merecer isto?

- Nada! – Dizem as Deusas caracóis

- Só comeram demasiado! – Diz uma Deusa caracol

- E mexeram-se de menos… - Diz outra Deusa caracol

- Pelo menos não estamos sozinhos…

- Não!

- Estamos convosco! – Respondem as Deusas

- Somos muito na mesma situação.

- Alguns! – Dizem as Deusas

- Queria tanto voltar à minha casinha!

- Ai que saudades da minha casinha!

- Que injustiça!

- Será que alguma vez vou voltar à forma que tinha antes…?

- Vão! – Respondem as Deusas

- Só depende de vocês! – Acrescenta uma Deusa

- Não somos nós que vamos mudar a vossa situação. – Lembra outra Deusa

- Podemos iluminar-vos e dar-vos força para não desistirem, mas serão vocês que terão de se mexer. – Diz outra Deusa

- Eu era tão elegante, e agora quase não me consigo mexer.

- Em vez de se lamentarem…façam alguma coisa por vocês. – Recomenda outra Deusa

- Deixaram-se levar pela gula! – Lembra uma Deusa

- Foram gulosos e cobiçaram tudo o que apanharam. Comeram como se não houvesse daqui a bocado. Avisaram-vos não avisaram? – Diz outra Deusa

- Foi! – Respondem todos

- Então agora não se queixem! – Diz outra Deusa

- Isto é muito difícil para nós! – Suspira outro caracol

- Parem de choramingar e mexam-se. – Ordena outra Deusa

- Podem fazer muita coisa por vocês mesmos. – Diz outra Deusa

- Preguiçosos! – Gritam todas as Deusas

- Corram, rastejem mais depressa, dancem…- Sugere outra Deusa

- Pensem no vosso objectivo, e quando vos der preguiça lembrem-se dele e insistam!

            Os outros amigos caracóis que eram elegantes, cheios de energia e saudáveis, cabiam nas suas casas, e também comiam muito bem, ficaram com muita pena deles, quiseram ajudá-los e convidaram-nos para uma festa de dança e outras provas, num grande campo de girassóis.
            Os caracóis aceitam envergonhados e tristes. Vão todos juntos com os amigos, que os obrigam a rastejar mais depressa.

- Força!

- Dêem às pernas.

- Mexam-se!

- Venham!

            Quase se entregavam outra vez à preguiça e andaram vagarosos, mas lembraram-se do objectivo, da casa e das Deusas, e mexeram-se mais rápido. Soaram como nunca.
O campo de girassóis foi invadido por centenas de caracóis: uns com casas, outros sem casas, uns mais elegantes, outros mais pesados, uns mais preguiçosos, outros mais rápidos…havia de tudo!
            Fizeram torneios de vários desportos, competições, de corridas e mergulhos. Os caracóis mais gordinhos lembraram-se do objectivo que era voltar a caber nas casas e empenharam-se.
Divertiram-se muito, riram, beberam muita água, e participaram em tudo. Os amigos estavam sempre a puxar por eles, a incentivá-los e a elogiá-los, sempre com palavras agradáveis e a festejar com eles cada pequenino progresso que faziam…cada vitória, cada esforço e cada obstáculo vencido.
Os girassóis fizeram parte de toda a evolução dos caracóis…assistiam muito atentos a todos os jogos, vibravam, gritavam, aplaudiam, elogiavam e também puxavam por eles. Os caracóis conseguiram correr com a preguiça, e começaram a sentir-se mais renovados.
            Durante vários dias, nesse campo de girassóis, os caracóis conseguiram voltar à sua forma original e regressar às suas casas. Nunca mais deixaram de participar em torneiros, e brincar com os amigos, nas actividades e jogos.
            As deusas apoiam:

- Estão a ver? – Diz uma deusa

- Conseguiram cumprir o vosso objectivo! – Diz outra deusa 

- Muitos parabéns! – Dizem todas

- Empenharam-se, trabalharam, dedicaram-se e conseguiram! – Diz outra deusa

- Muito bem! – Dizem todas

- Muito obrigado, Deusas! – Agradecem os caracóis orgulhosos com os resultados

            E oferecem flores às Deusas como prova de agradecimento pela força. Os caracóis nunca mais saíram do campo de girassóis e viveram com eles, com grande amizade e respeito.
                                                          
FIM
                                                           Lálá
                                                  (31/Julho/2015)





Os banhos

foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma família que vivia numa enorme quinta com um tanque onde lavavam muita roupa e regavam os campos, quando o destapavam. 
Tinham vários poços, um lago e algumas fontes de água fresca.
Um dia uma grande família de gotas de água artistas de circo, que andavam sempre de um lado para o outro com as nuvens que levavam todo o material, e as nuvens onde dormiam, davam espetáculos onde queriam.
Caminhavam à procura do próximo sítio onde dar os espetáculos, e viram a enorme Quinta.
- Vamos parar aqui. É um bom sítio, tem muita água! – Sugere uma gota
- É.
- Parece ótimo.
- Estou mesmo a precisar de me refrescar!
- Eu também. Já estou a desidratar!
- Hoje o dia está um forno.
- Imagina à hora de mais calor.
- Ui! – Dizem todas
- A essa hora estaremos recolhidos de certeza!
- Será que vai estar uma noite quente?
- Espero que sim, para termos muito público.
- Pois! – Respondem todas
E descem devagar. Uma senhora da casa que está a lavar no tanque, sossegada e a cantarolar, apanha um grande susto e um banho dos pés à cabeça, porque a família das gotas aterra no tanque, e levanta a água por todo o lado!
A senhora grita e resmunga:
- Mas como é que isto aconteceu? (olha para o céu) Não está a chover! De onde caíram estas gotas?
Todas as gotas mergulham, leves, felizes e voltam à superfície. Param a olhar para a senhora.
- Mas eu estou a ficar louca? Estão umas gotas a olhar para mim? Ai valha-me…qualquer um…mas o que se passa aqui?
Elas riem e dizem em coro:
- Olá bom dia!
- Desculpe! Fomos nós que a molhamos?
- Foram. De onde caíram?
- Ali de cima! – Respondem todas
- Mas não está a chover! – Repara a senhora
- Pois não! – Respondem todas
Elas apresentam-se, explicam à senhora da casa o que fazem e pedem autorização para atuarem, convidando-a para o espetáculo da noite na sua casa. A senhora autoriza, e embora desconfiada diz que vai ver o tal espetáculo.
As gotas agradecem e a senhora murmura:
- Gotas que olham para mim, que falam comigo e até me convidam para o espetáculo…gotas…artistas?! Nunca vi tal coisa! Agora há cada uma! O que virá a seguir? O que vai acontecer ao ser humano? É tudo computadores, máquinas, porcarias. Depois de saltarem lá de cima para o tanque e darem-me banho. Eu nem vou comentar com os meus filhos e netos, nem com o meu homem porque se não riem-se na minha cara, vão achar que estou louca, até me mandam internar! Acho que até eu já me estou a sentir louca. Ai valha-nos!
A senhora entra em casa, ainda surpresa e assustada. Todos lhe perguntam como é que ela estava toda molhada, e ela contou tudo. Como ela já esperava, todos os seus familiares riram dela, disseram que ela estava louca ou a delirar com o calor, e passaram o resto do dia a gozar com ela. Ela estava a ficar verdadeiramente irritada.
As gotinhas descansaram na nuvem e depois da hora de mais calor, ensaiam no lago, e nas fontes. Quando mergulham no lago dão banho às galinhas e pintainhos, eles correm atrás delas e tentam apanhá-las, elas riem e não se deixam apanhar.
Dão banho aos passarinhos, que chilreiam nervosos. Os cães quase se desfazem a ladrar, e os gatos miam. Elas dão cambalhotas, e convidam os animais para o espetáculo da noite. Eles não gostaram nada do banho, mas ficaram muito curiosos. Que grande agitação!
Todas as gotas se preparam, vestidas com roupas cheias de brilho e muita cor, cabeleiras de palhaços, e musica. Verificam o som, afinam os instrumentos musicais, e as vozes, e a senhora lá estava na plateia ainda a achar tudo muito estranho e misterioso.
Além da senhora estavam as galinhas, os pintainhos, os cães, os gatos, as cigarras, os grilos, os sapos, as rãs, os patos, os pirilampos, e pássaros, as borboletas, os mochos, as corujas, as águias e os morcegos.
O início do espetáculo é anunciado. Há um nervoso miudinho no ar entre os artistas, e a plateia que estava na expectativa, sem saber o que ia aparecer. E entram em palco as artistas gotas. Cada uma tem o seu papel, começam por cantar em coro, depois individualmente, dançam, tocam instrumentos musicais, num belo concerto misturado com muita brincadeira e gargalhada. 
O público ri muito, aplaude constantemente, responde, provoca, brinca, e deixa-se contagiar pela magia de todo o espetáculo, cheio de luz à volta de tudo o que tem água. É lindo ver!
Depois dessa noite, as gotinhas fizeram muitos mais espetáculos nesse local para todos os habitantes, mesmo aqueles que não acreditavam na senhora que os convidou. Todos ficaram maravilhados com os artistas tão diferentes dos que conheciam… de carne e osso…mas que provocavam tanto ou mais encanto que os outros humanos.
As plateias estavam sempre cheias e recebiam sempre muitas palmas. Afinal, os banhos tinham uma boa causa.
Conseguem imaginar um espetáculo com artistas feitos de gotas de água? Como seria? Que números de circo é que acham que elas fariam para vocês?

FIM
Lara Rocha 
(26/Julho/2015)

O SR. CONE



Era uma vez um senhor muito forte e largo, barrigudo, e mais estreito para baixo. Chamava-se Diogo, mas pelo formato do seu corpo, todos lhe chamavam de SR. CONE. Não era nada simpático, pelo contrário, estava sempre trombudo, não se ria, não brincava e quando falava com alguém era para resmungar ou ralhar. A sua voz grossa, e zangada parecia um trombone, ou uma trovoada.
Toda a gente que queria alguma coisa dele, mesmo só para ver se ele ficava mais simpático, sabia onde morava o SR.CONE TROMBONE. Achava-se o dono de tudo à sua volta corria e chutava toda a gente que se aproximava da sua casa e protestava por tudo!
Um dia, umas fadas voaram à volta da sua casa, e quando ele se apercebeu, chutou-as como quem sacode moscas ou melgas. Elas ficaram ofendidas, e zangadas. Os amigos das fadas não gostaram nada desse tratamento e quiseram castiga-lo. As fadas agradeceram a preocupação, mas elas não querem guerra nem violência, por isso não deixaram que fizessem mal ao SR.
Preferiram resolver as coisas a bem. Primeiro, tentaram falar com ele, e saber porque é que ele as tinha tratado daquela maneira. Ele não sabia! Perguntaram-lhe se alguma vez elas lhe tinham feito mal, e ele respondeu que não, mas gritou-lhes que naquele dia elas estavam a invadir o seu espaço.
Elas disseram-lhe que o espaço não era dele…a casa dele poderia ser só sua, se ele quisesse, mas à sua volta, todos tinham o direito de passar, aquele terreno era público, e o espaço que as fadas sobrevoavam também não era dele!
Muitos animais passeavam e voavam lá por cima, por isso ele não tinha nada que as proibir ou chutar. Além disso, elas não estavam a mexer com ele, nem com ninguém. As fadas tentaram várias maneiras de falar com o SR. CONE TROMBONE, para tentar perceber porque é que ele era assim, e ajudá-lo se pudessem, a melhorar o seu mau humor.
Ele era tão irritante que só respondia grosso, gritava, era meio bruto, as fadas até ficaram mal-dispostas. Tentaram com os seus amigos palhacinhos, mas ele nunca se riu, resmungou, e chutou-os, tal como fez com as fadas.
Depois de gastarem todas as tentativas de conversar, e resolver as coisas a bem, sem tanta resmunguice, o SR. CONE TROMBONE era teimoso e não mudava. Parecia que estaca cada vez mais insuportável.
Decidiram então aplicar o segundo plano: juntaram-se muitas fadas, com as asas de cores mais suaves: tons de verde, azuis, amarelas, brancas, roxas, rosas, sobrevoaram a casa do SR. CONE TROMBONE e salpicaram-na com as cores, sacudindo as asas. A casa que era branca às pintas pretas transformou-se em branca com pintas e salpicos de cores claras.
Depois, o SR. CONE TROMBONE dormia com a janela meia aberta por causa do calor. As fadas entram pela janela e enchem o SR. CONE TROMBONE de raios com essas cores, e ele nem se apercebe. Dão-lhe um banho de cores, e afinam o trombone para um tom de voz mais suave a agradável.
Na manhã seguinte, as fadas já não estão lá, o SR. CONE acorda muito feliz, com um sorriso de orelha a orelha, muito menos barrigudo, a cantar e a saltar. Toma o pequeno-almoço, e sai a porta. Olha para as paredes com a sua nova decoração e solta uma grande exclamação:
- Áh! Mas que linda que está a minha casa…o que aconteceu às bolas pretas?! Quem fez isto? Quando? Não me apercebi de nada! Bom, mas vou ter de descobrir para agradecer! Está fantástica! E este sol maravilhoso…Áááááááhhhh… Bom dia! Bom dia! Bom dia! – Grita feliz com um sorriso leve e aberto.
            Passa pelas senhoras, dá-lhes a mão sorridente e beija-as delicadamente.
- Bom dia! – Diz ele
            Elas primeiro assustam-se e depois riem muito surpresas. Retribuem e seguem caminho, pensativas. O que teria provocado aquela mudança tão grande? E a voz tão diferente...! Aos cavalheiros dava-lhes um aperto de mão, e dizia «Bom dia!». Eles retribuem e comentam uns com os outros:
- Perdeu o Trombone?
- Parece que sim.
- O que aconteceu com ele?
- Está muito diferente.
            Todos comentavam a mudança do SR. CONE TROMBONE, muito surpresos. Quando se aproximaram do terreno, e quando todos contavam que o homem os expulsasse ou ligasse o seu TROMBONE para gritar, o SR CONE disse para estarem à vontade, e até convidou para entrar na sua casa, serviu café e chá e água, e ajudou os seus vizinhos quando os via carregados, ou nos trabalhos de campo.
O SR. CONE perdeu mesmo o TROMBONE, e tornou-se amigo de todos. Uns dias depois, enquanto passeavam pela zona, à noite, viram as fadas a festejar alegremente no terreno do SR. CONE, e foi então que perceberam que foram elas as responsáveis pela grande mudança do SR. CONE. Todos agradeceram!
Fim
Lálá

(28/Julho/2015)

O construtor de casas na praia


Foto de Lara Rocha 



Era uma vez um caranguejo que vivia numa rocha do mar muito perto da superfície. Era muito inteligente, trabalhador, despachado e tinha muitas ideias. A mais recente foi construir casas na praia, depois de vários seres marinhos terem conversado com ele e pedido para o realizar.
Quando viram os seus desenhos de um bairro de casas na praia, cada qual a mais bonita, primeiro o caranguejo ficou pensativo! Por um lado queria, por outro lado não sabia muito bem como fazer o que tinha imaginado num bloco de folhas de desenho, e que todos apreciaram. Além disso, pensou em tudo, sozinho talvez não conseguisse…porque eram muitas casas e demoraria.
- Isto é tudo muito bonito, muito agradável de ver, mas como vou construir tanta casa em tão pouco tempo? (pensa o caranguejo e volta a olhar para os desenhos) Não gosto nada de desistir, e é um projecto muito interessante mas acho que este vou deixá-lo no papel...talvez...quem sabe um dia mais tarde! Sozinho...por muita vontade que tenha, não consigo.
Um outro caranguejo vai a casa dele, e os dois conversam:
- Olá amigo!
- Olá! Estás em casa hoje?
- Estou.
- Estou a incomodar-te?
- Não! De maneira nenhuma. Estava aqui a ver este projecto que sonhei...muitos vizinhos nossos gostaram tanto que me desafiaram a pô-lo em prática! Eu até gostava...mas acho que não vou poder cumpri-lo!
- Posso vê-lo?
- Sim, claro!
O caranguejo olha para o projecto do amigo e solta uma grande exclamação:
- Áh! Mas que lindo! Amigo, achas que deves levá-lo para a frente...não desistas! Não o deixes no papel! Porque achas que não vais conseguir cumpri-lo?
- Porque...sozinho não consigo construir tanta casa, e não sei se tenho material.
- Porque é que estás sozinho?
- Acho que sim...
- Não! Tens muitos amigos que te ajudarão de certeza! Só tens de falar com eles.
- Achas?
- Tenho a certeza! Comigo já podes contar.
- Mesmo assim, achas que conseguimos?
- Claro que conseguimos. Anda, vamos falar com os nossos amigos. Mostramos-lhes isto! Se mais nenhum aceitar, já somos dois, e também não te esqueças que só se pode construir uma casa de cada vez, certo?
- Certo! Obrigado amigo.
Os dois levam o projecto e vão de porta em porta dos caranguejos. Todos gostam do projecto e todos dizem logo que sim! O caranguejo não pode estar mais feliz.Nessa mesma tarde, reúnem-se centenas de caranguejos para escolherem os materiais.
Cada caranguejo carrega pedras grandes e pequenas que estão na areia, nas suas tenazes, depois outros que são construtores, arquitectos e químicos, fazem cimento e cola com areia e outros produtos, para segurarem as pedras.
Parecem umas máquinas de carregar pedras, dão centenas de caminhadas, e juntam-nas. À medida que vão tendo pedras começam a construir as bases das casinhas, colam as pedras, umas por cima das outras, ao lado e com as formas do projecto, redondas, janelas, porta, telhado e trabalham em grupo.
Todos se ajudam uns aos outros, como nas fábricas, num instante as casas do projecto vão ganhando forma com todos os materiais que a praia oferece.Em poucos dias e porque todos trabalharam em conjunto, o bairro começa a construir-se e as casas lindas como no projecto. Dá gosto vê-los a trabalhar.
Pouco tempo depois estava tudo pronto. Até construíram um muro à volta das casas para ficarem mais protegidos.Estava um autêntico bairro de casas fantásticas e lindas só não estavam mobiladas porque isso dependia dos gostos de cada um que fosse viver para essas casas.
O caranguejo que fez o projecto do bairro está muito orgulhoso, vaidoso e feliz. Fazem uma grande festa de inauguração:
- Muito obrigado a todos vocês queridos amigos! Grande prova de amizade que vencemos! Sem vocês, este projecto nunca seria concretizado, ficaria sempre no papel! Está maravilhoso! Parabéns a todos.
- Nunca te abandonaríamos.
- A amizade é para isto e para muito mais!
- Juntos, conseguimos.
- É verdade! Muito obrigado por terem acreditado desde o início e pelo empenho e dedicação!
Todos festejam e num instante, muitas das casas são habitadas. Nessa festa incluíram um momento de agradecimento ao mar, à praia, e a tudo o que ela lhes deu...todos os materiais naturais que permitiram construir o bairro.
Há muitas coisas que não podemos fazer sozinhos, mas juntos, cada um dando um bocadinho de si, da sua luz, da sua bondade e dedicação, os projectos podem nascer e crescer!
E vocês? Já deram a vossa ajuda, um bocadinho de vocês, como o tempo, um carinho, um sorriso, um abraço, ou alguma compra para concretizar algum projecto? Qual? Como se sentiram?

FIM
Lálá

(3/Agosto/2015)

ESTRANHA FLOR















            Era uma vez uma varanda cheia de flores, de todas as espécies, cheias de cor onde não vivia ninguém, a casa não estava mobilada, nem tinha luz. Ninguém sabia como é que aquelas flores estavam naquela varanda, numa casa de ninguém…se ninguém cuidava delas não as regava, como estavam na varanda tão bonitas?
Os vizinhos achavam aquilo muito estranho. Durante o dia só viam flores, de todas as espécies e cores, mas havia entre elas, uma flor muito diferente…a que destacava pelo seu tamanho, cor e altura de pé.
Era enorme, as suas pétalas de cores vivas, macias, de dia…umas vezes viam-nas abertas, outras vezes viam-nas fechadas. Quando abriam as pétalas da flor cobriam todas as outras, que se protegiam do calor e da chuva, do vento, como se fosse um guarda – sol, e um guarda-chuva.
Como é que ela abria e fechava sem mãos? Será que ela sentia as diferenças de temperatura e de cor? Pensavam que já tinham visto todos os mistérios dessa flor, mas estavam muito enganados…numa noite de Verão quente e estrelada, os vizinhos reuniram-se no largo do bairro e olharam para o jardim…silencioso, mas um novo enigma surge diante dos olhos deles…a flor gigante estava aberta e iluminada.
Lá dentro, uma sombra de uma mulher magra, de puxo no cabelo, a andar de um lado para o outro, a transportar coisas e a falar sozinha. Todos ficam gelados:
- Uma senhora a dormir numa flor?
- Ai, que até fico toda arrepiada.
Aproximam-se mais da flor, e afinal…a sombra não vivia na flor, mas dentro da casa, num quarto num sofá cama e coberta com dois sacos-camas. Era uma velhinha fugida da guerra, de muito longe, que só agora tinha conseguido arranjar um trabalho para juntar dinheiro.
Aquela casinha foi o único lugar que encontrou para ficar protegida e onde não pagava. Algumas pessoas na cidade davam-lhe de comer, e roupas, deixavam-na fazer a sua higiene e faziam-lhe companhia, deixavam-na cuidar de animais domésticos e abandonados que andavam pela cidade. De noite ela ficava ali.
Adorava flores, e plantou sementes que lhe ofereceram, e afinal a flor diferente? Não era uma flor verdadeira como as outras…era um guarda-sol, e guarda-chuva, e candeeiro que tinha sido oferecido à senhora de um colégio que a acolheu temporariamente.
A senhora apareceu na janela, todos estremecem, e quase congelam de medo. Disse:
- Boa noite! Posso juntar-me a vocês? Estou sem sono.
            Todos respiram de alívio, sorriem:
- Claro! Boa noite!
- Bem-vinda!
- Junte-se a nós.
- Nunca a tínhamos visto por aqui!
            Ela senta-se no meio do chão, no seu colchão, apesar da sua idade, ela ainda estava cheia de vida e energia. É muito simpática e bondosa; a sua luz interior sai de si por todo o corpo.
Encantou todos, e contou a sua história. Todos ficaram comovidos, e enternecidos com a senhora e com a sua história. Depois de tantas emoções, os vizinhos ajudam-na com o que podem para lhe proporcionar todo o conforto que ela merecia. Não lhe faltaram com nada. A pequena casa num instante, transformou-se numa casa completa.
A senhora ganhou uma segunda família, que a encheu de mimos, e dedicação, faziam-lhe muita companhia, e fica feliz, cheia de saúde. Na verdade…ainda bem que viram a flor misteriosa, que afinal, era uma falsa flor, candeeiro, guarda-sol e guarda-chuva e protegia um ser humano muito especial, com uma história de vida triste.
Mas ela voltou a ser feliz. E uns tempos mais tarde, os vizinhos encontraram a família da senhora que também tinha fugido, e ficaram na casa da senhora. Aquela casa enche-se de luz…a luz da flor, a luz da senhora e a luz dos bons e belos sentimentos, como a amizade, a dedicação, o carinho, a troca, e a bondade.
Mistério desfeito!
Fim
Lálá

26/Julho/2015

A Avó Luz e a sua vassoura


Era uma vez uma senhora com alguma idade, mas fisicamente e na maneira de ser no dia-a-dia era muito jovem, activa, cheia de energia, bem-disposta, brincalhona e risonha. Só parava para dormir e não o fazia durante muitas horas.
Durante o dia, a senhora tinha muitas actividades. Logo de manhã, depois de acordar e tomar um bom pequeno-almoço, alimentava a bicharada: cães, gatos, galinhas patos, porcos, vacas, ovelhas, burros, cavalos e alguns pássaros.
Cuidava do jardim, das suas lindas flores e plantações, conversa alegremente com elas, rega-as, arranca ervas daninhas, logo que começavam a aparecer. Depois, pega na vassoura e varre toda a casa. Ela detesta pó, e fica muito irritada quando sente que juntamente com o pó, já de si irritante, vinham energias negativas.
Mas não é só a porta da sua casa que a Senhora varre, e o seu trabalho não é só na sua casa. No fim do almoço, ela vai de porta em porta, corre todas as casas da aldeia, com a inseparávelamiga vassoura, e varre as soleiras das portas, as entradas e algumas divisórias onde ela sentia que havia concentração de muito pó e de muita energia negativa, pesada, o que deixa as pessoas mal-dispostas, tristes, irritadas e doentes. Ela varria tudo o que podia e que achava que precisava.
Tudo o que ela varria fica bem limpo e os habitantes das casas sentiam-se logo muito bem, cheios de alegria, mais saudáveis. A vassoura era mágica! Varria o pó e as energias pesadas, e enchia o espaço de brilho, sol, luz, cheiros a flores frescas, e pós de boa saúde. Transformava as energias carregadas, em energias leves, e todo o ambiente se transformava.
Enquanto ela varre, as duas cantam, assobiam, riem, dançam, e brincam, e a senhora sopra as nuvens de energias pesadas. Esta alegria das duas amigas é contagiante e curativa. Todos seguem o seu exemplo, e dão em troca pagamento em dinheiro e muito carinho. A senhora e a vassoura são quase como deusas na aldeia e muito respeitada! Tratavam-na como uma Avozinha e isso deixa-as muito felizes.

FIM
Lálá

(8/Agosto/2015)